22.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (107) - Monitor #44


Monitor
Nº 44

Ano V
Abril de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00
Tiragem 500 exemplares


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Jorge Lima Barreto
Gonçalo Falcão
Ivo Martins
José António Moura
Chris Rice
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Jorge Lima Barreto
por Jorge Lima Barreto

Iniciei a minha actividade musical muito cedo; o meu autodidactismo, como o de qualquer um, foi apenas aparente: aprende-se sempre com alguém.
Trabalhei desde logo numa perspectiva de free jazz (uma expressão radical e vanguatdista do jazz) e desenvolvi critérios da nova música improvisada; desde os anos 70 fiz uso do sintetizador e da banda magnética e progredi na electrónica «live».
A minha composição é de tipo «conceptual», i.e.: do primado da ideia sobre a matéria formal. Fundei a Associação Da Música Conceptual em 1968, no Porto, onde os compositores/intérpretes se dedicavam a um projecto experimentalista - um dos factores originais do meu conceptualismo, gesto controverso, foi o da vídeo/música performarte e da música/happening, que teria sequela, nos anos 80, com a música multimédia dos Telectu.

Nunca fui dado a arregimentações e ortodoxias; posso ter adoptado certos isomorfismos da composição: free music, experimentalismo, minimalismo, antimúsica, electrónica live/inter arte/inter media. O meu nível de informação é extremamente vasto e labiríntico, explanado em 15 livros de musicografia e noutros tantos discos; desde sempre oiço, leio sobre, cultivo o conhecimento das músicas clássicas, electro-acústicas, jazz, rock, minimalistas, seriais, etno/tradicionais; uma permanente atenção aos factores sincrónicos e diacrónicos da inovação formal, conceptual, acústica ou tecnológica, donde me é impossível indicar uma influência precisa na minha música. Pode haver compositores ou intérpretes que pautaram algumas atitudes, mas os discursos desses músicos foram assumidos como mimetismos, inspiração forânea.
Um enredo caótico, fractal, anáquico, ligado ao imaginário, ao inconsciente, ao interdisciplinar - peculiaridades, interconexões discursivas e dinâmicas, o sentido da viagem musical são, entre outros, apelos que seduzem a minha criatividade como improvisador.
As influências directas vieram daqueles com quem trabalhei, toquei e gravei (Carlos Zíngaro, Jean Sarbib, Elliott Sharp, Jac Berrocal, Chris Cutler, Louis Sclavis, Evan Parker e, sobretudo, Daniel Kientzy). Os Telectu são formados por mim e por Vítor Rua: é para com ele que tenho o meu maior débito.
O piano tem sido o meu principal instrumento, donde parto para uma ideia, um morfema, uma construção, uma estrutura. Como compositor, a minha acção prévia à execução (concerto, disco, vídeo) é inalienável da instrumentação (percussão, objectos sonoros, etc....); fundamentalmente, prescrevo a atitude acústica, instrumental (gesto, melodia, ritmo, textura, etc.) e, quando incidental, a distribuição dos dispositivos analógicos ou digitais; considero a introspecção, a planificação puramente mental e reflexiva, como um dos principais elementos do meu conceito de composição. Sou exclusivamente um improvisador, a composição é tão somente um esboço estruturante para o devir da matéria improvisada, para a cenografia instrumental.
Devido a alguma disfunção léxico-musical criei compensações semiográficas extravagantes e proto-linguísticas: notação gráfica, text komposition, jogo e acção, vocabulários indeterministas, protocolos com autocolantes coloridos, tablaturas mistas - situações pré-codificadas de modo empirista para a improvisação, organigramas, estratégias distributivas, mnemónicas, preparação e tráfico, desvios, amostras, simulacros denotatum sinestésico (som, cor, luz, música...), promissórias prontezas prognósticas promorfoses.

Trabalhei, ab initio, com pintores, escultores, instaladores, videastas, cenógrafos, realizadores - considero-me um poliartista, o meu projecto musical é interarte (vídeo-poesia com Eugénio de Andrade e E.M. de Melo e Castro, performarte com Silvestre Pestana, Manoel Barbosa; instalação, diaporama, luminotecnia, vídeo-arte com António Palolo ou Vítor Rua, para citar algumas intensidades). Sobre a situação interartística da música não posso deixar de citar as entrevistas que fiz a alguns dos mais significativos músicos de jazz de vanguarda e improvisadores hodiernos; as minhas viagens aos mundos do rock e das músicas planetárias. Esta praxis foi animada por teorias esparsas de futuristas, dadaistas, bruiteurs, concretistas; pelos movimentos Fluxus, cinetistas, videológicos; radio music e aparatos tecno-instrumentais de esculturas sonoras; instalações multimédia - um rizoma de alusões.
Quando criei a Anar Band fi-lo com artistas plásticos e videastas do Porto (de 68 a 80). Ao fundar os Telectu com Vítor Rua, em Lisboa, os principais propósitos que animaram desde 1982 este duo foram necessariamente votados à música interarte e intermedia. Há também o canto dos pássaros, o marulhar das águas, a polifonia das cigarras, o rodopiar do vento, o arfar do vulcão, o sibilar da nave espacial, o choque das estrelas, o ribombar do Big-Bang, o silêncio.

Nos meus livros fiz abordagens poliscópicas do situacionismo da música electro-acústica e do meu trajecto até à música cibernética. Desde «Musicónimos», 1976, com prefácio de João de Freitas Branco, à minha tese de doutoramento «Música e Mass Media», 1995; e prossigo estes estudos. Na minha prática musical de improvisador fui adoptando inenarráveis formas de uso, espontâneas metodologias analógicas e digitais; na realidade, a minha postura musical tem sido fundamentalmente do foro da electronic live. Penso que a oposição da música acústica com a electrónica traduz uma superstição da tecnologia - a arte supera os reacionarismos de forma irreversível e universal. A filosofia da nova música consiste esteticamente na tomada de consciência da própria inovação, inclusive da tecnologia. A estética académica está mais preocupada com a análise de artefactos pessoais, pelo que dificilmente pode estudar e compreender a música electro-acústica, a concreta, as sínteses analógicas e digitais, os parâmetros ópticos-acústicos da cibernética, as complexidades das relações numéricas, o hipermedia e a interacção, a armazenagem do som em si, as sequências temporais dos sons artificiais, a espacialização, etc. As novas tecnologias da música são informáticas, as suas regras são isomorfismos da biologia (genética, prótese, clonagem), os seus horizontes só agora começam a desenhar-se, o seu futuro é o próprio futuro da música.

Não conheço nenhum músico que não acalente sonhos de compositor. Uma incontornável dialéctica entre o querer, o poder e o fazer é, afinal, o paradoxo de toda a criação artística. A acção do músico de hoje é em parte sancionada pelos musoburocratas e os medíocratas intermediários do público e do músico que se apresentam como obstáculo ao desejo e à imaginação - afinal, a criatividade é a concretização da luta constante contra a mais-valia ideológica, é um princípio de realidade da história da música.
O trabalho, a ubris, a verdade, a inventio, a poética, o eros, são alguns dos meios para nós podermos realizar os nossos sonhos. Enunciá-los seria formular os segredos da utopia. «Pelo sonho é que vamos»...







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