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27.2.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (4)


DN - Diário de Notícias

19 de Outubro de 2002

Discos pe(r)didos



CARLOS MARIA TRINDADE Single, «Princesa», Vimúsica, 1982 Lado A: «Princesa»; Lado B: «Em Campo Aberto»

Quando o actual teclista dos Madredeus, Carlos Maria Trindade se juntou, em 1979, aos Corpo Diplomático, a sua carreira na música contava já oito anos de vida. Tudo começou em 1971, quando formou os Soft Thurd com Paulo Pedro Gonçalves. Algum tempo mais tarde muda-se para Inglaterra onde vive dois anos, regressando mais tarde para estudar. Em 1976 focaliza as suas atenções nas áreas da música contemporânea. Esta etapa de dedicação à música contemporânea, que culmina com a apresentação de peças suas nos Encontros de Música Contemporânea de 1978 termina, de certa forma, com a ligação aos Corpo Diplomático em 1979, onde assume o lugar de teclista.
Ao fim dos Corpo Diplomático segue-se a etapa Heróis do Mar banda que, de resto, herda grande parte dos músicos desse projecto fulcral da new wave lusitana de finais de 70.
Evolução directa dos Corpo Diplomático, os Heróis do Mar reflectem, contudo, uma mais evidente atenção para com as novas formas que então a pop britânica ensaiava a experimentava, denunciando fundamentalmente um tempo de deslumbramento pelos recursos que as novas tecnologias traziam à canção. Os sintetizadores ganhavam protagonismo e, com eles, o mesmo sucedia a prestação de Carlos Maria Trindade no som do grupo. Todavia, apesar do empenhamento na sua faceta pop/rock, Carlos Maria Trindade não fecha a ligação a outras músicas. Em 1980 é convidado a actuar no Festival de Bristol, onde se apresenta com um projecto.
A partir de 1981 os Heróis do Mar absorvem grande parte das atenções dos seus músicos. Mesmo assim, alguns discos a solo são editados, nomeadamente o single e máxi Rapazes de Lisboa de Paulo Pedro Gonçalves (em 1984) e o máxi single Ocidente Infernal de Pedro Ayres de Magalhães (1985). O primeiro dos discos a solo de elementos dos Heróis do Mar é, contudo, o single Pricnesa, lançado em 1982 por Carlos Maria Trindade.
Trata-se de uma importante experiência pioneira na área da pop electrónica, árvore de poucos frutos no Portugal de então, e com melhores exemplos precisamente neste single, assim como nos 45 rpm de estreia dos Ópera Nova, Da Vinci e António Variações. Princesa, a faixa que encontramos no lado A é uma forte canção pop com a condimentação característica do som electro pop da época, mas animada de uma identidade melódica mais exigente que a norma, não se afastando muito do que seria, um ano depois, a essência da alma do álbum Mãe, dos Heróis do Mar. Em Campo Aberto, a canção que encontramos no lado B é um caso igualmente sério, revelando algumas afinidades com alguns discos de Gary Numan da etapa 1979/81.
O single aterra nos circuitos em ano de crise no panorama pop/rock nacional, precisamente naquele momento em que os excessos de 1980/81 se transformam em pesadelos. Em tempo de maré adversa poucos se salvam, entre eles os Heróis do Mar com Amor. Princesa, que alguns meses antes poderia ter gerado um êxito de grande escala, acaba despercebido.
Nuno Galopim









26.2.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (3)


DN - Diário de Notícias

05 de Outubro de 2002

Discos pe(r)didos




O Portugal Suave de 1969 assistiu ao nascimento de três importantes bandas nas áreas da música pop/rock: a Filarmónica Fraude, o Psico e os Objectivo. Estes últimos representam um dos raros casos de partilha de espaço com músicos não portugueses e traduz ainda a importância que o programa televisivo Zip Zip teve na revelação de novo talento nesses últimos dias de 60.
O nosso país era, já na altura, ancoradouro para alguns estrangeiros que aqui procuravam sopas, descanso... e trabalho. Kevin Holdale, norte-americano, instalara-se em 1968 em Lisboa. Com um passado musical de alguma notoriedade, cedo se juntou a outros músicos (entre eles Mike Sergeant) para formar os Mechanical Dream.
Paralelamente o baterista dos Ekos, Mário Guia, junta os Show Men, constituídos por si próprio (bateria), Tó Gândara (guitarra), Luís Filipe (teclas e guitarra) e Zé Nabo (baixista que tinha em tempos tocado com Vítor Gomes). Para este segundo grupo as coisas não correm bem até ao dia em que são convidados a tocar no Zip Zip. Apresentam-se sem nome, agradam e recebem do público espectador um nome: Objectivo. Atenta, a Sonoplay (mais tarde Movieplay) convida-os a gravar um EP, surgindo assim, a sua estreia em disco logo em 1969.
Uma série de problemas surgidos imediatamente após a gravação do EP conduziu os Mechanical Men e os Objectivo em rota de colisão. E, após as saídas de Tó Gândara e Luís Filipe, entram no Objectivo Kevin Koldale e Mike Sergeant. Mário Guia passa a relações públicas e para a bateria entra Zé da Cadela.
Em pleno episódio de convulsão interna, o grupo não está presente no lançamento do EP. De resto, as preocupações do Objectivo apontavam já ao segundo disco, um single que representou a primeira gravação estereofónica de um single português. The Dance Of Death e This Is How We Say (Goodbye) (composições de Kevin Holdale) preenchem as duas faces de um single que evidencia o desejo dos novos desafios da técnica e só falha nas vozes. As composições são interessantes desafios à forma da canção, sugerindo desejos de um experimentalismo pré-progressivo. The Dance Of Death ensaia, inclusivamente, uma abordagem à valsa, e não esconde encantos pelos novos teclados.
Visualmente os Objectivo causam também sensação. São banda regular na boite Ronda (no Monte Estoril) e, face a um público de fato engomado e gravata, contrastam pelos cabelos longos, túnicas e motivos florais. Chamavam-lhe o «look à Carnaby St»...
Apesar das inequívocas qualidades deste segundo disco, a vida do Objectivo não foi tranquila após a sua edição. A usa música, tal como a aparência dos músicos, era olhada com a suspeita de algo estranho e não «normal»... Todavia, o grupo representou, nos seus dias, uma das mais atentas pontes de contacto directo com os acontecimentos da capital pop/rock _Londres. The Dance Of The Death, bem como o outro single editado ainda em 1970 (Glory / Keep Your Love Alive, novamente duas composições de Kevin Holdale), são peças fulcrais do melhor rock português de inícios de 70.
Novas mudanças de formação têm lugar entre 1971 e 72. Pelo grupo passam nomes como os de Terry Thomas e Guilherme Inês. Holdale, a dada altura, segue caminho paralelo no Bridge, um grupo de jazz. Da sua convivência nessas fronteiras nasceria ainda uma colaboração com o Duo Ouro Negro e Fernando Girão (dos Very Nice), da qual nasceria o álbum Background.
Num vai e vem de músicos, o grupo acaba oficialmente em 1972. Holdale abandona o país em 1973. Terry Thomas formou os Albatroz. Jim Creegan regressou a Inglaterra e tocou nos Family, nos Cockney Rebel (de Steve Harley) e, mais tarde, com Rod Stewart. Guilherme Inês e Zé Nabo formam com José Cid e Moz Carrapa o efémero grupo Cid, Scarpa, Carrapa e Nabo. Os dois, mais tarde, encontrar-se-ão nos bem sucedidos Salada de Frutas. Por seu lado, Mike Sergeant passa pelo Quarteto 1111, os Green Windows e mais tarde Gemini.

Nuno Galopim.






24.2.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (2)


DN - Diário de Notícias


Discos pe(r)didos



Juntamente com os Heróis do Mar, os GNR foram um dos grupos mais prolíficos da cena pop/rock portuguesa de 80. Prolíficos não só em nome próprio, mas também como troncos de árvores genealógicas que cresceram dos elementos ligados às duas bandas, quer em carreiras paralelas ou em caminhos a solo depois da separação da «nave-mãe».
Comecemos por recuar a 1979, ano no qual o grupo nasce quando Vítor Rua (ex King Fischer’s Band) começa a ensaiar com Alexandre Soares (ex-Pesquisa), Tóli César Machado e Mano Zé. Em 1980 assinam pela Valentim de Carvalho, editora para quem se estreiam, já em 1981, com o single Portugal na CEE. Alexandre Soares é, então, guitarrista e vocalista. Mano Zé deixa, entretanto, a banda, que fica reduzida a um trio, o mesmo que grava o segundo single, Sê Um GNR, lançado ainda em 1981.
Vítor Rua foi, dos elementos do grupo, o primeiro a encetar uma carreira paralela, editando CTU, nos Telectu, ainda em 1982. Deixa os GNR pouco depois, abrindo então um caso de disputa jurídica pela posse do nome da banda, que se estenderá durante anos, até ao cachimbo da paz, que acontece apenas em meados de 90, quando é editada a compilação Tudo O Que Você Queria Saber: O Melhor dos GNR. Até lá continua a editar regularmente, com os Telectu. Grava ainda o álbum Pipocas (1986), Clássicos GNR (1989) e Mimi Tão Pequena e Tão Suja (como Pós-GNR, em 1991).
Alexandre Soares, que sai do grupo entre 1982 e 83, participa nos quatro primeiros álbuns de originais dos GNR. Deixa, contudo, o microfone a Rui Reininho (que surge como vocalista em Independança, álbum de estreia em 1982). Depois de Psicopátria decide, contudo, afastar-se definitivamente. É então que enceta uma brevíssima carreira a solo, que se materializa em apenas um álbum: Um Projecto Global.
Um simples olhar pelas duas fotos que se apresentam na capa interior do álbum indiciam o cenário no qual nasceu: a própria casa de Alexandre Soares. Numa espécie de antevisão do conceito de home recording, as canções, nas quais se torna evidente o porquê da vontade em sair dos GNR, foram pensadas, tocadas e gravadas numa sala, pelo próprio Alexandre Soares (pontualmente com a ajuda de alguns amigos, entre eles Quico, nas teclas e programações). Teclados, guitarras, gira-discos, uma mesa de mistura, gravadores de bobinas... A maquinaria mostra-se sobre mesas e livros, sublinhando o tom quase anarca e desenrascado do ambiente em que nasce o disco.
Um Projecto Global, na verdade, é um disco no qual valem mais as ideias que as formas finais. O som mais parece o de uma maquete que o de uma gravação «oficial». Contudo, esta falta de polimento parece intencional. Não só pela falta de  meios que terão sido colocados à disposição do músico, mas certamente por uma vontade de mostrar e viabilizar caminhos seus. Entre os mais curiosos elementos deste disco a solo de Alexandre Soares destaca-se a presença de Pedro Ayres Magalhães, que assina a letra de Luzes no Hotel, a faixa de abertura do disco. Entre a lista de colaboradores referidos na ficha técnica do álbum, embora sem designação específica da sua contribuição, surge Jorge Romão (dos GNR).
Pela evidente diferença de formas face ao que eram os GNR de finais de 80, o passado de Alexandre Soares pouco lhe valeu junto aos media. Um Projecto Global mal se deve ter escutado na rádio. E, por várias razões, o disco acabou ignorado...
Esse insucesso deverá estar na origem do ponto final que Alexandre Soares então colocou à sua carreira em nome individual. E a ideia de eventuais sucessotres deste disco (de que fala em entrevista a Luís Maio no livro Afectivamente GNR) acabou sem concretização.
Alexandre Soares voltou a estar no centro das atenções quando, já nos anos 90, surge integrado na segunda formação dos Três Tristes Tigres, assinando com Ana Deus e Regina Guimarães os álbuns, de absoluta referência, Guia Espiritual (1996) e Comum (1998).
Nuno Galopim

ALEXANDRE SOARES LP «Um Projecto Global», Polygram, 1988, LADO A: Luzes No Hotel, Hibernar, (Que) Ricos Dias, Fora de Casa; LADO B: Respirar Chambo, Uma Coisa, Meus Amigos, Vozes, Recordo-me? PRODUÇÃO: Alexandre Soares.







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