30.6.17

Dead Can Dance - Dossier - "Na Terra Dos Sonhos"


DNMAIS
Sábado, / Junho 2003

DEAD CAN DANCE
Na Terra Dos Sonhos

O lançamento de um ‘best of’ convida a um reencontro com a música dos Dead Can Dance, projecto de Brendan Perry e Lisa Gerrard que marcou pela diferença o panorama alternativo dos anos 80 e vincou a identidade de uma das vertentes do som da 4AD.
Nuno Galopim


É uma música nova ou uma amálgama de músicas antigas? É world music ou pop/rock? As questões não são novas e, na verdade, recorrentes sempre que os Dead Can Dance se apresentam na berlinda. Ao reencontrar a sua memória, através de uma selecção de temas apresentados em Wake, um best of que nos convida a (re)descobrir a aventura sem tempo nem fronteiras da música deste projecto que nos revelou Brendan Perry e Lisa Gerrard, estas questões e memórias saudáveis dos dias de ouro da 4AD regressam à ordem do dia.
Banda de referência do catálogo da editora independente britânica 4AD, os Dead Can Dance definiram, disco após disco, um percurso entre o antigo e o contemporâneo, doseando tonalidades e sabores renascentistas, trovadorescos ou clássicos, juntando aromas mediterrânicos, africanos, do Leste europeu, do médio oriente, da Ásia. Entre canções de forma mais tradicional e uma requintada tecelagem de ambientes, a música oferece uma ideia de sonho sem tempo nem lugar, de apelo suave aos sentidos... E decididamente difícil de traduzir por palavras.
Começaram por ser um colectivo alargado, na clássica tradição da banda pop/rock, mas ao segundo álbum era já uma dupla, repartindo entre si as responsabilidades de composição e interpretação. Brendan Perry sempre foi a voz herdeira da tradição pop/rock alternativa, entoando formas concretas. Por seu lado, a Lisa Gerrard desde cedo coube o papel da libertação dos espartilhos da arquitectura vocal pop/rock, trabalhando ao longo dos anos um registo de vocalização decididamente pessoal que muito contribuiu para o definir de uma identidade característica nos Dead Can Dance.
OS PRIMEIROS DIAS. Tanto Lisa Gerrard como Brendan Perry têm ascendência anglo-irlandesa, remontando o encontro de ambos aos dias em que viviam em Melbourne (Austrália), em 1980. Brendan revelava então sinais de contaminação pela revolução punk que mudara a face da música no hemisfério Norte poucos anos antes. Lisa, por seu lado, educada e crescida no melting pot cultural de um bairro de emigrantes oriundos de regiões mediterrânicas, mostrava já uma evidente predisposição para abraçar os sabores «exóticos» das músicas desses muitos vizinhos... Curiosamente, depois de estabelecida uma amizade e traçado um desejo de futuro na música, passaram ambos pela cozinha de um restaurante libanês em Melbourne, no qual lavaram pratos a troco de um sonho de partida para Londres. Assim foi. Fizeram as malas, e na bagagem traziam já as primeiras canções. Mal imaginando que os aromas que traziam das vivências em Melbourne vinham já nas entrelinhas das intenções musicais. Entre essas primeiras composições encontrava-se já o hoje mítico Frontier, resultado de uma sessão de trabalaho baseada na improvisação, que agora é incluído no alinhamento de Wake.

NA CASA DE IVO. Os Dead Can Dance aterram em Londres em 1982, sem horizontes nem projectos concretos, mas donos de uma insistente vontade em fazer a sua música. Esses primeiros dias não foram fáceis, vivendo Lisa e Brendan do dinheiro do subsídio de desemprego, habitando um magro apartamento num bloco na Isles of Dogs, a Leste de Londres e recebendo, uma após outra, as recusas das mais diversas editoras...
Uma das cassetes foi deixada nos escritórios da recentemente criada 4AD, uma operação paralela da editora Beggars Banquet, formada para desenvolver emergente talento, e sob a direcção de Ivo Watts Russel, um antigo discotecário. A editora, que tinha assegurado a estreia em álbum dos Bauhaus e que era então «casa» de nomes como os Modern English e Dif Juz, encontrou na proposta de Perry e Gerrard uma das suas pérolas, definindo assim, em poucos anos, uma identidade muito peculiar de som e imagem, através de uma mão cheia de edições dos p´roprios Dead Can Dance, Cocteau Twins e This Mortal Coil, este último um projecto transversal às bandas da editora, reunindo a colaboração de membros de vários grupos sob a batuta do «patrão» Ivo Watts Russel.
Depois de um primeiro álbum menos característico, a música dos Dead Can Dance mostra então, ao longo da segunda metade da década de 80, um percurso de evolução linguística, atingindo a definição clara de identidade em Within The Realm Of A Dying Sun, e assinando as obras-primas da sua discografia nos seguintes  The Serpent’s Egg e Aion. O grupo mostrava já ter-se liberto dos rumos mais clássicos da tradição da canção pop/rock, optando antes por um labor centrado nos discorrer de ambientes e cenários. Estas marcas de identidade contribuíram rapidamente para o definir de uma admiração generalizada entre uma população jovem de horizontes musicais mais exigentes, vincando assim um culto que abraçou não só os Dead Can Dance, como também os restantes parceiros da «via ambiental» da 4AD.
Em poucos anos os Dead Can Dance tornam-se num nome com exposição global. Quando chegam ao circuito universitário norte-americano em inícios de 90 trazem na mala os sons de Aion, que fazem das actuações ao vivo um palco de encontro de fontes diferentes de som, permitindo o encontro dos sintetizadores com instrumentos de outras geografias e outros tempos. É de então que data o seu período de aposta mais evidente na estrada, assinando diversas digressões (uma delas mais tarde registada num DVD agora disponibilizado entre nós).
Tudo muda na vida dos Dead Can Dance quando, nos anos 90, Brendan Perry se muda para uma residência na Irlanda rural e Lisa Gerrard se instala numa casa de montanha na Austrália. O afastamento não impede a continuação do trabalho, mas determina uma progressiva separação de tendências e intenções que acabará por determinar o fim do grupo e a inevitável continuação dos percursos individuais, em carreiras a solo. Lisa Gerrard, depois de trabalhos nas bandas sonoras de O Informador, Gladiador e Ali, é hoje, mais que Brendan Perry, dona de nova carreira em ascensão.


DVD
Dead Can Dance
«Towards The Within»
4AD/MVM
Concerto: ***
Extras: ***
Originalmente lançado em vídeo por alturas da edição do álbum ao vivo com o mesmo título, este documentário sobre a digressão de 1993 cruza excertos de uma actuação no Mayfair Theatre em Santa Monica (Los Angeles, EUA) com momentos de conversa com Brendan Perry e Lisa Gerrard. O alinhamento live apresenta inúmeros inéditos, tal e qual a versão em disco. O melhor do DVD está, contudo, nos cinco extras nele incluídos, nada mais nada menos que videoclips, dois deles (The Host Of Seraphim e Yulunga) extraídos do filme Baraka (de Ron Fricke), que contou com a contribuição dos Dead Can Dance na respectiva banda sonora. O histórico Frontier e The Protagonist surgem em clips rodados por Nigel Grieson, uma das almas da 23 Envelope, companhia de design que definiu a imagem da 4AD.

Dead Can Dance
«Wake»
4AD/MVM
****
O segundo best of dos Dead Can Dance propõe, num CD duplo, um percurso de memórias captadas ao longo da discografia, não esquecendo o registo ao vivo de 1994. Para os admiradores em busca de novidade, Wake inclui o mítico Frontier, a primeira maquete dos Dead Can Dance, gravada ainda em Melbourne.

DISCOGRAFIA
A discografia dos Dead Can Dance está integralmente reeditada em CD pela 4AD (representada entre nós pela MVM). O ‘best of’ agora editado pode perfeitamente servir de cartão de visita a quem não conhecer a obra do grupo, assim como assegurar um bom retrato completo da sua obra para os mais velhos fiéis de 80 e 90. Wake é, todavia, um primeiro passo num processo de (re)descoberta que, para obter uma representação mais completa da obra deverá, depois, passar por discos-chave como Within The Realm Of A Dying Sun, The Serpent’s Egg e Aion, os melhore desta «safra». O álbum ao vivo de 1994 é um bom retrato das artes do palco de um grupo que nunca chegou a actuar entre nós (o DVD Towards The Within acrescenta depois o complemento directo visual). Para carteiras mais recheadas, a caixa de 2001 oferece uma belíssima visão de conjunto. Completar, depois, com os discos dos This Mortal Coil e, porque não, um olhar atento pelo catálogo da 4AD (ver página 14 desta edição).


 1984. «Dead Can Dance»
Mais «convencional», inclui o EP Garden Of Arcane Delights na edição em CD.
1985. «Spleen And Ideal»
Começa aqui o percurso de definição da linguagem muito peculiar do grupo.
1986. «With The Realm Of A Dying Sun»
Lisa e Brendan dividem o disco ao meio e cada um canta num dos lados.
1988. «The Serpent’s Egg»
Este é um dos dois discos obrigatórios do grupo, na plenitude da sua linguagem.
1990. «Aion»
Dominado por referências renascentistas, outro episódio fundamental.
1991. «A Passage In Time»
A primeira antologia, pensada para apresentar o grupo nos EUA e Canadá.
1993. «Into Labyrinth»
O retomar do percurso, em forma, mas sem a mesma surpresa.
1994. «Towards The Within»
Disco ao vivo registado em Los Angeles durante a digressão de 1993.
1996. «Spiritchaser»
Derradeiro registo de originais, muda azimutes, para o hemisfério Sul.
2001. «Dead Can Dance 1981-1998»

Caixa antológica com 3 CDs e o DVD de Towards The Within».






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