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8.3.17

Boards Of Canada - "Geogaddi"


Diário de Notícias
dnmais
30 de Março de 2002

Hippies Digitais



Apesar das revelações dos Primal Scream em 1990, a ideia de uma música hipnótica baseada em linguagens electrónicas não seguiu, depois, as linhas mestras das correntes pelas quais a música avançou ao longo da década, e foram pontuais os casos onde a fonte de inspiração para artes digitais se localizou na memória das escolas «alucinogénicas» de finais de 60.
Um interessante caso, seguido com atenção há já alguns anos, nasceu na Escócia, berço da dupla Marcus Eoin / Michael Sandison. Estrearam-se há seis anos na pequena independente Skam, que então editou um máxi-single de oito temas, correspondendo este a uma maquete (em vinil) que o duo havia enviado a diversas editoras. Seguiu-se o EP «Hi Scores», denotando sinais de busca entre referências electro, Hip Hop e noções de paisagismo, que o álbum de estreia «Music Has The Right To Children» revela com sinais de maioridade, já em 1998, num momento em que as marcas de uma postura de contemplação pelo passado (em detrimento da tradicional postura de antecipação que coordena muitas aventuras nestas áreas) se mostrava já evidente.
Com excepção para um EP («In A Beautiful Place Out In The Country», de 2000), os Boards Of Canada mantiveram-se em silêncio durante quatro anos e regressam, agora, com «Geogaddi», um segundo álbum que denuncia o assumir da herança do psicadelismo, incorporando-a na carne da música e não apenas enquanto uma máscara que se usa para teatro de imagem.
A capa indicia um primeiro sinal claro de um mergulho iminente num espaço de convite à libertação do corpo (à boa maneira das sugestões do psicadelismo de uns Pink Floyd ou Beatles de 1967). Um mundo de visões caleidoscópicas percorre, depois, todo o restante «inlay», e conduz-nos, pela mão, ao som que o disco depois encerra.
E aí entramos, aos poucos, num espaço que começa por nos traçar linhas sólidas, sugere tons e melodias e, aos poucos, transporta ao núcleo dos acontecimentos, como quem mergulha inevitavelmente num abismo que quase assusta mas depois, inevitavelmente, atrai... Há uma interessante lógica de construção «quase-narrativa» nesse processo de sedução induzida que nos conduz depois ao longo de todo o disco e nos faz segui-lo de fio a pavio, quase sugerindo tratar-se de uma peça conceptual. Será?
Alternam os momentos de construção de núcleos que quase sugerem a estrutura de canção (como «Julie And Candy», «1969» ou o belíssimo «Dawn Chorus»). Com pontes de passagem que asseguram o fluir constante da progressão da audição. O percurso acaba, depois, por revelar uma série de apropriações de ferramentas formais características do psicadelismo de 60, entre elas notas de sitar, vozes de tez indiana, linhas difusas em espiral, vozes rebobinadas, ruídos brancos... Vozes de um mundo real (ou talvez de sonho) cruzam pontualmente, ao longe, as texturas que evoluem no espaço, não assumindo nunca um protagonismo de linha da frente como sucede na canção.
No final da «viagem», uma espécie de «trip» hippie digital, instala-se uma sensação de paz. Uma paz que não decorre da mesma experiência do sentido de liberdade que transborda de discos recentes de nomes como os Manitoba, Fridge ou For Tet, onde as formas são, apesar de mais nítidas, menos rígidas... Condicionando (e condiconado por) um percurso muito concreto, «Geogaddi» não deixa de representar mais um saboroso convite a um espaço de fuga. Na era da formatação, um disco como este segundo álbum dos Boards Of Canada pode ter efeitos quase terapêuticos. Não inventa a pólvora, não rompe visões, mas recupera, de forma curiosa, marcas de um passado rico em criatividade. Tão rico que, com novas ferramentas, ainda sugere pistas a desbravar.
N.G.

BOARDS OF CANADA «Geogaddi»

Warp / Zona Música **** (4 estrelas)






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