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26.4.17

António Sérgio - Entrevista


ENTREVISTA   ANTÓNIO SÉRGIO
À FRENTE DO SOM



Vinte anos depois, o regresso Às memórias da rádio e da música de outros tempos numa viagem de regresso ao «Som da Frente» conduzida por António Sérgio, num CD agora editado.
EURICO NOBRE

A última emissão do «Som da Frente» foi para o ar na Rádio Comercial em Agosto de 1993, numa sexta dia 13. Mais de uma década depois da estreia. Mas nem um momento ou outro significam ou início ou fim de absolutamente nada. «O ‘Som da Frente’ não é o António Sérgio. É uma coisa já bem enraizada na década de 80 que já não existe e o António Sérgio ainda cá está para as curvas. É um produto do António Sérgio, como o foi o “Rolls Rock”, o “Grande Delta ou o “Rotação”, numa altura em que eu não tinha a noção, pelo menos nesses primeiros programas, de poder fornecer correctamente esse tipo de produto à rádio mas onde tinha uma vontade enorme de o fazer correctamente», contextualiza o autor do programa.
Com uma carreira cuja origem se perdeu no tempo, confessa que até há uns anos «sentia muita dificuldade em localizar esse tipo de coisas». Agora lembra África, «quando comecei a ver alguém fazer rádio à minha frente. Devo ter visto e aprendido coisas que nunca deixaram o bichinho morrer» e cita a Renascença, já em 67/68, «a altura em que uma pessoa pode dizer que começou realmente, com trabalhos de continuidade vulgares». Mas foi apenas mais tarde que o desenrolar de acontecimentos que fizeram de António Sérgio um dos mais importantes e respeitados nomes da rádio portuguesa das últimas décadas tiveram a sua génese. Até porque cada uma das suas experiências como que se foi encadeando nas outras, apenas mudando o nome e, por vezes, o cenário, mantendo uma atitude e coerência ímpares.

EM ROTAÇÃO
«O meu primeiro programa de autor é a “Rotação” que muitas vezes foi reduzido ao punk rock, o que não é verdade, embora tenha sido a emissão e o meio que deu mais exposição ao fenómeno em Portugal. Agora, há um tapping evidente do punk rock, porque eu estou muito atento e mesmo muito interessado como indivíduo, porque tudo o que me está a chegar soa-me bem, as atitudes, as opiniões, as conversas e os sons quando começam a chegar...», lembra sobre o programa inovador. Mais ainda dado o perfil da Renascença. «Na altura não tinha um canal de FM vocacionado, tinha uma Onda Média que emitia em FM.» A oportunidade demorou mas chegou e as memórias dos primeiros instantes ainda estão presentes, quando «em branca», sem qualquer fundo, se apresentou aos ouvintes: «Boa noite, a partir de hoje passa a existir, entre a uma e as três, um espaço dedicado a outras músicas no qual pretendemos que toquem nomes perdidos ou praticamente perdidos...». Nesse rol de nomes «no distante 1976», continua, «eu nomeava Frank Zappa, Captain Beefheart, os Byrds, Graham Parsons, e uma série de outra gente. Estávamos ainda muito longe de haver a advento Patti Smith».
Sobre a «Rotação» diz ter sido «um programa aventureiro como todos os outros» desde então. O que se seguiu, já na Comercial, foi o «Rolls Rock», em 1980. «Um nome inventado pelo João David Nunes, porque era ideia do Rolls Royce do Rock». Depois quando houve a hipótese de saltar para o horário diurno, deu-se o início do “Som da Frente”.» Anos mais tarde, no início da década de 90 experimentou algo diferente, um espaço mais aberto aos sons, com o «O Grande Delta», na XFM. Nos últimos cinco anos, de regresso à Comercial, é de novo companhia regular entre a uma e as três da manhã, com «A Hora do Lobo».

DA NOITE PARA O DIA
Apesar de haver um fio condutor uma vez que «há imensa coisa no anterior que acaba por ficar sempre na mesma», António Sérgio assume «não gostar de estar a mudar de estações ou de «slot» sem mudar o nome pelo menos do rótulo. Não quer dizer baralhar e voltar a dar». Mas, no fim de contas, «há um tratamento meu com a música e há um entendimento da música comigo.» E a música, diz, «é toda a que acontece», sem desespero na procura. «Este desespero é quase uma piscadela de olho de gozo à imprensa do “next big thing”. O que é que nós agora vamos por como arauto ou como cabeça de cartaz ou de locomotiva da máquina?». Não há necessidade disso, defende. «Hoje há uma pacificação da produção musical, os estilos esbateram-se muito, deixaram de haver grandes estrelas e passou a haver uma série de outras mini-estrelas e os sons estão a ganhar com isso. O “Som da Frente” é outra coisa, é um tempo de estrelas mesmo.»
Em 1982, intervém Ana Cristina ferrão, íntima e eterna cúmplice de António Sérgio, «a Comercial já há uma relação muito directa entre o Sérgio e o John Peel, porque é ele que em Inglaterra divulga o punk, na BBC. E o John Peel, que estava sempre a trabalhar à noite muda para um slot diurno. O Jaime Fernandes tem então a ideia peregrina de seguir o exemplo e colocar na nova grelha da Comercial o “Som da Frente” às quatro da tarde». Além disso, recorda Sérgio, «o Barros tinha decidido deixar de fazer a tarde para fazer um programa da manhã e tomar grandes pequenos almoços (risos)». Tal coincide, como relata, com «uma mudança de marcha da indústria musical portuguesa, em termos de andamento de comboio, mas há também uma mudança de situação, que é outra vez conjuntural, que é a nossa relação com os chamados mercados de importação.» Um sentimento espelhado no disco agora editado, «Som da Frente: 1982-1986».

A IRMANDADE DA LUZ
«É uma época de quase passa a palavra, de uma vontade urgente de mostrar as cosias novas. Havia pessoas que me iam levar discos que recebiam de Londres para eu tocar no “Som da Frente” porque eu tinha a possibilidade de os mostrar a muito mais gente. Há aqui uma Irmandade, e não é nenhuma Irmandade de Cruz Negra, há luz no meio disto. Luz da divulgação e do espalhar do bom gosto e do gozo, no fim de contas».
Foi uma época «de uma militância que era necessária, em que a música é encarada como um bem muito especial. Passar essa música, ouvi-la e depois comunicarmos uns com os outros», lembra António Sérgio. «É por isso que eu gosto muito desse disco, apesar de algumas falhas de repertório que eu sei que cá estão. Mas mesmo assim o CD é duplo e está cheio até ao fim. Tivemos mesmo de fazer um “fade out” nos Shriekback, porque o tema era muito grande e dava para roubar aquele bocadinho, caso contrário não ficava o dos Xutos inteiro, o que era para mim mais importante, porque é uma marca e eles nunca mais aquilo daquela maneira.»
Trata-se de uma compilação que «sai das paredes, sai dos armários dos discos» e embora não tenha sido difícil elaborar a lista inicial, «uma vez que tem mais de 100 temas», o quase insólito aconteceu depois quando «gabinete competente da editora fez os contactos para licenciamentos, etc.» e esbarrou nas respostas «que informavam que os produtos tinham sido descontinuados» aconselhando a fazer a cópia a partir do vinil. «É esse o estado das próprias majors em relação ao seu produto, que neste caso tem 20 anos e que para eles não vale absolutamente nada. É uma atitude de tiro no pé típica de pessoas que não sabe tratar do seu próprio negócio e que nos disseram, nalguns casos, que o material tinha sido eliminado, logo não existiam “masters”. Há aqui quebras de profissionalismo, de tudo, óbvias.»
O importante é que «venda ou não, é o tal artefacto que fica feito e que para mim é uma excelente memória do trabalho que fiz há alguns anos e de que me lembro fortemente.» Ao longo de 36 canções há aqui algumas repetições que António Sérgio justifica sem hesitar. «Projectos como o Julian Cope, Teardrop Explodes, Psychedelic Furs ou a Siouxsie era fundamental para mim que tivessem duas faixas. Como achei importante tocar nessa altura e insisti contra muitas marés num ambiente radiofónico e de divulgação musical diferente, teimaria hoje da mesma maneira. Quem ouvir o “Israel” e o “Mirage” apreende determinado tipo de coisas que podem ser importantes. Talvez arranje novos ouvintes para “A Hora Do Lobo”, dá-se sempre jeito e acaba por ser no mesmo horário... Portanto 20 anos depois, we’Re back». Quanto aos que ficaram de fora cita dois exemplos, até porque no cenário desta conversa a luz é baixa e afasta a visão da listagem com todos os eleitos. «A mim faz-me falta o Robert Wyatt, uma pessoa com uma posição mental e social claras, alguém muito inteligente que sempre prezei muito e que para mim é o paradigma de um certo tipo de rochedo que não se move mas que à parte disso é uma doçura...». E os Jesus & Mary Chain «num cenário completamente diferente, de rebentamento. A produção é completamente inovada ali e é quando se inaugura o período sónico que veio dar depois excelentes frutos. Depois é uma memória de baladas dos anos 50 que eles vão buscar não sei bem onde... É quase um caso para bruxas.»

SEM ESPAÇO NEM TEMPO
Mas apesar de enquadrado num espaço de tempo, este é um disco que não se poderia reduzir a tal dimensão. «Aliás isto começou antes e nunca mais acaba.» Uma perspectiva que tem muito a ver com aquilo que Sérgio refere como sendo «uma curiosa ligação minha, automática e intuitiva em relação à própria música, por ter crescido também quase com a idade do rock. Tenho a sorte de ter acesso a música do rock and roll norte-americano em África, via estar metido no meio de rádio, coisa que se me tem escapado me teria retirado imensa cultura musical, ou pelo menos informação musical, aquela mais automática.» Além disso, «sem querer, quem ouve rock and roll desse tempo ouve blues ou pelo menos alguma coisa de blues, o meu pai ainda tinha a mania de ouvir música clássica portanto...»
E quem o foi ouvindo ao longo de todos estes anos sabe do que fala. «A vida e os anos em rádio ensinam-nos muito, principalmente para quem paciência para fazer aquela tarimba que eu fiz, e não esperar estrelatos demasiados porque a rádio não é um meio que o proporcione. Gosto mais a ideia do sacerdócio e da dedicação. Também há mais carinho nisso e mais paixão.»
Para a Ana Cristina Ferrão «este foi o verdadeiro “Globo de Ouro” de António Sérgio. «Não é aquela cena emperuada e encasacada mas sim a hipótese de fazer um objecto rock, algo que vai permanecer, o que o motivou imenso. É um reconhecimento diferente.» No entanto, acrescenta Sérgio, «o verdadeiro artista aqui é a música, as bandas que cá estão dentro e os disparos de energia que têm.» Isto sem esconder o prazer que lhe deu ter um pretexto para remexer nestas suas memórias e no vinil todo, «coisa que já não faço porque não utilizo, uma vez que a cabina da Comercial não dá para o fazer.» Para andar «a carpir mágoas do passado» também não valia a pena. Desta forma foi diferente, até pela satisfação adicional em «lidar com criadores que são eles próprios a razão de ser da criatividade da música. Não são correios de transmissão de nada, não conseguem ser.»
Ciente de que a pior parte já passou, «que foi este material mais enterrado no tempo», já se perspectiva uma segunda edição, referente ao período 1987-1993, ainda sem data definida e sem a certeza de conhecer vida, tal como este, no ano em que se assinalam os 20 anos do «Som da Frente». «Nesse disco vou tentar evitar as repetições, não vai haver banda nenhuma com direito a mais que um tema, talvez tema e meio. Além disso terá a particularidade de saltar a década em si, e a década musical não é de maneira nenhuma a mesma dos calendários. Mas há coisas curiosas uma vez que entre 1988 e o princípio de 90 forja-se uma boa parte daquilo que se passou a seguir. Portanto vou tentar documentar isso o melhor possível.»
Para já fica o testemunho anterior num disco que «continua a ter uma certa rebeldia que está ligada ao nome do programa e a uma atitude intrínseca da pessoa que fazia o programa e das pessoas que o ouviam que em certos casos se manterá.» Um documento que «tentou cobrir um período muito rico da criação musical pop e rock, já com algumas inserções na world music, embora não se chamasse assim nessa altura...» E com um público bem definido. «A maior parte das pessoas que eu queria que fossem buscar este disco eram pessoas aventureiras, que quisessem outra vez entrar na aventura da descoberta dos sons e dos novos nomes. Como aqui há nomes tão velhos que podem parecer novos nomes... Há quem possa nunca ter ouvido falar, sei lá... da Durutti Column?»
Sem certezas sobre as motivações de uma geração que privou com o «Som da Frente» e que «pode estar ou não demitida dessa atitude perante a música», o desafio desta proposta é também o de fazer despertar a curiosidade a outras pessoas «que tinham oito ou nove anos na altura». Como? «Só se for por valer a pena de alguma maneira», responde de pronto António Sérgio. «Ou o repertório tem aqui manchas de talento que valem a pena, e aí temos de chamar a atenção porque eles não sabem, ou então não valerá a pena. Fica apenas a memória de um programa que existiu, foi muito funcional na altura e depois deixou de o ser.»


AS HORAS DO LOBO
Mais que uma escola, o «Som da Frente» era quase um momento de procissão de fé num tempo em que as janelas a outros mundos eram poucas, e difíceis de abrir. Hábito diário, a audição do «Som da Frente» era um complemento fundamental a um processo de descoberta de novos sons, novas sensações... O panorama musical de inícios e meados de 80 não mostrava os sinais da imbecilidade reinante do «mainstream» do presente mas, já então, o «Som da Frente» assumia a ousadia de, em alto e bom som, ir mais além. Ser fiel ouvinte do programa era condição necessária para a adesão a uma tribo que não se satisfazia com a máxima globalizante «todos diferentes todos iguais». O núcleo de ouvintes «hardcore» fazia questão de levar, depois, as sugestões ainda mais longe, encantando figuras e trapos condizentes com músicas e músicos, com o negro quase sempre presente, o «Blitz» debaixo do braço e as inevitáveis passagens pela Catedral da Rua da Beneficência ao Rego (o Rock Rendez Vous).
O «Som da Frente» estimulava a busca de um gosto pessoal, alargava horizontes. Apresentava-nos nomes como os Bauhaus, Joy Division, Cocteau Twins, Teardrop Explodes, This Mortal Coil, Danse Society, The Sound, Echo & The Bunnymen, The Cure, Clan Of Xymox, New Order, Durutti Column, REM, Siouxsie & The Banshees, Julian Cope...
O disco duplo que agora é editado consegue evocar, apesar da infeliz não cedência, pelos actuais detentores dos direitos, da importantíssima fatia de referências 4AD, o que era o tutano das emissões do «Som da Frente». A abrir o histórico instrumental dos Xutos & Pontapés, que serviu de indicativo. E, depois, memórias soltas como «Winning» dos The Sound, «Sunspots» de Julian Cope, «Taking The Veil» de David Sylvian, «Regiment» de Brian Eno e David Byrne, «Five Miles Of You» de Tom Verlaine, «Sunglasses After Dark» dos Cramps, «Atmosphere» dos Joy Division ou o sublime «This Big Hush» dos Shriekback, a dada altura um tema de rodagem diária obrigatória no programa. Como complementos, excelentes textos de acompanhamento sobre a memória do programa e a voz por trás do microfone, por Ana Cristina Ferrão. Memórias dos melhores momentos de um disco que evoca um programa chave da história da rádio portuguesa. Personalizando, aquele que me ensinou a ouvir música. Obrigado, Sérgio!
N.G.

VÁRIOS
«Som da Frente 1982-1986»
EMI-VC
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