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27.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (135) - Música & Som #100


Música & Som
Nº 100
- oitavo aniversário
Novembro de 1985
Publicação Mensal
Esc. 150$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 + suplemento/destacável Computadores... & Vídeo (16 páginas)
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.

Virginia Astley
«From The Gardens Where We Feel Secure»
FUND. ATLÂNTICA 24 02 681



A solidão, a melancolia, a quietude - qualquer coisa subtil e violenta que sugere um estado de tranquilidade máxima. Neste disco, a solidão que dele irradia revela-se inteiramente no seu individualismo tanto como na sua liberdade. Dois momentos privilegiados: manhã e tarde. Neles se vão espraiar o tempo e o espaço que brotam desta música. Nem ideologia, nem política, nem norma social, nem religião (ou talvez apenas esta). uma liberdade total - um espírito livre porque solitário. Virginia Astley decidiu neste disco exprimir exclusivamente a realidade da sua experiência vital, como que sentindo-se livre de todas as suas contingências. As portas fechadas ao mundo, abertas apenas para ele numa realidade diferente. Como que acreditando que a música é a última expressão da vida, Virginia Astley realizou este trabalho colocando-o numa esfera de todo independente da realidade que a cerca, inscrevendo-o numa esfera exclusivamente estética, deliberadamente onírica. Logo a abrir, With My Eyes Wide Open In Dreaming vem como que dar o mote, estabelecendo os limites do palco onde o espectáculo desta música se vai desenrolar. Um cadinho de símbolos: o Verão, o tempo, os pássaros, o silêncio, os jardins, as flores (as intenções do disco começam por ser logo expressas no espectáculo da capa interior), os campos, o calor. Pedra a pedra, à medida que a acção do disco decorre, é toda uma arquitectura que se vai construindo, uma nova fisionomia para o mundo em que vivemos, deformado, modificado e desfigurado, como que querendo que o movimento de criação perpetuamente continue, o verdadeiro fluxo que esta música é, continua a ser uma coisa ainda sensível mesmo depois (sobretudo depois) de ter soado a última nota musical. Símbolos, silêncios, espaços, um tempo único de calma absoluta - de facto, esta música permanece muito para lá da simples audição; a grandeza dos símbolos por si expressos revela-se exactamente na sua permanência dentro de nós com um ilimitado potencial de sugestão. A Summer Long Since Past, Hiding In The Ha-Ha, Too Bright For Peacocks, Summer Of Their Dreams, When The Fields Were On Fire, It's Too Hot To Sleep. Um dos sinais mais nítidos da pureza terrível desta música é a total ausência de preocupações utilitárias em qualquer sentido. Devagar, magicamente, a música vai entrando em nós instalando-nos na vasta área de uma infância perdida, mais ainda de uma adolescência também perdida, de qualquer forma tempos não esquecidos cuja reconstrução se impõe. Há qualquer coisa de proustiano nesta música - também nela se buscam as origens e se realça o papel dos símbolos. A sombra das raparigas em flor. Combray. O tempo (a infância, a adolescência) e um espaço (o campo, os jardins, as flores, o calor e a preguiça que lá existem). O imperfeito é o tempo deste disco, o imperfeito que parece eternizar as coisas na fronteira entre o presente e o passado. Assim, de um passado amortecido e escondido no esquecimento é que a memória (utilizando a música como meio) opera a ressurreição através do ressurgimento de uma impressão antiga. Um disco onde a intuição parece assumir um papel fundamental. É através desta intuição que o processo amnésico se vai processando e não, diria eu, através da memória consciente e racionalizada do passado.
Nem ódio, nem piedade, nem apologia, nem panfleto: apenas, e é tudo, uma realidade transposta, transformada e transfigurada numa visão estética - eis o clima espiritual de From Gardens Where We Feel Secure. Um disco, escusado será dizê-lo, absolutamente indispensável e de imprescindível audição. Fabuloso, íntimo e profundo como o som de um sino ao longe.
Carlos Marinho Falcão


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
Um Jardim de Infância - Nove Líricas de Virginia Astley, artigo "poético" de Miguel Esteves Cardoso
Discos em Análise:
. Heaven 17 - «How Man Are» [Virgin 626405], por Luís Maio
. Gene Loves Jezebel - «Promises» [Situation 2 Sito 1], por Luís Maio




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