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3.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (142) - Música & Som #109


Música & Som
Ano IX
Nº 109

Janeiro de 1985
Publicação Mensal
Esc. 200$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira e Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 (16 páginas centrais tipo jornal - papel e conteúdo -)
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.
poster: Simone (A3 a cores - centrais)



Concertos
No Aniversário Do RRV
por Maria Paula Monteiro

1. Os Xutos
Já pela noitinha, na noite da festa de Aniversário do Rock Rendez-Vous, uma juventude híbrida enchia o local meio escuro, pronto a rebentar de luz na ocasião do espectáculo. Pelo menos assim se esperava.
O ambiente era de expectativa. Iam-se acendendo cigarros calmamente e sorvendo as bebidas a que o bilhete de 400$ dava direito.
Contudo, era marcante a falta de exuberância deste espectador que cultiva na estética a sensualidade e o género feminino. O vestuário e o corte de cabelo eram acentuadamente hibernantes: Anos 30, 50 e 60, acentuadamente, a entrarem no percurso dos Anos 80 - saias justas compridas, camisolões, sobretudos e gabardines, calças largachonas a fazerem ver as botas ou sapatos rasos e, de vez em quando, as meias. Cabelos curtos à James Dean ou a lembrarem a onda punk que ainda se vive. Cabelos apanhados ao alto. Chapéus pretos. Cores a incidirem, ainda, sobre o cinzento e o preto.
O último dos temas (insistentemente pedido) tocado pelos Xutos foi «O voo das Águias» que é um instrumental verdadeiramente exuberante.
À juventude espectadora faltou-lhes, apesar de tudo, seguir a direcção do primeiro impulso - estender os braços ao alto, descontrair o corpo da tensão e acompanharem fervorosamente o ritmo da música com a batida ritmada das mãos.
Ao Zé Pedro ou ao Tim, sobretudo o primeiro, que conseguiram agitar os olhares de todos quantos lá estiveram pelo movimento inebriante do corpo, faltou-lhes um gesto para conseguirem uma maior autenticidade do público e transformar o RRV num mar de palmas a jogarem com a cadência acelerada da música; redobrar-lhes o que lhes ia na alma - um misto de surpresa e entusiasmo verdadeiramente aprazível. Pena é que as vozes não coincidam com a excelente técnica e bom gosto dos Xutos e Pontapés, porque considerá-los-ia o melhor grupo a trabalhar ao vivo em Portugal.



2. Os Ena Pá 2000
O desconcertante grupo, os Ena Pá 2000 pretenderam e pretendem, presumivelmente, ser uma caricatura não se sabe se daquelas bandas de baile, «conjuntos coça na barriga», se do grupo que eles gostariam de poder formar. Actuaram em palco com funis no alto da cabeça que o cantor usava, não sempre, na construção de sons grotescos. Vestiam-se pessimamente e, por isso, fizeram-me lembrar palhaços pobres dum circo em ruínas.
São 5 elementos; entra um baixo, uma guitarra, uma bateria e bongós e são duas vozes, a primeira e a segunda voz. Cantaram temas em ritmo de samba e rock 'n' roll num tom verdadeiramente jocoso. Usaram dizeres visíveis misturados com impropérios, próprios para chocarem jovens aos quais já nada parece ter o poder de chocar.

3. Os THC
Os THC são uma formação proveniente dos Vodka com Laranja, feita a partir de dois bons elementos dos Xutos, o João Cabeleira e o Gui, e um elemento extra-Xutos, o Marco. Têm sempre programada a caixa de ritmos, o baixo e os sintetizadores. Este grupo comportou-se medianamente, não fosse o som bonito da guitarra do João, o som acertado do saxofone do Gui bem como a voz agradavelmente romântica do Marco. Gostei do movimento de exposição do corpo do cantor, que podia até ter sido mais arrojado, a lembrar a alguns dos elementos do público que um «betinho» vestido de gravata, pode também estar equipado de raios «beta» e animado de uma velocidade tão elevada que os subjuga necessariamente.
Como diria o cantor «eu sei que nada pode vir finalmente», um bonito tema, aliás. E realmente nada veio. Feliz, o público.

4. Pop Dell'Arte
São sete em palco - um baterista, percussões, um saxofonista, uma conga (bongós), duas violas, uma marimba e duas vozes, uma permanente, a masculina, outra raramente frequente, a feminina.
Na realidade, conseguem um som diferente evidenciado pela secção rítmica e pelo desconcertante som emitido pelas vozes, mas são taciturnos na maneira de se exporem.
As vozes resultavam lamúrias lancinantes.
Penso que o ser diferente implicou-lhes o cansaço da melodia no exagero da demarcação do baixo, conjuntamente com percussão e bateria, e ainda o pesadelo da voz cantada.
Agora os meus parabéns ao João, o cantor, pela poesia da voz.
Fez, constantemente, uma espécie de declamação com acompanhamento musical o que o tornou um excelente recitador e um desconcertante cantor.
Era conceito inovador se o grupo em vez de fazer concertos passasse a fazer recitais.

5. Os GNR
Do pouco que se ouviu dos GNR, que assim estava combinado, (somente dois temas), dou um destaque particular ao Rui Reininho que teve um papel importante na desestabilização de alguns dos jovens que assistiam. Apareceu em palco com o cabelo exageradamente liso, penteado para a direita, com uma túnica bizarra cor-de-rosa, onde enfiou alguns colares. Com este aparato cantou «Fumas», a nova versão de «Dunas». É importante que os grupos incluam a «graça» no mise-en-scène dos seus espectáculos, duma maneira descomprometida para que o público, também ele, se descomprometa, descontraia. Desta forma pouparia duas intervenções marcantes ao longo da noite que o fez nadar num silêncio embaraçoso. Uma delas foi do João dos Pop Dell'Arte; foi tão incisiva que se permitiu divagar num tema musical. Disse somente isto: «caladinho!».
A outra foi jocosa e por isso suficientemente cómica. Converteu uma pergunta supostamente risível, dirigida ao Rui - «Olha lá! Eras capaz de andar lá fora com essa túnica?», num curto silêncio a partir do qual o cantor dos GNR curiosamente indagou: «Tens espaço social?».

6. Uma noite bem passada
Foi mais uma noite a salvaguardar o interesse de todos aqueles que estão dispostos a fazer culminar todos os seus esforços na propagação e projecção do rock nacional.
A música portuguesa é prejudicada pelos Mass Media. Sabemos que este sector não arrisca o que nós forçosamente arriscamos. Não devemos permitir a invasão constante de outras músicas e temos de estar atentos à invasão da música espanhola. Agora com a entrada de Portugal para a CEE nunca se sabe... Por mim, estou disposto a fazer tudo quanto estiver ao meu alcance para a divulgar. Estás a ver... até desistir do 3º Ano do Técnico para me assumir neste campo o mais realisticamente possível. Espero um dia (e que este esteja próximo) poder fazer um programa de rádio, transformando-o num verdadeiro espectáculo de música portuguesa.
Aqui fica o depoimento final de Peter, figura conhecida do RRV (agora também manager dos Heróis do Mar), numa extensa conversa que tivemos os dois numa tarde de trabalho, a anteceder a noite do aniversário desta casa, que muitos consideram a catedral velhinha do rock português.




Balanço / 85
Internacional

Do que não se editou às razões para editar
por Luís Maio

Que importância poderá ter, para a generalidade do auditório de música moderna, os discos que por cá não chegam a ser editados? Encarando o problema de frente, é necessário reconhecer que esse é um tema de reduzido ou mesmo nulo interesse no que respeita às maiorias.

Em primeiro lugar, o português que é consumidor médio de música pop não consegue por regra comprar todos os discos que considera indispensáveis embora estando disponíveis no nosso mercado. Então, se já não tem posses para acompanhar o (lento) ritmo das nossas publicações discográficas, que sentido pode ter para ele reivindicar a saída de outras coisas? Quem discutir este problema na sua presença quer de certeza zombar da sua triste pobreza. Aqui, pode invocar-se a objecção segundo a qual os pobres que são apaixonados por música pop são, já à partida, pobres com gostos de ricos e que, nessa medida, um tal debate não faz mais do que favorecer a implementação da fineza do seu gosto. A mim, isto não me convence. O gosto musical das maiorias, em especial no capítulo da pop, nada tem de selectivo. Mais parece que ele lhes é subtilmente imposto pelos media e outros organismos publicitários, do que livremente determinado. E aqui reside um segundo motivo para que o presente tema não se adeque ao maior número - é que, em boa parte, o que eles apreciam é o que esses dispositivos publicitários lhes dão a apreciar, os discos que se editam a pensar neles, o resto torna-se irrelevante.
Se uma tal manipulação, ou o que se lhe quiser chamar, e em que também acabo por participar, é necessária e até benéfica para o público musical, é uma questão sobre a qual não sei pronunciar-me. Do que não duvido, contudo, é que quem desejar produzir alguma agitação junto a esse público, não deverá dirigir-se-lhe abertamente, porque é quase inútil lutar contra a rede de preconceitos que o vitima e que acaba subscrevendo. Na verdade, devemos escolher como interlocutores as minorias que o influenciam mais marcadamente, a elas nos endereçando, não com os argumentos mais legítimos, mas com aqueles susceptíveis de surtir maior impacto. Por consequência, este texto destina-se prioritariamente a dois géneros de leitores, a (algumas) companhias discográficas (as quais nos compete convencer do potencial comercial dos discos que ainda não editaram) e a (alguns) críticos de música (os quais devemos sensibilizar para os mesmos através da «demonstração» das suas qualidades).
Como comercialismo e qualidade são, frequentemente, coisas contraditórias, embora aconteça muitas vezes os que se reclamam de um e de outro estarem de acordo, teremos, em certas alturas, de argumentar em dois sentidos opostos acerca de um só trabalho, para assim satisfazer os dois tipos de leitores que temos em vista. Escolhemos discografias de grupos nunca editados em Portugal, razão pela qual os seis «itens» têm os respectivos nomes. Não há organização hierárquica, mas sim alfabética. As bandas foram escolhidas de acordo com um critério pessoal e subjectivo, procurando no entanto abarcar, através delas, estilos musicais diversificados e representativos da primeira metade desta década.

Capítulo I: CRAMPS
Aos Mercadores.
Não é grande ideia editar um disco destinado a ser ouvido ou só pelos saudosos da primeira geração do punk, que não toleram os imitadores da segunda, ou só pelos últimos que, por sua vez, não suportam os traidores da primeira. Até porque ninguém entre nós tem dado grande importância, quer a uns, quer a outros, eles constituem aqui bandos minoritários. Juntos, todavia, já são em número considerável e, se a coisa fosse tão bem explorada, como o é a outros níveis, a partir desse núcleo poder-se-ia formar uma nova maioria.
Logo, para já, o golpe de mestre seria o de intentar a aproximação das duas facções divergentes, publicando um trabalho que agradasse a qualquer delas. Os Cramps são dos poucos agrupamentos em relação ao qual o dito consenso se verifica. Talvez por não serem punks no sentido restrito da palavra, mas investirem numa espécie de fusão desse estilo com o rockabilly, que é uma das suas principais fontes históricas, eles sobreviveram à queda do punk da primeira levada sendo depois reabilitados pelos seus sucessores como símbolo raro de coerência.
Aos Escribas - Os Cramps são aquilo a que se poderia chamar «uma legenda viva», um dos grupos norte-americanos com um currículo marginal mais célebre em toda a história do rock. Por consequência, são um excelente tema de dissertação: não é preciso o escriba dar-se ao sempre fastidioso trabalho de analisar os seus discos, que é uma coisa que já nem se usa, basta que traduza um dos inúmeros artigos sobre a banda, escritos nas revistas estrangeiras.

Capítulo II: THE FALL



Aos Mercadores - Eis o grupo ideal para ser publicado por uma pequena editora ou uma recém-nascida com necessidade de prestígio reconhecido. Os Fall são um verdadeiro certificado de seriedade. O senhor Mark Smith e companhia têm provado, ao longo de dez discos e mais de oito anos de carreira, que é possível sobreviver por vontade própria nos movediços terrenos da pop sem fazer concessões ao comercialismo, denunciando e satirizando a orgânica social do que a pop é cada vez mais uma parte integrante. Depois de se editar esta banda, fica-se para sempre com uma reputação segura, porque é mais que evidente que os seus discos só se conciliam com os elitismos intelectuais e, portanto, não se vendem. A partir daí, pode-se tranquilamente editar o que se quiser, mesmo os subprodutos mais execráveis, visto que os críticos mais inflamados estarem recatadamente no seu canto a roer o osso tão graciosamente oferecido.
Aos Escribas - Dos críticos de música diz-se vulgarmente que são escritores falhados ou incompreendidos. Os Fall, pela sua mensagem complexa e dufusa são uma óptima oportunidade de exercício dessas suas faculdades literárias. Podem, numa prosa sobre a banda, falarem á vontade do que quiserem, porque há quase sempre um trecho da sua obra que para isso serve de ilustração.

Capítulo III - LOUNGE LIZARDS



Aos Mercadores - Apostar nos Lounge Lizards é aquilo a que se costuma chamar «jogar pelo seguro». Tanto os amantes do rock, como os de free-jazz, quando chegam a certa idade, tendem a afastar-se do seu tipo usual de audições - «À la loungue», o rock revela-se demasiado linear e o free-jazz demasiado repetitivo. Normalmente, os seus ex-apaixonados trocam o interesse da música pelo dos trapos, que é sempre uma forma mais segura de mitificação, visto que os seus padrões mudam todos os anos. E pronto, deixam de comprar discos para passarem a adquirir roupas mais sofisticadas e é toda uma clientela que as editoras perdem ingloriamente. Os Lounge Lizards permitem a reconciliação de qualquer desses grupos com a música, porque o que eles praticam não é rock, nem é jazz - é a recriação do jazz clássico de 40 e 50, no formato de três minutos típico da pop. Ao mesmo tempo, e aprtir daqui tudo bate certo, eles viabilizam também essa modalidade subtil de identificação pela indumentária, porque o que eles costumam usar nas fotos das capas dos discos concorda rigorosamente com o look «retro/decadente» que os trintões tanto divinizam.
Aos Escribas - Discursar sobre a música dos Lounge Lizards não é provavelmente obra fácil, porque ela é inócua em referências imediatas, em especial para aqueles que só são versados em música pop. Mas o obstáculo demove-se sem dificuldade de maior - de «Os Passageiros Da Noite» a «Para Além Do Paraíso», passando por «Desesperadamente Procurando Suzana», os irmãos Lurie, o núcleo de base dos Lizards, têm aparecido em tudo o que é filme independente nova-iorquino. São pois uma oportunidade magnífica para mostrar erudição cinematográfica, coisa que a um crítico de música fica sempre bem, dadas as conivências entre os dois ramos artísticos.

Capítulo IV: PSYCHIC TV
Aos Mercadores - Editar os Psychic TV é um lance estratégico fabuloso para uma etiqueta governada por gente inteligente. Na rádio, nos jornais e outros media aparecem sempre uns quantos «engraçados» que gostam de exibir a sua erudição falando em música experimental. É claro que ninguém os lê e é também evidente que, se um disco desses saísse no nosso país, ninguém o compraria a não ser para fins decorativos. Mas, um grupo com um passado e uma reputação vanguardista que actualmente investe nos terrenso da pop ortodoxa seria um achado. Porque, para além de contentar os eruditos, daria ao auditor comum a impressão de finalmente estar à sua altura e, ao mesmo tempo, seria mais uma ocasião para continuar a impingir-lhes sempre o mesmo. Os Psychic TV reúnem todos estes atributos: procedem de uma das bandas electrónicas mais vanguardistas do Reino Unido, os Throbbing Gristle, e, simultaneamente, praticam no presente um pop razoavelmente comestível.
Aos Escribas - A dualidade Throbbing Gristle/Psychic TV pode ser interpretada como instância ilustrativa da antítese «merginalidade de vanguarda» / «Reconversão aos esquemas comerciais». Mas não é este um dos temas predilectos mais bem decorados pelos articulistas da pop? Já está preparado de antemão, só precisa de uma nova chávena para voltar a ser servido.

Capítulo V: SUICIDE
Aos Mercadores - Os Suicide, pelo menos nos seus inícios, eram uma banda praticamente inaudível. Martin Rev, o instrumentista, não tocava, martelava os sintetizadores; Alan Vega, o vocalista, não cantava, vomitava palavras. Por essas e por outras, os Suicide ganharam rapidamente o estatuto de banda «incompreendida». Editá-los é um «must» para toda a companhia que, por uma acção demasiado zelosa dos seus interesses comerciais, já não passa incólume aos olhos da comunidade de auditores pop. Se fizer então sair o disco dos Suicide, não vende nada, ou quase, mas pelo menos sacode a hostilidade de que vem sendo alvo, pode continuar a lançar no mercado todas as aberrações em que é perita. Depois, se voltar a ser criticada, poderá sempre invocar em defesa da sua filantropia a edição da banda norte-americana e convencer os auditores que, tal como esta, é incompreendida nos seus nobres desígnios.
Aos Escribas - Simultaneamente, haverá alguém mais injustamente objecto de críticas e calúnias nos meios pop que os próprios críticos de música? Se os Suicide saírem em Portugal, a altura terá chegado para falar sem restrições da incompreensão de que são vítimas, servindo-se do exemplo artístico destes últimos. É também óbvio que devem no entanto evitar usar as imagens aqui empregadas, isto é, não devem dizer coisas «tal como Martin Rev, eu martelo as teclas da máquina de escrever», «tal como Alan Vega, eu vomito palavras», etc. Esse género de observações não fica bem.




Capítulo VI: YELLO
Aos Mercadores - As editoras necessitam (é nisso que consiste o seu principal objectivo) editar discos que se vendam. É um dado adquirido, ainda que muito boa gente nunca mais abra os olhos, que elas não são, nem têm de ser, associações de caridade. Agora, é igualmente elementar que o que se vende mais é a música de dança, aquela que tem uma melodia simples e uma batida certa, que entra imediatamente e sem esforço na «programação» auditiva do receptor corrente. Mas, ao mesmo tempo, a maior parte dos receptores e dos críticos como seus representantes, exigem que ela tenha mais qualquer coisa, uma espécie de mais-valia do puro consumismo, que é também o que muitas vezes lhes falta - é essa qualidade suplementar que, contudo, é difícil de descortinar na música de dança mais vulgar.
Os Yello são uma das poucas excepções à regra, um caso único de harmoniosa fusão entre a dançabilidade instantânea e a sofisticação compositiva e instrumental.
Logo, eles são o máximo. Cumprem às maravilhas essas duas funções normalmente disjuntivas: vender em larga escala como a espuma para a barba, que é o que tem sucedido com os seus discos no estrangeiro, e ensaboar a boca à crítica mais refinada.
Aos Escribas - Embora não costume deixar transparecer, a não ser quando bebe demais, o crítico de música é um auditor como outro qualquer, que como toda a gente gosta de dançar e trautear «We Are The World». Só que nele a vontade de discursar é um vício pior que fumar, a imparcialidade analítica um imperativo sombrio de que certamente já procurou (sem conseguir) libertar-se. Os Yello permitem-lhe compatibilizar essas pulsões opostas que nele mutuamente se combatem - sozinho à noite, no seu quarto de velho celibatário poderá pular à vontade ao som da rítmica contagiante dessa banda; depois no dia seguinte, no jornal, em companhia dos seus parceiros da redacção, perante o olhar silencioso e sempre severo dos «estimados leitores», poderá discorrer fluentemente sobre as ocultas virtualidades que a sua brilhante mente divisa na música. Haverá melhor do que isto?




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