«A Canção da Família surgia agora atrás de Kino. E o
ritmo da canção da família era a pedra de moer onde Juana trabalhava o milho
para os blocos matinais (…) Juana cantou suavemente uma canção antiga que só
tinha três notas e no entanto infindável variedade de intervalos. E isto também
era parte da canção da família. Tudo era parte. Por vezes ascendia a um acorde
doloroso que apanhava a garganta, dizendo isto é segurança, isto é calor, isto
é o Todo.»
John Steinbeck, The Pearl, 1947
Todas as imagens digitalizadas para escala de cinza a
partir de objectos de arquivo pessoal.
José António Moura: textos (excepto onde creditado ou
óbvio), recolha e manipulação de imagens, composição gráfica, paginação,
tradução, revisão (assistida por Pedro Santos).
Na face: Aspecto da capa do LP Schafttjdsamba (De
Fabriek, 1982).
Página 2: Reprodução da grelha na capa do LP Gold Is The
Metal (Coil, 1987).
Página 99: Repetição do nome do projecto do LP Escorts
And Models (Borghesia, 1989).
Impresso em risografia no estúdio DESISTO. Primeira
tiragem de 50 exemplares.
Marte Instantânea, 2025.
Páginas de texto e imagens que assinalam muitos anos de
divulgação de música. Demonstra-se como, a partir da perspectiva de fã, se
circula para outros papéis mais activos. Nada se inventa, propriamente, mas
tudo se ergue do nada. Como em outros percursos, são as ligações que se fazem
que identificam a personalidade, são as escolhas de umas coisas em detrimento
de outras, incontáveis vezes, que distinguem o nosso percurso de outros.
Curiosidade, anotações, cópia, iniciativa e aprendizagem com quem já fazia o
mesmo. Benefício da generosidade de pessoas que abriram portas, facilitaram
contactos, gravaram e emprestaram música, deram oportunidades. Sem elas, tudo
seria mais difícil e menos interessante.
O arquivo espelha o percurso e as sensações com bastante
evidência e, por isso, o texto está a o seu serviço, não funciona em autonomia
nem se reclama biográfico. Por isso, também, encontra-se fragmentado de acordo
com a sequência cronológica / temática das imagens, frequentemente como
legenda. Ainda assim, espera-se fluído e suficientemente elucidativo.
Segunda temporada do programa de rádio Refúgio. 19
emissões, respectivas playlists mensais e folhas de trabalho ilustradas com
património real: arte, cartas e infos relacionadas com a música transmitida.
Tempo ainda de colagens e letras decalcadas para formar as composições
gráficas. A passagem de Almada para Lisboa sugeriu necessidade de
conceptualização mais apurada e um certo peso de responsabilidade. Avançar no
terreno e ter de lidar com maior fluxo de solicitações.
PARTE 5
Refúgio
na Rádio Univeridade Tejo, Front de L’Est, Front Line Assembly, Johnson
Engineering Co., 400 Blows, Sprung Aus Den Wolken, etc.
Em Julho de 1988 começava a segunda temporada do programa
de rádio Refúgio, agora acolhido na Rádio Universidade Tejo, com estúdio no
Instituto Superior Técnico, Lisboa.
Objectivo concretizado, fazer parte da grelha de uma
rádio que emitia programas que respeitava. Explicado o Refúgio ao coordenador
Rui Brazuna, não parece ter existido resistência de maior. Algum excesso de
zelo na apresentação, procurar fundamentos teóricos sobre o tipo de música a
divulgar, algo que parecesse sério e empenhado. Foi entregue um pequeno dossier
dedicado à Máquina, deixando claro que se trataria sobretudo de música
electrónica. Trabalho caseiro de corte e colagem, na apresentação visual , e
confiança de que a proposta era original, apesar de pontuais semelhanças com um
dos pilares da RUT, o Crepúsculo dos Deuses.
Investimento e dedicação durante os seis meses de vida do
Refúgio (Julho a Dezembro), em entrevistas exclusivas, emissões especiais,
passatempos com ofertas, experimentação formal na organização das emissões,
elaboração de playlists e uma assinatura gráfica que começou com um carimbo
desenhado por António Carvalho, progressivamente co-autor e co-apresentador do
programa. O carimbo destinava-se, em primeira instância, a marcar as cartas que
seguiam para artistas e editoras; as playlists mensais, com grafismo “a rigor”,
seguiam também nas cartas como prova de que a música desses artistas e editoras
estava efectivamente a ser divulgada. Um dos pontos fulcrais na apresentação do
projecto à RUT foi, aliás, a correspondência já mantida no estrangeiro como
base e fonte para emissões distintas, com música e informações exclusivas.
(p.6 a p.11) Amostras de envelopes recebidos durante
cerca de 7 anos de correspondência regular.