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30.1.17

Ian Curtis / Joy Division - Dossier


Ian Curtis / Joy Division

Dossier de 5 páginas, no
DN:música de 13 de Maio de 2005
Autor: Nuno Galopim


Figura aparentemente distante, autor expressivo, músico visionário, Ian Curtis viu-se transformado em mito pop pela morte precoce, que o levou, por suicídio, meses antes de completar os 24 anos de idade. Era, contudo, um jovem comum, cidadão suburbano com vida feita na periferia de Manchester, melómano profundo, funcionário público por obrigação, músico por sonho concretizado. Desde cedo mostrou uma admiração pelos ícones pop cedo ceifados pela morte. Morte também presente nas suas canções, as últimas das quais embebidas numa pulsão suicida quase denunciadora da tragédia que se concretizou a 18 de Maio de 1980, quando se enforcou na cozinha de sua casa, com a corda de estender a roupa. A sua mulher, Deborah Curtis, afirmaria mais tarde que, caso tivesse acompanhado em estúdio a gravação do segundo álbum, Closer, registado poucas semanas antes do seu suicídio, ouvido as canções e escutado as letras, teria descodificado o estado de depressão e angústia profunda que expressavam, e eventualmente evitado o desfecho que a história registou. Apesar da carta que deixou à mulher, a morte de Ian Curtis não tem motivo conhecido. Terá sido o degradar terminal de um casamento então já à beira do desmembramento? O reforçado impulso suicida vincado pela epilepsia que lhe foi diagnosticada em 1978? A rejeição por parte da amante Annik Honoré nos momentos de ataques? O avolumar da agenda de espectáculos (que amplificou a regularidade e intensidade dos ataques)? A iminência de uma digressão americana e de todo um potencial futuro mais exigente? Um acumular destas e de outras razões?
Intrinsecamente ligada à figura, voz e escrita de Ian Curtis, a Joy Division foi uma das bandas que abriu a porta à década de 80 e uma das mais marcantes forças criativas da sua geração. Formada na ressaca da revolução punk, avessa à luminosidade festiva da new wave que se lhe seguiu, a Joy Division foi a primeira banda que conseguiu captar, não a raiva e energia, mas antes a ambiência e sentido de identidade do punk e projectá-los num espaço diferente que abriu alas ao desenho de uma atitude melancólica que dominaria a cena pop/rock alternativa na primeira metade de 80. Apesar das manifestações primeiras de uma certa desordem formal característica do punk, a depuração de ideias e linhas, o aflorar de um ideário urbano, tortuoso e solitário em tempestades interiores, e a posterior entrada em cena de sintetizadores fizeram da Joy Division um dos mais entusiasmeantes laboratórios de reinvenção pop que a Inglaterra conheceu na passagem de 70 para 80. Em vida de Ian Curtis, tinham decidido que a saída de qualquer membro da banda decretaria o seu fim. A sua morte, em 1980, fechou antes do previsto o tempo da Joy Division. Das suas cinzas nasceriam os New Order. Mas essa é outra história...
25 anos depois da sua morte, Ian Curtis e o legado da Joy Division são presenças vivas na música e cultura popular. Interpol ou Mount Sims herdam claramente os seus ensinamentos. Anton Corbijn, que os fotografou e realizou o belíssimo teledisco de Atmosphere, vai rodar a adaptação ao cinema do livro da viúva, Deborah, Touching From A Distance (traduzido por Ana Cristina Ferrão como Carícias Distantes, editado pela Assírio e Alvim em 1996).


OS PRIMEIROS DIAS
Ian Curtis nasce em Macclesfield, arrabalde de Manchester, a 15 de Julho de 1956. A música é desde cedo a sua grande paixão, e o desejo de fazer parte de uma banda teve a primeira materialização ainda nos dias de escola, entre amigos. Descobre Bowie (tinha um autógrafo seu e outro de Mick Ronson) e os Velvet Underground, Iggy Pop e os MC5. A sua primeira canção de referência é a versão de Bowie para um clássico de Brel, My Death (prenunciador? Não... puro exagero de mitologia pop). Descobre James Dean quando vê Fúria de Viver. Atraíu-o o seu sentido de rebelião. E a sua morte precoce. Venera o romantismo obsessivo e mágico de Riock’n’Roll Suicide de Bowie, admira Jim Morrison, morto no auge da criatividade.
Ian não tem dinheiro para comprar os álbuns que quer ouvir, e por vezes rouba-os, escondendo-os debaixo do casaco. Ainda adolescente começa a materializar um sentido de rebeldia através de incursões em bares de bebidas alcoólicas sem licença e em primeiras ingestões de químicos, na forma de comprimidos, cheirando cola, fumando. Alguns dos comprimidos ingeridos são roubados a pensionistas que ele e amigos visitam em serviços sociais. Numa ocasião a aventura termina num hospital, com ordem de lavagem ao estômago. É nestes dias de vadiagem e conduta rebelde que se aproxima de Deborah, jovem suburbana que o idolatra e com ele se casa em 1975.
Ian tem o seu primeiro emprego a sério numa loja de discos, a Rare Records, no centro de Manchester. Nunca tinha estado tão próximo do mundo da música, e para ganhar o lugar na loja estuda com entusiasmo velhas edições de jornais e revistas.
É aceite e colocado na secção pop, na cave.
Em Abril de 1974 Ian e Deborah estão noivos. Ian abandona o salário seguro na Rare Records, e monta uma banca no mercado de antiguidades de Butter Lane. Ia vender discos em segunda mão. O primeiro stock custa-lhe a própria colecção. E não poupa sequer a sua muito querida cópia de The Man Who Sold The World, de Bowie. Mas não faz nunca dinheiro suficiente para pagar a renda da desejada nova casa e acaba à procura de novo emprego. Encontra-o num departamento do Ministério da Defesa. O homem que sonhava em ser músico é agora um funcionário público, em horário das nove às cinco.
Depois de casados, Ian e Deborah mudam-se para uma casa própria em Oldham. No novo bairro são como alienígenas, não têm amigos nas redondezas. Afável, conversador, Ian abre a porta a toda a gente. Um dia, o candidato liberal à autarquia local bate à porta. Vende o seu discurso... Reaparece no dia da eleição para transportar, de carro, Ian e Deborah à mesa de voto. Mas, como sempre, Ian vota nos conservadores. E convence Deborah a fazer o mesmo, não fosse um voto em contrário anular o seu!


OS WARSAW. A rotina do casamento aguça o sentido de frustração em Ian Curtis por não ter nenhuma ligação e envolvimento na cena musical. Reza a mitologia que os primeiros passos para a aventura que meses depois se veio a chamar Joy Division são dados depois do marcante concerto dos Sex Pistols no Lesser Free Trade Hall de Manchester. Bernard Sumner e Peter Hook, respectivamente guitarrista e baixista, estão presentes. Deborah, no seu livro, conta que também ela e Ian lá estiveram... Mas em mais nenhum relato se fala da presença do futuro vocalista da Joy Division na sala (enfim, mitologias). O certo é que, semanas antes, Ian Curtis havia publicado um anúncio na imprensa musical no qual, assinando como Rusty, propunha a formação de uma banda. Obtém uma resposta, a de um guitarrista chamado Ian Gray. Juntos começaram a trabalhar e a circular na noite de Manchester, até que encontraram Sumner e Hook. A intensidade da relação musical com os novos amigos condu-los inevitavelmente no sentido da concretização do sonho de Ian: ter uma banda. Nesses dias, o casal Curtis muda-se para nova casa, em Macclesfield, na qual uma sala é guardada para uma nova função: a escrita e composição.
Ian Curtis, Bernard Sumner, Peter Hook e um primeiro baterista, Tony Tabak, apresentaram-se pela primeira vez em público a 29 de Maio de 1977 no Electric Circus como Warsaw, nome directamente inspirado no instrumental Warsawa, do álbum Low de David Bowie. A crítica no Sounds é desmotivadora. Mas Paul Morley, no NME, afirma que “existe uma faísca elusiva da dissemelhança nas bandas mais recentes que indica que têm ainda muito para mostrar. Gosto deles e irei gostar ainda mais daqui a seis meses”. Paul Morley, descoberto numa fanzine e contratado pelo NME para retratar o que parecia uma invulgar agitação na cena musical de Manchester seria o “padrinho” da futura Joy Division na primeira liga da imprensa musical inglesa, um dos muitos parceiros de uma aventura colectiva que iria marcar a história da música. Desses primeiros tempos data ainda o contacto com Martin Hanett, que antes mesmo de surgir em estúdio como produtor, surge em cena como promotor de eventos, alguns dos quais com os iniciados Warsaw.
As canções dos Warsaw (que tinham encontrado novo baterista temporário em Steve Bothersdale) são ainda meros esboços de intenções, e as letras de Ian Curtis primeiras manifestações de uma demanda pessoal. A energia da banda e a sua entrega compensam contudo as evidentes imperfeições. Um anúncio numa loja de música leva-os ao encontro com Steve Morris e este assume de vez o lugar de baterista. Ian trabalha, agora, como assistente social num centro de reintegração de deficientes  perto de casa; Sumner trabalha em publicidade... Tentam uma primeira aparição televisiva na local Granada Television. E vêem-se brindados pelo entusiasmo da Virgin, que os grava ao vivo para uma compilação de talentos locais. Uma outra primeira gravação de quatro temas em nome próprio (com capa de Bernard com referências à imagética nazi e impressão a cargo de Steve) ocupa-os logo depois. O EP, de título An Ideal For Living assinala, em Janeiro de 1978. O nome, inspirado na ala dos campos de concentração nazis nos quais eram mantidas as prostitutas de serviço aos oficiais alemães, causa inevitável polémica. A mudança de nome, curiosamente, conduz também a mudanças formais na composição da banda. O punk era agora apenas um eco aceite como herança, as melodias mais cuidadas, as letras mais expressivas. A banda ainda toca mal, problema secundário. A crescente popularidade local dos Warsaw transferiu-se para a nova Joy Division, em concertos já com evidente legião de fãs. Por esta altura, através do investimento de alguns amigos e entusiastas locais (entre os quais profissionais do escritório local da RCA que Ian visitava regularmente), o grupo junta-se nos Greenwood Studios para gravar aquele que poderia ser o seu primeiro álbum (mas não foi). Mas as gravações desapontam o grupo. E acabam na gaveta (editadas dez anos mais tarde numa famosa bootleg).
Uma noite, pouco depois, no Rafters (em Manchester), escreve-se história a tinta permanente. Tony Wilson, jornalista da Granada TV e apresentador do programa musical So It Goes (fundamental montra da revolução punk), ao descer as escadas do clube, é confrontado com um vómito irado de palavrões e insultos do habitualmente pacato Ian Curtis, que o critica por nunca ter levado a banda ao seu programa. Diplomata, Wilson responde que a Joy Division era a sua própria escolha. Satisfaz Ian, tranquilizado pelo efeito de missão cumprida. E a verdade é que, dias depois, tocam Shadowplay frente às câmaras.
Apesar de possuído por esse sonho chamado Joy Division, e por dedicar cada vez mais tempo a grandes conversas sobre livros, filosofias e ideias bizarras com Bernard Sumner, Ian ainda vive com entusiasmo a vida familiar. Deborah engravida e nove meses depois entra em cena a pequena Nathalie.
Mas aquele 1978 é sobretudo um tempo de agitação criativa para Ian Curtis e banda. Assinam um acordo de management com Rob Gretton. Gravam um tema para o sampler de estreia da editora Factory de Tony Wilson, e acabam por descobrir casa editorial para sempre. No fim do ano, contudo, Ian tem o seu primeiro ataque epiléptico registado. Teimoso, só comparece a uma consulta de especialidade em finais de Janeiro de 1979, duas semanas depois de surgir pela primeira vez na capa do NME fumando um cigarro e depois de gravada uma primeira sessão para John Peel na BBC.
A personalidade maníaca de Ian não é mais uma novidade para os amigos e colegas, que já lhe conhecem a volatilidade temperamental e tendência depressiva. A epilepsia contudo é um factor novo, e começa a atormentar os concertos. Ian era já conhecido por assumir em palco uma dança frenética, espasmódica, como que estilizando as convulsões características da doença. Porém, ao longo dos largos meses seguintes, os ataques deixam de ocorrer apenas depois de terminados os concertos, para se manifestarem ainda em palco. Mas, por enquanto, sem consequências trágicas. Medicado, Ian continua.
A música da Joy Division evolui sombria, já evidentemente caracterizada pela presença possante do baixo de Petr Hook. As letras, quadros de desespero emocional e ansiedade urbana pós-industrial, vincam essa negritude depressiva. Era já a expressão superficial da melancolia natural em Ian Curtis, mas colegas e muitos admiradores só descodificaram os sentidos mais profundos das palavras depois da sua morte.

O PRIMEIRO ÁLBUM. Em Abril de 1979 a Joy Division grava finalmente o que seria, de facto, o seu primeiro álbum. Fundamental na construção definitiva de uma identidade sonora para as canções do grupo, a presença em estúdio do produtor Martin Hanett revela-se fulcral. As canções, mesmo que ocasionalmente imperfeitas na arte final, são gritos de identidade dotadas de um invulgar sentido de urgência. A música, quase minimalista, capta o desespero patente na escrita de Ian Curtis e a sua voz parece buscar catárse na partilha com o ouvinte. Hannett encontra-lhes a cenografia ideal, um espantoso sentido de espaço, sugere malabarismos técnicos e formais e define em Unknown Pleasures um dos álbuns mais influentes do seu tempo. A capa, a cargo de PeterSaville, sublinha a imortalidade potencial do disco.
A gravação e mistura do disco quase coincide com o nascimento da filha de Ian Curtis. Contudo, apesar das expressões de amor paternal, a vida doméstica não é mais a prioridade de Ian. Quando está em casa ouve música ou entrega-se à leitura de autores como Dostoiévski, J. G. Ballard, Nietzsche, Sartre ou Hermann Hesse. Os concertos que se seguem ao disco, a recepção nos media, o entusiasmo de uma legião de admiradores em crescimento tomam a sua atenção. Editado em Junho, o álbum colhe críticas diversas. No Sounds, o texto aponta-o como um potencial catalisador de suicídios!
A banda actua intensamente depois da gravação de Unknown Pleasures e da edição do single Transmission, e os ataques de epilepsia multiplicam-se. A banda é agora quase um emprego full time, mas ainda incapaz de gerar salários expressivos. Ian faz de tudo para ganhar dinheiro extra. Limpa a sala de ensaios, cola folhas de lixa na capa do álbum de estreia dos Durutti Column. Os concertos, mesmo assim, surgem com agenda cada vez mais intensa. Os ataques crescem proporcionalmente, assim como aumentam as dificuldades de comunicação entre Ian e quem o rodeia.
Em Agosto, ao assumir o lugar de banda de suporte numa digressão dos Buzzcocks, a Joy Division torna-se em pleno uma banda profissional, e todos abandonam os seus empregos não musicais. Em grupo, fora do palco, Ian começa a desenvolver uma atitude de alheamento aos fardos do dia-a-dia. Não carrega instrumentos, furta-se às obrigações não performativas. Bernard acompanha-o. Hook e Morris toleram...
A 16 de Outubro de 1979, numa pausa na digressão dos Buzzcocks, a Joy Division toca em Bruxelas, no Plan K: É aí que se pensa que Ian terá conhecido a fã Annick Honoré que rapidamente se torna sua amante e sombra omnipresente (para descontentamento dos restantes membros da banda). Quando de regresso a casa Ian está cada vez mais distante, ausente.
Em Janeiro de 1980 o grupo parte para uma exigente digressão europeia. Apesar da política de Greton que pede o afastamento de mulheres e namoradas, Ian leva Annick consigo. Ataques ocasionais ensombram a digressão. Nesses momentos, Annick afasta-se, Ian sente a rejeição e experimenta o frio da solidão. Publicamente, contudo, a banda vive momentos de glória. As canções são cada vez melhores, a voz de Ian mais encorpada e expressiva. A letras mais intensas.

UMA PREMONIÇÃO. Em Março de 1980 o grupo regressa a estúdio para gravar um segundo álbum. Hannett está novamente na dadeira de produção, e volta a interferir na condução da atmosfera dominante. Ian está inspirado, entregue à criação. Mas a sua escrita revela-se mais gélida que nunca, implacável contra si, contra o futuro. Uma premonição? Se o álbum anterior havia definido um rumo, este novo explode em todas as direcções, numa erupção espantosa de criatividade bem estruturada. Os teclados afloram com maior evidência, acrescentando ferramentas dramáticas ao arranjo das melhores canções da obra da banda. O vazio explorado na lírica é aqui oposto evidente da massa sonora e grandiosidade formal.
Um mês depois de gravado Closer, Ian Curtis toma uma overdose de medicação contra a epilepsia. É levado para o hospital, onde lhe é lavado o estômago. Ian é visto por um psiquiatra nessa noite, que conclui contudo que o paciente não é potencial suicida! Mas Ian chegou mesmo a deixar uma nota de suicídio à mulher, que Deborah não divulga aos amigos e familiares. No seu livro conta que se sentiu marginalizada pelo marido e banda, e que desde Unknown Pleasures não conhecia as canções nem lia as letras. Não conhecia a nova realidade da natureza profunda da alma de Ian...
Aconselham-no a uma pausa, e por dias deveria ficar numa casa de Tony Wilson em pleno campo. Mas no dia seguinte levam-no para o Deby Hall, em Bury, onde chegam a discutir se dão ou não o concerto, tal é a debilidade do vocalista. Ian canta dois temas. E os fãs, desencantados, revoltam-se e quase destroem a sala. Ian segue para casa de Tony. Este e mulher desconhecem, todavia, a verdadeira dimensão da sua depressão, agravada certamente pela progressiva degradação da vida familiar (claramente retratada no single Love Will Tear Us Apart que então acabara de gravar), a precariedade da relação extra-marital, consequência clínica potenciada pela epilepsia, e um descontentamento para com a indústria musical. Este último, confessa-o a Deborah quando consigo vai a uma consulta de psiquiatria, a caminho da qual lhe terá dito que se havia realizado com as edições de Transmission e Unknown Pleasures e que tanto Closer como Love Will Tear Us Apart não faziam já parte das suas aspirações. Segundo Deborah, Ian desejava abandonar a banda. Terá dito mesmo a Stephen Morris, mas este julgou que o vocalista se queria mudar para outro lugar. Decades (de Closer) já havia levantado um debate interior sobre a futilidade da vida numa banda (e da vida em geral)...

O EPÍLOGO. Com o divórcio entre as preocupações imediatas, Deborah vê a agenda de concertos da banda conhecer nova erupção entre Abril e Maio, mês no qual o grupo deveria partir em digressão para a América. Ian vive então na casa de Tony Wilson, depois está algum tempo com Bernard e mais tarde regressa a casa dos pais.
A 2 de Maio, em Birmingham, a Joy Division dá o seu último concerto. O passo seguinte era americano, numa viagem preparada para assegurar conforto e cuidados ao vocalista. O velho amigo Terry Mason seria o responsável pelo seu bem-estar, pela medicação, pela tranquilidade. Loucuras e prazeres típicos de bandas em digressão estão vetados.
Uma visita ao especialista de epilepsia coloca-o, a 6 de Maio, frente a um médico novo. Ian dá-lhe a ideia de um homem que quer recuperar e começar vida nova... Depois da consulta oferece a Terry alguns dos seus discos, entre os quais algumas raridades. Indícios para um fim em vista?
A 13 de Maio regressa a casa para ver mulher e filha. Tira uma fotografia com Natalie, a sua última fotografia. Nos dias seguintes está com amigos e colegas, discutindo com aparente entusiasmo a viagem à América. No dia 17 tem uma longa conversa com a mulher. Esta, no seu relato, recorda que nas primeiras horas da manhã ele tinha visto um filme de Herzog, bebido café e estava animado. Falaram da degradação da relação, de Annik, do seu receio em que ela conhecesse um homem enquanto ele estivesse fora. Deborah acaba por ir dormir a casa dos pais. Ian pedira-lhe para não regressar antes das dez da manhã, hora a que deveria apanhar um comboio para Manchester.
Bebe mais café, acaba a garrafa de whisky que tinham na despensa. Tira a fotografia da filha da parede, ouve The Idiot de Iggy Pop e escreve uma longa carta à mulher. Pedia-lhe para não entrar em contacto com ele durante algum tempo porque lhe era difícil falar com ela, revelou Deborah mais tarde. Esta regressa de manhã a casa. Sente a falta do cheiro a tabaco na sala. Vê a carta sobre a lareira, e, olhando para o lado, constata que Ian ainda ali está, ajoelhado, na cozinha. Fala com ele. Só então repara na cabeça tombada, as mãos sobre a máquina de lavar, a corda em volta do pescoço.
O corpo de Ian é velado na Chapell of Rest, onde Tony agenda cautelosamente a visita de Annick, para evitar mais dramas. Tony Wilson também convida Paul Morley a comparecer, mas este fica à porta e recua. Wilson convidara-o para escrever “o” livro, mas Morley recusa.
Ian Curtis é cremado a 23 de Maio de 1980. Na lápide Deborah inscreve: “Love Will Tear Us Apart”. Ian era a primeira vítima rock’n’roll dos anos 80 que mal tinham começado.
Love Will Tear Us apart foi editado em Junho, e deu à Joy Division a sua primeira entrada no Top 20. Closer, o álbum, também teve edição póstuma e subiu ao número seis da tabela de vendas, colhendo igualmente críticas de entusiasmo geral. Seis meses depois da morte de Ian, a banda reunia-se em estúdio para gravar um novo single. Bernard Sumner apresentava-se agora como vocalista. Gillian Gilbert, mulher de Stephen, entrava como teclista. Juntos gravaram Ceremony e o fúnebre (premonitótio?) In A Lonely Place cujas maquetes haviam sido registadas com Ian Curtis, duas semanas antes do seu suicídio. As faixas eram parte de um novo single, apresentado como... New Order. É particularmente arrepiante a gravação de In A Lonely Place, canção na qual um morto, enforcado, é carpido por alguém que observa a sua lápide. Terá Ian Curtis escrito sobre a sua própria morte numa bizarra passagem de testemunho? Coincidência? Ou pura mitologia rock’n’roll?

DISCOGRAFIA
Unknown Pleasures

O histórico álbum de estreia da Joy Division, Unknown Pleasures foi editado em Junho de 1979. Gravado em três dias, misturado em dois, reflecte esse mesmo sentido de urgência, capta a intensidade criativa da banda e espelha as marcas de arquitectura espacial definidas pelo produtor Martin Hannett. As canções são marcos na história da cultura pop, cristalização de um sentido de melancolia pop que conheceu paradigma neste e no segundo disco da banda. Um clássico fundamental.

Closer

Editado já depois da morte de Ian Curtis, em Julho de 1980, Closer foi a obra-prima da Joy Division. As permissas partem dos dados lançados em Unknown Pleasures, mas desta feita a criatividade brota em todas as direcções. A escrita é mais pessoal e inspirada, as palavras mais sombrias que nunca. Banda e produtor assumiram o desafio do risco, alargaram horizontes, intensificando o sentido de vitalidade que corre na sua música. Um requiem pop/rock, hoje com dimensão mítica.

Still

Lançado em Outubro de 1981, Still representa uma primeira reunião de notas soltas e gravações inéditas da Joy Division. Pensado como um epitáfio para a banda (os New Order já seguiam então o seu caminho entre os vivos), o disco, duplo, reúne temas do catálogo do grupo não editado em álbum e junta-lhes a gravação do seu último concerto ao vivo, a 2 de Maio de 1980 no High Hall de Birmingham. Neste a banda tocava, a abrir, Ceremony, aquele que seria o primeiro single dos New Order.

Substance

Lançado em Julho de 1988, um ano depois de editado um best of dos New Order com o mesmo título, Substance reuniu os singles e temas de maior destaque da obra da Joy Division, e permitiu constar que a obra da banda estava a passar de mãos para uma nova geração de admiradores. O alinhamento é representativo, do velho Warsaw ao derradeiro Love Will Tear Us Apart. Atmosphere foi reeditado como single antes da compilação. Em simultâneo foi também editado um vídeo com o mesmo título.

Permanent

Em 1995 uma segunda antologia devolveu a Joy Division aos escaparates das novas edições. Desta feita sob o título Permanent, a antologia revela um alinhamento ligeiramente diferente do de Substance, e acrescenta ao lote de memórias uma escusada remistura de Love Will Tear Us Apart, por Don Gehman. A edição justificou-se pelo facto de novas bandas, dos Smashing Pumpkins aos Nine Inch Nails ou Low apontarem a Joy Division como referência fundamental nas suas obras.

Heart And Soul

Depois de duas antologias em formato de best of, a caixa Heart And Soul, de 1996, apresentou ao mercado uma colecção praticamente integral das gravações da Joy Division. Aqui estão os dois álbuns de originais, as faixas editadas em single, sessões para rádio, demos de estúdio (entre as quais as derradeiras gravações de Ian Curtis, duas semanas antes da sua morte, nas quais registou Ceremony e In A Lonely Place que só seriam editados pelos New Order), e muitas gravações ao vivo.

Preston 28 February 1980

Em 1999 iniciou-se a edição de uma série de gravações ao vivo da Joy Division. O primeiro disco, Preston 28 February 1980. Registo imediatamente anterior à gravação do álbum Closer (do qual tocam já as canções The Eternal, Twenty Four Hours, Heart And Soul e Colony), o disco exibe contudo um concerto no mínimo bizarro, no qual uma série de coisas correram mal. A dada altura o próprio Ian Curtis chega-se mesmo ao microfone para pedir desculpa pelos problemas...

Complete BBC Recordings

Em 2000 foram reeditadas em CD, num disco só, as sessões que a Joy Division gravou para a BBC. Em Complete BBC Recordings é reeditado todo o conteúdo do disco Peel Sessions (lançado em 1996), ao qual se acrescenta uma actuação no programa Something Else (em 1979), e ainda uma entrevista no programa Rock On, de Richard Skinner. A primeira e histórica sessão, em Janeiro de 1979, incluía Exercice One, Insight, Transmission e She’s Lost Control. John Peel foi um grande divulgador da banda.

Les Bains Douches 18 December 1979

O segundo disco de memórias de palco da Joy Division foi editado em 2001. Les Bains Douches 18 December 1979 regista uma actuação parisiense da banda na recta final do ano da sua definitiva afirmação. A gravação já havia sido editada num bootleg lançado em 1984 de título Live In Paris. O alinhamento é característico dos concertos da época, reflectindo já a presença de temas a registar em estúdio no futuro próximo, entre os quais Love Will Tear Us Apart. A gravação não é de primeira água...




ALMAS DORIDAS

ENTRE A GERAÇÃO DE 80 E OS DIAS DO PRESENTE, A HERANÇA DA JOY DIVISION MARCOU POR DIVERSAS VEZES A MÚSICA POP/ROCK PORTUGUESA

O Portugal musical de inícios de 80 vivia sobretudo o sentido de urgência da descoberta da viabilidade de uma vivência pop/rock em português, e o acompanhar da invenção pop internacional da época não parecia condição necessária para gritar “presente”! Mesmo assim, a Joy Division conheceu imediata herança em algumas manifestações locais. Entre os primeiros discos a reflectir de perto a sua presença conta-se o single de 1981 Foram Cardos Foram Prosas de Manuela Moura Guedes (música de Ricardo Camacho, letra de Miguel Esteves Cardoso). A alma dos Joy Division pairou também sobre os Ban, que se estrearam em disco em 1982 mas conceberam a sua obra-prima pop urbano-depressiva em Alma Dorida, EP de 1984. Do mesmo ano data o também marcante EP The Life Of He dos Croix Sainte.
Nascidos em 1982, mas revelados em disco apenas em 1983 no single Glória, a Sétima Legião representou a mais importante materialização nacional da herança Joy Division, patente não só nesse single como também no álbum A Um Deus Desconhecido (1984). “Ouvi-o [Ian Curtis] cantar e aquilo mudou a minha vida”, confessa emocionado, mais de 20 anos depois, Pedro Oliveira, fundador e vocalista da Sétima Legião. Descobriu a Joy Division no programa Rotação, de António Sérgio. “Misturava uma coisa subliminar com uma religiosidade espantosa. Era muito forte. Música, estética, temas, estava lá tudo o que eu queria... Eu tinha 16 ou 17 anos e quis, depois, fazer uma coisa semelhante”, lembra. Este entusiasmo, partilhado com o seu amigo Rodrigo Leão conduziria à formação da Sétima Legião, na qual lembra que “filtrávamos o mesmo espírito, naturalmente adaptado ao que nós éramos”.
Como sucede além-portas (ver caixa), a música da Joy Division ainda hoje estimula novas bandas. Os The Gift, em colaboração com Rodrigo Leão e Pedro Oliveira, criaram o concerto “paralelo” Madchester Mad Remixes, no qual tocam versões de Atmosphere, Decades e Love Will Tear Us Apart. Nuno Gonçalves teve um primeiro contacto muito cedo com a Joy Division quando o irmão lhe mostrou Love Will Tear Us Apart. Não gostou. Anos depois reencontrou uma cassete com Closer, e a reacção foi diferente: “Fiquei fascinado pelo Decades, a música que mais vezes ouvi na minha vida”. Encantou-o a convivência de uma lírica “difícil de entender” com uma música acessível. “Comprei depois o livro dos poemas, que saiu pela Assírio e Alvim”.
David Benasulim, dos Ultimate Architects também assume a herança de Curtis. Descobriu a Joy Division, num dia em que foi a casa de um amigo ver a guitarra e bateria do irmão dele (o Sapo então nos Pop Dell’Arte e hoje nos Mão Morta). Olhou para a parede e viu “posters”, e artigos de revistas fotocopiados com fotos de bandas esquisitas, a preto e branco, com gente estranha e olhares alucinados... eram os Joy Division”. Transmission foi, logo depois, o primeiro tema que ouviu: “A voz entrou em mim, a bateria e as guitarras formavam uma atmosfera diferente das músicas que estava habituado a ouvir na rádio. O ambiente em casa do Sapo, os instrumentos, os Joy Division, a voz de Ian Curtis, fizeram com que despertasse o desejo de fazer música e formar uma banda.” Curiosamente, anos depois, os Ultimate Architects incluíam uma versão de Transmission no seu set ao vivo: “O desespero, claustrofobia, força contida, poesia negra e desesperada desta letra arrebataram-me”, remata.



25 ANOS DEPOIS

OS REENCONTROS

Em entrevista ao DN:música quando do lançamento de Hotel, Moby falou de como Nova Iorque vive uma entusiasmada redescoberta da música britânica de inícios de 80. Depois de se terem tornado “a” banda definidora do sentir e das ansiedades de uma geração – posição definitivamente firmada com a morte de Ian Curtis -, os últimos anos têm sido palco para um estabelecer de novos contactos com a música dos autores de Transmission e, no processo, bandas que apenas conheceram a Joy Division como mito do passado, descobrem neles uma fonte de inspiração para criar o seu presente. O caso mais óbvio é o dos Interpol, em que tanto a voz como o negro urbano que transpõem para a sua música reflectem a influência da banda urbana depressiva por definição. Menos conhecidos, os Mount Sims ou os The Roger Sisters são dois casos de empatia evidente – os primeiros, que acabam de lançar Wild Light, atiram texturas electrónicas sobre os climas tensos de Unknown Pleasures e Closer, os segundos, que se preparam para editar Three Fingers, incluem habitualmente versões da Joy Division nos concertos. No meio disto, até os “levezinhos” The Killers exibem a referência – é só ouvir o baixo à Peter Hook de Mr. Brightside. Em Inglaterra, descobrimos nuns Bloc Party a convocação dos ambientes sombrios que eram marca do grupo de Ian Curtis e, a espaços, as mecânicas rítmicas estabelecidas para a posteridade por Stephen Morris e percebemos que 25 anos depois, renasce o mito e perpetua-se o legado.


ONDAS DE TRANSMISSÃO

ANTÓNIO SÉRGIO, NA RÁDIO. PITA, COMO DISC-JOCKEY DO ROCK RENDEZ VOUS. E ANA CRISTINA FERRÃO, TRADUTORA DA BIOGRAFIA ‘CARÍCIAS DISTANTES’. TRÊS DOS DIVULGADORES NACIONAIS FALAM DO CULTO.

Nesse idos de 1979, ainda fazia a Rotação na Rádio Renascença quando ouviu, pela primeira vez, um “som diferente, tipo bofetada na cara de quem gostasse de pop/rock”. António Sérgio diz que “a poeira do tempo apaga muita coisa” e até confessa que “não tinha grande fascínio pela figura de Ian Curtis”. Mas mesmo não gostando de se deter no passado, recorda que Unknown Pleasures rapidamente se elevou ao estatuto de “álbum divindade”.
Comprou o primeiro disco em Londres, como tantos outros, pela sugestão do nome da banda. Ou, talvez, porque já tivesse lido alguma crítica no New Musical Express ou Melody Maker, as “bíblias” que então se encomendavam na Distri, em Lisboa. As letras, afirma hoje, eram depressivas, como o ambiente frio e operário de Manchester, e em português até soariam a algo piroso. “Não te vás embora em silêncio!”. “São grandes canções de amor”, atalha a companheira Ana Cristina Ferrão, que em meados de ... traduziria para a Assírio e Alvim Touching from a Distance / Carícias Distantes, a biografia de Ian Curtis escrita pela sua mulher, Deborah Curtis.
Seja como for, o som era “brutal”. De bom. E em boa parte, como descobriu mais tarde com Ricardo Camacho, tudo se deveu a Martin Hannett. “O 5º Joy Division”, o homem da produção que encontrou “aquele som de estilhaço constante” ao fechar a bateria numa cápsula de vidro; que “abriu o baixo”; que “captou a voz de Curtis com o microfone demasiado alto, obrigando-o a esticar o pescoço e abrir o peito – e isso reflectiu-se nos espectáculos pois começou a gesticular de maneira diferente”.
Sem menosprezar a inovação e qualidade das canções e poesia, António Sérgio aponta vários factores que contribuíram para o sucesso da Joy Division: a Inglaterra vivia uma época criativamente rica; as editoras independentes tinham personalidade e tratavam de todo o conceito associado às bandas, do reportório às capas ou modo como se apresentavam em público; e o jornalismo de autor, com Paul Morley à proa da escrita na primeira pessoa, ajudava a divulgar o fenómeno. Por cá, a transmissão vivia do boca-a-boca e Miguel Esteves Cardoso, então a viver no Reino Unido, trouxe os ecos de além-Mancha à imprensa portuguesa [o DN:música não obteve resposta aos pedidos de entrevista].
“Sociologicamente, foi muito importante o papel que acabou por ter a Factory em todo este movimento”, lembra Ana Cristina Ferrão, “Tony Wilson, o dono, era um artista que se exprimia através da edição”. Um Andy Warhol à sua escala. E a Joy Division surgiu no momento certo. “Como os Sex Pistols. Foram aqueles, podiam ser outros”. Eram “ratinhos de experiências” nas mãos da editora e do produtor, diz António Sérgio, que, já no Rolls Rock da Rádio Comercial, tantas vezes levaria ao éter temas como Transmission. Era mais “uplifted”.
“Havia um gap cultural muito grande entre Tony Wilson e a trupe da Factory, nomeadamente, as pessoas da Joy Division, que viviam da assistência social e eram, de alguma forma, exploradas naquele contexto”, considera Ana Cristina.
Deborah Curtis, que muito mais tarde conheceria numa festa em Londres, “era o protótipo da menina bimbinha que está metida num filma do qual não quer ser actriz. Aí percebemos que aquilo que há da sala de ensaio para dentro não corresponde ao que aparece para fora, e tudo isso acaba por funcionar num imaginário que na Joy Division parece demasiado asséptico. Imaginamos sempre Ian Curtis como o eterno namorado que gostaríamos de ter, elevadíssimo, tentando apanhar o ar, e depois, coitadinho, tinha pés de barro como toda a gente”.
A sofrer de epilepsia, medicado e com acompanhamento psicológico, Curtis estava dividido entre “um affair da Bélgica e uma família que não se encaixava nesse novo estilo de vida”. Para não falar na pressão de uma digressão aos EUA e de ser o homem da voz, instrumento que mais facilmente se degrada. Teve a “sorte” de morrer cedo, deixando uma imagem “deificada”.
Entretanto, “mercê talvez de uma característica demasiado suburbana, a Joy Division transformou-se em culto. A pose fazia parte de uma atitude”, argumentam Ana Cristina e António Sérgio, recordando um concerto da Sétima Legião e dos Croix Sainte nas Belas-Artes de Lisboa. Corpos imóveis, enfiados em roupas escuras.
João Santos, ainda hoje conhecido por Pita, chamava-lhes “a fauna”: “pintavam a cara de branco e os olhos de preto, vestiam-se de preto, usavam Doc Martens, calças muito justas e casacos de cabedal”. Malta “do subúrbio – notava-se imenso”. Gente “calma” de Almada, Amadora, Odivelas, Vila Franca, também fã de Echo & The Bunnymen, The Jesus & Mary Chain, Siouxsie & The Banshees e Bauhaus, conta o disc-jockey que, de 1981 a 1991, fez o som, cortou bilhetes, contratou bandas e foi gerente do Rock Rendez Vous (RRV).
Pita, que em 1993 conheceria Tony Wilson durante o concerto dos New Order no Pavilhão do Restelo, ainda trabalhava no Browns Club quando o dono, piloto da TAP, lhe trouxe Unknown Pleasures. “Achava aquilo tétrico”. Mas, “das 11 à meia-noite, quando não estava ninguém”, passava. No Browns e nos fins-de-semana do 2001, “clubes de rock puro onde não dava para inventar”. Transmission era “para os mandar embora”.
Na época do RRV e de Closer (trazido de Londres pelo dono, Mário Guia), “usava Joy Division para fazer a introdução das bandas” que iam actuar. Como adoravam aquilo, comecei a passar dois ou três temas mais acelerados”. E, por ocasião da data da morte, Ian Curtis chegou mesmo a ser homenageado: “Durante uma hora, só se ouviu Joy Division. No ecrã gigante passavam slides do meu amigo fotógrafo Rui Vasco, que tirou fotos no Marquee em 1977”.
New Order, esses sim, “tinham batida mais do que suficiente para manter as pessoas animadas”, afiança, dado que nos 80 os êxitos nas pistas nacionais pertenciam aos INXS, Nina Hagen, Cheap Trick, Tubes, Elvis Costello, Sex Pistols, Devo, Adam & The Ants ou Cars. Outros tempos, esses da tesoura e cola para conseguir um scratch, diz o agora produtor executivo da Pavilhão Atlântico – que entretanto já foi DJ no Kremlin, Alcântara-Mar, Frágil ou Rock’s (Gaia), manager, produtor de concertos dos Rolling Stones e U2, e gestor da Praça Sony. Só lamenta, desde então, o efeito nefasto das playlist, a dificuldade na distribuição das edições de autor e o facto de as gerações mais jovens, que com um computador podem fazer tudo, reduzirem as referências na guitarra ao som dos U2.







24.1.17

Os Melhores Álbuns de Sempre (work in progress)




Joy Division - Closer
Echo & The Bunnymen - Heaven Up Here
Jesus & Mary Chain - Psychocandy
Neu! - Neu!
Kraftwerk - The Man Machine
Pink Floyd - Animals
Van Der Graaf Generation - Pawn Hearts
Genesis - Foxtrot
Negativland - Escape From Noise
Pop Dell'Arte - Sonhos Pop
Trans AM - Surrender To The Night
Death In June - The World That Summer
Can - Tago Mago
La Düsseldorf - La Düsseldorf
Talking Heads - Remain In Light
Spiritualized - Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space
Stars Of The Lid - Gravitational Pull Vs. The Desire For An Aquatic Life
Mr. Bungle - California
Gentle Giant - Three Friends
White Noise - An Electric Storm
Nurse With Wound - Soliloquy For Lilith
Nurse With Wound - Alas The Madonna Does Not Function (12")
Experimental Audio Research - Mesmerised
Pye Corner Audio - Black Mill Tapes Vol.2
Boards Of Canada - Music Has The Right To Childtren
Cluster - Zuckerzeit
Joy Of Life - Enjoy
Croix Sainte - The Life Of He
Pete Namlook - Syn
Tangerine Dream - Electronic Meditation
Silver Apples - Silver Apples
Brainticket - Cottonwoodhill
Autechre - Amber
Tosca -Suzuki
The Jesus And Mary Chain - Psychocandy
DJ Shadow - Endtroducing...
The The - Soul Mining
Ryoji Ikeda - +/-
Air - Moon Safari
Angelo Badalamenti - Twin Peaks
Experimental Audio Research - Mesmerised




Grandes Canções
Gang Of Four - Damaged Goods
Undertones - Perfect Cousin
Underworld - I Exhale
New Order - Blue Monday
Joy Division - Love Will Tear Us Apart
Joy Division - Decades
Orchestral Manoeuvres In The Dark - Electricity
Suicide - Cheree
Tosca - Ananas
The The - Uncertain Smile
The Jesus And Mary Chain - Just Like Honey
Motors - Airport
Talking Heads - Once In A Lifetime
Killing Joke - Love Like Blood
Pet Shop Boys - Suburbia
Propaganda - Duel
Beach House - Norway
Heróis do Mar - Saudade
Linha Geral - Porque Os Outros
Rádio Macau - Cidade Fantasma
Pink Floyd - The Saucerful Of Secrets











18.1.17

Banda do Casaco - Entrevista (2006)


Banda do Casaco
Entrevista
Diário de Notícias
01 de Dezembro de 2006
Suplemento "Sons" (Sábados)
Entrevistador: Nuno Galopim

Entrevista a propósito da reedição do álbum "Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos"

Uma reedição histórica da Banda do Casaco

Histórias do arco da velha

A mais importante e visonária das bandas nascidas no Portugal de 70 reedita, finalmente, o seu terceiro álbum ‘Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos’. O álbum, de 1977, pode ser o primeiro na reedição de uma fundamental integral da Banda do Casaco
Texto – Nuno Galopim
Fotos – Diana Quintela
Diferentes entre os diferentes, não alinhados, são, ainda hoje, memória de absoluta referência a resgatar ao esquecimento a que, muitas vezes, a história da música portuguesa é condenada. A reedição do seu álbum de 1977 voltou a juntar Nuno Rodrigues e António Pinho, o núcleo criativo da maior parte da obra da Banda do Casaco. E agora pensam numa justa (e urgente) reedição integral da obra. Passámos com eles uma tarde, trocando ideias e recordando verdadeiras histórias do arco da velha, sobretudo as que nos levam ao Portugal pós-revolucionário...

Quando a Banda do Casaco surge, eram ambos já músicos profissionais, com experiência (e discos) em projectos anteriores...

António Pinho – A Banda do Casaco, aliás, acontece por causa dessa experiência. Um dia o Nuno Telefona-me, diz que tem um grupo, chamado Musica Novarum, e que me gostava de conhecer. A Filarmónica Fraude tinha acabado e ele dizia que gostava de me fazer um desafio e ver se nos podíamos entender. Começou tudo assim. Curiosamente não havia muitos contactos entre a Filarmónica Fraude e a Música Novarum, mas logo que começámos a conversar vimos que havia afinidades nas maneiras de ser. Era uma maneira de ser diferente, que aconteceu com grande naturalidade. Era uma outra época em que não se procurava o êxito, o disco de prata ou de ouro. Procurava-se fazer o que nos apeteceria... Foi o que fizemos, e dali saiu uma coisa inesperada, que para muita gente causou alguma perturbação, especialmente para definir o que isto era.

No Portugal pós-25 de Abril a vontade de racionalizar e catalogar as coisas não se dava bem com o que fugia aos cânones...
Nuno Rodrigues – Continuo a pensar que o Dos Benefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios é uma das obras mais de esquerda que se fizeram. Mas de uma esquerda que não quero definir. Em relação à altura não era dar cabo do patrão e falar da conta na Suiça... As letras do António....
AP – Era falar das coisas de uma forma menos explícita, mais surrealista.

Contra a lógica do canto político...
NR – Que, antes do 25 de Abril, era obrigado a usar metáforas. Eles comem tudo... E nós fazemos o primeiro álbum antes do 25 de Abril. E aquela era uma tentativa de desmontagem da sociedade, mas de uma maneira diferente. Era difícil de catalogar. Mas o meu posicionamento político é, hoje, rigorosamente o que então já era. Isto é, não existe.



No pós-25 de Abril o discurso musical dominante em Portugal era politicamente posicionado, de leitura directa, já não metafórico. Mas mesmo assim a Banda do Casaco promovia um discurso não alinhado...
NR – Gravámos sete álbuns de originais entre 1974 e 1984. São dez anos de trabalho. E penso que foi sempre assim. E penso que isso tem a ver com a postura.
AP – Eu não estive lá, mas subscrevo os álbuns que o Nuno fez sozinho. Sobre música que se fazia depois do 25 de Abril tenho de reconhecer que já não usava a metáfora e era má. Na altura escrevia umas crónicas sobre música e numa dada altura falei de um canto livre a que me mandaram assistir. Foi um sacrifício enorme, e desanquei... Houve quem se tivesse indignado comigo, que não estava a compreender... A música pode servir muita coisa. Mas servir levianamente a política, acho uma coisa miserável.
NR – Eu arriscava a “sociolojar”, passando muito à superfície: da mesma maneira que hoje em dia não há público, porque só há artistas, no pós-25 de Abril, quem tinha a necessidade de transmitir ideologia tinha de se tornar artista, mesmo que não fosse. Agora, temos grandes nomes, e não estamos a falar nesses.

A Banda do Casaco sofreu algum revés por, nesses primeiros tempos quentes, não ser alinhada?
NR – Nós apresentámos o primeiro disco na editora Sassetti, que por piada a CNM depois comprou o espólio. Fomos mostrar o disco ao responsável na editora, que era o Pedro Osório. Estivemos lá a tarde e...
AP – Não sei precisar se foi nesse dia, se no seguinte, mas recebi um telefonema do Pedro Osório que foi mais ou menos isto: “vou-te pôr uma batata quente nas mãos... Gosto muito disto que está aqui escrito, mas a música não é grande coisa. Se quiseres eu faço a música para o trabalho”...
NR – Nunca falámos nisto... Esta é, de certa forma, uma resposta à pergunta. Ou seja, a música... não prestava. Não tinha nada a ver com a que se fazia cá, tinha-se de mudar.

Houve também textos críticos com alguma violência...
AP – Até na televisão nós éramos muito atrevidos na forma de nos apresentarmos.
NR – Estávamos a ser entrevistados e perguntaram-nos se não nos  incomodava fazermos passar a mensagem de sermos tão elitistas. E o António respondeu: “Ao estado competia criar escolas, a nós, fazer música, e talvez os tipos que andassem na escola pudessem aprender e gostar da música que nós fizéssemos”... É evidente que levámos uma grande cacetada do Mário Castrim.
AP – Lembro-me também dele ter escrito, sobre um programa de televisão onde entrámos: “mas estes rapazes são de esquerda, são de direita... não se definem”! Com uma grande preocupação. Isto porque dissemos no press release do primeiro disco, entre muitas coisas, algumas barbaridades, boas: “Que gostamos de achar bem quando se trata de achar bem, que gostamos de achar mal quando se trata de achar mal. E, infelizmente, hoje em dia, achamos mais mal que bem”...
NR – No press release dizíamos também que comungámos enquanto nos soube bem a bolacha, o que dava uma sensação de ser de esquerda. Mas mesmo em relação à minha família não percebiam bem qual era o posicionamento dominante... Os meus pais respeitavam muito o meu trabalho e gostavam do que fazia, mas perguntavam porque é que tínhamos de ser tão arrojados... As pessoas estavam a jantar e nós aparecíamos na televisão a catar “não há cu que não dê traque”...

E com os músicos da época, como se relacionavam?
NR – Relativamente mal, porque não nos percebiam. Lembro-me de um concerto, em 1977, na Aula Magna...
AP – Precisamente onde mostrámos o Hoje Há Conquilhas...
NR – Era um concerto com a Brigada Victor Jara, os Trovante e nós. Foi uma noite escaldante... A Né Ladeiras, que estava na Brigada Victor Jara (e veio depois para a Banda do Casaco), veio dizer-nos que parte da sala estava inflamada porque corria o boato que nós tínhamos acabado de chegar de Londres para gravar o hino do MIRN. Enviámos para o palco, primeiro, o Carlos Barreto. Pedimos-lhe que tocasse com o contrabaixo uma improvisação de uns dez minutos até toda a gente estar perfeitamente enraivecida.
AP – Não estávamos a fechar o espectáculo porque a organização achava que éramos os mais famosos. Eles prepararam o grande prato final que era o vamos massacrar estes tipos! Atirámos o Carlos Barreto. Estávamos todos nervosos porque era um apupo contínuo... A história está muito bem relatada no livro de memórias do Manuel Faria, dos Trovante. Aquilo era um urro tremendo. E fiz, à saloia, aquilo que, hoje, o cantor mais pimba faz num arraial popular: dirigi os apupos. Esquerda, direita, e de repente deixaram-se comandar...
NR – Começámos, depois, a tocar o Romance de Branca Flor, que começa connosco a bater palmas nas pernas... E alguém, na plateia, diz: “as palmas, seus fascistas, também são folclore?”... E o António salta para uma mesa e responde: “depende de quem as bate!”...
AP – Aquilo acalmou e começaram a gostar... Mas havia essa discussão estéril do se é ou não folclore... E perguntei se um penico de barro feito por um artesão do Minho é ou não folclore... Alguém responde que é. E eu respondo: “é, uma merda!”. Descambou... E, no fim, quando terminámos, queriam mais. Dissemos que não sabíamos tocar mais nada e que, então, fizessem como no Quando o Telefone Toca. Fizeram pedidos, e nós repetimos... Foi uma coisa de loucos!

O recurso à sátira no retrato das realidades poderá ter sido outro dos elementos causadores dessa estranheza?
AP – Presumo que sim, mas só tive a consciência disso mais tarde. Escrevíamos isto com enorme prazer, trocávamos ideias, divertíamo-nos imenso. Ainda hoje caio facilmente na tentação de satirizar, às vezes em excesso, reconheço. Mas é a minha maneira de ser. E o Nuno alinhou... Mas tratava-me bem.
NR – Sou menos extrovertido, mas gosto de humor. Quando participo nas letras é mais para a parte telúrica... Filosófica... Tentava compensar o “não há cu que não dê traque” e coisas assim. Via-me mais aflito a fazer música para versos muito provocatórios, que para coisas mais especulativas.
AP – E por vezes tinha de me socorrer de coisas em que a sátira passasse de uma forma levemente mais poética, e aí o Nuno fez obras geniais, como País: Portugal...

Essa canção, do álbum Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos, é um dos primeiros olhares sóbrios, distantes mesmo, do Portugal do pós-25 de Abril...
NR – Não foi preciso o distanciamento de 30 anos para poder falar sobre o passado.

O País: Portugal é a desconstrução do país pós-25 de Abril?
AP – É isso mesmo. É três anos depois, e 30 também...
NR – Dizemos, na capa desta reedição, que os royalties estão reservados para quem provar ser o seu proprietário. Nós somos os proprietários intelectuais. Quando dizemos, na capa, “que obscura guia de marcha terá tido o Património Cultural de empresas intervencionadas pelo estado e administrada por heróicos militares após o 25 de Abril?”... Eles desistiram...
AP – Houve na indústria um branqueamento que me doeu. Como é que se fizeram edições onde se misturou a Banda do Casaco com a Filarmónica Fraude?
NR – Há um branqueamento que não tem a ver só com a Banda do Casaco ou com a música portuguesa, e que tem a ver comigo e com o António. Um branqueamento que não é natural também em relação a mim como produtor. Em relação ao António Variações, por exemplo, estive dois anos para tentar saber o que era. E se o António Variações tivesse lançado o disco que já estava feito e para o qual eu só teria de ter dito que sim, ter-se-ia apresentado com o Jorge Machado. Era o que tinha feito... Aqui está um exemplo de branqueamento. O António seria eventualmente forte para vencer aquele lançamento, mas imagina o Morrissey a cantar em dueto com o Cliff Richard... No entanto, parece que só lancei aquele disco com que ele se apresenta depois. Mas na verdade foram dois anos, para tentar perceber o que era o tamborilar dos dedos dele...
AP – Nós tivemos sempre graus diferentes de incomodidade nas organizações onde trabalhámos.


Foram produtores e tiveram cargos importantes na indústria numa altura de vida activa da Banda do Casaco. Como geriam tudo isso?
AP – Dentro das editoras não sei se teríamos grande peso, pelo menos aos olhos dos patrões.

A Banda do Casaco, apesar do núcleo duro fixo, sempre foi uma identidade muito livre. Era este outro dos vossos motores de liberdade?
NR – Isso tem, por um lado, a ver com o aparecimento da Banda e da nossa vontade em fazer coisas novas. Depois alia-se também ao facto de sermos descobridores de talento e produtores. Na altura não havia agentes... E os produtores não se limitavam a ir para estúdio, porque tinham de tentar perceber qual era a direcção... Sem nos querermos afastar da história, aqui fica outra... O Valentim de Carvalho já não ia ao Festival da Canção há muitos anos, e havia uma vontade de voltar. Isto em finais dos anos 70. Apresentámos três propostas para irmos gravar a Espanha, com três projectos distintos: a Lara, a Gabriela Schaaf e a Concha. Não conheciam nenhuma delas e, das três, dissemos que duas delas certamente iriam... Não tínhamos músicas na gaveta e fizemo-las, cada qual, especificamente, para uma delas. Fizemos três receitas distintas... Isto para dizer que estávamos habituados a procurar timbres e maneiras diferentes de estar. Já tínhamos feito uma experiência com a Cândida Branca Flor na Banda do Casaco, que fazia parecer que ela nunca tinha estado num outro sítio. Mas não só tinha estado, como partiu, depois, para outras coisas. Na Banda do Casaco, como não tínhamos uma receita nem estávamos nunca à procura do follow up do disco anterior, precisávamos de encontrar pessoas que nos permitissem outro tipo de interpretação. O experimentalismo não dá para uma formação rígida. A Né Ladeiras, por exemplo, é uma voz de planície e não dava para cantar as coisas da Cândida Branca Flor. Tentávamos aproveitar o potencial e as características de cada pessoa.
AP – O núcleo duro éramos nós os dois, o Celso de Carvalho e o Nuno costuma juntar também a este trio o técnico, o José Fortes, que nos gravou. Era um músico imprescindível, embora não tocasse instrumento nenhum. Disciplinava-nos, de certa maneira. Hoje seria co-produtor.

O Hoje Há Conquilhas, por exemplo, sugere uma concepção cénica de sonoplastia...
AP – E esse é um sonho secreto do Nuno, o de ver um espectáculo encenado a partir daqui... É pena ser este um país onde as pessoas não pegam no trabalho dos outros. Não há continuidade...

Reconhecem descendências da Banda do Casaco em gerações posteriores de grupos ou músicos?
NR – Faça-se grande justiça ao Celso, porque levou muito bom músico a tocar violoncelo, porque percebeu que o instrumento podia ser solista. Geralmente o violoncelo fazia parte da orquestra e o Celso tirou-o de lá. E vemos isso nos Madredeus, mas são vestígios escassos...
A Sétima Legião também tem vestígios, até por gostos partilhados pelo Ricardo Camacho.
Mesmo em relação a Trovante não acredito que não tenha passado nada. As pessoas podiam não nos querer respeitar por sermos diferentes, mas existíamos e, mesmo sem atribuir grande valor a isso, nas listas dos melhores discos dos últimos dez anos nós e o Zeca Afonso tínhamos dois cada, o Zé Mário um e o Sérgio Godinho também um. Seria natural que qualquer grupo que ensaiasse pensasse porque é que estes tipos são diferentes?...
Espero que isto não pareça presunção.
AP – Não fazíamos de propósito, mas encenávamos um pouco as canções, e isso talvez complicasse a audição... Embora o Coisas do Arco da Velha tenha sido um sucesso de vendas. Era um disco mais de canções.
NR – Na história dos sete álbuns da Banda peguei no mesmo tema seis vezes e as pessoas não deram por isso. É espantoso.
AP – O Sufjan Stevens faz isso hoje em dia. Nunca é a mesma canção, mas pode lá estar mais vezes o mesmo tema... É perfeitamente legítimo.

A Banda do Casaco abordava também referências da música tradicional, não numa lógica de recolha, mas de transformação... E daí outras eventuais pontes com Trovante e Sétima Legião...
NR – Era mais um despertar para essas possibilidades...

Era fazer world music antes de se inventar a expressão?
AP – O Nuno faz o Canto de Amor e Trabalho, com uma letra original, para uma melodia original. Mas as pessoas podem ouvir aquilo e supor facilmente que pode ser um tema de tradição oral de uma região nortenha de Portugal. Capta o espírito. Pegar apenas na raiz folclórica e transpô-la houve muitos grupos a fazer... Depois houve umas experiências melhores, sobretudo no Norte. Mas lembro-me, depois do 25 de Abril, de dizer, acintosamente, que esses grupos pareciam ranchos folclóricos a tocar melhor e mais afinado.
Acho que temos uma tradição musical pobre em Portugal, com alguma excepção ou outra. E pegar apenas na raiz só... Não. Esfolávamo-nos para procurar coisas invulgares.
NR – As recolhas do Lopes Graça e Giacometti, foram muito importantes. Mas se soubesse música a sério, diria que está tudo por fazer. Não tivemos um Bartók...
AP – A música nordestina brasileira, coisas como o Mestre Ambrósio, toca em algumas coisas do Norte de Portugal, mas foi tratada de um modo difeente. Os brasileiros tiveram menos complexos de ser pop, como o Chico César... Em Portugal foram sempre muito a fotocópia da recolha...

Esta reedição devolve à vida um disco que até aqui só havia em vinil... Costuma falar-se neste como o melhor disco da Banda do Casaco...
AP – É-me difícil dizer qual... Este era o disco que dizíamos que era o nosso melhor. E talvez seja. Mas tinha problemas de som.
NR – É o único disco que está mais em esboço. Não foi terminado. Houve um fervilhão de ideias... Quase tentámos entrar pelo sinfónico com dois violinos...

De onde vem este título?
NR – Foi o único título que sugeri. Era uma ardósia num restaurante espanhol.

E de onde veio esta capa?
NR – A minha mãe tinha este grelhador e começámos a meter ovos... Foi imediato...
AP – Alguém disse que não íamos por conquilhas, que era demasiado óbvio, e sugeriu ovos, porque visualmente era mais forte. As letras, depois, são minhas.

Depois desta, podemos contar com mais reedições? Talvez uma integral?
NR – Estão a ser estabelecidos os contactos. Sete álbuns numa caixa, como os intermediários em Portugal ficam com fortunas, daria um preço inacreditável. Se fizermos vários digipacks com a possibilidade de os reunir numa caixa, com um livro... Vamos tentar.

Tocar estas músicas em palco?
AP – Falo por mim, tocar ao vivo, não faz o mínimo sentido. E penso que o Nuno estará de acordo comigo. Mas nessa caixa pôr alguma coisa faz parte do meu sonho. Há dias descobrimos que devemos ter cassetes, que devem estar completamente magnetizadas... Maquetes... Um desafio que não deixarei de fazer ao Nuno é poder gravá-las de forma simples. Guardo esses pedaços de letras... Gravar, não como aquele argumento de vendas que diz “com dois originais”. Nada disso!


O DISCO

Finalmente Há Conquilhas



Banda do Casaco
Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos
Companhia Nacional de Música
***** (5 estrelas – máximo)
Esta foi, durante anos, uma das obras-primas “perdidas” da música portuguesa, a redição em CD eventualmente impossibilitada pela inexistência de certezas sobre o paradeiro do espólio da editora Imavox (uma velha empresa do Estado). Quis a arte e a verdade histórica que a obra fosse mais urgente que essa geometria indescritível de destinos que empresas, como essa, tomaram depois da vida “normalizada”. E, acautelando a salvaguarda dos direitos a quem os merece, Nuno Rodrigues avançou com uma reedição. E que reedição! Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos não só é um dos mais importantes discos do Portugal musical de 70, como um caso à parte na discografia da Banda do Casaco. À parte, porque, por um lado, representa a sua obra mais próxima da ideia primordial que da eventual arte final que dela poderia ter evoluído. À parte, porque sintetiza conceitos (musicais e líricos) ensaiados nos dois primeiros álbuns e promove uma assimilação de colheitas feitas junto de heranças do Portugal (musical) profundo, com resultados mais pungentes que os que escutaríamos em discos posteriores.
A sátira incisiva nas palavras de António Pinho e as visionárias opções musicais de Nuno Rodrigues conhecem aqui um momento de afirmação superior, corajoso na desmontagem de um país onde criticar a recente revolução gerava erupções de intolerância. Este é um disco nascido de uma saudável inquietação não alinhada, onde além das ideias e palavras se ensaiava uma noção de world music antes mesmo do conceito ser inventado. Texturalmente fértil, cenográfico. Como poucos, um disco ácido, ousado, firme, verdadeiro. Haja conquilhas!
Nuno Galopim

OS OUTROS DISCOS

1975. “Dos Benefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios”
Um dos mais importantes discos de ruptura (e então mais “incómodos”) no Portugal de 70, revela uma linguagem diferente da que, politicamente alinhada, dominava os cenários do pós-revolução. A sátira é lei na palavra, aliando-se a uma música em busca de outros estímulos e novos destinos. Entre a banda militava então Carlos Zíngaro, que também assina a capa do álbum.



1976. “Contos do Arco Da Velha”
Considerado em alguns media da época como o “disco do ano”, é talvez o mais acessível dos álbuns da Banda do Casaco, talvez por ser o que mais vezes recorre à estrutura clássica da canção. Mesmo assim, um álbum de novas ideias, revelando a voz de Cândida Branca Flor. O seu Canto de Amor e Trabalho é um dos clássicos incontornáveis do Portugal de 70.



1978. “Contos da Barbearia”
O primeiro disco editado na Valentim de Carvalho (e agora o único sem reedição em CD), é como uma síntese das ideias ensaiadas nos anteriores, sublinhando sobretudo o interesse pela assimilação da música tradicional, num contexto instrumental no qual se destacava a presença de instrumentistas de jazz, como Carlos Zíngaro e Victor Mamede.



1980. No Jardim Da Celeste”
Novo álbum de ruptura, lançando demandas que levaram, pontualmente, a Banda do Casaco a explorar os terrenos do rock (com notáveis resultados em Natação Obrigatória ou Liliana Nibelunga). Né Ladeiras, depois de ter passado pela Brigada Victor Jara e Trovante, é a voz em maior evidência neste disco que, na bateria, apresenta Jerry Marrotta, da banda de Peter Gabriel.



1982. “Também Eu”
Primeiro álbum depois da saída de António Pinho, este é um disco claramente mais experimental, com uma considerável quantidade de temas instrumentais, os vocais frequentemente dominados por vocalizações. Na voz, Né Ladeiras é, pela primeira vez, a única presença. Do álbum surgiu o maior êxito de rádio da Banda do Casaco nos anos 80: Salve Maravilha.



1984. “Banda Do Casaco Com Ti Chitas”
No último álbum da Banda do Casaco, o reencontro mais presente com a música tradicional, em ousados híbridos entre a intensidade eléctrica do som da banda e a voz de Ti Chitas, uma pastora de Penha Garcia, ora em originais, ora em temas de origem popular, sobre novos arranjos. A edição em CD, de 1993, inclui um inédito expressamente composto para a ocasião.









8.1.17

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (271) - coopAzine - Fanzine de Paio Pires


coopAzine
Fanzine oriundo da Aldeia de Paio Pires
Edição I - Novembro de 2016
52 páginas
A preto e branco mas profusamente ilustrado e textos com imagens de fundo.
Abarca vários temas.
Fotocopiado em A5 (A4 dobrado ao meio e agrafado)
Edição Limitada a 99 cópias (26/99)



A ORQUESTRA POPULAR DE PAIO PIRES é um projecto oriundo da aldeia de Paio Pires.
O seu Presidente (modo como se intitula o seu mentor) leva já vários anos de trabalho à volta da música e foi um dos fundadores da banda TRANZ-IT, que em 1987 chegou à final do 4º Concurso de Música Moderna do saudoso Rock Rendez-Vous.



Entretanto, após a sua saída dos TRANZ-IT participou nos projectos LOJA DE NEONS, DEMOKRATIA, DIE NEUE SONNE, URBAN ASSAULT, OVERDRIVE, CORTINAS e TOXINA. As experiências tornam-se mais límpidas e as ambiências foram aos poucos sendo direccionadas para os campos da electrónica abstracta.
Pelo meio ficou ainda a colaboração e a experiência de ter acompanhado, em palco, os Título Póstumo em 1988, aquando de uma das sessões da 2ª Fase da I Mostra de Música Moderna de Coimbra, que decoreu na Discoteca Broadway em Coimbra a 21 de Setembro de 1988.
No final desta fase, no princípio dos anos noventa, surgem sob a designação OVO, algumas gravações no formato cassete, disponibilizadas pelas editoras independentes ANTI-DEMOS-CRACIA, K7 Pirata, Enochian Calls e Kadath.
A evolução surgiu naturalmente e em meados de 2006 surge a ORQUESTRA POPULAR DE PAIO PIRES.
Quatro anos antes, em 2002, o “Presidente” da OPPP, aventurou-se pelo mundo da 7ª Arte, elaborando para a Animamostra, a banda sonora e as canções de “A Estrela de Gaspar”; participando na banda sonora de “Dois Diários e Um Azulejo”; e na banda sonora da série “Angelitos”.
Entretanto, o segundo trimestre de 2009 foi deveras importante para o projecto da Aldeia de Paio Pires, pois a 24 de Maio foi editado o seu primeiro álbum. Esse álbum surgiu on-line pelas trilhas da editora independente russa, Clinical Archives, denominado simplesmente “Orquestra Popular de Paio Pires”.
O álbum, que contém 12 temas, foi disponibilizado para download pela Clinical Archives e actualmente já ultrapassou os 18 500 downloads.
Com início em Outubro de 2012 e final em Setembro de 2013, a OPPP em colaboração com a ANTI-DEMOS-CRACIA encarrilou por um projecto peculiar e talvez único. A execução e consequente lançamento de 12 EP’s (formato digital) em 12 meses, culminando depois em Dezembro de 2013 com um LP (formato digital) compilando os melhores momentos das doze edições anteriores.

DISCOGRAFIA
Com edição da ANTI-DEMOS-CRACIA (Portugal):
» “DIA 14 ÀS 22:00H” – ADC-029.DEZ.2013
» “Caixa Tapada” – ADC-028.SET.2013
» “Gémeos” – ADC-027.AGO.2013
» “Palácio” – ADC-026.JUL.2013
» “Noturno” – ADC-025.JUN.2013
» “O Vento leva a Flor” – ADC-024.MAI.2013
» “Marítimo” – ADC-023.ABR.2013
» “Ruminante” – ADC-022.MAR.2013
» “Montanha Russa” – ADC-021.FEV.2013
» Passaporte” – ADC-020.JAN.2013
» “Baixa Visibilidade” – ADC-019.DEZ.2012
» “Salvo Conduto” – ADC-018.NOV.2012
» “Brejos” – ADC-017.OUT.2012

» V/A – “Oficina da Música”
ADC-013.JAN.2009
Temas incluídos:
. “Comodidades in da House”
. “Cinnamon Walls”

Com edição da CLINICAL ARCHIVES (Rússia):
» Orquestra Popular de Paio Pires – Orquestra Popular de Paio Pires
Clinical Archives; ca262/24.05.2009
Álbum com 12 temas

» Various – Clinical Anthology (2006-2009)
Clinical Archives: ca300/30.08.2009
Tema incluído: Kyoto Melody







Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (270) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano IX
Nº 436
09 de Março de 1992
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 100$00
40 páginas
Capa e algumas páginas interiores a 3 cores, outras a preto e branco.
Suplemento Manifesto (?Mensal?) de 4 páginas. Ver abaixo autoria do mesmo, na ficha técnica



Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Av. Infante D. Henrique, 334, 1802 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Redacção:
Cristina Duarte
Miguel Francisco Cadete
Nuno Galopim
Raquel Pinheiro (Porto)
Rita Carmo (Fotografia)
Direcção Gráfica:
Cândida Teresa
Colaboradores:
Adágio Flor
Álvaro Romão
André Lepecki (Nova Iorque)
António Freitas
António Maninha
António Pedro Saraiva
Bruno Branco
Bruno Maçães
Diniz Conefrey (ilustração)
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Santos Marques
Gimba
Hélder Moura Pereira
Hélder Salsinha (fotografia)
Hugo Moutinho (Porto)
Isabel Lucena (Londres)
João Correia
João Bugalho
José António Moura
José Antunes
Lili Wilde (Londres)
Luís Mateus
Luís Pinheiro de Almeida
Maria Ana Soromenho
Maria Baptista
Maria João Gouveia
Mário Correia
Miguel Cunha
Miss Ex
Monsieur Sardin
Paulo da Costa Domingos
Paulo Somsen
Pedro Esteves
Pedro Portela
Rafael Gouveia (Paris)
Rui Eduardo Paes
Sérgio Noronha
Sofia Louro
Teresa Barrau
Vítor Vasques (fotografia)

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Tiragem média do mês anterior: 19 290 exemplares

Tal como disse aqui, este é um número de um período posterior em cerca de três anos e que cai naquela fase que então cataloguei como a segunda decadência, quicá o início dela, quiçá a última...
O Director continua a ser o mesmo (Rui Monteiro), alguns colaboradores são de qualidade (ver lista abaixo), mas já não era a mesma coisa. E fico-me por aqui.
Curiosamente, apesar da deriva mainstream a tiragem média decresceu.



VÁRIOS
«GÁRGULA MECÂNICA»



Constituindo, à primeira vista, mais um esforço alternativo de penetração no limitado mercado português, «Gárgula Mecânica» (e várias colectâneas nacionais antes dela) sabe que a confiança comercial poderá ser depositada apenas no estrangeiro. As dezassete bandas, de doze países, atingirão em Portugal círculos restritos em nada representativos da proliferação que a Techno dita alternativa tem sofrido.
Os cabeças de cartaz ClockDVA e Pankow (estes com a enésima versão de «Touch», um excelente original de 88) empalidecem um pouco perante certas comparações: os DRP (Japão), como um «Psychotherapy» imaginativo, ritmicamente próximo dos Nitzer Ebb de outrora mas permitindo curiosos breaks... experimentais?...; os Spartak (Suiça), com um «Racist / Asshole» mais core do que techno; os Finitribe (Escócia), ainda recorrendo aos cartoons da Warner num «101» sub-pop electrónico extremamente sofisticado; os Croniamantal (Portugal) – sempre entre os melhores pedaços nas colectâneas em que participam – injectando complexidade num «Erat» poderoso.
Nenhum outro propósito além da divulgação pura é detectável no disco, implicando o apoio essencial em grupos grandemente desconhecidos. O nível qualitativo daí resultante não é necessariamente baixo, mas em «Gárgula Mecânica» são apenas pontuais os rasgos de génio, reflectindo um panorama techno vasto, sim, mas um tanto incipiente. No entanto, a maioria dos grupos presentes oferecem a garantia de alguma notoriedade no circuito internacional, cabendo aos ouvintes confirmar ou desmentir esse facto.
A (sub)cultura cyberpunk tem aqui alguns representantes capazes de subverter certas mentes. A segurança no risco nunca é garantida, o que teoricamente deveria aumentar a excitação.
(CD, Simbiose 1993)
J.A.M.

NON
«IN THE SHADOW OF THE SWORD»



Os anos passam mas a dureza de Boyd Rice (sob a sigla NON) parece ser algo com que podemos contar para o infinito. Se os seus últimos discos apresentam uma maior suavidade ao nível da agressividade sonora, com especial destaque neste capítulo para Boyd Rice & Friends no álbum «Music, Martinis & Misantrophy», ao nível dos textos, a mística da descrença total e o rumo do contra-tudo-e-contra-todos (sociedade em geral) aparecem como instituições ligadas à própria existência filosófica de Rice, cuja violência das palavras supera tudo e todos.
«In The Shadow Of The Sword» divide-se à partida em duas partes: os primeiros dois terços englobam um concerto gravado em Osaka, no Japão, retirados de uma pequena digressão oriental realizada em conjunto com os Death In June, corria o ano de 1989.
Estes temas contaram com a colaboração lógica em palco de Douglas P. e Rose McDowall (D.I.J.) e também de Tony Wakeford (Sol Invictus), que deram à toada electrónica e ao tom discursivo de Rice, complementado pelos habituais samples, uma dimensão superiormente diferente ao nível das percussões e da sua rítmica guerreira.
Curiosamente, nos restantes temas deste disco, cuja segunda parte já foi gravada em estúdio nos EUA mais recentemente, a sonoridade e estética musical pouco se afasta dos temas registados em palco, excluindo obviamente aqui a ausência das percussões, o que torna este produto num todo sonoro extremamente unificado. O som continua denso, aprentemente e premeditadamente pouco trabalhado, tal como ao vivo, e a voz de Rice mantém-se terrível e profética, por cima de um bloco concreto de electrónica eternamente por lapidar.
«Eu tenho um sonho... E como se tornará esse sonho realidade?». A resposta arrepiante de Boyd Rice continua em «A World On Fire» deste «In The Shadow Of The Sword». Em horror escrito e cantado, só talvez Michael Gira, dos Swans, esteja à altura deste senhor!
(CD, Mute, 1992 – dist. Edisom)x

LAIBACH
«KRST POD TRIGLAVOM-BAPTISM»
VÁRIOS
«FUTURISM & DADA REVIEWED»





As reedições em CD têm destas maravilhas! Discos de vinil nos quais a agulha já só quase conseguia ler ruídos e estalidos avulso, podem agora ser disfrutados nas maravilhas do digital, cuja frieza de leitura é perfeitamente perdoada perante uma limpeza sonora antes julgada impossível.
«Krst Pod Triglavom-Baptism» só não é o melhor disco de sempre dos Laibach porque estes editaram alguns outros de quilate semelhante, mas deveria estar no coração de todos nós, ou seja, na prateleira ao lado de «Nova Akropola» ou de «MacBeth». «Krst Pod...» é um clásico da estética sonora de índole militarista em cujo regime de prepotência estilística se conceberam peças sonoras de beleza incomparável. Entre um fascínio sonoro de pompa ditatorial e um classicismo de património mundial, os Laibach, sempre perdidos nas suas referências de uma Jugoslávia ainda unificada pela força, recreiam-se musicalmente com música que também serve de base aos delírios teatrais do Theater Scipion Nasice» e ao nosso encanto pessoal. Uma obra de arte total!!
Outro clássico, mas de índole completamente diferente, é «Futurism & Dada Reviewed», cujo carácter documental o torna à partida consumível de uma outra forma. Esta compilação, em cujo próprio disco se aconselha a que este seja arquivado na secção de discursos e documentos históricos, traz-nos unicamente gravações históricas, recuperadas geralmente a discos de 78 rpm, dos anos 20 e 30 deste nosso século.
Fascinados pelo estranho mundo novo das máquinas, pela produção em série e pela dinâmica e rapidez e de uma nova forma de vida citadina, os futuristas, comandados pelo visionário Marinetti, imaginaram para nós um novo mundo (lembram-se do Metropolis de Fritz Lang) expresso em manifestos e formas de arte diversas, onde tudo é novo, desde a arquitectura até à música, e a tradição renegada e esquecida. E é tudo isso que este disco simplesmente nos faz reviver e imaginar.
À própria «definizione di futurismo», discursada por Marinetti, entre experiências musicais do mesmo, acrescentam-se outras dos irmãos Russolo, que já trabalhavam o ruído das máquinas numa primeira manifestação de música industrial, e ainda peças de Apollinaire, Cocteau ou Marchel Duchamp, alternando entre o discurso falado e experiências sonoras da época. É o Futurismo na essência dos outros «ismos», como o Cubismo, o Dadísmo, o Surrealismo ou o Modernismo, ou seja, todas as manifestações de arte do princípio do nosso século, desde o Cabaret Voltaire à Zang Tumb Tumb.
Dois discos imprescindíveis em qualquer discoteca inteligente!
(CDs, Sub Rosa – imp. Ananana)
João Correia





6.1.17

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (269) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano VIII
Nº 415
13 de Outubro de 1991
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 100$00
32 páginas
Capa e algumas páginas interiores a 3 cores, outras a preto e branco.
Suplemento Manifesto (?Mensal?) de 4 páginas. Ver abaixo autoria do mesmo, na ficha técnica



Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Av. Infante D. Henrique, 334, 1802 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Redacção:
Cristina Duarte
Miguel Francisco Cadete
Nuno Galopim
Raquel Pinheiro (Porto)
Rita Carmo (Fotografia)
Direcção Gráfica:
Cândida Teresa
Colaboradores:
Adágio Flor
Álvaro Romão
André Lepecki (Nova Iorque)
António Freitas
António Maninha
António Pedro Saraiva
Bruno Branco
Bruno Maçães
Diniz Conefrey (ilustração)
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Santos Marques
Gimba
Hélder Moura Pereira
Hélder Salsinha (fotografia)
Hugo Moutinho (Porto)
Isabel Lucena (Londres)
João Correia
João Bugalho
José António Moura
José Antunes
Lili Wilde (Londres)
Luís Mateus
Luís Pinheiro de Almeida
Maria Ana Soromenho
Maria Baptista
Maria João Gouveia
Mário Correia
Miguel Cunha
Miss Ex
Monsieur Sardin
Paulo da Costa Domingos
Paulo Somsen
Pedro Esteves
Pedro Portela
Rafael Gouveia (Paris)
Rui Eduardo Paes
Sérgio Noronha
Sofia Louro
Teresa Barrau
Vítor Vasques (fotografia)

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Tiragem média do mês anterior: 19 290 exemplares

Tal como disse aqui, este é um número de um período posterior em cerca de três anos e que cai naquela fase que então cataloguei como a segunda decadência, quicá o início dela, quiçá a última...
O Director continua a ser o mesmo (Rui Monteiro), alguns colaboradores são de qualidade (ver lista abaixo), mas já não era a mesma coisa. E fico-me por aqui.
Curiosamente, apesar da deriva mainstream a tiragem média decresceu.


UNACD / HAVLOVÁ – HAVEL

MÚSICAS DE NUNCA E DE SEMPRE

Na Música destes dias, o tempo torna-se intemporal.


É possível respeitar o passado inventando o presente, ou seja, não incorrendo em revivalismos. Agora que morreram todas as vanguardas, o que se verifica, apesar dos mal-entendidos e das modas, é a emergência de uma nova atitude que tem com a história relações finalmente pacificadas . o que não quer dizer “conformadas”, note-se bem – permitindo-lhe uma percepção razoavelmente diferente do que está em jogo: a criatividade sem peias nem contemplações. Na Europa isto acontece, por enquanto, sem grande agitação, mas resultando em propostas mais interessantes do que as que vão surgindo ao abrigo dos padrões dominantes.
Se algumas certezas a década de 80 nos trouxe, entre a balbúrdia geral de valores e práticas musicais que então literalmente “explodiu”, foi a verificação de que não é possível (e nem sequer desejável, aliás) um Novo absoluto, construído sobre o grau zero do esquecimento ou da recusa. Chegou-se a sonhar, há vinte, trinta anos, com o total apagamento da história e a completa desenraização geográfica, aplicando-se a tal postura a designação de “vanguardista”. A verdade é que muitas dessas tendências encontraram-se de súbito em becos sem saída, e as restantes não tiveram mais do que aceitar os ensinamentos do seu próprio percurso.


Se músicas houve que morreram de morte natural, todos esses géneros e sub-géneros que seguiam lógicas terminais e dependiam inteiramente das suas conjunturas – a estética do grito ligando-se à emergência do “black-power” (falo do free jazz), ou o sector mais criativo da “pop music” ambicionando o estatuto da Pop Art -, as que evoluíram para outras soluções resultaram nalguns casos em renovados equívocos, dado entender-se que a busca de uma referência justifica o ressurgimento de modos e materiais que o tempo engolira, incorrendo-se assim no mesmo impasse já cometido, ainda que na razão simetricamente oposta.
Desse mal não enfermam os franceses UNACD (Un Nom A Coucher Dehors, para ser mais exacto) e o duo checoslovaco constituído por Irena Havlová e Vojtéch Havel. Se reaproveitam as formas do passado, se utilizam melodias e construções frásicas conotáveis como “folcloristas” ou “étnicas”, não o fazem à semelhança da generalidade dos “neos” que pretendem encontrar um caminho adiante fantasiando aquele que ficou para trás – os neo-clássicos, neo-românticos, neo-barrocos, neo-impressionistas, etc., do nosso descontentamento. Os álbuns “Long lut de bèlemnite” (Sordide Sentimental), não comercializado entre nós) e “Malé Modré Nic”, traduzível por “Little Blue Nothing” (Arta Records, importado por Ananana), estão muito longe disso e, eles sim, dão-nos a indicação do que é uma via distintiva destes anos 90, ainda que “subterrânea” ou “alternativa”.
Num sentido em especial: só é possível inventar o Novo aceitando toda a carga, e inclusive as contradições, que um músico carrega inevitavelmente consigo e lhe foi legada por todos quantos o antecederam. Desde que, atenção, possa lidar com um horizonte suficientemente largo de possibilidades criativas. O Novo não nasce do nada, é o produto de um incessante trabalho de mutação, de metamorfose, que começou quando o ser humano sentiu prazer ao brincar com os sons e só terminará com o seu desaparecimento da face da Terra. “O tempo é a imagem móvel da eternidade”, entendia Platão ao avançar com esta ideia do tempo como passagem. Ora, a música, como se sabe, é a organização lógica e sensível do tempo.
Os UNACD (Vincent Vivien, também membro dos Grief, Vincent Legrand, Eric Cordier e Christophe Gross) baralham, mais do que misturam, a tradição com o experimentalismo, em composições/improvisações que nos remetem para a música de câmara, o jazz ou a folk, sem afinal nada terem a ver com essas tipologias, não pretendendo fundi-las. Parecem apostados em reinventar uma certa condição acústica, mas utilizam igualmente a electrónica, fazem uso de certos postulados da “musique concrète” mas centram quase tudo nas explorações instrumentais, constroem complexas texturas mas para continuamente as destruir, estruturando e desestruturando em cadeia – em suma, agem conciliando os extremos, ou pelo menos dando-nos a entender que estes não têm de ser irredutíveis.
Situam-se nesse “sem-tempo” perante o qual é tão apropriado ou falso classificá-los como pós ou pré ou mesmo anti-industriais (sim, há elementos, vagos, passageiros, e como tudo o resto incertos, do rock industrial nos temas de “Long lut de bélemnite”), e essa ambiguidade agradou particularmente ao mentor da editora Sordide Sentimental, J. P. Turnod, que afirmou ter-se convertido a cultura industrial, com eles, “na última genuína forma de nostalgia” e a sua música “no último folclore por haver”. É importante reter esta sua dúbia expressão, pois aponta para uma duplicidade temporal que à partida nos parece estranha mas não é tanto assim. Lembremo-nos, a propósito, das palavras de Fernando Pessoa: a saudade é a nostalgia pelo que não se viveu...
A velhíssima sanfona (“vielle à roue”) em França e no Quebec, “hurdy-gurdy nos países de língua inglesa – não confundir com a sanfona brasileira, que é da família do acordeão), o harmonium, o saranji da Índia, o clarinete baixo, a guitarra acústica, permitem-lhes tocar uma música sem idade e origem definidas mas que evidencia uma autenticidade surpreendente em se tratando de um híbrido. O mesmo acontece com o disco de Havlová e Havel, ambos executantes de viola da gamba (ela alto, ele tenor), geralmente só utilizada na música antiga. O órgão, as percussões, o canto servem-lhes apenas para tecer as redes sobre as quais os diálogos se desenvolvem naquele instrumento de seis cordas, afinado por quartas (com uma terça no meio) e surgido no século XVI.
Dispensando os vocabulários conotados com tal antecessor do violino, mas potencializando as potencialidades que oferece, “Malé Modré Nic” cativa-nos porque veste com sonoridades profundamente sustentadas na memória da música soluções que são inovadoras, na mesma medida em que é inovador o trabalho que Elisabeth Chojnacka  vem desenvolvendo com o cravo, recuperando-o para a contemporaneidade. O cravo, como a gamba, data de antes do estabelecimento da escala temperada, e as utilizações que de ambos os instrumentos fazem estes músicos ultrapassam-na em larga medida, não cabendo dentro dos parâmetros clássicos – as preocupações harmónicas são já outras e o alcance processual (nas afinações, por exemplo) e estético bastante diferente. Antes e depois remetem-se, assim, com uma identificação perceptível até na maior liberdade criadora.
Escutamos este disco, faixa após faixa, com agrado e surpresa. Há qualquer coisa de ritualístico na música dos dois checos, o que fica confirmado quando sabemos que foi gravada nas seculares igrejas de Praga. Atravessa-a, e à apurada beleza que constantemente persegue, uma impressão de ansiosa inquietude que mais a torna impossível de “arrumar”. Não serve, com certeza, para serenar estados de espírito nem a podemos usar como “ambiente” ou “fundo”: as suas implicações espirituais são demasiado problematizadoras para que assim a entendamos. O CD, de resto, é dedicado a Paramhans Swami Shwarananda, mestre e guru.
Não ficamos por aqui no capítulo das “implicações”: o álbum dos UNACD é acompanhado por um caderno de fotografias tiradas por Mélina Doudoux com motivos da arquitectura religiosa (a música tornada “monumento” e assim sacralizada, como já alguém disse) e, se as misturas e tratamentos numéricos foram feitos em estúdios de electro-acústica como o SDH e o Grame de Lyon, os registos de base tiveram lugar na igreja de La Haye de Roulot e na capela do Hotel Dieu de Honfleur, onde se encontra um órgão anónimo do século XVII ou XVIII. Agora que a música reencontra a sua solidez (no pós-modernismo, como se sabe, tudo era intencionalmente “leve”), torna-se um tanto mística, o que é pelo menos curioso, porquanto os anjos não só não têm sexo como também não têm corpo. Pelo menos nunca ninguém lhos “viu”.
O que está implícito nos dois títulos é, verificando bem, a concepção judaico-cristã do tempo, e logo da música. Os hebreus pensavam o tempo em função do futuro (os gregos, como Platão, faziam-no em função do presente) e é o que se verifica num Santo Agostinho. Este via o tempo como um paradoxo, na medida em que o “agora” nunca o é de facto, pois e se detesse não seria tempo. Em consequência, o tempo é um “será” que ainda não é. Tiremos as ilacções óbvias: não há presente, não há já passado, não há ainda futuro. Portanto, não há tempo. O passado é memória, o futuro é espera e o presente atenção – à memória do passado e à espera do futuro. Temos então que a Nova Música situa-se na encruzilhada das muitas histórias da música (das muitas músicas da história) e das expectativas futurísticas que se colocam a executantes, compositores e teóricos. É entre esses balizamentos que funcionam os UNACD, Irena Havlová e Vojtéch Havel.

Rui Eduardo Paes


SPECTRUM / SPIRITUALIZED / DARKSIDE

OS SONS DA CONFUSÃO

Graças a Deus!, os Spacemen 3 deixaram descendência

Durante a segunda metade dos anos oitenta, um grupo liderado por dois rapazes da mais que obscura cidade inglesa de Rugby ressuscitou o psicadelismo que o punk tinha enterrado e heróis como MC5, Suicide e Velvet Underground, hoje considerados fundamentais para a música rock mas esquecidos, por essas alturas, ou mesmo tidos como indesejáveis. Os Spacemen 3, assim se chamava a banda daqueles dois, aparecera, antes de tempo mas nem mesmo assim foram louvados pela dita vanguarda, que os considerava demasiado fáceis ou pouco sérios. Hoje estão separados e deram origem a três novas bandas (Spectrum, Spiritualized e Darkside) que, se não acendem a chama de outrora, mantêm-se pelo menos fiéis ao seu antigo lema de fazer música para todos os «fucked up kids in the world». Sinfonias de destruição? Talvez sim ou talvez não. Mas tal como os próprios dizem ao recuperar a abertura de «Kick Out The Jams, Motherfucker» dos MC5, só há cinco segundos para escolher. Comece-se então a pensar numa pequena Revolução.
Peter Kember, aliás, Peter Gunn, aliás Sonic Boom, ou seja o principal mentor (e o termo aqui adequa-se às mil maravilhas) do colectivo Spacemen 3 explicou, em certa altura da sua carreira, o modo como «Revolution», até prova em contrário a melhor música do grupo, foi composto. Dizia ele que, quando estava na escola, obviamente rodeado de solidão, dada a sua dificuldade em estabelecer contactos, tocou na sua guitarra acústica a única nota que sabia. Como não conhecia outra, repetiu essa até à exaustão nascendo aí a primeira canção dos Spacemen 3. A história pode até nem ser completamente verdadeira, mas é paradigmática quanto à aceitação que os Spacemen 3 nunca tiveram.
O minimalismo que praticavam nunca foi suficientemente baseado em sólidas tipologias, como diriam alguns eruditos da nossa praç, para interessar o público que se diz adepto da música alternativa (?) ou lá o que isso possa ser, nem, por outro lado, o formato das suas peças, com evidentes mutações em relação ao que é habitual nas canções que figuram nas tabelas de vendas, poderia agradar ao que elegem o Bryan Adams como o supra-sumo da barbatana.
Por isso mesmo, e apesar de terem editado discos regularmente desde 86 até 91, os Spacemen 3 foram sempre menosprezados, pouco conhecidos e injuriados, sem que lhes tenha sido reconhecida a importância histórica, e não só, que merecem.


O seu projecto ligava-se ao passado, através da recuperação de muitas versões do rock («Rollercoaster» dos 13th Floor Elevators, «Mary Anne» de Glenn Campbell, «Little Doll» dos Stogees, «Starship dos MC5/Sun Ra, além de dedicatórias aos Suicide, entre outras referências), e também muito obviamente ao futuro, no que desempenhava um papel fundamental a utilização de drogas com intuitos visionários ou criativos (patente em títulos como «Taking Drugs To Make Music To Take Drugs To», e na dolência narcótica e insana de muitos dos temas). Porém, o pano de fundo era sempre caótico, povoado de mentes errantes, perdidas num mundo que não era o delas (como não foi) e até desligadas de si próprias, em busca de uma comunicação que não era possível encontrar senão através das músicas que compunham.
Como se disse, esta comunhão foi dada por terminada em 91, aquando da edição de «Recurring», o último álbum dos Spacemen 3, dado o não tão imprevisível choque entre as personalidades de Peter Kember e Jason Pierce. Sem nunca ter conseguido a pose artística dos Sonic Youth ou o pendor poppy dos Jesus & Mary Chain, Sonic Boom, ainda antes da dissolução, gravou um álbum a solo, «Spectrum», acompanhado por todos os seus colegas de então e ainda por Jazz Butcher e alguns membros dos Perfect Disaster, que é um excelente documento acerca das suas virtudes e das suas ideias. Temas como «Angel», «If I Should Die» ou a versão de «Rock’n’Roll Is Killing My Life» (dos Suicide) não ficam nada a dever aos melhores dos Spacemen 3, demonstrando a importância de Sonic Boom (nome inspirado no LP «Boom» dos... Sonics) no interior do grupo autor de «Playing With Fire». A divisão, no entanto, já era patente aquando das gravações de «Recurring», o derradeiro disco dos Spacemen 3, tendo Sonic Boom e a facção que ficou com ele gravado o lado um, enquanto Jason e os seus confrades preencheram o lado dois.
«Recurring», no entanto, pode ser considerado como o álbum que mais se afasta da linha traçada nos outros discos dos Spacemen 3. «Big City», o single que antecedeu a edição do LP, servia como uma piscadela de olho à onda rave então reinante e todo o álbum, especialmente, o segundo lado, apelava a uma atitude que se dirá menos «negativa» e que se vem a consubstanciar no primeiro álbum dos Spiritualized, composto pela facção seguidora de Jason Pierce.
Aliás, «Feel So Sad», a primeira faixa desse último álbum dos Spacemen 3 foi posteriormente editada em single com a diferença da assinatura pertencer aos Spiritualized. A nova banda de Jason, ao invés da de Sonic Boom, os Spectrum, optou por seguir uma direcção mais fácil, sem no entanto poder ser considerada como uma degenerescência do estilo Spacemen 3.
Por seu lado, os Spectrum não cederam um bocadinho que fosse, continuando a utilizar a mesma temática, centrada num misticismo onde chega a ser fundamental uma entoação muito gospel e os habituais órgãos de igreja, bem como a já habitual evasão deste mundo. Paralelamente, «Soul Kiss (Glide Divine)», assim se chama o primeiro álbum dos Spectrum, chega a retomar uma antiga canção dos Spacemen 3, «Lord I Don’t Even Know My Name» e brinda o respeitável público com um tema com duração superior a quinze minutos, «Phase Me Out (Gently)» (o título relembra outra magnífica canção dos Spacemen 3, «Let Me Down Gently»), que pode ser considerado quase um regresso aos primeiros tempos apesar da mais que omnipresente utilização da electrónica, pouco comum nos primórdios dos Spacemen 3.
Se os Spectrum (Sonic Boom, Richard Formby, Mike Stout, Geoff Donkin e convidados) constituem, em comparação com os Spacemen 3, a linha pura e dura, e os Spiritualized (Jason Pierce, Mark Refoy, Kate Radley, Willie Carruthers, Jon Mattock e convidados) optam em «Lazer Guided Melodies» por introduzir algumas modificações no sentido de tornar mais maleável o seu som, os Darkside (compostos pela antiga secção rítmica dos Spacemen 3, Pete Bassman e Rosco, com o novo recruta Craig) no seu terceiro registo, o EP «Mayhem To Meditate», não fazem mais que reeditar alguns dos tiques que tornaram os Spacemen 3 uma banda de culto. Os Darkside alinham uma sucessão de lugares comuns de efeito mais ou menos fácil sem nunca conseguirem atingir a consistência que os seus antigos parceiros alcançaram.
No fim de contas, com o fim de uma banda, ganharam-se três, apesar de nenhuma delas atingir a magia e a electricidade que os melhores momentos dos Spacemen 3 revelavam. É pena, mas é o resultado de decisões em cinco segundos.
Miguel Francisco Cadete

DISCOGRAFIA
Spacemen 3
Sound of Confusion (Glass, 86)
The Perfect Prescription (Glass, 87)
Transparent Radiation EP (Glass, 87)
Performance (Glass, 88)
Playing With Fire (Fire, 89)
50000 Glass Fans Can’t Be Wrong (Glass, 89)
Spacemen 3 EP (Fire, 89)
Taking Drugs... (Father Yod Production, 90)
Recurring (Dedicated-RCA, 91)
Sonic Boom
Spectrum (Silverstone, 90)
Spiritualized
Lazer Guided Melodies (Dedicated, 92)
Spectrum
Soul Kiss (Silverstone, 91)
Darkside
All That Noise (Situation Two, 90)
Melomani (Situation Two, 92)
Mayhem To Meditate EP (Situation Two, 92)





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