IRREAL SOCIAL
BLITZ
PREGÕES E DECLARAÇÕES
AMOR, PARTILHA E ÓDIO ANTES DA VIDA ONLINE: ANO 1 (1985)
Introdução, compilação de textos, paginação e montagem
gráfica com base em elementos originais publicados no jornal Blitz no ano de
1985: José António Moura
Ésta é uma publicação independente da Holuzam.
Impressão em risografia no estúdio DESISTO. Primeira
tiragem de 100 exemplares
Holuzam, Dezembro 2025
NOTAS:
1. Cândida Teresa Ruivo, Antena 3, 6.11.2024.
https://www.rtp/play/p2362/e807152/especial-a3
2. ibid.
3. Manuel Falcão, Antena 3, 6.11.2024
https://www.rtp/play/p2362/e807152/especial-a3
4. Cândida Teresa Ruivo, por telefone, 24.9.2025.
5. ibid.
6. Manuel Falcão, Posto Emissor, 2.11.2024.
https://expresso.pt/blitz/2024-11-02-os-pregoes-e-declaracoes-davam-para-tudo-a-dada-altura-chegavam-centenas-por-semana-manuel-falcao-primeiro-diretor-do-blitz-93a7472a
7. Miguel Francisco Cadete, Posto Emissor, 2.11.2024.
8. Cândida Teresa Ruivo, por telefone, 24.09.2025.
9. ibid.
10. ibid.
11. ibid.
12. ibid.
13. Manuel Falcão, Posto Emissor, 2.11.2024.
14. Cândida Teresa Ruivo, por telefone, 24.9.2025.
15. ibid.
16. Decreto-Lei n.º 268/85, de 16 de Julho.
Htpps://diariodarepublica.pt/detalhe/decreto-lei/268-1985-183439
Agradecimentos: Cândida Teresa Ruivo, Cristina Maria
Nunes, Maria João Lopes, Miguel Francisco Cadete, Rui Tentúgal.
Páginas: 68
A5
O diário Portugal Hoje deixou de ser publicado em Julho
de 1982. Nessa altura e desde há muitos meses, incluía aos Sábados o suplemento
de música Som 80, coordenado a partir de certa altura por Manuel Falcão e com
arranjo gráfico de Cândida Teresa Ruivo. «O Manuel deixava-me fazer tudo, até
paginar!»1
Isto sugere quase um perigo, ouvindo o tom das palavras
de Cândida, mas para o Blitz, continuou a poder disfrutar dessa liberdade
enquanto responsável gráfica pelo jornal: «Inicialmente, eu tinha muito pouca ideia
do que é que ia ser o Blitz, porque fui apanhada muito de repente […] e havia
três coisas que para mim eram marcantes: New Musical Express, a Rolling Stone e
o Melody Maker. Aquilo tudo misturado podia dar qualquer coisa. Eu acho que
quando há coisas bem feitas, uma pessoa… Não é estar a copiar, é ter aquilo
como inspiração, porque resulta, porque funciona, e portanto eu juntei essas
coisas todas e juntei uma coisa que eu percebi rapidamente que tinha que
arranjar, que era uma paginação que eu pudesse mudar depressa. Porque ás vezes
tinha a página fechada e chegava mais um anúncio e nós não nos podíamos dar ao
luxo de deitar fora um anúncio […].»2
Manuel Falcão transmite a ideia de que os primeiros
números de um jornal, pelo menos aqueles em que trabalhou, nunca resultam como
se pensava: «Há sempre uns compromissos que tem de se fazer, sobretudo à boca
da máquina, […] mas eu acho que existia uma ideia gráfica daquilo que nós
queríamos que fosse […]. Nós entendíamo-nos perfeitamente sobre isso, eu e a
Cândida […].»3
Um dos aspectos visuais distintivos do Blitz fora
transportado do Som 80: a ocupação da primeira página com uma só fotografia,
grande. Falcão menciona o jornal francês Libération como modelo, sobretudo, o
suplemento Sandwich, publicado entre 1979 e 1981, cuja capa tinha uma
fotografia de página inteira.
Pouco antes da estreia do Blitz, a minúscula redacção
encabeçada por MF estava insatisfeita com a identidade visual já criada. É
nesse ponto que Cândida é chamada, segundo ela quase literalmente na véspera,
para refazer tudo: «[…] Digamos que o jornal foi paginado – o número 1 – na
bancada da gráfica, […] parece-me que nem houve maquetes […].»4 O
único elemento que não podia ser alterado era o logotipo, detestado desde o
início mas intocável durante um ano, período requerido por lei. Só findo esse
prazo era permitida qualquer alteração de logotipo nas publicações periódicas.
A designer tratou de adoptar uma estratégia simples para ocultar essa primeira
imagem identitária do jornal: «[…] entrei naquela fúria, com as cabeças todas
que podia e não podia, de tapar o logotipo. […] Há um número 4, se não é o
número 4 é o número 6, que é um que tem o Jorge Palma na capa, emq eu só se vê
o princípio do B e a ponta do Z.»5
Também essa ilegibilidade passou a fazer parte da identidade
gráfica e em nada parece ter prejudicado a comunicação com potenciais leitores.
Sandwich aparecia aos Sábados, tal como o Som 80, sendo
que era esse o dia da semana em que o Portugal Hoje mais vendia. Foi argumento
fundamental para convencer a empresa (CEIG) que publicava o Portugal Hoje a
investir na criação de um novo semanário de música. Mas a história do jornal
Blitz ficará aqui largamente secundária À presente recolha de conteúdo da sua
mais popular secção: Pregões e Declarações. Também esta foi inspirada no
Sandwich, que publicava pequenos anúncios pessoais gratuitos, desde as comuns
trocas e vendas até filosofia compactada e desabafos políticos. O suplemento
francês duraria apenas cerca de uma ano, talvez vítima das convulsões internas
no Libération, suspenso entre Fevereiro e Maio de 1981. E em 82 admite pela
primeira vez publicidade paga, decisão contra natura muito contestada pelo
núcleo que tinha partilhado das esperanças revolucionárias pós-Maio de 68. O
jornal afastava-se da sua génese libertária e, após a suspensão temporária,
ficou próximo do socialismo de François Miterrand.
Não era intenção editorial do Blitz assumir qualquer
aproximação política, antes suprir uma necessidade sentida na realidade musical
portuguesa. Manuel Falcão destaca como factor importante para a implantação do
jornal o crescente número de bandas a serem formadas durante e na sequência do
boom do rock em Portugal (1979-82), criando-se um circuito mais ou menos
subterrâneo que carecia de divulgação. Algumas bandas na marginalidade dos
media contribuíram, aliás, com pregões próprios. Neste primeiro ano em que nos
concentramos conseguem detectar-se, por exemplo, Xutos & Pontapés,
Neo-Mono-Var, Grito Final e Hist. No caso de Grito Final, muita proactividade
no uso das mensagens para conseguir concertos fora da zona de Lisboa;
Neo-Mono-Var e Hist com tiradas contraculturais; Tim dos Xutos & Pontapés
procurava vender um “baixo de combate”.
Como prelúdio ao aparecimento dos Pregões (a partir do
número 15), logo na segunda edição combina-se semanalmente na redacção uma
frase a colocar discretamente na primeira página. MF: «Essa ideia partiu de mi.
[…] Era normalmente eu que fazia isso durante o tempo em que estive no Blitz.»6
Com cada frase pretendia-se uma espécie de slogan representativo do espírito da
equipa nessa semana, piada privada partilhada com o mundo. Mas desde o primeiro
editorial em 6m de Novembro de 1984 que se anunciava a intenção de chamar os
leitores a participar.
No número 14 é apresentada e explicada a nova secção
Pregões e Declarações, inaugurada na semana seguinte, 12 de Fevereiro de 1985,
as poucas mensagens inicialmente inventadas para fazer volume rapidamente
deixaram de ser necessárias porque os postais passaram a chegar às dezenas e depois
às centenas por semana: «Sei os sacos que ficavam por publicar. O que era
publicado seriam alguns dez por cento.»7 Antes do percurso
jornalístico que se reconhece, Miguel Francisco Cadete entrou no Blitz como mão
de obra para dactilografar os pregões, desafiado por Cristina Barrau,
secretária de redacção.
O processo, hoje em dia impensável, é descrito com
minúcia por Cândida Teresa: «[…] nós recebíamos os sacos com os pregões, aquilo
era dactilografado numa máquina de escrever daquelas com fitinha, e depois dali
ia para a foto-composição do jornal, onde havia umas senhoras e uns senhores
que copiavam o que já estava naquelas folhas para [outras] folhas com uma
máquina de escrever com fita de carbono […].»
Outra máquina transformava o resultado em tiras de texto,
que alguém colava em novas folhas que, ao adquirirem aspecto de página, era
preciso fotografar, passar a uma chapa e inserir a chapa na máquina onde
levaria a tinta que depois ficaria impressa no papel. Ainda sem qualquer apoio
digital na paginação e impressão, «[…] aqueles pregões levavam imenso tempo a
ser produzidos, como tudo o resto no jornal. […] estava-se a dactilografar
sempre e sobravam muitos.»8
O peso que a quantidade semanal de postais veio
representar reflectiu-se no restante trabalho do núcleo redactorial que,
pequeno (o jornal arrancou com concertos, recolha e redacção de notícias,
escrita de artigos e críticas, etc. Para além do facto de vários elementos
acumularem trabalho com outros jornais.
«[…] ao princípio é tudo muito novo, é tudo muito giro,
mas depois manter a continuidade destas coisas às vezes transforma-se num
pequeno pesadelo.»9
Se inicialmente a redacção fazia questão em estar a par
das mensagens que chegavam, «[…] começou a ser pesado ler aquilo todas as
semanas, aquelas toneladas, porque […] depois passou a ser assim uma coisa…
eram caixotes e caixotes com aquelas folhinhas pequeninas coladas em postais
[…]»10
Muito óbvia, então, a necessidade de mãos extra apenas
para sustentar a regularidade da secção, «[…] foi preciso começar a arranjar
gente que dactilografasse aquilo, não se conseguia dar vazão a tanto. Depois,
era preciso ler tudo, principalmente quando se instituiu a história do Pregão
da Semana. […] E então, como eles estavam a escrever e essas coisas, e enquanto
eles escreviam eu não podia paginar, fiquei eu com o encargo de ler aquilo.»11
O espírito e tom das mensagens conduziu à separação
temática: Amores, Polémicas, Anti-Wham!, Mensagens Suaves, Trocas e Vendas,
Pensamentos Ociosos. Extraíram-se aqui destaques do primeiro ano de publicação,
trabalhados sem essa separação temática e com um mínimo de alterações. Nem
todos os erros gramaticais foram corrigidos, nem toda a pontuação foi revista,
e assim se ecoa sem compromisso rígido parte do espírito de azáfama que, na
época, não permitia já atenção detalhada a pormenores. Nas páginas originais, é
frequente encontrarem-se mensagens repetidas em edições diferentes, por vezes
na mesma, também reflexo do enorme volume de postais recebidos, da maior pressa
em processá-los e, não menos importante, da multiplicação de mensagens que as
próprias pessoas enviavam, com o intuito de reforçar as possibilidades de
publicação.
De certo modo, pode pensar-se nos Pregões como algo que
se tomou forma autónoma e ganhou a sua própria lógica livre, virtualmente sem
critério nem censura. Em Novembro passa a ser escolhida também semanalmente uma
imagem enviada por leitores, premiada com a oferta de um LP. Pelas palavras (as
imagens são muito poucas para suscitar conclusões), toma-se contacto com o meio
ambiente de 1985, filtrado a partir das emoções e comentários que,
inevitavelmente retratavam as grandes linhas de comportamento da juventude
portuguesa, do Liceu para cima. Quão acima não é possível determinar, apenas
fica a dúvida instalada pela quantidade de amor atribuída a referências
musicais de uma ou duas gerações anteriores, com largo destaque para Pink Floyd
e Jim Morrison.
Apesar do confronto explícito, por vezes agressivo, entre
tribos musicais, Cândida Teresa observou uma comunidade a ser criada através deste
fórum de opiniões e convivência que gerava alguma mitologia própria: «Há coisas
que só os leitores do Blitz é que conheciam como piada. […] Na altura estava a
dar aulas na Amadora, à noite, e os meus alunos insultavam-se, mandavam bocas
uns aos outros com coisas destas, […] que eu sabia onde é que eles tinham ido
buscar […] quase como se fizesse parte de um grupo, aquilo também permitia
isso.»12
A formação de identidade está tão intimamente ligada à
necessidade de pertença como à necessidade de oposição. O conforto do número, a
multidão que ecoa os nossos pensamentos e convicções, funcionam como
confirmação de uma direção, reforço e validação do ser. Mostrar que se gosta da
mesma música sempre foi crucial para a inserção em grupos de pessoas cujo
estilo de vida se cobiça ou que se descobre partilharem do estilo que já
adoptáramos. Faz-se parte de uma célula, e frequentes vezes essa célula é de
guerrilha e mutuamente exclusiva em relação a outras. Há exemplos de
diversidade, em alguns pregões, exemplos de sentido de comunhão e vontade em
ler menos discussões, mas a regra era a militância marcada em qualquer coisa:
Metal, Surf, Vanguarda, Pink Floyd, Porto ou Lisboa, Homens ou Mulheres são
alguns dos tópicos mais acesos na troca de mensagens. A enorme quantidade de
linhas que lhes são dedicadas rapidamente banaliza e tipifica os remetentes,
tornando monótona e desinteressante a leitura continuada, se o intuito da mesma
for a surpresa ou a descoberta de vozes distintas.
A exibição de opiniões não é novidade para pessoas do
século XXI habituadas às redes sociais, mas na década de 1980 havia poucos
meios de comunicação onde se pudessem manifestar essas opiniões em público,
sobretudo fora do âmbito político. Normal encontrar, no pós-25 de Abril, não só
jornalismo engajado e maior espaço para opinião de leitores, mas também vários
exemplos de tentativas para incluir esses leitores num lote informal de
colaboração assídua. Mesmo na imprensa musical, em fase mais quente, a revista
Mundo da Canção parecia querer funcionar em regime de cooperação. Em 78/79, a
Rock em Portugal publicou vários artigos escritos por leitores. O Musicalíssimo
em 1980-81. A participação que o Blitz implementou não contemplava o conteúdo
habitual do jornal, ou seja, não se abria o jornal à “escrita musical” dos
leitores, antes se procurava conhecê-los, «[…] conseguimos perceber para quem é
que estávamos a escrever.»13
Embora a afirmação seguinte esteja totalmente aberta a
interpretações, esse conhecimento dos leitores equivalia à actual “mineração de
dados” efectuada por plataformas online. De uma forma muito menos deliberada e
sistematizada, só por consequência dirigida ao proveito económico, as mensagens
pessoais no Blitz não eram alvo de captura de informação com propósitos
comerciais directos e prévios, eram sim encaradas como uma espécie de grupo
focal que poderia ajudar na eventual adaptação de alguns conteúdos do jornal
aos gostos dos leitores. Encontram-se exemplos claros de pedidos de destaque e
artigos sobre determinados artistas.
No fundo, as páginas de Pregões e Declarações permitiam
mostrar o que se era ou pretendia ser. Humanamente, as diferenças de então para
agora são perto de zero. A necessidade é a mesma, a natureza humana é a mesma,
exceptuando o grau de ingenuidade, maior em 1985. A ferramenta havia sido
criada e colocada à disposição, e o facto de não ser possível obter respostas
ou resultados no imediato não foi obstáculo À popularidade da secção. Ao
enviar-se um postal estavam a admitir-se duas cosias hoje quase inadmissíveis
quando se trata de comunicar: o tempo físico de entrega do postal no destino e
a incerteza quanto à publicação.
Nos bastidores identifica-se uma outra diferença
fundamental entre hoje e então: o que se designou atrás como “mineração de
dados” – na prática, a angariação de endereços postais e números de telefone
dos leitores – acontecia meramente para que as pessoas pudessem entrar em
contacto entre si. Num cenário actual de vida online, essa angariação é a
primeira pedra para posterior exploração comercial. Numa publicação em papel em
1985, e da dimensão do Blitz, é duvidoso ter existido sequer qualquer tipo de
organização das mensagens com intuitos estatísticos, não só porque a equipa era
reduzida e tal tarefa exige dedicação plena, eventualmente um departamento
atribuído, mas também porque a cultura do jornal não era essa. E apesar de ser
notório que quem transcrevia as mensagens adquiria quase automaticamente
conhecimento transversal das massas de leitores, daí não terá resultado nenhum
tipo de base de dados, como hoje seria dado adquirido para capturar nomes,
traçar perfis e dirigir publicidade. A informação entrava em bruto e em bruto
era publicada.
Mais tarde, em 1992, ao ser integrado no grupo Sojornal
juntamente com o AutoSport, existiu a intenção manifestada a partir do topo de
começar a cobrar pelo espaço dos Pregões. Para Cândida a questão era simples:
pagar para enviar mensagens significaria, a prazo, o fim da secção. Francisco
Pinto Balsemão entendeu. Uma outra mudança foi o fim no entanto introduzida no
jornal, para desgosto de Cândida: os anúncios regulares passariam a ser a
cores, tal como muitas fotografias, correspondendo ao padrão contemporâneo de
outros jornais. «[…] era uma coisa que eu não queria de maneira nenhuma, porque
para mim os jornais eram a preto-e-branco e mais uma cor e ele disse Não, que
os anúncios a cores são mais bem pagos. […] Se não houvesse anúncios não havia
ordenados ao fim do mês.»14
Foi alegadamente a única cedência gráfica que Cândida
teve de fazer durante os 17 anos em que trabalhou no jornal. Sempre com
liberdade para implementar ideias e mudar o que entendesse mudar, afirma que
outra das suas irritações era o excessivo uso da cor vermelha na imprensa. Em
linha com a equipa reduzida, também a nível de recursos era necessário poupar.
Seguiu, assim, uma sugestão para reaproveitar tinta de várias cores que sobrava
de outras publicações na gráfica, alterando frequentemente a cor da palavra
Blitz.» O Blitz sempre viveu um bocado daquilo a que chamávamos as
reformulações gráficas instantâneas, que era… Um dia eu achava que aquelas
cabeças já eram muito feias, ou que não tinha paciência para aquilo, ou já
estava farta, e fazia umas novas e dava umas voltas ao jornal assim só porque
me apetecia. Como ninguém reclamava comigo e toda a gente achava que valia a
pena ir mudando, eu ia mudando! Pronto, foi isso, é a grande história gráfica
do Blitz. […] Nunca tive impedimento nenhum por parte de nenhum dos meus
directores.»15
Esta abordagem casual traduzia-se na experiência de
folhear o jornal e acabava por reflectir a orientação musical “alternativa2 que
o Blitz começou por adoptar e também o caos controlado dos Pregões e
Declarações, raramente censurados. Apesar do tom duro e insultuoso de algumas
mensagens, seria preciso ultrapassar um limite considerado abusivo e, de acordo
com o que Cândida dá a entender, isso raramente aconteceu.
Mas o filtro não era apertado, começando pela publicação
aberta dos contactos que, se não servia para proveito comercial do jornal, era
a via mais directa para o estabelecimento de laços no mundo físico dos leitores
que contribuíam e de todos os que apenas liam. Laços afectivos e procura de
correspondência tanto quanto procura de confronto. Noutro grau que vamos supor
minoritário, também ódio e vingança. Um caso, pelo menos, gerou acção em
tribunal: rapaz divulgou contacto da ex-namorada, acompanhado de palavras nada
abonatórias que originaram vaga de telefonemas insultuosos. O pai da rapariga
apresentou queixa contra o Blitz.
O acesso a música (gravação de cassetes e mesmo compra de
discos em circuito paralelo ao das lojas) foi enorme aliciante nos Pregões, tal
como a consolidação de um mercado informal de instrumentos musicais em segunda
mão. Durante anos, não foi incomum recorrer-se a esquemas de contrabando para
evitar as elevadas taxas aduaneiras ou simplesmente arranjar instrumentos ou
equipamento inexistente em Portugal. Neste ano de 1985, o IX Governo
Constitucional fez promulgar em Decreto-Lei a redução em 50% dos direitos de
importação e eliminação da sobretaxa adicional. Reconhecia que «compete ao
Estado promover e assegurar o acesso dos cidadãos à fruição e criação cultural,
nos termos constitucionais. Os instrumentos musicais constituem meio inequívoco
de estimular a criatividade e identidade cultural.»16
Até então era genericamente aceite que o aceso a
instrumentos estava facilitado apenas para bandas filarmónicas e outras
associações consideradas de promoção cultural. O Decreto-Lei entrou em vigor
cerca de um mês após a assinatura do tratado de adesão de Portugal À CEE,
prenunciava tempos de maior abertura e acessibilidade à informação e consumo
(também cultural), inevitabilidade do progresso social.
Nas páginas do Blitz já se criava uma rede de cobertura
nacional onde cultura se fundia com entretenimento e negócio privado, mas onde
se estabeleceu também uma plataforma de desabafo e escape psicológico, promoção
de personalidades, ideais, combates e protesto e sobretudo, entende-se ao ler
com pormenor, a observação do fundo comum de humanidade simples, até banal, que
permeia e sustenta a vida em sociedade.