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2.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (141) - Música & Som #108


Música & Som
Ano IX
Nº 108 - Especial Natal 85

Novembro / Dezembro de 1985
Publicação Mensal
Esc. 200$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira e Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
80 páginas A4 (16 páginas centrais tipo jornal - papel e conteúdo -)
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.
poster: Kenny Loggins (A3 a cores - centrais)

Concertos
A Desilusão Depois da PROPAGANDA
por Luís Maio
Um disco nem sempre é a expressão exacta do valor artístico do seu ou dos seus autores. É assim que se «A Secret Wish» sem ser uma obra-prima, deixava pairar algumas expectativas sobre os Propaganda, o seu concerto em Cascais, veio de todo dissipá-las.



Alguns dizem, porventura os mais conservadores de entre os amantes da música pop, que um concerto é essencialmente um modo de testar as capacidades de desempenho musical de uma banda. Como é óbvio, este princípio é extremamente redutor e, sobretudo desde o aparecimento do glam-rock, no início da década de 70, não se ajusta à dinâmica da maior parte dos concertos de música moderna. Desde então, a pop ganhou uma nova dimensão ao subir para o palco, tornou-se espectáculo numa acepção mais ampla, tendencialmente teatral, em que elementos sonoros e visuais se entrelaçam para formar um todo que, porque os engloba, não se esgota em nenhum deles em particular. Desde aí, decidir da qualidade que uma actuação ao vivo apenas em função das faculdades técnicas dos instrumentistas só se compreende quando não se pode ir mais longe, quando a banda não é capaz de fazer espectáculo.

Que Espectáculo?

Que os Propaganda merecessem esse género de avaliação reservada aos mais limitados, eis o que à partida menos se previa. Como se sabe, trata-se de um agrupamento ligado à ZTT Records da dupla Morley / Horn, etiqueta já célebre pela imagem de marca, pelo arrojo próximo da extravagância, em particular ao nível visual, que normalmente confere aos produtos por ela lançados. Depois, é perfeitamente óbvio que entre os seus pupilos, os Propaganda são daqueles que mais têm investido nesse sentido, assumindo sem reservas uma estética insinuante e sofisticada e, nessa medida, fascinante pela provocação. Para mais, a própria música por eles realizada em disco é fortemente encenada, em especial a nível vocal, sendo nela abundantes as referências literais ou simbólicas ao universo teatral e cinematográfico de inspiração expressionista. Por estas e outras razões similares esperava-se, quase como imperativo, que os Propaganda viessem a Portugal «dar espectáculo».
Dificilmente se poderá caracterizar nesses termos a sua exibição em Cascais. Michael Mertens, Ralf Dorper, mas principalmente, Claudia Brucken e Suzanne Freitag, as vocalistas sobre quem mais recaíam as responsabilidades ou as luzes mais fortes da cena, não se mostraram minimamente competentes no que respeita à animação do concerto. As duas jovens alemãs sofrem de um mal que diagnosticaremos sob a designação de «frigidez musical». Isto é, são um tanto similares àquelas mulheres que passivamente se dão a práticas sexuais, sem investimento activo e visível, como se elas fossem um inevitável frete da vida em comum. Foi assim que Claudia e Suzanne se comportaram em relação ao que em princípio é também uma modalidade do exercício amoroso, isto é, o espectáculo. Não têm qualquer presença em palco, mexem-se pouco e sempre mecanicamente, mostram continuamente um sorriso forçado aos seus amantes de circunstância (o público), nunca se entregam realmente ao que estão a fazer, parecem totalmente alheadas de tudo aquilo.
Se a sua música fosse fria ou circunspecta, se a frigidez fosse o seu estado natural, por exemplo, se os Propaganda se inserissem numa área como a «cold wave», essa anti-espectacularidade seria inteligível, seria mesmo um gesto de coerência. Mas, e é isso que é paradoxal, as suas composições são, uma após outra, projecções ficcionárias no território das emoções. Como tal, elas exigiriam uma emotividade comportamental adequada como complemento visual da sua interpretação ao vivo. Todavia, como os seus autores não estão à altura de voos tão altos, tudo redunda em palco num falhanço completo, num «diálogo» contraditório entre o que se ouve e o que se vê. Voltando ao nosso termo de comparação inicial, tudo se passa como se durante um acto sexual, a mulher que na sua prática é ostensivamente fria comunicasse em termos verbais ao seu parceiro a necessidade dele possuir aquilo mesmo que a ela lhe falta.

Tocar Ou Repetir?

Como dizíamos ao princípio, para as bandas que não sabem fazer espectáculo, o problema que se põe (uma espécie de última questão do tipo que o professor coloca ao aluno cábula quando não o quer chumbar imediatamente é o de saber se pelo menos os Propaganda sabem tocar. «Saber tocar» é naturalmente uma noção oscilante, que varia um tanto de sentido consoante o caso a que se aplica. Ora, de certo não fugiremos muito à verdade, se dissermos que até aqui a música gravada pelos Propaganda, ainda que bastante «comercial», se define pela versatilidade, em particular ao nível melódico. Esta banda não tem um som base padronizado do qual todas as suas canções partam obrigatoriamente. Muito pelo contrário, é nela nítido o culto da experiência, de uma certa vagabundagem que a faz deambular por múltiplas zonas musicais, sendo precisamente na articulação dessas fontes, que se encontra o seu princípio de composição. Nessa medida, seria lícito supor que tal forma de aproximação viesse a ser reiterada em concerto, ou seja, que as versões ao vivo das suas criações fossem também fluídas, havendo nelas um espaço aberto à improvisação, à renovação das matrizes que primitivamente lhe deram corpo.
Nada disso aconteceu em Cascais. O que os Propaganda cá vieram fazer foi repetir literalmente as canções, supomos que essas e só essas, que constituem o seu álbum de estreia, «A Secret Wish». Pelos vistos, a sua imaginação não dá para mais - no plano musical, o seu conhecimento passa ainda por um estado infantil de desenvolvimento, aquele em que só se é capaz de recitar de cor aquilo que já se ouviu ou já se disse. Suspeitamos mesmo que nem nisso os Propaganda estão totalmente à vontade.
em primeiro lugar, porque nalgumas das versões apresentadas dos temas do disco estiveram muito aquém dos registos originais. O caso mais flagrante é «Sorry For Laughing», o clássico dos Joseph K, tão mal executado que bem mais parecia um êxito de Jim Diamond. Em segundo lugar, porque uma boa parcela das partes musicais das canções não foram tocadas no concerto, mas, e voltamos à história da cabulisse, vinham já preparadas, gravadas em banda magnética.
Enfim, foi uma noite para esquecer aquela que nos levou a Cascais para ver e ouvir os Propaganda. O que não conseguimos compreender é o que fez o público acarinhar esse subproduto medíocre da ZTT, quando cobriu de insultos uma banda como os Heróis do Mar que, sem se encontrarem no melhor da sua forma, assinaram uma actuação indubitavelmente muito superior à dos seus congéneres alemães. Put The Radio On...




Jornal da M&S
Opinião
O Herói E A Profecia
por Luís Maio

Para nós, este primeiro disco a solo de Pedro Aires Magalhães é acima de tudo um exercício de estilo. Como tal, ele não atinge o grande público musical, é feito para os amigos e para os críticos remunerados que o decifrarem.

O início da carreira a solo do baixista dos Heróis do Mar é marcada pela recuperação empenhada do profetismo como base de inspiração criadora. O profetismo que, tendo sido um dos elementos determinantes do nosso passado histórico e cultural, é hoje, para o português moderno, uma fantasia engendrada pelo medo e pela ignorância dos seus antepassados...
(I) Produzido pela Fundação Atlântica, distribuído pela Vecemi, foi recentemente publicado entre nós o maxi-single de duas composições «Ocidente Infernal / Adeus Torres De Belém» de Pedro Aires de Magalhães. Assinado por um dos mais importantes nomes da nova música portuguesa desta década, este é, no entanto, um trabalho anónimo. Não porque nele não venha declarado o nome do seu autor, mas porque a sua sonoridade não lhe é imediatamente atribuível. O som que conotamos com o músico é o da banda que integra desde 81 os célebres Heróis do Mar. Ora, não há neste disco afirmações directas de irreverente provocação dirigida contra a ordem actualmente estabelecida no país, nem investimento explícito num outro reino que é o do desejo eivado de saudade. Não há também recurso a fórmulas musicais datadas susceptíveis de recobrir essa atitude numa embalagem popular, própria para consumo imediato e massivo. Não, aqui não há nada que chama literalmente à memória a Dança dos Heróis.
(II) Quando o nome de quem a profere pesa sobre a mensagem, esta desvirtualiza-se, o seu significado abastarda-se sob a supermacia do seu emissor. Por isso, como já Fernando Pessoa o fazia notar (vid. «Sobre Portugal», pag. 51) todo o profetismo genuíno se instala no anonimato. Assim, por exemplo, «Bandarra» deixou de ser nome próprio, para passar a ser nome colectivo. Aquele mesmo que todos os portugueses dotados de poder visionante adoptaram para falar do futuro da Nação que é a sua. Porque, para eles, não era a fama ou o sucesso proporcionado pelo auscultar do destino pátrio que contava, mas esse saber em si e por si.
(III) Do profetismo se reclamam as palavras de Pedro Aires impressas na contracapa do seu disco. Não apenas porque no texto está ausente o vocábulo «eu» que assinala o lugar do sujeito, o assumir ou o tomar posse do discurso como de um bem pessoal. Neutral neste sentido, a discursividade perde a propriedade individual, colectiviza-se de alguma forma. Mais do que isso, na sua orientação as palavras do músico configuram-se sob a modalidade urgência da profecia. Em concordância, o texto subdivide-se. Num primeiro momento, relança um olhar panorâmico na horizontal à realidade circundante, obscena e maldita, que está nas coisas, que está nos homens: «das águas já tépidas do Tejo, liberta-se um cheiro pegajoso misturado com o pó acrescentado ao pavor. Os homens gastaram a terra, como quem se quer devorar. O tempo cumpriu mesmo assim.» Num segundo andamento, arranca para lá do concreto, para essa outra dimensão do ser que não é visível, mas que intui verticalmente posicionado para a transcendência: «quando de avistar o «s» e o povo do mar subir aquela avenida continental, dali ao topo do céu, na última das partidas do Ocidente Infernal. Adeus Torre de Belém.
(IV) Aquele profetismo que se define pelo cariz nacionalista ou étnico em sentido estrito peca por ser superficial ou ingénuo. É-o, nomeadamente, o que assimila a chegada do Quinto Império ao triunfo planetário da cultura judaica. Se tem de ser sincrético e englobante, porque sintetiza a tradição dos quatro impérios precedentes e marca o termo do ciclo a que pertencem. O Quinto Império deverá ser pensado como culminância de um estádio policontinetal da nossa civilização que não está ao alcance do Judaísmo. Consequentemente, todo o profetismo proclamado o seu advento poderá ser nacional ou universal, mas terá obrigatoriamente de ser universalizante.
(V) Esse universalismo projectado colide com a discursividade objectiva, sempre limitadora e castrante. Por isso Pedro Aires a recusa no texto que acompanha o seu disco colocando no seu lugar o mais puro verbo profético, o verbo que não diz mas sugere, que não revela mas encaminha. Evidentemente, esse esoterismo por ele adoptado, em contraste com a faceta mais exotérica que incutiu ao trabalho dos Heróis, ganha expressão privilegiada ao nível musical. Deste domínio, as palavras foram totalmente banidas, de certo modo suplantadas pelo som instrumental que bem melhor do que elas se presta a expôr a mensagem iniciática - é aí, de facto, onde «registamos o vago temor do apocalipse profetizado».
(VI) Na música, a profecia constrói-se e interpreta-se por via de sentimentos (termo que P. Aires também destaca na contracapa do disco). Os sentimentos que, ao inverso das palavras, são por princípio universais, como o próprio Quinto Império. O seu despontar em «Ocidente Infernal» produz musicalmente a impressão da ferida diabólica que vitima o mundo contemporâneo - o turbilhão, o caos, a incerteza, a vilania, todos os traços que são seu apanágio. Recriada no início de «Adeus Torre de Belém» com a reprodução dos ruídos típicos dos grandes centros industriais deste tempo, essa impressão é depois superada pela da esperança da Idade de Ouro, que há-de vir, comunicada musicalmente pela concordância, pela harmonia, pela própria estruturação proporcionada do jogo instrumental (muito à Durutti Column).
(VII) O valor do profetismo, estamos em crer, não se encontra na mesnagem que proclama, antes na forma como a comunica. Mais do que ética, a sua pertinência é estética. Quer isto dizer que, para nós, este primeiro disco a solo de Pedro Aires Magalhães é acima de tudo um exercício de estilo. Como tal, ele não atinge o grande público musical, é feito para os amigos e para os críticos remunerados que o decifrarem.


Alguns artigos interessantes, para eventual futura transcrição:
Discos em Análise
. Scritti Politti - «Cupid & Psyche 85» [Virgin 634605], por Luís Maio
. Propaganda - «A Secret Wish» [Island 10.207027.46], por Luís Maio
. Nena - «It's All In The Games» [CBS 26578], por Célia Pedroso




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