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28.4.17

Van Der Graaf Generator - Artigo de Fundo + Crítica a "The Box"


DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 20 DE JANEIRO DE 2001
POP/ROCK

VAN DER GRAAF GENERATOR

VISÕES E FICÇÕES



A importante memória dos Van der Graaf Generator é revisitada numa caixa que percorre a obra mais importante do rock progressivo cuja redescoberta faz hoje todo o sentido.

Por oportuno exercício de memória, que poderá ter conhecido importante catalizador de atenções na maneira como o percurso recente dos Radiohead devolveu à ordem do dia alguns nomes do chamado rock progressivo, eis que chega finalmente aos escaparates aquela que parece ser a primeira manifestação de saudável restauração da inesquecível obra dos Van der Graaf Generator, sem dúvida a mais importante e marcante das bandas do seu tempo nesta mesma área.
O simples enunciar da expressão «prog rock» assustou, durante muitos anos, muitas almas que o associaram, sobretudo, à má memória dos subprodutos que gerou. Nomeadamente os tristes depoimentos de uns Yes, Emerson Lake And Palmer e de uns Genesis pós-Peter Gabriel... Afastada das atenções «grossitas», a obra dos Van der Graaf Generator marcou, todavia, o seu tempo. As letras plenas de um misticismo que Peter Hammill sempre cultivou e um inteligente suporte instrumental que nunca mostrou sinais de açúcar desnecessário, rasgaram o seu presente vislumbrando novos patamares de consciência estética, sugerindo uma noção de música acima de fronteiras e convenções que, regra nos nossos dias, era motivo para ditatorial jogo de política de fronteiras na alvorada de 70. O todo da proposta dos Van der Graaf Generator, contra o que nos mostravam então uns Pink Floyd ou Genesis, apontava à essência dos sons, em detrimento dos complementos directos (sobretudo os visuais). A sua música era mais profunda, negra e, sobretudo, desafiante, que a de outros contemporâneos. E hoje, quase 30 anos depois, soa estranhamente familiar e contemporânea. As visões de futuro além das formas, afinal, eram pertinentes.

EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE

As origens dos Van der Graaf Generator remontam a uma viagem de Chris Judge Smith a São Francisco no marcante Verão de 1967. De regresso a Manchester, onde em pouco tempo se viu a trabalhar com o cantor e compositor Peter Hammill e o teclista (então usava-se o termo «organista») Nick Peame. Como nome escolheram um dos que Chris trazia da lista escrita na viagem à Califórnia, Van der Graaf Generator (para abreviar, VdGG: uma máquina que cria electricidade estática)...
Vencida uma etapa de troca de line-up (situação recorrente ao longo de toda a história dos VdGG), que determinou inclusivamente a saída de Chris Judge Smith e Nick Peame, editado um primeiro single por uma etiqueta que não aquela à qual se encontravam ligados por contrato (o que determinou a sua imediata retirada do mercado), o soberbo álbum de estreia «The Aerosol Grey Machine» (que começou a ser gravado como se de um disco a solo de Hammill se tratasse) mostrava interessantes sinais de uma banda que procurava um caminho seu, emergindo directamente das recentes e marcantes experiências no domínio do psicadelismo.
A resposta minimal do público não demoveu os VdGG, que entre 1969 e 1971 gravam três álbuns determinantes na definição da ideia de uma música que parte de estruturas rock para, por processos de desconstrução, procurar contaminações por via da abolição de fronteiras com o jazz e a música clássica. Contra a corrente, a música demarcava-se imediatamente pelo desvio do centro melódico para o jogo entre as teclas dos órgãos de Hugh Banton e o saxofone de David Jackson. Não havia guitarrista protagonista, e a própria presença de um baixista não foi constante em todos os períodos da vida do grupo. Sem a pompa excessiva e flácida de outros contemporâneos, a música dos VdGG evidencia uma consistência invulgar, em muito sugerida pela excelência do edifício instrumental e pela presença vocal de Hammill, cuja teatralidade e escrita determinam uma das forças maiores da visão que na alvorada de 70 era proposta pelos VdGG. O épico «A Plague Of Lighthouse Keepers» (do álbum «Pawn Hearts, de 1971), será talvez o expoente maior da versatilidade cromática e da complexidade interior característica da música dos VdGG e que, ao vivo, fez do grupo uma das grandes referências de palco na alvorada de 70, em absoluta oposição à cenografia mais garrida da contemporânea primeira geração do emergente glam rock.

A SEGUNDA GERAÇÃO

Separados em 1972 depois de um calendário de intensa actividade na estrada, os VdGG reuniram-se em 1975 depois de três anos de percursos a solo. Os três álbuns editados entre 1975 e 76 reflectem uma maturação da ideia original, refinando arestas, implodindo as energias em favor de manifestos de procura de novas formas dentro das formas. Genial, o clássico «Still Life» (de 1976), recolhe os momentos mais significativos desta segunda etapa da vida do grupo. A canção volta a merecer nova abordagem estrutural, e sentem-se claras manifestações de ordem «clássica» nos arranjos com que os novos temas se apresentam. Se a etapa 69-71 definiu as linguísticas mais negras e desafiantes do rock progressivo, o período 1975-77 reflecte a busca de um sentido de «belo» determinado pelas regras reveladas nos dias da pós-adolescência criativa do grupo. É também deste frutuoso período que datam as referências «prog rock» que alguns grupos revisitaram na recta final de 90. Escute-se o tema-título do álbum «Still Life» e todo o percurso dos Radiohead depois de «The Bends» terá nova leitura.
A segunda etapa da vida dos VdGG não foi, como a primeira, alheia a convulsões internas, determinando mudanças de alinhamento. A mais marcante destas mudanças deu-se depois de terminada a digressão de 1976, com a saída (sem substituição possível) do organista Hugh Banton, que levou o colectivo sobrevivente a mudar de nome para Van der Graaf. Com a derradeira formação foi gravado mais um álbum de originais «The Quiet Zone The Pleasure Dome», ao que se seguiu a digressão mundial que os trouxe a Portugal para três concertos em Lisboa, Coimbra e Porto em Setembro de 1977. Desta digressão nasce, depois, o álbum ao vivo «Vital» que assinala, em 1978, o final da carreira do grupo.

CAIXA DE SURPRESAS

A edição desta caixa, que poderá prenunciar a reedição integral da obra dos VdGG (certamente bem vinda numa altura em que muitos novos admiradores serão certamente cativados pelas memórias aqui recolhidas). Mas antes de sonhar com a devolução aos escaparates dos álbuns do grupo, «The Box» permite-nos um olhar representativo do seu legado. Elaborada em estreita colaboração com os antigos elementos dos VdGG (Peter Hammill foi frequentemente consultado no decurso da produção), a caixa propõe mais que uma simples recolha antológica. É certo que parte de uma ordenação cronológica dos eventos, mas evita a simples compilação de faixas dos álbuns e singles dos VdGG. Pelo contrário, usa frequentemente sessões gravadas para a BBC e inúmeros registos de concertos ao vivo (muitos provenientes de velhos «bootlegs», em alguns casos denotando o envelhecimento dos originais, nem todos de restauro fácil) para completar a história que os álbuns (todos reeditados em CD) já contaram. Os velhos admiradores encontrarão nestas raridades e na própria remasterização do som das faixas retiradas da discografia oficial motivos suficientes para justificar o reencontro com a banda que mais interessantes visões «progressivas» nos mostrou em inícios de 70. Falha, apenas, a informação do «inlay» de designa apelativo mas de conteúdo diminuto, sobrevalorizando a listagem integral das datas ao vivo em detrimento de uma biografia mais cuidada e de uma discografia devidamente ilustrada.
Na essência, a obra dos VdGG está aqui devidamente recordada. «The Box» é um monumento a uma memória marcante e um documento de absoluta referência. Venham, agora, as reedições remasterizadas álbum a álbum...
N.G.


VAN DER GRAAF GENERATOR
«The Box»
Virgin / EMI-VC
+++++





DISCOGRAFIA
ÁLBUNS
1968. «Aerosol Grey Machine»
1969. «The Least We Can Do Is Wave To Each Other»
1970. «H To He Who Am The Only One»
1971. «Pawn Hearts»
1972. «68-71»
1975. «Godbluff»
1976. «Still Life»
1976. «World Record»
1977. «The Quiet Zone The Pleasure Dome»
1978. «Vital»
1994. «Maida Vale (BBC Sessions)»
2000. «Introduction»
2000. «The Box»
SINGLES
1969. «People You Were Going To»
1970. «Refugees»
1972. «Theme One»
1976. «Wondering»





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