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19.7.19

Pérolas e Preciosidades Portuguesas - José Valor - "Fonóplia"


José Valor
José Manuel da Cruz Cardoso
Músico português de Viseu que fez parte das bandas dos anos 80:
Bastardos do Cardeal, Centro De Pesquisas Ruido Branco, Lucretia Divina, Major Alvega
(b. 06.01.1964 / d. 05.12.2004 - R.I.P.)

Editou a solo duas cassetes, pela editora Laboratório:
Fonóplia e Fonóplia 2 (ambas em 1990)

Fica aqui a Fonóplia








15.7.19

Pérolas e Preciosidades - Ocaso Épico (cont.)



Artigo que saiu no jornal LP
páginas 22 e 23
Nº ?
Data ?


Jornal LP
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Página 22 e 23 

OCASO ÉPICO

Esta é uma realidade completamente ficcionada e os nomes de pessoas não foram alterados, contendo uma visão puramente emocional e especulativa, sobre o assunto.
Trata-se duma cassete, contendo material sonoro, capaz de vos surpreender, tal como me sucedeu a mim.
É do amanhã que a coisa trata.
Preso por ter cão e preso por não o ter, o projecto musical de Carlos Farinha tem sido, em meu entender, tomado como uma abordagem leviana das mais actualizadas correntes musicais de vanguarda.
Um olhar ao passado, aponta para uma personalização constante do percurso musical do colectivo Ocaso Épico.
A escola musical da corrente de que Farinha Master, outro dos alter-egos por que é conhecido o músico, pode reconhecer-se como a música saloia de vanguarda.
De Farinha e de todas as suas propostas já não há que esperar surpresas. Quer dizer, não havia até esta cassete me ter vindo parar às mãos. Deixo para discussões posteriores, vínculo especulativo desta afirmação.
A surpresa foi gerada nos quase sessenta minutos de aventura auditiva, impregnados de calor, sangue e nervos, enfim, como uma viagem que se inicia relutante e se acaba a voltar a fita para trás num incandescente desejo de ouvir de novo. Façam de conta que estão a sintonizar uma qualquer estação radiofónica marroquina – aqui, rádio macau – e predisponham-se então a viajar comigo.

O DESCONCERTANTE “MUITO OBRIGADO” DEU EM “DESPERDÍCIOS”

O chefe do estabelecimento prisional de Lisboa saúda-vos!
Depois, enquanto a fita passa, o chefe discursa. Marcial.
Ao longe, um réptil ácido geme. Alto.
Sejam bem-vindos. Outro gemido.
Palo alto-falante, percebe-se que a vida treme, algures filtrada em ruídos tecnológicos. Sintetizadores. Acordes repetidos com uma sabedoria e corrosiva ironia.
No entanto, bate um coração. Com pressa.
Primeira surpresa – a electrónica finalmente torna-se visceral. Ao estímulo sonoro, corresponde imediatamente uma resposta sensorial não intelectualizada. Ao coração acontece bater. Apressado.
Intervenção do locutor de serviço para anúncio das horas e respectivo discurso balofo… the more you live, the more you love. Pois. E quanto mais amas, mais aprendes.
Intervenção do convidado, aparecendo de surdina pelo canal esquerdo… e por isso voltas sempre. Masoquista.
Farinha tem sempre voltado. Sempre insistido. Mesmo depois de conhecer como irmãs, as ruas da amargura do isolamento, da ignorância e do desprezo.
“Muito Obrigado” foi a experiência que traçou o início da música saloia de vanguarda. Não entendam como leviano ou menos sério, este conceito. A designação tem sido ostentada pelo próprio líder dos Ocaso Épico. E é de facto, uma escola.
“Desperdícios” será, se chegar a ver edição, a sequência lógica e certeira do colectivo que o ano passado se estreou em disco grande. Todas as propostas esboçadas em “Muito Obrigado”, espraiam-se em flagrantes desperdícios, mais sérios, é claro e mais musicais.
Tão grave a surpresa que tive, que durante algum tempo, pus de parte “Disintegration”, dos The Cure.
“Desperdícios, a música tem delirantes momentos de arrebatamento. Mas acaba por ser isso mesmo, um desperdício: quem irá comprar os seus discos? Talvez as mesmíssimas pessoas que adquiriram o primeiro disco daquele colectivo.
Final da faixa. Entra de novo o locutor – no ar – cursor em baixo.
O homem está farto de levar lambadas…
Grita. Mas não é o grito habitual. O homem grita um lamento. Tapa o nariz com dois dedos e bate com a mão em gume na garganta. Qual é o mesmo exacto da formulação do primeiro vocábulo – surgiu do grito, da dor – qual a passagem do ligeiro distender dos músculos até à gestualização da primeira gargalhada. Nada é explicado nesta teia de sonorizações repetidas mimeticamente. Que magia poderá ter uma flauta ilustrando um lamento. Melodias paralelas. Inexistência quase total de harmonias.
Ocaso Épico, um caso brilhante de aprendizagem.

FARINHA MASTER LEVA-NOS À CERTA

Já ninguém (quer dizer, eu) já não acreditava que a música deste colectivo, por vezes meras experiências esboçadas em intenções-performance, pudessem constituir surpresa, só por si.
Em “Desperdícios” a música desliga-se finalmente da performance, da relação directa como o espectador e torna-se brilhante. Brilhante na maneira como torna acessível a linguagem musical, normalmente hermética, do projecto liderado por Farinha Master.
Brilhante na facilidade de colagem de elementos ideológicos, apenas pela pesquisa de sons humanos, algumas vezes traduzidos em linguagem memorizada por máquinas.
Brilhante, porque tudo isso se torna lógico.
Tudo cola. As peças condizem umas com as outras. Pelas razões contrárias, creio que David Bowie falhou a sua mais recente experiência, Tin Machine.
Ocaso Épico – pensava já num caso arrumado. Ouvia com a curiosidade do exótico. Ia ver com a sensação do pitoresco. “Desperdícios” deu-me uma lambada. Bem feito.
Carlos Farinha vive de dependências. Formalizadas no conjunto das personagens-músicos que o acompanham.
Se antes, (e “Muito Obrigado” é disso um bom exemplo), a música dos Ocaso Épico era funcional e actuante sobretudo no contacto directo com o espectador, neste caso de “Desperdícios” faz-se notar finalmente o colectivo, indirecto.
Pode ser que tudo saia da cabecinha do veterano aglutinador master Farinha, mas o discurso musical das diversas personalidades está lá. Distinto. Cada personalidade, cada músico, dispõe duma atitude emocional, duma intrincada rede de estímulos precisos que dão identidade e ao mesmo tempo unidade ao colectivo. O somatório das atitudes conjuntas fornece finalmente um resultado, uma obra singular pelo emaranhado de estados de espírito, a necessitar de resposta imediata. Situação que até aqui só tinha sentido durante os concertos – as “bocas”, a provocação directa era outra das dependências de que este colectivo necessitava para mexer a máquina. “Desperdícios” distanciava-se.
A música cria, só por si, referências miméticas. Farinha gostava (gosta) de ser provocado. O colectivo provoca. Farinha não é agressivo. O colectivo é. Em “Desperdícios”, finalmente o público, (eu, ouvinte) fui provocado. Significante e significado encontram finalmente expressão na música dos Ocaso Épico. O diálogo existe. O espectáculo é, passa a ser a situação “ao vivo”, sozinho, em casa…
Final de emissão. Aqui rádio macau, directamente de Agadir. Boa noite…

TEMPORIZAÇÕES COM…

Nesta nova fase da vida dos Ocaso Épico (fase editorial), continuam a frequentar-se as escolas minimais-repetitivas, da música serial, das diferentes abordagens de música contemporânea, aliadas a um personalizado dramatismo lusófono (sobretudo patente no discurso ideológico de Carlos Farinha), ou como lhe queiram chamar, mas o que de mais importante se respira é a fundamentação duma antiga brincadeira do líder Farinha – a música saloia de vanguarda que eu definiria, com alguma leviandade, como a síntese entre as escolas citadas e um certo tom brejeiro, muito querido do mentor deste projecto.
Querido Farinha. Quem te viu e quem te vê. Já ninguém dava nada por ti e vê só o que fizeste.
Dei três passos à caranguejo e meia dúzia de cangaru, com coice de burro, a colmatar.
Isto é a mais surpreendente ponte sobre o Guadiana que podiam ter inventado.
“Desperdícios” faz renascer a esperança numa verdadeira música moderna portuguesa, para lá dos rebanhos intelectuais, dedicando-se a ser simplesmente diferente.
É nessa diferença que o colectivo Ocaso Épico se assume como único no nosso país. Mesmo que essa diferença torne infinitamente pequena, a distância entre outros projectos análogos.
“Desperdícios” é um trabalho incomum.
Mesmo muito incomum.

João Pedro Costa









Discussão sobre este concerto neste post do facebook:
https://www.facebook.com/groups/79267872910/permalink/10157106128627911/
atenção: é necessa´rio aderir ao grupo Ocaso Épico para ter acesso ao conteúdo da discussão




10.7.19

Memorabilia: Audion #46 (feat.) Karlheinz Stockhausen


Revista / Fanzine
Audion
Nº 46
Verão de 2002
44 páginas A4 (A3 dobrado e agrafado ao meio) - brochado
Muito boa apresentação
Capa e Contracapa a 2 cores Creme / Preto
Interior a Preto e Branco




Índice



Chris Conway assiste...

3 Concertos de Stockhausen

Karlheinz Stockhausen Electronic Festival
no Barbican Centre, Londres
13 a 18 de Outubro de 2001

Decidi tratar-me bem e assistir a um fim de semana completo de Karlheinz Stockhausen. Tinha falhado o Hymnen, devido a estar a trabalhar na altura, mas havia ainda muito para ouvir. Para começar, o foyer tinha uma instalação sonora pelo membro dos Can, o Irmin Schmidt, aqui com o Kuomo. Sons electrónicos filtrados sobre um enorme número de altifalantes, espalhados por todo o espaço, o que realmente funcionava beme colocava os espectadores na onda para o festival. Também tinham o filme "In Absentia", pelos Quay Brothers com música (Zwei Paare) do Stockhausen (recentemente exibido na BBC) em loop permanente, numa sala pequena, o que era excelente - Eu vi-o uma série de vezes enquanto esperava pelos espectáculos. Raramente tenho visto filme e música tão bem combinados entre si.

Fui a três concertos em dois dias...

Cenas Da Luz
Não era para ter ido ver este espectáculo, mas estava sem nada para fazer e em Londres... e o bilhete era barato, apenas 6£. Também queria ver o génio do trompete, Markus Stockhausen, pois já não o via actuar há algum tempo, e sou grande fan. Karlheinz Stockhausen apareceu e deu uma explicação sobre o que iríamos assistir - vestido num fato branco e algumas hesitações no seu inglês, mas as suas notas foram importantes para interpretar o que iríamos ver e ouvir.
A primeira peça era para um solo de entrada de Markus, Entrance and Formula, pequenas peças da obra THURSDAY FROM LIGHT. Markus estava vestido de uma forma negligente em veludo azul e com uma camisola com o símbolo do Michael estampado. Alternando 4 diferentes silêncios obtendo um belo efeito. Depois foi a vez da peça para piano Klavierstuck X, que não conseguiu manter o meu interesse por muito tempo. Consigo perceber o ponto em utilizar as cordas sustenidas e em grupo, mas penso que a duração foi demasiado longa e, talvez apenas para mim, pareceu-me um pouco datado. Depois do intervalo veio então o grande tratado da tarde - Mission e Ascension para trompete e trompa tocados por Markus e uma muito bela Barbara Bouman. Estas peças são também de THURSDAY FROM LIGHT e eu estava familiarizado com elas através da edição de MICHAEL REISE para a ECM. Os protagonistas tocaram as partes à medida que tocavam a música e houve uma grande interacção entre eles, o que encantou a audiência. A última peça era estilisticamente não muito dissimilar pois também era para trompa (tocada por Suzanne Stevens) e flauta (Kathinka Pasveer) e era de MONDAY FROM LIGHT. De novo os intérpretes apareceram com vestimentas exóticas e tocaram e actuaram as várias partes através da música. Eu cometi o erro de não ter lido antecipadamente o programa acerca desta peça o que tornou muito difícil o acompanhamento da história.

Música Electrónica
Nessa mesma noite com apenas um pouquinho de tempo para beber uma vodka ou duas no bar, começou a performance de música electrónica, de um dos primeiros "estudos" de Karlheinz Stockhausen, de 1953, até Telemusic, de 1996. O Professor Stockhausen (quase parecendo um cientista) introduziu a primeira peça Electronic Study I (ele veio cá abaixo, saindo da mesa de mistura, para introduzir cada peça). Foi a primeira peça totalmente sintetizada a ser feita apenas a partir de ondas sinusoidais. Para mim foi mais de interesse académico assim como o Electronic Study II, que foi diferente devido à utilização de novas escalas e envelopes musicais. Foi interessante ouvir a explicação acerca das técnicas e do que está por trás do resultado final.
Depois foi a vez de uma peça que eu há muito andava à procura de ouvir ao vivo - Gesang Der Junglinge onde os sons electrónicos se misturam com uma voz juvenil e a primeira peça onde Karlheinz utilizou arranjos sonoros espaciais - de modo que os sons flutuavam à volta de toda a sala. Karlheinz recomendou a todos que fechassem os olhos quando ouvem música espacial e WOW! Confesso que subestimei o efeito 3D. Depois foi a vez de Telemusik, que utiliza world music como fonte sonora parcial e um anel de moduladores que fez, para muitos, um zunido de frequências - também usou o efeito espacial o que foi maravilhoso.
Depois do intervalo chegou o tempo de apresentar o mais pesado Kontakte, que tomou conta de toda a segunda parte. Utilizou pulsos electrónicos como a sua fonte de material e usou também efeitos rotacionais que Karlheiz Stockhausen gravou com um altifalante rotativo rodeado de microfones. Quanto à música achei-a um pouco seca, mas os seus efeitos 3D foram incríveis e têm de ser ouvidos para se acreditar. Ouvir um som de besouro a andar dentro da tua cabeça no sentido dos ponteiros do relógio, enquanto um som de um zumbido roda no sentido contrário é uma experiência realmente incrível.
Karlheinz foi muito simpático e desta forma consegui um autógrafo como um verdadeiro e triste fan. Também conheci o Markus que estava na audiência e obtive o seu álbum de duetos ao vivo CLOSE TO YOU (que é excelente e obtenível a partir do seu website www.markusstockhausen.com). Ele contou-me que não tinha planos para mais trabalhos com Terje Rypdal e que o último álbum que gravaram juntos foi todo gravado á primeira numa única sessão toda de seguida. Também não tem planos imediatos para um álbum futuro com o seu irmão Simon, o que é uma pena pois eles fazem grande música em conjunto. Um bom dia de audições e aquele buzzing está ainda dentro da minha cabeça a rodar, a rodar...

Sexta-Feira Da Luz
Há alguns anos eu fui ver THURSDAY FROM LIGHT na ópera e nunca mais o esqueci. Eu não gosto, em geral, do som da voz operática e fiquei agradavelmente surpreendido e não sendo muito estridente e não muito longe da ópera Kilingon. Foi uma performance quasi-concerto da obra e por isso os coros de adultos e crianças estavam pré-gravados em fita magnética. Os personagens principais desempenaram os seus papéis (soprano, baixo e barítono mais trompa e flauta) sobre um fundo de sons electrónicos e sons das cenas. Eu conhecia bem os sons de fundo pois tenho o CD de ELECTRONIC MUSIC AND SOUND SCENES FROM "FRIDAY FROM LIGHT". Mais uma vez, estava totalmente impreparado para os efeitos 3D, que transformam radicalmente a música. Os "sons de cena" que tinham lugar a cada 5 ou 10 minutos mais ou menos apareceram e ajudaram a marcar o ritmo de progressão da peça - na qual vozes são moduladas com outros pares de coisas (fotocópia / máquina de escrever, cão / gato, etc.). A única coisa estranha foi que com as cenas das crianças e com o coro final sem estar em palco, isso significou que uma boa parte da ópera que estava a ser apresentada não estava no palco, e assim foi-nos dito para fecharmos os olhos e usarmos a nossa imaginação. Eu não me importei, pois como disse, gosto da música e estava a curtir o som 3D, mas imagino que deveria ter sido bastante curioso para aqueles que são novições na audição das obras de Karlheinz Stockhausen. As cenas finais, quando todas as cenas sonoras estavam a tocar em simultâneo sobrepondo-se por todos os cantos, foi de cortar a respiração e fez-em compreender o quanto Karlheinz compõe no espaço. O stereo parece-em maçador a partir de agora.
No átrio encontrei-me com Irmin Schmidt que é uma pessoas simpática. Cometi alguns ligeiros erros (pois não estou familiarizado com o trabalho dos Can) por isso quando ele disse que era dos Can, eu percebi que ele tinha dito que era de Cannes - ele pareceu ficar curioso com a minha resposta de que devia ser um lugar adorável. A conversa mudou depois. Ele tem um álbum novo com o Kumo "Masters of Confusion", que é um álbum ao vivo. Em resumo, passei uns belos dias na terra da electrónica - havia montes de outras coisas a acontecerem no festival mas o que relatei foi o que vi - louvor para o Barbican por este programa aventureiro e por ter trazido Karlheinz Stockhausen e a sua equipa de volta a estas paragens.







The Audion #46 Top 10 New Releases
Arkham - Arkham (Cuneiform) CD
Embryo - Live 2001, Vol 1 (Schneeball / Indigo) CD
Eruption - Lava (Auricle) CDR
Fred Frith - Accidental (Fred R´R) CD
Goblin - Nohosonno (Cinevox) CD
The Muffins - Bandwith (Cuneiform) CD
NeBeLNeST - Nova Express (Cuneiform) CD
Rouge Ciel - Rouge Ciel (Monsieur Fauteux) CD
Univers Zero - Rhythmix (Cuneiform) CD
Volcano the Bear - Guess The Birds (Beta Lactam Ring) 10"






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