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4.3.17

Pop Dell'Arte - Entrevista (dnmais)


Diário de Notícias
suplemento dnmais
Nº 207
Sábado 20 de Abril de 2002

POP DELL'ARTE

SONHOS POP


Entrevista – Pop Dell’Arte

Eh Pá Estamos Vivos!

Os Pop Dell’Arte regressam com «So Goodnight», um magnífico CD de seis temas que não descrevem como EP nem mini LP... É um «Eh Pá», como explicam em entrevista ao DNmais

Numa tarde de sábado, juntámo-nos numa das salas da redacção do DN, João Peste e José Pedro Moura (um fundador, agora regressado a «casa») representaram o grupo para contar histórias de outros tempos, comentar o presente e explicar, afinal, o que isso de um «Eh Pá»...

+ Nos primeiros dias dos Pop Dell’Arte diz que que o maior desafio que sentiu foi o da escrita de letras. Mas acabou por desenvolver um hábito de escrita muito pessoal...
João Peste – Tive de arranjar maneira de superar isso. Mas não me considero, de modo algum, alguém que escreva bem ou que tenha algo de interessante neste domínio a fazer. Fui convidado para uma sessão com o Mário Cesariny e no Al Berto em 1989... Era um conjunto de recitais e puseram-nos aos três na mesma noite. Mais tarde, o Al Berto referiu esse momento como um encontro histórico entre três gerações. E disse ao Al Berto que isso era um autêntico disparate. Não sou um escritor! Sou cantor, nem sequer sou um músico, e às vezes tenho de escrevinhar umas coisas para cantar.
+ Uma escrita funcional?
JP – Não. É passional.
+ E serve a música?
JP – Ou vice versa. Depende dos espaços e depende das paixões.
+ A dada altura começou, todavia, a escrever uma autobiografia...
JP – Há anos atrás escrevi algumas memórias...
+ Coisas como...
JP – Escrevi coisas como quando conheci este caramelo (José Pedro Moura), no concerto dos Chameleons, no Rock Rendez Vous. Lembro-me, quando tinha dez anos, do 25 de Abril. Do telefone ter tocado às seis e meia da manhã... O telefone ficava ao lado do meu quarto e o meu pai dizia que a Emissora Nacional tinha perdido o pio... Fiquei muito baralhado sem saber o que era perder o pio, e levantei-me.
+ E porque escreveu memórias?
JP – Não tinha nada para fazer... Estava num período complicado, com drogas, e achei que se calhar não ia durar muito tempo e que seria interessante deixar um testemunho. Não eram só coisas pessoais, mas outras que também podem ser interessantes sobre a sociedade portuguesa e o meio artístico português. Afinal, conheci muitas pessoas, desde políticos (uns de uma forma mais íntima, outros menos íntima)... Até ao período do PREC, as discussões académicas que havia, porque a sociologia estava ainda numa fase embrionária.



+ Uma pessoa escreve memórias por temer o esquecimento?
JP – Não. É deixar um testemunho. Eu nunca quis dinheiro. É claro que faz falta, mas nunca foi o que me moveu. Também nunca quis poder, mas sempre me fascinou a ideia de ficar na história, nem que num cantinho da música. A minha única vaidade é essa.
+ E não sente que os Pop Dell’Arte são já uma referência na história pop portuguesa?
JP – Desde que não se torne numa coisa como aquelas cerimónias do 5 de Outubro...
+ Como é que lhe parece que a maior parte das pessoas reconhece hoje os Pop Dell’Arte?
JP – Os Pop Dell’Arte não são reconhecidos pela maior parte das pessoas, nem sequer são conhecidos.
+ São um espaço de culto mais escondido ainda que nos dias do Rock Rendez Vous (RRV)?
JP – Talvez... Mas não tenho dados sobre isso. Saiu agora um disco, e não sei que impacte é que vai ter.
José Pedro Moura – Eu acho que a urgência de ter uns Pop Dell’Arte em 1985 é a mesma neste momento. Surgiu um montão de bandas, umas melhores, outras piores, mas o espaço dos Pop Dell’Arte continua sempre aberto. Nunca houve ninguém que o ocupasse ou a ter uma agenda política e cultural que sempre tivemos por bandeira. Esse espaço continua a haver para nós.
JP – O Nuno Rebelo disse numa entrevista que os Pop Dell’Arte ficariam ao centro, os Mão Morta à esquerda e os Mler Ife Dada à direita. Tudo muito relativo, claro. E isso não tem a ver com alguém ser de direita ou de esquerda. Evoluindo de uma forma de pop mais acessível e melodioso (Mler Ife Dada) para uma coisa mais agressiva e industrial, como os Mão Morta, os Pop Dell’Arte tinham um pé num lado e outro noutro. Essa «trindade» Mler Ife Dada – Mão Morta – Pop Dell’Arte nunca foi combinada, apesar das boas relações e promiscuidade de circulação de músicos, no bom sentido do termo...
+ Desses três nomes os Mler Ife Dada foram os primeiros a acabar...
JP – Tenho ouvido muito Mler Ife Dada e cada vez mais acho que a Anabela Duarte é uma cantora excepcional... O Nuno Rebelo é um génio em termos de música pop e de composição. Mas mais para a música pop, que para as outras coisas que às vezes ele quer fazer. E devia perder o preconceito em tentar fazer uma música que seria alta cultura e não cultura pop, como se houvesse um «versus» entre alta cultura e cultura pop. A minha tese de mestrado, de resto, vai ter muito a ver com a ideia da criação de uma cultura pop e, consequentemente, da música pop, e a análise disso em termos sociológicos.
+ Os Mão Morta, dadas as pausas na carreira dos Pop Dell’Arte são hoje a banda mais conhecida dessa «trindade». Graças à presente exposição?
JPM – Naturalmente! Nunca deixaram de editar discos, com mais ou menos frequência.E a nível de actuações ao vivo foram anos e anos... E continua. Ao princípio partíamos todos com o mesmo nível de hipóteses. O Nuno Rebelo dedicou-se, depois, a outras coisas. O João e o Luía Sampayo, durante o tempo em que não estive nos Pop Dell’Arte, foram quem aguentou o barco. Mas terá sido por haver um contacto mais rotineiro com o público que os Mão Morta se tornaram conhecidos. Chegaram a mais gente. Não será por mais ou menos acessibilidade. Hoje já é bem falar de Mão Morta, mas ao princípio falava-se do Adolfo e dizia-se o que se dizia... Neste momento é uma instituição.
JP – Tenho todo o respeito pelos Mão Morta, mas a verdade é que são um projecto que parte do industrial, partem de uma cidade bastante católica. São as sete pragas do Nilo em Braga. Os Pop Dell’Arte são um grupo de Lisboa da alta classe média e definem-se, à partida, como um grupo de «free pop». Os Mão Morta são um grupo rock. Não são um grupo «free», mas opressivo.
JPM – A razão pela qual, a dada altura, saí dos Pop Dell’Arte foi porque na altura interessava-me mais compor para guitarras. Agora interessa-me mais trabalhar com a forma de composição dos Pop Dell’Arte... Uma colagem de referências. Mas logo à partida os Mão Morta serão mais tradicionais até pela forma como compõem, apesar das recentes aproximações às electrónicas.
+ Que tipo de banda são hoje os Pop Dell’Arte?
JP – Assumimo-nos como uma banda «free pop»... Não sei porque estão à espera que nos auto-censuremos... Podemos ir em todos os sentidos que quisermos, um pouco como aquela colagem no início do «Sonhos Pop» em que aparecem as nossas vozes numa entrevista ao Aníbal Cabrita em que ele diz «os Pop Dell’Arte avançam em círculo», isto é, avançamos em várias direcções ao mesmo tempo. Reservamo-nos ao direito de, usando o termo de «Free Pop», fazermos o que entendemos, e quem quiser gosta, quem quiser vai dar uma curva. Mas já agora, já que se fala desta «trindade», queria falar de uma outra pessoa: o Jorge Ferraz. A primeira experiência que tive a cantar com ele foi com os Ezra Pound, durante dois meses, e houve logo guerra de egos. E trabalhou com mais vocalistas que tiveram impacte no meio musical... Por questões que têm a ver com a personalidade dele, acaba por ser um «outsider»...
JPM – Mas ninguém se deu ainda ao trabalho de reconhecer o que ele fez.
+ Os silêncios na obra dos Pop Dell’Arte são frequentes...
JP – Prefiro chamar-lhe pausas. E a pausa é uma peça fundamental na música. Compor sem pausas é impossível. Pode parecer retórico, mas não! Usamos a pausa na existência do grupo.
+ Esta última foi particularmente longa. Chegou a pensar que o grupo poderia desaparecer?
JP – Não. Em 1995 apareceu um «Sex Symbol». A actividade do «sex symbol» foi muito grande e não deu tempo para fazer música... Aproveitou a pausa para fazer outras coisas.
+ Foi difícil viver numa multinacional na etapa «Sex Symbol»?
JP – Andava demasiado drogado para pensar nessas coisas.
+ O regresso faz-se com um EP que cheira a sucessão próxima num LP?
JP – É um bocadinho mais do que um EP, porque tem mais de quatro temas.
+ Um mini LP, então?
JP – Não... É um Eh Pá!
+ Um Eh Pá?
JP – A pausa do «Sex Symbol» já tinha dado para extroverter a sua energia sexual ao máximo. As drogas depois também deixam de ter piada... E isto agora é um Eh Pá... Um «Eh Pá, ainda estamos aqui!».
+ Apesar de sempre ter havido uma relação com as electrónicas, nunca antes estas desempenharam uma presença tão fundamental.
JP – O «Ready Made» é o álbum mais electrónico mas, em termos ideológicos, é um disco fundamentalista junkie.
+ E este?
JP – É um apanhado do que os Pop Dell’Arte fizeram nos três últimos anos, e é um «Eh Pá, nós estamos vivos»!
+ Alguns destes temas foram experimentados em concertos ao longo destes mesmos três últimos anos. Foram oportunidades de teste às canções?
JP – Sim. Tocámos o «So Goodnight» uma ou duas vezes e, nos concertos a seguir já havia gente a pedi-los. O «Mrs Tyler» tocámos em Vilar de Mouros...
Depois tocámos em Lisboa e houve quem os pedisse.
+ Não sentem a falta, em Lisboa, de um local onde pudessem actuar mais frequentemente? E lá voltamos a falar na Rua da Beneficência (onde estava sediado o RRV)...
JP – A Rua da Beneficência era apenas o local onde as bandas tocavam. Mas havia um núcleo de bandas em Alvalade. E nós aparecemos em Campo de Ourique. Curiosamente, o Adolfo Luxúria Canibal, apesar de ser de Braga, também estava em Campo de Ourique. A sede da Ama Romanta era na Rua Coelho da Rocha e a primeira maquete dos Pop Dell’Arte foi gravada num estúdio na mesma rua, que é onde eu moro desde que nasci... Havia ainda em Campo de Ourique os Essa Entente, os Enapá 2000...
+ No concurso do RRV em 1985 ganharam o prémio de originalidade. Para vós era o mais importante?
JP – Era, porque os critérios eram outros. O «Bladin» não perdeu nada nestes 17 anos, mas o Rui Veloso, que fazia parte do júri, deu aos Pop Dell’Arte zero pontos em musicalidade, zero em visual (como se ele fosse mais bonito do que nós...) e também nos deu zero em relação às letras... Qual era a sua legitimidade para nos dar zero em termos de letra. Como os critérios para os prémios de originalidade não passavam por este júri, esse era o prémio que as bandas mais interessantes acabavam por vencer. O outro concurso estava viciado à partida... Tirando o caso dos Mler Ife Dada, que deram um espectáculo tão bom que seria escandaloso não ficarem em primeiro lugar. No nosso ano à final foram os THC, Linha Geral, Essa Entente, os Linha Geral... as votações eram distintas entre quem nos desse zero, cinco e dez... Quando saiu o «Free Pop» as opiniões radicalizaram-se mais. O Viriato Teles escreveu, então, que tinha decidido não fazer uma crítica ao disco «porque não merece»... E avançou explicando que era um exemplo de como se não deveria tocar, não se deve cantar, não se deve produzir um disco, escrever a letra ou sequer fazer uma capa.
+ Por alturas do «Sex Symbol» as reacções já foram diferentes...
JP – Até por alturas do «Illogik Plastik» já foi assim. Já tinha aparecido o «LP» e já não era só o António Sérgio o único a fazer um programa alternativo.
+ Ou seja, essa mudança de atitude tem a ver com uma abertura de espaços e consequente criação de uma cultura alternativa?
JP – Era a globalização, não mundial, mas sim uma globalização portuguesa, interna, que também serviu para que tivéssemos de levar certas coisas em doses maciças, umas boas outras más, seja a Ágata, os Madredeus, o Pedro Abrunhosa e o Emanuel. Mas houve espaços para outras coisas menos mediáticas poderem aparecer.
+ Alguma vez equacionou a questão da língua a usar numa canção?
JP – Eu questiono a utilização da língua numa canção e não só...
+ Como é que se opta?
JP – Sei lá...
+ No «Poppa Mundi», por exemplo, usam diversas línguas...
JP – Sim, fizémos muito isso também no «Illogik Plastik», no «Avanti Marinaio»... Eu acho que os Pop Dell’Arte já tinham uma consciência da globalização cultural. Ela já existia mas ainda não tinha tomado a forma nem era tão notada como começou a ser a partir dos anos 90, sobretudo depois da Guerra do Golfo e o aparecimento da internet. Os Mler Ife Dada e os Pop Dell’Arte já tinham essa ideia de globalização, do não fechamento. Podiam cantar, usar fonemas, misturar línguas, criar uma linguagem nova. E por isso digo, subtilmente, que os Pop Dell’Arte eram mais perversos ou subversivos que os Mão Morta. Essa destruturação dos textos, a promiscuidade de línguas, o «nonsense», o optar por significantes sem significado... Por tudo isso estava a ser muito mais rebelde e era mais contra o sistema vigente do que se espetasse uma faca na perna.
+ Há pouca rebeldia na música portuguesa?
JP – Acho que praticamente há falta de rebeldia em tudo o que se faz neste país. Em Portugal e não só, e não é só na música. Na política também, a nível europeu e mundial. Como é que Israel, que é um país mais pequeno que Portugal, e tem uma população menos numerosa consegue estar a provocar uma quase terceira guerra mundial, que está latente. Como o poder financeiro judeu consegue dominar o sistema global! Gostava de ver o Ariel Sharon a responder no tribunal de Haia. Não que o Milosevic não mereça lá estar, mas ele merece muito mais.
JPM – Eu acho que o problema é que os putos consomem as coisas conforme as servem. Vai tudo ver as bandas de nu-metal a Paredes de Coura como se estivesse a fazer uma revolução. Mas aquilo é feito como as boy bands, no forno. O pessoal que tem a mania que é alternativo ouve aquelas coisas sempre naquelas rádios. Servem-lhes um padrão, e pronto! O pessoal da música de dança acha que é tudo muito práfrentex porque tem a última palavra no que se faz em termos de música, e não quer explorar mais nada. E depois as bandas, que são constituídas por essas pessoas, acabam por reflectir isso, tirando honrosas excepções, como é o caso dos Da Weasel. Não é preconceito, mas procuramos e é um deserto! Lá fora aparecem coisas como os White Stripes ou Basement jaxx... Por cá toda a gente tem o seu padrãozinho. As pessoas estão, de facto, mais preocupadas com os copos do dia anterior que em fazer música. Ao fim ao cabo fazemos isto por amor, senão estávamos a vender peixe ou pão num sítio qualquer. Eu não gosto dos The Gift, mas eles têm o mérito de acreditarem naquilo que fazem e levam aquilo contra tudo e contra todos. O resto das coisas não batem.
JP – Para mim há excepções nos Da Weasel, Três Tristes Tigres, Belle Chase Hotel, Rádio Macau... Os Silence 4 são simpáticos e uma boa banda, mas não é o meu estilo de música.
+ Sentiram os Pop Dell’Arte desacompanhados de outras bandas na mesma «família estética»?
JP – Quando formei a Ama Romanta a minha intenção era essa. Tinha a consciência que sozinhos não íamos longe. O Lopes Graça escreveu, uma vez, que os maiores inimigos da cultura em Portugal são a inveja, a intriga e a mesquinhez. E a Ama Romanta foi vítima disso. Cheguei a estar a dar aulas e gastar todo o ordenado para pagar dívidas da Ama Romanta. E houve bandas que tinham editado pela Ama Romanta a cuspir no prato que lhes tinha dado de comer. Em termos de meio musical sentíamo-nos realmente sós.
+ Hoje sentem-se ainda desacompanhados?
JP – Neste momento em Portugal há uma polarização cultural cada vez maior. No «Divergências» o Paquete de Oliveira dizia que o fosso entre os que sabem e os que não sabem é cada vez maior. Quem tem acesso ao saber e ao espírito crítico é, cada vez mais, uma elite, enquanto o resto da população se torna em hordas cada vez mais selvagens e analfabetas. A internet e a globalização poderão ser maneiras de travar essa diferença entre os que podem consumir criticamente e os que só podem consumir passivamente. A internet talvez possa travar o pesadelo do homem unidimensional.

DISCOGRAFIA

1987. «Free Pop». Álbum de estreia e um dos mais inesperados registos de libertação pop do Portugal de 80. Cultura pop e personalidade no seu melhor.




1990. «Arriba Avanti!». Compilação, recolhe temas editados em single e máxi nos primeiros anos de vida do grupo e junta uma «demo» da primeira sessão de estúdio.




1993. «Ready Made» Conduzido por um conceito artístico, ilustra uma etapa de convívio com electrónicas, mas não perde a costela rock e «free».




1995. «Sex Symbol». Um dos melhores discos portugueses de 90 e a marca da maioridade criativa e interpretativa dos Pop Dell’Arte, editado por uma multinacional (então Polygram).




2002. «So Goodnight». Reunião num «Eh Pá» (ver entrevista) das criações dos últimos três anos. Prenúncio para um novo álbum?





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