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28.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (136) - Música & Som #101


Música & Som
Nº 101

Março de 1985
Publicação Mensal
Esc. 150$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira e Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 + suplemento/destacável Computadores... & Vídeo (16 páginas) - Nº 2
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.

Conversa Com Gira-Discos (10)
FLAK - Rádio Macau
Intérpretes: Flak, Discos, Gira-Discos, Nuno Infante do Carmo



Flak. É o guitarrista dos Rádio Macau. 23 anos. Em tempos foi baterista, andou metido numa série de grupos, sem consequências de maior. Depois, Rádio Macau. Prémio revelação da crítica M & S, em 84. Numa destas tardes, aconteceu mais uma «conversa com gira-discos». Flak compareceu e do que então se disse segue o resumo.

1. Beatles - «Hey Jude»
M&S - Se não conheceres esta, tenho muita pena mas não há «conversa com gira-discos». Ou identificas, ou o resto do papel vai em branco.
Flak - Claro, são os Beatles.
M&S - Temos conversa. Conheces estes rapazes há muito tempo?
F. - Os primeiros discos que me ofereceram foram singles dos Beatles, uma série deles.
M&S - Que me dizes deles?
F. - No campo melódico e a nível de arranjos, foram os mais ambiciosos dos anos 60. Actualmente, tudo o que se faz nesse campo parte deles. E, aí, fez-se diferente, mas não melhor.
M&S - Ainda os ouves?
F. - Em casa, de vez em quando, ainda os ouço, sobretudo os álbuns «Sgt. Peppers», «White Album» e «Abbey Road». Eles ainda me tocam, embora não goste de tudo, há discos que não me interessam mesmo nada.
M&S - Cá por mim, estou interessado em que ouças o disco seguinte. Vamos a ele.

2. Lou Reed - «Walk On The Wilde Side»
F. Quem será? (E riu-se).
M&S - Boa pergunta: quem será?
F. - É um dos meus músicos preferidos, desde o tempo dos Velvet. Gosto sobretudo dos álbuns «Berlin» e «Transformer». Ouço-o sempre com o mesmo prazer.
M&S - Tem conseguido sobreviver ao longo dos anos...
F. - Lou Reed sempre teve uma onda que pode ser actual. Desde os anos 60 até agora, ele não ficou preso numa determinada época. A música e a temática têm a ver com uma vivência universal.
M&S - Ainda hoje muitas bandas acabadinhas de nascer o adoptaram...
F. - As pessoas sentem-se identificadas com o trabalho dele. Por isso, sobreviveu e influencia tantos grupos, ao contrário por exemplo dos «hippies» ou dos «sinfónicos», que passaram... Por outro lado, há a expressão. Eu vejo a música mais pela perspectiva que as pessoas mostram ao fazê-la do que pelas qualidades técnicas e musicais que exibe. Não me interessa o tipo que dá mais notas. Se puder dar três notas e a coisa resultar, será decerto melhor do que se der 10 ou 50. E Lou Reed é isso, um tipo directo que transmite uma personalidade enorme.
M&S - Se assim é, nada mais a dizer. O seguinte.

3. Bauhaus - «Third Uncle»
F. - (Seis décimos de segundo depois da faixa ter começado:) - Hum, Bauhaus!... Isso é muito mais que música!...
M&S - Como assim?!?
F. - Aqui há tempos, vi um vídeo deles com várias músicas e fiquei impressionado com a força do grupo, força musical e teatral.
M&S - Já que pegas no vídeo, diz-me uma coisa: como vês essa autêntica videomania que por aí grassa?
F. - Em primeiro lugar, direi que a música deve ter valor só por si. O vídeo deverá reforçar o que ela sugere. Isto é, um tema pode sugerir certo ambiente ou certo estado de espírito que o vídeo pode completar, tentando captar o «feeling» da música por imagens. Agora, detesto esses vídeos comerciais como acontece com a maior parte das vezes com historiazinhas lamechas. Apenas se destinam a incutir, o mais rapidamente possível, determinado tema entre o público.
M&S - O.K. Voltemos agora à vaca fria. Isto é, aos Bauhaus. Atingem-te em cheio, não?
F. - Tal como no caso do Lou Reed, o que me interessa aqui é a força, a personalidade que nos é transmitida. A música pode não ser bonita e imediata, mas é para se sentir.
M&S - Sinto que está chegada a hora de trocar de disco.



4. Culture Club - «Dangerous Man»
F. - (Após alguns momentos de escuta:) - Não sei.
M&S - Culture Club.
F. - É música de consumo imediato. O contrário dos Bauhaus. Desta só gosta quem entra no espírito: daquela, é fácil, pois funciona como a pastilha elástica. Bandas como Culture Club têm uma preocupação fundamental: vender ou não vender. Sabem que para vender tem que produzir música com determinadas características. E tudo o resto passa para plano secundário. Pessoalmente, não me incomoda ouvi-los, mas é a tal coisa: entra por um ouvido e sai por outro.

5. This Mortal Coil - «Song To The Siren»
M&S - (Ante a demora:) - Vai ou não?
F. - Já ouvi, mas não sei o que é.
M&S - Uma opinião curta e concisa...
F. - Também tem a tal força de que falávamos.
M&S - Gostas?
F. - Sim, sim.
M&S - É o projecto This Mortal Coil, com músicos de várias bandas. E há também a voz: a senhora Elizabeth Frazer, dos Cocteau Twins. Já agora, que falamos de vozes femininas, vocês preferiram uma para os Rádio Macau. Alguma razão especial?
F. - Já nos conhecíamos há muitos anos. Começámos a tocar juntos (o Alexandre, a Chana e eu), numa altura em que ainda não pensávamos nos Rádio Macau. A partir daí, ela sempre cantou connosco.
M&S - Continuamos com as vozes femininas. Digo-te alguns nomes, tu abres a boca e dizes a primeira coisa que te passar pela cabeça. Está feito?
F. - Vá.
M&S - Janis Joplin.
F. - Teve a sua época. Grande «feeling» para os blues. A cantar daquela maneira não podia durar muito.
M&S - Aretha Franklin.
F. - Não sou muito virado para a música negra. Tudo isso do funky e do som Motown passa-me ao lado.
M&S - Chana.
F. - Tem as suas características a cantar. Tem a sua própria personalidade. Não é a chamada voz banal. Tem o seu timbre, desenvolve um estilo próprio.
M&S - Façamos pausa neste assunto. Mais um disco.

6. U2 - «Pride (In The Name Of Love)»
F. - (Imediatamente) U 2!
M&S - E depois?
F. - Uma banda que já influenciou dezenas ou centenas de outras. Criaram um som. Pode falar-se do «som à U 2».
M&S - Como guitarrista, algo que te excite em particular?
F. - Sim, utilizam a guitarra de uma forma completamente diferente da do rock tradicional.
M&S - Estamos com a mão na massa. Aproveitemo-la: como guitarrista, que pretendes na tua lavra?
F. - Também tento o mais possível cortar com esse uso tradicional. Não me considero de maneira nenhuma um tecnicista. Interessa-me, isso sim, que distingam o meu som do dos outros, fugir a qualquer tipo de «standard».
M&S - Disseste há pouco que U 2 era influência para muita gente. Também para a Rádio Macau?
F. - Claro que ouço U 2, mas não posso dizer que seja influenciado directamente por este ou por aquele grupo. Sou influenciado por tudo o que me rodeia.
M&S - Bom, se me permites, vamos agora aos portugueses.

7. Ban - «Alma Dorida»
F. - Sou amigo dos tipos...
M&S - Certo. Partindo do princípio que identificas perfeitamente os teus amigos, ficamos de acordo: são os Ban. Posto isto, queria uma palavrinha acerca deste trabalho.
F. - Como te digo, sou amigo deles e não gostaria de ferir ninguém, mas penso que têm um problema que é comum a 80 ou 90 por cento das bandas portuguesas: falta-lhes uma boa voz ou, pelo menos, uma voz que soe tão bem quanto a música.
M&S - Uma vez que estamos em presença de uma banda portuguesa de formação recente, talvez não fosse má ideia dizeres-me qualquer coisa acerca do panorama actual...
F. - A falta de motivação é o grande problema. Há pessoas com boas ideias, mas apanham com todas as portas fechadas: não podem gravar, concertos não há (ou são poucos, ou mal pagos, ou nem isso). E assim, por muito boas intenções que haja, perde-se a motivação. As ideias acabam por não se desenvolver.
M&S - A coisa está preta...
F. - Nunca houve gente com tão boas ideias como agora. Mas não sei até que ponto se poderá aguentar isto. Não se pode viver só de intenções.
M&S - Aponta-me algumas bandas fortes...
F. - Sétima Legião, Croix Sainte, Mler Ife Dada... já houve mais do que neste momento. Das antigas, os Xutos & Pontapés, ao vivo. E digo ao vivo porque eles têm um som demasiado forte para que possa ser passado em condições para disco, pelo menos em Portugal. Por outro lado, diria ainda que há várias bandas interessantes, que todavia deitam tudo a perder com maus vocalistas. Devia haver mais cuidado com o aspecto vocal.
M&S - Há pouco falámos de vocalistas: agora, voltámos. Diz-me nomes de alguns dos teus preferidos.
F. - Lou Reed, Ian McCulloch, Bono, Peter Murphy, David Bowie, Bryan Ferry e alguns outros que agora não me vêm à cabeça.

8. Sérgio Godinho - «Com Um Brilhozinho Nos Olhos»
F. - É o Sérgio Godinho. Gosto bastante das coisas que ele faz.
M&S - Numa área musical bastante afastada da vossa...
F. - Não acho que seja tão afastada como isso. Temos a mesma língua, cantamos em português. Logo à partida estamos, pois, mais próximos dele do que tantos outros.
M&S - Porquê a tua admiração pelo Sérgio?
F. - Voltando aos vocalistas, dir-te-ei que muitos começam por cantar em inglês. E depois passam a cantar em português, precisamente da mesma forma. Dá buraco. A língua tem características próprias que precisam ser respeitadas. O Sérgio, de certo modo, mostrou isso. Por outro lado, gosto muito do que ele escreve. Aliás, no mesmo campo, não poderei esquecer o José Afonso, sem dúvida o nome mais importante: um grande poeta, um grande cantor, um grande melodista. É curioso que ainda há dias ouvi o álbum «Cantigas do Maio», já com uns doze, treze anos, e verifiquei que, apesar de todo este tempo decorrido, não se voltou a fazer em Portugal nada tão bom como aquilo.
M&S - Podemos agora passar ao disco seguinte, ainda em português.

9. UHF - «Vôo para a Venezuela»
F. - UHF. Uma banda que surgiu no «boom» do rock, com características diferentes de todas as outras. Não gosto da voz, acho péssima. Pensei que o grupo evoluísse, mas não passou daquilo. Uma banda assim, não me diz nada. Penso que quando um grupo se mantém ao activo durante muitos anos, tem que evoluir.
M&S - Mas teve a sua importância, pelo menos?
F. - Sim, mas estagnou.

10. Xutos & Pontapés - «Sémen»
F. - Xutos, não é?
M&S - E Pontapés, também.
F. - Gosto bastante.
M&S - E depois?
F. - A única banda portuguesa verdadeiramente rock, no sentido que se dá a isso. Querem tocar: se gravarem, gravam, mas não fazem depender disso a sua vida. Só que, é uma banda que, como disse há pouco, com as condições de gravação existentes por cá, só resulta ao vivo. É um problema geral: todas as bandas com muita energia perderam-na na gravação. Não há cá técnicos e produtores que consigam captar essa energia dos espectáculos para o disco. Em Portugal, só a música calminha é que é bem captada.
M&S - Rádio Macau também se sentiu prejudicado por isso no elepê?
F. - O nosso disco falhou completamente nesse aspecto. Esperemos que não aconteça com o próximo. No álbum, as letras e as melodias estão lá, mas a energia não. Infelizmente.



11. Paulo de Carvalho - «Abracadabra»
F. - É o Paulo de Carvalho.
M&S - É o Paulo de Carvalho.
F. - Toda a gente diz que é uma excelente voz. Por mim, não me identifico com a música. Merece o meu respeito, mas não me diz nada.

12. Heróis do Mar - «Saudade»
F. - Os Heróis.
M&S - Cuidado: não quaisquer; mas os do Mar.
F. - Pois.
M&S - Pois.
F. - (Coça a Cabeça:) - Pá...
M&S - Sim, sou todo ouvidos.
F. - Não sei o que diga.
M&S - Eu também não sei o que ouça.
F. - Acho que têm também o tal problema: a voz. Canta mal, o vocalista. Mas por outro lado utilizam uma estética que abomino completamente: fazem-me lembrar a Mocidade Portuguesa.
M&S - E a música?
F. - São bons músicos. Uma das poucas bandas que, em Portugal, tira bom som, ao nível de muitas estrangeiras do mesmo estilo. E bom gosto nos arranjos.
M&S - Pronto, estamos arranjados. Terminamos por aqui.



A Noite Da Capital
por Luís Maio. Fotos: Eduardo Bayão.

Por definição, a vida urbana manifesta-se como instância do artificial. Não obstante, por razões de funcionamento e de economia o seu fluir obedece às categorias mais básicas do ritmo natural. Há o dia e a noite, e há a acção produtiva e o lazer. O trabalho é circunscrito ao tempo diurno, assim como à distribuição é reservada ao tempo nocturno.
A natureza racial e cultural dos portugueses arrasta-os na obcessão da produtividade, logo, também da temporalidade diurna. O português reduz-se voluntariamente ao estatuto ontológico de artífice, labutando das 8 às 5; nessa medida, o entretenimento surge-lhe como uma modalidade de ser alternativa e antagónica e a noite, como seu complemento temporal, aparece-lhe como algo a esvaziar de todo a significação. Por isso, ele não reconhece formas de prazer superiores às que respeitam a sua subsistência como entidade produtiva; por isso, ele vê a noite como uma coisa estranha e a abater; em suma, para ele, 'prazer' é sinónimo de 'comer' e 'dormir', e a noite o tempo em que se efectuam essas acções secundárias. Isso mesmo se comprova, examinando a vida nocturna da capital.



A - Dias Úteis
20h/22h - Ruas e transportes públicos razoavelmente preenchidos; há ainda cafés, restaurantes e cervejarias abertas, mas, regra geral, com poucos ou nenhuns clientes; quanto às salas de espectáculos, elas estão invariavelmente vazias ou mesmo encerradas. Composição média da população na rua: gente que sai tarde dos locais de trabalho e estudantes trabalhadores.
22h/24h - Fecho quase integral de estabelecimentos de diversos tipos, abertura de uma minoria de lugares exclusivamente destinados à diversão. As ruas vão-se despovoando, a não ser nas proximidades dos locais de funcionamento nocturno. Composição da população na rua: marginais, bêbados, drogados e, de um modo geral, os solitários e as pessoas que não se sentem integradas no seu ambiente familiar.
24h/2h - Fecho gradual dos locais nocturnos e termo das carreiras dos veículos de transporte público. Também as criaturas da noite vão regressando a casa, e a cidade, vista do exterior, é como se tivesse sido abandonada.

B - Fim-De-Semana
20h/22h - Ruas e transportes públicos com alguma animação, tal como cafés, restaurantes, cervejarias e locais de espectáculo. Composição da população na rua: uma parcela reduzida da população diurna, sendo os seus extractos sociais variáveis consoante as zonas da cidade.
22h/24h - Encerram quase todos os estabelecimentos e locais de espectáculo de simultâneo funcionamento diurno, abrem os locais nocturnos usuais. A população: recolhem aos lares os cidadãos respeitáveis com mais de 30 anos, ficam os filhos com licença de saída, mais os boémios inveterados.
24h/2h - Estabelecimentos como bares e boites, que legalmente encerram às 2h, no fim-de-semana, estendem o seu período de abertura até às 4 horas. População: os putos voltam para casa, só ficam os foliões (os que, por exemplo, com atraso ou não, celebram aniversários ou casamentos), e os que de semana estão cá fora às 2 horas. Mas, como é usual, as ruas são um desolado espectáculo de ausência.
É, pois, um desastre completo o panorama nocturno da cidade de Lisboa. De noite, a sua vida limita-se à do número ínfimo de estabelecimentos que se mantêm abertos. Na sua maior parte, essas casas situam-se no coração da cidade velha, o Bairro Alto. Nessa medida, será desse oásis no deserto da noite lisboeta que nos iremos ocupar. Visto que escrevemos numa revista de música, a nossa atenção irá centrar-se nos locais em que a música ou o público musical desempenham parte activa.

I. Bares
Frágil - Rua da Atalaia, 126
Características:
Espaço: três salas, uma das quais de entrada, ambientes diversos; a distribuição do espaço metamofoseia-se consoante os espectáculos do momento; no total, cerca de 180 metros quadrados. Horas de abertura e fecho: 22h/3h. Bebida da casa: cocktail frágil, com whisky, gin e sumo de limão. Música: nos espectáculos ao vivo pontua a música de cabaret, por exemplo, a de Luís Madureira e Anamar; os discos passados dizem respeito à música anglosaxónica menos imediatista; neste momento: David Sylvian, Smiths, Dead Can Dance, Dream Sindycate; o critério do disco-jockey: «passar música que se saliente pela batida, mas, principalmente, pela qualidade dos textos».
Apreciação:
Desde a sua abertura, em finais dos anos setenta, o Frágil ocupa um lugar muito específico e sem equivalentes na vida nocturna lisboeta. É aí que se encontram, assídua ou ocasionalmente, as figuras mais eminentes das letras e das artes da capital. Há de tudo um pouco: de estruturalistas autorizados a escritores de inspiração duvidosa, de génios cinematográficos a starlets da locução televisiva, de cantores de nomeada a músicos incompreendidos.
Reflexo da própria realidade cultural do país, o Frágil é um estabelecimento em que fenómenos como o calor humano e a excitação colectiva raramente são acontecimento. Aí, a moeda de troca no intercâmbio comunicativo são a ostentação e a gestualidade afectada. Vivendo de eufemismos, a clientela não vale o estabelecimento que frequenta.

«99» - Rua da Barroca, 99
Características:
Espaço: cerca de 40 m^2, duas salas pequenas, uma com piano e lareira; horas de abertura e fecho 22h/2h. Bebida da casa: '99' com gin e sumos naturais; Música: espectáculos ao vivo em duas modalidades: dias úteis/música ambiente, fim-de-semana espectáculos variados; em Janeiro, nos primeiros, o pianista Mário Jorge, no segundo, o duo de guitarra João Balão/Rui Padinha; a música gravada vai do jazz à música brasileira, passando pelo rock dos Doors e de M. Faithful.

Apreciação:
Nos outros itens, referimos estabelecimentos com que se identificam, de modo mais ou menos assumido, certos grupos etários da noite lisboeta. Mas, no Bairro Alto, há toda uma série de outras casas não conotadas com qualquer elite particular, onde é possível encontrar todo o tipo de pessoas. Abrindo as portas a um público diversificado, estes lugares são bastante mais despersonalizados, tal, como o demonstra o surtido musical que neles se pode escutar.
O «99» é um bar, entre muitos outros, que se ajusta a esta descrição. É um sítio onde se vai, quando se quer ir a um bar e não se tem uma ideia muito definida; onde se vai, como se poderia ir a outro lado qualquer. É também o género de bar onde se podem encontrar aqueles que vão usualmente a um outro lugar dos mencionados, mas que o preferem quando não podem ou não querem ser vistos.

II. Discotecas
Juke Box - Rua do Diário de Notícias, 60
Características:
Espaço: para o público, uma sala, com pista de dança e bar, cerca de 55m^2. Horas de abertura e fecho: 22h/2h.Bebida da casa: absinthe. Música: as novidades mais recentes dentro do chamado 'rock da frente'; neste momento: Tones on Tail, The Pookah Makes 3, SPK, Art of Noise, Sade, Swans Away. Critério de escolha do disc-jokey: «passar rock de vanguarda, apesar de fazer concessões ao tipo de música que se come e consome, a música que normalmente se ouve nas discotecas».

Apreciação:
De alguns anos a esta parte, o ponto de encontro de uma certa minoria juvenil que se reclama marginal em relação às formas de vida mais usuais na nossa sociedade. O tempo carismático de uma adolescência que se quer diferente por fazer do rock de vanguarda o seu cavalo de batalha existencial. Onde, no final dos anos setenta, era possível, ver os nossos neo-românticos, no início de 80, os amantes portugueses do rock cinzento manchesteriano e, mais recentemente, os primeiros break dancers que por cá apareceram.
É uma discoteca em que de uma maneira geral, se sente ou pressente um ar de agitação e vontade de mudança musical e comportamental. Há noites de efervescência e de verdadeira comunicação colectiva, há noites de tristes aparências. Mais aconselháveis nos dias úteis - às sextas e sábados são mais os diletantes e os curiosos do que os outros.

Café-Conserto - Rua do Norte, 24
Características:
Espaço: uma sala de dança com bar, 250m^2. Horas de abertura e fecho: 10h/2h. Bebida da casa: Morte Lenta, com tequila, groselha e sumo de laranja. Música: pop de vanguarda; neste momento: Pale Fountains, Scritti Politti, Dead or Alive, New Order, Section 25; o critério de escolha do disc-jokey: «passar o que é mais recente dentro da música de dança de qualidade: nunca passar funky».

Apreciação:
A discoteca que parece mais promissora, no futuro imediato: um espaço invejável, música irresistivelmente dançável e, mais do que tudo, o compromisso de apresentar concertos ao vivo com os novos agrupamentos portugueses e passagens de moda.
Ainda sem uma clientela perfeitamente delimitável, a casa começa a encher-se por esvaziamento de outras do mesmo género, hoje decadentes ou acolhendo tipos diferentes de público. Do Trumps vêm as bichas, do Juke-Box os rockers, do Frágil os intelectuais e seus congéneres. No cortejo embarcam também os esquerdistas arrependidos da Ocarina e os freaks reformados do Cais do Sodré. É capaz de se tornara  primeira grande experiência de convivência pacífica entre as várias facções da noite lisboeta.

III. Tabernas e Leitarias
Arroz Doce - Rua da Atalaia, 117
Características:
Espaço: uma só sala, com mesas e balcão, cerca de 50m^2. Horas de abertura e fecho: 9h/2h. Bebida da casa: Amêndoa Amarga e vinho Verde. Música: no juke-boxe discos antigos e pirosos; por exemplo, Frei Hermano da Câmara, Adriano Celentano, Joselito, António Molina, Nelson Ned.

Apreciação:
Símbolos de uma forma de ser genuinamente portuguesa que progressivamente vai submergindo sob a pressão de paradigmas culturais englobantes e indiferenciados, as tabernas e leitarias do Bairro Alto são uma espécie em vias de extinção. Todavia, começa-se também a esboçar um movimento de recuperação e revitalização destes lugares, graças, não a qualquer tipo de iniciativa estatal, mas ao entusiasmo da população nocturna que os tem vindo a invadir de há algum tempo para cá.
É o que sucede com os dois estabelecimentos do género que aqui são citados. No caso do Arroz Doce, os invasores têm sido principalmente pessoas ligadas ao mundo da expressão artística, mas refractárias ao estabelecido e ao consagrado. Desde 82, esta taberna é o quartel general da mais jovem geração de pintores, escritores e músicos lisboetas. Só para dar um exemplo, aí se têm encontrado frequentemente elementos de grupos como os 7ª Legião, os Rádio Macau e os GNR. Hoje, o lugar tornou-se um tanto 'dejá vu', de tal modo que os que por lá aparecerem, agora, são mais os amigos e os conhecimentos, do que os próprios artistas. Mas, como aqueles gostavam de ser como estes, o entusiasmo e a febre nocturna é talvez ainda maior.

Leitaria Flor da Branca - Rua do Diário de Notícias, 63/65
Características:
Espaço: duas salas, uma de jogos, a outra com mesas e balcão, no total, cerca de 90m^2. Horas de abertura e fecho: 8h/2h. Bebidas da casa: Geropiga e amêndoa amarga. Música de rádio.

Apreciação:
Como acima frisámos, este é também um local que foi salvo pela irrupção massiva de uma nova clientela. Antes, os poucos frequentadores do sítio eram velhos habitantes do bairro e outros que, ali à esquina, se envolviam no comércio do corpo. Mas, depois, mesmo em frente, abriu o Juke-Box e os utentes da discoteca fizeram-se também clientes da leitaria.
Daí que o quadro humano que hoje nos apresenta a Flor da Branca seja deveras singular: de um lado, marginais, prostitutas, reformados e gente humilde; do outro, punks, neo-românticos, breakers e outros que tais. Entre uns e outros, muito naturalmente, a distância e a diferença que separa dois mundos, só apaziguada pelo dono da casa, sempre conciliatório e optimista.

Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. 85 Será Delas, por Célia Pedroso???
. Outra Música Outra Moda, por Luís Maio c/ fotos de Eduardo Bayão
. O Porto Desperta Ao Som De Novas Guitarras, por Luís Maio - artigo/entrevista sobre Ban, Prece-Oposto e Neo Mono-Var
Discos em Análise:
. Mahavishnu Orchestra - «Mahavishnu» [WEA 229 25-1351-1], por Nuno Infante do Carmo
. «Metropolis» - Banda Sonora Original [CBS 70252], por Célia Pedroso




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