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29.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (114) - Monitor #51


Monitor
Nº 51

Ano V
Dezembro de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Pedro Ivo Arriegas
Vasco Durão
Carlos Branco Mendes
Rui Neves

Gonçalo Falcão
José António Moura
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Telectu, Sclavis & Berrocal - «Jazz-Off Multimedia» [CD NON / AnAnAnA, 1998]

Carlos Bechegas - «Flute Landscapes» [CD AudEo, 1998]


Enquanto os Telectu prosseguem a publicação «dentro-de-portas» (e ainda que com distribuição no estrangeiro) de registos com a colaboração de músicos internacionais - em «Jazz-Off Multimedia» os franceses Louis Sclavis e, mais uma vez, Jac Berrocal -, depois de um disco saído na Grã-Bretanha Carlos Bechegas decide-se com «Flute Landscapes» pela edição nacional e a solo. O primeiro é um excelente trabalho, dos melhores que a desigual discografia do duo português oferece, e o outro agrada, se bem que não tenha a chama do anterior. Cada um a seu modo, são uma mostra da vitalidade que a música experimental e improvisada começa a ter no nosso país, e não por acaso vindos de nomes consagrados daquela que, infelizmente e apesar de tudo, ainda não podemos chamar «cena portuguesa».
O disco dos Telectu com Sclavis e Berrocal, gravado ao vivo no Festival de Jazz de Guimarães em 1995, é um daqueles exemplos em que a livre-improvisação se encontra com um determinado ambientalismo, se é que ainda podemos chamar assim às sugestões de atmosferas e estados de espírito que vão marcando a década de 90 e estão longe de serem, apenas, fundos indutores. Vítor Rua toca guitarra eléctrica e encarrega-se das bases electrónicas, sobretudo com recurso a fita, repetidos papéis de solistas têm Jorge Lima Barreto em piano (também sintetizador, mas menos) e Louis Sclavis nos clarinetes e no saxofone soprano, com destaque para o segundo, e Jac Berrocal limita-se quase só a um trabalho de coloração com o seu inconfundível trompete, o que é pena e o único grande senão deste novo álbum. Pelo que escutámos em «À Lágardére», a sua anterior colaboração com os Telectu, podia fazer muito mais e melhor num contexto como este.
Seja como for, e não obstante esta divisão de tarefas, a tónica de «Jazz-Off Multimedia» vai para a arquitectura de conjunto, chegando-se a algum pontilhismo, tal a renda de pequeníssimos elementos que se vão associando ao longo das faixas. Torna-se patente, ainda, que houve um apurado trabalho de edição e produção, com selecção de momentos, montagem e mistura, ganhando as interessantes feições de uma pós-composição feita com os materiais improvisados. Para quem não compreender a referência ao multimédia no título, fica uma explicação: no concerto em Guimarães, os quatro intervenientes fizeram-se acompanhar por imagens vídeo. No disco perde-se, obviamente, esta dimensão, o que até poderia justificar a sua não alusão no mesmo se não fosse a função primordial de qualquer CD de música improvisada: documentar um acontecimento que, pelas suas características intrínsecas, é irrepetível. Quanto a «Flute Landscapes», refira-se que se trata de um disco não necessariamente de «exercícios», pois tal termo nos remete para esquematismos frios e rígidos, mas de pequenos temas em que se vão experimentando técnicas muito concretas e ideias discursivas isoladas, reduzindo os meios ao dispor àqueles só que são indispensáveis à sua solução. Carlos Bechegas usa a voz, a respiração e sons não notáveis numa partitura para explorar as possibilidades do seu instrumento e, por vezes, até para as ultrapassar - designadamente quando já não é uma flauta o que ouvimos mas algo sem identidade definida. Poucas vezes, entre nós, a perspectiva dos improvisadores é de pesquisa, o que vem aumentar a importância deste lançamento.
O ex-Plexus toca por vezes «demasiado», esquecendo-se do valor da contenção e do silêncio, e repete fórmulas e vocabulários, mas tem a louvável virtude de alargar o seu mapa de sons e levar à letra os velhos conceitos do experimentalismo, aqueles mesmos que, nos anos 70 e por exemplo, um Stockhausen levou à prática com as suas composições para caixinhas de música ou Berio realizou com as parcerias entre intérpretes «clássicos» e de free jazz, para já não falar nas incursões étnicas do grupo de rock alemão Can. O CD peca, talvez, por ser excessivamente longo, sem grandes variantes que possam renovar o interesse do auditor (um risco sempre presente quando se parte para uma sessão solitária com um instrumento monofónico), e pela desproporcionada reverência que faz a algumas personalidades da improvisação, como Evan Parker, Steve Lacy, Peter Kowald e Derek Bailey (curiosamente, nenhum deles flautista). Assumir as influências é uma coisa, e fica sempre bem a qualquer um, tocar «à maneira de» já tem mais que se lhe diga.
[REP] - Rui Eduardo Paes

 




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