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27.5.12

Cadeira de Hauntologia (pt.2) - Ghost Box: Entrevista a Jim Jupp & Julian House, na Invisible Jukebox



Ghost Box

[a negrito azul vão nomes que vale a pena explorar, uns mais hauntology outro menos, alguns mais actuais outros pioneiros, alguns a retomar actividade outros nem tanto, ...]

Todos os meses tocamos perante determinados músicos uma série de discos, desafiando-os a identificá-los e expender alguns comentários a propósito – sem que os mesmos tenham conhecimento apriorístico do que irão escutar. Este mês é a vez de Julian House e Jim Jupp da editora inglesa Ghost Box.

O produtor musical Jim Jupp (Belbury Poly) e o designer gráfico Julian House (The Focus Group) conheceram-se na escola, através de uma obsessão partilhada pela ficção científica e a literatura de HP Lovecraft. Em 2004 conceberam a Ghost Box, uma editora para dar a conhecer o trabalho de um pequeno grupo de artistas que encontram inspiração no folclore, electrónica vintage, Música de Biblioteca e bandas sonoras de séries de televisão de terror. As embalagens dos discos e a estética musical evocam, e subtilmente alteram, aspectos da cultura Britânica entre os finais dos anos 50 e o final da década de 70, aludindo a misteriosas forças que estavam subjacentes à era do planeamento social e políticas de educação utópicos.

Para além das suas próprias produções, a sua pequena lista de artistas que partilham o mesmo tipo de inspirações inclui The Advisory Circle, Mount Vernon Arts Lab, Roj e Pye Corner Audio. Mais recentemente a série de singles Study Series conta também com as colaborações de artistas exteriores ao mundo Ghost Box, tais como Broadcast, Moon Wiring Club, Seeland e Jonny Trunk.

Como Belbury Poly, Jupp editou três álbuns, incluindo The Willows (2005) e The Owl’s Map (2006). O seu último, The Belbury Tales, é electrificado, com a ajuda de músicos convidados na guitarra, baixo e bateria. Nos trabalhos de Focus Group, tais como Hey Let Loose Your Love (2005) e We Are All Pan’s People (2007), House cria uma colagem psicadélica e desorientadora de samples de sons electroacústicos. 

Depois de vários anos a desenhar as capas dos CDs dos Broadcast, colaborou com o grupo em Broadcast And The Focus Group Investigate Witch Cults Of The Radio Age (Warp 2009). Como parte criadora em Intro, projectou as campanhas dos álbuns dos Primal Scream, Stereolab, Oasis e Blood And Fire, e co-dirigiu diversos vídeos. A sua exposição nos Stirling’s Changing Rooms, em 2009, The New Spirit Happening, foi tematizada à volta do mundo Ghost Box.

A Jukebox teve lugar no escritório da Intro, no Centro de Londres.



New Musik
“Living By Numbers”
From From A To B (GTO) 1980

Jim Jupp: É aquele synth pop típico dos inícios dos 80s, à maneira dos Buggles, Thomas Dolby. Não me consigo lembrar do nome. Este é o tipo de música que eu ouvia na altura, na escola, quando começámos uma banda de synth pop. Tinha um amigo que tinha pais ricos e ele tinha dois ou três sintetizadores. Costumávamos praticar na no átrio da igreja, com esses tais três sintetizadores mono, tocando coisas que nós pensávamos que eram parecidas com isto, mas que provavelmente não eram.

Rob Young: São os New Musik, num hit um pouco distópico e orwelliano...

Julian House: Isto lembra-me de discos como Landscape – nunca consegui perceber de onde eles eram. Era uma paisagem pop estranha nos inícios dos anos 80, que não consegues imaginar a surgir agora.

Rob Young: Pensam que o lado sinistro das vossas gravações tentam compensar uma falta de mistério na música pop de hoje em dia?

Jupp: Penso que sim – faz lembrar os sons da era da Guerra Fria. Gravações como esta possuem aquele tipo de distopia sci-fi, o que provavelmente não tem nada a ver com os desastres sociais, políticos e ambientais sim mais a ver com cenários de ficção científica. Com a Ghost Box penso que aquela coisa dos Public Information Films, essa espécie de paternalismo, ligada também com a Guerra Fria, governos sinistros em pano de fundo, é isso no fundo que tentamos recuperar.

House: Pensamos no mundo da Public Information e nos estranhos programas da BBC, Schools and Colleges, como se eles tivessem acontecido quando éramos pequenos, finais dos anos 60, inícios dos 70s, mas na verdade esse clima de televisão estranha ainda pairava muito por aí na nossa adolescência. Por isso deve ter-se tudo cruzado com as paranóias dos anos 80, acho eu. Mas com a música e sons de sintetizador, acho que a primeira coisa que eu associo é com mistério e estranheza que advinham do Radiophonic Workshop, em particular o Doctor Who And The Sea Devils. Era na verdade muito distorcido, estridente. Foi a primeira vez em que eu me lembro de o sintetizador me arrepiar e perceber que havia este som que era não harmónico. Há sons similares em alguns filmes do Puvlic Information Films, tons identitários que também soam como uma central eléctrica.

Rob Young: Quais foram as vossas primeiras experiências como criadores musicais?

House: Na minha adolescência eu era revivalista mod. As primeiras coisas musicais que criei foram loops de fita magnética, detritos enfim, com cassetes C90 e depois colar aquilo tudo junto. Eu estava sempre a fazer loops; arranjei um sampler no ZX Spectrum, onde podias criar pequenos blips de som...

Jupp: Um pouco mais tarde, juntámo-nos e passámos umas férias de Verão a gravar uma espécie de space opera, com guitarra acústica e sintetizadores.

House: Essa foi uma colaboração pré-Ghost Box que fizemos nessas férias de Verão entediantes.

Jupp: E eu perdi a fita.

House:As sementes do que fazíamos não eram tanto musicais. Mais importante era HP Lovecraft a ficção cósmica, e ainda filmes estranhos... Mesmo pensando que tínhamos abordagens diferentes à criação musical, aquelas matérias que referi trabalhavam como uma corrente que enformava de muitas maneiras o que fazíamos.

Krzysztof Komeda
“Pushing The Car”
From Cul De Sac OST (Polydor) 1966

House: [De imediato] Krzysztof Komeda, Cul de Sac.

Rob Young: Estou certo que devem ter samplado algum deste material.

House: não penso que o tenha feito... Posso ter samplado Música de Biblioteca que é similar: uma conjunto jazz com acordes coloridos. Quanto ao Komeda, eu estou alertado que seria demasiado óbvio. Com material de Biblioteca não é tanto como um sample do tipo do hiphop onde eles procuram aquele gancho musical. Tem tudo de ser reimaginado e enganchado junto, tipo Frankenstein. É mais encontrar um acorde particular, ou um timbre ou um instrumento, encontrar as partículas com as quais faremos depois a composição. O sentimento de Komeda é algo que eu queria ter no Focus Group, ou alguém como Basil Kirchin. Não percebo a teoria, mas trata-se de um conjunto de acordes que se seguem uns aos outros e que nunca vão para onde parecem querer ir; vão até locais quase dissonantes, e depois dissolvem-se em harmonia. Essas pessoas são músicos de jazz tão talentosos que o conseguem fazer instintivamente. As pessoas como eu fartam-se de andar às voltas com as coisas até que elas batam certo.

Ewan MacColl / Charles Parker / Peggy Seeger
“I Often Think Back...”
From Radio Ballads: The Body Blow (Topic) 1999, rec 1962

House: [Ouve durante algum tempo] É um documentário? BBC?
Não é o comboio... o incidente do caminho-de-ferro?

Rob Young: Está na pista certa – está a pensar na primeira balada de rádio, The Ballad of John Axon. esta é a quinta, de 1962. Houve oito destes documentários-colagem da BBC, no total, a começar em 1958.

House: É fantástico, as camadas de Foley, sons reais, música e diálogo. É muito aventuroso. Penso que a a coisa com o Radiophonic Workshop é que eles saíram daquela tradição que tinha realmente a ver com rádio, que não se tratava apenas de música e efeitos sonoros. Era muito mais acerca do todo global, sabes, trabalhar com o som, encaminhar o diálogo, os efeitos sonoros e a música a funcionarem em conjunto. Nesta época, a rádio criava as imagens para ti, e o trabalho de artista radiofónico ou Foley era criar som que tivesse impacto visual.

Rob Young: Eles eram editados com muita minúcia, com lâminas de barbear. Quão obsessivamente trabalham vocês com os vossos próprios samples?

Jupp: Uma das maneiras em que eu uso os samples é para reconstruir canções, ou para criar canções que não estavam lá. É um processo meticuloso. Mesmo sabendo que existem todos os tipos de ferramentas digitais para mudar a velocidade de notas individuais e esticar as coisas, tu tens mesmo assim de entrar lá dentro, microsegundo a microsegundo, e editar tudo. Frequentemente pego numa antiga gravação de Cecil Sharp e corto-a nota a nota, rearranjo-a, vejo o que sai dali, vejo se posso fazer elisões entre as notas, dar-lhe uma nova velocidade, e, nesse processo, lento, uma nova canção começa a emergir do nada.

House: Eu ainda trabalho com samples mas eles podem não vir todos de vinyl ou de outra coisa. São de coisas que eu próprio toquei. Apesar de eu criar alguns pedaços de música no computador, ainda quero trabalhar com samples que são fatiados e refatiados, movimentados dum lado para o outro, tipo colocar uma peça quadrada dentro de buraco redondo. Trata-se pois de fatiagem intricada. Também gosto muito de coisas que vêm de diferentes mundos sonoros, por isso às vezes incorporo gravações de campo e encho um pouco com bateria de um velho disco de música de biblioteca, de 1967, que tenho.: criar um novo espaço a partir de muitos e diversos espaços.

Rob Young: Desta vez têm músicos a sério no álbum Belbury Tales...

Jupp: Eu toco mais instrumentos neste álbum, há também um baterista, um guitarrista, um baixo, há mais material oriundo de composição, mais instrumentação real, mais acompanhamento. Há, penso, menos tempo com o computador, mas uma grande parte ainda provém daí. Mas é também um álbum de estúdio. Não surgiu de três músicos fechados numa sala a tocar juntos. É o álbum mais complexo que editei até agora, tecnicamente falando.

House: No Inestigate Wotch Cults Of The Radio Age, as canções da Trish [Keenan] funcionaram como pontos de ancoragem, dentro do todo, mas... é uma espécie de truque de prestidigitação, manténs uma certa frase no ar, e estás a alterar a estrutura de fundo e antes que te apercebas estás a ouvir uma coisa completamente diferente, e completa. É um pensamento de colagem, não consegues encontrar a junção entre uma coisa e a seguinte. Algumas pessoas gostam daquele sentimento de nunca encontrar a saída, e outras querem uma peça de música com princípio, meio e fim. Mas todas as nossas coisas têm uma certa atmosfera...

Jupp: O mesmo é válido para todos os artistas da Ghost Box, penso. Apenas trabalhámos com pessoa que compreendem do que trata a editora e percebem tudo o que fazemos, pelo que todos partilham a mesma visão geral.

Rob Young: É ponto de honra editarem apenas material de origem britânica?

House: Quando editámos o álbum do Roj [The Transactional Dharma of Roj], pensámos pensámos nele como sendo acerca de alguém que é um cruzamento entre Angus MacLise e alguém do MIT ou um professor da Universidade de Columbia-Princeton, um tipo de visitante meio hippie e meio académico/outsider, vindo da América, para ensinar na [vila ficcional] de Belbury.

Boards of Canada
“Sir Prancelot Brainfire”
From A Few Old Tunes (bootleg) princípios dos 1900s

Jupp: É uma faixa de música de biblioteca? ou uma banda sonora de TV?

House: É recente?

Rob Young: É mais recente do que vocês possam imaginar.

Jupp: É muito bom, seja o que for.
É uma faixa, nunca editada, dos primórdios dos Boards of Canada...

Jupp: [Surpreendido] Oh, a sério? Fico contente de ser deles, porque penso que nenhum de nós fica envergonhado de reconhecer quão importantes foram os Boards of Canada para a Ghost Box, e para nós os dois. Eles foram uma influência central no princípio, e são os mestres desse tipo de passado re-imaginado, e de outras coisas que nós exploramos, duma forma ligeiramente diferente.
No contexto da, talvez, música de dança dos anos 90.

House: Isso e Position Normal, para mim... Havia coisas muito diferentes, mas fazer disparar a memória de uma forma não-óbvia, não-nostálgica. Eu ainda não penso que o que fazemos, ou o que eles faziam, seja nostálgico. Faz disparar coisas. Mas é mais uma espécie de sessão de terapia esquisita e inconsciente. É uma espécie esquisita de regressão que na verdade nos faz andar para trás no tempo, voltar a pequenos recantos e gretas de que tu já quase não te lembravas, e fazer ligações entre todas essas coisas.
É muito interessante pois eles estavam num mundo como o nosso mas... ainda é a nossa memória, mas uma em que ainda não tocámos, a música dos Survival Specials, e de animações da Rua Sésamo. Crescemos com tudo isso, ao mesmo tempo... Estamos presos à história Britânica, mas crescemos de uma forma também muito Americana... o que foi apanhado mais pela gente da Hypnagogic Pop.

Dave & Toni Arthur
“The Fairy Child”
From Hearken To The Witches Rune (Trailer) 1970

House: É algo de um dos discos da Topic?
Estilo gravação de campo tradicional ou...? Está-me a dar uma branca...

Rob Young: A vocalista era uma personalidade muito conhecida da televisão.

House: Não Toni Arthur? Trata-se na verdade de algo que eu tenho andado a querer checar.

Jupp: É divertido pensar que ela cantava para nós todos os dias, quando éramos pequenos – a sua voz é familiar, de Play School e de Play Away...

Rob Young: E ainda que estivessem a pesquisar folk pagão e canções rituais de bruxaria, na mesma altura, sabendo que alguns aspectos de ambas as tradições são, frequentemente, invenções recentes...

Jupp: Quando analisas mais profundamente, vês que aquelas ligações desaparecem frequentemente no folclore e nas tradições. Essa foi uma das razões por que pedimos ao Ronald Hutton para escrever as notas de capa para o último álbum dos The Advisory Circle. O Jon Brooks está numa de ideias de paganismo e calendário tradicional, mas completamente alertado para que uma boa parte dessa matéria está imbuída pela falta de senso e porcaria característicos da New Age. Mas o Ronald Hutton é um académico muito interessante que olha para estas coisas com muito cuidado e descobre frequentemente que o passado pagão é muito mais avançado do que pensas, e muitas tradições radicam no último par de séculos, quer no que toca a música e dança, quer a festejos e roupas.

House: Essa ligação à folk através de uma via esquisita de ideias pagãs e bruxaria sobrenatural é algo que é muito apelativa para a nossa geração, daquele modo post-Wicker Man...

Jupp: A coisa mais interessante para mim acerca do revivalismo folk e daquele período é o tipo de material psicadélico e completamente fora da norma, como os Incredible String Band,  que não tinham assim tanto a ver com aquelas canções acerca do trabalho e opressão. Adoro esse material também, mas penso que, provavelmente, somos melhor informados por esse tipo de fantasia da música folk, e da música psicadélica.

House: Há coisas que são muito impuras, e eu nunca me importei muito com esse sentido de artifício na música. Como tu dizes, há algo de estranho e folclórico e antigo mas na verdade isso é fabricado por certas gerações. Muito do que recebemos é na verdade o que se passa na memória de alguém e uma interpretação do passado antigo.
Pensamos na Ghost Box como uma zona estranha de interactividade, entre a cultura pop e aquilo que arranha o oculto. E é frequentemente nessas coisas estranhas, como as imagens intersticiais nos filmes do Hammer, ou no filtro azul do lusco-fusco do ‘dia para a noite’ em que era habitual filmar aquelas cenas nos [filmes como] Plague of the Zombies, tudo isso tem um poder...

Jupp: Penso que essa é a maneira em como a Ghost Box é completamente diferente da ‘England’s Hidden Reverse’, desse tipo de mundo como o dos Coil, por exemplo. Perguntam-nos sempre acerca de fantasmas e do oculto, mas os fantasmas na Ghost Box têm mais a ver com memórias de ecrãs de televisão do que com fantasmas reais.

House: É um lugar onde as memórias da televisão e o sobrenatural se encontram.

Barry Gray
“Aspro”
From Stand By For Adverts! (Trunk) 2011, rec 1965

House: Raymond Scott?

Jupp: Soa a Americano...

House: Tem alguma coisa a ver com Les Shadoks?
Animação Francesa esquisita...?

Rob Young: Não. Vou passar outra coisa deste mesmo álbum...
[ie “Advert For Joan Gray’s Shop, Guernsey”]

Jupp: É Barry Gray? Música para anúncios comerciais? Isto é material do melhor...

House: Havia aquele tipo da música de biblioteca, Eric Siday, penso que ele inventou o termo ‘logotone’, que nós usamos.
[Músicos como esse] conseguem condensar ideias musicais muitíssimo interessantes em algo com o comprimento de três notas apenas, mas existe sempre um contraponto que a torna realmente interessante.

Jupp: Mas do Barry Gray, apesar de pensar que não é por isso que ele é melhor conhecido, gosto particularmente dos seus álbuns Space 1999 e toda aquela música é fantástica.

Rob Young: Estas faixas relembram-vos que a música comercial podiam, por vezes, permitir incorporar algumas técnicas avantgarde que estivessem na moda, nos anos 60...

House: Mas há também toda aquela coisa tipicamente britânica de que frequentemente falamos, que é de espécie musical, mas duma forma ligeira, não hobbista, sendo duma certa forma excêntrica.
Heath Robinson... ele tem aquele sentido excêntrico de alguém que vive nos subúrbios ingleses e tem todos aqueles truques na sua oficina. Eu acho isso muito mais interessante do que o pessoal da academia. Faz-me pensar que... no Youtube há um clip de Stanley Unwin em Parkinson, com Rowland Emett, que costumava construir todas essas máquinas musicais...

Jupp: Também penso muito no favto de toda esta música electrónica dos primórdios, ser comissionada, não necessariamente como música, mas como som electrónico, e era talvez tão novo que era... Algum desse som, suponho que era associado com a avantgarde e com material Europeu, e por isso não tinha de ser obrigatoriamente melódico ou musical. Tinha apenas de ter sons faiscantes que poderiam vender uma máquina de lavar.

Rob Young: Vocês ouvem Música de Biblioteca de uma maneira diferente da outra música – um som funcional, por oposição a algo supostamente composto com ‘expressão’?

House: Eu costumava ouvir álbuns de Música de Biblioteca em vinilo, e eles podem ser utilizados numa actuação de DJ como um interlúdio estranho. Funcionam muito bem num iPod cheio de outro tipo de coisas. Funcionam também bem no modo Shuffle. É assim que a música de biblioteca funciona, e dessa forma tem um registo mais emocional do que ouvires um álbum completo de seguida. É funcional mas pode ser anexado a outras coisas. É bom no comboio: atinges o bocado certo de um edifício ou de uma paisagem, e aquilo faz sentido naquele momento.

The Free Design
“2002 – A Hit Song”
From Heaven/Earth (1969)

House: [De imediato] São os Free Design. Há um bocado de azedume nesta canção...

Rob Young: Ela protesta contra o requisito de ter de ser comercial... um dos primeiros exemplos de música metapop.

House: É muito inteligente, é como se estivessem a desconstruir a harmonia vocal. É muito belo, música inteligente. Mas é incrivelmente boa, todo aquele fundo jazz, produção Enoch Light.

Jupp: É pop solarengo leve-como-uma-pena em toda a sua extensão, na verdade. Nunca fui de opinião que música leve fosse sinónimo de música simples. É um bocado tangente, mas com os Belbury Poly, é leve como uma pena, e admito que é um pouco naive e – odeio dizer a palavra – por vezes engraçado, mas isso não quer dizer que não tenha chegado a ela através de um processo complexo e doloroso.

House: Havia cruzamentos na altura, The Ambrosia Singers fazendo [a série de horror para crianças, na ITV] Children of the Stones, e The Swingle Singers tocando Berio... Todos estes cantores de vozes leves, coisas que associamos com entretenimento fútil... Tristram Cary...
É esquisito que o mundo do entretenimento leve seja frequentemente dotado com pessoas da música esquisitas. Nunca gostei daquela música de elevador porque sempre me pareceu acotovelada e posta em comas invertidas, mas há muito bom trabalho naqueles discos. Para mim, muitas das minhas maiores influências de que estamos a falar, nos anos 90 foram os Stereolab, porque tinham tudo isso, e no meio da Britpop e todos os músicos rock de significado óbvio, de repente todo aquele material apareceu.

Jupp: Penso que algumas pessoas da época serão capazes de referenciar coisas dos finais dos anos 60 sem seguirem aquela via peganhenta do Austin Powers.

Rob Young: Julian, planeaste trabalhar com os Broadcast de novo, antes da morte da Trish Keenan?

House: Sim, estávamos a trabalhar num álbum dos próprios Broadcast, que iria ser mais no estilo dos Broadcast – tradicional, mas ainda assim, como em Witch Cults, interlaçado com material em formato canção. Mas havia montes de material e toda a espécoe de coisas que a Trish gravou, e em dada altura... eu e o James falámos em colocar cá fora alguma coisa geita em conjunto por nós.
Quando fizemos Witch Cults foi um bom momento. Trabalhámos isoladamente de uma forma natural. Depois encontrámo-nos, num intenso fim de semana, em Hungerford, e cozinhámos tudo. Foi fantástico fazermos isso e depois adicionar as canções da Trish, de acordo com o conhecido processo de escrita automática. E assim as coisas ficaram unidas, neste método de colagem.

Rob Young: Estão interessados em colaborações com mais alguém?

Jupp: Há umas cartas na manga, para ambos... Eu estou quase a fazer sair algo de mim próprio e Jon Brooks, nos The Advisory Circle, e com o John Foxx, expectavelmente um EP. Mas a melhor avenida que temos para colaborações é aquela série de singles dentro das designadas Study Series, que nos dá uma chance de trabalhar com pessoas que não estarão necessariamente dentro da Ghost Box, num álbum, mas será um bocado um efeito colateral, onde poderemos trabalhar com todas a espécie de pessoas de quem gostemos.

Bearns & Dexter
“Quasars”
De The Golden Voyage Vol 1 (private pressing) 1977

Jupp: Soa a ruído de floresta chuvosa... [eles escutam]

House: É New Age? Não é Mother Mallard...?

Rob Young: É The Golden Voyage, um disco obscuro de New Age Americana.

House: Eu tenho-o em vinilo, uma edição privada, mas já foi há anos que o obtive. Escrevi sobre ele numa revista. É uma daquelas coisas esquisitas em vinilo que comprei há dez anos e ouvi e depois escrevi acerca da capa, porque é muito original.

Rob Young: Muitos artistas contemporâneos reclamam-se da ideia de New Age: qual é a atracção?
House: Do que eu gosto nela é das coisas que eu nunca me tinha lembrado antes: sinos de vento, que apresentam escalas e modos estranhos, e isso é o que lhes dá aquela qualidade de tremolo. É elegante, mas relaciona-se com o facto de pessoas a tocar tijelas de água e tijelas Tibetanas. Constroem uma energia vibratória esquisita que eu acho bastante interessante. Para se gostar realmente dessa música tens quase de atravessar a linha da crença. Estou interessado nisso. Penso sempre naquele episódio do Alan Partridge em que ele está a tentar ouvir a cassete do seu próprio relaxamento. É aquele sentimento de ‘estar acompanhado de algo’...

Jupp: Existe uma distinção clara entre  música espiritual, sabes, do tipo John Cage, Deep Listening e ideias Zen na música; estão a milhões de milhas de distância daquele material New Age muito insípido.

House: Estão quase ligados a La Monte Young e ao Theater of the Eternal Music, e um monte dessas pessoas eram escamosas, colocando pré-programações nos teclados, tendo aprendido em escalas orientais, e li que na verdade eles acreditavam nas propriedades curativas de certas vibrações. De certa forma é uma continuação do material esotérico dos inícios do século XX – formas de pensamento Europeias formando mundos esquisitos...

Rob Young: É o ‘misterioso’ uma forma particular Britânica de memória folclórica profunda?

Jupp: Como dissemos antes, nós não trabalhamos sobre uma ideia do oculto, mas a Ghost Box explora um mundo que é mais sobre o mistério do que sobre o oculto. É mais sobre espaços ficcionais e metaficção, e espaços na tua cabeça que têm uma realidade, mas em que não é preciso um ritual para lhes ter acesso, sendo, por isso, acessíveis através da música e da ficção. é como funcionamos nesse mundo, com essas coisas, em vez de nos vestirmos com robes e incenso.

Rob Young: A vila ficcional de Belbury aparece em várias capas de CD; é um lugar onde vão ‘figurativamente’, enquanto fazem música?

Jupp: Com tendência para aumentar, está a ficar um lugar cada vez mais reconhecível. Mas eu suponho que seja mais um ‘lugar na cabeça’ – termo horrível – mas consigo assim ver melhor a cidade e compreendo melhor o mundo ficcional. Felizmente, não chegaremos ao estado, como em O Senhor dos Anéis, onde haverá um mapa. Mas parece-me que é similar a isso. São mundos construídos. Não há linha do tempo, é tudo de uma vez. É tudo desde 1958 a 1978, e movemo-nos para trás e para a frente, para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita. É o que define o nosso mundo.

Rob Young: Qual o porquê dessa data de corte, 1978?

House: A paisagem mudou. A sensibilidade pós-guerra – aquela sensibilidade utópica, essencialmente de esquerda, que criou coisas como o Radiophonic Workshop – foi cortada nessa altura. Emergiu com o crescimento do homem do marketing como oposto do artesão. É como se tivesse havido um ponto em que disseram, ‘OK, vamos parar de andar por aí a cirandar e a estragar as coisas. Agora é a altura de fazermos dinheiro’.

Jupp: A coisa óbvia é Thatcher – essa época. Não é tanto acerca do punk; tem mais a ver com uma mudança de maneira em que o mundo é olhado. É a aurora da tecnologia digital: as imagens de TV começaram a ser diferentes porque a tecnologia era diferente. A fotografia, a armazenagem dos filmes, tudo mudou.

House: Penso que podes entrar pelos anos 80. Porque penso que a música de jogos de computador dos primórdios, de 8 bits, ainda é uma coisa que encaixa no mundo Ghost Box. Também não penso que a nostalgia é uma coisa que tenha mudado dessa maneira. Não penso que seja uma largura de banda que muda contigo. Nós referimo-nos bastante ao Festival of Britain (1951), que foi 16 anos antes de eu nascer. É nostalgia por uma ideia.

James Ferraro
“Palm Trees, Wi-Fi and Dream Sushi”
De Far Side Virtual (Hippos In Tanks) 2011

House: [Depois de uns curtos segundos] É James Ferraro?
É Far Side Virtual, que foi o álbum do ano para a Wire. Ainda não sei o que pensar deste álbum. É como um filme estranho de uma grande corporação, que poderias ter recebido da Pizza Express ou uma coisa assim. Estou fascinado pelo facto de não ser arcaico, e ser uma reflexão capaz de partir o espelho, ou o que quer que seja que temos nos iPads. Soa como uma colagem musical feita pelo Jeff Koons: brinquedos insufláveis e fotografias de comida sobre a cama; uma zona hiperreal...

Rob Young: O vosso trabalho está saturado com o passado; consideram alguma vez envolverem-se em aspectos do presente como este disco faz?

House: A coisa engraçada é o modo que [Ferraro] olha para isso, ele faz as coisas soarem de alguma forma a passado. Eu não sou capaz de o fazer – não consigo encontrar um ângulo interessante para olhar o nosso mundo.

Jupp: Podes escolher qualquer outro instrumento para comandar, ou um estilo de música, e isso dar-te-á sempre uma infinidade de variações e ângulos de abordagem para explorares. Isso pode afastar-te definitivamente de muitas pessoas que não querem saber nada disso, e pode limitar a tua palette de sons, mas é um campo infinito para explorar, e falando como músico, é suficiente para mim. Não penso que seja escapismo. Talvez nós não tenhamos  uma necessidade premente para nos envolvermos com o mundo contemporâneo... mas não penso que isso seja um escape.

House: O que fazes quando exploras as avenidas estranhas da memória e dos antigos media, é que apontas um espelho para algo; não o estás a comentar. Nós relacionamos o que fazemos com o mundo hipercapitalista que habitamos. Na era do Youtube tudo está ali à mão agora, a todo o instante e instantaneamente. [Nós lidamos com] a metade da memória esquecida, com os bits apagados, os bits que não estão preenchidos.




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