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Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (124) - Música & Som #58


Música & Som
Nº 58
Outubro de 1980

Publicação Mensal
Esc. 70$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, António Pedro Ferreira, Bernardo de Brito e Cunha, Fernando Peres Rodrigues, Henrique Amoroso, Hermínio Duarte-Ramos, João David Nunes, João Gobern, João de Menezes Ferreira, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Paulo Norberto, Pedro Ferreira, Pedro Cristina de Freitas, Raul Bernardo, Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Jorge Cortesão e Ray Bonici

Tiragem 15 000 exemplares
68 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.




Crítica de Concertos

Ramones Em Cascais



No Cais do Sodré, mesmo na hora de perder o comboio estávamos os três: a Ana Rock, o Topê - deveras cioso da sua cadela espacial que tirava fotografias, a Laica - e eu.
Sem grande convicção - que toda a gente cochichava a «merda da véspera» - embarcámos no seguinte. Rumo a Cascais - segunda noite da visita dos falsos manos de Forest Hills.

A sala estava bem guarnecida quando os UHefes chegaram montados no respectivo «cavalo de corrida».
Esta foi a terceira vez que vi os UHF em concerto e, relativamente à primeira (na abertura dos Dr. Feelgood em 1979), a evolução é nítida. O grupo revela-se como um dos mais excitantes da cena nacional e pena é que não possa ser ouvido em boas condições sonoras. Desta feita, e p'ra variar, apenas chegou até nós uma transbordática e intrincada amálgama de riffs, pancadas e palavras.
No final falámos um pouco com os membros do grupo e ficámos a saber que já têm contrato discográfico. O primeiro single sairá ainda este ano e incluirá a faixa «Cavalos de Corrida» na face A e um tema ainda por escolher na face B. Lá para Fevereiro de 81 surgirá um elepê que irá ser «gravado aos poucos», para pegar na expressão de um UHF.

Tardaram um bocado. Mas vieram.
Portadores das habituais fardamentas - que fizeram estilo -, as jeans corroídas e os blusões negros, os quatro Ramones dispuseram-se no palco para aquele que viria a constituir-se como o mais speedadamente decibélico (ou vice-versa) dos shows que passaram entre nós.
Marco, atrás das peles, não se pode dizer que tivesse tido um trabalho brilhante. Teve força de braços e pernas para espancar o instrumento e guardou o ritmo. Ninguém lhe pedia mais.
Dee Dee foi a metralha luzidia. O seu baixo Fender amarelo e vermelho desferia fispas que se transmitiam betão adentro e entravam direitinhos pelos pés pondo tudo a vibrar cá no organismo.
Joey, no centro, esganando o microfone, pôs-se numa posição próxima do zen Kutsu dachi Karateca e raramente bugiou. Aquela alma alta é fininha, espécie de galinhola desajeitada, foi a minha completa desilusão pois que a esperava incomparavelmente mais activa.
Falta o Johnny «Riff», esgrimista de meia dúzia de acordes que chegaram para «encher», sonoramente falando, um pavilhão e manter presa a maior parte das pessoas que a ele se deslocaram.

Os temas sucederam-se em catadupa. Um festival de rock'n'roll non stop tocado na ponta da unha. Mal uma canção prenunciava final, logo Dee Dee sacava dos algarismos - ONETOOFEEFOH - e a banda engrenava no seguinte e no seguinte e etc., por aí fora. Evidentemente, não havia flores para ninguém.
E a maior parte da malta alinhou. Foi assim que, num concerto que à partida não dava grandes garantias, acabou por resultar numa agradável punição auditiva.

Da conversa que tivemos com o Johnny, a Ana vos dará conta.
Pela minha parte, apenas quero assinalar a desilusão que me deixou este americano mortalmente conservador com as suas três ordens de preocupações: ganhar uns cobres valentes para daqui a cinco anos largar o grupo e não fazer nenhum: devorar biografias dos seus heróis (Gary Cooper, Mae West,...); eleger Reagan para reanimar o fulgor da grande nação americana.
Ah meu caro Johnny, bem que podias limpar as mãos à parede!

Na volta, a Ana e eu, sentados algures nos Restauradores, esperámos calmamente.
Que o futuro tomasse forma de táxi vago.

Nuno Infante do Carmo



Entrevista - Ramones (Johnny Ramone)



Tomem Ramones em Vez de Valium 5!
Pois o Johnny lá estava a escovar a sua asquerosa cabeleira, com a ajuda de um ancinho, mergulhado na mais profunda indiferença face à garota fórmula Debbie Harry que o assediava, ocupado como estava em espremer as suas hediondas borbulhas. O atroz DEE-Dee, afundado num cadeirão, treinava a sua vesguice no maior dos avacalhamentos. Os outros tinham-se eclipsado. O alvo escolhido foi o Johnny.
M&S - Achas que a reacção do público português difere em relação à de outros públicos?
Joãozinho - Os países são diferentes, mas os putos são sempre os mesmos em todo o lado. O que eles querem é curtição. Não pretendemos captar outro tipo de público e por isso procuramos dar aos miúdos o que eles querem. A malta jovem é mais flexível. O que interessa é permanecer jovem!
M&S - (engulindo o tédio) Vão gravar mais alguma coisa com o Phil Spector?
Joãozinho - A gravação do «End of The Century» com o Phil foi uma boa experiência que resultou. Mas não pensamos voltar a ter o mesmo produtor no próximo trabalho que estamos a preparar. Isso seria repetitivo e nós não gostamos de nos repetir a nós próprios.
M&S (engulindo desta vez o pasmo perante tal descaramento) - Vocês são todos de Nova Iorque, não é? Em que medida é que esse facto afecta a vossa «música»?
Joãozinho - As frustrações dos miúdos que vivem nos subúrbios de grandes cidades são um tema que nos interessa. Ou ainda, qualquer tipo de frustração nos interessa.
M&S - Posso inferir que para além de introduzirem as frustrações alheias nas letras das vossas «composições», também costumam falar das vossas? Sentes-te frustrado em quê?
Joãozinho - Sabes como é, as miúdas, as ambições, o sucesso...
M&S - Conta lá...
Joãozinho - Dantes as coisas eram mais difíceis topas? Agora tudo se tornou mais fácil quanto às miúdas... A minha ambição seria a de continuar a fazer bons álbuns, bons shows, boa música enfim...
M&S (cilindrada) - Hmmmmm?????
Joãozinho - (sem dar por nada) - O sucesso tem vindo aos poucos, de modo que nos temos vindo a habituar a ele. Não nos tem afectado tanto como se diz.
M&S - Sentem-se próximos ou afins dos Talking Heads, Tom Verlaine, Patti Smith, etc., pelo facto de também serem nova-iorquinos?
Joãozinho - Não porque nos Ramones estão todos virados para o rock e essa malta que referiste é demasiado branda (too soft) para o nosso gosto. Ouvimos os Clash, os Buzzcocks, os Dickies, Black Sabbath, material mais antigo como é o caso dos Beatles, coisas dos Sex Pistols...
M&S - Gostas do hard-rock?
Joãozinho - Nem por isso. Os Van Halen, por exemplo, são o melhor grupo americano de heavy metal, mas eu não ouço muito a «pesada».
M&S - Que é que fazes quando não estás em tournée?
Joãozinho - Leio biografias. Gramei mesmo ler a do Gary Cooper e a de Mae West, recentemente. De vez em quando vou ao cinema.
M&S - Achas que a actuação dos Ramones ao vivo constitui um incitamento à violência? Consideras-te muito agressivo?
J - Não. Os putos gramam os shows com muita pedalada e vêm aos concertos para se libertarem da sua agressividade. Pulam, gritam, saltam durante a nossa actuação mas depois ficam calmos e felizes.
M&S - A fórmula é portanto «tomem Ramones em vez de Valium»? Os Ramones são um sedativo?
J - (achando graça à ideia e parando por uns segundos de sacudir a caspa) - Se quiseres. Nós todos saltamos no palco porque gostamos e porque sabemos que o público delira com isso. Nada do que fazemos é estudado.
M&S (pensando para com os seus botões que é por isso que não gosta das manas Ramones...) - Vocês estariam dispostos a actuarem na União Soviética?
J - Não é que não gostássemos de lá tocar mas o regime nunca o permitiria.
M&S - Nas próximas eleições presidenciais, em que candidato vais votar?
J - Nós não vamos votar porque os eleitores são obrigados a prestar o dever de júri. Como nós andamos sempre em tournée não temos possibilidades de pertencer ao júri. Mas eu apoio Ronald Reagan porque acho que ele é a melhor solução para a América. Espero que ele ganhe as eleições, até porque é um homem forte e é disso que nós precisamos actualmente. O Carter não infunde respeito aos Russos. Os Americanos precisam de um presidente forte para impedir os Russos de invadirem a América!
M&S  (banzada) - O QUÊ???
Joãozinho - É isso mesmo. Vocês não viram o que aconteceu no Afeganistão?
M&S - Basta! Basta! Olha que não estás a fazer campanha eleitoral, ó meu! Olha, porque é que os Ramones actuaram na festa do Partido Comunista Espanhol?
J - Ai é? Não sabia de nada.
M&S - Sentes-te cansado depois dos concertos? Tomas alguma coisa para te estimular?
J - Não me sinto muito cansado. Não tomo nada. Bem... quer dizer... de vez em quando lá dou a minha cachimbada de hash... mas não o faço por estar cansado. Olha temos que ir agora para Lisboa, pois vamos colaborar num programa de rádio, OK?
M&S (engulindo o comentário «Pobres ouvintes! Mal sabem o que vos espera...») - Só mais uma coisa: quando tencionas retirar-te?
J - Dentro de cinco anos. Definitivamente. Não tenho grandes ambições. Vou ficar de papo para o ar, sem fazer absolutamente nada de nada.

Assistir a um concerto dos Ramones é uma experiência desastrosa fascinante.
Entrevistar uma Ramoneta (courtesy of NIC) é uma experiência de engolir em seco lancinante.

Ana Rocha.


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. The Police - A Contas com a Polícia - Entrevista de Trindade Santos
. McLaughlin na Póvoa - Crítica de Concerto, por Trindade Santos
. The Police no Restelo - Crítica de Concerto, por Pedro Cristina de Freitas
. Peter Gabriel em Cascais - Crítica de Concerto, por Trindade Santos
. Gabriel Segundo S. Rock - Crítica de Concerto, por Ana Rocha
. Mike Oldfield em Cascais - Crítica de Concerto, por Trindade Santos
. José Mário Branco: «Nunca Parei de Fazer Música», entrevista/artigo por Manuel Cadafaz de Matos
. P.G. Visto por Pedro & Gabriel - Entrevista, por Pedro Cristina de Freitas e Gabriel Trindade Santos
. Mike Oldfield - Para Lá Da Barreira - Entrevista, por Trindade Santos
. Discos em Análise:
.. The Clash - «London Calling» [CBS 88478]
.. Talking Heads - «77» [SR 6036 NP]
.. Nina Hagen Band - «Nina Hagen Band» [CBS 83136]
...  Som
- Tratamento electrónico dos sons
. Tipos de Tratamentos
. Tratamento do Timbre
. Filtros Electrónicos





1 comentário:

Eduardo disse...

Excelente post. Continuação de um bom trabalho!

http://mundodemusicas.com/

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