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11.3.17

Postais (Postcards) - Death In June














DN - Série: Discos Pe(r)didos (7)


DN - Diário de Notícias

16 de Março de 2002

Discos pe(r)didos



Porto, 1967. Numa cidade onde se fala de novas músicas e surgem pequenas novas bandas, uma destaca-se pelo apuro técnico dos seus elementos. O Pop Five Music Incorporated entra em cena com uma primeira formação na qual encontramos David Ferreira (teclas, viola, vozes... e não confundir com o actual «patrão» da EMI-VC, apesar do mesmo nome) Luís Vareta (baixo e vozes), Tozé Brito (baixo, viola e vozes, na altura conhecido como António Brito, hoje o «patrão» da Universal), Paulo Godinho (o irmão de Sérgio Godinho, nas teclas, viola e vozes principais) e Álvaro Azevedo (bateria e vozes).
Com uma sonoridade dominada pelos Hammond (tecnologia de ponta na música para teclas), os Pop Five depressa ganharam notoriedade conseguindo garantir a estreia discográfica em 1969, pela Arnaldo Trindade.
A abrir o disco, um convite à atenção para o espectáculo que vai começar, ao que se seguem as pancadas de Molière e... uma versão de «Jesus, Alegria dos Homens» de Bach! Era a mais evidente ousadia de um álbum que conseguia assim assimilar sementes de uma rebeldia característica das linguagens pop/rock que escapara até então a muitos dos grupos portugueses de 60, grande parte deles alinhados na facção limpinha, lavadinha e penteadinha, ao som de versões certinhas de canções e estéticas em voga em Londres e na Paris do yé-yé. A versão angariou os discursos de suspeita dos puristas da clássica, num momento em que o sonho de frestas de ruptura era natural em qualquer proposta pop/rock com os mínimos olímpicos de consciência estética.
O Pop Five Music Incorporated regista no disco uma série de outras versões, acabando, na verdade, por residir na leitura «livre» da peça de Bach o seu mais notável feito. As restantes versões apresentadas no disco mostram, mesmo assim, operações de transformação personalizada e tecnicamente apurada de canções como «Blackbird» dos Beatles, «To Love Somebody» dos Bee Gees, «Proud Mary» dos Creedence Clearwater Revival, «Fire» de Jimi Hendrix ou «Sour Milk Team» de George Harrison... Todas elas são ordenadas de forma a constituir uma peça virtual em tr~es actos («Soft», «Crescendo» e «Clímax»), com prelúdio e final («Hysterical»).
A sublinhar as qualidades interpretativas e instrumentais reveladas na gravação, o disco representa ainda um marco de invulgar consciência técnica para o Portugal de finais de 69, já que não só é gravado em som estereofónico como apresenta, creditado, o trabalho de um produtor (Fernando Matos), facto não frequente na época.
Prensado em Inglaterra, o disco mostra uma qualidade sonora de igualmente apurado requinte... Apurado é, entretanto, o valor que o disco atingiu nos circuitos do coleccionismo de vinil, podendo uma cópia usada (em boas condições), valer algo na casa dos 100 Euros.
Um ano depois da edição do álbum, a formação do Pop Five sofre modificações com as saídas de David Ferreira e Tozé Brito e entrada de Miguel Graça Moura, então com 22 anos, que terminara o curso de piano do conservatório. Segue-se uma inevitável alteração nas características do som e repertório. De lado ficam as adaptações de clássicos às linguagens rock e na berlinda é focada uma aposta na criação. Editam, em primeiro lugar, o single «Menina», ao qual sucede o genial «Page One» (tema do genérico do programa «Página Um» da Rádio Renascença), o ainda mais bem sucedido «Orange» e alguns outros 45 rotações. O grupo separa-se em 1972 sem registar um segundo álbum. Não está na altura de pensar uma antologia?
N.G.

«Pop Five Music Incorporated», LP, Orfeu, 1969
Lado A. «Overture», «Jesus, Alegria dos Homens», «Blackbird», «To Love Somebody», «Proud Mary», «Medicated Goo», «Mess Around»; Lado B. «Hush», «C’Mon Down To My Boat», «Fire», «Sour Milk Sea», «Can I Get A Witness». Produção: Fernando de Matos.











10.3.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (6)


DN - Diário de Notícias

16 de Fevereiro de 2002

Discos pe(r)didos



Nascida de uma amizade entre Miguel Esteves Cardoso e Pedro Ayres de Magalhães, a Fundação Atlântica apresentou-se, em 1983, como o primeiro exemplo de editora independente portuguesa capaz de traduzir o conceito das novas «indies» que haviam brotado da Inglaterra de meados de 70. A Fundação Atlântica recebeu, desde logo, o apoio incondicional de Francisco Vasconcelos, da Valentim de Carvalho, que assegurou assim o fabrico e distribuição dos discos. À equipa juntar-se-iam, logo depois, Ricardo Camacho, Francisco Sande e Castro, Pedro Bidarra e Isabel Castanho (Inha para os amigos), em casa de quem a editora conheceu morada oficial durante algum tempo.
Apresentada com um manifesto que fez história, a Fundação Atlântica deixou desde logo claro que ia aliar a edição de novos valores da música moderna portuguesa à representação local de discos de peso nos cenários alternativos de então. Pela Fundação Atlântica editaram os Xutos & Pontapés (single «Remar Remar»), estrearam-se os Delfins, a Sétima Legião, Anamar, Luís Madureira, as Clube Naval (êxito no Verão de 84 com «Professor Xavier»)... Os Duruti Column lançaram, através da Fundação, «Amigos em Portugal». E o lote de referências não ficaria nunca completo sem uma referência aos discos a solo de elementos dos Heróis do Mar, mais concretamente o single (também com edição em máxi-single) «Rapazes de Lisboa», de Paulo Pedro Gonçalves, e o máxi «Ocidente Infernal», de Pedro Ayres Magalhães.
Este disco, que assinalou, até hoje, a única aventura a solo do ideólogo dos Faíscas, Corpo Diplomático, Heróis do Mar e Madredeus, era apresentado, em 1985, como o primeiro de uma série de máxis instrumentais que o músico pretendia editar mas que, por razões que o destino traçou, acabaram por não acontecer nunca, ficando o projecto com uma ideia de continuidade por concretizar (quem sabe um dia? Não seria má ideia...).
O disco apresenta duas faixas instrumentais onde as ideias de paisagismo ambiental são vitaminadas por um conceito que o próprio Pedro Ayres Magalhães explica em texto publicado na contra-capa do máxi-single. «Janeiro de um ano qualquer. As espirais do fumo negro, avançam da margem sul para noroeste, quentes ainda do incêndio lento, que foi pouco a pouco consumindo as válvulas últimas, soltando a grande pressão. Das águas já tépidas do Tejo liberta-se um cheiro pegajoso misturado com o pó, acrescentado ao pavor. Os homens gastaram a terra, como quem quer devorar. O tempo cumpriu mesmo assim. Exposição dos quadros sonoros de Lisboa no último quartel do séc. XX, o ranger dos ferrolhos nas portas da Europa. Aquelas colunas...», escrevia sobre «Ocidente Infernal», tema título dominado por uma pulsação forte para guitarras, que rasgam uma melodia entre a contenção e o grito. No lado B, «Adeus Torre de Belém», sublinha novo retrato lisboeta, desta feita sob um conceito em duas partes, uma primeira feita de sons reais, captados na cidade (mais concretamente no Barreiro, em Dezembro de 84), uma segunda, de perfil quase minimalista pop, «sob os destroços duma metrópole afundada».
É possível encontrar aqui laços da finidade para com algumas intenções retratistas em pontuais aventuras dos Heróis do Mar mas, acima de tudo, e particularmente na atitude expressa no conceito e textos de apresentação, manifestam-se claramente já intenções, caminhos poéticos e ideários que tomariam forma, pouco depois, nos Madredeus. As fotos eram de Pedro Ayres e Miguel Esteves Cardoso; o design, de Jorge Colombo.
O «Ocidente Infernal», mesmo longe de representar o melhor de Pedro Ayres Magalhães, é uma peça de inegável valor histórico e, como muitos outros momentos registados pela Fundação Atlântica, justifica que a ideia de uma reedição em CD do acervo da editora, que já tarda.
Nuno Galopim

PEDRO AYRES MAGALHÃES «O Ocidente Infernal» Máxi-single, Fundação Atlântica / EMI, 1985 Lado A: «O Ocidente Infernal»; Lado B: «Adeus Torre de Belém» Produção: Pedro Ayres de Magalhães.







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