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14.12.18

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #76: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume XII: 2004/2005"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - Prefácio: Vitor Joaquim
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume XII: 2004/2005
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 476
isbn: none
data: Dezembro de 2018


PREFÁCIO

À escuta no MARR
Por Vitor Joaquim

É com grande prazer e uma imensa gratidão que dedico estas minhas palavras ao fugaz amigo Fernando Magalhães. Há já algumas semanas que o Tiago Carvalho me convidou para escrever o prefácio de mais uma série de escritos do FM. Ao longo deste tempo, tenho pensado no que dizer sobre ele. Na verdade, sinto que era capaz de estar horas a fio a falar do FM, porque para falar dele é preciso metermos o mundo todo na conversa, implica não deixar nada de fora e ter tudo em consideração. É pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo. Daí que me tenha sido tão difícil começar. Não por não querer, mas por não saber como começar ou sequer saber sobre o que falar.
Tendo ele escrito palavras que se viriam a revelar fundamentais para mim, sobre discos meus, o processo fica imediatamente contaminado pela subjectividade de um olhar que nunca poderá ser neutro. Devo-lhe mais do que muito por tudo o que escreveu sobre o meu trabalho, e só por isso, já lhe fico eternamente grato. Mas depois de muito revolver as memórias que dele transporto, acho que muito mais importante do que falar sobre o que ele escreveu sobre mim é falar daquilo que tínhamos em comum, eu como músico e ele como ouvinte: o prazer de ouvir e descobrir o mundo através da música. Esse prazer que parece começar a perder-se na forma desenfreada como hoje se ouve música e que aproxima a relação muito mais a um processo de consumo do que a um processo de fruição. Muito se tem escrito sobre a forma desenfreada e a rapidez com que actualmente se ouve música. Sendo certo que uma elevada percentagem das músicas tocadas não são ouvidas na sua totalidade até ao fim, começa a ser por demais evidente que a tendência tende a acentuar-se a cada ano que passa. Fruto de uma insatisfação e de uma inquietação permanente, as novas gerações de ouvintes de música, vêem-se muito mais a si próprios como consumidores do que como amantes da escuta.
Nesse sentido, a memória do FM impõe-se-me imediatamente sobretudo pela forma como cultivava a atenção pela escuta e pela ponderação proporcionada pelo momento de ouvir. Um momento que se intuía mágico e simultaneamente reflexivo. Quase como se fosse um momento religioso.
E é justamente a esse propósito que gostaria de recordar uma noite de escuta partilhada que jamais esquecerei. Não me recordo do dia de semana ou sequer do ano. Tenho como certo que não terá sido muito antes da sua morte, mas é tudo o que recordo em termos temporais.
Por iniciativa de uma série de amigos, entre os quais se inclui o Tiago Carvalho, o Luis Marvão e o Silva, realizou-se no bar MARR, em Setúbal, uma sessão de escuta da autoria do FM. Aquilo a que hoje em dia se poderia considerar um verdadeiro trabalho de curadoria contemporânea.
A sessão consistia em estar num bar a fazer duas coisas, basicamente: beber (uma inevitabilidade) e ouvir. Sendo um bar com um sistema de som razoável, não havia propriamente nada de estranho na proposta. É aliás algo que se faz habitualmente em bares. O que este programa tinha de inovador é que quase ninguém falava enquanto a música desfilava. Quase toda a atenção era dedicada a ouvir e circular pelo espaço de uma forma que mais parecia de deambulação do que de se querer ir a algum lado. Conforme o momento, uns circulavam lentamente, outros ficavam parados a ouvir e a contemplar o som. Se é que se pode contemplar o som.
Havia ainda assim, um pormenor filho da mãe nesta produção: antes de iniciar a sessão, o FM distribuía a cada um dos presentes uma folha A4 com os temas que iam desfilar durante a noite. No entanto, havia um elemento surpresa: uma das músicas tocadas não constava da lista. Ou seja, a lista não estava realmente completa. No final, quem a conseguisse identificar (na realidade, descobrir) recebia das mãos do próprio FM um disco por ele oferecido. Este pózinho de perlimpimpim era o suficiente para deixar toda a gente com as antenas no ar durante o tempo de escuta e ouvir passava a ser uma ocupação a tempo inteiro.
Não menos importante era naturalmente o alinhamento dos temas. Era muito comum, depois de um tema dos Panasonic (ou Pan Sonic, conforme) poder-se ouvir um tema de Bach. Ou ao contrário. O inesperado fazia parte da receita e a imprevisibilidade tornava cada momento um verdadeiro deleite de audição. Cada um de nós, com um copo numa das mãos e uma folha A4 na outra, espremia-se até ao tutano por identificar cada um dos novos temas que iam desfilando, gozando cada momento de escuta ao máximo, alimentado pela vaga esperança de vir a descobrir o tema escondido da sessão.
Enquanto isso, o FM passeava-se pelo bar, olhando-nos com um misto de curiosidade, desafio e deleite. Largava uma dica aqui, uma dica ali e lá ia sorrindo, passeando-se de pessoa em pessoa, de forma a que a conversa não pudesse nunca ganhar raiz e retirar peso à escuta. Ficou-me a sensação de que nesses momentos nos sentíamos todos nas suas mãos, da mesma forma que estamos nas mãos de quem opera um comboio de uma montanha russa, totalmente vulneráveis e simultaneamente entusiasmados com a viagem.
Nesses momentos tudo era simples e cada um de nós era como uma criança, sempre de ouvidos abertos e à descoberta do mundo. Para todos os efeitos, só existia aquilo, ouvir.
Acabada a sessão, o entusiasmo era geral, desatava tudo à conversa a tentar revisitar o alinhamento e a descortinar o tema escondido. O bar Marr, esse, passava a ser aquilo que era normalmente: um bar igual a tantos outros. As nossas cabeças é que não eram nada iguais ao normal, fervilhavam pela noite dentro ressoando muito para além daquelas escassas horas de deleite. E provavelmente, sem que o percebamos, ainda hoje ressoam a esse momento.

Vitor Joaquim
                                                                                                                        29-11-2018



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12.12.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 16 - Agosto de 2003


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
72 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano IV
Nº 16
Agosto de 2003



SPIRITUALIZED - Fora de Controlo

Os Spiritualized são uma respeitável instituição do rock britânico. Jason Pierce, também conhecido por J. Spacemen, lidera este colectivo que levou às últimas consequências as premissas de rock narcótico enunciadas na década de oitenta pelos Spacemen 3. Agora está de regresso com um novo álbum, "Amazing Grace", um capítulo divergente nesse processo de evolução.

Numa década de actividade regular, Jason Pierce guiou os Spiritualized através da produção de cinco álbuns de originais que foram levando cada vez mais longe as suas ideias de rock baseado em drones e riffs repetitivos, a que se foram juntando ideias pilhadas em compositores de vanguarda como La Monte Young, nos Can e também no jazz. A esta base Jason foi juntando a sua paixão pela música religiosa americana, também ela devedora do mesmo tipo de circularidade, assim como um certo gosto pelo sinfonismo, que resultou numa sonoridade única e cada vez mais sofisticada que teve os seus pontos altos em "Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space", o álbum de 1997, e "Let It Come Down", de 2001.
Reconhecido por ser um tanto ou quanto megalómano nos conceitos utilizados para a gravação dos seus discos (entre outras curiosidades há gravações que sofreram duas misturas - uma para cada canal de audição) Jason pertence a uma espécie em vias de extinção: a do intelectual que conceptualiza o rock 'n' roll. Daí que tenha a fama de não ser um tipo fácil: um rocker que fala por elipses, elabora conceitos que parecem cada vez mais discordantes da volatilidade dos dias que correm, que despede músicos e se dá mal com as editoras. Tudo isto porque é um melómano exigente. Como ele próprio diz no fim desta entrevista: "o futuro está na boa música". Para o novo "Amazing Grace" houve também, como seria de esperar, um novo conceito, e uma nova abordagem que teve a ver com os métodos do free-jazz e com um gosto renovado pelas sonoridades mais cruas doo rock de garagem. O que teve por consequência um álbum que deriva bastante do percurso evolutivo presente nos anteriores. Esta mudança de direcção e o estado da indústria musical no presente levou a um afastamento da anterior ligação com o grupo BMG que tinha editado todos os álbuns da banda durante a década passada. Um novo contrato com uma independente em ascensão - a Sanctuary Records - e uma data para lançamento de "Amazing Grace", que esteve cerca de um ano na gaveta, trazem este aristocrata do rock britânico de novo à ribalta.

:: O novo álbum resulta de uma gravação mais crua, onde cada faixa foi registada sensivelmente num único dia. Esta aproximação "back-to-basics" é surpreendente vinda de alguém reconhecido por ser bastante exigente com os processos de gravação e que no ano passado até foi um tanto ou quanto megalómano com as suas produções. Qual foi a ideia que esteve por detrás desta nova abordagem de gravação?
:::: Não penso que este seja um álbum "back-to-basics". Não «épropriamente uma gravação primitiva que funciona como reacção ao lado mais leaborado do álbum anterior, "Let It Come Down". O que aconteceu aqui foi um pouco um produto da experiência de gravar com os Spring Heel Jack, uma banda de jazz experimental que também colaborou com os Spiritualized. Adorei o tipo de trabalho, era como se a música jorrasse deles. A ideia era ter um microfone onde estava a acção. Eles gravaram tudo: o chiar dos metais, o som das mãos a mexer nos instrumentos. Esse lado físico de tocar e a expressão que era necessária para o fazer foi o que me fascinou, e este álbum dos Spiritualized tem a ver com isso. Com o capturar do som da banda em bruto, antes de alguém saber sequer tocar as canções. As canções foram apresentadas à banda no dia em que foram gravadas. Fomos atrás daquele momento em que as possibilidades ainda são infinitas, porque ainda ninguém tinha cristalizado as suas partes nas músicas. Portanto, ainda podíamos explorar para onde ia a canção. Acho que conseguimos alguma coisa de único.
:: Como irá passar o álbum do estúdio para o palco, se as canções foram compostas e fixadas desse modo?
:::: Penso que quando se passa as canções para o palco é preciso, de certo modo, "desaprender". Uma vez aprendida uma canção é preciso saber qual a quantidade de energia que se consegue retirar dela. Ao vivo as coisas funcionam sempre de modo diferente, depende muito da reacção da audiência e do que ela contribui para a interpretação. é muito diferente de estar numa sala a ouvir um disco. É um processo dez vezes mais envolvente.
:: Para além da abordagem na gravação este é um disco muito mais cru, com muito mais de um certo tipo de rock de garagem a la Stooges...
:::: É um disco de música não processada. Sem a produção, um pouco ao modo como as gravações de jazz eram feitas. De certa maneira é uma abordagem mais honesta, é como re-ouvir o Robert Johnson ou o Elmore James. É um tipo de música de expressão física que não tem a ver com produção ou equalização. Foi o que tentámos neste disco, não saber exactamente como iria resultar. A ideia era gravar e pôr o álbum cá fora sem que as pessoas sequer soubessem que o íamos gravar.
:: Mas de momento vão fazer uma digressão com os Soledad Brothers, uma banda de um tipo de rock muito cru. É uma paixão recente pelo rock de garagem e os blues? É que não muito normal uma banda como os Spiritualized trazer consigo um suporte como os Soledad Brothers...
:::: Não sei, gosto do que eles fazem. E sou um bocado snob com a música e penso que toda a gente o é. Tenho esta es+écie de metrónomo que começa aos saltos se a música começa a ir para o lado errado. E os Soledad Brothers nunca empurram a agulha para esse lado. Acho que eles andam sempre no lado certo da cidade. E gosto disso.
:: No novo álbum há temas como "this Little Life Of Mine" ou "Never Going Back" que são cruas e garagistas e outras como "Hold On" ou "Oh Baby" que são mais do tipo narcótico-orquestral, o tipo de sonoridade que se associa aos seus discos anteriores. Houve aqui uma tensão entre a nova sonoridade dos Spiritualized e os velhos Spiritualized?
:::: Entre os novos e os velhos Spiritualized? Bem, eu acho que este álbum é mais nu no que apresenta. É como alguém que nos sussurra ao ouvido. É como uma espécie de conselho que vem de mim e eu sou o último tipo de pessoa de quem se espera um conselho. Uma coisa que empurrou este álbum para ser o que é, foi um espectáculo que demos para a televisão. Foi uma merda e apeteceu-me fazer um conjunto de canções que mostrasse: isto é o que eu sou, isto é o que eu sinto. O que fizemos neste disco é algo de muito humano e falível, algo que não tem respostas concretas, mas é um trabalho que demonstra uma espécie de compaixão. E acho que funciona.
:: Antes de ser  lançado oficialmente neste formato o novo álbum foi previamente editado num conjunto e três EPs em vinil. Foi uma oferta especial para os "vinyl-freaks" ou uma maneira de testar as águas no que dizia respeito ao novo material?
:::: (Risos) Acho que foi mais a primeira hipótese. Este disco soa muito bem em vinil. Os nossos discos anteriores não soam muito bem em vinil. O "Pure Phase" e o "Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space" foram editados com misturas diferentes para cada canal auditivo, portanto são misturas diferentes que se ouvem na coluna da esquerda e na coluna da direita. E isso não funciona muito bem no vinil. Mas este disco funciona muito bem em vinil, que é um objecto absolutamente fantástico desde que de boa qualidade. Esta ideia também serviu para contrariar um bocado aquela coisa do marketing que aponta todas as baterias para um dia de lançamento específico. É bom que as pessoas possam ter o disco em vinil ou possam ouvi-lo na internet antes do lançamento propriamente dito. Porque isto tem a ver com música e não com campanhas de marketing. É importante que as pessoas possam ouvir a música quer a queiram comprar ou não...
:: Entre o lançamento dos álbuns de originais - isto é, entre "Let It Come Down" e "Amazing Grace" - foi editada a compilação dupla de material raro, "Complete Works Volume One", uma quase obra-prima de rock narcótico. O que sentiu ao recuperar esse material antigo?
:::: Não foi muito difícil porque é uma coisa cronológica. Começa aqui, acaba ali. E isto é tudo o que está no meio. Foi interessante, porque houve uma sensação de intemporalidade. A música em que estava a mexer não tinha nada a ver com o que está ou esteve na moda. Não estamos muito interessados em estar na moda e vender mais discos por causa disso. Estava curioso em saber como soaria aquele material. Mas não soou como se tivesse sido feito há dez anos atrás, poderia bem ser material gravado para o novo álbum ou para o "Ladies And Gentlemen". Senti-me bastante bem em relação ao que ouvi.
:: No seu trabalho passado há aproximações ao tipo de electrónica de drones (sons repetitivos e circulares que funcionam como indutores de uma espécie de transe). Nunca se sentiu tentado a explorar mais a electrónica. Usar loops e grooves samplados, por exemplo?
:::: Acho isso um bocado preguiçoso. Acho que o que fazemos é rock 'n' roll. Temos falado muito sobre free-jazz ultimamente. Aquilo que fazemos não é free-jazz, mas gosto da ideia de se ouvir um som e de se responder a esse estímulo. É isso que faz a música, a interactividade. Penso que há certos pontos musicais, em certos discos, que me fazem evitar sequer querer fazer um disco de que penso não me ir conseguir aproximar. Um desses discos é o dos Rocket From The Tombs, que é uma espécie de colecção de demos dos primeiros discos dos Pere Ubu e dos Dead Boys. Esse disco diz-me: "mantém-te afastado da verdadeira música de garagem, porque nem sequer te vais conseguir aproximar". Por outro lado, os Kraftwerk conseguem ter uma espécie de alma dentro da música electrónica - que é um aspecto que não se associa muito à música electrónica uma musicalidade e melodia que me fazem ficar afastado de tentar atirar-me a esse tipo de área. Há já quem o faça tão bem...
:: Desde o tempo dos Spacemen 3 e mais uma vez em "Amazing Grace" - logo a começar pelo título - parece haver uma obsessão com Jesus e "O Senhor". É realmente um crente ou esta é uma maneira de exprimir a dependência humana por entidades superiores?
:::: Não sou crente. Acho que esta é a "graça fabulosa" de que cantava Elvis Presley. Não tem nada a ver com religião. A expressão tem a ver com a outra metade do rock 'n' roll: a estranha música de igreja da Europa que foi levada para os Estados Unidos e que se tornou no gospel e na country por mistura com os cânticos negros. A única diferença entre a música gospel e a pop é que a primeira chegou às crianças através de Jesus. Só que a paixão que as pessoas demonstram quando cantam sobre Jesus é muito maior do que a das que cantam sobre amores falhados. E eu gosto disso na música gospel.
:: Mas afinal isso não é um bocado irónico quando até se diz que o rock 'n' roll é a música do Diabo...
:::: Eu acho que as pessoas gostam de brincar com isso. É como usar calças de cabedal. Há um certo imaginário que as pessoas criam. Costuma-se dizer que o Diabo tem as melhores melodias, mas se o Diabo tem as melhores melodias então a Igreja tem os melhores cantores...
:: Desde os Spacemen 3, até "Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space", "Let It Come Down" ou agora "Amazing Grace" existe desde sempre na sua música um flirt entre a espiritualidade e a utilização de drogas. Acha que as drogas podem aumentar o nosso lado espiritual?
:::: Não sei... Acho que a melhor música acontece quando estamos fora de controlo. Quando estamos fora daquilo que sabemos que podemos fazer. E é por isso que as pessoas recorrem muito às drogas no rock. Mas a ideia que as drogas produzem melhor música é obviamente errada. A boa música não é um produto directo das drogas.
:: No final de "Amazing Grace" há uma demolição do hino americano, o "Star Spangled Banner" em versão algures entre o free-jazz e uma banda de funeral de New Orleans. É um comentário ao papel dos EUA no mundo neste momento?
:::: Se eu quisesse ser realmente pomposo acerca do assunto, diria que sim. essa ideia surgiu de conversas que tive com o Dr. John [pianista de Nova Orleães, cujos discos são uma mistura explosiva de r&b de Nova Orleães e rock, que se apresenta vestido com fatos do Mardi Gras e que é colaborador habitual dos Spiritualized] uma semana e meia a seguir ao 11 de Setembro. Ele disse-me: "devias escrever sobre esta merda, isto é importante, mas não especificamente sobre os eventos desse dia". Também teve a ver com o facto de ter ouvido uma versão do Maceo Parker do "Amazing Grace" [canção tradicional norte-americana], uma espécie de desconstrução esquisita. Tentámos fazer uma versão disso, que foi lançada em vinil no ano passado. E resultou numa associação de ideias que chegou até aqui. Para ser específico não é uma mensagem sobre a situação.
:: As mudanças de sonoridade neste novo álbum dos Spiritualized foram responsáveis pela mudança de editora, pela saída da BMG?
:::: Este álbum foi pensado para sair sem grandes aparatos. Tornou-se um assunto mais aparatoso porque mudámos de editora e houve um atraso no lançamento por causa das negociações. Nós acabámos o disco e vimos que podíamos sair do antigo contrato, e era importante que isso acontecesse naquela altura. Por uma grande série de razões. Acho que eles são uma grande máquina de vender discos e não estavam muito interessados em vender como este. Acho que quando quisemos romper eles ficaram um bocado naquela que nós estávamos a assaltar o banco. Nós dissemos: "desculpem lá, roubámos o banco mas agora vamos embora". Foi mais ou menos mútuo.
:: Acha que o futuro está nas companhias independentes?
:::: Acho que o futuro está na boa música. O problema neste momento é que as companhias de discos estão a ir pelo cano abaixo. E estão a atirar discos cá para fora como balas. Há tanto produto barato - "rápido, embora fazer mais duzentas mil girl-groups; rápido, embora fazer mais duzentos mil disto e daquilo". Penso que um dos maiores problemas é que a injdústria discográfica foi construída à volta da ideia de que pode enganar-nos: "Se conseguirmos boas críticas, pondo dinheiro nisso, se conseguirmos uma grande campanha publicitária e um vídeoclip bonitinho vamos conseguir vender-vos isto e sacar-vos o dinheiro ainda antes de vocês ouvirem esta merda." Mas isso é um engano, as pessoas vão querer saber primeiro como é. Por isso é que a indústria é tão avessa à internet.
Jorge Dias




Spacemen 3
Formados por Jason Pierce e Sonic Boom (Peter Kember) em 1982, os Spacemen 3 tornaram-se uma das principais bandas do indie-rock britânico dos anos 80, estando inclusivamente ligados è origem do movimento apelidado de "shoegazing". Numa altura em que a produção britânica derivava à volta do gótico e do pós-punk ou, por outro lado, parecia procurar a canção pop perfeita nas guitarras à maneira dos Smiths, os Spacemen 3 traziam as tonalidades narcóticas de um rock repetitivo e negro muitas vezes inspirado em bandas de vanguarda dos anos 60 e 70 como os Silver Apples ou Suicide. Após quatro álbuns de originais ["Sound Of Confusion" (1986); "Perfect Prescription" (1987); "Playing With Fire (1989) e "Recurring" (1991] acabam por separar-se devido a problemas com drogas de Sonic Boom e à crescente conflituosidade deste com Jason.

DISCOGRAFIA SELECCIONADA
LAZER GUIDED MELODIES (1992 - Dedicated / BMG)
Após longo processo de incompatibilização com Sonic Boom - o outro elemento central dos Spacemen 3 - Jason arrasta os restantes músicos da banda e constitui os Spiritualized. Além destes traz os drones, os tremolos, as modulações e a paixão pela música de inspiração religiosa. "Lazer Guided Melodies" é um álbum dividido entre as faixas no formato próximo da canção de raízes indie-rock e as sonâmbulas digressões por uma espécie de rock ambiental e narcótico já a prever os sinfonismos que se seguiriam. No ano em que "Nevermind" e o "heroin-chic" explodem, Jason está lá longe, no espaço sideral, e sorri com ar de quem está muito à frente...
PURE PHASE (1995 - Dedicated / BMG)
Tendo assumido o nome Spiritualized Electric Machine para este período, Jason começa a libertar-se do fantasma dos Spacemen 3 juntando a todas as componentes do drone rock que persegue desde o início, uma nova vertente vagamente sinfónica. Por entre as modulações, as ressonâncias e as explosões de distorção surgem agora inteiras secções de metais ou as intervenções do reputado Balanescu Quartet, enquanto se ensaia o fervor do gospel. "Pure Phas" é o épico possível até esse momento, um álbum extenso e ambicioso misturado duas vezes por Pierce, para um efeito stereo mais luxuriante e envolvente. Inclui uma versão de "Born Never Asked" de Laurie Anderson.
LADIES AND GENTLEMEN WE ARE FLOATING IN SPACE (1997 - Dedicated / BMG)
O disco da "caixa de comprimidos", que é o álbum por excelência dos Spiritualized. Aqui Jason Pierce, ainda acompanhado por alguns dos elementos da primeira formação da banda, mas com mais meios, expande todas as ideias que trazia dentro da sua música para um patamar superior. A junção de coros e orquestra transforma as canções de J. num grandiloquente caos orquestral que é tão devedor do ruído quanto as ambiências sonoras mais sofisticadas. "Ladies And Gentlemen" é a obra-prima do rock narcótico que é a sua especialidade. Um disco de óptimas ideias, grandes concretizações e talvez o melhor conjunto de canções que escreveu, com pontos altos em "I Think I'm In Love", "Electricity" ou no lindíssimo "Broken Heart".
LIVE AT ROYAL ALBERT HALL (1998 - Deconstruction / BMG)
Aproveitando a excelente recepção a "Ladies And Gentlemen" e a digressão que se lhje seguiu, este é o álbum que captura a energia dos Spiritualized em palco, em formato aumentado por coro, secção de cordas e metais. Um duplo álbum correspondendo às ambições de grandiosidade de Jason e que percorre alguns dos melhores momentos dos três álbuns de originais editados até então, fazendo mesmo uma incursão por território Spacemen 3. A sessão encerra com uma versão do clássico gospel 2Oh Happy Day", numa derivação entre o transe religioso e o épico sinfónico.
LET IT COME DOWN (2001 - Spaceman / Arista / BMG)
A lista de participantes aumenta a olhos vistyos. Não só a banda foi completamente reformulada, como as orquestras e os coros são cada vez maiores, Jason começa a aproximar-se da megalomania sem efeitos surpreendentemente superiores ao conseguido antes. "Let It Come Down" é um bom álbum mas um pouco mais do mesmo por comparação com o excelente "Ladies And Gentlemen". Como se o processo evolutivo iniciado pelos Spiritualized tivesse chegado a um beco sem saída.
THE COMPLETE WORKS VOLUME ONE (2003 - Spaceman Records / Arista / BMG)
Para assinalar a despedida da BMG J. organiza esta feliz compilação de material disperso por edições à margem dos álbuns. É um excelente duplo CD onde se mistura alguma da inocência das primeiras gravações do projecto (algumas delas ainda pertencentes ao último álbum dos Spacemen 3) com versões experimentais editadas em formatos de menos responsabilidade e lados B. É um leque de música produzida em diferentes períodos e circunstâncias mas que funciona como um todoo surpreendetemente coerente, resultante noutro inesperado épico de rock narcótico.
AMAZING GRACE (2003 - Spaceman Records - Sanctuary / Som Livre)
Quem se habituou às ambiências envolventes dos álbuns dos Spiritualized até aqui fica com os cabelos em pé logo com as primeiras duas faixas. "This Little Life Of Mine" e "She Kissed Me (It Felt Like a Hit)". Há feedback e distorção à solta, o som é roufenho e Jason berra parecendo estar a liderar uma encarnação britânica dos Stooges, com pianinho martelado e tudo. Mais à frente surgem "Never Goin' Back" ou "Cheapster" que exploram a mesma via sonora, entrecortada por baladas narcóticas onde se regressa a terreno mais habitual neles. Só que em versão mais próxima de uma "rough mix", nada dos embelazamentos sinfónicos de antes. Pelo meio, em momentos mais caóticos como "The Power And The Glory" e na versão do hino americano "Star Spangled Banner", aproxima-se mais das desconstruções do free-jazz. Na realidade este é um disco onde as componentes base da sonoridade da banda foram separadas quase que à força funcionando o conjunto mais por saltos de registo do que por esquema de continuidade, como antes. E é natural que depois dos processos perfeccionistas dos álbuns anteriores, Jason necessite mudar de métodos, mas esta nova abordagem em regime de força bruta não produz necessariamente os melhores resultados. "Amazing Grace" não é um mau disco, tem algumas ideias interessantes e um naipe de boas canções como "Lord Let It Rain On Me" ou "Oh Baby", mas soa inevitavelmente uns furos abaixo do melhor que os Spiritualized já gravaram.
Jorge Dias




Reedições
ASMUS TIETCHENS
Asmus Tietchens é um dos mais conceituados compositores alemães, ligado à música experimental, abstracta e concreta, mas também várias vezes conotado com o movimento "bruitiste" e a música industrial. Nascido em 1949, iniciou a sua actividade musical em 1965 e desde 1980 tem vindo a editar algumas das obras mais desafiantes dentro desses géneros. Num constante work-in-progress e numa atitude inconformista, tem procurado sempre encontrar novas soluções de composição e de abordagem para a sua música. A sua extensa obra, espalhada por uma série de pequenas editoras, é incontornável e os seus discos - principalmente os primeiros LP's - encontram-se há muito esgotados. Por essa razão, a editora Die Stadt iniciou este ano a mega-tarefa de reeditar em CD os 18 primeiros  LP's de Asmus Tietchens, editados entre 1980 e 1990, a uma média de um disco cada três meses, todos eles acompanhados de temas inéditos. O primeiro volume desta série é "Adventures In Sound / Nachtstucke" (2XCD Die Stadt), um duplo CD que inclui gravações inéditas de Asmus Tietchens e o seu primeiro disco, produzido por Peter Baumann (Tangerine Dream) para a EGG. "Adventures In Sound" é preenchido com temas inéditos gravados entre 1965 e 1969 com a ajuda de Okko Bekker - amigo e produtor que contribuiu de uma forma activa no resultado final de muitos dos seus discos - e de Hans Dieter Wohlmann. "Adventures In Sound" é, acima de tudo, um trabalho de investigação sonora e de exploração das possibilidades dos instrumentos. Experiências que correm a música concreta e a electro-acústica realizadas por um jovem músico autodidacta à procura de um ponto de partida para o seu trabalho. "Nachtstucke" é substancialmente diferente.
Da música concreta passamos para um ambientalismo electrónico, onde encontramos peças harmoniosas de uma claridade musical própria. "Biotop" (CD Die Stadt), por seu lado, é o primeiro de um lote de quatro discos que Asmus Tietchens editou na Sky [editora alemã dedicada à música electrónica por onde passaram, entre outros, nomes como Brian Eno, Cluster, Dieter Moebius e Hans J. Roedelius] e que compreendem uma etapa à parte dentro da sua discografia, pelo tipo de abordagem mais convencional da música electrónica ambiental - leia-se "pseudo-pop". Uma das grandes diferenças entre "Biotop" e "Nachstucke" é a instrumentação utilizada, em especial uma unidade geradora de ritmos - a Roland CompuRhythm -, as possibilidades do Moog, e a tentativa de escrever peças que não excedessem os quatro minutos. O resultado é um álbum recheado de temas curtos, ritmados, banhado por uma acessibilidade relativa influenciado por alguns dos seus grupos favoritos da altura: Cluster, Kraftwerk e Faust. Depois de "Spat-Europa", "In Die Nacht" e "Litia" - os outros três discos editados pela Sky - Tietchens cortaria o cordão umbilical e editaria "Formen Letzter Hausmusik" pela United Daries (editora de Stephen Stapleton, dos Nurse With Wound) ainda hoje uma das suas obras mais radicais e difíceis. Começava aí a segunda vida de Asmus Tietchens.
Nota de rodapé: Aparentemente as capas de todas as reedições parecem iguais, mas um olhar mais atento constata que existe um pormenor de cor que se vai aproximando de nós à medida que a colecção vai avançando, e enquanto as lombadas vão formado o nome de Asmus Tietchens. Essa foi uma das intenções de Asmus Tietchens, poder dar uma noção forte de "colecção", optando por reproduzir no booklet que acompanha cada CD, e em tamanho semelhante a um LP, a capa de cada disco. Só é pena que os textos explicativos que Asmus Tietchens escreveu para cada disco estejam em alemão...
HM (Hugo Moutinho)





23.11.18

Novos Portugueses / 6 - Cardíaco - "O Enterro"


Cardíaco - "O Enterro"


a monotonia do quotidiano é, de certa forma, a mais extremada forma de ritual. a segurança e o conforto são, de certa forma também, a expressão ilusória que garante a monotonia, suporte da tolerância à mesma. o único ritual possível para a constante renovação é o do enterro.

credits
released November 12, 2018
 joão sousa - bateria , voz filipe adão - guitarra tiago eira - synth e andré calvário - voz
album mixed and mastered by tiago eira foto e capa de joão sousa




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