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14.9.16

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #62: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume V: 1997"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação)
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume V: 1997
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 632
isbn: none
data: 2016
prefácio: Mário Correia





Texto/Citação na Contracapa (se fizerem o download vê-se bem, mas aqui fica):


Música tradicional irlandesa em estado de completa maturação mas segurando com firmeza a flama do entusiasmo de quem sente ter ainda mais e melhor para lhe dar. Música que estabelece a comunicação com os deuses e os homens, possuída, do princípio ao fim, pelos rasgos de génio que são timbre exclusivo dos eleitos. Música feliz, que sabe não serem necessárias operações de maquilhagem para tocar no coração de quem verdadeiramente a ama. Na contracapa, consumada a alegria pagã do “pub”, com a silhueta recortada em contraluz, os Dervish olham o reflexo do crepúsculo nas águas esmeraldinas de um lago da Irlanda.

PREFÁCIO
Não é sensação fácil de descrever esta de estar hoje, aqui e agora, a discorrer sobre a escrítica do Fernando Magalhães, porque as palavras se cruzam com vivências que nem sempre as próprias palavras foram os meios mais adequados para as exprimir. A narrativa, primeiro mentalmente elaborada, apresenta-se sincrética e não raro mesmo fugidia, escapando-se entre as emoções que a recordação inevitavelmente cobre com uma espécie de nevoeiro de sentidos que vão sendo arrumados nos arquivos das nossa memória afectiva. Com efeito, que há para dizer das palavras que o Fernando Magalhães alinhava nos seus artigos, reportagens e recensões, dessas palavras com os quais nos revelava discos e descrevia concertos, elaborando autênticas pautas de audição?

Conheci-o pessoalmente no início dos anos 90 do século passado, aquando da sua vinda ao Porto para assistir, pela primeira vez, ao Festival Intercéltico: à entrada do “velho” Rivoli, imóvel, procurando na penumbra da sala onde se iam iniciar ensaios de som, disse quem era e ao que vinha, com o ar tímido de quem pede licença por estar a interromper alguma coisa. Foi fácil, muito fácil a conversa que se seguiu e as cumplicidades que se foram construindo com o decurso dos tempos. Desde logo, numa comunicação renovada todas as quartas-feiras, quando saía o suplemento “Pop&Rock”, com o jornal Público, com recensões discográficas que se articulavam como peças de um mapa indispensável para procurar tesouros discográficos das mais variadas proveniências musicais: o Fernando era um verdadeiro príncipe da escrita nestes tempos de revelação, cruzando distintos gostos musicais e estabelecendo pontes de comunicação entre géneros e estilos, abrindo horizontes de modernidade e de contemporaneidade, sem nunca deixar de colocar em devido destaque a essência das raízes, não hesitando, para tal, em percorrer as sendas e caminhos da mais “dura” tradição.

Recordo que veio pela primeira vez ao Planalto Mirandês, uma finisterra – e ele tinha uma atracção muito especial pelas finisterras! – do Nordeste Transmontano nos inícios do século actual, porque queria saber in situ dos velhos gaiteiros e viver de perto aquilo que ele designou como sendo uma “louca aventura, como devem ser todas as aventuras condenadas ao sucesso”, o Festival Intercéltico de Sendim – Terras de Miranda, organizado pelo Centro de Música Tradicional Sons da Terra, sediado em pleno coração das terras mirandesas. E foi uma delícia: a música, a terra, a gente, a aldeia, a paisagem e as arribas proporcionaram-lhe um estado de embriaguez sensorial que não mais esquecerei. Tudo se encaixava na perfeição numa visão quase totalmente mítica da terra que se lhe revelava inteira e telúrica. Recordo – e o tempo é sempre o lugar da natal da esperança – que na cidade de Miranda do Douro fomos visitar a sé – hoje concatedral – depois de deambularmos por um cenário de quinhentistas evocações, com o rio Duero-Douro lá em baixo, manso e dócil entre monumentais fragas, numa paisagem onde nada começa e nada acaba. Fiz-lhe notar, em comentário circunstancial, que aquele templo sagrado vinha dos tempos da ocupação filipina e que, lá dentro, eu sentia que a sua altura era esmagadora. Discordou de imediato comigo, esclarecendo que aquela arquitectura não tinha por objectivo esmagar quem quer que fosse mas sim elevar, ligar a terra aos céus. Se o românico tinha procurado puxar o céu para a terra, aqui tratava-se de re-ligar a terra ao céu. Era como a música, como toda a música que valia a pena ouvir: serviria, deveria servir – caso contrário não o era, era outra coisa que não música – para nos elevar acima da horizontalidade do quotidiano. Era o filósofo quem falava, estava bom de ver. Habituámo-nos a encontrar nas palavras alinhadas pelo Fernando Magalhães esta dimensão de procura do entendimento para tudo quanto nos rodeia, sendo a música um veículo privilegiado para fazer dessa busca um caminho prenhe de significados e de orientações.

Pouco tempo depois da incursão transmontana, ofereci-lhe uma gaita de foles, de pura traça tradicional mirandesa e sei que emudeceu de emoção, indo ao encontro daquele que era um dos seus sonhos. No acto da entrega, teceu considerações sobre o arcaísmo do instrumento e contemplou-o embevecido, sem se atrever a tentar tirar-lhe um só som que fosse. Sei que lutou com denodo com válvulas algo deficientes e uma ponteira que não se entendia com palheta, porventura mal amanhada, para gáudio do tin whistle que ele tocava com alguma desenvoltura, atrevendo-se mesmo a acompanhar músicos irlandeses através dos respectivos discos. Depois de operações de melhoramento da dita cuja, Fernando Magalhães ter-se-á atrevido a fazê-la falar, sem todavia deixar de pensar quer mesmo “bicho indomável” aquele instrumento tão popular em terras mirandesas.

Mas era suposto prefaciar esta compilação de textos escritos pelo Fernando Magalhães falando justamente deles ou do seu processo de construção narrativa. Só que os seus textos não foram produzidos para serem explicados mas sim para serem objecto de fruição, como propostas de viagens pelas notas, pelas melodias, pelos ritmos e pelas harmonias das obras musicais para as quais entendia dever chamar a nossa atenção, quase sempre por boas ou muito boas razões embora, por vezes, não deixasse de zurzir na mediocridade, no oportunismo e no facilitismo de certas propostas que às vezes lhe empestavam os aparelhos de reprodução. Fernando Magalhães sabia ser elegante e delicado nas abordagens críticas mas também incisivo e cáustico quando achava que era necessário que o fosse.

Era, confessada e inequivocamente, um habitante de olimpos de excelência musical, com horizontes expressivos muito alargados que podiam emergir da mais dura tradição até mergulharem na mais ousada formulação ou vertigem da modernidade. Escrevia sobre música fazendo da emoção da escuta um acto de transmissão das vibrações desse cristal primordial que era um gosto apurado e refinado por tudo quanto fosse criação cerebral elaborada com verdade e com autenticidade, como não raro o referia nos seus escritos. Muitas vezes bastava-nos saber o que é que o Fernando tinha dito desta ou daquela obra discográfica para os seguirmos na (re)descoberta dos sons revelados. Um disco nunca era uma peça isolada, nascida sob os auspícios de uma qualquer genial inspiração, era inserido no tempo, na história, numa concepção artística, enfim, num determinado contexto expressivo. A música era por ele entendida como parte integrante de todo um perpetuum mobile, fruto do encontro de aquisições e de perdas, de sensibilidades e emoções, num tempo concreto. Sendo certo que o futuro não pré-existe, não é virtualmente real, Fernando Magalhães não raro se atrevia a antecipar futuros expressivos, porque não se limitava a constatar, queria sempre e ir mais além nas suas navegações musicais.

Perscrutava a identidade da música, esse vínculo comum no qual descansam as diferenças, com a audácia de quem se sentiu sempre muito mais atraído pelos caminhos por fazer do que propriamente pelos caminhos percorridos, os quais todavia tinha de conhecer como ninguém, para poder ousar na sedução da descoberta. Quando no seu presente ouvia para trás, o horizonte estava carregado de futuro, procurava sempre vislumbrar a luz dos amanhãs que viriam mesmo que tivesse que tactear sombras pouco esclarecedoras. Nunca “sepultava” um disco daqueles cuja audição recomendava nos seus escritos: jazia em latência, à espera do novo sopro de vida musical do seu criador, na certeza de que ganharia novos contornos e dimensões expressivas com o que havia de vir. E deste princípio auditivo-compreensivo nunca abdicou e nós estamos-lhe muito agradecidos por isso. Porque deste modo também aprendemos a ouvir.

Foi por tudo isto que um dia, quando acabou o mês de Julho de 2003, quando visitou, pela única vez, o Centro de Música Tradicional Sons da Terra, me deixou palavras de circular reflexão inscritas no livro de visitas:

A pedra faz a casa
a casa tece-se na aldeia
a aldeia casa-se com o mundo
o mundo revela-se nas estrelas
as estrelas reflectem-se na pedra

Numa casa como esta
o círculo torna-se espiral
o tempo espirala-se no templo

E das pedras se faz luz

O Centro de Música Tradicional Sons da Terra
re-inventa o Centro
da terra

Não é, de forma alguma, despropositada a transcrição. Assim como tudo quanto atrás deixo escrito a pretexto e sobre a prosa do Fernando Magalhães. É tudo uma questão de espirais, não é verdade, Fernando? Espiralemos, pois, com a renascença dos teus textos, uma renascença que só pode ser redentora, como tu gostarias, com certeza, que fosse. Porque só assim terá valido a pena.

Mário Correia

Praia da Granja, 12 de Agosto de 2016

ÍNDICE




Indice Vol5 1997 by luisje on Scribd




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