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14.9.26

Maddy Prior And The Carnival Band - "Hang Up Sorrow & Care"


pop rock >> quarta-feira >> 14.02.1996 
world

Para Curar De Vez A Melancolia 
 MADDY PRIOR AND THE CARNIVAL BAND - "Hang Up Sorrow & Care" (10)
 Park, distri. Megamúsica

é Carnaval. Tempo de folia. Dois dias de festa, vinho e serpentinas. A Carnival Band declara aberta a quadra, escancara o bar, lança as serpentinas e disponibiliza as máscaras – um carnaval tradicional, onde a sumptuosidade das vestes se alia ao mistério do jogo das aparências. Num tom bastante menos ortodoxo que o da religiosidade natalícia de “A Tapestry of Carols” ou “Carols & Capers”, o grupo “privativo” de Maddy Prior mascara, neste seu novo trabalho, a música do Renascimento com uma jovialidade e um artificionalismo, nunca contranatura, que aumentam ainda mais o fascínio de um imaginário onde o requinte do gesto se confundia com o teatro dos sentimentos. Como nos Incredible String Band (um tema como “The Jovial begger (yes spelt er)”, pisca o olho à antiga banda de Robin Williamson e Mike Heron, ou mais recentemente, nos Cock & Bull, esse imaginário é transvestido num hibrido “folk” que, se recupera algumas das sonoridades características da época (gaita de foles, guitarra barroca, “curtals”, bombarda) prefere destilar a sua essência lúdica a imitar-lhe, letra a letra, as formas. Em “Playford tunes”, a Renascença não renega o diálogo “in high spirits” da gaita de foles com uma guitarra eléctrica saturada do doce néctar das uvas. Nem o canto delicado de Maddy choca com a sonolência de um órgão Hammond num bar a horas mortas. “Hang Up Sorrow & Care” – subintitulado “A Cure for all Melancholy”, baseado na história de “old Simon the king”, discípulo de Baco – segue então aquela filosofia etílica sem outra transcendência a não ser a da euforia, do cérebro e dos sentidos. Depois, a cantora dos Steeleye Span está a cantar melhor do que nunca. Ouçam-na, mas ouçam-na mesmo, na polifonia que mantém consigo mesma sobre o tal órgão Hammond em “The leathem bottel”, antes da entrada triunfal da fanfarra dos foles e das bombardas. E que tal espantarem-se com um tango do séc. XVII dançado na corte com Paolo Conte, em “Oh! That I had but a fine man”? Não nos era concedida jóia deste quilate desde a gravação de duas das mais brilhantes pérolas dos Steeleye Span, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues”, ou do ciclo a solo, sobre as estações, de Maddy Prior, “Year”. “Now o now I needs must part”, com uma vocalização tão clara como uma manhã de Primavera, possui um ligeiro travo americano. Outra polifonia, neste caso mista, “A northern catch/Little barley come”, permite em definitivo situar “Hang up Sorrow & Care” na linha directa de descendência dos Steeleye Span dos anos 70. Mas num registo pessoalíssimo, onde a música da Renascença e a “folk” inglesa são irmãs e simultaneamente a graça mais antiga e moderna deste (outro) mundo. John Dowdand, Henry Purcell, o “Orpheus Caledonius”, a “Beggar’s Opera” de John Gay, o compêndio “The Dancing Master” (dá licença, senhor Ashley Hutchings?...) ou a lista de licores de “Wit and Mirth, na Antidote against Melancholy” são as raízes, o pretexto e a parra de um banquete bem regado na companhia dos deuses. O primeiro grande disco de 1996.




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