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26.7.16

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #58: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume IV: 1996"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação, introdução e prefácio)
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume IV: 1996
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 330
isbn: none
data: 2016
prefácio: João Gonçalves


Texto/Citação na Contracapa (se fizerem o download vê-se bem, mas aqui fica):























































FM


PREFÁCIO
Fernando Magalhães.

Já passaram mais de dez anos desde a sua morte e, no entanto, o Fernando Magalhães continua tão presente e actual na minha vida.
A relação que tive com ele foi dos maiores privilégios que a vida me deu. Primeiro nunca pensei um dia tornar-me amigo de uma figura que me habituei a respeitar e admirar só pelo que lia na imprensa dedicada à música.
Podemos começar por aí.
Quando me apercebi que, além de futebol, a minha vida precisava de muita música, o desejo de descobrir, ouvir, aprender e ler foi descontrolado. Foi em plena década de 90 que alarguei os meus horizontes musicais numa incessante procura de novos sons, culturas e fusões que pareciam não ter fim. As influências mais óbvias eram os amigos e familiares mais velhos ou mais dedicados que iam passando as dicas mais comuns e populares. Quando os grandes nomes da pop e do rock já estavam esgotados, aumentou a necessidade de conhecer mais.

Recordo com saudade os caminhos percorridos que me levaram até Bristol. O mistério de Tricky, a densidade dos Portishead, a energia dos Massive Attack que num instante me levou às raízes do reggae via Horace Andy.
PJ Harvey, Bjork e Beck, e por aí fora.
Estavam abertos os horizontes para tantos quintais, a chamada música alternativa, o trip hop, o reggae, o rock mais escondido. Foram dezenas e dezenas de nomes descobertos em formato de cascata, uns levavam aos outros.
Isto tudo sem a ajuda da internet, imagine-se! Os veículos que nos transportavam nestas viagens eram os mais artesanais e clássicos possíveis. O suplemento do DN+, do Diário de Notícias, a revista mensal que as lojas de discos Valentim de Carvalho ofereciam, a MTV, sim chegou a ter música e bons programas, acabada de chegar a Portugal, a rádio, sempre a rádio, Antena3, Super FM, XFM, Energia e outros clássicos da década de 90.
E, claro, as páginas do Público dedicas à cultura e em especial o "Sons", suplemento dedicado às artes. É por aqui que Fernando Magalhães entra na minha vida.
As suas criticas incisivas a discos, as suas entrevistas desconcertantes, os seus relatos de concertos, tudo era prosa digna de se recortar e guardar. Mesmo quando ia contra os meus gostos estabelecidos, como por exemplo o reggae, que ele odiava.
Lembro-me de comprar discos completamente às escuras só por causa de uma critica do Fernando. Isto tornou-se complicado de gerir porque, ao longo dos anos, deu para perceber que o jornalista em causa não era especialista de um só estilo em particular. O seu conhecimento e a sua opinião atravessava géneros musicais a perder de vista e sem amarras.
Foi a reboque do entusiasmo do Fernando que alarguei gostos musicais e mergulhei em mundos desconhecidos e improváveis como o da música electrónica.

O salto emocional nesta relação com o Fernando Magalhães deu-se na internet. Passei de uma relação leitor/fã - jornalista para uma relação de companheiro com alguns pontos em comum num fórum digital: o famoso Fórum Sons, nascido a partir do tal suplemento de música do jornal Público. Um espaço que aproximou, revelou e democratizou o fechado mundo da música nacional. Artistas, jornalistas, fãs, agentes da indústria, editoras, anónimos, curiosos, tudo cabia naquele fórum. Nos tempos áureos chegámos a ter Miguel Esteves Cardoso a voltar a falar sobre música, por exemplo. Foi aí que me aproximei de Fernando Magalhães. Foi pelo sentido de humor.
Um puzzle de características foi-se completando até conhecer pessoalmente o Fernando. Ao meu respeito pelas suas opiniões musicais, juntou-se a admiração e o entusiasmo pelo seu bom gosto gastronómico, pela reverencia aos Monty Python , pela paixão pelo futebol e tantas outras coisas que elevavam o Fernando à condição de amigo.
Foi ele que me revelou a melhor cerveja preta de Lisboa, bebe-se no Baleal na baixa lisboeta. Gosto sempre de destacar este ensinamento antes de outros mais comuns como a obra de David Lynch, o melhor disco pop de sempre que é de Anthony Moore, a beleza interminável da música folk, as cores do universo da chamada world music que nos leva à sua paixão pelo festival de Sines, onde passei a ir sem falta todos os anos.

Dificilmente se encontram duas pessoas na mesma vida como o Fernando. Primeiro uma figura abstracta só contactável via leitura, depois um ser humano de sentido de humor incrível. Vistas bem as coisas, acabei por conviver com ele muito menos tempo do que era suposto. Mas o tempo que passei com ele desde a revelação do Forum Sons até à sua morte são tempos que já me parecem ser incrivelmente épicos com o passar dos anos. Almoços e jantares, concertos que duravam noites inteiras, sessões de DJ alucinadas, conversas à volta de cervejas que revelavam mais do que poderei aprender em livros.
Felizmente, não tenho aquela sensação de que devia ter aproveitado melhor aqueles tempos de convivência, sinto que aproveitei ao máximo. Lembro-me que os encontros ao fim da tarde já eram tão óbvios que o grupo de amigos já se juntava sem pretexto de concertos ou futebol. Era só para conviver e depois logo  se via se havia alguma coisa para ver.
O Fernando teve a vantagem de nunca se levar muito a sério e dizer tudo o que pensava sem grandes filtros. Fosse connosco, amigos, fosse com artistas que até admirava. E contava histórias memoráveis sobre esta maneira de viver. Como aquela em que apareceu em casa de Júlio Pereira para jantar mas antes de entrar cumprimentou o homem do cavaquinho com um eloquente: olha que aceitei o convite mas o teu novo disco é uma merda...

Ficou célebre a sua "guerra" com João Lisboa numa espécie de Público Vs Expresso à volta do último disco dos Sétima Legião. Às vezes penso o que seria do Facebook ou Twitter com o Fernando Magalhães.
Publicava listas de discos a propósito de tudo e de nada, à boa maneira de Nick Hornby. Depois ficava espantado e divertido quando lhe contava que tinha apanhado várias pessoas com as listas impressas a correrem os corredores de lojas à procura dos melhores. Eu sabia porque fiz o mesmo muitas vezes. A maior parte de discos que comprei foram por influência directa ou indirecta de Fernando Magalhães.

As melhores histórias que ficam na minha memória à volta de concertos, vivi-as com ele. Momentos delirantes, outros sérios, outros marcantes.
Os tempos vividos com o Fernando Magalhães, e muitos outros amigos que vou mantendo, diga-se, foram tempos irrepetíveis mas que condicionaram para sempre a minha maneira de ouvir, ler e escrever sobre música. Mais do que isso, foram tempos que marcaram a minha visão sobre uma vida nocturna lisboeta rica em histórias e acontecimentos. Tenho como grande feito o facto de o ter convencido, juntamente com o Vítor Junqueira, a ir a um programa de duas horas que tivemos na Rádio Voxx, foram as duas últimas horas de Fernando Magalhães numa rádio.

O Fernando foi um mestre que tive a sorte de conhecer. Quantos mestres que admiramos conseguimos conhecer na nossa vida? Tive essa felicidade, por isso tenho dificuldade em o considerar morto. Um mestre é eterno.

Neste caso basta ter vontade de ouvir um disco ou ler um livro.

João Gonçalves



Índice

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