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28.12.12

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #22: António Filipe Marques - "Frank Zappa - Antologia Poética"


autor: António Filipe Marques
título: Frank Zappa - Antologia Poética
editora: Assírio & Alvim
nº de páginas: 269
isbn: Não Tem
data:1985









 sinopse:
Frank Vicent Zappa nasceu a 21-12-1940, em Baltimore, Maryland, nos Estados Unidos da América, e é, desde há mais de vinte anos, um dos personagens mais extravagantes da música jovem. Chefe de banda, autor, pianista, guitarrista, director de orquestra, film-maker e agitador cultural, amado e odiado com idêntica paixão, gaba-se de ser a mais inventiva star do rock internacional. Em jovem participou nos ideais de 68, defendendo a «imaginação ao poder». Actualmente compraz-se em «sátiras musicais», socorrendo-se da canção burlesca e cantando sobretudo as «disfunções sexuais» da América contemporânea.
Recolhem-se aqui pela primeira vez em Portugal, em edição bilingue, os melhores textos de toda a produção zappiana, que atinge já os 32 LPs.

Os «Anos Verdes»
Zappa conta que em miúdo queria tocar bateria. Um dia comprou as baguetes e percutia tudo quanto lhe aparecia à frente, até que os pais, exasperados, lhe compraram um tambor. Ouvia nessa altura música ligeira, sobretudo grandes orquestras. Depois descobriu o Rhythm & Blues e o sonho era vir a tocar numa banda do género. Abandonou então a abateria e dedicou-se à guitarra. a primeira que teve comprou-a aos 18 anos, num leilão, por um dólar e cinquenta. Pouco depois, no Antelope Valley High School, fundou a sua primeira banda: os Blackouts. Naquele tempo o mundo juvenil era muito turbulento: recontros com a polícia, vandalismo e coisas do género.
Os Mothers of Invention nasceram pouco depois, em 1964, quando Zappa foi contactado por Ray Collins. Collins tinha um conjunto chamado Soul Giants, onde tocavam Jimmy Carl Black e Roy Estrada. Para Zappa tratava-se de um conjunto insignificante e ele sonhava com uma verdadeira banda para fazer muito dinheiro e alguma boa música.
Mas Zappa não conta aspectos menos agradáveis da sua vida. Não conta, por exemplo, que escreveu a banda sonora para o filme The World’s Greatest Sinne, que participou num show televisivo com uma composição de «ciclofonia», música para bicicleta e pompa, que foi preso quando um inspector descobriu que no Studio Z, a sala de gravações preparada por Zappa, se faziam dobragens clandestinas, para não falar das muitas recusas de trabalhos por parte de casas discográficas.

A Tomada De Consciência
Zappa foi dos primeiros a intuir a existência de um novo mundo jovem, de uma cultura que pouco ou nada tinha a ver com os modelos precedentes. Entretanto, tinha notado o atraso histórico dos «adeptos do trabalho», eternamente embaraçados pela ignorânci9a e pelos preconceitos – incapazes de ultrapassar os tempos com a menor sagacidade. Zappa lutou por uma inteligente solução da questão juvenil, luta de que viria a ter o proveito na venda dos seus discos.
Com efeito, em 1974, Apostrophe chega ao topo das listas de êxitos americanos, coroando assim um longo trabalho realizado a partir de meados dos anos 60. Nesta altura, o artista não hesitou em posar nu numa retrete, foto então publicada na International Times. Convertida em poster, ,vendeu-se aos milhares por toda a Europa. Mas, para se afirmar na cena rock internacional, Zappa recorre ainda a outros artifícios, travestindo-se de mulher e invectivando o público com «palavras proibidas» nas faixas de Absolutely Free.
Quando Zappa chegou à Europa, muitos estranharam ver no lugar do cruel antiburguês um director de conjunto inteligente e seguro de si, autor de composições que mereciam, na sua maior parte, o qualitativo de «genial».
Figura central da nova música pop, Zappa não representa, todavia, a atitude politicamente revolucionária, se o compararmos com Tuli Kupferberg e Ed Sanders, dos Fugs. Zappa é mais diplomático, mais táctico, o que lhe valeu ataques de músicos radicais durante a sua visita a Berlim, em 1968, quando numa das actuações alguém exibia um dístico onde se lia «Mothers of Reaction».

As Influências
Zappa não oculta as inevitáveis fontes musicais onde bebeu e deixa até transparecer que a música, como as outras artes, pode e deve afirmar-se na citação, na referência, na maneira nova de abordar realidades musicais preexistentes. Por outro lado, ao anunciarem-se as preferências musicais, está-se já, de certo modo, a separar as coisas e a colocar balizas no universo do autor.
Numa entrevista realizada em casa de Zappa – o Palácio Tom Mix, de Hollywood -, em 1968, o jornalista declara que se podem detectar múltiplas influências (ou referências, como querem certos autores) na sua música. Zappa começa por dizer que, ao gravarem os primeiros trabalhos, tentaram pôr à disposição dos jovens certas experiências musicais, com as quais, de outro modo, não teriam contactado. Queria Zappa dizer que os jovens norte-americanos que ouvem música pop nunca viram na sua vida uma orquestra, a não ser na televisão. E não só não conheciam nenhuma orquestra como não conheciam o jazz nem a música séria nem o rock’n’roll. Os Mothers of Invention, ao combinarem música séria, jazz, fragmentos falados do teatro absurdo, transformaram isto tudo numa base de rock em posição de lhes fornecer uma grande quantidade de novas informações.
Depois de começarem com as combinações de música electrónica e de rock, a venda de discos de música electrónica aumentou consideravelmente e os próprios discos dos Mothers passaram a vender-se mais.
Embora se não possa afirmar, segundo Zappa, que o incremento registado nas vendas de música electrónica se deve ao êxito dos Mothers, é um facto que antes de Freak Out! não apareceu nos Estados Unidos uma música autêntica experimental e vanguardista, a chamada música psicadélica. Foram os Mothers of Invention o primeiro conjunto que incluiu efeitos electrónicos na música pop.
Zappa declara que tem muitos discos de música electrónica mas que não os suporta porque são muito maus. «É preciso – refere ainda o artista – saber produzir música electrónica e, em primeiro lugar, entender a sua tecnologia.» Queixa-se de haver poucos estúdios que a produzam e da sua, em geral, má qualidade.
Os compositores que exerceram maior influência sobre Zappa foram Stravsinsky, Stockhausen e outroos mais. Mas fundamentalmente Edgar Varèse.
Aos 14 anos, Zappa tinha consigo as Obras Completas de Edgar Varèse, 1ª parte. Quatro das suas composições entusiasmaram-no logo, acha aquele tipo de música magnífica e, embora a grandeza de Varèse se mantenha ignorada, Zappa considera-o um dos maiores génios do nosso tempo. Admira nele sobretudo a força do carácter que lhe permitiu compor aquela música há trinta anos ou quarenta.
A influência de Varèse, segundo Zappa, é mais evidente nalgumas passagens do disco Lumpy Gravy. a segunda face é característica da música de Varèse. A maior parte dos seus acordes é construída em sétimas e nonas, formando um ritmo muito complexo.
Mas o rock é a componente mais importante para a popularidade dos M.O.I. Zappa diz porém que não sente muita influência do rock ‘n’ roll considerando mais importante a acção do Rhythm & Blues e do Muddy Waters, por exemplo. Ao nível do jazz, foi Coltrane o músico que mais interesse lhe despertou. Mas há ainda influências dos Beatles e dos Stones. A diferença entre uns e outros – esclarece Zappa – é que os Beatles ensinaram-lhe a gravar bem um disco e os Stones a escrever letras inteligentes ligadas à situação da vida corrente.
Quanto às letras, algumas são simplesmente letras de comédias sem qualquer relação com a situação social e política. Outras, pelo contrário, são puramente políticas e algumas inclusivamente surrealistas. Zappa escreve todas as letras do conjunto e considera o seu estilo literário sem influências, derivado da experiência pessoal.

A Polémica
As opiniões de Zappa dividem os seus admiradores, nomeadamente quando ele se insurge contra a cultura da droga e contra o Woodstock, que, para ele, não passou de uns milhares de jovens que se reuniram para experimentar a embriaguez  de umas noites passadas fora de casa longe dos pais.
Mas talvez a mais célebre polémica seja aquela em que Zappa se insurge concretamente contra os «psicadélicos» de San Francisco, sobretudo na época do flower power. Zappa não pode suportar em silêncio as carícias de 67, as flores nos cabelos, o «fumo» e o ácido libertador. Um álbum inteiro dos M.O.I. – We’re Only In It For The Money – assume-se como um panfleto contra aquele ameaçador «cisma» juvenil (cf. Flower Power me Concentration Moon, por exemplo).

A Importância Do Olhar
O espectáculo zappiano «escandaliza» pelos seus fatos extravagantes, pelo culto do happening e por um comportamento hostil na relação com o público, a começar com o histórico Hello Pigs!, com que Zappa apostrofava os seus primeiros admiradores.
Com efeito, o Zappa dos primeiros anos era todo invenção e provocação. Ainda desconhecido do grande público, prepara o projecto GUAMBO (Great Underground
Arts Masked Ball & Orgy), sendo dos primeiros a intuir que o concerto rock era um lugar de máxima criatividade, mesmo gestual. Modificado e posto em prática, o projecto desemboca numa espécie de musical surrealista que se aguenta seis meses, entre 1966 e 1967, no Garrick Theatre, de Nova Iorque.
Nas suas actuações, Zappa tira a fita do cabelo e deixa-o solto. É que existe uma grande diferença entre a gravação de um disco e uma actuação em público. Se as pessoas acorrem para ver alguém, são atraídas pelas vivências visuais. «Queremos que nos nossos espectáculos o público se divirta, pois é graças a ele que nós vivemos.»
A percentagem de improvisos por espectáculo é de cerca de 70’%. Os restantes 30% formam um esqueleto estrutural cuidadosamente elaborado.

A Música Culta
Aos 22 anos Zappa escreve a primeira partitura para large ensemble, intitulada Opus 5 e que é introdutória do Grande Mito Zappiano: a música para orquestra que irá desenvolver em obras como Lumpy Gravy e Joe’s  Garage.
Mas o momento mais alto da carreira orquestral de Zappa acontece a 18 de Maio de 1970, no UCLA Pavillion de Hollywood, quando consegue reunir os Mothers e os 104 elementos da Orquestra Filarmónica de Los Angeles, dirigida por Zubin Metha.

Zappa Versus Beefheart
A história entre Zappa e Beefheart é curiosa. Conhecem-se em pequenos, andam no colégio juntos, fazem projectos para o futuro e, findo o colégio, separam-se. Zappa cria os Mothers of Invention e Beefheart cria a Magic Band. Publicam o primeiro álbum quase simultaneamente, mas o de Zappa – Freak Out! – obtém muito mais sucesso, não tanto talvez por uma superior classe musical, mas antes por uma melhor organização. Em 1969 voltam  encontrar-se. Zappa chama a si o velho companheiro num período difícil da Magic Band.
Beefheart realiza Trout Mask Replica, a obra-prima recusada por numerosas casas discográficas e produto afinal de Zappa e Herb Cohen, consorciados na etiqueta Straight. Pouco depois, Beefheart acusa Zappa de ter promovido pouco e mal o produto para explicar a causa do insucesso. Zappa responde-lhe à letra e afastam-se de novo. Durante anos é a guerra fria. Zappa diz que Beefheart é um brilhante músico «incompreendido», mas que é igualmente um visionário com a mania da perseguição incapaz de gerir os seus próprios negócios. O outro acusa Zappa de despotismo e o empresário Herb Cohen de «fascismo mental», chegando ainda a insinuar que Zappa vivia a expensas da criatividade dos M.O.I., colhendo os louros que pertenciam a outros, etc.
Em 1975 Beefheart, depois de uma má estação na Europa, vem ter com Zappa e pede a reconciliação em nome da antiga amizade. Zappa aceita e, na Primavera desse mesmo ano, fazem uma tournée e gravam juntos Bongo Fury, depois do que cada um segue de novo – e até hoje – o seu próprio caminho.

O Cinema
Remonta a 1964 o primeiro projecto, Captain Beefheart Meets The Grunt People, filme jamais realizado que Zappa viria a definir como «uma extravagante aventura americana com Don Van Viliet, Howlin’ Wolf e Grace Slick». Outro projecto frustrado foi o de Uncle Meat, que contava a história de um cientista louco e das suas tentativas de governar o mundo com monstros. O assunto vem publicado em nota no álbum homónimo de 1969, mas o filme (previsto para 8 horas e meia de duração) nunca apareceu. Em compensação Zappa e os M.O.I. têm a vaga honra de uma citação num vulgar documentário dos anos 60, Mondo Hollywood, dedicado aos aspectos estranhos e «proibidos» da famosa «Meca do Cinema». Mas não tiveram sorte, porque, depois de um breve litígio judicial, viram suprimida do filme a cena dos seus «escandalosos» concertos.
Em 1971 Tony Palmer, um realizador sempre próximo do ambiente rock, patrocinou 200 Motels, «obra burlesca» em que o protagonista é o próprio Zappa, personificando Ringo Starr. Muitos lamentam que o filme nunca tenha chegado a outros países, bloqueado por inexplicáveis censuras. Mas o enredo, o cenário, a própria banda sonora, são tão fracos que não existem motivos para lamentações. O mesmo e pode dizer de Baby Snakes, último trabalho cinematográfico de Zappa sobre a alternância de alguns desenhos animados extraordinários e longas sequências de gravações em estúdio. Acolhido com indiferença pelas distribuidoras de todo o mundo, decepado pela crítica, foi esquecido pouco tempo depois de um ano após a sua exibição.

A Abordagem
Aos primeiros curiosos que o interrogam nos anos 60 Zappa não responde, ou opõe o non sense. Ou então, abandona o humor e passa ao confronto directo, insulta, invectiva. Em 1973, um tal David Walley atreveu-se a escrever uma biografia do artista. Zappa finge colaborar, mas depois diz que nada daquilo é verdade, nem a data de nascimento. Que vão para o diabo todos os jornalistas, os críticos e até os zappófilos. «Há na Europa cretinos que estariam dispostos a pagar vinte ou trinta dólares por certos discos inéditos dos Mothers. Bem, para a próxima aumentarei os preços!», refere Zappa. Mas valha por todas a lengalenga de Packard Goose, décima sexta cena de Joe’s Garage: «Para o diabo todos os jornalistas de caneta na mão, vão-se todos foder», recita Zappa. E para que não subsistam dúvidas: «They can all kiss my ass / but because it’s so grand / it´s best they just stay away!»

A Censura
N entrevista que referimos atrás, realizada em casa de Zappa, no Verão de 68, poderá ler-se em pormenor s questões de censura, bem como a consequente mudança de editoras e suas razões e ainda a sua relação com os músicos e a imprensa underground. Limitamo-nos a dar aqui um breve flash do assunto.
A «velha guarda» do music business censura a Zappa as melhores ideias. Primeiro, o artista está com a editora Verve, uma subsidiária da MGM, pequena etiqueta bastante liberal. Tem como produtor Tom Wilson, já «protector» de um certo Dylan progressista. Mas a Verve dificilmente tolerou Freak nOut! e com Absolutely Free é ainda mais dura, recusando-se a publicar as letras e um «livrinho de instruções» proposto pelos Mothers. Insurge-se, além disso, contra o texto de Brown Shoes Don’t Make It, «uma canção trivial em que uma rapariguinha de 13 anos pratica actos indignos sobre a relva da Casa Branca». Para resolver a questão, o texto permanece integral, mas o som é alterado por forma a tornar incompreensíveis algumas passagens «inconvenientes». O mesmo acontece com Lumpy Gravy, talvez o álbum mais caro a Zappa, ,que se publicou depois de infindáveis controvérsias.
O artista, humilhado, faz um contrato com a Warner Bros para criar uma etiqueta particular (Bizarre) e uma subsidiária (Straight), com liberdade de decisão quer no campo artístico quer no campo no campo promocional, o que lhe permite publicar textos censurados e consolidar, com Herb Cohen, o seu commercial potential.
A Straight fecha dois anos mais tarde. A Bizarre dura até 1973 (cf. DISCOGRAFIA), quando Zappa funda a Discreet ainda sob a alçada do grupo Warner. O primeiro disco da etiqueta, Overnite Sensation, é o melhor negócio de Zappa; o segundo, Apostrophe, atinge logo os top ten das listas de êxito americanas.
A paz, porém, é curta. Depois de Apostrophe, Zappa não consegue produzir, a sua imagem envelhece e surgem as primeiras polémicas. Em fins de 76, o álbum ao vivo Zappa In New York desencadeia um confronto entre o artista e a Warner mque tem como consequência um ano de atraso na saída do disco e numerosas mutilações no mesmo. A Warner acusa Zappa de não querer respeitar o contrato, que previa um certo número de LPs, e o artista responde que não recebera os seus honorários e reivindica o direito de rescindir o contrato.

A Ideologia De Zappa
Para muita gente, os M.O.I. eram maus. As pessoas não entendiam a sua música e sentiam-se ofendidas com o que o grupo dizia da sociedade e do governo. E esta – declara Zappa – foi uma das causas que inicialmente levaram a ignorar o grupo.
Mas os M.O.I. são um grupo crítico consciente da realidade. Opõem-se ao stablishment na medida em que as suas canções não tentam convencer o auditório da inexistência dos problemas. De um modo geral, mas sobretudo até 1967 – época de glorificação da sociedade estabelecida – era inoportuna toda a música relacionada com a vida ou a sociedade.
Ora, precisamente, Zappa observa que a Administração dos Estados Unidos, e de todos os países em geral, está na mão de velhos que ignoram os jovens. Para mudar este estado de coisas seria necessária uma actuação de guerrilha, uma infiltração. Os recontros sangrentos nas ruas nada resolvem, muito menos nos Estados Unidos, porque as forças governamentais estão demasiado bem preparadas para qualquer tipo de levantamento. Por isso9, a solução seria substituir por jovens todos os velhos que actualmente desempenham funções de responsabilidade.
Zappa considera que o seu trabalho contribui para um melhor esclarecimento político das pessoas. Pensa que o ideal será poder contar com um público consciente, social e politicamente, isto é, um público comprometido que sinta o que há a fazer.
De um modo geral, a rádio nega-se a transmitir os discos dos M.O.I. e quando o faz é sob a forma de fragmentos «seguros» que não existem nem perturbam os ouvintes. Com a TV passa-se o mesmo. Os Mothers of Invention não fazem um espectáculo, mas uma simples intervenção de cerca de 5 minutos. «É, diz Zappa, uma espécie de oportunidade dada aos espectadores de nos contemplarem como se estivéssemos no jardim zoológico.» A razão para isto encontra-se – segundo Zappa – na estrutura em que assenta a cadeia de emissoras de rádio e TV nos Estados Unidos: os meios de difusão pertencem aos grandes potentados económicos, que não são liberais nem gostam de ideias diferentes das suas.
Para Zappa, a nova sociedade devia ser uma sociedade sem governo, embora confesse não vislumbrar nos próximos 500 anos a possibilidade dessa experiência. O que é urgente é usufruir desta sociedade democrática, apesar de os governos ditos democráticos terem perdido todo o contacto com o povo que representam.
Mas Zappa não se considera anarquista, a não ser em casa, nos seus pensamentos, nas suas divagações: «Uma anarquia só tem fundamento no seio de um povo integralmente culto e civilizado.»
Até 1968 as letras das canções eram tão simples, tão claras e evidentes que um idiota poderia entendê-las. Contudo, a partir de 70 modifica-se a música e também a mensagem dos textos. Mas Zappa queria que o ouvinte médio «agarrasse» também alguma coisa. Crê numa função utilitária e interveniente da sua música.
Zappa tem agora 43 anos. Todavia, não perdeu com o tempo a boa disposição, a franqueza, a «cor» daquilo que, mais do que um estilo, ´«e uma nova língua. Muitos duplos sentidos e trivialidades, neologismos e «apalavras proibidas»: eis um dos segredos da vitalidade zappiana que desperta pelo menos a curiosidade de quem o ouve. Além disso, há o sexo. Zappa revolve a fachada do american way of life para encontrar pénis gigantes, vaginas incómodas e secas, coitos à maneira de Bocácio, Carolina e o seu«êxtase pornográfico», Dinah Moe e o seu orgasmo «incaracterístico», os chicotes e os gemidos de Torture Never Stops. Talvez ele não arranhe, talvez ele seja apenas o «vulgar porco machista», no dizer das feministas. Mas tem ar de estar à vontade como se de facto o sexo e as suas perversões (cf., por exemplo, oo bandido de Illinois, que usava o clister antes de roubar as suas vítimas) fossem o melhor remédio para fazer «escorregar» a música.
Concluindo: não acabará decerto numa antologia de liceu este «primeiro poeta rock», como auspiciava há dez anos; será antes objecto de uma recolha de «cantos goliárdicos americanos», menestrel dos bailes de princípio e fim de ano escolar, herói dos tratantes, dos expulsos, dos caloteiros, de um lado ao outro da América.
António Filipe Marques
 




8.12.12

"Zeuhl" - Parte 4: "O Zeuhl à Volta do Mundo", secção 8/9: USA


Parte 4 – O Zeuhl À Volta Do Mundo

Nota: Como o Zeuhl é um conceito tão abstracto, recomendamos vivamente que, antes de ler este artigo, leia os anteriores (partes 1 a 3). Depois, então, pode ser que tudo faça mais sentido.

Nos três anteriores artigos você leu, sem dúvida, tudo o que há para saber sobre o Zeuhl, e se este for um tema de interesse para si, certamente que os leu com atenção redobrada.
No anterior vimos o legado do movimento e, reparámos, entre muitas outras coisas, que o Zeuhl permeou também o RIO, para além de outros movimentos.
Mas... e no mundo? Bem, você conseguirá encontrar referências Zeuhl nos lugares mais improváveis, e existem inúmeras dedicatórias bizarras ao espírito dos Magma, à linguagem Kobaia e ao Zeuhl em geral. Neste artigo vamos tentar destilar o interessante e o curioso, numa qualquer forma de viagem coerente, ao longo do globo.


USA



Na verdade não há verdadeiro Zeuhl oriundo dos USA, apesar de um certo número de bandas ter roçado o género, designadamente os Birdsongs of the Mesozoic dos seus dias iniciais, com seu estilo único de fusão rock avant-clássico com piano percussivo. Os Motor Totemist Guild (e por vezes os U Totem) ficaram por vezes perto do lado mais negro dos Univers Zero, e resquícios de Zeuhl pode ser também encontrado em alguns trabalhos dos Doctor Nerve. A banda nova Yeti é a que está mais perto, nos EUA, do Zeuhl, apesar de os seu ábum THINGS TO COME ter perdido os movimentos clássicos do estilo Vander-Top, em favor de outros estilos progressivos franceses.



Birdsongs Of The Mesozoic – Birdsongs Of The Mesozoic (12” EP: Ace of Hearts AHS 1008) 8/81 – 12/82   1983
Birdsongs Of The Mesozoic – Beat Of The Mesozoic (12” EP: Ace of Hearts AHS 1018) 3-8/85   1985
Birdsongs Of The Mesozoic – FAULTLINE (LP/CD: Cuneiform RUNE 19)   1989
Birdsongs Of The Mesozoic – PYROCLASTICS (CD: Cuneiform RUNE 35) 12/89-6/91   1992
Birdsongs Of The Mesozoic – THE FOSSIL RECORD 1980-1987 (CD: Cuneiform RUNE 55) 5/80-8/87   1993
Birdsongs Of The Mesozoic – DANCING ON A’ A (CD: Cuneiform RUNE 69)   1995
Birdsongs Of The Mesozoic – PETROPHONICS (CD: Cuneiform RUNE 137)   2000
Doctor Nerve – SKIN (CD: Cuneiform RUNE 70) 1995
Yeti – THINGS TO COME... (CD: Two Ohm Bop 008CD) 10/99-2/00 2000





7.12.12

"Zeuhl" - Parte 4: "O Zeuhl à Volta do Mundo", secção 7/9: Canadá


Parte 4 – O Zeuhl À Volta Do Mundo

Nota: Como o Zeuhl é um conceito tão abstracto, recomendamos vivamente que, antes de ler este artigo, leia os anteriores (partes 1 a 3). Depois, então, pode ser que tudo faça mais sentido.

Nos três anteriores artigos você leu, sem dúvida, tudo o que há para saber sobre o Zeuhl, e se este for um tema de interesse para si, certamente que os leu com atenção redobrada.
No anterior vimos o legado do movimento e, reparámos, entre muitas outras coisas, que o Zeuhl permeou também o RIO, para além de outros movimentos.
Mas... e no mundo? Bem, você conseguirá encontrar referências Zeuhl nos lugares mais improváveis, e existem inúmeras dedicatórias bizarras ao espírito dos Magma, à linguagem Kobaia e ao Zeuhl em geral. Neste artigo vamos tentar destilar o interessante e o curioso, numa qualquer forma de viagem coerente, ao longo do globo.


Canadá



Devido à cultura Franco-Canadiana do Quebec, é óbvio que alguma correlação na cena musical ocorreria, o que se verificou com uma versão híbrida Canadiana dos ZAO, que emergiu a certa altura.
Os Línfonie eram, de certa forma, uma espécie de banda paralela Canadiana dos Magma, como inovadores na mistura de culturas e estilos tão diversos como o jazz, o psicadelismo e o avantgard. Também conseguiam ser seriamente clássicos, e são famosos pela sua versão rock de In C, de Terry Riley. Fans do Zeuhl, contudo, devem verificar o LP1 do seu duplo VOL. 333, que captura um espírito muito próximo do som inicial dos Magma, mas numa longa suite em LP. O seu vocalista, Raoul Duguay, tornou-se bastante famoso na cena pop Canadiana.
A banfa Canadiana dos anos 70, os Maneige, que também contavam com a colaboração de Raoul Duguay como convidado no seu segundo álbum, LES PORCHES, e tinham uma boa dose de influência Zeuhl na su música. Tudo isso está disponível no seu período clássico inicial, em LIVE MONTREAL 1974/1975 que é mais um jazz/folk peculiar ao estilo dos Henry Cow de então. Herdeiros do trono dos Maneige foram os Miriodor, formados por volta de 1980 na cidade do Quebec, e que se mudaram para Montreal em 1985. Os seus primeiros álbuns eram como que uma diferente progressão lógica dos Maneige, com elementos da e música sistémica (Michael Nyman, Lost Jockey) e a música Zeuhl/neo-chamber (Art Zoyd, Univers Zero), mas depois eles dispersaram-se por outros tipos musicais.



Miriodor – TOT OU TARD (MC: Rio 57) 3+5/84 & 12/86 1987
Miriodor – MIRIDOR (LP: Cuneiform RUNE 14) 1/88 1988 (CD: Cuneiform RUNE 14) «+ 5 tracks de TOT OU TARD» 1993
Miriodor – 3RD WARNING (CD: Cuneiform RUNE 14) 3/91 1991
Miriodor – JONGLERIES ÉLASTIQUES (CD: Cuneiform RUNE 78) 3/95 1996





6.12.12

"Zeuhl" - Parte 4: "O Zeuhl à Volta do Mundo", secção 6/9: México


Parte 4 – O Zeuhl À Volta Do Mundo

Nota: Como o Zeuhl é um conceito tão abstracto, recomendamos vivamente que, antes de ler este artigo, leia os anteriores (partes 1 a 3). Depois, então, pode ser que tudo faça mais sentido.

Nos três anteriores artigos você leu, sem dúvida, tudo o que há para saber sobre o Zeuhl, e se este for um tema de interesse para si, certamente que os leu com atenção redobrada.
No anterior vimos o legado do movimento e, reparámos, entre muitas outras coisas, que o Zeuhl permeou também o RIO, para além de outros movimentos.
Mas... e no mundo? Bem, você conseguirá encontrar referências Zeuhl nos lugares mais improváveis, e existem inúmeras dedicatórias bizarras ao espírito dos Magma, à linguagem Kobaia e ao Zeuhl em geral. Neste artigo vamos tentar destilar o interessante e o curioso, numa qualquer forma de viagem coerente, ao longo do globo.


México


Parece uma coisa improvável, mas existem pelo menos um par de bandas mexicanas que roçaram o som Zeuhl. A inovadora foram os Decibel, que eram mais como uns Henry Cow improvisadores, apesar de mais electrónicos, e possuírem algumas texturas Magmianas na sua música. Similares, mas com uma base mais folk/jazz, os Banda Elastica evoluíram para uma mistura bizarra que nunca apreciei muito.
Os mais Zeuhl dos anos 80 foram os Nazca, que eram mais relacionados com o género ficcional dos Julverne, Vortex, Art Zoyd, isto é, da Música de Câmara do século XXI! Eram espectaculares no que toca à sua destreza e inventividade, especialmente porque eram uma banda principalmente acústica, mas que conseguiam provocar uma verdadeira tempestade com a sua complexa rede de instrumentos, a partir de uma mistura de violinos, viola, piano, baixo, oboé, guitarra acústica e percussão. Alguns dos membros da banda reapareceram mais tarde na banda Culto Sin Nombre, no estilo Gótico/Medieval.


Banda Elastica – Banda Elastica (LP: Tiradero BE 1001)1986
Banda Elastica – Banda Elastica 2 (CD: Tiradero CDDP 1102) 1990 1991
Culto Sin Nombre – HALLAZGOZ NERICOSOS (CD: Eibon) 19??
Decibel – EL POETA DEL RUIDO (LP: Orfeón LP-12-1113) 7-8/79  1980
Nazca – NAZCA (LP: Naja NN 1001) 1983
Nazca – ESTACIÓN DE SOMBRA (LP: Naja NN 1002) 7/86 1986






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