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17.2.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (3)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre
26 de Agosto de 2005


[51] QUARTETO 111

QUARTETO 111



No pobre panorama pop português de 60, afastado da efervescência vivida entre Inglaterra e os Estados Unidos pela ditadura de Salazar e Caetano, os Quarteto 1111 de José Cid foram um oásis de modernidade. O seu álbum de estreia, homónimo, mantém-se como um manifesto à criatividade em regime de experimentação febril.

TÍTULO Quarteto 1111
ALINHAMENTO Prólogo / João Nada / Domingo em Bidonville / Uma Estrada Para a Minha Aldeia / A Fuga dos Grilos / As Trovas do Vento que Passa / Pigmentação / Maria Negra / Lenda de Nambuangongo / Escravatura / Epílogo
ANO 1970 (reedição em CD pela EMI Music Portugal)
PRODUTOR Quarteto 1111

Na década de 60, enquanto a maioria do Ocidente vivia uma revolução social ancorada numa cultura juvenil que assumia declaradamente a cisão com as gerações anteriores, ao Portugal governado pela ditadura salazarista chegavam apenas ecos abafados dessa ebulição.
A maioria das bandas, com pouco espaço para mais que animação de bailes de finalistas e afins, entregavam-se a versões de êxitos ou a originais que não escondiam um evidente desejo de emulação do que se fazia em Inglaterra ou nos Estados Unidos.
Como excepções, tínhamos os Sheiks, trabalhando freneticamente sobre a explosão despoletada pelos Beatles, ou uns Jets cujo único EP editado, fosse outro o país de edição, se inscreveria como título de culto da emergente vaga psicadélica. O grande marco pop do Portugal de 60, contudo, seria da responsabilidade de uma banda que, de forma inédita, conjugava a modernidade além fronteiras com língua e motivos portugueses. Eram os Quarteto 1111 e revelaram-se com uma A Lenda D’el Rei D. Sebastião sobre a qual Cândido Mota aos microfones do Rádio Clube Português, opinava em 1967: “é um tema eterno, de criação nacional e validade perene e universal”. Depois dele, continuariam a caber ao Quarteto 1111 liderado por José Cid as mais excitantes manifestações pop portuguesas, quer fosse nos acessos folk de Dona Vitória e Dragão ou nas divagações ácidas de Os Monstros Sagrados e Génese. Em 1970, a criatividade que até então se dispersara por singles e EPs concretiza-se finalmente em longa-duração, o segundo da história da pop nacional – um ano antes, a Filarmónica Fraude editava a sua brilhante estreia, Epopeia.
Quarteto 1111, álbum conceptual dedicado à emigração e à Guerra Colonial, politicamente interventivo – também aí, em contexto rock, o Quarteto foi pioneiro -  e febrilmente experimentalista, não teve vida longa. Pouco depois da edição, a censura retirava-o das lojas, passando à clandestinidade de cópia pirata.
Contudo, aqueles que o conseguiram ouvir em tempo real e todos os outros que, ao longo dos anos, com ele se foram deparando encontram ali um magnífico manifesto à criatividade sem amarras. A folk de João Nada, o funk de Pigmentação, o denso psicadelismo de Maria Negra ou Escravatura, as experiências sónicas de Epílogo – quase impensáveis tendo em conta os meios disponíveis aos músicos portugueses de então -, as colagens sonoras de Fuga dos Grilos ou a sofrida melancolia de Domingo em Bidonville, todas elas, representam uma sintonia entre anseio pela modernidade e desejo de vincar uma identidade própria que o pop/rock português só conseguiria concretizar satisfatoriamente quase uma década depois.
Mário Lopes






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