Uma série de primeiras vez esta noite: 1) a mais longa distância que me desloquei para ir a um cinema! 2) A minha primeira visita ao National Film Theatre. 3) Conhecer Julian Cope. Apesar de essencialmente, esta noite foi uma celebração pura do Krautrock, uma oportunidade de ver dois filmes substanciais nunca apresentados no Reino Unido, assim como alguns clássicos do arquivo do "Beat Club".
Penso que Julian parecia um bocado nervoso por ter sido chamado para apresentar tal evento. Eu nunca tinha pensado nele como sendo completamente tímido, apesar de poder ter acontecido ele estar simplesmente ansioso para ver o que iria ser apresentado. Como Julian disse, havia por ali alguns crânios de verdade do Krautrock e o entretenimento da noite seria admiravelmente inspirador, para não dizer mais. Eis o que nós assistimos:
Can Em Concerto (1972, 53 mins)
Não apenas os Can em concerto, mas mais um "rockumentário" experimental contendo cenas com experimentações em estúdio entrecortadas com um extraordinário e selvagem concerto. A era é a de Damo e Co. Os Can no seu auge, "riffando", latejando, girando maniacamente. Damo gorjeando, berrando, sussurrando, gritando ou apenas dançando acompanhando a batida. Jaki provando, como sempre, ser o mais "cool" e controlado baterista do planeta. Holger parecendo drogado e a tripar com a música. Michael balanceando-se quase imperceptivelmente. E, finalmente, Irmin, atacando os teclados como se fossem ferramentas de precisão. As faixas fluíam incoerentemente de uma para outra, assim como a parte visual, acrescentando até um patchwork da experiência Can, com malabaristas e acrobatas no palco a competir com a latejante urgência da música. Um filme bizarro e extraordinário, perfeitamente adequado a uma das mais extraordinárias bandas.
Amon Düül tocam Phallus Dei (1969, 25 mins)
Um filme antigo dos Amon Düül II ao vivo em concerto, filmado com câmara estática, iluminação líquida e uma atmosfera eléctrica que quase provocava electrocução.
Sem qualquer aspecto visual high-tech ou sequer mistura, mesmo apesar do envolvimento de Wim Wenders, este é um filme minimalista de olhar espartano apenas centrado em Renate e Shrat. Uma energia bruta clássica, abrindo com Renate a chilrear a-la Yoko Ono, construindo o habitual climax, como uma espécie de Third Ear Band encimada pelo maravilhoso violino desafinado de Chris Karrer. Não me quero alongar, todos vocês sabem como se desenvolve Phallus Dei. Apesar de um pouco lo-fi, ver isto foi uma esplêndida experiência de viagem no tempo.
Do Beat Club... Amon Düül II, Popol Vuh, e Kraftwerk
Apercebi-me que algumas pessoas da audiência já tinham visto este filme anteriormente, mas para mim era a primeira vez, e por isso uma excelente experiência, em ecrã gigante com som stereo. Com efeitos visuais extraordinários, os Amon Düül II pareciam voar numa sopa psicadélica colorida. O show é de 24 de Outubro de 1970, e é basicamente a incarnação entre YETI e DANCE OF THE LEMMINGS sem Renate, com Chris Karrer ao leme, e Karl-Heinz Hausmann a inventar uma electrónica ao estilo dos Ozric Tentacles sem a ajuda de sintetizadores! De forma grosseira, as faixas mostradas pertencem a versões de Eye Shaking King e Between The Eyes. Também no meio de remoinhos psicadélicos se pode considerar a peça rara e de início de carreira dos Popol Vuh, chamada Bettina, com Florian Fricke escoando padrões sonoros a partir do seu Big Moog, enquanto (nunca visto) Holger Trülzsch e um outro percussionista que adicionava a batida étnica. Isto data de 24 de Abril de 1971, e apesar de ser inconfundível e único Popol Vuh da mesma época, é totalmente diferente de qualquer coisa de AFFENSTUNDE. Finalmente, uma peça clássica dos Kraftwerk, e uma peça que eu conhecia bem do CD dos Organisation, intitulada Truckstop Gondolero (de 22 de Maio de 1971) com a formação bizarra dos Kraftwerk, constituídos por Florian Schneider, Klaus Dinger e Michael Rother, quase mais proto-Neu! do que Kraftwerk, e de novo espantosos efeitos visuais. De todo em todo, brilhante.
Depois do entretenimento, tive de dizer adeus a Julian, tivemos uma pequena conversa que envolveu outros fanáticos do krautrock. Estávamos todos numa grande excitação. Que grande noite!
ARTEMIY ARTEMIEV
Artigo / crítica por Alan Freeman
THE WARNING
(Electroshock ELCD 001) CD 73m
COLD
(Electroshock ELCD 002) CD 73m
POINT OF INTERSECTION
(Electroshock ELCD 003) CD 75m
Filho do famoso músico pioneiro da electrónica e compositor de bandas sonoras, Eduard Artemiev, parece que Atemiy aprendeu bastante com o seu pai. Artemiy, de facto, tem tentado ao longo do tempo estabelecer a sua própria etiqueta / editora, e tem muitas outras ambições, em cinema, TV, etc. Ele saiu do underground, contactando vários músicos que praticavam uma música electrónica e experimental com sintetizadores, por todo o mundo. Assim, nós tivemos conhecimento que estes CDs estavam para saída iminente a qualquer altura. De qualquer forma, apesar do nome da editora, Artemiy é um artista com gosto, e nenhum destes CDs é chocante de todo, apesar de serem todos diferentes no seu foco.
THE WARNING é o seu álbum de estreia, no qual recolectou todo o seu trabalho anterior, e ficou nas estantes durante 4 anos. Eu sei que houve muitas demo cassetes deste material a circular por algum tempo, mas apenas agora surge a edição oficial. THE WARNING mostra estas influ~encias de forma muito extensiva, nas quais ele trabalha sobretudo com o cinema e a TV, eis pois aqui a influência do seu pai, através de intensiva utilização de melodias e formas. É realmente "picture music", e adequadamente conseguimos associar os títulos com a música de forma fácil. Abundam pinceladas do velho Vangelis e do recente Klaus Schulze, o primeiro devido à riqueza das melodias, o último na utilização do sampler e texturas não usuais. Um pouco "muito bonito" para o meu gosto pessoal, mas para álbum de estreia não está mal.
COLD é um trabalho composto entre 1994 e '95, e é um desenvolvimento dos elementos mais etéreos do álbum anterior, com uma música menos focada na melodia, virando-se mais para o lado da música new-age. Particularmente na faixa A Polar Night há um forte aceno de cabeça na direcção do trabalho de bandas sonoras compostas pelo seu pai nos anos 70. Essencialmente leve e relaxante (com pinceladas de Sven Grünberg e Igor Len), o único tipo de "frio" que esta música significa para mim é aquela contendo gelo cristalino e fragmentos de neve, uma beleza fria e frágil, não gelada e rígida, e dessa forma um pouco à la Klaus Schulze de novo brilha outra vez de vez em quando.
Muito mais sombrio do que os dois CDs anteriores. POINT OF INTERSECTION documenta o seu trabalho mais recente, e é a tentativa de Artemiy para criar uma música composta por culturas contrastantes, misturando electro-acústica com elementos mais melódicos a partir de sintetizadores. Os resultados são de certa forma subjugados e estranhos, um pouco como Lightwave, e há muito mais sampling óbvio (pode-se pensar que se trata de Kosmische Krautrock) e o mau humor de tudo isto misturado quase que pode ser comparado aos trabalhos do seu companheiro moscovita, explorador de sons, Mikhail Chekalin, havendo aqui também resquícios de Lightwave também. Com um pouco mais de diversidade e desenvolvimento dos temas e ideias, esta é a direcção que Artemiy deverá seguir no futuro. Esperemos que sim!
Para os Kraftwerk, a realidade é um filme de ficção
científica, em que as máquinas desempenham o papel principal. Ou pelo menos
metade do papel. O conceito de “homem-máquina” permite compreender a filosofia
de Ralf Hutter e Florian Schneider, dois revolucionários que preferiam ter
metal em vez de pele e um compuador de bolso no lugar do coração.
Como Ray Bradbury, os Kraftwerk “cantam o corpo
eléctrico” e, de acordo com as regras inerentes a um mecanismo perfeito,
desprezam a emoção humana. Ou como gostam de dizer: “O frio também é uma
emoção.” Em veza das reacções primárias desencadeadas pelo rock ‘n’ rol,
preferem a “emoção mental” provocada pelos sintetizadores. Ao suor e às
descargas de adrenalina desencadeadas por uma guitarra eléctrica, instrumento
que consideram “medieval”, contrapõem a linguagem implacável dos dígitos e a
perfeição do computador.
Brian Eno, David Bowie (que inclusive dedicou um dos
temas de “Heroes”, “V 2 Schneider”, a Florian Schneider), Arthur Baker e os
Afrika Bambaata de “Planet Rock”, a “Houde” de Chicago, ou os jovens ingleses
electropops de cabelo rapado, são devedores das inovações “techno” destes dois
alemães, para quem a música, mais do que uma arte segundo os preceitos
tradicionais, é uma técnica que não admite o erro humano.
Paradoxalmente, os americanos renderam-se ao ritmo de
“Autobahn”, “The Model” e “Showroom Dummies”, dançados sem preconceitos nas
discotecas. O paradoxo de uma música “fria” e “mental” que afinal consegue
seduzir os sentidos. Talvez por os Kraftwerk, como Ralf e Florian farantem,
terem conseguido introduzir o ritmo do corpo na música electrónica.
Folk Industrial
Numa Alemanha devastada pela guerra, onde tudo se
reconstruía, os Kraftwerk renegaram o passado histórico do rock para partirem à
descoberta de algo inteiramente novo, expresso, a partir de “Autobahn”, no
conceito de união entre o homem e a máquina. Fechados no estúdio Kling Klang
(um laboratório onde “fazem coisas científicas”) em Dusseldorf, Ralf Hutter e
Florian Schneider buscam sem descanso a resolução definitiva do conflito entre
o humano e o maquinal.
Seja na descoberta de novos meiso electrónicos de
produção musical (aos Kraftwerk se deve a invenção de um modelo original de
sequenciador ou de uma célula fotoeléctrica capaz de traduzir em impulsos sonoros
os movimentos do corpo) ou em teorizações mais ou menos fascizantes, o
objectivo permanece o mesmo: criar uma “música folk industrial em que as
máquinas sejam tratadas de igual para igual com o homem no processo criativo”,
uma “música que destrua a oposição entre o homem e a tecnologia”.
Importante, no processo de criação artística, é – segundo
afirmam – a “troca de energia entre o humano e a fonte de energia”, numa
relação dialéctica escravo-senhor (exemplarmente caracterizada em “Voice of
energy”, do álbum “Radio Activity”), em que o homem ora é mestre da máquina
(por exemplo na programação de um computador) ora se torna seu escravo (na
medida em que essa programação acabe por ser condicionada pela estrutura e pela
lógica intrínseca da máquina).
Segundo os Kraftwerk, é necessário que o homem se torne
“amigo” das máquinas, se quiser impedir a sua revolta (a poluição seria assim
um grito de protesto das máquinas, fartas de ficar sempre com os trabalhos
“mais sujos”). No fundo, trata-se de um jogo de poder que só terminará quando
acabar a exploração da máquina pelo homem. Não são as máquinas que são
demoníacas mas os homens, que não sabem lidar com eleas – “um carro”, por
exemplo, funciona melhor se for “bem tratado” – ironizam.
O Culto Da Despersonalização
Trilogia do “admirável mundo novo”, “The man machine”,
“Computer World” e “Electric Café” traduzem na perfeição toda essa estética que
Hutter e Schneider assumem como filosofia de vida: celibatários convictos, a
maior parte do tempo é dedicada à pesquisa de estúdio e à procura de novas
sonoridades electrónicas. Compreende-se agora melhor por que razão ninguém,
neste campo, os consegue igualar.
Não descuidam a imagem, no seu caso uma anti-imagem,
composta pelo ar distante e pelo envergar sistemático de fato e gravata (como
resposta ao facto de “hoje em dia toda a gente usar “jeans”) ou na escolha de
poses que alguns identificam como inspiradas na ideologia nazi. Os
homens-máquinas afirmam que apenas gostam da “uniformidade” e que nunca usaram
suásticas. O culto da despersonalização é levado ao extremo com o recurso em
palco, nas capas de discos ou nas (raras) entrevistas, a manequins-réplicas que
procuram simbolizar a natureza androide dos originais.
Para Ralf Hutter e Florian Schneider é tão simples como
isto: “Nós tocamos as máquinas e as máquinas tocam-nos a nós.” Neste processo
de simbiose gradual entre o organismo biológico e o organismo cibernético, a
etapa final está em “converter directamente os impulsos cerebrais em sons
audíveis” e a técnica, capaz de materializa-la, terá que passar pela
“derradeira forma musical – a telepatia”.
O Corpo Novo Remisturado
“The mix”, novo disco de remisturas e novas gravações de
temas antigos, funciona assim como uma recapitulação ou um compêndio documental
onde se demonstra a eterna mutabilidade dos “cânticos androides”
kraftwerkianos, chamemos-lhes assim, susceptíveis de infinitas variações e
múltiplas reinterpretações.
Se em “Autobahn” é a compressão do tempo e em “Radio
activity” a sua actualização (através da referência explícita a Chernobyl) ou
em “Trans Europe Express”, pelo contrário, a sua dilatação levada ao
barroquismo, em qualquer dos casos, trata-se sempre de expor, nas suas
múltiplas formas, a natureza e a “carne” infinitamente plástica de um “corpo novo”
surgido das cinzas do velho mundo. Como se os Kraftwerk tivessem conseguido
finalmente concretizar o sonho de Frankenstein e ultrapassado as
monstruosidades de Cronenberg. Fernando Magalhães / 1991
A MÁQUINA, PEÇA A PEÇA
Ao Longo de quase duas décadas, com intervalos de
produção mais ou menos alargados, a discografia dos Kraftwerk representa a
expressão máxima da modernidade e a apologia irónica do “homem.máquina”. Agora,
na sequência do êxito de “The Mix”, os álbuns originais “Radio Activity”,
“Trans Europe Express” e “The Man Machine” vão ser repostos em breve no nosso
mercado, mas o que se impõe é a retrospectiva integral.
KRAFTWERK / ORGANIZATION, 1972
Duplo álbum raridade editado na Vertigo, no qual os
Kraftwerk antecipam a apoteose metálica que, anos mais tarde, os seus
compatriotas Einstuerzende Neubauten ou os ingleses Test Dept. se encarregaram
de celebrar. Numa Berlim sentão seduzida pelo misticismo planante dos Tangerine
Dream e de Klaus Schulze, os Kraftwerk moldavam com a argamassa de Cage,
Stockhausen e os resíduos estruturais do concretismo, esculturas de água e de
metal, em reverberações corrosivas que depois se haveriam de chamar “música
industrial”. Outros agrupamentos germânicos da época, Harmonia, La Dusseldorf,
Cluster (cujo álbum “Cluster II” consitui o primeiro grande manifesto do “som
industrial” ou os Neu! Viriam, cada um a seu modo, explorar as vias abertas
pelos Kraftwerk, formando um núcleo vanguardista surgido precocemente nos anos
em que quase todos se preocupavam mais com as imensidões cósmicas do que com
abeleza claustrofóbica das grandes fábricas do Ruhr.
RALF AND FLORIAN, 1973
As grandes avalanchas sónicas do primeiro álbum são
recicladas num carrossel minimalista que pela primeira vez provoca nos
neurónios ãnsias de dançar. “Elektrisches roulette” ou a rumba
ciberpaquidérmica “Tanzmusik” (“música de baile”) demosntram até que ponto
Terry Riley tinha razão quando defendia que o infinito era circular.
“Kristallo” e sobretudo a frescura de frutos e paisagens tropicais de “Ananas
symphonie” acariciam o corpo eléctrico de Bradbury e abrem caminho para as
sedimentação ambientalistas que Brian Eno transformaria em género autónomo.
AUTOBAHN, 1974
A auto-estrada e o fascínio do universo linear, ideal
para se chegar ao novo mundo, dirigido por controlo remoto. “O automóvel é um
instrumento de música”, diziam então Ralf Hütter e Florian Schneider, pela
primeira vez auxiliados nas percussões robóticas por Wolfgang Flür e Klaus
Roeder. Conny Plank fornecia a garagem, mas, para os Kraftwerk, o estúdio
convencional começava a ser pequeno para a desmesura do projecto. A consola
auto-suficiente da “fábrica” portátil Kling Klang seria a solução e o veículo
privilegiado na construção do império electrónico. “Wahn wahn wahn, das ist autobahn”
– transmite o auto-rádio à saída de uma curva, consumando a ultrapassagem
definitiva da “Fun fun fun” demasiado humana dos Beach Boys. A “Folk”
industrial nascia em 22m30 de viagem através dos arquétipos do homem como
eterno transeunte que foram “top” nos Estados Unidos e deveriam servir de
exemplo à nossa Junta Autónoma de Estradas. O segundo lado despede-se do céu e
das delícias da sonoridade analógica.
RADIO ACTIVITY, 1975
Considerado à época uma desilusão, “Radio Activity”
permite aos Kraftwerk a descoberta das melopeias infantis e o abuso da melodia
simplista. A rádio deixa de passar música e torna-se ameaçadora. “Eadio
activity, discovered by madame Curie, is here to stay, for you and me” – a
mensagem, dita desta maneira, era difícil de levar a sério, mas Chernobyl viria
a endurecer o conceito, juntando-lhe a dimensão da tragédia (os Kraftwerk
acrescentariam mesmo, por causa da catástrofe, novos versos ao tema, em “The
mix”). “Airwaves” flutua no ar com a insustentável leveza do vazio pós-nuclear.
Mas como numa novela de Philip K. Dick, a realidade é sempre outra coisa e a
consciência perde-se sem querer no labirinto das suas próprias mutações. A
Europa dançava a valsa dos electrões.
TRANS EUROPE EXPRESS, 1977
Interrompida pelo álbum anterior, a viagem prossegue
agora de comboio, que substitui o automóvel, como meio de transporte para o
futuro. Síntese magistral de uma tradição europeia reinventada (Franz Schubert
de martelo-pilão, a destruir os alicerces românticos), na miragem de uma
prosperidade pós-industrial ou na nostalgia totalitária de um continente sem
fronteiras. Os Kraftwerk atingem o domínio pleno das técnicas manipulatórias do
imaginário contemporâneo. O horror de uma viagem sem fim com destino ao inferno
(McLuhan chama-lhe a “aldeia global”) é camuflado pelo polimento extremo do som
e pela depuração da palavra, reduzida ao essencial e por isso com um máximo de
eficácia. Numa Europa “Endless”, até ao infinito, esmagada no clamor de “metal
on metal”, “Trans Europe Express” deu uma alma à máquina e ensinou David Bowie
(de “Station to Station”) a ser moderno.
THE MAN MACHINE, 1978
Título óbvio para a continuação de um projecto único na
música ocidental do nosso século – a simbiose harmoniosa entre o homem e a
máquina, simbolizada na colagem dos músicos e enfatizada pelas referências
estéticas a Lissitsky e ao construtivismo russo. “As máquinas respondem-nos
directamente e nós às máquinas” – declarava Ralf Hütter a propósito de “We are
the robots”, levando ao absurdo o termo comunista “robotnik” – o trabalhador
perfeito, como peça da máquina omnipotente que é a sociedade materialista.
Emoção geométrica. Paraíso matemático. Futuro a escurecer
em metrópoles banhadas na cor gelada de “néon lights”, tornadas substitutas das
estrelas na arquitectura do cosmos.
O mundo deixa-se ofuscar pelo novo brilho – “Looking for
a perfect beat” dos Afrika Bambaata deve a inspiração aos homens-máquinas. “The
model” é êxito nas Filipinas, cantado por uma intérprete local. “Trans Europe
Express” assume a paternidade da “Cold Wave” ou da pop electrónica dos Human
League, Depeche Mode, Telex, Orchestral Manoeuvres in the Dark, John Foxx, New
Musik, Fad Gadget, entre muitos outros.
COMPUTER WORLD, 1981
Bem instalados no coração da máquina, os Kraftwerk
inventam novos “vídeo games” para consumo do homem automático. “Pocket Calculator”
é tocado em calculadoras de bolso Casio e Texas, que, nos concertos ao vivo,
são distribuídos à assistência, convidada a com eles improvisar. Data desta
época a remodulação dos estúdio Kling Klang, de maneira a permitir a sua utilização
em palco, concedendo ao conceito duplo de “hardware / software” a dimensão do
espectáculo. Anulada a tensão dialéctica entre racionalidade luciferina (“Numbers”)
e a emoção, resta a derradeira mutação interior a capitulação do humano,
demasiado humano, na pureza fria do amor computorizado.
ELECTRIC CAFÉ, 1982
“Boing boom tschak”, cadência onomatopaica com que os
Kraftwerk se servem para parodiar o Hadesteleológico, imitando com a voz o som
dos sintetizadores e introduzindo uma nota de humanidade e humor à
implacabilidade do projecto, “Electric Café” é o ponto de diversãopossível num
pesadelo já consumado. Muito minimal para cérebros normais – “Techno pop”, “Musique
non stop” -, a vida, considerada abstracção, só através da repetição “ad
infinitum” da melodia como hipnose terapêutica, consegue o sucedâneo artificial
capaz de manter a máquina em funcionamento. “Sex object” e “The telefone cal”
falam da solidão. Gerado por um computador o homem será ainda o animal que ri? Fernando Magalhães / 1991
contém oferta de:
- single 7" exclusivo dos Kraftwerk - "Die Roboter" 3D
(single só com um lado contendo o tema referido)
- CD com 7 faixas dos artistas/bandas: Waxahatchee, Girl Ray, Jetzt!, Andreas Dorau, Shabazz Palaces, Childhood, Japanese Breakfast
» As electrónicas circulam pela música desde a alvorada
do século 20. Das ondas Martenot às primeiras composições de nomes como Varèse,
Pierre Henry e, mais tarde, Stockhausen ou pioneiros de ‘bricolage’ analógica
como Raymond Scott, muitas bases foram definidas. Porém, só depois das
primeiras experiências de Moog (com Walter Carlos) a música popular descobriu
que tinha ali novos caminhos a desbravar...
» Tal como os Neu! Ou os Can, os Kraftwerk são ‘produto’
da cena ‘kraut-rock’ germânica. Contudo, foram eles a quebrar definitivamente
amarras com o formato rock. O homem emulou a máquina, a música seguiu-a.
Sábado 9 de Agosto de 2003
64 ELECTRÓNICA – ANOS 70
Com o regresso dos Kraftwerk aos discos, após 17 anos de
ausência, era quase imperativo recordar as primeiras aplicações das então
emergentes ferramentas electrónicas a um contexto mais ou menos próximo do
universo pop. Da música de Walter Carlos para um certo ‘Laranja Mecãnica’ a uns
Human League pré reinvenção ‘electro-pop’, aqui deixamos 10 inventores de um
determinado futuro.
1972.
Walter Carlos
«Music
From A Clockwork Orange»
Não se trata da famosa banda sonora da Laranja Mecânica
de Kubrick, mas antes a totalidade da música que o compositor então criou, da
qual o realizador seleccionou os fragmentos que o filme tornou famosos. Um
mergulho nos bastidores de uma genial peça de trabalho electrónico feito sob
regras absolutamente clássicas.
1973. Can
«Future Days»
Os álbuns anteriores, Tago Mago e Ege Bamyasi já
apontavam uma «fuga» em direcção a prolongadas planagens atmosféricas, marcadas
pela rigidez da marcação rítmica de Liebezeit e a liberdade introduzida por
teclados e sintetizadores. Future Days é a concretização desses sinais, um
prenúncio orgânico de futuro electrónico.
1974. Tangerine Dream
«Phaedra»
Disco característico de uma segunda etapa na vida do
grupo, na qual o experimentalismo cede a algum melodismo, naquele que ficou
como um claro manifesto de futurismo musical na Europa de meados de 70. Usa
efeitos de som, mas sem esconder algum piscar de olho a pontuais formulações
mais clássicas.
1975. Neu
«Neu75»
O kraut-rock regenerou o rock’n’roll pela sua
fragmentação. A motorika dos Neu é disso exemplo perfeito. Ritmos minimais,
space-rock nas guitarras, «cut’n’paste» de sons dispersos. A sua influência
chegou a toda a gente, de Bowie aos Kraftwerk, chegando ao pós-rock e à
electrónica da actualidade (tudo explicado em Neu 75).
1976. Vangelis
«Albedo 0.39»
Depois do flirt sinfónico no pomposo Heaven And Hell (que
muitos conheceram mais tarde como banda sonora de Cosmos, de Carl Sagan),
Vangelis apresenta um álbum de clara exploração de padrões e sequenciações que
define regras que serão padrão de muita da electropop que então brota por toda
a Europa.
1977. Jean Michel Jarre
«Oxygène»
Com preparação em estudos de electrónica e música
concreta desde finais de 60, Jean Michel Jarre edita o seu primeiro registo de
originais, do qual faz nascer um verdadeiro monumento conceptual com intençõe
spolíticas e sociais no retratar de um tempo (o que a possante capa logo
indicia). Um disco tão envolvente quanto glacial.
1977. David Bowie
«Low»
Primeiro álbum da chamada trilogia berlinense (registada
em conjunto com Brian Eno e que comporta ainda os discos Heroes e Lodger),
mostra como a linguagem rock se apropria das electrónicas, não só nas canções,
como sobretudo num lado B todo ele constituído por gélidos retratos
instrumentais da Berlim de então.
1978.
Brian Eno
«Music
For Films»
Um ano depois do sublime Before And After Science, este álbum
recolhe peças electrónicas gravadas entre 1975 e 78 para filmes imaginários,
lançando pistas para o futuro imediato de Eno. Basta dizer que o álbum que
sucedeu a este na sua discografia tinha por título Ambient 1: Music For
Airports. Diz tudo...
1978. Kraftwerk
«The Man Machine»
Depois dos princípios básicos definidos entre Autobahn
(1974) e Trans Europe Express (1976), os Kraftwerk chegam a 1978 com a ideia de
lançar um álbum electrónico todo ele feito de canções. Sem imaginarem, acabaram
por definir o futuro imediato da pop electrónica, que toma The Man Machine como
‘bíblia’ de referência.
1979. The Human League
«Reproduction»
Fruto directo das influências dos anos mais recentes, a
pop dos Human League reflecte um tom gélido, mecânico, quase catastrofista, que
muitos designam por «cold wave». Neste seu primeiro álbum juntam a essa
linguagem um sentido lúdico que Dare!, dois anos mais tarde, transformaria num
ícone de referência da electro pop.
17 anos depois de ‘Electric Cafe’, os Kraftwerk regressam
com um álbum que não esconde o tempo em que nasce mas que se mantém firme na
linguagem clássica do grupo. Não se procurem ‘modernices’ despropositadas nem
invenções para enganar a idade. Os mestres sabem que ainda o são.
Nuno Galopim
Como tão bem o poderiam ter dito os Xutos & Pontapés,
apesar de diametralmente opostos em termos musicais, longa se tornou a espera
por quem, ano após ano, aguardava por novidades do quarteto de Dusseldorf que,
como poucos grupos na história da música popular, é fonte de um raríssimo
sentido de unanimidade, sendo-lhes atribuída uma espécie de carga matricial de
tudo o que a pop herdou de electrónico nos últimos 30 anos...
Em 2000, quando anunciaram o regresso ao activo para
então nos darem a conhecer a canção-tema «oficial» que haviam composto para a
exposição universal de Berlim – que simplesmente intitularam Expo 2000 – muitos
pensaram que talvez estivesse para breve a concretização de um há muito
aguardado álbum de originais, o sucessor de Electric Cafe que data já de...
1985!
Mas não foi ainda dessa vez que o grupo de quatro
elementos (dos quais se mantém apenas dois membros da formação «clássica», Ralf
Hutter e Florian Schneider) abriu as portas do secretismo ao qual há muito
envolveu o seu estúdio Kling Klang, que durante parte dos anos 90 serviu o
árduo e lento processo de digitalização de todas as fontes de som analógicas
usadas na extensa discografia lançada entre os anos 70 e 80. De resto, em The
Mix, álbum de remisturas lançado em 1991 e no site oficial do grupo (em www.kraftwerk.com) são visíveis marcas
desse trabalho de transposição de velhas fontes de som para os novos suportes
digitais. Tudo isto sem «alterar» a alma «tradicional» do som Kraftwerk.
Muitos foram os que, ao longo dos últimos anos,
defenderam a tese de que haveria uma suposta ansiedade instalada entre os
Kraftwerk, que lhes fazia temer a edição de algo que não acabasse considerado
ao nível da excelência da obra anterior. E aqui basta ouvir uma vez o novo e
belíssimo Tour De France Soundtracks para entendermos que estamos perante uma
obra que não só exala imediatamente as marcas dos seus autores, como sabe estar
à altura tanto de reencontros com exigências antigas e com novos desafios, até
mesmo novos sons, sem abusar, como em The Mix, dos «excessos» das novas
linguagens rítmicas. Aliás, a reduzida presença de «modernices» rítmicas, em
favor de um certo classicismo (mesmo com algumas excepções), acaba por ser uma
das mais notáveis conquistas deste regresso finalmente concretizado.
Apesar do «receio» ou «não vontade» em apresentar
qualquer material novo ao longo dos anos 90, nada impediu o grupo de, mesmo
depois dos abandonos de Karl Bartos e Wolfgang Flur, encarar a hipótese de
enfrentar plateias, o que aconteceu não muitas, mas suficientes vezes, ora
devidamente documentadas (como no vídeo de campanha Stop Sellafield), ora
registadas nas memórias dos felizardos que assistiram aos concertos em eventos
como, entre outros, o Sónar, em Barcelona...
Há cerca de dois anos, num gesto inesperado que ninguém
então ligou ao que acabaria por ser o futuro próximo do grupo, reeditaram em CD
o histórico EP de 1983 Tour De France, disco que assinalava um reencontro com
uma já antiga paixão pela ideia de viagem e dos percursos (basta evocar
Autobahn, isto é, auto-estrada, ou Trans Europe Express, um comboio),
adicionando ao som um elemento espantosamente novo e, oops, humano. Tour De
France fala do esforço e camaradagem entre ciclistas e baseia a sua estrutura
rítmica no arfar de quem pedala. Isto é, a máquina ainda está por lá como
elemento protagonista, mas a fonte de som prioritária e mais evidente ao longo
de toda a canção acaba por nascer do corpo humano. Contradição face a ditos do
passado ou, antes, o definitivo reconhecer do papel uno entre o homem e a
máquina, antes mesmo das invasões do mundo por «terríveis» cyborgs.
Tour De France Soundtracks tem tudo para ser um novo e um
absolutamente «tradicional» álbum dos Kraftwerk. Como em momentos de Trans
Europe Express e, sobretudo, Computer World e Electric Cafe, o álbum dedica
parte do seu alinhamento a uma espécie de ciclo que se estende por várias
etapas, aí uma evidente dedicatória à Volta a França em Bicicleta. Depois de um
prólogo (Prologue) entramos numa sequência de três etapas, que terminam com um
contra-relógio (Chrono), com uma continuidade de registos e soluções mecânicas
que quase nos fazem sentir a memória conceptual de um Autobahn... Todas estas
peças são novas, pontualmente captando um registo do Tour de France original,
que se serve em versão revista e melhorada a fechar o álbum, qual epílogo.
Esta nova versão de Tour de France corresponde ao único
momento não «inédito» do álbum, já que, ao contrário do que chegou a circular
como primeira notícia, este é mesmo um álbum de originais. Além da suite
dedicada à centésima Volta a França em Bicicleta (e ao próprio vigésimo
aniversário do original Tour de France), o álbum mostra quão fiéis a si mesmos
continuam a ser os «mestres» de Dusseldorf. Apesar de serem evidentes novas
estruturas e maquinarias rítmicas, as fórmulas melodistas e o modo de usar as palavras
seguem velhas e sábias fórmulas «robóticas». Evitando a contaminação do que não
é seu, como sábios professores que sabem que certos alunos levaram a outros
níveis os seus ensinamentos, mas que não têm o direito de agora as reclamar
para si, evitam recorrer a fórmulas downtempo, trip hop, techno ou aos blips
and blops tão na moda. Ideias que geneticamente descendem em alguns casos de
velhas bíblias escritas nas caves secretas dos estúdios Kling Klang, mas que
têm agora vida própria. Tal como vida própria continua a ter a estimulante
música dos Kraftwerk. Escutando temas como Vitamin, Aero Dinamik ou Titanium
verificamos quão perto estamos de presenciar um presente que sabe ser tão agora
como a herança do antes. Já em Elektro Kardiogramm e na sua continuação, em
Regeneration, reencontramos um sentido de melodismo que evoca os dias pop de
Computer World, embora seja evidente que tecnologicamente o discurso verbal e
musical seja do século XXI. As «máquinas», afinal, sabem bem onde e quando
estão neste momento de regresso...
Escutado por diversas vezes, e ultrapassando o efeito
viciante que o disco desencadeia sobre qualquer grande admirador do grupo sem
receios de neles encontrar hoje uma banda 17 anos mais velha que a que fez
Electric Cafe mas que formalmente não se afastou muito do seu rigor
linguístico, Tour de France Soundtracks revela-se um disco que facilmente
podemos colocar entre os melódica e espiritualmente mais tranquilos do
quarteto. Não é a resposta nunca dada ao álbum Techno Pop, que incidentes
passados impediram que alguma vez visse a luz do dia (nesse sentido, o tom
espartano da contenção melodista de Electric Cafe talvez seja até o que de mais
próximo dessa ideia perdida hoje podemos evocar).
Figuras de importância matricial na construção de uma
linguagem que explica muita da música dos últimos 30 anos, com a coragem de
evitar o chinfrim visual e eléctrico tão em voga nos inícios de 70, os mestres
estão de volta. Em primeiro lugar merecem respeito. E, em segundo, que se lhes
escute um álbum sóbrio e coerente, linguisticamente claro, esteticamente firme
no desejo de não mudar o que «não tem» de ser mudado. Regras são regras. E se
há grupo que as crie e siga à risca, esse grupo são os Kraftwerk!
A Paixão Pelo Ciclismo
Fruto de um interesse do grupo pelo ciclismo, ‘Tour de
France’ surgiu em 1983. Um acidente de Hütter impediu que o projecto fosse,
depois, mais longe.
A enorme popularidade angariada pelo grupo desde os
sucessos de finais de 70 fez dos Kraftwerk um motivo de desejo pop com valor acrescentado
na alvorada de 80.Contudo, contra o excesso de curiosidade, a resposta natural
do grupo acontecia pelo silêncio, pela sucessiva recusa em dar entrevistas,
pela cada vez mais discreta exposição. A dada altura há quase um regime de
black out imposto pelos próprios a si mesmos, num desejo de paz procurando no
«mui» secreto refúgio dos estúdios Kling Klang. Um silêncio coincidente com a
chegada ao número um em Inglaterra de uma reedição (com capa à Computer World)
do já clássico The Model... O silêncio é rompido apenas em 1983, com a edição
de um novo single, Tour de France, e o anúncio de um álbum que supostamente se
seguiria, que chegou mesmo a ter número de série mas acabou por nunca ser nem
gravado nem editado...
Tour de France reflectia já um crescente interesse do
grupo pelo ciclismo, desporto que se tornará entretanto actividade regular
entre os elementos do colectivo, sobretudo depois de terminada a cansativa
digressão que se seguiu a Computer World.
Chegados a uma meia idade na qual muito desperta um
renovado interesse pela preservação do corpo, os Kraftwerk encontraram no
ciclismo um desporto, sobre o qual Ral Hütter já nutria há muito um claro
interesse.
Em pouco tempo a discussão sobre esta nova fonte de
interesse passou da racionalização à acção, com encontros regulares num dos
clubes velocipédicos da cidade. Não só trabalhavam o corpo como se mantinham
juntos e, ao ar livre, asseguravam uma fuga pontual à relativa claustrofobia
dos estúdios onde só eles e os mais próximos amigos tinham ordem para entrar.
Ao mesmo tempo a actividade desportiva em conjunto permitiu-lhes criar um
uniforme negro (da cor da noite, isto é, das suas horas normais de trabalho em
estúdio) que todos usavam por igual. Enfim, a filosofia «kraftwerkiana» em
acção velocipédica!
Do interesse à concepção de uma canção que o reflectisse
o passo foi rápido e natural. Depois de temáticas de alta tecnologia nos anos
70, e de um olhar sobre os computadores na alvorada de 80, era o corpo humano,
em diálogo com a máquina, a fonte central de reflexão a quatro. Mais ainda,
depois dos motores dos carros e comboios, depois da radioactividade e dos
mecanismos das máquinas de calcular, a ideia era a de celebrar os músculos
humanos, o esforço físico. Tudo isto corresponde ainda a um momento histórico
de escalada de um certo discurso ecologista, que leva os próprios membros dos
Kraftwerk a trocar os seus belos Mercedes por carrinhos mais económicos.
A canção, em 1983, foi pensada segundo o som da
respiração e do pedalar, sugerindo em pleno as intenções conceptualizadas.
Infelizmente, um gravíssimo acidente de bicicleta de
Hütter não só atrasou o single como comprometeu um álbum de conceito de que
certamente esta canção seria uma peça central. Justiça feita agora, 20 anos
depois.
DISCOGRAFIA
Para uma discografia representativa, álbuns como
‘Autobahn’, ‘Radio-Activity’, ‘trans Europe Express’, ‘The Man Machine’ e
‘Computer World’ serão os essenciais. Os restantes completam apenas uma
discografia fundamental.
1969. ‘Tone Foat’
Originalmente assinado como Organisation, é um espaço de
improvisação.
1970. ‘Kraftwerk’
A «verdadeira» estreia demonstra ainda um predomínio do
ensaísmo.
1971. ‘Kraftwerk 2’
Apesar da continuidade, em Kling Klang surgem saudáveis
pistas novas
1973. ‘Ralf & Florian’
Momento de quase ruptura com o passado e desvio para o
melodismo
1974. ‘Autobahn’
O primeiro clássico, com uma aproximação à ideia de
canção pop!
1975. ‘Radio-Activity’
Novo registo conceptual, insiste na procura da linguagem
da canção pop.
1977. ‘Trans Europe Express’
De grande importância histórica futura, definiu uma
linguagem europeia.
1978. ‘The Man Machine’
A obra-prima da pop electrónica é a base da música dos
últimos 25 anos.
1981. ‘Computer World’
Novo depoimento «conceptual», centra-se na relação com o
computador.
1986. ‘Electric Cafe’
Em vez do «abortado» Techno Pop, um disco minimalista e
experimental.
1991. ‘The Mix’
Uma revisão da matéria dada à luz das emergentes corrente
rítmicas.
1998. ‘The Best Of Kraftwerk’
Editado apenas no Japão, um simples apanhado de clássicos
para recordar.
1998. ‘Concert Classics’
Um dos dois discos live do grupo, esta ainda antes da
chegada de Bartos.
1999. ‘Autobahn Tour’
Gravado na mesma digressão, um documento da era anterior
à da «fama».
2000. ‘Expo 2000’
A canção oficial da Expo de Hannover surgiu em vários
EPs, com remisturas.
PARA LÁ DA DISCOGRAFIA
LEITURAS E CONSULTAS
LIVROS
Bussy,
Pascal: ‘Kraft-werk: Man Machine And Music’
S.A.F.
1993
Barr,
Tim: ‘Kraftwerk – From Düsseldorf To The Future (With Love)’, Telbury Press,
1998.
Flür,
Wolfgang: ‘Kraft-werk: I Was A Robot’, Sanctuary 2000
HOMENAGENS E TRIBUTOS
Uma banda com o peso histórico e matricial de uns
Kraftwerk só podia gerar uma série de compilações de tributo. O curioso é que,
além dos muitos tributos que existem no mercado, dois discos de autores
concretos lhes dedicam atenção protagonista. Um deles é ‘Possessed’, que o
Balanescu Quartet gravou em 1992, álbum sublime e referencial que assume uma
abordagem por um quarteto de cordas à música destes quatro alemães. Igualmente
‘estranha’ e diferente foi a homenagem de Senor Coconut em ‘El Baile Alemán’,
transformando as canções dos Kraftwerk em temas conduzidos por ritmos
latino-americanos. Além destes dois discos temáticos abundam no mercado os
álbuns-tributo aos Kraftwerk, do já histórico ‘Trans-Slovenia Express’ com
bandas balcânicas e todo um extenso rol de propostas oriundas dos mais diversos
cantos de actividade musical electrónica. Afinal, mestres são mestres e sabem
ter descendência!
SITE OFICIAL
Vale a pena espreitar, com tempo, o site oficial dos
Kraftwerk, em www.kraftwerk.com.
Seguindo uma lógica de interactividade, o site convida à «visita» a várias
canções que fizeram história, muitas delas permitindo ao visitante a hipótese
de criar as suas versões, quebrar esquemas rígidos, interferir. Podemos, por
exemplo, alterar as sequências de efeitos em ‘Boing Boom Tchak’, somar melodias
aleatórias em ‘Pocket Calculator’ ou fazer dançar os quatro robôs em ‘The
Robots’... O grafismo que acompanha cada canção respeita capas e motivos dos
originais.
O Documento áudio da inesquecível digressão mundial dos
Kraftwerk que nos visitou em 2004 chega em ‘Minimum Maximum’. Um verdadeiro
‘Best Of’ de 36 anos de carreira gravado ao vivo.
T: N.G.
Apesar de terem protagonizado algumas digressões
históricas nos anos 70 e inícios de 80 (está de resto registada em disco a
Autobahn Tour de 1974, mais concretamente nos álbuns não oficiais Concert
Classics e Autobahn Live), os Kraftwerk não foram, durante uma série de anos,
grandes “amigos” da estrada. Nos últimos tempos, porém, têm corrido o mundo,
com a mais espantosa experiência audiovisual de alta tecnologia que os palcos
pop/rock alguma vez assistiram. Uma experiência que agora, a meio de uma
digressão que continua na estrada, se regista em álbum.
Há um ano, a dias da sua estreia em concerto em Portugal,
numa inesquecível noite de música no Coliseu dos Recreios, Ralf Hutter explicou
ao DN que só agora a tecnologia disponível lhes permite concretizar em palco
uma velha visão de conceito multimédia que há muitos anos alimentavam como
cenário de sonho para os seus espectáculos. “Temos o nosso próprio estúdio, o
Kling Klang Studio, que é como que um instrumento para os Kraftwerk. E agora,
no seu novo formato digital, é mais portátil, pode viajar...”, contou. “Pela
primeira vez podemos tocar a nossa música em sincronismo com gráficos gerados
por computador ou imagens de vídeo, pinturas electrónicas... Tudo o que a
tecnologia hoje permite! Estamos muito felizes porque nesta digressão mundial,
podemos apresentar, finalmente, as coisas que queremos segundo uma visão que há
muito tínhamos. Essa visão é, agora, para nós, uma realidade”.
Tendo o grupo nascido nos dias de 70 com uma filosofia e
imagem de clara oposição aos padrões tradicionais pelos quais se edificavam os
mitos rock’n’roll, a sua postura em palco nunca visou quaisquer intenções de
assimilar os hábitos performativos do rock. Pelo contrário, os quatro elementos
do grupo sempre se mantiveram quase inertes por detrás dos seus teclados e
consolas, deixando que o movimento necessário ao acompanhamento da música se
fizesse através do desenho de luz e de projecções. A digressão mundial que o
ano passado vimos em Lisboa e, depois, num serão acidentado no Sudoeste, e que
agora registam em disco, recorre ao que designam por protótipo móvel Kraftwerk
2002, um conjunto complexo de computadores e outras máquinas que gerem em
sincronismo a performance musical e o lançamento no espaço de imagens e
gráficos gerados por computador. Hutter sublinhou aqui que, desta maneira, a
tecnologia do século XXI deu assim a resposta a velhas Ânsias do grupo:
“Deu-nos ferramentas para poder tornar reais certas visões nossas. E também
mobilidade, movimento... Sempre nos interessámos bastante pelo movimento, daí a
conhecida velha fascinação pelo ciclismo.” Hutter recordou ainda que a busca
deste sentido de mobilidade das suas ferramentas electrónicas representou uma
das demandas fundamentais desde os primeiros tempos de vida do grupo. “Eu e o
meu amigo Florian Schneider criámos o nosso Kling Klang Studio em 1970 e
dispendemos então muito tempo na sua construção para que assim conseguíssemos
ser independentes e autónomos”, lembrou.
“Mas os nossos primeiros sintetizadores eram enormes e
estavam constantemente a desafinar. Eram muito caros... O nosso primeiro
sintetizador foi tão caro como o meu Volkswagen, que é o que está na capa de
Autobahn. Sendo estudantes, tínhamos então os nossos problemas naturais... O
Florian desenvolveu então o nosso primeiro instrumento electrónico de
percussão, a partir de um outro órgão meu. Um amigo nosso, que era pintor,
trabalhava connosco pintando as capas dos discos... Envolvíamo-nos em inúmeros
projectos além da música, num contexto multimédia electrónico. E agora estamos
a fazer a rodagem mundial do nosso protótipo móvel Kraftwerk 2002. Hoje podemos
viajar e ser como pilotos de ensaio para software electrónico relacionado com a
música. Continuamos, hoje, a trabalhar com o mesmo engenheiro musical que nos
acompanha, desde o The Man Machine... É um processo de continuidade...”.
Quem viu os concertos, sabe que fala verdade.
Com precisão germânica, os concertos começam sempre à
hora marcada (o que no caso da actuação no Sudoeste acabou por não dar tempo
para a reparação de uma má comunicação entre os computadores que geram as
imagens e os ecrãs). Uma voz robótica anuncia que o espectáculo vai começar. E
logo as cortinas se abrem para, ao som de The Man Machine, revelar os quatro elementos
do grupo estáticos frente aos seus teclados. E, por detrás, um gigantesco ecrã
por onde evoluem imagens digitalmente criadas, filmes vintage, referências
claras às capas dos discos, palavras cantadas... Extensão directa do conceito
total que é a arte dos Kraftwerk, o concerto materializa mais uma ideia de
instalação musical electrónica, uma vez mais reinventando os Kraftwerk como um
espaço de afirmação de uma identidade oposta à iconografia tradicional da
cultura rock’n’roll. O alinhamento, invariável, passa por momentos do recente
Tour De France Soundtracks (como Vitamin, Aero Dynamic, Elektro Kardiogramm e
diversas variações em torno do clássico Tour DE France), como proporciona um
coerente mergulho por um passado mítico, através da recuperação de peças-chave
da história da música como Autobahn, Radioactivity (versão mista entre a
original, de 1975, e a remistura de 1991), Trans Europe Express (com adenda
Metal On Metal), The Model, Neon Lights, Computer World (e o complemento Home
Computer), Numbers, It´s More Fun To Compute, Pocket Calculator, Dentaku, Music
Non Stop ou o mais recente Expo 2000, na versão Planet Of Visions. No primeiro
dos encores abandonam o palco deixando-o entregue aos seus célebres robots,
numa magistral celebração do tema The Robots (novamente em versão
“actualizada”, segundo a norma aplicada no álbum The Mix, de 1991).
Com o esperado perfeccionismo áudio que caracteriza todas
as gravações do grupo, Minimum Maximum traduz em disco o mais espantoso
concerto que os palcos nos deram nos últimos anos. E consegue, talvez pela
força do alinhamento best of, resistir à ausência da imagem (afinal, o concerto
era, como se afirmou já, uma experiência audiovisual). A possibilidade de
edição do DVD que documenta esta mesma digressão está na agenda imediata do
grupo. Seguir-se-á a reedição remasterizada da obra editada entre 1974 e o
presente. Hutter explicou que este trabalho de restauro lhes ocupou parte do
tempo nos últimos anos: “estivemos a trabalhar na adaptação aos formatos
digitais de toda a música dos Kraftwerk. Tínhamos fitas muito antigas que se
estavam a degradar e havia muito trabalho para fazer. Estivemos a transformar
33 anos de trabalho de arquivo dos Kraftwerk em formato digital. Hoje todos os
sons originais estão disponíveis e vamos brevemente lançar versões
remasterizadas de todos os nossos álbuns desde Autobahn. Essa edição vai
chamar-se The Catalog. E o grafismo dos discos vai incluir ideias que não
pudemos usar no passado”, adiantou. Venham elas!
Kraftwerk, Coliseu dos Recreios (Lisboa), 2 de Abril
Texto: Catarina Sacramento
Foto: Rita Carmo
Apenas quatro focos iluminam as silhuetas em palco –
quatro corpos idênticos, vestidos de negro, rígidos, cada um em frente do seu
laptop. São eles Ralf Hütter, Florian Schneider, Emil Schult e Fritz Hilpert,
formação actual dos Kraftwerk, mas a ideia é exactamente não saber que é quem;
anular a identidade individual numa simulação robótica colectiva, concretizar o
imaginário simbiótico entre o Homem e a máquina desenvolvido pela banda desde
inícios de 70. O público, igualmente impávido (à parte das manifestações
pontuais de emoção, autêntica, mas inibida pela não reacção intencional dos
alvos de aplauso), não tira os olhos do palco.
Foi preciso esperar 30 anos por um concerto dos Kraftwerk
em Portugal e as expectativas são mais que muitas. Felizmente, eles
(cor)respondem com duas horas daquilo que lhes conferiu um estatuto pioneiro na
história da música popular: os ritmos electro-qualquer-coisa, as vozes
robóticas, o jogo de luzes e projecções de imagem e os clássicos absolutos da
história da banda, que também são momentos-chave do séc. XX – tudo o que, em
diferentes instantes presentes, constitui a ideia de futuro.
O tempo não fez dos Kraftwerk robôs da terceira idade e a
prova é que esta histórica aparição em Lisboa não o foi apenas por ter
revisitado temas incontornáveis, mas pela actualização rítmica a que os
sujeitaram – reenquadrados em molduras house, tecno, breakbeat, hip hop (?) e crepitações
várias, deixando mesmo a fronteira com o trance a escassos metros de distância
-, sem, contudo, macular o espírito original. O segredo parece residir na
exploração das mais diversas emoções por via electrónica sem nunca abandonar a
experimentação. À medida que os temas se sucedem o apelo à dança acentua-se, em
contraste absoluto com a postura hirta dos protagonistas: ambas são peças desta
máquina criadora de sugestões e metáforas, alimentada pela aceleração até à
meta de «Tour de France» (com a musculatura em evidência e a escalada da
montanha a par com a escalada rítmica); pela invasão de comprimidos de todas as
cores e feitios («Vitamin»); pela auto-estrada a aproximar locais até aí
afastados (sons de buzinas, travagens a fundo e motas a passar a alta
velocidade são integrados na melodia de «Autobahn»), pela memória do Moog a
saltitar entre as teclas deliciosas de «The Model» e o cabelo armado das
senhoras dos anos 40, pelas «Neon Lights» a piscar em fundo; ou ainda pela
agressividade da voz que soletra Ra-di-o-Ac-ti-vi-ty como quem faz um
inventário dos danos depois da catástrofe. E não tarda a partir da estação o
«Trans-Europe Express», com toda a maquinaria de ruídos em movimento e a
simbologia correspondente que as imagens tratam de fornecer.
Quinze minutos depois, fim da linha. Mas o público pede
mais e uma voltinha e uma voz robótica (desta vez é amiga) abre o livro de
matemática no capítulo «Numbers», «Computer World» e «Pocket Calculator» (num
estilo de blips electro-tec-house). Mais dois regressos ao palco, com novos
trajes verde fluorescente e «Elektro Kardiogramm» incluído, a terminar com a
saída dos quatro, um a um, até ficar só o eco de «Musique Non-Stop» a preencher
a atmosfera com solidão auto-referencial.
Ironia suprema seria mesmo «The Robots», no segundo
encore: o Coliseu aplaude quatro robôs que surgem no lugar dos protagonistas e
se movem, em gestos trôpegos, ao som da música pré-gravada. Um endeusamento
proporcional à vontade de auto-anulação dos próprios autores...
RALF HUTTER, AQUELA MÁQUINA
P - Em vez da maquinaria antiga, os Kraftwerk levam agora
para o palco computadores portáteis. Essa mudança é de alguma forma redutora do
conceito geral dos espectáculos do grupo?
RH – Convertemos todo o material analógico para formato
digital, mas o conceito é o mesmo. Até está mais perto da visão que tínhamos de
um estúdio electrónico móvel, quando criámos o estúdio Kling Klang. Os nossos
computadores estão todos ligados, sincronizados.
P – O facto de permanecerem quase imóveis em palco é uma
forma de enfatizar a música e não aqueles que a fazem?
RH – Sim. Mas é sobretudo porque os computadores são
muito sensíveis e exigem toda a nossa atenção e concentração. É um trabalho
milimétrico.
P – O que sente quando os Kraftwerk são apontados como um
marco decisivo na história da música popular? A presente digressão tem dado
mostras da receptividade das novas gerações à música dos Kraftwerk?
RH – Absolutamente. É uma energia que recebemos e nos
empurra para a frente, encorajando-nos a continuar. E as pessoas reconhecem
mesmo as músicas e as pequenas alterações, captam as vibrações.
P – No último disco, Tour de France Soundtracks, a
relação homem-máquina (abordada de difeentes formas nos álbuns anteriores)
materializa-se na ideia de ciclismo. De que modo?
RH – Representa a simbiose perfeita entre o homem e a
máquina, daí que seja um som mais circular. O Trans-Europe Express tinha
aqueles sons metálicos, pesados, das engrenagens [dos comboios]. A bicicleta é
um instrumento musical.
P – Mantém-se atento À música que se faz actualmente?
RH – Continuo a ouvir música, quando vou aos clubes. Mas
a música vem de todo o lado: das máquinas, dos comboios, dos carros, da
natureza. O bater do coração, a respiração... a minha maior influência é a vida
diária.
P – Nos dias de hoje qualquer pessoa faz música sem sair
do quarto, com um laptop. Essa banalização compromete a qualidade da música
electrónica?
RH – Não, acho que a música está mais criativa. Antes era
preciso trabalhar em laboratórios enormes, como aconteceu connosco nos anos 70.
Por isso é que desenvolvemos o nosso próprio estúdio, despendemos imensa
energia para criar a nossa primeira caixa de ritmos, depois os primeiros
sintetizadores... O meu primeiro sintetizador custou o mesmo que o meu
Volkswagen. Hoje os Instrumentos são cada vez mais acessíveis e isso é óptimo.
Já não há limitações à criatividade, para compor, para concretizar o que temos
em mente.
P – E o próximo disco de originais, já estão a trabalhar
nele?
RH – Concluímos agora a digitalização do nosso catálogo.
Juntámos os oitos álbuns numa caixa, em língua inglesa e alemã. Transformámos
as cassetes antigas em formato digital, remasterizámo-las e o catálogo completo
vai finalmente ser editado pela primeira vez, em todo o mundo. Daqui em diante
estamos prontos para começar a trabalhar em novos temas. Este é apenas o início
de uma nova fase digital.
BLITZ
(Jornal Musical)
Ano IX
Nº 433
16 de Fevereiro de 1993
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 100$00
40 páginas
Capa e algumas páginas interiores a 3 cores, outras a preto e branco.
Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Av. Infante D. Henrique, 334, 1802 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Redacção:
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Miguel Francisco Cadete
Nuno Galopim
Raquel Pinheiro (Porto)
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Direcção Gráfica:
Cândida Teresa
Colaboradores:
Adágio Flor
Álvaro Romão
André Lepecki (Nova Iorque)
António Freitas
António Maninha
António Pedro Saraiva
Bruno Branco
Bruno Maçães
Diniz Conefrey (ilustração)
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Santos Marques
Gimba
Hélder Moura Pereira
Hélder Salsinha (fotografia)
Hugo Moutinho (Porto)
Isabel Lucena (Londres)
João Correia
João Bugalho
José António Moura
José Antunes
Lili Wilde (Londres)
Luís Mateus
Luís Pinheiro de Almeida
Maria Ana Soromenho
Maria Baptista
Maria João Gouveia
Mário Correia
Miguel Cunha
Miss Ex
Monsieur Sardin
Paulo da Costa Domingos
Paulo Somsen
Pedro Esteves
Pedro Portela
Rafael Gouveia (Paris)
Rui Eduardo Paes
Sérgio Noronha
Sofia Louro
Teresa Barrau
Vítor Vasques (fotografia)
Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias
Tiragem média do mês anterior: 19 290 exemplares
Tal como disse aqui, este é um número de um período posterior em cerca de três anos e que cai naquela fase que então cataloguei como a segunda decadência, quicá o início dela, quiçá a última...
O Director continua a ser o mesmo (Rui Monteiro), alguns colaboradores são de qualidade (ver lista abaixo), mas já não era a mesma coisa. E fico-me por aqui.
Curiosamente, apesar da deriva mainstream a tiragem média decresceu.
AS ORIGENS
TECHNO 50 / 70
De pachhhh-bk-iiipschhhhhhh-bik a bzzzzzzzzzzzzz via
boiiing boom tachak
Ninguém nasce por geração espontânea. Os biólogos e
bio-químicos desde há muito deixaram clara a existência de um longo processo
evolutivo biológico, antecedido por uma ainda mais longa fase de ensaios
químicos (pré-biológicos), unicamente para explicar a origem de vida na Terra.
Com os géneros musicais, por mais cibernéticos, afastados
dos padrões biológicos ou desumanos que os queiram caracterizar, há também que
entender a necessidade de uma pré-história onde as bases fundamentais, os
vocabulários possam nascer, desenvolver-se.
Só é possível um «Charly» de uns Prodigy porque, desde o
advento das electrónicas, o homem sempre tentou nelas encontrar um veículo para
diversas aplicações, entre as quais as musicais.
As primeiras experiências válidas podem ser encontradas
em trabalhos experimentalistas assinados por nomes como Karlheinz Stockhausen,
Iannis Xenakis ou Pierre Boulez, nos anos 50.
Stockhausen deve aqui ser referido como um nome
fundamental, uma vez que «Gensag Der Junglinge» (1956) pode ser apontado como
dos primeiros trabalhos a remodelar os até então frequentes encontros entre as
técnicas de gravação ligadas à música concreta e certas escolas electrónicas.
Este trabalho, juntamente como outros por si assinados (como «Hymnen» ou «Aus
Den Sieben Tagen») serviram de base para intensos estudos (Stockhausen, e a grande
maioria dos seus contemporâneos, era académico), tendo encantado espíritos
igualmente inovadores como os de Terry Riley ou Philip Glass que, mais tarde
podemos encontrar como membros fundadores do movimento minimal repetitivo
norte-americano. A techno foi, portanto, um território de estranha e quase
impenetrável experimentação. Claro que, nesta altura, o termo techno não
existia, nem faria qualquer significado.
Para terem ideia do som destes primeiros ensaios
«technológicos», tentem brincar, simultaneamente, com um rádio de ondas curtas
e as mais estranhas fontes geradoras de som, desde cordas de piano soltas a
gotas de água em dia de chuva.
Por territórios experimentalistas a techno permaneceu até
à alvorada dos anos 70. Antes, ainda nos anos 50, devemos apontar algumas
tentativas de fuga aos nebulosos laboratórios nomeadamente as protagonizadas
pela BBC Radiophonic Workshop, responsável pela concepção de sons para
programas da série «Dr. Who» - talvez se recordem de alguns destes sons na
brincadeira dos KLF, sob o alter-ego The Timelords, «Doctorin’ The Tradis». Por
essa mesma altura, na Califórnia, o dr. Robert Moog dedicava, diariamente,
horas de estudo a um projecto seu que, apenas em 1972, fez a sua estreia em
disco: o sintetizador (o disco era «Son of My Father» dos Chicory Tip). Com um
novo meio disponível, e outros tantos em fase de acabamento, a techno viveu
então a aurora de um processo que, em menos de dez anos dela faria um dos
elementos fundamentais da música.
Sediados nos «sagrados» estúdios Kling Klang em
Düsseldorf, quatro alemães desenvolviam os fundamentos estruturais para uma
nova linguagem exclusivamente derivada de códigos electrónicos. Filhos-prodígio
de uma vaga «electrónica» surgida na Alemanha em 1970, os Kraftwerk souberam, a
princípio, investigar as possibilidades e capacidades dos seus instrumentos.
«Kraftwerk 1» (1971), «Kraftwerk 2» (1972) e «Ralf and Florian» (1973) pouco
mais permitiam que novos ensaios, novos testes. Em 1974, uma vez dominada a
nova tecnologia, criam o clássico «Autobahn», o primeiro disco «techno» para
ouvidos menos sofisticados. Com os sucessores «Radio Activity» (1975), «Trans
Europe Express» (1977) e, sobretudo, «The Man Machine» (1978), definem as
regras para uma aproximação das novas linguagens à chamada música popular. Yello,
Yellow Magic Orchestra, Human League ou Gary Numan completam a elaboração de
princípios suficientes para que, em finais de 70, surja, explosivo, o fenómeno
da «techno pop».
O entendimento entre linguagens «techno» e a música de
dança foi, pela primeira vez, concretizado pelos próprios Kraftwerk, por
ocasião da composição de «The Model» em 1978. Pouco tempo bastou para que
outros lhe seguissem os passos. Além das diversas abordagens dançantes «techno
pop» (Depeche Mode, Heaven 17, OMD, ...) ou de si derivadas (Yello, Yellow
Magic Orchestra, Ryuichi Sakamoto), outras leituras em breve se tornaram
possíveis. Seguindo pistas já ensaiadas no «funk» de finais de 70, alguns entre
os primeiros «rappers» desenvolveram as vias «electro». «Planet Rock» dos
África Bambaataa pode servir como exemplo. Foi também por mãos negras que, na
Detroit de meados de 80, DJs como Derrick May, Kevin Saunderson ou Juan Atkins
protagonizavam um processo de fusão entre linguagens «techno» e os ritmos
«house» que então emergiram em Chicago. Eram os primeiros passos da «techno
house» que, passados quase seis anos, conheceu já tantas formas quanto as que a
imaginação de músicos e DJs tem permitido: «acid house», «hardcore techno»,
«progressivo house», «new beat», «italo techno», «techno trance», blá blá blá
bzzzzzz!
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Novo - Volume 10 - 2002
(publicado em 02.01.2025)
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Novo - Volume 9 - 2001
(publicado em 29.12.2024)
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Novo - Volume 8 - 2000
(publicado em 18.12.2024)
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Novo - Volume 7 - 1999
(publicado em 16.12.2024)
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Novo - Volume 6 - 1998
(publicado em 18.11.2024)
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Novo - Volume 5 - 1997
(publicado em 07.09.2024)
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Novo - Volume 4 - 1996
(publicado em 30.04.2024)
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Novo - Volume 3 - 1995
(publicado em 24.03.2024)
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Novo - Volume 2.3 - 1994
(publicado em 19.02.2024)
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Novo - Volume 2.2 - 1993
(publicado em 18.09.2023)
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Novo - Volume 2.1 - 1992
(publicado em 23.05.2023)
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Novo - Volume 1.2 - 1991
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Novo - Volume 1.1 - 1988/1990
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LULU (versões mais antigas - com alguns textos em falta, entretanto descobertos. Tal já não acontece com as versões mais actuais, publicadas agora na Bubok - Portugal - ver acima)
Volume 1 - 1988/1991
Volume 2 - 1992/1994 (460 páginas, formato maior que A4)
Volume 3 - 1995 (336 páginas, formato maior que A4)
Volume 4 - 1996 (330 páginas, formato maior que A4)
Volume 5 - 1997 (630 páginas, formato maior que A4)
Volume 6 - 1998 (412 páginas, formato maior que A4)
Volume 7 - 1999 (556 páginas, formato maior que A4)
Volume 8 - 2000 (630 páginas, formato maior que A4)
Volume 9 - 2001 (510 páginas, formato maior que A4)
Volume 10 - 2002 (428 páginas, formato maior que A4)
Volume 11 - 2003 (606 páginas, formato maior que A4)
Volume 12 - 2004/2005 (476 páginas, formato maior que A4)
Concrete Colored Paint - And Now Here
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Audiofiles
Label : Nostalgie De La Boue [ndlb#218], Ivory Coast, 2026
Concrete Colored Paint is the moniker of the prolific Peter Kris of German
Army.
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