14.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (13)



DN - Diário de Notícias
11 Maio 2002

Discos Pe(r)didos


Tinham passado quase dez anos sobre o momento no qual os GNR conheceram a sua segunda mudança de formação. Em finais de 1982, depois de concluído e editado o fundamental e histórico «Independança» (ainda à espera de reedição em CD, tal e qual o sucessor «Defeitos Especiais», de 1984), Vítor Rua junta-se a Jorge Lima Barreto para concluir «CTU», o álbum de estreia dos Telectu, o novo duo constituído por ambos, no qual se desenhavam rumos de fuga aos passos pop/rock nos quais Vítor Rua circulara até então. Depois de editado o álbum dos Telectu, Vítor Rua e Toli iniciam o trabalho de produção de «Anjo da Guarda», o LP de estreia de António Variações, para a Valentim de Carvalho, editora dos GNR e, até esse momento, também dos Telectu. Vítor Rua abandona o trabalho no disco de Variações e parte para Nova Iorque. Ao regressar propõe uma pausa nos GNR, o que não agrada aos restantes elementos do grupo. Decide, então, afastar-se e seguir rumo próprio...
Apesar da separação, um diferendo oporá, durante anos, Vítor Rua aos restantes elementos dos GNR. Um diferendo que parte da questão da posse dos direitos do nome do grupo, que ficam pelo lado de Reininho, Toli e Alexandre Soares. A 15 de Fevereiro de 1983, Vítor Rua escreve, no «Sete», um texto no qual explica ser ele o proprietário do nome GNR e proíbe o grupo de tocar ao vivo as composições que ele escrevera para a banda...
Um novo episódio deste complicado caso tem lugar quando os GNR editam, em 1990, o duplo álbum ao vivo «In Vivo», gravado num concerto na Alameda D. Afonso Henriques. O disco incluía «Hardcore (1º Escalão)», «Portugal na CEE» e «Sê Um GNR», todos eles interditados por Vítor Rua junto da SPA. A primeira edição esgota, e é substituída por uma outra que passa a incluir «Homens Temporariamente Sós»... A primeira edição é hoje uma peça disputada no circuito de coleccionismo.
Um ano depois, num momento de pausa no trabalho dos Telectu, Vítor Rua edita um disco através do projecto Vidya e um outro através de um nome que gera nova polémica: Pós-GNR.
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja», apresentado aos media numa conferência de imprensa na sede da PolyGram, onde se voltou a levantar o velho drama dos direitos de utilização do nome GNR, é um disco no qual Vítor Rua procura um interessante reencontro com as linguagens pop/rock. Depois de quase uma década de experimentação noutros territórios, o reencontro faz-se segundo regras distintas das que os próprios GNR tomaram, procurando antes um entendimento entre formas da cultura popular e elementos da invenção «livre» característica de correntes de vanguarda, temáticas de decadência, da vida na grande cidade... De certa forma, «Mimi Tão Pequena e Tão Suja» procura ser uma herança, distante, das pistas deixads em aberto no álbum de estreia dos GNR, reencontradas e encaradas por um músico que, entretanto, acumulara outros hábitos e percursos. Esta ideia de continuidade é sublinhada por temas como «Hardcore II» e «Independança II»... Curiosamente, não se encontram aqui marcas notórias de descendência de «Avarias»...
Com alguns bons momentos em canções como «In The City» ou «City Of Love», o álbum passa a Leste das atenções, não só do público mas também de muitas estações de rádio. Exactamente o cenário oposto ao que receberia, um ano depois, «Rock In Rio Douro», dos GNR.
Em 1996, cinco anos depois deste único álbum sob o nome Pós-GNR, Vítor Rua surgia (assim como Alexandre Soares) na festa de lançamento do «best of» dos GNR. Pazes feitas, conflito sarado. A música agradece.
N.G.

PÓS-GNR 
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja» 
LP, PolyGram
Lado A: «In The City», «City Of Love», «Very Speed Song», «Hardcore II», «Speak With Me Please», «Nothing», «Independança II»; 
Lado B: «Junkie Fly», «Wars Of Fights», «Scales Of Solos», «Strange Perception», «The Next Album...» Produção: Vítor Rua






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