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30.4.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (8)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre
17 de Junho de 2005


[44] HERÓIS DO MAR

HERÓIS DO MAR


No meio da euforia editorial que caracterizou o Portugal Pop/Rock de inícios de 80 um álbum destacou-se dos demais e fez história. Apresentou os Heróis Do Mar e com eles conhecemos um verdadeiro sentido de portugalidade em regime pop que ainda hoje tem herdeiros na cena musical nacional

TÍTULO Heróis do Mar
ALINHAMENTO Brava Dança dos Heróis / Amantes Furiosos / Magia Papoila / Salmo / Bailar / Olhar No Oriente / Mar Alto / Saudade
ANO 1981 (edição Philips / Universal)
PRODUTOR António Pinho

T: Nuno Galopim

O Portugal musical de 1980/81 era um caldeirão em ebulição, entusiasmado com a descoberta da composição (e viabilidade no mercado) de uma música pop/rock feita em português. Depois dos sucessos iniciais de Rui Veloso, UHF, GNR, Táxi e Salada de Frutas, novas bandas, novos singles, surgiam a um ritmo alucinante, respondendo a uma procura igualmente ávida. Contudo, entre discos que denunciavam essencialmente um sentido de urgência prático, um acabou por se destacar pela inteligência formal, pela musicalidade atenta, actual e oportuna, pela ousadia estética, inscrevendo definitivamente um real sentido de portugalidade numa linguagem pop/rock. Chamou-se Heróis do Mar e revelou, em 1981, uma das mais marcantes bandas da história da música popular portuguesa.
Já havia antecedentes esteticamente estimulantes entre os elementos do grupo, alguns deles recém chegados da discreta (mas temporalmente consequente) aventura punk nos Faíscas e sua descendência natural nos Corpo Diplomático, banda cujo único e histórico álbum (Música Moderna, de 1979 e ainda por reeditar em CD) apresentava um título que sugeria a chegada de uma ideia de modernidade à pop portuguesa.
Firmes numa intenção política (leia-se ideário filosófico prático e não manifestação partidária) de dotar o país e uma nova geração de uma música “sua”, o disco nasce de longo período de reflexão durante o qual a atenção dos músicos pelos acontecimentos mais recentes da pop internacional se cruzou com leituras sobre a História de Portugal, preparação conceitual para um manifesto que desejou mudar a música portuguesa. E como mudou!
Num tempo ainda ecoando excessos revolucionários e receios perante inevitáveis e marcantes símbolos nacionais, numa altura em que se falava do futuro e parecia esquecer o passado, a música e atitude dos Heróis do Mar catalisou uma verdadeira revolução de mentalidades. Cruzou raízes da música portuguesa (e inclusivamente de África, como se escuta em Saudade) com a linguagem pop do momento, despertando um sentido de orgulho pela identidade cultural que fez carreira depois em diversos projectos musicais nacionais, da Sétima Legião aos Madredeus (vida posterior de Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade, respectivamente baixista e teclista dos Heróis do Mar).

Musicalmente arrebatador perante o restante cenário pop imberbe da época, ideologicamente consequente, colocou no mapa pop uma nova forma de ouvir Portugal). O terror perante certos símbolos (a cruz de Cristo, as fardas), valeu-lhes as suspeitas de alguns. Derrubadas, um ano depois, pelo êxito transversal de Amor.








29.4.17

Fernando Magalhães - A Morte Do Crítico Musical - Homenagem no jornal Público


Público
Cultura

Terça-Feira, 17 de Maio de 2005

Morreu o crítico musical Fernando Magalhães



Fernando Magalhães, jornalista e crítico de música do PÚBLICO, morreu anteontem em sua casa, no concelho de Loures, aos 50 anos, na sequência de uma paragem cardíaca.
Nascido a 5 de Fevereiro de 1955, em Lisboa, licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa, Fernando Magalhães fazia crítica musical no PÚBLICO desde a fundação do jornal (Março de 1990). Era ainda um animador entusiasta de um site de discussão na Internet sobre música, o Fórum Sons, e foi júri de vários concursos de atribuição de prémios de música, como o Prémio José Afonso, da Câmara Municipal da Amadora, do qual fazia parte desde 1994.
Antes de integrar os quadros do jornal, colaborou com os semanários Blitz e O Independente e foi professor de Filosofia em várias escolas secundárias entre final dos anos 80 e início de 90, actividade da qual falava regularmente com saudade. No final dos anos 80 teve um programa onde divulgava música experimentalista na Rádio Universidade Tejo (RUT), ao mesmo tempo que trabalhava na Contraverso, loja de discos que existia no Bairro Alto.
Como crítico musical Fernando Magalhães ajudou a dar visibilidade à música rock dos anos 70, à música popular portuguesa, à electrónica portuguesa, à world music, ao fado, à folk e ultimamente ao jazz. Peter Hammill, o seu ídolo, Gaiteiros de Lisboa, Né Ladeiras, Nuno Rebelo, Nick Drake, Nico, Carlos Paredes, Robert Fripp, Amália, Robert Wyatt, Diamanda Galas, June Tabor, Brian Eno e Fátima Miranda eram alguns dos seus músicos de eleição.
Fernando Magalhães tinha dois filhos, Sofia de 16 anos, e João, de 12.
As datas do velório e funeral serão conhecidas hoje.



Vivo nas palavras
O Fernando pertencia, desde o início, à família que fez o PÚBLICO nascer por entre resmungos e abraços. Ainda pertence, aliás. Trouxe até nós o seu génio (nos dois sentidos), a sua arte de escrever, o seu conhecimento vasto sobre as músicas que amava, a sua boa disposição temperada de ironia. Quando ele começou a rarear na escrita – uma escrita que podia ser genial ou desmesurada, mas nunca medíocre – esboçou-se diante de nós um vazio.
Porque ele revelava-se sobretudo nas palavras, perdia-se nelas, perdia-se por elas: no jornal, nos suplementos, no universo transdimensional da Internet. A 7 de Março de 1990, no número de estreia do VideoDiscos (pai e avô dos posteriores PopRock, Sons e Y), o Fernando escrevia sobre Neil Young mas também sobre a cantora indiana Najma ou sobre o panorama “confrangedor” das videocassetes musicais (muito antes do agora banalizado DVD). Escrevia sobre o que lhe interessava e sabia interessar-nos pelo que escrevia. Não são muitos os que o conseguem e, por isso, nos temas onde era mestre, não terá verdadeiro substituto. Na singularidade da sua escrita, viverá, sempre, a sua imagem humana. E ele não desaparecerá enquanto ela durar.
NUNO PACHECO



Convicção filosófica
Se o Fernando escrevia sobre música era por convicção filosófica. Era daí que ele vinha, era isso que o agarrava à música como expressão superlativa da vida. Ele alcançou esse ponto (sem retorno?) em que se descobre a transcendência, o para lá, a plenitude. Aprende-se, ou vislumbra-se nas grandes narrativas, mas que está para além delas, uma experiência mística que de modo algum cabe nos limites da... academia, ou sequer do quotidiano. Há então que procurá-lo noutro lado, em dimensões mais próximas do sonho e da fantasia e o Fernando reencontrou-a, ou melhor, reinventou-a onde menos se poderia esperar: não na grande arte clássica, mas nas músicas populares e delas decorrentes. Primeiro no rock conceptual e progressivo, depois na folk e noutras músicas de raiz popular, finalmente no free jazz, num percurso de uma coerência e originalidade raras no jornalismo musical português. Que é como quem diz, fez carreira de filósofo escrevendo sobre artistas e idiomas musicais, onde soube entrever a espiritualidade para além ou graças à conotação popular, fazendo-nos do mesmo golpe ouvi-las de outro modo, dando-nos a descobrir o barro místico em que se esculpiu alguma da mais inspirada música de sempre. E também dizia muito mal, com a mesma clarividência e com um humor devastador de toda a música demasiado medíocre, ou estritamente comercial. Para ele não havia compromissos, nem sequer meios-termos, e esse radicalismo frequentemente escandalizou e motivou veementes protestos. No final, podia concordar-se ou não com as suas opiniões, mas uma coisa era segura: pouca gente escrevia em Portugal sobre música de forma tão apaixonada, iluminada e visionária.
LUÍS MAIO



Fragmentos de textos no PÚBLICO
“As palavras, saídas da experiência ou arrancadas ao inconsciente colectivo, que Hammill rompeu a golpes de uma introspecção violenta, são arrebatadoras na exposição, por vezes trágica, do homem apresentado na sua dimensão de divindade aprisionada. Pelo tempo, pela carne, pelo pensamento, pelos outros, por si próprio.”
Sobre Peter Hammill, 19/06/92

“Os Pink Floyd da actualidade são do esterco mais fino e sofisticado que há [...] Não chega a ser música. [...] O ácido esgotou a validade. Lucy aposentou-se e faz tricô em pantufas frente à televisão.”
Sobre os Pink Floyd, 24/07/94

“Estados de alma que tanto exigem, para se fazerem ouvir, do canto panfletário da Internacional Socialista, como se encolhem num balbuciar triste e, por vezes, incoerente, de uma criança ferida. Ou de um louco encarcerado na certeza das suas próprias convicções. De um poço como Rock Bottom não se sai igual ao que se entrou.”
Sobre Robert Wyatt, 19/09/97

“A que dançou iluminada pelas fogueiras do flamenco e separou a voz em dois no throat singing das altas montanhas da Mongólia. A que meditou com os ragas indianos e fez soar os sinos num jardim da China. A que sugou o sangue com um vampiro dos Balcãs e fez a corte ao amor, como o trovador medieval. A que tem a voz das equilibristas e dos palhaços, dos animais e das plantas.”
Sobre Fátima Miranda, 22/07/98

“Os subúrbios da capital inglesa na última década deste século, com o cinzento do cimento polido pela chuva e a vida aprisionada nos reflexos das poças de água das ruas.”
Sobre Richard Thompson, 10/09/99

“Amália possuía essa capacidade rara de se concentrar no ponto exacto onde tudo conflui, se dilacera e floresce. O lugar da cruz.”
Sobre Amália, 07/10/99

“Meira Asher, como Diamanda Galas, é uma figura do Inferno. Nela a Bíblia [...] transmuta-se num livro negro de pragas. Como Diamanda Galas, a israelita profetiza a morte e o caos, revolvendo-se na abordagem de temáticas como a sida, a masturbação feminina e o incesto. Mas enquanto Galas encarcera a ópera, os blues e o gospel no quarto de lua do Romantismo, Meira usa maquinaria electrónica pesada, desfaz-se na podridão e clama que o Apocalipse é agora.”
Sobre Meira Asher, 29/09/00

“Metáfora da infiltração subterrânea, da vitória das trevas sobre a luz, da noite sobre o dia, são obras-primas de pop electrónica, loucura, método e paradoxo. E metem medo.”
Sobre os Residents, 28/09/01

“Ao escutarmos e, melhor ainda, ouvirmos O Mundo Segundo Carlos Paredes sentimo-nos mais sãos e menos sós. Mas essa é a essência da Saudade. Saudade do que somos.”
Sobre Carlos Paredes, 07/03/03

“A velha lua morreu ontem com a nova nos braços. June Tabor traz a eternidade no seu canto. Curioso: a sua voz soa em An Echo of Hooves menos grave. Como se tivesse subido um degrau das escadarias que conduzem ao céu.”
Sobre June Tabor, 02/01/04

(DE ENTRE CENTENAS DE TEXTOS QUE FERNANDO MAGALHÃES ASSINOU NO PÚBLICO AO LONGO DE 15 ANOS, ESTES FRAGMENTOS REFEREM-SE APENAS A ALGUNS DOS MÚSICOS QUE OUVIU APAIXONADAMENTE E, NO CASO DOS PINK FLOYD, TAMBÉM SOUBE DEMOLIR, QUANDO ENCONTROU RAZÕES PARA ISSO.)



leitores
excertos de mensagens colocadas, ontem, num fórum de discussão da Internet em www.forumsons.com, que Fernando Magalhães animava regularmente.

Graças ao Fernando tive a sorte de descobrir muita muita, muita música nova – a sua lista dos melhores discos dos anos 80 acompanhou-me durante anos a fio.
PEDRO SANTOS
[DISTRIBUIDORA FLUR]

Tinha pelo Fernando Magalhães enorme admiração. Adorava a sua capacidade de ser corrosivo, fracturante e eficaz. Quando essas mesmas características recaíam sobre um evento meu não conseguia disfarçar uma certa irritação tal era o brilhantismo do seu texto.
VASCO SACRAMENTO
[SONS EM TRÂNSITO]

Sei que o primeiro texto que me marcou foi a reportagem dele ao concerto-tributo a Feddie Mercury em Wembley. Uma prosa com um humor e uma lata que me deixaram deliciado. Nunca mais perdi o rasto ao jornalista. JG

Era poético, delicado, cínico, corrosivo, delirante, festivo, correndo o risco de ser incompreendido.
NUNO JORGE

Pelas imensas horas de prazer que tive a ler os seus textos, críticas e sugestões (que tanta música me deu a conhecer, sobretudo nos tempos loucos da faculdade) nunca o esquecerei.
FILIPE











28.4.17

Van Der Graaf Generator - Artigo de Fundo + Crítica a "The Box"


DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 20 DE JANEIRO DE 2001
POP/ROCK

VAN DER GRAAF GENERATOR

VISÕES E FICÇÕES



A importante memória dos Van der Graaf Generator é revisitada numa caixa que percorre a obra mais importante do rock progressivo cuja redescoberta faz hoje todo o sentido.

Por oportuno exercício de memória, que poderá ter conhecido importante catalizador de atenções na maneira como o percurso recente dos Radiohead devolveu à ordem do dia alguns nomes do chamado rock progressivo, eis que chega finalmente aos escaparates aquela que parece ser a primeira manifestação de saudável restauração da inesquecível obra dos Van der Graaf Generator, sem dúvida a mais importante e marcante das bandas do seu tempo nesta mesma área.
O simples enunciar da expressão «prog rock» assustou, durante muitos anos, muitas almas que o associaram, sobretudo, à má memória dos subprodutos que gerou. Nomeadamente os tristes depoimentos de uns Yes, Emerson Lake And Palmer e de uns Genesis pós-Peter Gabriel... Afastada das atenções «grossitas», a obra dos Van der Graaf Generator marcou, todavia, o seu tempo. As letras plenas de um misticismo que Peter Hammill sempre cultivou e um inteligente suporte instrumental que nunca mostrou sinais de açúcar desnecessário, rasgaram o seu presente vislumbrando novos patamares de consciência estética, sugerindo uma noção de música acima de fronteiras e convenções que, regra nos nossos dias, era motivo para ditatorial jogo de política de fronteiras na alvorada de 70. O todo da proposta dos Van der Graaf Generator, contra o que nos mostravam então uns Pink Floyd ou Genesis, apontava à essência dos sons, em detrimento dos complementos directos (sobretudo os visuais). A sua música era mais profunda, negra e, sobretudo, desafiante, que a de outros contemporâneos. E hoje, quase 30 anos depois, soa estranhamente familiar e contemporânea. As visões de futuro além das formas, afinal, eram pertinentes.

EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE

As origens dos Van der Graaf Generator remontam a uma viagem de Chris Judge Smith a São Francisco no marcante Verão de 1967. De regresso a Manchester, onde em pouco tempo se viu a trabalhar com o cantor e compositor Peter Hammill e o teclista (então usava-se o termo «organista») Nick Peame. Como nome escolheram um dos que Chris trazia da lista escrita na viagem à Califórnia, Van der Graaf Generator (para abreviar, VdGG: uma máquina que cria electricidade estática)...
Vencida uma etapa de troca de line-up (situação recorrente ao longo de toda a história dos VdGG), que determinou inclusivamente a saída de Chris Judge Smith e Nick Peame, editado um primeiro single por uma etiqueta que não aquela à qual se encontravam ligados por contrato (o que determinou a sua imediata retirada do mercado), o soberbo álbum de estreia «The Aerosol Grey Machine» (que começou a ser gravado como se de um disco a solo de Hammill se tratasse) mostrava interessantes sinais de uma banda que procurava um caminho seu, emergindo directamente das recentes e marcantes experiências no domínio do psicadelismo.
A resposta minimal do público não demoveu os VdGG, que entre 1969 e 1971 gravam três álbuns determinantes na definição da ideia de uma música que parte de estruturas rock para, por processos de desconstrução, procurar contaminações por via da abolição de fronteiras com o jazz e a música clássica. Contra a corrente, a música demarcava-se imediatamente pelo desvio do centro melódico para o jogo entre as teclas dos órgãos de Hugh Banton e o saxofone de David Jackson. Não havia guitarrista protagonista, e a própria presença de um baixista não foi constante em todos os períodos da vida do grupo. Sem a pompa excessiva e flácida de outros contemporâneos, a música dos VdGG evidencia uma consistência invulgar, em muito sugerida pela excelência do edifício instrumental e pela presença vocal de Hammill, cuja teatralidade e escrita determinam uma das forças maiores da visão que na alvorada de 70 era proposta pelos VdGG. O épico «A Plague Of Lighthouse Keepers» (do álbum «Pawn Hearts, de 1971), será talvez o expoente maior da versatilidade cromática e da complexidade interior característica da música dos VdGG e que, ao vivo, fez do grupo uma das grandes referências de palco na alvorada de 70, em absoluta oposição à cenografia mais garrida da contemporânea primeira geração do emergente glam rock.

A SEGUNDA GERAÇÃO

Separados em 1972 depois de um calendário de intensa actividade na estrada, os VdGG reuniram-se em 1975 depois de três anos de percursos a solo. Os três álbuns editados entre 1975 e 76 reflectem uma maturação da ideia original, refinando arestas, implodindo as energias em favor de manifestos de procura de novas formas dentro das formas. Genial, o clássico «Still Life» (de 1976), recolhe os momentos mais significativos desta segunda etapa da vida do grupo. A canção volta a merecer nova abordagem estrutural, e sentem-se claras manifestações de ordem «clássica» nos arranjos com que os novos temas se apresentam. Se a etapa 69-71 definiu as linguísticas mais negras e desafiantes do rock progressivo, o período 1975-77 reflecte a busca de um sentido de «belo» determinado pelas regras reveladas nos dias da pós-adolescência criativa do grupo. É também deste frutuoso período que datam as referências «prog rock» que alguns grupos revisitaram na recta final de 90. Escute-se o tema-título do álbum «Still Life» e todo o percurso dos Radiohead depois de «The Bends» terá nova leitura.
A segunda etapa da vida dos VdGG não foi, como a primeira, alheia a convulsões internas, determinando mudanças de alinhamento. A mais marcante destas mudanças deu-se depois de terminada a digressão de 1976, com a saída (sem substituição possível) do organista Hugh Banton, que levou o colectivo sobrevivente a mudar de nome para Van der Graaf. Com a derradeira formação foi gravado mais um álbum de originais «The Quiet Zone The Pleasure Dome», ao que se seguiu a digressão mundial que os trouxe a Portugal para três concertos em Lisboa, Coimbra e Porto em Setembro de 1977. Desta digressão nasce, depois, o álbum ao vivo «Vital» que assinala, em 1978, o final da carreira do grupo.

CAIXA DE SURPRESAS

A edição desta caixa, que poderá prenunciar a reedição integral da obra dos VdGG (certamente bem vinda numa altura em que muitos novos admiradores serão certamente cativados pelas memórias aqui recolhidas). Mas antes de sonhar com a devolução aos escaparates dos álbuns do grupo, «The Box» permite-nos um olhar representativo do seu legado. Elaborada em estreita colaboração com os antigos elementos dos VdGG (Peter Hammill foi frequentemente consultado no decurso da produção), a caixa propõe mais que uma simples recolha antológica. É certo que parte de uma ordenação cronológica dos eventos, mas evita a simples compilação de faixas dos álbuns e singles dos VdGG. Pelo contrário, usa frequentemente sessões gravadas para a BBC e inúmeros registos de concertos ao vivo (muitos provenientes de velhos «bootlegs», em alguns casos denotando o envelhecimento dos originais, nem todos de restauro fácil) para completar a história que os álbuns (todos reeditados em CD) já contaram. Os velhos admiradores encontrarão nestas raridades e na própria remasterização do som das faixas retiradas da discografia oficial motivos suficientes para justificar o reencontro com a banda que mais interessantes visões «progressivas» nos mostrou em inícios de 70. Falha, apenas, a informação do «inlay» de designa apelativo mas de conteúdo diminuto, sobrevalorizando a listagem integral das datas ao vivo em detrimento de uma biografia mais cuidada e de uma discografia devidamente ilustrada.
Na essência, a obra dos VdGG está aqui devidamente recordada. «The Box» é um monumento a uma memória marcante e um documento de absoluta referência. Venham, agora, as reedições remasterizadas álbum a álbum...
N.G.


VAN DER GRAAF GENERATOR
«The Box»
Virgin / EMI-VC
+++++





DISCOGRAFIA
ÁLBUNS
1968. «Aerosol Grey Machine»
1969. «The Least We Can Do Is Wave To Each Other»
1970. «H To He Who Am The Only One»
1971. «Pawn Hearts»
1972. «68-71»
1975. «Godbluff»
1976. «Still Life»
1976. «World Record»
1977. «The Quiet Zone The Pleasure Dome»
1978. «Vital»
1994. «Maida Vale (BBC Sessions)»
2000. «Introduction»
2000. «The Box»
SINGLES
1969. «People You Were Going To»
1970. «Refugees»
1972. «Theme One»
1976. «Wondering»





26.4.17

António Sérgio - Entrevista


ENTREVISTA   ANTÓNIO SÉRGIO
À FRENTE DO SOM



Vinte anos depois, o regresso Às memórias da rádio e da música de outros tempos numa viagem de regresso ao «Som da Frente» conduzida por António Sérgio, num CD agora editado.
EURICO NOBRE

A última emissão do «Som da Frente» foi para o ar na Rádio Comercial em Agosto de 1993, numa sexta dia 13. Mais de uma década depois da estreia. Mas nem um momento ou outro significam ou início ou fim de absolutamente nada. «O ‘Som da Frente’ não é o António Sérgio. É uma coisa já bem enraizada na década de 80 que já não existe e o António Sérgio ainda cá está para as curvas. É um produto do António Sérgio, como o foi o “Rolls Rock”, o “Grande Delta ou o “Rotação”, numa altura em que eu não tinha a noção, pelo menos nesses primeiros programas, de poder fornecer correctamente esse tipo de produto à rádio mas onde tinha uma vontade enorme de o fazer correctamente», contextualiza o autor do programa.
Com uma carreira cuja origem se perdeu no tempo, confessa que até há uns anos «sentia muita dificuldade em localizar esse tipo de coisas». Agora lembra África, «quando comecei a ver alguém fazer rádio à minha frente. Devo ter visto e aprendido coisas que nunca deixaram o bichinho morrer» e cita a Renascença, já em 67/68, «a altura em que uma pessoa pode dizer que começou realmente, com trabalhos de continuidade vulgares». Mas foi apenas mais tarde que o desenrolar de acontecimentos que fizeram de António Sérgio um dos mais importantes e respeitados nomes da rádio portuguesa das últimas décadas tiveram a sua génese. Até porque cada uma das suas experiências como que se foi encadeando nas outras, apenas mudando o nome e, por vezes, o cenário, mantendo uma atitude e coerência ímpares.

EM ROTAÇÃO
«O meu primeiro programa de autor é a “Rotação” que muitas vezes foi reduzido ao punk rock, o que não é verdade, embora tenha sido a emissão e o meio que deu mais exposição ao fenómeno em Portugal. Agora, há um tapping evidente do punk rock, porque eu estou muito atento e mesmo muito interessado como indivíduo, porque tudo o que me está a chegar soa-me bem, as atitudes, as opiniões, as conversas e os sons quando começam a chegar...», lembra sobre o programa inovador. Mais ainda dado o perfil da Renascença. «Na altura não tinha um canal de FM vocacionado, tinha uma Onda Média que emitia em FM.» A oportunidade demorou mas chegou e as memórias dos primeiros instantes ainda estão presentes, quando «em branca», sem qualquer fundo, se apresentou aos ouvintes: «Boa noite, a partir de hoje passa a existir, entre a uma e as três, um espaço dedicado a outras músicas no qual pretendemos que toquem nomes perdidos ou praticamente perdidos...». Nesse rol de nomes «no distante 1976», continua, «eu nomeava Frank Zappa, Captain Beefheart, os Byrds, Graham Parsons, e uma série de outra gente. Estávamos ainda muito longe de haver a advento Patti Smith».
Sobre a «Rotação» diz ter sido «um programa aventureiro como todos os outros» desde então. O que se seguiu, já na Comercial, foi o «Rolls Rock», em 1980. «Um nome inventado pelo João David Nunes, porque era ideia do Rolls Royce do Rock». Depois quando houve a hipótese de saltar para o horário diurno, deu-se o início do “Som da Frente”.» Anos mais tarde, no início da década de 90 experimentou algo diferente, um espaço mais aberto aos sons, com o «O Grande Delta», na XFM. Nos últimos cinco anos, de regresso à Comercial, é de novo companhia regular entre a uma e as três da manhã, com «A Hora do Lobo».

DA NOITE PARA O DIA
Apesar de haver um fio condutor uma vez que «há imensa coisa no anterior que acaba por ficar sempre na mesma», António Sérgio assume «não gostar de estar a mudar de estações ou de «slot» sem mudar o nome pelo menos do rótulo. Não quer dizer baralhar e voltar a dar». Mas, no fim de contas, «há um tratamento meu com a música e há um entendimento da música comigo.» E a música, diz, «é toda a que acontece», sem desespero na procura. «Este desespero é quase uma piscadela de olho de gozo à imprensa do “next big thing”. O que é que nós agora vamos por como arauto ou como cabeça de cartaz ou de locomotiva da máquina?». Não há necessidade disso, defende. «Hoje há uma pacificação da produção musical, os estilos esbateram-se muito, deixaram de haver grandes estrelas e passou a haver uma série de outras mini-estrelas e os sons estão a ganhar com isso. O “Som da Frente” é outra coisa, é um tempo de estrelas mesmo.»
Em 1982, intervém Ana Cristina ferrão, íntima e eterna cúmplice de António Sérgio, «a Comercial já há uma relação muito directa entre o Sérgio e o John Peel, porque é ele que em Inglaterra divulga o punk, na BBC. E o John Peel, que estava sempre a trabalhar à noite muda para um slot diurno. O Jaime Fernandes tem então a ideia peregrina de seguir o exemplo e colocar na nova grelha da Comercial o “Som da Frente” às quatro da tarde». Além disso, recorda Sérgio, «o Barros tinha decidido deixar de fazer a tarde para fazer um programa da manhã e tomar grandes pequenos almoços (risos)». Tal coincide, como relata, com «uma mudança de marcha da indústria musical portuguesa, em termos de andamento de comboio, mas há também uma mudança de situação, que é outra vez conjuntural, que é a nossa relação com os chamados mercados de importação.» Um sentimento espelhado no disco agora editado, «Som da Frente: 1982-1986».

A IRMANDADE DA LUZ
«É uma época de quase passa a palavra, de uma vontade urgente de mostrar as cosias novas. Havia pessoas que me iam levar discos que recebiam de Londres para eu tocar no “Som da Frente” porque eu tinha a possibilidade de os mostrar a muito mais gente. Há aqui uma Irmandade, e não é nenhuma Irmandade de Cruz Negra, há luz no meio disto. Luz da divulgação e do espalhar do bom gosto e do gozo, no fim de contas».
Foi uma época «de uma militância que era necessária, em que a música é encarada como um bem muito especial. Passar essa música, ouvi-la e depois comunicarmos uns com os outros», lembra António Sérgio. «É por isso que eu gosto muito desse disco, apesar de algumas falhas de repertório que eu sei que cá estão. Mas mesmo assim o CD é duplo e está cheio até ao fim. Tivemos mesmo de fazer um “fade out” nos Shriekback, porque o tema era muito grande e dava para roubar aquele bocadinho, caso contrário não ficava o dos Xutos inteiro, o que era para mim mais importante, porque é uma marca e eles nunca mais aquilo daquela maneira.»
Trata-se de uma compilação que «sai das paredes, sai dos armários dos discos» e embora não tenha sido difícil elaborar a lista inicial, «uma vez que tem mais de 100 temas», o quase insólito aconteceu depois quando «gabinete competente da editora fez os contactos para licenciamentos, etc.» e esbarrou nas respostas «que informavam que os produtos tinham sido descontinuados» aconselhando a fazer a cópia a partir do vinil. «É esse o estado das próprias majors em relação ao seu produto, que neste caso tem 20 anos e que para eles não vale absolutamente nada. É uma atitude de tiro no pé típica de pessoas que não sabe tratar do seu próprio negócio e que nos disseram, nalguns casos, que o material tinha sido eliminado, logo não existiam “masters”. Há aqui quebras de profissionalismo, de tudo, óbvias.»
O importante é que «venda ou não, é o tal artefacto que fica feito e que para mim é uma excelente memória do trabalho que fiz há alguns anos e de que me lembro fortemente.» Ao longo de 36 canções há aqui algumas repetições que António Sérgio justifica sem hesitar. «Projectos como o Julian Cope, Teardrop Explodes, Psychedelic Furs ou a Siouxsie era fundamental para mim que tivessem duas faixas. Como achei importante tocar nessa altura e insisti contra muitas marés num ambiente radiofónico e de divulgação musical diferente, teimaria hoje da mesma maneira. Quem ouvir o “Israel” e o “Mirage” apreende determinado tipo de coisas que podem ser importantes. Talvez arranje novos ouvintes para “A Hora Do Lobo”, dá-se sempre jeito e acaba por ser no mesmo horário... Portanto 20 anos depois, we’Re back». Quanto aos que ficaram de fora cita dois exemplos, até porque no cenário desta conversa a luz é baixa e afasta a visão da listagem com todos os eleitos. «A mim faz-me falta o Robert Wyatt, uma pessoa com uma posição mental e social claras, alguém muito inteligente que sempre prezei muito e que para mim é o paradigma de um certo tipo de rochedo que não se move mas que à parte disso é uma doçura...». E os Jesus & Mary Chain «num cenário completamente diferente, de rebentamento. A produção é completamente inovada ali e é quando se inaugura o período sónico que veio dar depois excelentes frutos. Depois é uma memória de baladas dos anos 50 que eles vão buscar não sei bem onde... É quase um caso para bruxas.»

SEM ESPAÇO NEM TEMPO
Mas apesar de enquadrado num espaço de tempo, este é um disco que não se poderia reduzir a tal dimensão. «Aliás isto começou antes e nunca mais acaba.» Uma perspectiva que tem muito a ver com aquilo que Sérgio refere como sendo «uma curiosa ligação minha, automática e intuitiva em relação à própria música, por ter crescido também quase com a idade do rock. Tenho a sorte de ter acesso a música do rock and roll norte-americano em África, via estar metido no meio de rádio, coisa que se me tem escapado me teria retirado imensa cultura musical, ou pelo menos informação musical, aquela mais automática.» Além disso, «sem querer, quem ouve rock and roll desse tempo ouve blues ou pelo menos alguma coisa de blues, o meu pai ainda tinha a mania de ouvir música clássica portanto...»
E quem o foi ouvindo ao longo de todos estes anos sabe do que fala. «A vida e os anos em rádio ensinam-nos muito, principalmente para quem paciência para fazer aquela tarimba que eu fiz, e não esperar estrelatos demasiados porque a rádio não é um meio que o proporcione. Gosto mais a ideia do sacerdócio e da dedicação. Também há mais carinho nisso e mais paixão.»
Para a Ana Cristina Ferrão «este foi o verdadeiro “Globo de Ouro” de António Sérgio. «Não é aquela cena emperuada e encasacada mas sim a hipótese de fazer um objecto rock, algo que vai permanecer, o que o motivou imenso. É um reconhecimento diferente.» No entanto, acrescenta Sérgio, «o verdadeiro artista aqui é a música, as bandas que cá estão dentro e os disparos de energia que têm.» Isto sem esconder o prazer que lhe deu ter um pretexto para remexer nestas suas memórias e no vinil todo, «coisa que já não faço porque não utilizo, uma vez que a cabina da Comercial não dá para o fazer.» Para andar «a carpir mágoas do passado» também não valia a pena. Desta forma foi diferente, até pela satisfação adicional em «lidar com criadores que são eles próprios a razão de ser da criatividade da música. Não são correios de transmissão de nada, não conseguem ser.»
Ciente de que a pior parte já passou, «que foi este material mais enterrado no tempo», já se perspectiva uma segunda edição, referente ao período 1987-1993, ainda sem data definida e sem a certeza de conhecer vida, tal como este, no ano em que se assinalam os 20 anos do «Som da Frente». «Nesse disco vou tentar evitar as repetições, não vai haver banda nenhuma com direito a mais que um tema, talvez tema e meio. Além disso terá a particularidade de saltar a década em si, e a década musical não é de maneira nenhuma a mesma dos calendários. Mas há coisas curiosas uma vez que entre 1988 e o princípio de 90 forja-se uma boa parte daquilo que se passou a seguir. Portanto vou tentar documentar isso o melhor possível.»
Para já fica o testemunho anterior num disco que «continua a ter uma certa rebeldia que está ligada ao nome do programa e a uma atitude intrínseca da pessoa que fazia o programa e das pessoas que o ouviam que em certos casos se manterá.» Um documento que «tentou cobrir um período muito rico da criação musical pop e rock, já com algumas inserções na world music, embora não se chamasse assim nessa altura...» E com um público bem definido. «A maior parte das pessoas que eu queria que fossem buscar este disco eram pessoas aventureiras, que quisessem outra vez entrar na aventura da descoberta dos sons e dos novos nomes. Como aqui há nomes tão velhos que podem parecer novos nomes... Há quem possa nunca ter ouvido falar, sei lá... da Durutti Column?»
Sem certezas sobre as motivações de uma geração que privou com o «Som da Frente» e que «pode estar ou não demitida dessa atitude perante a música», o desafio desta proposta é também o de fazer despertar a curiosidade a outras pessoas «que tinham oito ou nove anos na altura». Como? «Só se for por valer a pena de alguma maneira», responde de pronto António Sérgio. «Ou o repertório tem aqui manchas de talento que valem a pena, e aí temos de chamar a atenção porque eles não sabem, ou então não valerá a pena. Fica apenas a memória de um programa que existiu, foi muito funcional na altura e depois deixou de o ser.»


AS HORAS DO LOBO
Mais que uma escola, o «Som da Frente» era quase um momento de procissão de fé num tempo em que as janelas a outros mundos eram poucas, e difíceis de abrir. Hábito diário, a audição do «Som da Frente» era um complemento fundamental a um processo de descoberta de novos sons, novas sensações... O panorama musical de inícios e meados de 80 não mostrava os sinais da imbecilidade reinante do «mainstream» do presente mas, já então, o «Som da Frente» assumia a ousadia de, em alto e bom som, ir mais além. Ser fiel ouvinte do programa era condição necessária para a adesão a uma tribo que não se satisfazia com a máxima globalizante «todos diferentes todos iguais». O núcleo de ouvintes «hardcore» fazia questão de levar, depois, as sugestões ainda mais longe, encantando figuras e trapos condizentes com músicas e músicos, com o negro quase sempre presente, o «Blitz» debaixo do braço e as inevitáveis passagens pela Catedral da Rua da Beneficência ao Rego (o Rock Rendez Vous).
O «Som da Frente» estimulava a busca de um gosto pessoal, alargava horizontes. Apresentava-nos nomes como os Bauhaus, Joy Division, Cocteau Twins, Teardrop Explodes, This Mortal Coil, Danse Society, The Sound, Echo & The Bunnymen, The Cure, Clan Of Xymox, New Order, Durutti Column, REM, Siouxsie & The Banshees, Julian Cope...
O disco duplo que agora é editado consegue evocar, apesar da infeliz não cedência, pelos actuais detentores dos direitos, da importantíssima fatia de referências 4AD, o que era o tutano das emissões do «Som da Frente». A abrir o histórico instrumental dos Xutos & Pontapés, que serviu de indicativo. E, depois, memórias soltas como «Winning» dos The Sound, «Sunspots» de Julian Cope, «Taking The Veil» de David Sylvian, «Regiment» de Brian Eno e David Byrne, «Five Miles Of You» de Tom Verlaine, «Sunglasses After Dark» dos Cramps, «Atmosphere» dos Joy Division ou o sublime «This Big Hush» dos Shriekback, a dada altura um tema de rodagem diária obrigatória no programa. Como complementos, excelentes textos de acompanhamento sobre a memória do programa e a voz por trás do microfone, por Ana Cristina Ferrão. Memórias dos melhores momentos de um disco que evoca um programa chave da história da rádio portuguesa. Personalizando, aquele que me ensinou a ouvir música. Obrigado, Sérgio!
N.G.

VÁRIOS
«Som da Frente 1982-1986»
EMI-VC
++++










25.4.17

BANDAS SONORAS (As Dez Melhores Bandas Sonoras De Sempre) - Listas -


BANDAS SONORAS
(As Dez Melhores Bandas Sonoras De Sempre)

Escolher dez bandas sonoras representativas do género não foi fácil. A opção centrou-se no assumir dos discos como peça autónoma e não apenas da música enquanto parte do filme em questão (o que afasta «2002» e outros tantos), ficando ainda o importantíssimo espaço do musical reduzido a um representante de referência. Prometemos, regressar, um dia, a estes domínios...

1951. GEORGE GERSWINN
«An American In Paris»
EMI
«Serenata à Chuva» (1952) pode servir de emblema popular do musical clássico «made in Hollywood. Mas é em «An American In Paris», filme dirigido um ano antes por Vicente Minnelli, que o conceito (musical) do próprio género encontra uma das suas concretizações mais puras. O retorno aos temas de George Gershwin (1898-1937) faz-se através de uma lógica em que as canções se vão inscrevendo num fascinante aparato sinfónico, ao mesmo tempo que suscitam a expressão dos corpos que dançam.

1958. BERNARD HERRMANN
«Vertigo»
Varese
Se Alfred Hitchcock inventou a linguagem do «suspense», então Bernard Herrmann conferiu-lhe uma sonoridade própria. Teia de melodias dramáticas, orquestrações exuberantes e cordas sempre angustiadas, a música de «Vertigo» é a apoteose de uma relação de trabalho de oito filmes, entre 1955 («O Terceiro Tiro») e 1964 («Marnie»). O todo existe como peça sinfónica autónoma e fascinante, mesmo se foi concebido para servir os desígnios fantásticos do filme e do seu retrato da mulher «que viveu duas vezes».

1966. HERBIE HANCOCK
«Blow-Up»
EMI
Ao convidar Hancock, Antonioni marcava um capítulo decisivo da música moderna. Em 1966, Hancock tinha uma pequena, mas brilhante, discografia que desembocava em «Maiden Voyage” (1965). Nela se exprimia uma relação mais «free» com a história do jazz, disponível, por exemplo, para as experimentações electrónicas. Na sua riqueza rítmica, fundindo sonoridades rock, jogos funky e deambulações jazzísticas, «Blow-Up» é o momento zero de um fascinante processo de reconversão da música nos filmes.

1971. WALTER CARLOS
«A Laranja Mecânica»
Warner Bros
Depois do determinante «2001: Odisseia No Espaço», Kubrick voltou a encarar a música como elemento fulcral do filme seguinte. Baseado num livro de Anthony Burgess, o filme contou com brilhante banda sonora na qual se cruza Beethoven e Rossini com uma ousada aventura de pioneirismo electrónico conduzida por Walter Carlos. Num espaço de travo futurista (que sublinha a identidade estética do filme), um plano novo nasce do encontro entre a tradição clássica e o desenho de um futuro electrónico.

1977. VÁRIOS
«Saturday Night Fever»
Polydor
Editada em Dezembro de 1977, «Saturday Night Fever» é a banda sonora mais vendida de sempre, o que é por si pomposo muito embora esse não tenha sido o seu feito maior. O «pequeno filme» revelou-se um fenómeno cultural ímpar definindo uma geração, testemunhando todo o movimento, a forma de ser, de estar, de vestir, de dançar do disco sound. A par de clássicos dos Bee Gees surgem outros hinos e nomes como Yvonne Elliman e K. C. & The Sunshine Band num documento histórico.

1977. JOHN WILLIAMS
«Star Wars»
RCA Victor
John Williams era já um veterano (inclusivamente premiado com dois Óscares) quando aceitou o desafio de George Lucas para cenografar com música um épico intergaláctico que acabou por marcar a história do cinema. Herdeiro da tradição sinfonista (uma das mais ricas e recheadas escolas de música ao serviço do cinema), John Williams condensou na banda sonora de «A Guerra Das Estrelas» uma amálgama de referências funcionais, dela nascendo uma sólida e inesquecível sinfonia universal.

1982. VANGELIS
«Blade Runner»
Wea
De certa forma, encontramos na música que Vangelis compôs para «Blade Runner» uma actualização (revista e aumentada) das potencialidades das electrónicas ao serviço da mais clássica escrita de música para cinema, escola com primeiro mestre em Walter Carlos. Ridley Scott adapta aqui um conto de Philip K. Dick e, para conceber os ambientes de uma Los Angeles opressiva e sobrepovoada no século XXI, recorre a uma dialética entre o épico e o negro que a música de Vangelis aqui tão bem sugere.

1990. ANGELO BADALAMENTI
«Twin Peaks»
Warner Bros
Numa chamada de atenção aos universos da música composta para televisão, a presença de «Twin Peaks» serve nesta lista para exemplificar como pode ser importante o entendimento estético entre um realizador (Lynch) e um compositor (Badalamenti) na criação da alma de uma obra total. A música de «Twin Peaks», que contamina depois a própria adaptação ao cinema em «Fire Walk With Me» (em 1992), decorre de um trabalho que realizador e músico vinham a desenvolver, na companhia da cantora Julee Cruise.

1995. GORAN BREGOVIC
«Underground»
PolyGram
A obra-prima de um dos mais invulgares autores europeus de música para cinema é um exercício de composição que parte de referências de tradições populares da música balcânica para um espaço de contemporaneidade, naquele que é também o mais recomendável dos trabalhos de escrita musical na filmografia de Emir Kusturica. Depois de interessantes ensaios em «Arizona Dream», «O Tempo dos Ciganos» (ambos de Kusturica) e «A Rainha Margot» (de Chéreau), Bregovic atinge aqui a plenitude da sua escrita.

1996. VÁRIOS
«Natural Born Killers»
Interscope

Momento alto de uma tradição que conheceu o primeiro momento histórico na banda sonora de «Os Amigos de Alex», a de «Assassinos Natos» é uma das mais poderosas compilações de canções ao serviço da sétima arte. A música que serve este filme de Oliver Stone reúne figuras tão díspares quanto as de Leonard Cohen, Patti Smith, Patsy Cline, Nine Inch Nails ou Barry Adamson. Na concepção e coordenação da banda sonora encontramos Trent Reznor, que depois trabalhou com David Lynch em «Estrada Perdida».




24.4.17

Pop Dell'Arte - "So Goodnight" (EP) - Crítica de Discos / Diário de Notícias


Diário de Notícias

Crítica de Discos
POP/ROCK



ARRIBA AVANTI!

Sete anos depois do magnífico «Sex Symbol», os Pop Dell’Arte quebram finalmente o silêncio com um notável EP de seis temas.


 É verdade... passaram sete anos desde a edição de «Sex Symbol» (disco do ano DN em 1995), álbum que, durante todo este tempo, representou a mais recente proposta gravada dos Pop Dell’Arte.
Editado por uma multinacional (a PolyGram), era um disco de impressionante visão, rasgando conceitos em diversos sentidos, da electrónica ao mais clássico rock, traduzindo então um momento de maioridade criativa naquele que é um dos mais cativantes dos projectos da história moderna da música portuguesa.
Uma série de concertos nos últimos anos foi devolvendo o grupo à actividade, abafando o temor de um fim muitas vezes falado. Pelo contrário, pontualmente, nesses espectáculos, brotavam novos temas. Por vezes ainda em busca de formas definitivas. A ideia de um regresso aos discos começou a desenhar-se então, com um conceito de agenda não rígida ao qual há muito nos habituámos por estes lados. «No problemo»! Pelo caminho, eram reeditados em CD os álbuns «Free Pop» (1987) e «Ready Made» (1993) e a compilação «Arriba Avanti Pop Dell’Arte» (1990), assegurando à discografia do grupo uma vida na era digital. No Natal de 2001, uma mão cheia de amigos afortunados recebia, em jeito de prenda no sapatinho, com sabor a cartão de visita para uma futura edição em disco, um CD-R com uma versão para um clássico da quadra («Little Drummmer Boy»), devidamente assimilada pela teatralidade Pop Dell’Arte: «Little Drama Boy».
Agora, após longa espera, o reencontro com todos é finalmente possível num fabuloso EP de seis temas onde prefiro saborear a novidade, e deixar o «sabe a pouco» em segunda fila, certo de, mais mês, menos mês, se poder vir a concretizar a gravação de todo um novo álbum de originais.
É certo que, após sete anos de silêncio discográfico, pode parecer escassa a oferta mas, escutado o conteúdo do EP (com 20 minutos de música) a certeza é a de termos aqui uma das mais interessantes e inteligentes edições do Portugal pós-2000, num disco que só o pânico que conduz as «playlists» das rádios e define a ditadura do gosto nas televisões, poderá impedir de chegar aos ouvidos de quem pensa que, entre nós, nos limitamos a assimilar estéticas ensaiadas e rodadas lá fora, adaptando-as depois à lusitana paixão. Como os Mão Morta e, em tempos, os Mler Ife Dada, os Pop Dell’Arte são um dos mais notáveis casos de genuidade criativa, com o valor acrescentado de conhecerem João Peste não só uma das mais únicas vozes do burgo, como o único verdadeiro artista / performer da praça, num todo que define uma proposta estética com implicações que vão além da pele da música, até à carne do conteúdo.
«So Goodnight» em nada decepciona quem tinha conhecido já em «Free Pop» e «Sex Symbol» dois discos de absoluta referência no panorama musical português. Denuncia uma aproximação do grupo a estéticas de construção e composição musical características de uma idade em que a obra vive da recolha e gestão de fragmentos. As electrónicas são usadas como ferramenta, mas não esgotam em si as metas da composição. «Mrs Tyler», «So Goodnight» e «Little Drama Boy» são as três geniais canções incluídas no alinhamento, qualquer delas palco de inteligentes jogos de teatro para voz, melodia e cenografia sonora. Transpiram a «tal» genuinidade que desde meados de 80 reconhecemos na música de João Peste e das várias formações dos Pop Dell’Arte, e definem uma ideia da expressão em 2002 de uma identidade estética até hoje nunca comprometida.
Além das três magníficas canções, o EP apresenta um soberbo momento de poesia falada, com as palavras de Ezra Pound embebidas num envolvente caldo bem temperado, suportado por uma cama de guitarras distorcidas, sob a qual se desenha ainda um bailado tranquilo de notas ao piano.
Dois pequenos interlúdios completam no alinhamento. No primeiro, «The Sweetest Pain» quase se sugere uma ideia de canção disfuncional, com a voz de João Peste a moldar um frágil espaço de equilíbrio / desequilíbrio vocal (num registo «clássico» Pop Dell’Arte em episódios tranquilos), numa virtual corda bamba sobre linhas minimalistas para electrónica, guitarra e ruído. «The Witch Queen Of The USA», por outro lado, é um breve fragmento de aparente caos que, afinal, revela camadas de acontecimentos e ruídos que se entrelaçam, construindo juntos uma textura que sugere uma espécie de concentração, num ponto, das imagens sonoras de uma grande metrópole num só instante. Este tema é da autoria de Zé Pedro Moura, que aqui assinala o seu regresso aos Pop Dell’Arte, após mais de dez anos de ausência (nos Mão Morta).
Este magnífico regresso dos Pop Dell’Arte junta mais um disco incontornável à discografia fundamental do ano e do Portugal de início de milénio e, mesmo «sabendo a pouco», não deixa de fazer já muito, nem que pelo simples reactivar discográfico de um grupo que só não é «maior» dada a soma histórica de ausências... Mas, no fundo, o que é a quantidade quando a qualidade brilha mais alto?
P.S. Pena apenas que, num grupo de tão reconhecidas cumplicidades visuais, se apresente um «artwork» tão aquém da oferta musical...

POP DELL’ARTE
«So Goodnight EP»
Candy Factory / Música Alternativa
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22.4.17

Concerto Kraftwerk em Lisboa (IWT) - Abril de 2004 - mais Entrevista a Ralf Hutter


Blitz
6 Abril 2004

OLHÓS ROBÔ(S)

Kraftwerk, Coliseu dos Recreios (Lisboa), 2 de Abril



Texto: Catarina Sacramento
Foto: Rita Carmo

Apenas quatro focos iluminam as silhuetas em palco – quatro corpos idênticos, vestidos de negro, rígidos, cada um em frente do seu laptop. São eles Ralf Hütter, Florian Schneider, Emil Schult e Fritz Hilpert, formação actual dos Kraftwerk, mas a ideia é exactamente não saber que é quem; anular a identidade individual numa simulação robótica colectiva, concretizar o imaginário simbiótico entre o Homem e a máquina desenvolvido pela banda desde inícios de 70. O público, igualmente impávido (à parte das manifestações pontuais de emoção, autêntica, mas inibida pela não reacção intencional dos alvos de aplauso), não tira os olhos do palco.
Foi preciso esperar 30 anos por um concerto dos Kraftwerk em Portugal e as expectativas são mais que muitas. Felizmente, eles (cor)respondem com duas horas daquilo que lhes conferiu um estatuto pioneiro na história da música popular: os ritmos electro-qualquer-coisa, as vozes robóticas, o jogo de luzes e projecções de imagem e os clássicos absolutos da história da banda, que também são momentos-chave do séc. XX – tudo o que, em diferentes instantes presentes, constitui a ideia de futuro.
O tempo não fez dos Kraftwerk robôs da terceira idade e a prova é que esta histórica aparição em Lisboa não o foi apenas por ter revisitado temas incontornáveis, mas pela actualização rítmica a que os sujeitaram – reenquadrados em molduras house, tecno, breakbeat, hip hop (?) e crepitações várias, deixando mesmo a fronteira com o trance a escassos metros de distância -, sem, contudo, macular o espírito original. O segredo parece residir na exploração das mais diversas emoções por via electrónica sem nunca abandonar a experimentação. À medida que os temas se sucedem o apelo à dança acentua-se, em contraste absoluto com a postura hirta dos protagonistas: ambas são peças desta máquina criadora de sugestões e metáforas, alimentada pela aceleração até à meta de «Tour de France» (com a musculatura em evidência e a escalada da montanha a par com a escalada rítmica); pela invasão de comprimidos de todas as cores e feitios («Vitamin»); pela auto-estrada a aproximar locais até aí afastados (sons de buzinas, travagens a fundo e motas a passar a alta velocidade são integrados na melodia de «Autobahn»), pela memória do Moog a saltitar entre as teclas deliciosas de «The Model» e o cabelo armado das senhoras dos anos 40, pelas «Neon Lights» a piscar em fundo; ou ainda pela agressividade da voz que soletra Ra-di-o-Ac-ti-vi-ty como quem faz um inventário dos danos depois da catástrofe. E não tarda a partir da estação o «Trans-Europe Express», com toda a maquinaria de ruídos em movimento e a simbologia correspondente que as imagens tratam de fornecer.
Quinze minutos depois, fim da linha. Mas o público pede mais e uma voltinha e uma voz robótica (desta vez é amiga) abre o livro de matemática no capítulo «Numbers», «Computer World» e «Pocket Calculator» (num estilo de blips electro-tec-house). Mais dois regressos ao palco, com novos trajes verde fluorescente e «Elektro Kardiogramm» incluído, a terminar com a saída dos quatro, um a um, até ficar só o eco de «Musique Non-Stop» a preencher a atmosfera com solidão auto-referencial.
Ironia suprema seria mesmo «The Robots», no segundo encore: o Coliseu aplaude quatro robôs que surgem no lugar dos protagonistas e se movem, em gestos trôpegos, ao som da música pré-gravada. Um endeusamento proporcional à vontade de auto-anulação dos próprios autores...


RALF HUTTER, AQUELA MÁQUINA

P - Em vez da maquinaria antiga, os Kraftwerk levam agora para o palco computadores portáteis. Essa mudança é de alguma forma redutora do conceito geral dos espectáculos do grupo?
RH – Convertemos todo o material analógico para formato digital, mas o conceito é o mesmo. Até está mais perto da visão que tínhamos de um estúdio electrónico móvel, quando criámos o estúdio Kling Klang. Os nossos computadores estão todos ligados, sincronizados.
P – O facto de permanecerem quase imóveis em palco é uma forma de enfatizar a música e não aqueles que a fazem?
RH – Sim. Mas é sobretudo porque os computadores são muito sensíveis e exigem toda a nossa atenção e concentração. É um trabalho milimétrico.
P – O que sente quando os Kraftwerk são apontados como um marco decisivo na história da música popular? A presente digressão tem dado mostras da receptividade das novas gerações à música dos Kraftwerk?
RH – Absolutamente. É uma energia que recebemos e nos empurra para a frente, encorajando-nos a continuar. E as pessoas reconhecem mesmo as músicas e as pequenas alterações, captam as vibrações.
P – No último disco, Tour de France Soundtracks, a relação homem-máquina (abordada de difeentes formas nos álbuns anteriores) materializa-se na ideia de ciclismo. De que modo?
RH – Representa a simbiose perfeita entre o homem e a máquina, daí que seja um som mais circular. O Trans-Europe Express tinha aqueles sons metálicos, pesados, das engrenagens [dos comboios]. A bicicleta é um instrumento musical.
P – Mantém-se atento À música que se faz actualmente?
RH – Continuo a ouvir música, quando vou aos clubes. Mas a música vem de todo o lado: das máquinas, dos comboios, dos carros, da natureza. O bater do coração, a respiração... a minha maior influência é a vida diária.
P – Nos dias de hoje qualquer pessoa faz música sem sair do quarto, com um laptop. Essa banalização compromete a qualidade da música electrónica?
RH – Não, acho que a música está mais criativa. Antes era preciso trabalhar em laboratórios enormes, como aconteceu connosco nos anos 70. Por isso é que desenvolvemos o nosso próprio estúdio, despendemos imensa energia para criar a nossa primeira caixa de ritmos, depois os primeiros sintetizadores... O meu primeiro sintetizador custou o mesmo que o meu Volkswagen. Hoje os Instrumentos são cada vez mais acessíveis e isso é óptimo. Já não há limitações à criatividade, para compor, para concretizar o que temos em mente.
P – E o próximo disco de originais, já estão a trabalhar nele?
RH – Concluímos agora a digitalização do nosso catálogo. Juntámos os oitos álbuns numa caixa, em língua inglesa e alemã. Transformámos as cassetes antigas em formato digital, remasterizámo-las e o catálogo completo vai finalmente ser editado pela primeira vez, em todo o mundo. Daqui em diante estamos prontos para começar a trabalhar em novos temas. Este é apenas o início de uma nova fase digital.







21.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (19)



DN - Diário de Notícias
3 Agosto 2002

Discos Pe(r)didos


Apesar da curta expressão e limitada duração em que se manifestou entre nós, a «new wave» chegou mesmo assim a conhecer alguns dignos representantes. Um deles, foi caso inesperado, nascendo de um grupo com importante projecção no panorama «progressivo» na recta final de 70: os Tantra.
Uma das maiores forças da música rock feita em Portugal na segunda metade de 70, os Tantra surgem em 1976 da reunião de Manuel Cardoso (que tinha já passado pelos Beatnicks), Armando Gama, Américo Luís e Tozé Almeida, editando logo nesse ano o single «Alquimia da Luz». Um ano depois, o álbum «Mistérios e Maravilhas» (já disponível em CD) revelava a maioridade de um som rock de cenografia sinfónica e alma «progressiva», constituindo imediatamente um fenómeno, que se cimenta num tempo de desertificação na cultura pop/rock lusitana.
São, ainda nesse ano, o primeiro grupo rock português a encher o Coliseu dos Recreios, feito que repetem, em 1978, no concerto de apresentação do segundo álbum, «Holocausto» (recentemente reeditado em CD), evolução natural do disco de 1977.
Quando o grupo regressou ao Coliseu, em 1978, já Armando Gama havia saído (para formar os Sarabanda, com Kris Kopke), sendo então substituído, nas teclas, por Pedro Luís. Segue-se então um tempo de longo silêncio, durante o qual se começam a manifestar sinais de mutação interna, que levam ao afastamento de Américo Luís.
Estávamos na viragem de década, e nomes como os de Rui Veloso, UHF, Salada de Frutas, GNR, Jáfumega e Táxi começavam a mostrar um novo som rock cantado em português ao qual aderiam, como nunca antes, as rádios e público. Numa decisão contra-corrente, tal como então se verifica em grupos como os Roxigénio e Arte e Ofício (estes já com tradição no recurso ao inglês), os Tantra abandonam a língua portuguesa. E, reduzidos a três elementos, contando com a colaboração de «Dedos Tubarão» (Pedro Ayres Magalhães), dos Corpo Diplomático, editam em 1981 o terceiro álbum, «Humanoid Flesh».
O disco causou acesa polémica, sobretudo por acender a chama da discórdia na classe «crítica» de 70, mais dada a elogiar os sinfonismos de «Mistérios e Maravilhas» e «Holocausto» que as novas canções de dinâmica rítmica mais evidente e recorte «new wave» com o qual o grupo se apresentava. Todavia, a rejeição não chegou apenas da «crítica», já que o público acabou também por ignorar este terceiro disco dos Tantra, que pecava por «erro» estratégico de «timing» ao adoptar o inglês numa altura em que as multidões descobriam e abraçavam um novo rock (mesmo mais «quadrado») cantado em português. A opção pelo inglês foi então justificada por Manuel Cardoso (já a responder como Frodo) numa entrevista ao «Se7e», onde explica que uma luzinha lhe dissera que Deus não passaria os discos dos Tantra no Paraíso, se estes cantassem em Português.
«Humanoid Flesh» tem os seus méritos. Musicalmente é um interessante manifesto estético de um movimento tangencial Às linhas de força pop/rock lusitanas na alvorada de 80. E não só exibe um lote de canções interessantes (algumas a revelar uma proximidade estranha com o som dos Classix Nouveaux), como ousa transformar os «Verdes Anos» de Carlos Paredes, naquela que é uma das mais interessantes manifestações de homenagem do rock português ao grande mestre.
O fracasso do álbum acabaria por determinar o fim do grupo. Frodo seguiu carreira a solo. Tozé Almeida juntou-se aos Heróis do Mar. E Pedro Luís formou os Da Vinci.
N.G.

TANTRA
«Humanoid Flesh» 
LP Valentim de Carvalho, 1981
Lado A: «Girl In My Head», «Crazy Rock’N’Roll», «What Have Your Eyes Done To Me?», «Magic», «Verdes Anos»; 
Lado B: «Dangerous Works», «Humanoid Flesh», «Just Another Lie», «African Sands»

Produção: Tantra e SR






20.4.17

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #65: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume VIII: 2000"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - Prefácio: Nuno Magalhães (irmão)
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume VIII: 2000
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 630
isbn: none
data: 2017

 Escritos de Fernando Magalhães - Vol. 8 - 2000

Escritos de Fernando Magalhães - Vol. 8 - 2000

PREFÁCIO (páginas 1 e 2 de 10 no total)

(por NUNO MAGALHÃES - irmão do FM)

Possamos nós morrer
Como na Primavera
As flores da cerejeira
Puras e brilhantes.



Escrever sobre um escritor não é tarefa fácil.
Criticar um crítico, tão-pouco.
Escrever sobre o meu irmão é não só bem mais fácil, como uma honra, um prazer e simultaneamente uma sentida homenagem, plena de recordações emocionais, como quem faz uma viagem a um passado mais ou menos longínquo, aos meandros da nossa juventude.
Sob o risco de derramar na prosa um misto de sentimentos, muito pessoais, vividos a uma velocidade vertiginosa (“caricata”, como diria o Fernando) pauto estas minhas breves palavras por aquele conceito que parece não ter tradução em mais nenhuma língua do mundo: “SAUDADE” !
Para o público em geral, falar de Fernando Magalhães é falar de um dos maiores críticos musicais Portugueses de todos os tempos; para mim falar dele é falar de um dos meus melhores amigos, de cumplicidade fraterna, de comunhão de ideais, de entreajuda, de viagens, de surrealismo, de loucura e paródia (e também do nosso Sporting…!).
Como homem, para além do crítico, o Fernando era um mundo dentro de um outro mundo que talvez, na época, não estivesse bem preparado para o receber. A sua permanente inquietude e curiosidade, que o levavam a querer explorar novas vertentes que pudessem abanar o status-quo cultural existente, o seu inconformismo e tendência para o experimentalismo, a paixão que colocava em tudo o que fazia (a par, é certo, de uma certa ingenuidade e candura intrínsecas), o amor pelas artes, com especial incidência sobre a música, o seu sentido de humor cáustico e subtil, faziam dele uma caixinha de surpresas, um “mastodonte intelectual” como uma vez lhe chamei (e ele não se ofendeu!).
Quando se começou a interessar pela música, com cerca de 13 – 14 anos já estava uns anos adiantado em relação ao panorama musical da altura. Rapidamente se transformou num pioneiro quando se lançou na pesquisa de novos estilos musicais bem como de bandas até então desconhecidas em Portugal (curiosidade: o seu 1º LP foi o álbum de estreia da banda britânica de rock Led Zeppelin. Foi gravado em outubro de 1968 no Olympic Studios, em Londres, e lançado pela Atlantic Records em 12 de janeiro de 1969.
Enquanto pessoa, o Fernando nunca via maldade em nada. Era, como soi dizer-se, um “PURO”. Ou gostava ou não gostava (La Palice não diria melhor). Ao longo das décadas em que fez crítica musical sempre escreveu aquilo que sentia, com enorme genuinidade, assertividade, domínio da expressão literária e “know how” sobre a temática. Fazia-o com amor. Escrevia com o coração aquilo que lhe ia na alma (desculpem-me o chavão) e nunca tentou agradar a Gregos e a Troianos !
Do rock, pop, electrónica, fado ou folk, ao jazz, punk, soul ou  heavy metal, para ele só existiam dois tipos de música: A BOA e a MÁ !
Mas chega de falar do Fernando, como crítico de música (já muito se escreveu sobre esta matéria) e vamos lá revelar algumas das suas facetas, desconhecidas do grande público.
Éramos 3 irmãos (agora somos só dois) todos do sexo masculino. Dos 3 nenhum se livrou da pesada herança genética deixada pelo nosso progenitor, vulgo pai, que “enfermava” de um apurado sentido de humor, tocando,  por vezes, as raias da excentricidade. - Obrigado pai !
O nosso pai, com a preciosa colaboração da nossa mãe, metódico como era, concebia um filho de 4 em 4 anos pelo que o Fernando nasceu em 1955, eu em 1959 e o meu irmão Eduardo em 1963 (em Fevereiro, Março e Abril). De realçar que na altura não existiam máquinas de calcular.
Após uma infância mais ou menos normal (era tudo doido, lá em casa) e ainda durante o seu percurso académico, o Fernando, por volta de 1968, com 13 anos, ouviu na rádio um agrupamento que dava pelo nome de “The Beatles”, que tinham surgido em 1960, quando ele tinha apenas 5 anos. Parece que gostou do que ouviu e no Natal seguinte pediu ao Pai Natal que lhe desse um gira-discos. [...]


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DN - Série: Discos Pe(r)didos (18)


DN - Diário de Notícias
29 Junho 2002

Discos Pe(r)didos


Emigrado para França depois de uma recusa em combater na Guerra Colonial, Luís Cília é um entre uma “família” de músicos portugueses que desviam de Lisboa para Paris o palco de criação de alguns dos mais importantes discos que a língua portuguesa conheceu na década de 60. É em Paris que conhece figuras como as de Paco Ibanez, Colette Magny, Georges Brassens, Luigi Nono... É também em Paris que enceta a sua obra discográfica, com o fundamental “Portugal-Angola: Chants de Lutte” (editado em 1964 pela Chant du Monde).
Ainda durante a década de 60 edita “Portugal Resiste” (um EP) e os três álbuns da série “La Poèsie Portugaise”. Em 1969 assina “Avante Camarada”, canção que, gravada por Luísa Basto, se transformaria depois no hino do PCP. E, ainda antes do regresso a Portugal, grava e edita “Contra A Ideia da Violência, a Violência da Ideia”, disco que assinala o seu reencontro com a Le Chant du Monde.
Quatro dias depois do 25 de Abril, Luís Cília regressa a Portugal e logo causa polémica ao afirmar que Alfredo Marceneiro era um cantor revolucionário. A ligação que era feita, pela turba revolucionária, entre o fado e o regime deposto, não permitia a aceitação deste tipo de opinião de bom grado.
A demarcação mais efectiva ainda de Luís Cília face a alguns excessos desses tempos ganhou forma naquele que foi o primeiro álbum editado após a revolução. Sem embarcar na multidão que então fazia do canto de intervenção a linguagem musical do Portugal de todos os dias, Luís Cília procura reunir num disco uma colecção de romances antigos, os mais recentes datados do século XIX, os mais remotos do século XIII!
Para o processo de recolha não recorreu aos trabalhos de Michel Giacometti e Lopes Graça (duas referências já devidamente reconhecidas), mas antes a uma busca em nome próprio, para tal socorrendo-se do acervo da biblioteca da Fundação Gulbenkian em Paris, na qual consultou uma série de cancioneiros. De uma série de trabalhos de recolha que vinham de antes do 25 de Abril nasceu a ideia de um álbum que, no agitado 18«974, rumou então contra a corrente.
Para a concretização do projecto, Luís Cília regressou a Paris. Por companhia levara, de Portugal, o produtor executivo José Niza, nomeado pela Orfeu, com quem o músico havia assinado. Na capital francesa tinha todos os músicos que julgara necessários para dar forma ao projecto. Em primeiro lugar o guitarrista clássico Bernard Pierrot, que Cília conhecia por ter sido, também, aluno do seu professor de composição Michel Puig. Pierrot assinou os arranjos e, com o seu grupo de música antiga, participou na gravação de “O Guerrilheiro”, cujas sessões tiveram lugar nos estúdios Sofreson, em Paris.
Disco esquecido, importante registo de referência de uma atitude muito particular perante a recolha do legado da música tradicional portuguesa, “O Guerrilheiro” deu à Intersindical o seu hino, mais concretamente na música do tema-título (originalmente uma canção alentejana do século XIX, aparecida em 1852, por ocasião das lutas civis de Patuleia e Maria da Fonte).
Oito anos depois (em 1982), Luís Cília voltou ao estúdio, onde regravou as partes vocais do álbum que, então, a Sassetti reeditou com o título “Cancioneiro”. Todavia, nem esta versão de 1982, nem a histórica versão original, tiveram ainda luz verde para a reedição em CD.
Teremos ainda de esperar muito?
N.G.

LUÍS CÍLIA 
“O Guerrilheiro” 
LP ORFEU, 1974
Lado A: “O Adeus d’um Proscrito”, “O Conde Ni#o”, “Flor de Murta”, “A Guerra do Mirandum”, “O Conde de Alemanha”; 
Lado B: “D João da Armada”, “Canção do Figueiral”, “D. Sancho”, “O Guerrilheiro”
Produtor delegado: José Niza






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