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30.12.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (268) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano IX
Nº 424
15 de Dezembro de 1992
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 100$00
32 páginas
Capa e algumas páginas interiores a 3 cores, outras a preto e branco.
Suplemento Manifesto (?Mensal?) de 4 páginas. Ver abaixo autoria do mesmo, na ficha técnica


Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Av. Infante D. Henrique, 334, 1802 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Redacção:
Cristina Duarte
Miguel Francisco Cadete
Nuno Galopim
Raquel Pinheiro (Porto)
Rita Carmo (Fotografia)
Direcção Gráfica:
Cândida Teresa
Colaboradores:
Adágio Flor
Álvaro Romão
André Lepecki (Nova Iorque)
António Freitas
António Maninha
António Pedro Saraiva
Bruno Branco
Bruno Maçães
Diniz Conefrey (ilustração)
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Santos Marques
Gimba
Hélder Moura Pereira
Hélder Salsinha (fotografia)
Hugo Moutinho (Porto)
Isabel Lucena (Londres)
João Correia
João Bugalho
José António Moura
José Antunes
Lili Wilde (Londres)
Luís Mateus
Luís Pinheiro de Almeida
Maria Ana Soromenho
Maria Baptista
Maria João Gouveia
Mário Correia
Miguel Cunha
Miss Ex
Monsieur Sardin
Paulo da Costa Domingos
Paulo Somsen
Pedro Esteves
Pedro Portela
Rafael Gouveia (Paris)
Rui Eduardo Paes
Sérgio Noronha
Sofia Louro
Teresa Barrau
Vítor Vasques (fotografia)

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Tiragem média do mês anterior: 19 290 exemplares

Tal como disse aqui, este é um número de um período posterior em cerca de três anos e que cai naquela fase que então cataloguei como a segunda decadência, quicá o início dela, quiçá a última...
O Director continua a ser o mesmo (Rui Monteiro), alguns colaboradores são de qualidade (ver lista abaixo), mas já não era a mesma coisa. E fico-me por aqui.
Curiosamente, apesar da deriva mainstream a tiragem média decresceu.


AO VIVO
IMPROVISAÇÃO, EIS A QUESTÃO

Um ciclo de concertos dedicado ao tema «Nova Música Improvisada» apresenta inevitavelmente, para além do interesse suscitado pelos participantes, um especial aliciante, colocando-nos questões habitualmente escamoteadas no que concerne à caracterização íntima de uma música e do seu fazer. Os dois concertos em que Carlos Zíngaro foi o anfitrião deveram o seu especial sucesso ao facto de terem sido conduzidos por um quarteto de experimentados improvisadores-compositores, para além do violinista português as luminárias Frederic Rzewski, Richard Teitelbaum e Barre Philipps, indiferenciando-se no seu trabalho os dois processos de criação musical.
A música que se ouviu fez-lhes inteira justiça: da gestão minimal de sons e silêncios Às massas orquestrais providenciadas pela tecnologia montada no palco, do esquematismo dodecafónico à explosão libertadora resultante da plena integração dos instrumentistas, do impressionismo mais preciosista ao gestualismo e à visceralidade expressiva, da caixinha de música, com todos os elementos cautelosamente concertados, à parasitagem electrónica de todo o espectro audível, tudo pôde acontecer. Frederic Rzewski, o lendário autor de “The People United Will Never Be defeated”, percorreu ao piano os vocabulários com que este é conotado, detendo-se sobretudo nas referências românticas e impressionistas e introduzindo pequenos motivos, notas ou acordes isolados, exactamente nos momentos em que tinham de acontecer ou seria o abismo. Barre Phillips esteve dividido entre a sua vocação lírica (aquela mesma ilustrada pelos seus discos na ECM) e um discurso no contrabaixo construído em torno de fraseados desconstruídos. Richard Teitelbaum ora foi discreto, confirmando a sua fama como «humanizador» da informática musical, ora se responsabilizou pelos fabricos sonoros mais surpreendentes de ambas as sessões, com utilização, por exemplo, de «samples» do canto rural transmontano ou dos judeus safarditas medievais. Carlos Zíngaro, por sua vez, integrou-se na nuvem de tonalidades geral tocando acústico, com a sua linguagem violinística feita de armadilhamentos gramaticais, ou ligando o seu instrumento, via «pitch to Midi», a várias máquinas e «gadgets» electrónicos, como o «delay», o que lhe permitiu dobrar fraseados e acrescentar sentidos.
Já Azguime, no seu espectáculo a solo denominado «Ícones», com a participação do coreógrafo João Fiadeiro, lidou bastante menos com a gama de possibilidades presenteadas pelo binómio intuição/memória. Evidenciando uma técnica excelente e uma imaginação cénica cuidada, o percussionista português apresentou seis peças de música organizadas por módulos, cada um com o seu específico «set» de instrumentos, incluindo uma escada e uma dorna. Sem poder explorar devidamente as potencialidades sonoras que tinha ao dispor, foram exercícios de virtuosismo, e pouco mais, o que nos apresentou. Ora, não é a exibição de faculdades que define, no essencial, a prática processual da improvisação.
Velez, pelo seu lado, com os préstimos de Steve Gorn nas flautas bansuri e do percussionista Randy Carfton, deitou por terra toda e qualquer conotação com o jazz do acto de improvisar. A música deste agrupamento situa-se algures entre a World Music e a New Age, se bem que não se confunda com a generalidade dos produtos que exibem tais rótulos, dada a maior seriedade dos seus propósitos.
E se no caso desta formação a prática e o conceito são indissociáveis, no dos portugueses Telectu, que tocaram em duas sessões com o baterista e percussionista Chris Cutler, fundador de grupos do «art rock» com a fama dos Henry Cow ou dos Art Bears, o concerto foi tudo, obliterando a auto-suficiência performativa da música. Pretendendo enumerar as técnicas e «tendências» de dez anos de existência enquanto duo, Jorge Lima Barreto e Vítor Rua protagonizaram uma actuação descosida, durante a qual foi-lhes impossível interligar os diversos elementos («situações», chamaram-lhes) que se propuseram reunir. O espectáculo, preparado com estipulações seccionadas ao minuto e incluindo a vídeo-arte de Rua bem como a instalação e luminotecnia de António Palolo, ou pecou pela pura inércia, nada acontecendo, ou foi prejudicada pelo atabalhoamento de citações e referências, o minimalismo, o free rock, o «jazz mimético», a electro-acústica experimental atropelando-se numa desfilada incongruente.
A improvisação pode ser hiper-calculada e ainda assim falhar no momento da verdade, foi o que se ficou a saber. É pena, pois os últimos feitos dos Telectu, em particular o CD «Evil Metal», prometiam bastante mais.
Rui Eduardo Paes






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