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21.11.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (261) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano VI
Nº 284
10 de Abril de 1990
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 75$00
28 páginas
Capa a 3 cores e interior a preto e branco



Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Rua Sacadura Cabral, 26, Dafundo, 1495 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Direcção Gráfica: Cândida Teresa
Colaboradores:
Belino Costa
Cristina Duarte
Cristina Peres
Eduarda Martins Ferreira
Eugénio Teófilo
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Magalhães
Fernando Santos Marques
Fernando Sobral
Fred Somsen
João Correia
João Bugalho
João Vaz
Jorge Dias
José António Moura
José Guedes
Luís Maio
Luís Peixoto
Miguel Cunha
Miguel Francisco Cadete
M. Nuno Figueiredo (EUA)
Miguel Santos
Miguel Somsen
Miguel Telhinhas
Paula Bach
Paulo Somsen
Pedro Cardoso
Pedro Portela (Braga)
Rafael Gouveia (Paris)
Sílvia Alves
Tiago Baltazar
Vasco Fernandes

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Fotografia:
João Tabarra
Carlos Didelet

Tiragem média do mês anterior: 22 256 exemplares

Intro
O Blitz foi um jornal lançado a ...  e na altura representou uma autêntica pedrada no charco no pobre panorama da imprensa musical portuguesa. Embora tivessem já existido ou existissem na altura em actividade outras publicações interessantes (Mundo da Canção, Rock Week, ...) o Blitz rapidamente se alcandorou a principal publicação do género em Portugal. Muito influenciada pelas já “velhinhas” mas inatacáveis Melody Maker e New Musical Express que viviam o seu auge na altura (post-punk new wave), o Blitz teve várias fase.
Lembro-me de ter ficado encantado desde o primeiro número, com Siouxsie na capa.
Lembro-me mais, basicamente, de:
- Ter comprado, religiosamente, todos os números durante 5 ou 6 anos, pelo menos;
- Arquivado/guardado todos esses jornais, atados com cordéis, na arrecadação do quintal dos meus pais;
- Os primeiros anos serem de uma qualidade jornalística/crítica superior (incrementada esta opinião, claro, pelo deslumbramento inicial);
- O jornal ter entrado em certa “decadência” de qualidade, quiçá pela alteração dos seus redactores ao longo do tempo;
- O jornal ter “ressuscitado” a sua qualidade inicial, quando Rui Monteiro passou a ser o director e contratou toda uma nova fornada de escribas (o número que apresento neste post corresponde a essa fase) e os tais “novos escribas” podem ser verificados na ficha técnica acima apresentada;
- O jornal ter entrado definitivamente em decadência passado pouco tempo dessa “ressurreição”, novamente devido à mudança radical da maioria dos colaboradores, até ter desembocado na revista mainstream que é agora... (não me lembro se chegou a haver algum hiato de publicação neste percurso final...)
- Ter atirado os jornais todos para o lixo depois de ter deixado a casa dos meus pais :-(
(o mesmo tendo acontecido mais tarde – duas vezes o mesmo erro, arghhh!) com os suplementos do Público que tinham os escritos de Fernando Magalhães, depois de os ter passado todos, à mão, para Word, aqui já na minha casa e mais recentemente, supostamente por falta de espaço :-( outra vez!





THE PEEL SESSIONS
RÁDIO, TRANSMISSÃO AO VIVO (artigo)

O início dos anos 80 foi assombrado com uma frase, assinada pelos Buggles, que dizia «Video Killed The Radio Star». Brincar à futurologia, fazendo-a passar por etapa histórica já pretérita, revelou-se fatal para o grupo. Enquanto eles desapareciam ou davam massagens cardíacas aos moribundos Yes, outros artistas demonstravam que os dois media não eram tão inimigos quanto os pintavam. Muitos tornavam-se estrelas da Rádio depois de protagonizarem um bonito Vídeo. Ou, em sentido inverso, conquistavam o Vídeo só depois de terem explodido na Rádio. E aqui, como sempre, estava John Peel.



John Peel nasceu exactamente em 30 de Agosto de 1939 (como pode ser verificado no Trivial Pursuit, versão inglesa), quatro dias antes do início da II Guerra Mundial e viveu parte da sua infância em Burton, Cheshire, com os dois irmãos, Frank e Alan, e a mãe. Só conheceu o pai, que era soldado das tropas de Sua Majestade, aos seis anos. Depois mudou-se para Shrewsbury, no Norte do País de Gales, estudou, namorou e ouviu muita telefonia.
Foi durante os anos 60 que Peeely, para os íntimos, John Ravenscroft de nascimento, começou a agitar as ondas radiofónicas com as suas escolhas vinílicas muito especiais. Primeiro nos States, numa estação em frequência modulada algures no eixo Los Angeles / San Francisco. Depois em Inglaterra, na piratíssima Radio London, onde John Peel começou a divulgar no seu programa «Perfumed Garden» alguns nomes que, mais tarde, se revelariam fundamentais para a história da pop – Cream, Bowie, Zappa, King Crimson, Pink Floyd e mais um punhado deles.
Já no final dos anos 60, e na Radio One da BBC, Peely iniciou a sua mais longa maratona, o «John Peel Show», um programa que, para além de continuar a intensa divulgação da música mais nova e desconhecida (o movimento Punk, por exemplo, deve-lhe quase tudo), recuperou uma prática radiofónica comum nos anos 30/40 mas que andava então mais ou menos perdida: a transmissão de concertos ao vivo de músicos e grupos ainda arredados dos grandes circuitos editoriais e promocionais.
Nos seus «shows», John Peel apresentou aos ouvintes – algumas dezenas de milhar, nas emissões menos felizes – muitos grupos que viveram o mais alto momento de glória, exactamente, no dia da transmissão do seu peeliano espectáculo, para depois caírem no mais profundo dos esquecimentos. Quem é que já ouviu falar, por exemplo, nos Dawn Chorus and The Blue Tits, Angels 1-5, Autumn 1904, Boots For Dancing, Sophisticated Boom Boom ou Agony Column?... Mas muitos outros grupos, depois alcandorados aos píncaros da glória, usaram o programa e o apadrinhamento de Peel como um primeiro trampolim para grandes aventuras. As suas «Peel Sessions», um programa semanal transmitido ao vivo, em directo e sem rede, é ainda considerado como o grande baptismo de fogo das bandas que desejam debutar perante um grande auditório radiofónico. E contam as lendas de Manchester que o tema «Transmisson», da Joy Division, é secretamente dedicado a estas emissões.

A Joy Division, aliás, é uma das dezenas de grupos mais ou menos míticos das décadas de 60, 70 e 80 que participaram no programa de Peel. Os leitores mais historicistas podem verificar isso mesmo na lista que se segue e ficar desde já com mais laguns nomes (e as respectivas datas de emissão): Jimi Hendrix Experience (15/12/67), Bonzo Dog Band (29/7/69), Syd Barrett (24/2/70), T. Rex (27/10/70), Nico (2/2/71), Robert Wyatt (10/9/74), Damned (30/1176 e 10/5/77), Buzzcocks (7/9/77), Wire (18/1/78), Siouxsie and The Banshees (29/11/77 e 6/2/78), The Fall (27/11/78), The Cure (4/12/78), Joy Division (3/1/79 e 26/11/79), Gang Of Four (9/1/79), Specials (23/5/79), Madness (14/8/79), Echo and The Bunnymen (15/8/79), Birthday Party (21/4/81 e 2/12/81), New Order (26/1/81 e 1/6/82), Associates (28/4/81), Smiths (18/5/83), Billy Bragg (27/7/83). Este rol de existências, que poderia ser bastante mais extenso, não se deve a um exaustivo trabalho de pesquisa em arquivos e fichas informatizadas. Basta consultar as listas de discos importados pela Anónima para ficarem mais bem elucidados sobre a quantidade e variedade de pedras preciosas – umas mais polidas e brilhantes do que outras, naturalmente – disponíveis no catálogo Strange Fruit, uma mini-editora dependente da British Broadcasting Corporation que se dedica quase em regime de exclusividade à edição das «Peel Sessions».

Inicialmente mais virada para a publicação de EP com quatro temas por cada grupo ou artista (exactamente o mesmo número de temas que, geralmente preenche uma sessão), a Strange Fruit está agora a praticar também a gloriosa táctica do rendimento do peixe, publicando álbuns que agrupam em cada disco duas ou três sessões do mesmo grupo. Das colecções «Strange Fruit Double Peel Sessions» e «The Peel Sessions Albums» já circulam por cá alguns discos com gravações dos Stiff Little Fingers, A Whitness, Only Ones, Undertones, That Petrol Emotion, Gang Of Four e mais alguns. Quase todos eles, para além do seu óbvio valor histórico, apresenatm como característica comum o possuírem pouquíssimos truques, embelezamentos e limadelas equalizadoras de estúdio, o que lhes confere uma aura de autenticidade que costuma estar arredada até dos tradicionais registos «ao vivo». John Peel e John Walters, os responsáveis pela manutenção da pureza rude das gravações (já tentada por Peel, no início dos anos 70, na mítica Dandelion Records, que fundou juntamente com Clive Selwood), conseguem assim preservar com paciência e carinho um conjunto de gravações únicas, todas elas com temas exclusivos ou versões diferentes das conhecidas. Quer dizer, os dois Johns põem-nos completamente em suspenso e sem vontade nenhuma de rodar o sintonizador daquele electrodoméstico a que nós, portugueses, chamamos, por comodidade e muita preguiça, Rádio...
António Pires


NOCTURNAL EMISSIONS
VIAGENS NA TERRA DELES (entrevista)

Com a súbita noção, talvez um pouco tardia, de que a poluição estaria a causar danos irreversíveis ao nosso planeta, deu-se uma revolução com o intuito de encontrar soluções viáveis para proteger esse frágil ente que é o planeta Terra. Um primeiro resultado foi o surgimento de organizações do tipo Greenpeace bem como a organização de concertos de beneficência.
Sem pertencer a qualquer tipo de movimento, também os Nocturnal Emissions entraram numa ‘de natureza’, no entanto, para eles, mais importante que proteger, é viver em constante comunicação com o ambiente e toda a vida que nos rodeia. De seguida focaremos alguns desses aspectos (e não só) dos cerca de dez anos de vida deste projecto britânico.



- Nigel, antes de focar o teu trabalho nos Nocturnal Emissions gostaria primeiramente de saber o porquê da formação de duas editoras distintas para lançar os teus trabalhos – a Sterile Records e, mais recentemente, a Eatrthly Delights. Fala-me um pouco da primeira.
Nigel Ayers – A Sterile surgiu basicamente edições dos Nocturnal Emissions. Nós tínhamos material para lançar e como é mais fácil editar algo quando se tem uma etiqueta, resolvemos criar uma entidade associativa. Aquando da criação desta associação começámos a ser abordados por outras pessoas (ou artistas, se quiseres) com material suficientemente interessante.
Algum tempo mais tarde descobrimos que os nossos trabalhos, se bem que duramente criticados pela imprensa musical, chegavam a pessoas que realmente gostavam deles, não só pelo tipo de música mas também, e principalmente, porque conseguiam perceber os nossos objectivos e filosofias.
Quando edito um disco ou qualquer outro tipo de material é produto das nossas obsessões e ideias, é como que uma visão que se forma, algo que quer comunicar connosco. Basicamente tentamos recolher todo o tipo de ideias, obsessões e pensamentos que temos e analisá-los de todos os ângulos possíveis; posteriormente, ao desenvolvê-los, encontramos eventualmente algo de concreto.
Nestes últimos anos, com o trabalho de editar e produzir material musical descobrimos que, à semelhança do processo de colagem que utilizamos na nossa música, também a nossa mente trabalha do mesmo modo, pelo método de associação de ideias; apercebemo-nos assim que ao fazer este tipo de trabalho estamos directamente envolvidos na estrutura da nossa consciência. Deste modo o que fazemos está intimamente relacionado com a nossa visão do mundo, dando-se então a construção de uma filosofia, só nossa, totalmente diferente das outras filosofias (que não têm nada a ver com este mundo).
- Logicamente as primeiras edições nesta editora foram dos N.E., mas havia de início algum plano para lançar outros artistas, ou existe algum outro objectivo?
- A Sterile Records foi formada com o intuito de tornar mais fácil a edição dos discos dos N.E. e também de dar a conhecer o material musical, independentemente do seu autor. A editora surgiu apenas para divulgar a música que não estivesse disponível no mercado, servindo também como ponto de referência para a nossa música.
Claro que ao formar uma companhia tivemos que lidar com todo o tipo de organizações industriais e todas as burocracias inerentes. É um preço a pagar, mas só assim conseguimos trabalhar o mais profissionalmente possível.
O nosso principal objectivo é o de tentarmos ser diferentes. Com todas as outras editoras é fácil prever o que vão lançar, pois basicamente regem-se por políticas de mercado, e ainda pior que isso é o facto de estarem sempre a olhar em volta e ver o que as suas rivais fazem. O nosso objectivo é o de produzir material que gostamos de escutar e que não se faz por aí aos pontapés; por isso em vez de copiar outras companhias e contratar artistas já ‘usados’ por outras editoras, nós juntamos pessoas novas, pessoas que nunca editaram qualquer obra musical; por essa razão cada edição é uma experiência nova.
Com o passar do tempo descobrimos que muita gente nos respeita nos respeita pelo modo como fazemos as coisas. Nunca editamos em grandes quantidades nem reeditamos material antigo, se bem que por vezes seja difícil recusar devido à grande procura, tanto por parte de etiquetas independentes como por parte de coleccionadores.
Outra tristeza das grandes editoras é a sua atitude na divulgação dos seus produtos: procuram um artista génio (?) para produzir as obras musicais e o público, muito agradecido, aceita a imagem, as ideias, e tende a copiá-las no estilo de roupa, na maneira de agir, etc.; tudo criado por uns fabricantes de pseudo-estrelas. Isto traduz uma alteração constante no modo de vestir, agir, falar, ao mesmo tempo que transforma a vida das pessoas num aborrecimento constante, mecanizada e compartimentada. É isto que a TV e a indústria musical fazem de melhor. O mais comum na música em geral é que cada novo produto é o mesmo que outro qualquer anteriormente produzido, apenas modificado em algumas partes; ou então é algo que surgiu há alguns anos e foi retransformado e dado uma nova designação, como House-isto ou House-aquilo, ou ainda New-isto ou New-aquilo. Nós tentamos reformular toda essa ideia e chamar a atenção para o que se passa no mundo real, em vez de criar esta ilusão cultural que se torna cada vez mais fantasmagórica.
- Há cerca de três anos surgiu a Earthly Delights, também criada por ti. Porquê uma nova editora se já tinhas a Sterile?
- A intenção da E.D. é a de editar trabalhos maravilhosos, mágicos, terrestres («earthly»). Focamos essencialmente a música instrumental.
A E.D. tem uma referência histórica e uma espécie de visão intempestiva. Enquanto a Sterile se encontra mais no campo da farmácia, engenharia biológica, genética, microelectrónica e computação, a E.D. incorpora tudo isso no entanto relaciona-se com a entidade humana e a sua ligação com o planeta sendo mais espiritual.
A S.R. utiliza o poder da negação e da negatividade, usa a energia do ambiente hiper industrial levando-o ao extremo. À medida que as culturas se tornam cada vez mais organizadas o conhecimento vai-se acumulando, ficando tudo concentrado numa esfera confusa. Nós utilizamos a energia proveniente daí e a sua negatividade; basicamente a S.R. é um exorcismo, uma purificação, utiliza toda a porcaria, todos os elementos estranhos do ambiente cultural e expulsa esses demónios, mas para expulsar esses demónios é preciso identificá-los, dar-lhes nomes, olhá-los friamente, é esse o constante objectivo da S.R.
- Sim, mas a minha pergunta era acerca da Earthly Delights...
- Sim. Bem, a Earthly Delights é uma espécie de redescoberta da pureza proveniente do isolamento, da cidade, da intensidade do meio ambiente humano. É muito uma editora pessoal, tem muito a ver com as relações humanas, especialmente com as ligações que temos com os residentes e os zeladores deste planeta e é também uma celebração desse laço. Os discos que pretendemos lançar na E.D. tendem mais para os músicos a solo, música instrumental e música feita a partir de sons naturais, possuindo uma espécie de suavidade e sendo muito mais de reflexão. É isso que esta editora representa: a harmonia que existe entre o corpo humano e o ambiente planetário, é o regresso à Natureza, o regresso ao campo, às montanhas, numa aventura visual.
- Então o estilo musical mudou completamente?
- O que aconteceu nestes últimos tempos foi que nos mudámos da cidade para o campo, para ambientes mais saudáveis, mais rurais. Resumindo, a E.D. é o pacote resultante dessa nova visão, que inclui a criação de um tipo de música completamente novo, pois faixas sonoras deste género nunca foram feitas previamente.
Há algum tempo alguém me perguntou que tipo de música eu escuto hoje em dia e eu fiquei sem resposta; o que escuto é o piar das corujas perto da minha janela, é o som dos pardais, escuto também música sacra na «Radio 3» (estação de música clássica na BBC).
Outro facto na Earthly Delights é que está intimamente ligada à ointura de Hieronymus Bosche - «The Garden Of Earthly Delights». O seu trabalho, e o de Bruegel sempre me fascinaram. A sua forma de ilustrar ideias de linguagem, todos os detalhes na sua pintura, todas as anedotas não são mais do que uma representação do mundo bizarro em que ele viveu. Está tudo carregado de significado, no entanto, a maioria das vezes não conseguimos desvendar a história completa. Seria Bosche um membro de uma seita sexual ou limitar-se-ia simplesmente a representar a ortodoxia religiosa decorrente na Holanda de então? Acho tudo isso extremamente atraente. É como que uma invocação.
- Sendo responsável por duas editoras não será o trabalho duplicado? É muito difícil dirigir uma editora no Reino Unido?
- As dificuldades em dirigir uma (ou duas) editoras em Inglaterra não são particularmente de logística. O nosso quartel-general já não é em Londres, e isso veio trazer alguns problemas: quando aí estávamos era fácil descobrir um estúdio, ter acesso a uma fábrica de discos, organizar os negócios todos; vendo desse ângulo, não é difícil gerir uma companhia discográfica, mas no campo financeiro, aí sim, pois parece que estamos a lidar com bandidos todo o tempo. É extremamente caótico, existe uma paranóia selvática a todos os níveis, gente sem escrúpulos envolvida no negócio. Prefiro não me envolver em tais «lutas» utilizando um método muito eficaz, o da venda por assinantes, isto é, distribuir o meu material por via postal evitando desse modo toda essa disputa.
Nestes últimos quatro anos assinámos um contrato de fabrico e distribuição com a Red Rhino, o que, por um lado, foi bom, já que assim os nossos produtos eram mais eficazmente divulgados, eventualmente tornámo-nos conhecidos em lugares onde nunca tínhamos chegado anteriormente (como por exemplo, Portugal), e digo eventualmente porque requer sempre algum tempo para se lidar com o negócio de uma maneira eficaz. Quando a Red Rhino faliu, há cerca de um ano, voltou tudo ao início e, nessa altura, perguntámo-nos se deveríamos continuar ou não, e qual o propósito deste projecto. A tragédia da R.R. trouxe uma coisa boa: fomos contactados por muitas distribuidoras dispostas a trabalhar connosco; no entanto preferimos continuar como no início, pois gostamos de poder controlar o que lançamos, e com a Red Rhino isso não acontecia. Prefiro editar um disco em número reduzido e ter algum controlo sobre ele, e ter também algum feedback, do que lançar milhares de cópias; é por essa razão que pomos o nosso contacto em todos os nossos discos. Graças a isto fomos contactados por algumas editoras do nosso agrado e, inclusivamente, os nossos novos trabalhos sairão numa etiqueta germânica – Parade Amoureuse – e noutra Norte-Americana – The oooze (O LP/CD numa e algumas cassettes noutra). Em todas essas produções estará o nosso contacto para aqueles que estiverem interessados em adquirir material mais raro bem como para a aquisição de outros produtos para além de discos. Penso que este é o único meio de continuar a produzir discos.
- Os Nocturnal Emissions contam já com cerca de dez anos de carreira. Surgiu este projecto antes ou depois da editora? E quais os seus membros?
- Nocturnal Emissions é essencialmente um projecto multimédia formado antes da Sterile Records e que engloba esta, a Earthly Delights e muito mais. N.E. foi também a primeira conspiração por detrás da qual estavam todos os seus membros (figuras espectrais e o produto da imaginação de alguém). As pessoas integram o projecto, colaboram nalguns discos e vídeos e depois desaparecem. Os N.E. são uma espécie de manipuladores invisíveis que ninguém sabe exactamente quem são e o que fazem. Aparecem nuns sítios e numas histórias e noutros sítios e noutras histórias.
É difícil dizer exactamente quem faz parte do projecto. Existe uma lista interminável de colaboradores, mas se estes estiveram realmente por detrás da produção dos discos, ninguém sabe...
São pessoas com um tipo de contrato num ou noutro disco...
- Existe algum objectivo específico dos N.E.? Significará o nome algo de importante?
- A meta principal dos Nocturnal não é uma só, vai tomando forma aos poucos, mostra-se através da música e o único método para descobri-la é escutando-a, perceber os textos (quando eles existem) e examinar minuciosamente os artefactos editados pela etiqueta.
Suponho que o nome tem uma conotação sexual e medicinal, e talvez alguma relação com radiação e transmissão. É um bom nome para um grupo media. Tem também algo a ver com sonhos, elementos que acontecem no escuro, o lado escuro da experiência...
- Bom, penso que abordámos os factos mais importantes destes teus projectos. Vou terminar perguntando quais os planos para o futuro.
Os N.E. têm um LP/CD pronto para sair na etiqueta Germânica Parade Amoureuse, o seu nome é «Stoneface» e a versão em compacto inclui também o álbum «Spiritflesh». É uma gravação baseada num local próximo daqui.
Perto da fronteira do condado de Staffordshire há uma área que o povo denomina ‘The Roches’, trata-se dum afloramento rochoso e por isso muito alto. Nesse local as rochas t~em todas formas extremamente estranhas, e muito semelhantes a caras humanas e a animais. Existe também muita energia geomagnética aí. O mais curioso é que nesse mesmo local há uma colónia de pequenos cangurus desde 1930; por vezes, os automobilistas que passam pelo local ficam completamente estupefactos com o que vêem. Uma das rochas, semelhante a uma cara humana chama-se ‘The Winking Man’ (O homem que pestaneja); diz-se que por vezes, quem passa por ali, vê a figura pestanejar.
O disco é inspirado nesse local estranho. O que se verifica aqui é a influência do ambiente no Homem e vice-versa; o feedback existente entre as pessoas e o ambiente; como as pessoas reagem a diferentes situações e lugares. O disco é sobretudo isso e ainda sobre a rede de energia que constitui o nosso corpo e o mundo à nossa volta, como essas energias se inter-relacionam, etc. «Stoneface» representa a harmonia entre o homem e o ambiente.
Estamos também a compilar o terceiro Tratado dos Nocturnal Emissions. O Tratatdo é uma série de trabalhos visuais e informativos sobre o nosso projecto. Espero a sua disponibilidade para muito breve.
Outro trabalho em curso é o da compilação. Inclui alguns artistas novos, tanto na Sterile Records como na Earthly Delights. É muito material, por isso ainda não sabemos em que companhia será editado; talvez uma parte saia na S.R. e outra na E.D.
Para finalizar, vamos lançar um disco comemorativo dos dez anos dos Nocturnal Emissions («Beyond Logic Beyond Belief») e de edição limitada a 250 exemplares. O preço será de 26 libras e a venda far-se-à apenas pela via postal. E é tudo por agora, espero que utilizes esta conversa de algum modo...
- Claro...

Algum tempo passou sobre esta entrevista, no entanto não houve qualquer alteração de maior nos planos de Nigel. De facto, tudo tem estado a correr bem e os discos referidos acima (o LP/CD «Stoneface» e o álbum de edição limitada «Beyond Logic Beyond Belief») já se encontram disponíveis no mercado. Quanto às cassettes, é possível adquiri-las através da excelente editora Holandesa Staalplaat, editora essa que teve um merecido destaque no BLITZ nº 251 de 22 de Agosto de 89.
Foram dez anos de trabalho, incluindo a edição de 13 LP’s na Sterile e 5 na Earthly Delights, bem como inúmeras cassettes em inúmeras editoras. Esperemos que o trabalho continue, e por muitos mais anos.
CONTACTO: S.R./E.D./N.E.
c/o Nigel Ayers
P.O.Box 1QG
Newcastle-Upon-Tyne NE99 1QG
England

Fred Somsen



Jorge Reyes
«Niérica»
«Na realidade quotidiana, o tempo é a lei do mundo e a ideia de algo sobrenatural, fora do mundo, está ligada à detenção do movimento» diz-nos Jorge Reyes, experimentalista mexicano de ambientes etno-techno ou, simplesmente, de New-Age. «Niéricas» são quadros Hulcholes 8indígenas mexicanos), cheios de cor e símbolos ancestrais, que mais que objectos decorativos, são uma representação plástica do espelho do sobrenatural, do que há por detrás das aparências. A própria palavra «Niérica» significa um espelho entre dois mundos: o do sonho e o da realidade. «Niérica» é o quarto disco de Jorge Reyes e foi gravado no ano passado em Dusseldorf (RFA), num estúdio computadorizado de 48 pistas. Ele foi assim apelidado porque propõe uma série de imagens sonoras que encerram todas essas conotações mágicas.
Melodias obscuras, de uma subtil complexidade de cariz improvisado/experimental, «Niérica» faz-nos sentir ambientes de tradições e paisagens. Mas não se pense que esta música é folclórica, aborrecida ou difícil de escutar, ela é simplesmente prolífera em constantes mudanças de verdades impressionates (ouça-se, por exemplo, «Danza de los Peyoteros»), onde se poderá encontrar bonitas e alegres convulsões sonoras («Donde Nadie Lamenta Lo Que Somos»).
A música de Jorge Reyes funde os sons de antigos instrumentos acústicos de vários países com as mais sofisticadas tecnologias. «Niérika» é «a busca de uma identidade de regresso às raízes rítmicas que existem nas comunidades indígenas. Não é uma busca nostálgica mas um regresso a uma identidade para construir o futuro» e é uma forma de manipular a psicoacústica. Através da repetição, do eco e da reverberação, Reyes dá-nos informações do ambiente e da atmosfera onde nasceu a composição. Evoca toda uma geografia musical. Evoca imagens. As encomendas deverão ser feitas directamente a Rotor, Apdo. 18041, 28 080 Madrid, Espanha (1200 pts + gastos de envio).
(Lp, Discos Esplendor Geométrico EGD-019, 1990)
*** (3 estrelas)
Miguel Santos


Sugarcubes
«Planet»
Se bem que o LP «Here Today Tomorrow Next Week» não tenha sido assim tão bem sucedido, na altura da sua edição salientei dois temas, «Water» e «Plante» como os melhores de todo o álbum. Eis que as minhas preces são escutadas e surge um 12” com três versões de «Planet».
Este tema é tão rico como qualquer outra faixa do LP, no entanto essa riqueza incide mais na instrumentação clássica, por isso, ao invés de um som rock (dominante em «Here Today...»), «Planet» é idêntico a uma ilha paradisíaca num mar revolto, possuindo uma beleza e serenidade extremas, onde a voz de Bjork vem dar mais significado.
Nunca é demais escutar «Planet», e o 12” vem-nos poupar o trabalho de recuar a agulha, pois incluindo três versões, uma delas em islandês, enche-nos as medidas c-o-m-p-l-e-t-a-m-e-n-t-e. Bem, talvez não completamente, pois para estragar tudo, o quarto tema - «Cindy» - é semelhante à rockalhada do LP.
Espero que os Sugarcubes continuem por muitos anos a oferecer-nos estas preciosidades. E para quando um 12” com... dez? Sim, dez versões de «Water»?
(12”, One Little Indian, 90)
***(3 estrelas)
Fred Somsen


Chá, Simpatia E Lágrimas Prontas A Explodir
The Teardrop Explodes
«Everybody Wants To Shag The Teardrop Explodes»






A Música Popular, qual amigo traiçoeiro, tem destes pequenos acontecimentos que nos mutilam os sentimentos. E os Teardrop Explodes, bem cedo («Kilimanjaro») me cravaram um gélido e pontiagudo punhal do estilo «Rock ‘n’ Roll em época Punk». Surpreendentemente, não me mataram, mas deixaram-me de coração gelado, perante mais de cento e dez outros projectos musicais que buscavam nos Beatles (afinal eles também são de Liverpool), nos T. Rex e nos Band a chave de ignição para pôr o velho motor das bandas de 2200 cc em funcionamento. E fiquei também irremediavelmente perdido, por tudo aquilo que Julian Cope (velho amigo de Ian McCulloch e de Pete Willie) realizaria posteriormente.
A primeira função dos regressados Teardrop Explodes, tal como aconteceu na primeira metade dos anos 80, é modificar, sem aparente ordem, a apática natureza do homem («Netranil Vavin»), e também o seu meio natural, no sentido de o civilizar por manifestações espontâneas de beleza e de tranquilidade («Terrorist»). Manifestações essas que são veiculadas aos ouvintes-passageiros (adolescentes ou não, mas sempre apaixonados) por emanações soberanas de valores escolhidos pelo mágico (mas muito ambicioso) Julian Cope.
Mas este álbum até que não é completamente novo, ele já foi gravado há oito anos e encontrava-se «perdido» na editora, por motivos comerciais.
«Everybody Wants To Shag The Teardrop Explodes» não é uma adaptação dos Teardrop Explodes aos novos tempos. Aqui, continuam o ritmo dos pneus, os acordes de dó e de fá, as luzes de néon que tínhamos sentido com «Wilder» devidamente embrulhadas em excitantes tecidos de seda e com o entusiasmo próprio de génios em marcha de urgência de T-shirts brancas com ou sem motivos decorativos à antiga maneira da New-Wave.
Apaixonado cada vez mais por Iggy Pop, e decidido a não se tornar um Syd Barrett aos solavancos, Julian Cope tem vindo a assumir-se como um criador espirituoso, que se rodeia de rochas e cimento armado para seu mais espontâneo e belo brilho. Assim, encaramos o seu empenhamento com os Teardrop Explodes interrompendo o projecto a solo (porque idêntico) e encontrando neste disco a potência de mais de 10 anos de quem «ou toca Rock ou morre».
A existência de pontos de contacto com os álbuns anteriores da banda, e com discos a solo de Julian Cope, motivaram Jon Wilde, do «Melody Maker», a afirmar que o presente disco é um «documento fascinante». Não irei tão longe, mas reafirmo que estranhamente (quando comparado com projectos rebaptizados recentemente) este disco está pleno de entusiasmo.
(LP, Fontana / 1990)
*** (3 estrelas)
Fernando Santos Marques


Skinny Puppy
«Rabies»
Um caso de incompreensão! A extrema complexidade e opressão que transpiram dos seus discos repelem os ouvintes impressionáveis, aqueles com os tímpanos frágeis e as ideias tão escorreitas que o mínimo contacto com música «esquisita» (pedindo emprestado o termo de um colega) pode iniciar uma feroz guerra santa: o senso comum, também chamado, por vezes, senso-tipo-Som da Frente» vs. A música esquisita. O senso comum segura uma placa onde se lê: «A música esquisita não entra à primeira e é feia, portanto não vale a pena insistir.» Fuck o senso comum!
A primeira exposição aos Skinny Puppy pode ser violenta, e os interessados terão que se obrigar a suportar mais doses até conseguirem avaliar bem a música que se lhes apresenta. Som a som, perfila-se um ambiente que rigorosamente mais nenhum grupo (defunto ou em actividade) consegue criar: foi assim com «Bites» (85), «Mind: The Perpetual Intercourse» (86), «Cleanse, Fold and Manipulate» (87) e «viviSECT VI» (88) – a primeira audição é sempre de vida ou de morte.
«Rabies», quinto LP, revela no seu íntimo uns Puppies mais normalizados, afastados de si mesmos mais do que seria desejável... Se «viviSECT VI» tinha representado o auge da complexidade sonora do grupo, «Rabies» inicia um claro declínio nesse domínio. A frase rima mas não tem piada nenhuma. Os sons, esses, começam também a rimar, a fazerem sentido, quando anteriormente pareciam ser mutuamente incompatíveis. Dois exemplos: enquanto nos discos anteriores tínhamos que suar muito para discernir a guitarra, totalmente distorcida e camuflada, agora é ela a descobrir-nos, revelando por completo os contornos da sua silhueta; depois a batida, já substancialmente despojada da sublime dissonância que a caracterizava, de modo que é algo frustrante a audição de dois ou três temas, nomeadamente «Hexonxonx», em cujo ritmo os Puppies perdem por completo a sua identidade. Identidade preservada em «Rain» e «Charalone» dois aterrorizantes ambientais, imprescindíveis no trabalho do grupo e ainda mais neste álbum, tornando-o heterogéneo.
A agressividade é agora mais directa, mais vulgar, mais dependente de uma guitarra banal do que de uma pilha de sons atirados para cima de nós. O que nos desarma (e aniquila os argumentos) é ver que essa guitarra banal resulta perfeitamente em «Tin Omen» (também editado em maxi) e «Fascist Jock Itch», temas com uma intensa vitalidade mas que aproxima o grupo do conceito de «rock» mais vulgar – quando o próprio Ogre já mandara à merda Tom Ellard dos Severed Heads por este dizer que os Skinny Puppy tinham uma atitude mais rock do que o seu grupo! Além disso, ambos os temas constituem exemplos paradigmáticos da sonoridade techno-metal que obceca os Numb e Ministry. Em moldes muito similares...
Ogre prossegue na sua cruzada anti-injustiça, denunciadora de calamidades fatais para a vida anima; a estupidez humana é uma constante mas, paradoxalmente, a vulnerabilidade humana também é um facto: o homem explora o homem, mas o homem também é explorado pelo homem!
A voz seduz, como sempre, e os tons de agressividade acentuam-se em «Rabies». Ogre explode em raiva em «Fascist Jock Itch» e atrai-nos inapelavelmente com um refrão belo (sim, porque não diz^-lo?) em «Worlock»!
Como evitar o fascínio? Eis a questão que nunca ocorreu a Shakespeare... Eis também porque esta crítica pode ser suspeita: os Puppies exercem tal fascínio que as minhas opiniões podem muito bem ser distorcidas...
«Rabies» é o pior álbum do grupo! E depois?
Não gostar do seu trabalho é uma opinião, mas ignorá-los à priori é um crime!
(LP/CD Nettwerk/Capitol, 89, imp. Contraverso)
**** (4 estrelas)
José António Moura


Lowlife
«Godhead»
Os Lowlife são um exemplo típico de banda que desenvolve todos os seus temas em torno de uma única fórmula, adoptando a pose incorruptível de «grupo-que-não-é-e-nem-quer-ser-famosos». Para uns, isto revela um estilo muito vincado, para outros, apenas falta de imaginação. A realidade é que sem serem brilhantes conseguem compor bons temas, geralmente à média de dois ou três por álbum.
«Godhead» não foge a esta regra, vincada pelos notáveis «In Thankful Hands» e «I The Cheated». Ao longo do resto do disco limitam-se a desempenhar melhor ou pior o que já tinha sido mostrado em trabalhos anteriores, com a base sonora assente nos jogos voz-baixo-bateria, com as guitarras no papel de figurantes e com referências notórias (salvaguardadas as distÂncias), aos Cocteau Twins do período «Garlands». De resto, isto não será de estranhar uma vez que Will, o líder dos Lowlife, foi o baixista que acompanhou Liz Frazer e Robin Guthrie na gravação do seu primeiro álbum.
Quem conhece a obra anterior dos Lowlife já não prestará a mínima atenção a «Godhead»; Quem conhece apenas o álbum anterior, «Diminuendo», sentir-se-á burlado. Quem não os conhece, não lhes fica nada mal passar os ouvidos por este disco.
Para os curiosos ou caçadores de moradas, ela aqui fica: Lowlife Management, Nightshift Records c/o 21 A Alva Street, Edinburgh EH2 4PS, Scotland.
LP, 1989, Night Shift Records
**,5 (2 estrelas e meia)
Pedro Portela

A Split Second
«Kiss Of Fury»
Regressaram os magos da música de dança electrónica! Ritmos desenfreados, batidas incontáveis, energia transbordante de vigor, em bombardeamentos sonoros de estímulos físicos e de vontades ocultas.
Chrismar Chayell e Marc Ickx, o duo que comanda a avalancha sonora de nome A Split Second, encarregou-se de tornar «Kiss Of Fury», o seu terceiro álbum de originais, um sucessor à altura de «From The Inside», o anterior LP que, tal como este, reúne uma autêntica colectânea de hits de dança, dentro do estilo inconfundível centro-europeu. Pleno de letras ambíguas e irreais, de ambientes frios e computorizados, cuja responsabilidade, já longínqua, vem de projectos pioneiros como os D.A.F. ou Cabaret Voltaire.
Para um estilo, que se repete todos os dias a si próprio e que quase consegue torrar a nossa paciência até aos limites, este ainda é um disco que se destaca da mediania, que consegue ser dançável a 100 por cento, sem ser New Beat, e que, consegue atingir uma identidade própria, dentro da mistura cultural e da confusão de influências em que se baseiam todas as bandas belgas.
Como único senão, o facto deste álbum ter tornado completamente inútil o maxi que o antecedeu - «Firewalker», uma vez que os seus dois temas estão aqui incluídos, em versões muito semelhantes e igualmente extensas.
Os A Split Second são, de longe, os melhores dentro do seu género. Batem aos pontos Front 242, Nitzer Ebb, familiares e amigos, e tornaram-se totalmente indispensáveis para os aficionados das movimentações nocturnas, das pistas de dança trepidantes e de todas as dinâmicas que surgem depois do sol posto.
(LP/CD Antler Subway, 1990)
***,5 (3 estrelas e meia)
João Correia


In The Nursery
«Counterpoint»
Parece que as compilações estão na moda. Felizmente algumas delas são dotadas de excelente qualidade, como esta.
‘Counterpoint’ é uma colecção resumida da carreira  dos In The Nursery, um projecto britânico que actualmente produz um género musical muito próximo do clássico. Por essa razão são frequentemente designados como ‘Wagners do séc. XX’. Mas nem sempre foi assim, e este disco mostra isso mesmo.
Com os temas de 1984, ‘Sentient’ e ‘Iskra’, verificamos que os ITN possuíam um som extremamente militarista, muito agressivo e isto devido à predominância das percussões, relegando para segundo plano todos os outros instrumentos (no entanto, também o baixo é extremamente forte aqui, mas isso só vem dar mais ênfase Às percussões).
Como a evolução faz parte de todos nós, em ‘Breach Birth’, ‘Workcorps’, ‘Twins’ e ‘Joaquin’, se bem que as percussões ainda existam em grande quantidade, foi dada mais atenção à secção electrónica do grupo, resultando num meio caminho entre o militarista inicial e o clássico da actualidade. Na verdade esse classicismo só é atingido muito mais tarde (no tempo, e não no disco), em temas como ‘Blind Me’, ‘Elegy’ e ‘Libertaire’, onde se atinge o climax. Nestes já surge uma percussão leve e límpida, uns ‘samplers’ de instrumentos clássicos também calmos e bonitos e até mesmo uma suave voz feminina, não tão imperceptível como uma Liz Fraser mas mais com a fragilidade característica de uns Bel Canto.
É realmente interessante testemunhar toda a grande evolução do projecto num só disco, e é por isso que ‘Counterpoint’ é majestoso, mas não só! Este álbum é também uma excelente peça para aqueles que desejam conhcer melhor um projecto que tem vindo a ganhar fama pela Europa fora. Para os admiradores de longa data fica um pequeno aviso: se bem que ‘Counterpoint’ tenha muitos temas previamente editados, alguns mesmo como temas-extra nos CD dos longa-duração (‘Twins’, ‘Stormhorse’ e ‘Koda’), não deixem de aproveitar esta edição ao máximo, principalmente porque, para além de conter os temas acima mencionados, inclui faixas raras editadas em também raras compilações.
(LP/CD, Sweatbox, 89, Imp. Por Contraverso)
**** (4 estrelas)
Fred Somsen

Poesie Noire
«Love Is Colder Than Death»
No princípio de 1989, os Poesie Noire afirmavam, através de Jo, a sua «besta negra»: «lutamos contra o instrumento mais convencional – a guitarra – e tentamos chegar a uma configuração que de um modo ou outro é única. Não nos envergonhamos ao dizer que usamos sequenciadores, computadores rítmicos e sintetizadores. O que é importante não é o modo como tocamos mas o que tocamos. Apesar de tudo, estamos na era do computador...» e a pretenciosa conversa continuava a té o mandarem calar, altura em que se despediu com um «Ninguém nos vai agora poder parar».
Há músicos assim. Ambicionam mais do que aquilo que as suas faculdades lhes permite.
Mais do que os seus próprios sonhos alguma vez seriam capazes de sonhar. Estão cheios de um palavreado chavão. «As palavras sempre foram bastante importantes apar mim, não apenas por serem um modo de exteriorizar as minhas emoções, as minhas frustrações, mas eu sinto também que tenho algo a dizer. Não tenho a pretensão de ter uma mensagem para a humanidade, mas certamente sinto a necessidade de provocar algo». Sim, isso provocas:
Um grande bocejo!
«Love Is Colder Than Death», o sétimo trabalho de longa-duração (se contarmos com mini-álbuns), representa, no entanto, uma mudança na linha estética e formal do grupo, que poderá surpreender alguns fans da banda. Praticamente livres de sintetizadores e sequenciadores, o disco está dominado pela guitarra (apesar de processada). Nem samplers agora se ouvem – os trompetes, as flautas, os clarinetes, os violinos, é tudo real, é tudo acústico. Será que os Poesie Noire se fartaram das electrónicas?
Contando com a colaboração na produção de Ludo Camberlin (Neon Judgment, The Weathermen), este álbum consegue mostrar uma vontade transparente nas intenções: fartos das pequenas audiências, agora o que interessa é a internacionalização (por isso o tema-título é cantado em bilingue), as grandes massas anónimas, os cifrões.
São obcecados pela morte e pelo negro. Com certeza, deverão agradar aos ainda fans dos Joy Division, The Mission, The Cure, Sex Pistols ou Sioux. Mas esses devem ter doze anos ou pelo menos não passaram da idade infantil (vá lá, comecem a escrever cartas de protesto)!
(LP/CD, Antler Subway AS 5006, 1989)
*,5 (uma estrela e meia)
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9.11.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (260) - Melody Maker (USA) - Music Magazine - Jornal Musical


Melody Maker

21 de Fevereiro de 1981

preço 25p (UK); $1,75 (USA)

56 páginas, papel de jornal - Quase tudo a preto e branco, excepto capa e duas ou três páginas interiores a uma só cor. (tamanho A3 ou um pouco maior).

Tenho por aqui alguns exemplares deste magazine, ou antes jornal, musical, que, em conjunto com a New Musical Express eram, nos 70s, 80s e 90s, pelo menos, os guias de consulta obrigatória para todos os melómanos mais ousados.
Entre nós tínhamos o Blitz, no mesmo estilo mas com menos conteúdo (páginas)

Aqui fica a capa de um desses jornais.

Um dia talvez transcreva alguns artigos/entrevistas/críticas mais interessantes das MM que aqui venho postando. Interessantes pelos artistas/bandas e/ou pelos colunistas que, entretanto, com o passar do tempo ganharam notoriedade, isto é, viram o seu valor reconhecido ou ampliado.







8.11.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (259) - New Musical Express - Music Magazine - Jornal Musical


New Musical Express

15 de Agosto de 1987

preço 50p

56 páginas, papel de jornal - capa e algumas (+/- 25%) páginas a cores, o resto a p/b. (tamanho A3 ou um pouco maior). Capa em papel brilhante e a cores.

Tenho por aqui alguns exemplares deste magazine, ou antes jornal, musical, que, em conjunto com a Melody Maker eram, nos 70s, 80s e 90s, pelo menos, os guias de consulta obrigatória para todos os melómanos mais ousados.
Entre nós tínhamos o Blitz, no mesmo estilo mas com menos conteúdo (páginas)

Aqui fica a capa de um desses jornais.

Um dia talvez transcreva alguns artigos/entrevistas/críticas mais interessantes das NME que aqui venho postando. Interessantes pelos artistas/bandas e/ou pelos colunistas que, entretanto, com o passar do tempo ganharam notoriedade, isto é, viram o seu valor reconhecido ou ampliado.