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21.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (106) - Monitor #43


Monitor
Nº43

Ano V
Março de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00
Tiragem 500 exemplares


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Pedro Ivo Arriegas

Vasco Durão
Gonçalo Falcão

Pedro Santos
Jorge Saraiva


Tim Hodgkinson
«Não Toco Para As Pessoas»

por Gonçalo Falcão

No passado dia 2 de Fevereiro, realizou-se nas Caldas da Rainha um concerto dos Telectu com Tom Hodgkinson. Organizado por um grupo de professores do ensino superior, este foi um evento singular, não
obstante, pela sua natureza, se esperar uma muito maior naturalidade e frequência destes acontecimentos, mormente em escolas de ensino artístico. Assim não é em Portugal, estando o ensino superior e os seus
estudantes normalmente mais despertos para o pimba e para a música ligeira.
Aproveitámos a oportunidade para entrevistar Tim Hodgkinson, Antropólogo de formação, é um importante improvisador inglês, com uma abertura invulgar a outras áreas musicais.
- Como se pode explicar a um não-músico, o interesse pela improvisação total?
. É sempre uma coisa circunstancial. Apanhar alguém no momento certo e que por acaso está a tocar a música certa. Ok, pode dizer coisas, mas é sempre algo que tem de acontecer a ele. O ideal é que já as
tenha dito; o que acontecer, vai acontecer quando ele ouvir uma determinada música, de uma determinada forma. E ele vai dizer: «que esquisito, acho que nunca estive numa coisa destas antes».
E eu já vi isto acontecer a pessoas que nunca estiveram em contacto com a música improvisada e ficaram impressionadas, comovidas e entusiasmadas.
- E qual pode ser o «click»?
. Pode ser tanta coisa, não há uma só resposta. Tudo é diferente, e porque tudo está em mutação contínua, nunca se experimenta a mesma coisa duas vezes.
Uma pessoa tem todas as experiências da sua vida até um determinado momento. Vai a um concerto e muda qualquer coisa em si. É algo que lhe atrai a atenção, alguma coisa que brota do acto de tocar, porque
tudo se passa à frente dele. Já toquei em sítios onde as pessoas têm uma resposta quase religiosa e dizem aquele tipo de coisas: «Fechei os olhos e parecia que estava a voar». Não me importo, é uma das
entradas possíveis. Mas claro que não é a reacção que mais gostaria de provocar.
- Há alguma em particular que goste de provocar?
. Não, acho que não; a reacção dos «olhos fechados a voar» é um bocado programática. É um processo psicológico paralelo, não tem a ver com a música. Não quero dizer que estejam errados, mas gostaria que se tivessem agarrado mais á música ela própria.
Uma noite, no Laurie Driver's Cafe, serviram comida caríssima e requintadíssima, mas ao mesmo preço que a comida normal, e tentaram avaliar as respostas das pessoas. Só que os camionistas estão-se nas tintas,
acharam as ostras sensaboronas, preferiram ovos com batatas. Por outras palavras, a ideia de expor as pessoas a estas coisas, ou a ideia de as ensinar tem de ser feita da maneira correcta, de forma a que seja
real. Provavelmente, teríamos de operar uma inversão na definição cultural de cada indivíduo, de forma muito profunda; não vivemos num ambiente neutral e as pessoas estão expostas à música permanentemente.
- E não podem evitá-la?
. Não, não podem. Quando trabalhei (de facto foi o único emprego que tive, durante três dias) numa fábrica notei que a forma como usavam as canções pop na rádio tem a ver com o modo como o horário laboral está estruturado, que corresponde a um determinado ritmo e tem, obviamente, uma determinada função. E se estamos a falar de pessoas que experimentam a música desta forma, não estamos a partir do zero, mas de uma determinada ideia do que é a música, e temos de mudá-la. Talvez fosse mais fácil começar com pessoas que não têm qualquer noção do que é a música.
- Acha então que é uma obrigação social tentar mudar esta ideia?
. Não, de forma alguma. Não acho que seja o tipo de coisa em que nos temos de empenhar, ou o tipo de projecto em que devamos investir. Acho que cada um deve fazer as suas coisas sem se preocupar se vão ser ouvidas ou não; é esta a minha posição, não toco para as outras pessoas.
- Toca só para si?
. Sim. Claro que, ao mesmo tempo, gosto de algum «input» dos espectadores, mas pode ser muito pequeno e indirecto.
- Tem alguma preocupação central com a sua música, algum elemento que ache intrínseco à sua maneira de tocar, que ache exclusivamente seu?
. Depende da situação em que estou a tocar. O que eu tento sempre fazer é descobrir qual é a música que tem de ser tocada numa determinada situação. Na teoria, não tem nada a ver com aquilo que quero tocar,
ou com aquilo que acho que sou bom a tocar. Na prática, claro que está tudo lá, o que resulta num encontro criativo entre estas duas perspectivas. No entanto há pessoas que trazem sempre uma coisa fixa para
cada concerto. Eu não o faço, pelo menos num nível consciente. Claro que inconscientemente... Bem, você sabe que o que um bom falsificador de arte estuda é a parte inconsciente, uma ângulo particular do pincel
na mão, aquilo que o pintor faz sem pensar nisso, ao passo que para o falsificador isso é o mais importante. O objectivo principal do seu trabalho é descobri-lo. Quando escrevo música, tento começar o mais longe
possível do «scratch», mas sei que, qualquer que seja a minha aproximação, existem alguns elementos característicos que muito provavelmente vão ocorrer nas minhas peças. Posso estar convencido de que estou a fazer algo de uma forma totalmente nova, mas quando ouço reconheço-lhe uma sensibilidade harmónica que é minha e à qual não consigo escapar.
Neste sentido, podemos falar na improvisação de uma dialéctica de esquecimento, porque o ponto central da improvisação é trabalhar com a indeterminação, sendo que a maior indeterminação é não saber como é
que os ouvintes (outros músicos) estão a entender a música. E há ainda a indeterminação relativa ao próprio instrumento.
- E se estiver a tocar a solo?
. Provavelmente, tocar a solo é um dueto internalizado. Acho que se mantêm os aspectos dialógicos.
- Esse diálogo interno é nihilista? Uma luta contra o conhecimento?
. Não, nihilista não. Quando falamos connosco estamos a interiorizar um processo social. Tocar a solo pode ser assim.
- Acha qua a seguir a um concerto existe uma avaliação imediata da música? Existe uma verdade intrínseca à música?
. Não creio, já khe aconteceu certamente acabar de tocar e achar que foi óptimo, e depois ouvir a gravação e achar que foi uma desgraça, ou ao contrário. E não lhe aconteceu ir tocar com outras pessoas e quando
sai do palco lhe dizerem que foi óptimo, mas achar que nunca conseguiu entrar na música? Acho, pois, que não posso subscrever a ideia de verdade, neste contexto. Consigo entender o significado de uma declaração
falsa e de uma verdadeira, mas no contexto da semiótica, da linguagem, e você está a falar de estética. E se há alguma coisa que a estética é sempre, é ambígua.- Em alguns países existe uma tradição improvisacional maior do que em outros - e não estou a falar da diferença entre Europa e África, mesmo dentro da Europa existem países que sempre tiveram vontade de improvisar, o que não acontece, por exemplo, com Portugal. Acha que assim sendo não podemos esperar muito da nossa comunidade, porque também não lhes estamos a dar tanto?
. Do meu ponto de vista, todos os países têm pessoas que vivem num mundo moderno, com audiências potenciais para a música improvisada. Num qualquer país da Europa, em qualquer cidade pequena, um
pequeno grupo de pessoas pode começar alguma coisa e criar uma audiência; construí-la.
Frequentemente, inicia-se com uma ou duas pessoas que começam a ouvir este tipo de música e começam a tocar para elas próprias, e depois os amigos sabem disto e resolvem organizar um pequeno concerto. As
pessoas interessam-se e convidam outras que v~em de outro local qualquer, a coisa começa a movimentar-se, associam-se, e depois conhecem alguém numa rádio que tem um espírito anarquista e a coisa funciona;
mais tarde ou mais cedo há um concerto nessa cidade com uma audiência igual àquela que teria numa cidade que tem música improvisada há anos, tudo porque há uma audiência potencial em qualquer sociedade
urbana.
- É então uma coisa que se pode provocar?
. É uma coisa que se pode detonar; esta é uma das coisas únicas que se podem obter com a música improvisada.
- Qual pode ser o detonador?
. Fala como promotor ou como músico?
- Como músico...
. Então depende de como se toca, se é bom. A improvisação é uma arte. Conheço em Londres alguns intérpretes brilhantes de música contemporânea que tentaram aderir à improvisação. E viram que é difícil.
Pensavam que era fácil, porque são intérpretes fantásticos. E na verdade são maus improvisadores, porque não pensaram sobre a improvisação, não perceberam do que se trata. Acabaram por não ser contratados
para dar concertos e não perceberam porquê, visto toda a gente continuar a querer contratá-los como intérpretes.
- Consegue-se explicar-lhes porquê?
. Sim, claro que se consegue, eu consigo, mas eles não percebem. Se estiver sentado com um deles, no final de um concerto, com algumas cervejas, consigo. Mas nunca aconteceu. Além disso, devemos ser
cautelosos.










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