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31.8.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 20 - Setembro de 2004


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
64 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano V
Nº 20
Setembro de 2004



REEDIÇÕES
SANTA MARIA, GASOLINA EM TEU VENTRE!
Aventuras Sónicas



Ao longo da sua já longa carreira, Jorge Ferraz passou por vários projectos. Actualmente a liderar os Fatimah X, o músico fundou, entre outros, os Ezra Pound e a Loucura, Bye Bye Lolita Girl, João Peste & O Acidoxibordel, God Speed My Aeroplane e Mua’dib Off Distortion. A sua vontade de desaparecer temporariamente do meio musical e uma cíclica vontade de começar de novo, fez com que Ferraz se desdobrasse em vários grupos. Os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, banda que emerge em Lisboa, em 1986, e que durou cinco anos, foi talvez o projecto que lhe deu maior notoriedade, devido ao considerável impacto que tiveram na fértil cena independente portuguesa da segunda metade dos anos 80. Vítor Inácio, o principal cúmplice de Jorge Ferraz, em vários dos seus projectos, foi o único outro músico que integrou os Santa Maria desde o início. Pelas várias formações do grupo passaram músicos como Sapo (Pop Dell’Arte, Mão Morta) ou Tó Trips (Lulu Blind, Dead Combo). “Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção2, álbum editado em 1989 pela Ama Romanta e um EP de edição de autor de 1991, são agora oportunamente editados em conjunto pela Sabotage.




- Como surgiu a ideia de reeditar “Free Terminator” e o EP? Porquê uma reedição conjunta?
 A ideia partiu da Sabotage, que apresentou a proposta e demonstrou sempre grande empenho e ponderação nos contactos e nas negociações com todas as partes envolvidas, Santa Maria e Ama Romanta. Conseguiu-se igualmente que o Nuno Leonel, que já trabalhara connosco, fizesse uma nova capa. Quanto à edição ser conjunta; bem, teve a ver com questões práticas – os 2 discos têm no total uma duração comum à dos CDs actuais-, e afectivas – queríamos mostrar todo o trabalho que foi gravado em estúdio pelo grupo, dando igualmente, conta da sua riqueza e diversidade na evolução.
- Porque reeditar estes discos agora? Que reacções espera?
 Porque, para além do interesse que o João Peste sempre foi demonstrando com a reedição, só agora apareceu alguém, a Sabotage, entusiasmado com o projecto e que assumiu e financiou a sua edição. Por outro lado, espero que contribua para dar a conhecer a um público mais alargado e aos apaixonados que nunca conseguiram os discos, as gravações em estúdio do grupo. Que reacções?... Sinceramente, não sei. Tudo era um pouco paradoxal e contraditório. Na altura em que o LP foi editado, as críticas foram na generalidade muito boas ou “de perplexidade”. No entanto, repetiam-se aqui e acolá algumas ideias que me irritavam imenso pela sua incorrecção e injustiça. Falo em especial da colagem aos Sonic Youth que algumas pessoas faziam. Finalmente, depois deste tempo todo e do estatuto de culto e de “projecto irrepetível” ou “alienígena” que se foi paradoxalmente construindo em redor Santa Maria algum tempo depois do seu fim, espero que se perceba de vez que este grupo não era bem do mesmo mundo que os Sonic Youth, apesar da encruzilhada noise. Por outro lado, e para ser totalmente honesto é preciso dizer que os Santa Maria desfrutavam de uma “visibilidade” mediática superior ao seu peso em termos de número de pessoas a que chegavam ou encantavam. Convites para concertos eram poucos e só em Lisboa ou arredores e as tiragens dos discos foram pequenas. Veja-se, por exemplo, que o grupo era “apadrinhado” por 2 pessoas importantes do mundo da música alternativa portuguesa: João Peste e Adolfo Luxúria Canibal. Logo, isso contribuía muito para o “mediatismo” do grupo – embora não para o seu apelo “comercial”. No entanto, por outro lado, os apaixonados que conseguíamos, senão eram muitos, pelo menos ficavam bem enfeitiçados. Por isso, não sei que reacções esperar.
- Quando foi originalmente editado, “Free Terminator” surgiu como um ovni no underground. Pode-se afirmar que é um disco de pós-rock que apareceu alguns anos antes de se falar nesse estilo musical. É um disco avançado no tempo?
 Não sei se é ou não pós-rock ou avant-rock ou free rock ou etc. No entanto, se pensarmos no que se seguiu nos anos 90, talvez. Para ser rigoroso, estaria mais próximo do pós-rock o que fiz logo de seguida com God Speed My Aeroplane ou God Spirou. Por outro lado, nunca os Santa Maria tiveram o tom de frase – melodia e ritmo -, em evolução circular do pós-rock; os Santa Maria sempre foram romanticamente excessivos, irresponsavelmente “tecnológicos” e pouco hipnóticos. Por isso não sei se é antes do tempo ou fora do tempo.
- Que fontes de inspiração (discos, literatura, filmes, etc.) estiveram na origem de “Free Terminator”? Que música ouvias nessa altura?
 Bem, só posso falar por mim e, embora os Santa Maria espelhassem muito o meu imaginário, o grupo não era apenas eu. As outras pessoas também deixavam um cunho pessoal e importante, em particular o Vítor Inácio, o baixista. Sobre filmes, não sei – se há alguma relação, será inconsciente. Só se for toda a mitologia western, desde os clássicos até ao western spaghetti. Literatura, sim! Bem mais importante até que as influências musicais. Aliás, sempre quis fazer poesia em música. Assim, há claramente a paixão pela ficção científica “high tech-low life”. E, depois toda a tradição da literatura e poesia malditas da 2ª metade do século XIX até às vanguardas do século XX – em especial os modernismos, dadaísmos, surrealismos, saltando depois para a beat generation. Música, posso falar de quatro coisas -, que conscientemente tive como referência – pontos de navegação à vista, sem nunca querer ir morrer nos seus braços: Sun Ra, a no-wave, o dramatismo e a densidade melódico-harmónica de José Mário Branco e as canções de adeus e embalar. Certamente tive outras influências, e tenho, só que não são conscientes. O que mais ouvia na altura… havia um disco de versões de músicas de Ennio Morricone “The Big Gundown” coordenado por John Zorn, que eu ouvia muito, aliás era bem consumido pelos membros do grupo. E Robert Fripp, Sonic Youth, Public Enemy, Funkadelic, Can, Big Black, Love, Glenn Branca, Pop Dell’Arte, Terry Riley, Schooly D, Negativland, United States Of America, Thelonius Monk, Sun Ra, My Bloody Valentine, Elliot Sharp, Jimi Hendrix, Jacques Brel, etc.
- A música dos Santa Maria eram essencialmente instrumental. Não estava interessado em fazer canções mais formais, com letras e voz?
 Os temas eram compostos e arranjados como instrumentais que nos pareciam assim suficientemente falados, pois estavam cheios de imagens evocadas e de pequenos poemas na sombra e nos títulos. Além disso não havia ninguém vocacionado para cantar.
- O seu projecto anterior Ezra Pound e a Loucura tinha características sonoras diferentes dos Santa Maria. O que o fez evoluir para uma banda intensamente eléctrica e radical?
 Bem, entre Ezra Pound e a Loucura e os Santa Maria, ainda formei, com o Vítor Inácio, os Bye-Bye Lolita Girl. Não vejo essas diferenças assim tão acentuadamente. Nos timbres, na proficiência técnica, nas capacidades e nos conhecimentos técnico-musicais, na consciência em relação aos objectivos, sim, há diferenças. Além disso, os Santa Maria têm uma agressividade positiva, exaltante, excessiva que estava pouco presente nos grupos anteriores. Todavia, a desconstrução e brusquidão dos ritmos, a dissonância – a preto e branco nos Ezra Pound e de cores pop e doces nos Bye-Bye Lolita Girl -, as melodias excessivas e à beira da dissolução que os vários instrumentos punham em jogo, lutando e amando-se, um lirismo exacerbado, uma música aparentemente desajeitada e nunca totalitária, isso sempre existiu – com intencionalidade e consciência diversas -, em todos os meus projectos, até hoje. Ou melhor, foi progressivamente existindo… Certamente também houve um apuramento de programas e capacidades, interiorizando e sintetizando o que o tempo em volta e a técnica traziam. Ou, se calhar, arranjamos melhor equipamento e desenvolvemos as técnicas de guitarrear e distorcer o som dos instrumentos. A mudança foi gradual e em continuidade. Portanto sobre ruptura radical… nunca a vi desse modo.
- Havia muito espaço para improvisação nos concertos dos Santa Maria?
 Em geral, não; a densidade excessiva e a estrutura da nossa música não permitiam grandes improvisos, pois facilmente se chegaria a uma cacofonia injustificada e inconsequente, e esse não era o nosso objectivo.
- O título do tema “Era Uma Vez Um Preto Com SIDA (AIDS)!”, causou, na altura, alguma polémica e foram acusados de racismo.
 Para mim sempre foi de uma crueldade triste e irónica ouvir dizer isso. Só vejo 2 motivos para que se acredite numa coisa dessas: haverá gente que escutou demasiado en-passant e fixou certas frases bombásticas sem ouvir tudo atentamente. As palavras todas, a sua organização, o contexto, o modo como eram ditas, quem dizia, os vários níveis de significação que isso implica, etc., ou então reproduziu ideias de “ouvir dizer”, fiando-se em aparências não indagadas ou em associações incorrectas; haverá quem objectivamente teve má vontade e/ou preconceitos, ou foi facilmente manipulável, o que levou a uma recusa em ouvir, ver e entender para além dos lugares comuns, dos slogans e chavões de boas intenções e demagogia ou de artísticas frases-feitas. O texto é duro e nada fácil de digerir, por exemplo com enunciação de práticas sexuais polémicas, mas é um texto magoado; aliás como o tema. E, além disso, a arte não é entretenimento de beberete ou “belos” vazios consensuais, mas fundamentalmente beleza convulsiva, como dizia Breton, feitiço perturbante e despertar de corpos e sensações vivas e consciências e reflexão. O texto trata de uma realidade que, hoje, é ainda mais tragicamente apocalíptica: a devastação provocada pela Sida na África Negra. Um problema de uma parte enorme da humanidade, onde, ao contrário do sucedido com outros grupos – que estavam a ser alvo de ataque e discriminação como a comunidade homossexual do mundo ocidental – e isso era subliminarmente referido no poema -, e que tiveram e têm alguma capacidade de mobilização económica, política e social para enfrentar a questão com relativo sucesso – o ser cultural, política e economicamente da África Negra, no mundo actual, parece traçar um fatídico e ignorado destino. Além disso, o texto remetia também para um dos perigos das sociedades actuais, uma forma de alienação perigosa: é que ao invés de nada se dizer, fala-se antes de tudo e de uma forma telegráfico-noticiosa, ou numa linguagem clínica pseudo científica ou ainda tudo sendo apropriado como afirmações artístico-publicitárias pós-modernas, com enunciados desconstruídos que lhe tiram todo o sentido subversivo e a real capacidade de intervenção social. Aliás essa não foi a única acusação. Por muitas posições que fui assumindo, à boca pequena chamaram-me racista, militarista-fascista e até mesmo homofóbico. Talvez seja porque eu nunca partilhei do pensamento dominante de conservadorismo politicamente correcto e demagógico, travestido de discurso revolucionário e vanguardista, de uma certa esquerda portuguesa que pretende ou pretendia ser o guardião dos dogmas, político-sociais e das posições morais, no mundo artístico não comercial. E, talvez também porque tomei posições contra, ou não alinhei em, leninismos, trotskismos, maoísmos e guevarismo-castrismo, que nos meios ditos de cultura vanguardista, contaminam de uma forma dogmática e demagógica e intolerante o discurso e as ideias. Aliás onde é que está a liberdade inominável em todos esses movimentos e referências ideológicas, cujos mentores criaram ditaduras altamente violentas. E isto não faz de mim defensor de posições de direita, o que também não seria um pecado mortal, embora não o seja de todo. Agora, sim, sou um feroz individualista defensor de um “libertanismo” responsável que entende o solidarismo como uma responsabilidade ética fundamental, onde se mistura, nem sei como, uma crença que, à falta de melhor, eu diria ser católica, no aspecto encantatório dos mistérios e da fé, e na angústia da culpa, mas nunca na organização institucional e nos dogmas de comportamento social.
- Depois dos Santa Maria formou vários grupos e ainda faz música. Sendo um resistente da sua geração como vê a evolução do cenário musical português?
 De bom: muita quantidade e variedade com qualidade média, descentralização, maior actualidade nas linguagens, capacidade de auto-organização, produtos mais profissionais e exigentes nos aspectos técnico-formais, fim dos complexos de modernismo ou das crises de adolescência que leve a ignorar o que vem detrás. De menos bom: o provincianismo do “sou tão bom como lá fora”, as capelinhas, a guetização dos diferentes tipos de músicos e músicas que os leva a desconhecer ou a menosprezar o que no gueto ao lado se faz ou o que não vem com o formato normalizado e, acima de tudo, a excessiva preocupação com o fazer as coisas bem, parecer “pro” e estar bem com os media, em vez de se arriscar, criar, inovar, partir a cabeça e, no meio disso, se vislumbrar uma luz mágica que identifica os aventureiros e os descobridores de mundos, mesmo que morram na viagem.
Nuno M. Castêdo

SANTA MARIA GASOLINA EM TEU VENTRE
Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção + EP (CD Sabotage)

“Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção”, álbum editado originalmente há 15 anos, permanece como uma das mais radicais experiências da história do rock português. De cariz arty, a música nele contida é misteriosa e agreste. Este não é um trabalho de fácil audição (até porque é essencialmente composto por instrumentais), mas é um disco aconselhável a quem procura ousadia estética no rock. Paisagens sónicas de um lirismo inflamado, súbitas explosões de electricidade, mudanças bruscas de direcção, diálogos de guitarras caóticos devedores do free jazz, atitude desconstrutivista e confrontacional da no wave, exploração das imensas possibilidades da guitarra eléctrica, torrentes de ruído branco, jogos tímbricos e harmónicos em rota de colisão… tudo isto forma um álbum singular onde dissonância, melodia e ritmo dissolvem-se num magma sonoro abrasivo e intenso. O EP (sem título) que assinalou o fim da banda beneficia de uma produção mais cuidada, mas mantendo intacta a expressividade das guitarras angulares e toda a estranheza que desde sempre caracterizou a banda. Saúda-se a reedição destes dois registos, com realce para “Free Terminator”, uma obra marcante da música urbana portuguesa.
Nuno M. Castêdo




FELIX KUBIN
Matki Wandalki (CD A-Musik)
E eis que chega a festa! Felix Kubin está de volta com um novo álbum, e com ele toda a gama de efeitos e de melodias sacadas do carrossel mágico ou de um Star Trek dopado com LSD. Completamente irrequieto, “Too Technical” é um exemplo disso, uma canção pop atravessada pela perversão do industrial (é o próprio Kubin que confessa a influência dos DAF e dos Throbbing Gristle) e pela irrisão dos Devo ou dos Negativland. Neste novo álbum há uma faixa com Holger Hiller (pioneiro na introdução do humor na electrónica alemã) em que o carrossel se torna evidente e surrealista qb, surrealismo que se torna particularmente óbvio na delirante versão do horripilante “Hello” de Lionel Richie. Kubin apropria-se da memória colectiva e rasga-a aos pedacinhos, reconstruindo-a de seguida com um sorriso simultaneamente infantil e perverso. Talvez por o novo álbum ser um pouco mais acessível, o humor exibe ainda mais a faceta rebelde e surpreendentemente reflexiva da forma com que Kubin se ouve a si próprio.
(8/10) CAL

SAMUEL JERÓNIMO
Redra, Andra, Endre De Fase (CD Thisco)
Eis que a Thisco, importante editora portuguesa vocacionada para as tendências alternativas da electrónica, muda radicalmente de diapasão e investe na edição de um disco de música minimal repetitiva. Na esteira de gurus desta linguagem musical como Steve Reich, Philip Glass, Terry Riley ou La Monte Young, Samuel Jerónimo apresenta três longas composições, tecnicamente irrepreensíveis e de difícil execução, que se baseiam, claramente, nos postulados da estética minimalista os quais norteiam o compositor a criar motivos melódicos (ou rítmicos) repetitivos que se vão complexificando, paulatinamente, com a junção progressiva de novos elementos que vão enriquecendo a estrutura no seu todo. É um disco que exige atenção por parte do ouvinte, dada a riqueza de pormenores e as subtis alterações estruturais. Seria um trabalho original, caso não estivesse datado (esta estética tem mais de 30 anos de vida nos EUA) e fosse uma experiência pioneira do género em Portugal, visto que a primeira fase da carreira dos Telectu (Jorge Lima Barreto e Vítor Rua) há vinte anos atrás, foi preenchida com trabalhos dentro desta abordagem Estética). De qualquer modo, “Redra, Andra, Endre De Fase” não deixa de ser um disco a descobrir por parte dos melómanos mais conhecedores deste tipo de composição musical.
(6/10) VA

VÁRIOS
Antologia De Música Electrónica Portuguesa (CD Plancton Music)
Faltava à discografia nacional um disco como este: um disco que compilasse alguns dos maiores nomes da música electrónica portuguesa, sendo esta entendida mais no sentido de música experimental ligada às correntes avant-garde (electro-acústica, concreta, livre-improvisação, etc.). O responsável por esta antologia (pela selecção e produção) é um músico que conhece por dentro todas as manifestações estéticas relacionadas com a música electrónica portuguesa: Rafael Toral. Assim, neste disco estão representadas as maiores referências nacionais das novas músicas contemporâneas. Filipe Pires (um dos pioneiros da criação musical por computador), Nuno Canavarro, Cândido Lima, João Pedro Oliveira, Carlos Zíngaro, Telectu, Nuno Rebelo ou o pioneiro (e tantas vezes incompreendido) Jorge Peixinho. “Antologia De Música Electrónica Portuguesa” tornar-se-á, desta feita, um importante documento histórico sobre esta faceta da criação musical portuguesa.
(7/10) VA

reedições
PHILIPPE BESOMBES
Philippe Besombes surge no contexto da cena avant garde dos anos 70, um território sem margem, influenciado pela cultura popular, numa Europa fértil de novas concepções artísticas e maiores revoluções sociais. Membro de dois grupos do circuito francês, Pôle e Hydravion, Besombes conseguiu relacionar através das suas incursões electrónicas diversos subgéneros do rock e do jazz convencional, encandeando-os num espaço de liberdade e experimentação, alcançando resultados verdadeiramente inovadores. A sua linguagem incaracterística destilou a animosidade aos cânones de Morton Feldman, aproximou-o do minimalismo de Tony Conrad, LaMonte Young e do “Dream Syndicate” em geral – com notável incidência na vertente psicadélica e étnica de Angus Maclise -, e encerrou-se nos primórdios do kraut rock. “Libra” (CD MIO) é o seu primeiro trabalho a solo e remonta a 1973. É também o primeiro de uma trilogia a ser reeditada pela Mio Records este ano. Composto por 17 peças distintas este disco foi feito enquanto banda sonora para um filme com o mesmo nome. Cada tema decorre num ambiente distinto, onde breves minutos de melodia sintetizada introduzem longos instrumentais de distorção. A percussão é muitas vezes extraída das cordas do piano. As colagens são quase sempre ambíguas e torna-se impossível identificar a origem do som. No mais fantasmagórico dos cenários percebe-se a voz de uma criança entrelaçada no ritmo de um texto a correr em código morse. No final, dois temas bónus interpretados em piano preparado, excluídos das sessões de gravação do disco.
Joana de Deus



Publicações
BANANAFISH #17


(http://www.midheaven.com/labels/tedium.house.publications.html)
Com uma capa da autoria do cartoonista canadiano Jason McLean, eis que se nos apresenta – para gáudio de alguns e irritação de outros -, mais um número daquela que será a publicação sobre música mais radical da actualidade. O teor dos textos continua a ser elegantemente cáustico sem deixar de manifestar entusiasmo para com os seus objectos, e entre estes contam-se, desta vez, Carla Bozulich, o duo Jazzkamer ou o músico noise japonês Astro. O destaque vai contudo para a entrevista conduzida por Tim Barnes a Hetty MacLise (companheira de Angus MacLise) e para a peça sobre o próprio Jason McLen que aproveita para discorrer sobre os comics, o movimento fluxus e as doenças mentais. No que diz respeito à secção de críticas há muito por onde vaguear. Imaginem escritores ou artistas do movimento surrealista a escreverem sobre avant-rock, música improvisada, electrónica e reedições de nomes da música popular… JM





12.9.17

Memorabilia - Bilhetes (33) - Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre + More República Masónica, RRV, 03.02.1990


Rock Rendez Vous
RRV
Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre
More República Masónica
03.02.1990










23.6.17

Memorabilia - Bilhetes (4)


Como prometido no post anterior...










24.9.16

Recordações (16) - Folhetos de Programação do Rock Rendez-Vous (RRV)


Rock Rendez-Vous
RRV
Folhetos de Programação

1 - Abril 1988

Eu sei que vi lá os Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre duas ou três vezes, mas já não sei dizer se esta foi uma delas :-)











8.2.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (158) - anúncios #1








21.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (53) - Liquidação Total - Nº 0 - Agosto de ????


Liquidação Total
Nº 0 - Agosto
60 esc
28 páginas a p/b





Índice
Lemmy, A Maldição do Hard - 3
Esoterik Satie - 6
Para Lá Da Estrada - 12
Sic Transit Gloria Pop - 14
Era Uma Vez (Para a Sara) - 16
Faces da Barbárie - 20
De Memória - 22
Palavras Novas Para Uma Literatura Secular - 24
Uivar À Lua - 26


Editorial

LIQUIDAÇÃO TOTAL. A parcialidade é ingénua e os movimentos que em torno da literatura se dissolvem em verborreias eternas, mais não são do que excrementos visíveis aos olhos de quem pode sexualmente profanar a eternidade do verbo e da qualidade de estar cá.
LIQUIDAÇÃO porque a morte mais não é do que a existência da literatura jornalística nacional - a tonalidade é, sem precisosismo, a finalidade última de dor de estar "Graffitado" numa das mais porcas paredes da capital onde o jornal se fixa sem memória em escadas sonolentas e impressoras sem sentido único que avançam e recuam como quem se deita com a mais preciosa das prostitutas.
O nosso império não é pretendido. A a firmação de uma vaga mais não é doq ue um sentimento próprio e a definição de uma LIQUIDAÇÃO TOTAL.

LIQUIDAÇÃO TOTAL é uma publicação periódica.
Coordenação de Edição: FERNANDO ALMEIDA SOBRAL e NUNO GARCIA LOPES
Coordenação Gráfica: RUI BRAZUNA (agradecimentos especiais a F. PERA)
COLABORADORES: ADOLFO M. DE MACEDO, AMÉLIA CABAÇA, ANTÓNIO DUARTE DE ALMEIDA, ARLINDO PINTO, FERNANDO SOBRAL, HELENA MORAIS, JOSÉ FAÍSCA, JORGE MARTINS, NUNO G. LOPES, RUI BRAZUNA, VASCO FERNANDES.

LIQUIDAÇÃO TOTAL é uma publicação periódica.
Propriedade do Grupo Lisboeta de Projectos Alternativos (Galpa)
Rua de S. Marçal, 48 2º-Dto. 1200 Lisboa

Sic Transit Gloria Pop
Toda a gente está convencida que com três guitarras, duas ideias e um nome imbecil se forma uma banda. A ideia não é exactamente original mas também não nos interessa aqui escrutinar a percentagem de corrupção que vai nos ouvidos dos músicos. Às vezes passamos semanas a fio - uma eternidade - a divagar sobre os acordes que convidam o corpo à dança e a alma à salvação. E, no fundo, que fica de tudo isso, já que todas as bandas pop acabarão por se sumir. e delas nem o pó trará notícias.
Foi esse o mais importante cartão de visita do Punk: as bandas não são para durar. Só os hippies (e os seus aparentados, como os Dire Straits) ainda supõem que uma banda é para durar uma eternidade.
Às vezes, é certo, ficam canções que assobiam a história de uma década - ou menos. Mas hoje chegámos a um beco - não há mais nada para ouvir (ou antes, há que buscar que novas coisas se devem ouvir). Como dizia Morrissey (dos Smiths) o problema é que existe um fosso de uma década entre cada boa canção.
Hoje apetece, cada vez menos, falar em LP's (um conceito sinfónico vulgarmente neo-hippie), mas sim em canções, em singles. São temas que tocam fundo a nossa alma e depois se esquecem, como se de antigos brinquedos se tratassem. E é essa a questão: o que é que a pop está fazendo de errado hoje em dia? Nada, é exactamente isso. E eles às vezes querem tão pouco: um carro novo e um disco no Top.
Mas nos confins do deserto há algumas bandas que vão desafiando o tempo: estão, claro, na Grã-Bretanha. A melhor banda da actualidade, as escocesas Shop Assistants (basta ouvir os singles 'All Day Long' e 'SafetyNet') são o exemplo da nova verdade no mundo da pop - o amadorismo. David das Shop Assistants diz: "Tentar fazer coisas diferentes? Nós estamos a fazer coisas diferentes". E a bela Alex não resiste: "Nós somos muito mais incompetentes que todos os outros". É isso o centro da nova dinâmica pop - a incompetência e o sangue na guelra. Porque é que falhou o Punk - porque os seus músicos se acomodaram à doce vida de serem Pop Stars. A acomodação é um sinal de doença hippie. A pop deve evitá-la.
As novas bandas (como as Shop Assistants ou os Soup Dragons - que todas as noites se ouvem no programa de John Peel na Radio 1) não recusam o comercialismo. Como dizia Nick Hobbe dos Shrubs (uma nova banda da ilha da pop): "Eu não sinto antagonismo face ao negócio musical - é grande negócio e não tenho pretensões que seja outra coisa", ou Ann das Shop Assistants: "grande parte das nossas canções são comerciais e pop".
A nova atitude das bandas é divertimento e infantilismo - não sabiam nada, tudo querem saber. Não tenho dúvidas: a música está hoje milhentas vezes melhor do que estava há 10 anos. Isso é bom? É sim, claro que é. É esse o melhor futuro para a pop? Óbvio. E se não for? Bem, então só nos resta chorar e deixar que uma outra verdade dignifique os nossos ouvidos.
Fernando A. Sobral







Era Uma Vez (Para A Sara)
Haverá canções de rock 'n' roll que eu te possa oferecer?
Era uma vez...
que ras; que és um óptimo estofo!
que és um óptimo sol queimando a auto-estrada!
um assassino que não se orgulha do seu crime,
mas de ter sido espezinhado!
Filho da puta de judeu!
Quando verterás lágrimas por mim?
quando?
quando conseguirás amar outro que não o teu povo?
Tão usurário nesse teu amor estéril.
Era uma vez...
Se tu e eu caminhássemos lestos ainda
apanharíamos a última canoa
ainda veríamos os últimos namorados
ainda veríamos as últimas lutas cruéis
no meio da ponte
mas tu queres
(maldita Sara, noutro dia, maldito judeu)
que passamos a noite
contando histórias bonitas um ao outro.
Se tu e eu chamássemos os países pelos nomes
iríamos sempre acordar no meio dum lago gelado
de jardim escuta! não seria a tua terra prometida aquela onde o Sol é mais forte
mais poderoso que a poeira e o vento
e houvesse vinho para os que passam
e pulseiras para os que dormem
e canções para as mãos decepadas...
as gloriosas galeras procuram este lago no fim da sua vida sem escravos no ventre
MAS LIVRES...
Era uma vez...
extra-texto, repito: tudo o que digo não é mediação para nada, não há metaalgo. A única coisa que se oculta por vezes é o esgoto debaixo da calçada. Não há agentes de revolução, não quero; esta é nesta, é esta, é.
Aliás, isto aqui nem trata disso.
Se eu digo
Poli vic vic allia
é só isso
imbecis
e a vontade foi só dizer isso
Era uma vez...
essa barba em que se envolve
o rosto turvo de rapaz espantado
com a beleza e a ligeireza da água, do sonho.
Como um cinzeiro quebrado e uma voz bonita
navegando num pântano azul
e não olvidar a receita:
se se matar um preto
um branco um
amarelo um
gato lilás uma
borboleta com pestanas
nunca os clamores
são tão indignados do que quando
se mata um judeu
o remorso da consciência anti-semita?
Atenção à desactualização histórica do texto!
a fogueira arde doce no acampamento
o turvo do calor adormece as pessoas
que umas sonham com amor
e outras com o suave local onde estão
Haverá canções de rock 'n' roll que eu te possa oferecer?
Sedalessa cobre os olhos.
Quase um golpe de peito aberto ao mar para ser génio!
Coração de papel que sangra, sol de lã com uns bonitos olhos
grandes!
Assassino por vezes!
Piedoso por vezes!
Esse que consegue o impossível pranto livre e sincero,
pelos outros, os que são de piedade.
A multidão existe para que o assassino não tenha vergonha de chorar!
Haverá canções de rock 'n' roll que eu te possa oferecer?
Sabes?
Jogava-se futebol nesse recreio em ruínas!
Tantos garotos, mudos, sem gritos ou algazarra.
Para eles havia um pianista de uma só mão.
Esse belo e puro pianista que assassinou tanto judeu!
essa fastidiosa lei de Talião
esse deus irado de um povo que se deixa maltratar.
Era uma vez...
esse mundo sem bosques de rios fecundos
onde são paridas as paredes azuis
com que construí meu leito
isso, aí,
aí bem perto da tua boca, oh povo perseguido,
aí bem perto do teu peito
o da ave-flauta, essa que encanta pontes
e os braços por baixo delas.
Os nazis eram loucos, mas não eram mesquinhos
e isso é grande
oh povo eternamente perseguido
vem seguir a linha deste dedo
vem seguir a linha desta mão
vem estilhaçá-la entre esta canção
entre essa dedicatória que te deixo
sobre o peito onde repousa um candeeiro morto
peito frio que abriga um rádio de seda
peito agonizante de sofrimento sujo
posso dedicar-te a canção?
Haverá canções de rock 'n' roll que eu te possa oferecer?
A imagem duma sujeira que sofre em surdina, não por sê-lo,
mas por não lhe ser permitido chorá-la.
Oh, ergue-te para além disso.
Chopin era nazi?
música perfeita para interlúdio num filme sobre a frieza do vosso assassinato
glória de leitos quebrados
glória de salas sulcadas por aves cremes
Era uma vez...
Sim, Sara! Soluçarei como a luz sobre o teu ombro, como o beijo
que ao te dar, me fez tremer. Como o teu repouso que se cobrirá, um
dia, de tanta flor, tanta flor...
Eu desejo que o holocausto não venha e eu te possa amar, ou ser guerreiro e regressar coberto de glória a teus braços, ou
ficar sempre aqui... Sara
um encontro entre tanto passado
um violoncelo esventrado por tanta
dentada furiosa
tanta harpa que as pedras encerram
tanat música, tanta traição.
Haverá canções de rock 'n' roll que eu te possa oferecer?
tanta fúria esquecida
tanta fúria esmagada
tanta paz que apodrece por dentro e que
cairá se alguma raiz, por algum véu, do seu
desejo se enunciar.
Quem compreende, viva
em dias de garganta douro, estilhaça
ou acaricia
ou olha muito devagar
olha para aquilo que eu poderia dedicar
Quem compreende, adora estrelas de cinema
belas
e imagina-as sózinhas
Quem compreende imagina
é impossível separar a imaginação da compreensão
Quem compreende, já parte
e em seu lugar, eu posso deixar uma gruta ou um rio subterrâneo
de água intensamente límpida
de água inimaginavelmente fria
Quem aceita, morre e tem destino
Quem aceita, não ama
Quem aceita, nunca mais possuirá olhos
em seu lugar virão alguns sóis
prestes a tornarem-se supernovas
sobre a imensidão do que poderias ver:
um trovador, se é que ainda será possível,
mesmo que impossível, ele pode existir, o
trovador
Quem aceita, é um prisioneiro
Quem compreende, nunca promete
nunca faz promessas
Olha! Sara! Eu sei, a Cabala é mágica!
Mas a magia é algo doente
tal como a poesia é um ser doente e epidémico, há que ignorá-lo
eu posso oferecer-te, em vez disso, um vestido,
ou arrancar-te os olhos:
Olha, Sara, deixa os brinquedos, deixa a poesia, deixa a vida, deixa
a morte, deixa tudo, para vires à janela e veres este céu coberto de tanta borboleta, de tanto aeroplano, de tanto insane acrobata,
eu gostaria de ser uma fotografia.
Sara?
Há alguma canção de rock 'n' roll que eu te possa oferecer?
Jorge Ferraz Martins




De Memória
Dia 10 JAN 86. Descemos à Ocarina para assistir ao espectáculo "Quinto Intádio" dos Ocaso Épico. Deparamos com uma sala ainda vazia, um palco atulhado de aparelhos, teclados, percussões e, ao fundo, uma bandeira nacional, murcha, emoldurada por dois candelabros que eram dois círculos enormes em cujos centros ardia uma vela. Enquanto a sala enchia projectavam-se na parede lateral diaporamas de cenas e caras nocturnas - noites de Lisboa, capital do Império.
A multidão entediada enchia já o espaço, rebanho sem chama na aventura programada do Bairro Alto, quando alguém, esfregando freneticamente a cara, louco enraivecido tentando dissipar o pesadelo, salta e pinoteia por entre ela, dando encontrões às pessoas, levando-as a perguntar o que era aquilo,, o que estava a acontecer, a interrogar-se. Dava-se início ao espectáculo.
A primeira parte intitulava-se "Contemplativa" - o Farinha subiu ao palco, sentou-se frente aos sintetizadores e demais teclados, e programou os primeiros ritmos enquanto bebericava uma mistela branca; o Zíngaro pegou no violino e sacou os primeiros acordes; de vez em quando Luís Casanova dedilhava uma guitarra portuguesa... A cave do Ocarina transformou-se num palácio de espelhos, fantasmas sobrevoando-nos as cabeças e aos ouvidos chegavam-nos ritmos e ruídos estranhos, discursos políticos ecoando ao infinito, repetidos até perderem a significação, orações religiosas a arrepiar-nos a infância, notas dissonantes, árabes da rádio marrocos com os seus cânticos prenhes de deserto e de sol...
De pés colados ao chão, peito parafora, barriga para dentro, os espíritos volteavam com a música - elevações ancestrais, símbolos pastando pelo palco; era o estremecimento das certezas...
Neste puzzle de sons e referências fazia-se o exorcismo do Império, a solene cerimónia do seu definitivo enterro, o espectáculo da sua ausência em que o observado era o espectador nos seus pensamentos mais íntimos - sessão espírita com o Farinha a servir de médium, num gozo não disfarçado de nos pôr a nu, o Farinha psicanalista exultava com a dúvida criada, quem é quem? quem v~e quem? Lisboa a espreitar da parede do seu stress quotidiano, barcos para o barreiro...
Reduzidos à auto-contemplação de ruína presente, o mal-estar instalado em tontura inebriante, salva-nos do abismo uma melodia do mais belo que nos fora dado a ouvir - seria aquele o canto das sereias? O descontentamento instalou-se entre o rebanho.
A segunda parte intitulava-se "Irónica" e começou com uma guitarra dum lirismo apaixonante interpretada por Luís Casanova. Depois aos músicos iniciais, Farinha e Zíngaro, junataram-se o baterista dos Sangue Civil e um elemento da primitiva formalção dos Ocaso Épico no acordeão e percussões várias, que em conjunto tocaram uma mão-cheia de temas trepidantes de ritmo e alegria. Afinal a glória do presente começa quando nos desamarramos da glória do passado - que ironia!
Com este concerto os Ocaso Épico provaram mais uma vez que são o grupo mais interessante e de lucidez mais exacerbada que nos é possível ver e ouvir em Portugal. Assim continuem.
Adolfo Morais de Macedo
Amélia Cabaça








28.2.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (33) - Enfim SOS - Nº 2 - Maio de 1986


Enfim Sos
Mensal
Ano 1
Número 2
Maio 86
50 Escudos
20 páginas policopiadas e agrafadas




Contactos: Rua Coelho da Rocha, Nº46, 1ºDto. 1200 Lisboa
Coordenadores: Luz Fernandes, Maria João Guerreiro e Rui Vargas
Neste número colaboraram: Carlos Manso, Fernando Oliveira, Essa Entente, Filipe Guilherme, Jaime Guedes Lebre, João Luís, Jorge Ferraz Martins, Leba Edneser, Luís Pina Amaro, Maria João Serra, Mler Ife Dada, Paulo Duarte, Tiago Lopes, Isabel Brás.

O Charme Indiscreto, Inexistente e Bostoso da Crítica Musical em Portugal; (A Moderna, Que Eu Conheço...).
Jorge Ferraz Martins
Prefácio
Minha Grelha Teórica (?) (?) (?)..., etc,...: Irresponsabilidade nem a assumindo nem obrigação no proposto inantingivelmente inteiro único Absoluto e Absolutamente Na Surpresa Será Ponto de Interogação Sei Lá.
Texto
Esta crítica tem pavor de chocolate à música, a dita coisa sonora e os seus fazedores. Se tanto os fazedores como a sua coisa sonora não forem certas representações em seus papéis, se não preencherem as pré-requisitadas estruturas, haverá que tentar escapar rapidamente, cobardemente, da ira ciclópica da crítica. É evidente que esta adquiriu suas pré-requisitadas estruturas na loja do bairro (a preços mais baixos) ou na universidade (entre cabeças pensantes e a peso de ouro, porque aqui aquelas são difíceis de conseguir, e têm imensa procura).
A crítica: suas cabeças fedorentemente sérias e afectadas na importância (dos críticos, claro), como intelectuais que possuem a consciência do vital e transcendente momento histórico, a coisa sonora e tudo. Dizia eu que suas cabeças fedorentas são uma manta de retalhos que lhes garante SOBREVIVÊNCIA. Manta de retalhos que nem é Kitsch porque não é uso abusivo, nem dinâmica esporádica ou incongruentemente excessiva.
O nosso mundo produz sem desejo uma admirável e idiota inconsciência, partindo de interrelações entre estúpidas consciências; profunda dinâmica; inconstante diletância, incertamente séria.
O crítico: come porcinamente os restos jazentes do nosso e úncio mundo.
Numa lógica malabarista posso e quero afirmar que o crítico está sempre a digerir consciências datadas e jazentes, num esforço hercúleo para não perder o comboio da dita inteligência, pois é no ingerir de pouca coisa de cada tipo de restos que a sua estupidez sobrevive.
Isto tem duas funções: comer pouco para o estômago sobreviver sempre à mudança; comer pouco porque não compreende nada e as ideias podiam-lhe provocar uma cósmica indigestão. Finalmente: explicam-se mal e isso atrasa-os irremediavelmente; cagam facilmente e de olhos fechados.
Chamam sempre originais e significativas em valor às últimas e atrasadas modas, seja o revivalismo ou a originalidade. Ah,... Gostam da pertinência (?) e têm horror ao gosto das massas somente porque aí eles são pura e simplesmente dispensados.
Valorização do seu trabalho: perspectivar as possibilidades de desenvolvimento da coisa. Primeiro: não o conseguem fazer. Segundo: mesmo que o conseguissem isso seria uma classificação, algo relativo pois aquele e este são jogo de relações mais ou menos identificáveis ou definidos com unidades constituintes, numa escolha padronizada!
Que lindo! O crítico a fazer meninos por interposta pessoa. Impotentes! Freud, patriarca mentiroso, tanto a responder por estes horrorosos e voyeurs que apelidam os outros de "Produto de condições identificáveis", numa raivinha invejosa!
Depois: desancam os que fazem coisas sonoras por copiarem ideias importadas, ou de certo tempo, ou por possuírem uma originalidade diferente daquela que estupidamente, paradoxalmente, querem impor. Um dos problemas dos críticos é que a originalidade para eles se mede em espaço e tempo, para poderem recitar os seus ideais (?), de preferência divinos (porque Deus ou outra coisa qualquer manda...), e inclusivé de coisas extrasonoras para a complicação ser maior, como por exemplo a originalidade definida, como ela é feita (porque é considerada como o importante) nos livros dos esteticistas alemães (não; é filosófos e estetas), no caso clássico e de outros, modernos, que eu na minha ignorância desconheço.
Atenção ao charme!
Olhem que o valor se esvai rapidamente.
Oh seus maricas! que usam pilinhas de borracha e louça e se amedrontam todos em presença dum real caralho! mesmo quando metem no cú essas pilinhas fecham os olhos e dizem: "não quero ver"!
E vive a crítica feliz para sempre!
Falta-lhe irremediavelmente a beleza do charme, mesmo o de estarem na Moda, em Moda... E saberem-se...
Os reis vão nús... e o povo ri-se...
Ah, Esqueci-me de definir charme!...
Jorge Ferraz Martins (O Terror da crítica. Porque diz nada sobre nada)



Entrevista SOS
Carlos Manso
Os LINHA GERAL têm um papel político, assumido e não escondido que tem a ver com a posição de cada um, em particular, e que conseguimos sintetizar, no grupo, por uma atitude de fundo em relação à sociedade. Temos uma ideia também comum de uma certa esperança numa outra sociedade muito difícil de concretizar. De qualquer modo, lutamos e sonhamos com ela, seja ou não difícil de alcançar.
Hoje, é preciso, no mundo, haver de novo tertúlias, pessoas que se encontrem no café e discutam ideias.
Há necessidade de uma nova militância política que não esteja dentro dos partidos políticos tradicionais, de esquerda e de centro-esquerda.
O Rock é muito mais uma forma de contenção do que de subversão. Claro que há excepções.
O Rock, tal como foi criado, não liberta. Foi feito essencialmente para converter os que queriam pôr-se de fora, é uma forma acessível de colocar na dança as energias que podem muito bem ser dispendidas noutras coisas mais interessantes como, por exemplo, em manifestações violentas ou a fazer sexo.
O Rock pode ser uma forma de confraternizar debaixo de bandeiras que não são as deste sistema ou desta forma de viver.
Se a Red Wedge luta contra Thattcher do ponto de vista económico e político, os portugueses podiam fazer o mesmo. Há bandas que fazem isso de uma forma não aberta, porque ainda não criaram um espaço e uma sigla para se juntarem. No entanto, não lhes fazia mal nenhum e não seria copiar os ingleses.
Em Portugal já existem bandas que têm atitudes políticas contra o Governo. Não o dizem muito abertamente, porque há um certo pudor contra isso.
Há pudor em dizer que se é de esquerda ou de direita. Há pudor em dizer que se é fascista ou democrata. Há pudor contra tudo. Acho que se tem de tomar posições.
Não acredito no espírito europeísta. É uma treta que quando nasceu era bela.
Hoje a bandeira europeia é a da subjugação dos países da Europa às garndes potências europeias.
Acho que é necessário a nível do governo, se houvesse uma réstea de patriotismo, começar desde já uma luta enorme para apoiar e defender a nossa língua e a nossa cultura.
Depende de nós, dos artistas e das pessoas que se preocupam com a cultura, tentar lutar, pelo menos, pela tradição da nossa cultura.
No Casal Ventoso ou no Bairro da Serafina existe uma forma de cultura que não se integra neste sistema.
Existe uma militância alternativa aos partidos políticos. Aliás, é o factor mais imporatante de determinante do movimento social, na Europa, no final dos anos 70 e 80.
O que é certo é que existe, à margem da política estabelecida em toda a Europa e em todo o mundo, um movimento radical e violento que não está definido. É tão importante que está a abanar e a pôr em causa este sistema.
O ódio é disperso, ainda é disperso. Antes que ele se organize, o sistema luta contra ele.
Não existe uma democaracia europeia. Aliás, há uma tendência para o aumento da repressão, com a justificação de acabar com o terorismo e os excessos juvenis. Há uma tendência para radicalizar, para cortar ou limitar a democracia.
É inconcebível haver democarcia com fome, salários em atraso e jovens no desemprego. A palavra democaracia, para mim, é mais profunda e muito mais complexa do que aquela que utilizam os políticos europeus.
O ataque à Líbia foi uma atitude de fraqueza, porque o que está na ordem do dia é o terrorismo.
Um país que apoia e receb os palestinianos, é um país sensível. O que iria acontecer, neste momento, aos palestinianos se ninguém os apoiasse? Eles têm de estar lá e ser treinados para poderem lutar pela sua causa que é justíssima.





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