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23.7.16

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #57: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume III: 1995"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação, introdução e prefácio)
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume III: 1995
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 336
isbn: none
data: 2016
prefácio: Luís Marvão


Texto/Citação na Contracapa (se fizerem o download vê-se bem, mas aqui fica):

Swing é palavra que não consta no vocabulário de Bill Frisell. Abstraccionista, falta-lhe a pulsão anarquista e convulsiva de um Elliott Sharp ou de um Christy Doran. Esteta, não tem a largueza de visão dos contemplativos da ECM como John Abercrombie ou Ralph Towner. Académico, embora encapotado, falta-lhe a polivalência de um Terje Rypdal ou de um Pat Metheny. “Live” poderia ser, ao menos, um espaço de comunicação e diálogo entre os três músicos, versão “power trio”, com o baixo de Driscoll e a bateria do pau para toda a obra que é Joey Baron, no contexto das “novas músicas”. Infelizmente, o estilo de Bill Frisell caracteriza-se pelo autismo. Os outros aguentam o barco, vão atrás e acrescentam os pormenores de esboços cuja articulação obedece, de forma absolutamente coerente, ao conceito “verbo de encher”. Frisell devia ter aprendido com Buster Keaton e passar a fazer música muda.
FM

Prefácio
"Felix Kubin vem ao Lux pôr discos. Pensou em "heavy metal" coreano, só que "a organização não deixou". O primeiro par a saltar para a pista ganha um crânio electrificado."

Fernando Magalhães, PÚBLICO, 02-03-2000.

Escrever o prefácio de um livro dedicado ao trabalho e obra do jornalista Fernando Magalhães não é tarefa fácil para o autor destas linhas, voraz consumidor de músicas várias e cujo gosto foi fortemente contaminado pelos textos do crítico com quem travou conhecimento e desenvolveu amizade. Com a revisitação dos textos de Fernando Magalhães, vêm recordações de momentos significantes do tempo passado, concertos, sessões de músicas, jantares e outros episódios de confraternização cuja cronologia perdi o rastro.
Conservo na memória aquela noite de quinta-feira do ano 2000, em que o conheci. Encontrava-me no Lux na companhia de dois amigos, o Mário e o Tiago, para assistir à sessão musical de Felix Kubin, esteta das electrónicas, que nos prometia levar em estranhas aventuras musicais até a "um saudável estado de histeria". Tínhamos combinado via Fórum Sons encontrar-nos nessa noite com o Fernando Magalhães, mas até então dele apenas conhecíamos a escrita, não o homem. Nunca mais me esqueci da forma como nos interpelou quando nos dirigimos ao bar: “Mário Z?”. O nome era indissociável do Fórum Sons do PÚBLICO, comunidade imaterial onde a música era fonte de apaixonada discussão, união e desunião.
Enquanto leitor das críticas musicais do Fernando Magalhães, só o fui ao tempo dos suplementos Pop-Rock e Sons, do PÚBLICO. Leitor tardio, porém não imune à escrita imagética, cheia de bonomia, humor e por vezes também cruel. Deliciosamente cruel. Era impelido ao consumo discográfico por causa daquelas críticas e esperava ansiosamente pela Sexta-feira, dia em que saíam aqueles suplementos.
Como crítico de música, o Fernando Magalhães denunciava um saudável ecletismo. Havia também outros bons exemplos nas páginas do Pop-Rock e dos  Sons que muitas saudades me deixaram. Seria injusto não o reconhecer.

Do rock progressivo à cena Canterbury, do Krautrock germânico às músicas electrónicas contemporâneas, dos sons celtas e nórdicos às geografias do continente africano, sem esquecer o jazz, eram muitas e multifacetadas as latitudes por onde irrompia a escrita do Fernando Magalhães. Uma escrita que tinha o condão de nos levar para territórios desconhecidos, alargando horizontes e desafiando percepções.  Recordo excertos do artigo Mercador de Sonhos, dedicado ao álbum Shleep, de Robert Wyatt: “Shleep” é uma mistura de 'Sheep' com 'Sleep'. De massificação com dormência”... “O sono e o sonho, uma vez mais. A comandarem o mundo, simultaneamente secreto e luminoso, esculpido em cicatrizes, de Robert Wyatt". 

Os elementos de contextualização das obras discográficas e dos músicos, impregnados no corpo da crítica, como que em grandes pinceladas impressionistas, eram também traço da sua escrita. Contextualizações a partir de referências culturais, históricas ou filosóficas vinham acrescentar sentido à reportagem ou ao texto crítico sem lhe retirar aquilo que de mais essencial tinham: a singularidade do autor e da obra. E tudo com uma grande fluidez e simplicidade. Ilustro-o com passagens do artigo sobre a vinda a Portugal da cantora grega Savinna Yannatou: "Em torno do mediterrâneo, em viagem com os judeus sefarditas, em transe num café de rebetika, em louvor da Virgem Maria. Por aqui tem andado a voz sensual da cantora grega Savina Yannatou, expoente das músicas do Sul. Esta noite, no Grande Auditório do CCB, em Lisboa, poderá voar ainda mais longe. " [...] "É verdade que a voz e a presença física de Savina Yannatou nos recordam que a ascese espiritual não dispensa um ou outro frémito do corpo. E que na origem da música rebetika (na qual, aliás, Savina faz ocasionais incursões) também estão umas boas cachimbadas de haxixe turco as quais, de certa forma, ajudam a que soe ainda melhor. Mas nela o erotismo radica em correntes mais profundas do ser, num veio de sol, a luz e mar que empurra suave, mas firmemente, a alma para o êxtase. Coisa mística, enfim. Mas deleitosa."

Havia algo de lúdico nas suas críticas, talvez o Fernando se divertisse muito durante o processo criativo de composição dos textos, sobretudo quando o alvo era algum dos seus ódios de estimação, arrisco dizer.  Desfazer alguns dos nossos mitos musicais era uma especialidade dele.  Sempre com muito humor, aquele  humor desarmante que trazia sempre consigo. Recordo a forma como classificou os Godspeed You Black Emperor (GYBE), em jeito de desabafo meio divertido, no concerto do Paradise Garage, em 2002: "Isto é sempre o mesmo. É música do ora vai acima, ora vai abaixo!".

Esse lado lúdico estava presente no Fórum Sons, espaço virtual dedicado à música, criado pelo jornal PÚBLICO e animado pelo Fernando Magalhães. Num tempo em que a internet ainda se afirmava, ele  abriu a muitos de nós as portas da percepção para diferentes universos musicais. E deu largas a muitas das suas paixões, como os Van Der Graaf Generator e Peter Hammill ou os Can, entre outros nomes maiores da galáxia Kraut. Num olhar reprospectivo sobre essa época, decorridos hoje mais de vinte anos, diria que foi obra de serviço público o trabalho do jornalista e crítico musical  no Fórum Sons. Musicalmente falando, crescemos muito no seio daquela comunidade virtual. Incontáveis foram as listas de álbuns discográficos, as revisitações de décadas da música e os escritos para atender aos pedidos dos cibernautas de então.

Falar do Fernando Magalhães é pois falar de generosidade, da vontade de partilhar com os outros o conhecimento e a paixão pela música.  Um sentimento de liberdade criativa perpassa pelas suas críticas musicais, algo que estou em crer não passará despercebido aos novos leitores, tenham eles a curiosidade ou a audácia para adquirir este livro, o Volume III de uma compilação de entrevistas, artigos e reportagens de concertos.

A presente compilação de textos jornalísticas dá relevo à música portuguesa, quer à de raiz popular, quer à de feição mais pop e rock, sem esquecer as margens do experimentalismo. Desfilam nomes como os de José Mário Branco, de Sérgio Godinho ou da Brigada Victor Jara, entre muitos outros, e são revisitados álbuns intemporais da música popular portuguesa, como “Por este rio acima”, de  Fausto,  ou “Coisas do Arco da Velha”, da Banda do Casaco, para destacar apenas alguns.  A par destes, juntam-se objectos estranhos resgatados de um qualquer tempo perdido, exemplos de “Plux Quba-Música para Setenta Serpentes”, de  Nuno Canavarro, ou dos “Ocaso Épico”, de Carlos Cordeiro (Farinha).  Deveras rica a complicação de textos dedicados à música portuguesa, bem merecedora do nosso olhar. Já quanto à secção dedicada aos estrangeiros, reportagens de concertos, de John Zorn, Laurie Anderson e Art Zyod, aliam-se a entrevistas e artigos sobre gente que deu novos mundos à música, como o mexicano Jorge Reyes e o americano Jon Hassell ou esses aventureiros alemães, os Embryo. A galeria de nomes é infindável, dos Cluster a Eno, de Scott Walker a Marianne Faithful ou P J Harvey, passando pelos Art Zoyd  e os Area, sem esquecer  a Nico e o cinema de Philippe Garrel. Muito há pois para descobrir ou revisitar em escritos que não perderam actualidade e fazem prova do ecletismo que era apanágio do antigo crítico do PÚBLICO.


Ao escrever este breve prefácio, posso não ter ficado imune ao pecado do panegírico. Pretendi tão-só exprimir a minha admiração pela obra e o homem. Quando recordo os jantares com o Fernando Magalhães na Ribeirinha do Sado e as sessões musicais que se seguiam no MARR, ou a eterna festa que era o Cantigas de Maio, fica só a saudade.

 Ao Fernando.

Luís Marvão

08-04.16








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