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1.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (140) - Música & Som #105


Música & Som
Nº 105

Agosto de 1985
Publicação Mensal
Esc. 200$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira e Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 + suplemento/destacável Computadores... & Vídeo (16 páginas) - Nº 6
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.
poster: Kenny Loggins (A3 a cores - centrais)


Grupos Portugueses
3. Mler Ife Dada - Ou A Harmonia Dos Contrários
por Luís Maio

«Talvez a natureza goste dos contrários e saiba deles extrair a harmonia, ainda que não se interesse pelos semelhantes; é por isso que une o macho e a fêmea e não relaciona os seres do mesmo sexo; compôs a concórdia original pelos contrários e não pelos semelhantes. Parece que também a arte, imitando a natureza, faz o mesmo. (...) A música misturando notas agudas e graves, longas e breves, consegue uma só harmonia em tons diferentes».
in «Do Mundo», autor anónimo contemporâneo de Aristóteles.



As produções artísticas da cultura ocidental, como expressão e reflexo da sua configuração, são francamente dualistas. Alicerçam-se no posicionamento de contradições, para se cristalizarem sob a forma de compromisso com um dos dois pólos antagónicos. Com a descoberta, em finais do século passado, das lógicas trivalentes, o edifício científico clássico estremeceu e foi obrigado a remodelar-se; todavia, ao nível do senso comum e da arte, a bivalência foi mantida como se nada se tivesse passado - a tríade princípio de identidade / não contradição / terceiro excluído conservou-se intacta na regimentação das formas de pensar desses dois domínios de expressão. esta situação verifica-se particularmente no nosso país. Basta dizer que, no emprego corrente da nossa língua, a partícula 'ou' não conhece praticamente o uso inclusivo, acepção em que é sinónima de 'e'. «Ou isto ou aquilo» significa invariavelmente que um dos disjuntos é para ser excluído. Mas não é só no plano do senso comum e da sua linguagem que este estado de coisas se constata entre nós - também a criação artística se subordina a tal engrenagem de pensamento. A nossa música popular é a esse nível particularmente elucidativa: ou se faz música convencional ou vanguardista, ou comercial ou marginal, ou alienante ou interventiva. Mas a terceira possibilidade, a que a lógica aristotélica interditou, é a que ninguém se tem atrevido a explorar. Surge agora uma leve esperança com o projecto musical dos Mler Ife Dada, grupo vencedor do primeiro concurso de música moderna no Rock Rendez Vous, e que também gravou recentemente um máxi-single de estreia, como prémio pelo sucesso alcançado naquele certame. O ponto de partida desta nova proposta é, como nos explicou Nuno Rebelo, na circunstância o representante do agrupamento, uma visão da realidade que se distancia sensivelmente das mais ortodoxas entre a classe dos músicos portugueses.
«Quer em relação à vida, quer em relação à música, divido as coisas em duas partes distintas: há o que é conhecido e corrente, e há o que é novo e invulgar. Não faz sentido cingirmo-nos a uma dessas parcelas, visto em qualquer delas ser possível encontrar pontos de interesse e motivos de prazer. No que é conhecido, na medida em que o é, pode-se seleccionar aquilo que já se sabe agradar-nos, o que se encontra já consagrado como fonte de prazer. No que é inédito, vale sempre a pena apostar, porque sentir o novo, pelo menos no primeiro instante, funciona por si só como razão de satisfação». Ou seja, embora supondo uma base bipolar, esta perspectiva não se define, como é mais frequente, tomando partido por uma das antíteses.No lugar disso, procura integrar e conciliar as duas simultaneamente, não resvalando para qualquer unilateralidade.



Em termos musicais, um dos termos do confronto, o usual, corresponde às formas sonoras a que o público se encontra mais habituado, aquilo que vulgarmente se diz ser agradável. Por seu turno, o outro, o inusitado, emerge musicalmente em projecções sonoras pouco divulgadas, ou em que o público não está suficientemente adestrado.
«a nossa música contsrói-se em função de elementos absolutamente díspares. Por um lado, procuramos fazer uma música bonita e agradável que entre facilmente no ouvido dos auditores mais familiarizados com o comercial. Mas, por outro lado, procuramos também que o nosso som inclua elementos de maior elaboração e complexidade, susceptíveis de cativar um público musicalmente mais culto e, nessa medida, necessariamente minoritário. A procura do mais convencional faz-se sobretudo ao nível das melodias, enquanto é no timbre e, no caso do disco, na produção, que a outra componente vem a ser mais desenvolvida. Tentamos assim chegar a um estilo misto capaz de ser apreciado por facções do público bastante diversificadas». Há portanto, nos Mler Ife Dada uma intenção de extrapolar do plano vivencial para o musical a ideia de uma harmonia pela tensão entre os opostos.
Mas uma tal harmonia não é conseguida, nem sequer possível, pela simples reposição estática dos polos antitéticos. Essa compatibilização aponta necessariamente para o cruzamento, para a fusão dinâmica dos termos de que se parte. Disso estão perfeitamente conscientes os membros da banda, cujas composições são elaboradas pelo jogo subtil que consiste em recriar cada um desses termos de modo a transmudá-lo no seu oposto: «às vezes pegamos em padrões musicais muito batidos, perfeitamente banalizados. Na maior parte dos casos, são melodias caídas em desuso, já apagadas da memória do público. Nestas circunstâncias, retomá-las pode ter um efeito insólito, porque tendo sido esquecidas, a sua reposição pode aparecer como novidade genuína».
Não há pois instâncias fixas para esta empresa musical ocupar o lugar do seu oposto; tudo é e não é, tudo é possibilidade de deixar ou de vir a ser.
Evidentemente, toda esta ambiência musical que se pretende criar requer uma concretização, um trabalho compositivo ajustado ao tipo de resultados que se pretende alcançar. Sobre este tópico, o porta-voz dos Mler Ife Dada revela-nos que o seu labor criativo segue uma metodologia contígua aos seus objectivos: «usamos duas estratégias criativas. Uma: ligamos a caixa dos ritmos, escolhemos um tema base e sobre ele improvisamos. Outra: fazemos uma linha de guitarra ou de baixo e improvisamos a partir dela. Num ou noutro caso, gravamos o resultado, que ulteriormente será trabalhado até atingir uma forma mais definitiva. Note-se, todavia, que uma vez a canção acabada, mantém-se sempre um espaço, mais ou menos delimitado, para a improvisação.».
Como vimos, eles pretendem conciliar o habitual e o insólito. Mas, o habitual não precisa de ser procurado - está ali, nos temas dados pelas caixas de ritmos e nos acordes preparados pelas violas. Em contrapartida, o insólito necessita de despontar do acaso - ele requer a espontaneidade do improviso.
Eis como se atinge uma coincidência plena entre a inspiração conceptual e a concretização na obra produzida. Note-se, todavia, que a improvisação também pode funcionar como factor de repetição, enquanto o refrão pode preencher o lugar oposto, ou seja, o papel inovador. De facto, nesta música não há posições pré-determinadas, há sempre uma saudável instabilidade que nunca conduz à obstrução da vontade de criar e ouvir, porque não há nenhuma meta definitiva que ela se proponha atingir.
É claro que também se pode levantar a questão: onde será que esta música se expande mais directamente? Através do disco ou da actuação ao vivo? A pergunta posta a quem é não faz sentido, porque supõe a subvalorização de um dos termos em detrimento do outro, o que por princípio é recusado pela pessoa a quem é endereçada. São ainda as reminiscências dos vícios dualistas que nela se esbatem, mas importa ultrapassar: «É preciso fazer notar a grande diferença entre uma canção apresentada num concerto e executada num disco. O disco é feito essencialmente para ser ouvido à medida que o tempo passa, enquanto o concerto é mais imediato, tem a dimensão do acontecimento circunstancial. Por isso, a canção ao vivo tem de ser dirigida aos sentidos à maneira de estar momentânea; em contrapartida, quando ela é para aparecer em disco, tem de ser mais trabalhada, para poder atingir a longevidade. Todavia, apesar das diferenças, uma e outra formas de exposição completam-se e interpenetram-se, não havendo pois que desqualificar ou privilegiar uma única».
Talvez um dia, quando os músicos portugueses conseguirem resolver os dilemas de afirmação e de identidade, possam seguir este exemplo de superação da sua lógica simplista que é encarnado nos Mler Ife Dada.




Finalmente!...
Cocteau Twins e This Mortal Coil
Desde a edição do máxi «Song To The Siren» de This Mortal Coil que pairava no ar uma reclamação em surdina: e o resto? Cocteau Twins e o álbum «It'll End In Tears»? Afinal fomos surpreendidos com a edição de ambos: «Treasure» dos Cocteau Twins e «It'll End In Tears» de This Mortal Coil. Já não há motivo para renegar a nacionalidade. Portugal já pode comprar o melhor som da Grã-Bretanha, e mesmo da música popular.


O motivo por que se junta estes dois grupos numa só prosa, parece-me óbvio: LIZ FRAZER. Com efeito esta senhora passa por ter uma das melhores vozes actuais, e não é impunemente que isso acontece. Eu diria mesmo que Elizabeth Frazer é uma das melhores cantoras de sempre.
Mas este artigo não é sobre Frazer, porque ao referir Cocteau Twins ou This Mortal Coil está-se obrigatoriamente a falar dela. Esclarecida a situação, adiante.
A música «pop» está velha de trinta anos. É impossível fazer algo de novo, sem que não surjam referências já conhecidas. No entanto, é possível ainda reinventar sonoridades, reconverter fórmulas e reintegrá-las num todo inexplorado. Isto trocado por miúdos significa que com imaginação e muito talento consegue-se ser diferente, e mais do que isso, melhor. É claro que isso é privilégio de poucos, mas entre esses, encontram-se Cocteau Twins e This Mortal Coil, dois «primos» dentro da mesma companhia - a 4AD - pertença de um homem idealista e visionário, Mr. Ivo, uma peça-chave nesta história. Foi ele o responsável pelo nascimento de This Mortal Coil, ao recrutar para o Blackwing Studio, vários músicos ligados à sua editora. Deram o seu contributo para a sessão Michael Conroy (baixo) e Gary McDowell (guitarra) dos Modern English; Elizabeth Frazer (voz) e Robin Guthrie (guitarra) dos Cocteau Twins; Gordon Sharp (voz) dos Cindytalk; e Martin Young (teclas) dos Colour Box. O resultado veio em doze polegadas memoráveis. «Song To The Siren», um original de Tim Buckley é revelador da validade do projecto de Ivo, mercê de uma interpretação inesquecível de Liz Frazer. A onda de choque provocada pelo disco alarga-se a Portugal, que a partir daí passa a ser fiel seguidor da obra de This Mortal Coil. Não é por acaso que «It'll End In Tears» conviveu várias semanas com Wham, Alphaville, Scorpions e quejandos, na tabela dos vinte discos mais vendidos. Em que outro país isso poderia acontecer? Além de que essa estadia no «top» possibilitou a visão fascinante de Liz Frazer a cantar «Song To The Siren» num verdadeiro «anti-clip».
Em «Acabará Em Lágrimas» compareceram de novo Robin Guthrie, Gordon Sharp, Liz Frazer e Martin Young, e pela primeira vez, Robbie Gray (Modern English), Lisa Gerrard e Brendan Perry (Dead Can Dance) e Mark Cox (Wolfgang Press). «Another Day» de Roy Harper é revisitado por Liz Frazer com espantosa delicadeza, transformando-o no melhor tema do álbum.
Lisa Gerrard por seu lado não deixa em branco a sua contribuição: dois temas, «Waves Become Wings», e «Dreams Made Flesh» são uma pequena amostra do que Lisa é Capz. Ainda a destacar a repescagem de dois temas de Alex Chilton, «Kangoroo» e «Holocaust», sobriamente cantados por Gordon Sharp. Álbum muito heterogéneo, de um não menos heterogéneo grupo, «It'll End In Tears» inclui ainda temas de Rema-Rema, e do colectivo This Mortal Coil. E tal como é tradição e orgulho da 4AD, a capa é uma pequena obra de arte, da autoria de «23 Envelope».

Gémeos

Cocteau Twins estando muito próximo de This Mortal Coil, segue no entanto outro caminho. Sendo também um colectivo de três pessoas, que assina todos os discos e músicos, simplesmente como Cocteau Twins, sem nunca existir referências a nomes, os Twins possuem um trunfo que falta a T.M.C. - Liz Frazer a tempo inteiro.
Frazer personaliza indelevelmente o som Cocteau Twins. E embora no início fossem acusados de cópia de Siouxsie And The Banshees (com algum fundamento), hoje os Cocteau Twins ultrapassaram por completo essa influência. Liz Frazer, que se diz usar uma tatuagem de Siouxsie no braço, suplantou largamente a sua musa, em todos os aspectos, inclusive, o canto de Liz é muito superior ao da líder dos Banshees.
A edição no nosso país de «treasure», o mais recente álbum do grupo, datado de 1984, constitui um marco nas edições discográficas nacionais, arriscando-se desde já, a ser o melhor disco do ano. Para trás, ficam dois outros álbuns, «Garlands» e «Head Over Heels», e o espantoso 12 polegadas «Pearly Dewdrop's Drops». A última produção do trio chama-se «Aikea-Guinea», um máxi-single, colocado semanas a fio na chart independente da Grã-Bretanha. Se «Treasure» é um precioso e raríssimo tesouro, para guardar cuidadosamente como quem guarda uma jóia, «Aikea-Guinea» é uma dádiva dos Twins aos seus adeptos. Contendo quatro temas este máxi exala a mesma atmosfera de «Treasure», perpetuando o invulgar esquema rítmico dos Twins, e fazendo justiça, ao fabuloso jogo de guitarras acústicas e eléctricas com o piano, há que destacar «Aikea-Guinea» e «Quisquose». O clima onírico de sons e palavras, cantado por Liz Frazer podia ser operático («Kookaburra») ou tão perfeito como uma arte decorativa («Rococo»). Em «Quisquose» percorre todo o seu manancial vocal, que vai de Siouxsie a Kate Bush, numa reminiscência de «Persophone» do álbum «Treasure».
E se no álbum, «Aloysius», «Domino», «Ivo» (uma dedicatória ao «boss») ou «Lorelei» são momentos difíceis de ultrapassar, pensava-se, «Aikea-Guinea» desmente-o à primeira audição. Depois destes discos, tudo pode acontecer na música popular. Até capas tão excelentes como estas.
Célia Pedroso



Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. 15º Festival Cascais-Jazz - reportagem e textos de Trindade Santos - Fotos de Fernando Peres Rodrigues
. Discos em Análise:
.. Associates - «Perhaps» [WEA 229240497.1, por Luís Maio
.. José Mário Branco - «A Noite» [UPAV-001], por Luís Maio
. Rock Em Família - The Moody Blues, por Fernando Matos




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