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27.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (135) - Música & Som #100


Música & Som
Nº 100
- oitavo aniversário
Novembro de 1985
Publicação Mensal
Esc. 150$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 + suplemento/destacável Computadores... & Vídeo (16 páginas)
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.

Virginia Astley
«From The Gardens Where We Feel Secure»
FUND. ATLÂNTICA 24 02 681



A solidão, a melancolia, a quietude - qualquer coisa subtil e violenta que sugere um estado de tranquilidade máxima. Neste disco, a solidão que dele irradia revela-se inteiramente no seu individualismo tanto como na sua liberdade. Dois momentos privilegiados: manhã e tarde. Neles se vão espraiar o tempo e o espaço que brotam desta música. Nem ideologia, nem política, nem norma social, nem religião (ou talvez apenas esta). uma liberdade total - um espírito livre porque solitário. Virginia Astley decidiu neste disco exprimir exclusivamente a realidade da sua experiência vital, como que sentindo-se livre de todas as suas contingências. As portas fechadas ao mundo, abertas apenas para ele numa realidade diferente. Como que acreditando que a música é a última expressão da vida, Virginia Astley realizou este trabalho colocando-o numa esfera de todo independente da realidade que a cerca, inscrevendo-o numa esfera exclusivamente estética, deliberadamente onírica. Logo a abrir, With My Eyes Wide Open In Dreaming vem como que dar o mote, estabelecendo os limites do palco onde o espectáculo desta música se vai desenrolar. Um cadinho de símbolos: o Verão, o tempo, os pássaros, o silêncio, os jardins, as flores (as intenções do disco começam por ser logo expressas no espectáculo da capa interior), os campos, o calor. Pedra a pedra, à medida que a acção do disco decorre, é toda uma arquitectura que se vai construindo, uma nova fisionomia para o mundo em que vivemos, deformado, modificado e desfigurado, como que querendo que o movimento de criação perpetuamente continue, o verdadeiro fluxo que esta música é, continua a ser uma coisa ainda sensível mesmo depois (sobretudo depois) de ter soado a última nota musical. Símbolos, silêncios, espaços, um tempo único de calma absoluta - de facto, esta música permanece muito para lá da simples audição; a grandeza dos símbolos por si expressos revela-se exactamente na sua permanência dentro de nós com um ilimitado potencial de sugestão. A Summer Long Since Past, Hiding In The Ha-Ha, Too Bright For Peacocks, Summer Of Their Dreams, When The Fields Were On Fire, It's Too Hot To Sleep. Um dos sinais mais nítidos da pureza terrível desta música é a total ausência de preocupações utilitárias em qualquer sentido. Devagar, magicamente, a música vai entrando em nós instalando-nos na vasta área de uma infância perdida, mais ainda de uma adolescência também perdida, de qualquer forma tempos não esquecidos cuja reconstrução se impõe. Há qualquer coisa de proustiano nesta música - também nela se buscam as origens e se realça o papel dos símbolos. A sombra das raparigas em flor. Combray. O tempo (a infância, a adolescência) e um espaço (o campo, os jardins, as flores, o calor e a preguiça que lá existem). O imperfeito é o tempo deste disco, o imperfeito que parece eternizar as coisas na fronteira entre o presente e o passado. Assim, de um passado amortecido e escondido no esquecimento é que a memória (utilizando a música como meio) opera a ressurreição através do ressurgimento de uma impressão antiga. Um disco onde a intuição parece assumir um papel fundamental. É através desta intuição que o processo amnésico se vai processando e não, diria eu, através da memória consciente e racionalizada do passado.
Nem ódio, nem piedade, nem apologia, nem panfleto: apenas, e é tudo, uma realidade transposta, transformada e transfigurada numa visão estética - eis o clima espiritual de From Gardens Where We Feel Secure. Um disco, escusado será dizê-lo, absolutamente indispensável e de imprescindível audição. Fabuloso, íntimo e profundo como o som de um sino ao longe.
Carlos Marinho Falcão


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
Um Jardim de Infância - Nove Líricas de Virginia Astley, artigo "poético" de Miguel Esteves Cardoso
Discos em Análise:
. Heaven 17 - «How Man Are» [Virgin 626405], por Luís Maio
. Gene Loves Jezebel - «Promises» [Situation 2 Sito 1], por Luís Maio




23.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (131) - Música & Som #84


Música & Som
Nº 84

Setembro de 1983
Publicação Mensal
Esc. 120$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Amílcar Fidélis, Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, João Gobern, José Guerreiro, José Tavares, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Ferreira, Pedro Tomás, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com 16 páginas (centrais) a cores de papel brilhante como a capa e as restantes a p/b de papel fino, tipo jornal.

Ontem, A Música De Hoje
por Trindade Santos



Duma coisa começamos (finalmente!) a estar certos: a música acabou. A aventura desordenada, cujos episódios mais brilhantes chegamos agora a conhecer perfeitamente, terminou por volta da segunda década deste século.
Cerca de duzentos anos antes, Bach tinha perfeitamente estabelecido as regras do sistema tonal. Depois dele, o reportório das formas fixou-se definitivamente, enquanto o órgão, por excelência, da música Ocidental - a orquestra - atingia a estrutura e um modo de funcionamento insusceptível de ulterior evolução. Restavam ainda algumas pequenas transformações na técnica de escrita e interpretação deste ou daquele instrumento e de toda a orquestra, até se atingir o virtual esgotamento da paleta sonora. Chegou, por fim, a revolução intelectual e literária do serialismo: o primeiro - e até aqui único - sistema teórico inspirado em princípios abstractos e alheios à prática musical. A Música dera tudo o que tinha a dar.
A partir daí, todas as transformações ocorreram noutros campos: nos meios de comunicação, nas tecnologias de criação e reprodução da mensagem, nas técnicas de concepção e distribuição do produto final; em suma, tudo o que tinha a ver com as mudanças da própria sociedade, globalmente considerada.
Entre a música que continuava a tradição clássica e a outra, ligada à electricidade, a diferença principal residia na circunstância de, na primeira, o criador perder o contacto com o consumidor, enquanto, na segunda, essa comunhão continuar a ser a verdadeira razão de ser do espectáculo.
O sé. XVIII mostra-nos os primeiros casos de insatisfação do músico, perante as exigências a que o submete o seu patrão aristocrático. No séc. XIX, o Crítico aparece como elemento de ligação entre o artista e o seu público, moderador do ímpeto renovador do indivíduo e formador e educador da massa dos consumidores "cultivados". No séc. XX, a emergência da vanguarda e a ideologização das "estéticas" consumaram a ruptura entre o pólo emissor e o pólo receptor. De ora em diante, o público divide-se em "clássico" e "contemporâneo", praticamente separado em universos incomunicáveis. O reportório fixo da sala de concertos alimenta-se de um star-system ferozmente controlado por maffas rácicas. A vanguarda, acantonada em posições puramente defensivas, tenta disparar uma acção formativa, restrita Às élites das élites, quase que, apenas, música para os músicos.
Ao contrário, a música popular torna-se num rentável negócio. A qualidade é ofuscada pelo marketing, as vendas assumem o papel determinante e regulador da criação e o consumo dinamiza-se por automimetismo; toda a gente quer ser igual a toda a gente. O precário equilíbrio das cortes provinciais centro-europeias perdeu-se definitivamente. O gosto e a criatividade separaram-se, a ponto de se desconhecerem de todo. A renovação deteve-se perante o esgotamento das formas e fórmulas de criação. Há algum futuro para a música?
Parece que, a partir de agora, o futuro da música é o da própria sociedade e, num momento em que esta se encontra globalmente em perigo, nem adianta muito falar do assunto em termos puramente musicais. A única solução que se pode prever é ainda a da evolução dos próprios músicos. À medida que a diferença entre o insucesso e o reconhecimento público se vai tornando capital, vão surgindo indivíduos livres e soltos, triunfadores, capazes de impor novidades e formas de renovação mais adequadas ao progresso e à satisfação dos interesses das várias partes de um jogo.
Todavia, para podermos compreender o que esse futuro nos reserva, convirá dar uma volta pelo jazz. É o que faremos a partir do próximo número da M&S.
Trindade Santos.

Músicas do Quotidiano
por Carlos Marinho Falcão
Notas Sobre Um Quotidiano Absurdo
"Afinal de contas tá tudo maluco, ou quê!?..."
- Sr. Francisco, 78 anos, reformado -
As alterações dos comportamentos processam-se na maioria dos aspectos da vida social com grande lentidão. As atitudes novas são incorporadas noutras já existentes, parecendo por vezes, à primeira vista, formas de atitudes antigas que receberam uma nova aparência. Os indivíduos vivem assim, simultaneamente, em climas mentais diferentes. Se bem que as atitudes "antigas" sejam mais evidentes nas pessoas de meia idade para cima, as novas influências também nelas se fazem sentir. Por outro lado, um jovem que de maneira geral reúna todas as características comportamentais da adolescência actual, nem por isso deixará de conservar atitudes que lembram as do seu avô. Em suma, se bem que as atitudes "antigas" se mantenham ainda evidentes, as novas influências fazem-se simultaneamente sentir - ainda que de forma embrionária e, por vezes, pouco consistente.
Entre a recusa radical do antigo e a inconsistência provisória do novo, as perspectivas contemporâneas apresentam-se em Portugal de uma maneira geral confusas e geradoras de angústia: na falta de objectos identificatórios estáveis e proporcionadores de segurança chafurdamos no vazio, vociferamos aos quatro ventos, atolamo-nos inquietos no lodo da descrença e do cinismo da moda.
Hoje, numa sociedade como a nossa em que impera a insegurança e que tende cada vez mais para uma crescente despersonalização dos indivíduos, o antigo "espírito criativo de grupo" vai-se progressivamente diluindo na anomia, a antiga solidariedade bonacheirona e saloia de outros tempos vai-se transformando em conformismo arrogante e deliberado, ao mesmo tempo que, um pouco às cegas, se começa a correr atrás de uma determinada e redentora noção de progresso retirada à pressa de uma certa ideia mítica de Europa e de riqueza - tão vaga como abstracta.
Tem muito que se lhe diga essa coisa aliciante e promissora a que chamamos progresso. Fundamentalmente, há que ter em conta dois tipos, qualquer deles pouco ou nada tendo a ver com o outro: aquele que produz bem-estar melhorando as condições de vida daqueles que presentemente não beneficiam desse bem-estar e, por outro lado, o chamado "progresso pelo progresso", que nada tendo a ver com o bem-estar das populações, surge directamente relacionado com a mera promoção e consumo de bens, em sociedades definitivamente caracterizadas pela competitividade febril e pela ilusão de poder obtida a partir da posse antropofágica de bens.
A ideia geral veiculada é que só pode ser feliz aquele que possui a maior quantidade possível de bens. A tentação, tal como vulgarmente nos é apresentada, exerce-se no sentido de uma mera satisfação primária dos desejos egoístas, do incremento de uma espécie de individualismo hedonista, em tudo semelhante ao narcisismo infantil. Por outro lado, a tendência de preferir o fácil ao difícil, o lugar comum à imaginação criativa, as meias palavras que realçam a fraqueza, à apresentação escorreita e directa do facto "duro de roer", que choca e ofende - mas que tempera os caracteres.
Actualmente, a sociedade portuguesa parece ter-se "especializado" no desenvolvimento de técnicas de condescendência mútua e de mediocridade indulgente e auto-satisfeita. Em contrapartida, à medida que as sanções tradicionais vão desaparecendo e perdendo o seu peso no consenso geral, os técnicos de marketing - com o seu arsenal inesgotável de engenhocas e estratagemas de persuasão - vão ficando com o campo cada vez mais livre para, sob o totem protector e todo-poderoso do deus progresso, engendrarem todo um arsenal de meios para a vulgarização da mediocridade nos indivíduos através não só de um linguajar fácil e demagogicamente estéril, como, sobretudo, de divulgação maciça e embrutecedora de valores que o não são.. De facto, para o publicitário interessado em promover determinado produto pouco importará a originalidade ou o valor das ideias que expõe, esforçando-se, isso sim, por encontrar a melhor maneira de conseguir que elas sejam apreendidas (em versão simplificada e/ou distorcida) pela compreensão colectiva. Por outras palavras, sempre que o público por qualquer motivo é influenciado por determinada ideia, tal influência não é exercida pela ideia na sua qualidade de ideia, isto é, esta não é intelectualmente recebida e examinada, limitando-se a ser adoptada sob a forma de um qualquer lugar-comum. Mas, no fundo, esta deve ser a própria essência de toda a comunicação de massas...
Espartilhado entre a recordação fugidia e vaga de um passado (mitificado) a que, de qualquer forma, sabe que não é possível regressar e uma perspectiva de futuro cujo acesso se afigura cada vez mais incerto e inseguro, ao português de hoje resta refugiar-se no imediato, devorando-o - mais que não fosse, pela razão que os promotores de prazeres "ao alcance de todas as bolsas" são peritos em abafar a ideia subversiva de que é possível pensar-se na existência de regiões mais calmas...
No cômputo geral, a ideia de catástrofe (qualquer que ela seja) vai tomando forma lentamente, instalando-se progressivamente e entranhando-se no espírito confuso deste nosso quotidiano cada vez mais absurdo. Protagonistas forçados desta espécie de grande farra da série B, vamos sonhando com a liberdade (?) enquanto devoramos o presente - sempre com o mesmo doloroso desespero de quem sente o universo a esboroar-se entre os dedos e um certo acanhamento em confessá-lo.
Nunca como hoje se falou tanto em liberdade. Quiçá por esse motivo, esta ideia acabou por se tornar tão lata, que a liberdade passou a ser, afinal, a liberdade de não "ser", de não pensar - de existir simplesmente, passivo e pactuante, discreto no apresentar (nunca ruidoso, e muito menos caótico...) e sabendo, sobretudo, rodear estas facetas de uma auréola superstar de actividade e dinamismo máximos. Mais do que qualquer outra coisa, é-se livre no sentido de não ser livre, pois se porventura se quiser utilizar essa liberdade para escolher qualquer coisa diferente dos outros é-se de imediato acusado de intolerância, fanatismo, dogmatismo, presunção, ou, muito simplesmente... de loucura. Quem insistir em optar por outra via que não a convencional arrisca-se (hoje mais do que nunca) a ser catalogado como desviado, doido ou idiota, eventualmente até "um bom rapaz mas (coitado!) demasiado idealista para poder vencer na vida". Louco ou apenas imbecil, quem assim se comportar pode não ser perigoso, pode até ser engraçado e útil de vez em quando para enfeitar a monotonia taciturna de uma ou outra conversa mais filosófica; mas não deixa de ser chato pois que, para todos os efeitos, se atreve a pôr em prática aquilo que para a maioria pode ser pensado e dito, desde que não seja feito, ou seja, que "é preciso ser-se bem maluco para aguentar (sobre)viver numa sociedade como esta" (jovem de 22 anos, actualmente em tratamento psiquiátrico).
Rapazinho linguareiro e inconveniente ao ponto de se atrever a gritar que "o rei vai nu!" no meio de uma floresta de rotinas mais ou menos silenciosas, o louco dos nossos dias (o pobre de espírito, o pária, o vencido da vida) é, acima de tudo, um desmancha-prazeres.
Esse o seu prazer. Por vezes, o seu drama também...


As Capas Da Música Rock
por Amílcar Fidélis
A música do nosso tempo é, cada vez mais, um produto destinado ao consumo de massas.
As grandes multinacionais discográficas (que, obviamente, se preocupam muito mais com os largos cifrões que irão amealhar, do que com a qualidade da música que vendem ao público) são exímias em fabricar êxitos à pressão e em catadupa que, em escassas semanas, sobem aos píncaros das charts e dos top's de vendas. Depois de haverem corrido os ouvidos de toda a gente (até fartar) e de terem sido espremidos até à última gota (ou seja, de terem rendido o lucro desejado pelas editoras), esses três minutos de graça imediata, essas canções efémeras, essas modas passageiras, a mergulham para sempre no abismo do esquecimento. Mas, como, evidentemente, a grande máquina do show-business não pode parar, as multinacionais têm logo um novo êxito na manga, uma nova moda a lançar - e o ciclo volta a repetir-se, vezes sem fim, alimentando o grande negócio da música de consumo imediato: é o gigantesco fenómeno da MÚSICA COMERCIAL.

A Embalagem Do Produto - A Capa


Sendo a música um produto vendável, comerciável e rentável, ela é lançada no mercado sob várias formas: disco (a forma mais vulgarizada), a cassete, vídeo (ainda em reduzida escala). Debrucemo-nos então sobre a forma mais vulgarizada: o disco (a única que nos interessa para este nosso artigo).
Todos nós conhecemos os discos, rodelas (quase sempre) negras de vinil, ora de sete polegadas (singles) ora de doze polegadas (longplay's).
Os produtos que circulam no mercado, devem possuir uma embalagem, um invólucro próprio. Os discos, como tal, não são excepção. Comecemos então a aflorar uma das partes mais importantes na apresentação final de um disco - A CAPA.
De facto, a capa de um disco desempenha, indiscutivelmente, um papel fundamental no sucesso do mesmo junto do grande público; somos até tentados a afirmar que, em certos casos, a capa de um disco é tanto ou mais importante, do que propriamente o conteúdo sonoro do vinil em si!
Não será difícil concluir porquê, se atendermos ao facto de a capa de um disco ser um cenário potencial para a aplicação das técnicas de marketing. O marketing joga pois, fortemente, na embalagem do produto que pretende vender. Para isso, recorre a estudos de mercado, estatísticas, psicologia e a um dado fundamental: a capa (embalagem) deve suscitar atracção - porque os olhos também comem (neste caso, leia-se ouvem - por parte dos consumidores de discos. Exemplo. A primeira capa do álbum "Aproved by... The Motors", que consistia numa horrível fotografia dos quatro elementos da banda, provocou baixas vendas, impossibilitando, em grande parte, o êxito desse disco, que continha os então célebres "Airport" e "Forget about you". A capa seria substituída numa segunda edição. Um exemplo contrário, sucede, porém, com alguns grupos neo-românticos ou futuristas, em cujas capas aparecem os elementos da banda em excelentes (?) poses, obtendo assim um notório incremento nas suas vendas.
Claro que existem bastantes formas de fazer com que uma capa atraia as atenções do público: desde as formas mais burlescas e kitsch, até Às mais sofisticadas e artísticas; tudo depende da relação que existe (ou que se pretende fazer existir) entre o conteúdo visual da capa e o conteúdo sonoro do vinil.
Não raras vezes, os criadores de capas apostam também na extravagância e no impensável. Ex.: "Emotional Rescue", dos Rolling Stones, cuja capa original se desdobra em três metros; uma edição do duplo "Still", dos Joy Division, em que a capa é de serapilheira; "Sticky Fingers", dos Stones, que inclui um fecho de correr verdadeiro, adaptado à imagem de uns jeans; "Metal Box", dos Public Image Ltd., que tem uma capa (?) metálica e circular (idêntica a "Cairo", dos Táxi).
Como se constata, a capa é um elemento de vital importância, quer em termos de imagem de marca veiculada por um grupo, quer, principalmente, em termos de vendas de discos e consequente sucesso comercial.

A evolução das capas (do rock'n'roll até ao punk)









Vejamos, então, como evoluíram as capas dos discos, ao longo do deenrolar da música popular anglo-americana.
Nos anos cinquenta, surge o rock'n'roll, que dos Estados Unidos atravessa o Atlântico, e começa a alastrar, na Europa. Com o rock'n'roll, começa a crescer a máquina do negócio discográfico. Para lá do ritmo fortemente inovador, as letras não passavam do vulgar e do banal; as capas desses discos também eram despreocupadas: uma sorridente foto da vedeta em causa, títulos das canções em destaque e pouco mais.
Tal situação não iria sofrer alterações notórias até aos inícios dos anos sessenta. Mas, havia que pensar que a capa de um disco poderia servir também, tal como a música, para manifestar uma ideia, um estado de espírito, a imaginação, um modo de estar, e muito mais; só que até aí todos utilizavam a capa, apenas como um meio de promover a imagem do artista. As capas dos dois primeiros álbuns dos Rolling Stones (I e II), de 1964 e 1965, vieram trazer algo de novo - os cinco Stones em fotografia que ocupa toda a capa, mas (e aqui está a diferença) com expressões faciais preocupadas, desencantadas, em total oposição às bem dispostas fotografias das capas dos grupos da época (inclusive os Beatles, que só mudariam de estilo após o álbum "Revólver", de 1966). As capas começavam, assim, a ser portadoras de alguma mensagem específica. Passa a existir um determinado paralelismo entre a mensagem da imagem/capa e a mensagem da música/vinil.
Entretanto, surgem os primeiros álbuns duplos da história do rock: primeiro, "Freak Out", de Frank Zappa, em 1966, e "Blonde on Blonde", de Bob Dylan, também de 66. Apareciam assim os primeiros concept-albums da história do rock. Em 1967 surge "Seargeant Pepper's Lonely Heart's Club Band" dos Beatles, um álbum charneira, quer em termos sonoros, quer em termos de capa: uma imagem onde são evocadas as mais marcantes personagens da civilização contemporânea. Esta capa seria, pouco tempo depois, gozadamente plagiada em "We Are Only In It For The Money", de Frank Zappa.
Por outro lado, começam a surgir as capas beat, produzidas pelos cultores da pop-art e do movimento underground, de que o célebre Andy Warhol foi um dos principais impulsionadores - a tónica da sua criação artística, era elevar o mais vulgar realismo ao estatuto de arte. Das mais célebres capas concebidas por Andy Warhol, destacam-se a famosa capa da "banana", do álbum "Velvet Underground and Nico", e a capa de "Sticky Fingers", que realizou para os Stones.
Nascia também o psicadelismo na West Coast e, claro, as capas dos discos também o espelhavam: fantásticas, ácidas, de sonho psicadélico. Ex.: "After Bathing at Baxter's" dos Jefferson Airplane; "Live-Dead" dos Gratefull Dead.
No virar da década de 60 para 70 assiste-se ao nascimento do rock cósmico e progressivo por intermédio de bandas como os Pink Floyd, King Crimson, Yes, Genesis, Van Der Graaf Generator, Moody Blues, que foram, de certo, as mais importantes. As capas dos discos desses grupos (quase sempre duplas) eram habitualmente povoadas (na parte exterior) por motivos imaginérios, figuras fantásticas e insólitas, ambientes de sonho, surrealismo, imagens psíquicas, enquanto no interior, a predominância ia quase sempre para as letras das composições.
Ganham então especial destaque como criadores de capas: o colectivo Hipgnosis, cujo estilo assentava sobretudo no uso da fotografia em motivos fantásticos e espectaculares, e que se notabilizou principalmente pelas criações das capas dos álbuns dos Pink Floyd; e Roger Dean, um conceituado designer britânico, que se distinguiu pela originalidade e rigor com que desenhou as capas e o logotipo dos Yes. São, de facto, trabalhos históricos, em termos de criação de capas discográficas. Desenhos de linhas rigorosas e fantásticas ilustraram capas tão geniais como "Tales From Topographic Oceans" e "Relayer", dos Yes, ou "Welcome Home", dos Osibisa. Roger Dean trabalhou ainda com os grupos Nucleus, Magna Carta e Palladin, entre outros.
Quanto às capas dos Genesis, destaca-se o trabalho do ilustrador Paul Whitehead, responsável pelas excelenetes capas de "Trespass", "Nursery Crime" e "Foxtrot" - ilustrações imaginárias e irreais, muito de acordo com as personagens dos contos tradicionais ingleses (e, afinal, com as letras do grupo), os "nursery rhymes", que são vulgarmente contados às crianças. "Selling England..." ainda em pintura, embora diferente das precedentes, é da autoria de Betty Swanwick, enquanto "Lamb Lies Down..." é da Hipganosis, e está já noutro estilo - a ilustração deu lugar à fotografia.
Referência, ainda nos anos setenta, para as capas da discografia do chamado glamour-rock - a imagem extravagante, luxuriante, fascinante, e decadente - onde David Bowie, Marc Bolan (T. Rex) e os Roxy Music foram os mais brilhantes expoentes. Bowie aparece quase sempre como um personagem andrógino, travestizado, transbordante de make-up. Ex.: "Honky Dory", "Aladdin Sane", "Space Oddity".
Os Roxy Music, com a ajuda de Nicholas deVille, revestiram todos os seus álbuns com fotografias de sensuais pin-up's - estilo capas de revistas americanas dos anos quarenta - que, de disco para disco, deram ao grupo uma imagem de marca, um conceito de beleza e de fascínio.
Breve reparo nas capas dos grupos de heavy-metal que, regra geral, são caracterizadas por uma forte mensagem agressiva e/ou sexual.




As Capas Do Pós-Punk



Após a explosão do movimento punk, e durante o período subsequente até aos nossos dias, o estilo de criação de capas discográficas voltou a sofrer algumas alterações. Os grandes criadores da primeira metade da década de setenta, a Hipgnosis, Roger Dean e alguns outros, deixaram de assinar as capas das novas produções discográficas de finais de 70 / inícios de 80, dando lugar a um lote de novos criadores de capas, até aí ilustres desconhecidos.
As novas capas evidenciam uma notória economia de meios e, muitas vezes, um minimalismo austero. O uso de uma exactidão geométrica na procura de uma estética global, é outro dos aspectos mais significativos.
Dos novos criadores de capas, a figura de proa é, sem dúvida, Peter Saville. Os seus trabalhos com os Joy Division, New Order, Cabaret Voltaire, entre muitos outros, tornaram-no o mensageiro gráfico mais cobiçado do Reino Unido. Ex.: As capas que concebeu para os Joy Division, "Closer", "Love Will Tear Us Appart" e "Atmosphere", são solenes e tristes, naturezas mortas, enquanto a de "Unknown Pleasures" é negra, rugosa e hermética - todas elas espelham a música (e, infelizmente, o triste destino) dos Joy Division. O minimalismo que, por vezes, Saville utiliza, chega a ser impressionante. Ex.: "Movement", "Procession" e "Temptation" dos New Order, os dois últimos não contêm qualquer referência a temas, nem ao nome do grupo (este estilo de capas foi recentemente apontado por uma revista britânica, como sendo baseado em posters futuristas do italiano Marinetti).
Peter Saville é um apaixonado pela técnica do "hairbrush", a qual vem desenvolvendo desde os tempos que frequentou o Art College de Manchester. Para ele existe um dado que é fundamental - "O mais importante num desenho é comunicar, transmitir uma mensagem ou uma informação específica. Se para isso for suficiente um nome num pedaço de papel, no tipo certo e no tamanho exacto, então é isso que devemos desenhar."
Porém, das bandas para quem tem trabalhado, afirma ter apenas gostado dos Orchestral Manouvres In The Dark, nada se identificando com os sons dos Cabaret Voltaires, nem mesmo com a música dos Joy Division. Depois de Saville, v~em nomes como Martin Atkyns, Malcolm Garrett ou Neville Brody, entre outros, sendo eles os grandes responsáveis pelas capas dos novos grupos.

Melhores Capas









Para finalizar este artigo, indicamos uma vasta lista de capas (seleccionadas entre aquelas que conhecemos e que de momento temos em memória), as quais consideramos das mais importantes de sempre, atendendo, principalmente, à sua concepção, inovação, espectacularidade e, naturalmente, a muitos outros aspectos que ficarão por nomear.
A nossa lista divide-se em duas sub-listas: as melhores capas realizadas até ao punk e as melhores capas do pós-punk.

Melhores capas da música popular anglo-americana (até ao punk: Kevin Ayers - The Confessions of Dr. Dream / The Band - Music From Big Pink / Syd Barrett - Barrett / Beach Boys - Surf's Up / Beatles - Sgt. Pepper's... / Marc Bolan (T. Rex) - My People Were Fair And Had Sky In Their Hair... / David Bowie - Hunky Dory / Crosby, Stills, Nash and Young - Deja Vu / Doors - Strange Days - Free / Genesis - Nursery Crime / Gong - Angel's Egg / Roy Harper - Life Mask / Jefferson Airplane - After Bathing at Baxtar's / Jethro Tull - Aqualang, Thick As A Brick / Janis Joplin - Cheap Thrills / King Crimson - In The Court Of The Crimson King / Led Zeppelin - II, IV, Physical Grafitti / Loggins and Messina - On Stage / Van Morrison - Tupelo Honey / Osibisa - Welcome Home / Pink Floyd - Atom Heart Mother, Meddle, Wish You Were Here / Rolling Stones - II, Get Yer Yaya's Out! Sticky Fingers / Roxy Music - I Country Life / Soft Machine - Seven / Velvet Underground and Nico / Tom Waits - Small Change / Yes - Tales From Topographic Oceans.

Melhores capas do pós-punk (artista gráfico) Orchestral Manoeuvres In The Dark - O.M.D. (P. Saville) / Magazine - The Correct use of Sopa (M. Garrett) / Joy Division - Closer, Love Will Tear Us Apart (edição inglesa), Atmosphere, Unknown Pleasures (todas de Saville) / Philip Glass - Dances 1 & 3 / John Hassell & Eno - Possible Musics / Monochrome Set - Strange Boutique (Saville), Love Zombies (M. Atkyns) / Public Image Ltd. - Metal Box / Stiff Little Fingers - Nobody's Heroes / David Bowie - Scary Monsters (Edward Bell) / Talking Heads - Remain In Light / Au Pairs - Playing With a Diferent Sex / Teardrope Explodes - Kilimanjaro (edição inglesa) (M. Atkyns) / Tom Tom Club (James Rizzi) / Funkapolitan (Saville) / The Fun Boy Three / New Order - Movement (Saville) / Durutti Column - LC (Les Thompson) / Bow Wow Wow - See Jungle... / A Certain Ratio - Sextet (Ben Keley) / Rolling Stones - Emotional Rescue / Cabaret Voltaire - 2x45 (N. Brody / Dead Kennedys - Plastic Surgery Disasters / Material - Temporary Music 1 (Felipe Orego) / Peter Gabriel III (Hipgnosis).


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Kinks - O Carrocel Do Desencanto, artigo por Manuel José Portela
. Devo - Neuroses, artigo por Manuel José Portela




4.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (127) - Música & Som #75


Música & Som
Nº 75
Setembro de 1982
Publicação Mensal
Esc. 100$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lsª
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.



Entrevista Com Os Durutti Column
por: Ana Rocha

Suaves Revoluções




Bastante antes da sua actuação, já Vini Reilly (guitarrista, teclista e responsável por todos os temas) e Bruce Mitchell (baterista) se passeavam pelos bastidores do palco montado em Vilar de Mouros. Tony Wilson, o patrão da Factory, e o manager da Coluna de Durutti seguiam constantemente Vini, um jovem enfezado e tímido, de pequeninos olhos azuis, enfiado numas colossais pantalonas de ganga, nervoso e pálido. Bruce Mitchell, um quarentão jovial e jocoso, procurava garrafas de vinho nacional à falta de melhor. Só no dia seguinte é que conseguiria arranjar umas ervinhas muito procuradas pelos agentes da Judiciária.
Depois de muita insistência junto do manager de Vini Reilly, conseguimos que ele se sentasse a um canto. Vini não parecia contrariado ou enfadado por ir dar uma entrevista. Mostrava, sobretudo, um certo alheamento relativamente ao que se passava à sua volta.

M&S - Gostava que falasses sobre a parte inicial da tua carreira como músico, antes de Durutti Column.
Vini Reilly - No início eu fiz parte de uma banda que se intitulava The Noise Please. Trabalhei em programas de televisão. Fazia música de filmes. Foi por essa altura que eu conheci o Tony Wilson. Eu já tinha ideia de que a música pop passava por um momento de crise, que a indústria tinha tomado conta dela e que a tinha totalmente destruído. O pop tinha-se tornado num verdadeiro negócio. Não valia a pena ser tocado. E eu comecei a sentir-me tremendamente deprimido. Tive de passar a depender de comprimidos. O médico receitava-me imensos. Eu sofro de falta de apetite e o médico que me acompanhou é de opinião que os comprimidos de LSD estimulam os aminoácidos. Portanto eu tenho autorização de consumir desse tipo de coisas, com receita médica. Entretanto, o Tony viu que a música me podia safar desse estado depressivo e pensou que seria bom eu formar uma nova banda. Depois de muita hesitação, finalmente concordei em reunir um guitarrista, um baixista e um baterista. Começámos a trabalhar e comecei a notar que eles tinham a mania que eram estrelas. Eles insistiam no seu estatuto de estrelas e eu resolvi abandonar o grupo. Escrevi um bilhete ao Tony Wilson a informá-lo desse facto. Mas o Tony veio ter comigo e disse-me que estava interessado em trabalhar comigo e não queria nada com os restantes elementos da banda. Despediu-os e fiquei eu.
M&S - Isso aconteceu por volta de 1979.
Vini Reilly - Pois. Eu já estava a escrever pequenas composições. Mas como o punk e o Malcolm McLaren estavam na berra, o Tony e eu pensámos que seria pouco correcto lançar um álbum de temas muito suaves, com música de piano, tudo muito doce.
M&S - O Malcolm McLaren teve alguma coisa a ver contigo?
V.R. - Ele sempre teve umas ideias muito concretas sobre a situação que se estava a viver no momento. Ele era situacionista.
M&S - E que é que isso teve a ver contigo?
V.R. - Basta dizer-te que escolhi o nome Durutti Column em homenagem a um tipo que era anarquista e que foi abatido por volta de 1920; chamava-se Durutti, claro.
M&S - E isso quer dizer que os Durutti Column são anarquistas?
V.R. - (sorrindo ligeiramente) - Não somos activos...
M&S - Essa medalha que trazes pendurada ao peito o que representa?
V.R. - Deu-ma a minha irmã no dia dos meus anos. É uma moeda antiga. Dum lado tem o signo e do outro tem a efígie do rei.
M&S - Porque motivo andas com a imagem do rei pendurada ao peito? Isso tem a ver com qualquer posição a favor da monarquia?
V.R. - Não quero responder a isso.
M&S - Como é que foi gravado o teu LP?
V.R. Eu não queria pactuar com a indústria discográfica. E ia fazendo os meus temas, distanciado dela. Aliás penso que a indústria discográfica é verdadeiramente patética. Já levava para o estúdio cerca de trinta temas acabados, e em apenas duas sessões, o álbum ficou pronto. O Tony e o Martin Hannett decidiram quais é que eram os temas adequados.
M&S - Tencionas voltar a trabalhar com o Martin Hannett?
V.R. - Não. Quero ser eu a produzir os meus trabalhos. Não quero mais nada com ele em termos de produção. Sou eu o único responsável pelos temas dos Durutti Column. Sou eu que componho, interpreto, toco todos os instrumentos, escrevo as letras...
M&S - E o Bruce Mitchell?
V.R. - Ele faz a parte da percussão e da bateria. No palco só estamos nós os dois. Eu ando dum lado para o outro a tocar os restantes instrumentos.
M&S - Quais são os teus planos para já?
V.R. - Eu estou a escrever música para alguns filmes de televisão. Durante cinco semanas vou-me dedicar a isso e depois vou preparar o meu novo álbum. Vai ser totalmente diferente do que aquilo que tenho feito até agora. Mas os temas continuarão a ser muito pessoais. Vou tentar aventurar-me mais, sendo menos tecnicista.
M&S - Sentes muita necessidade de criar, de escrever música? Isso liberta-te da tua depressão?
V.R. - Eu penso que compor música é a única justificação que eu encontro para continuar a viver. Acho que, a todos nós são dados uns tantos anos para fazer alguma coisa, para viver. E eu tenho que justificar a minha existência. Eu vejo que as pessoas que me rodeiam, a sociedade em que eu vivo nada faz para merecer viver. Eu sinto necessidade de fazer coisas.
M&S - Gostas mais de actuar em Inglaterra ou em países que não sejam de expressão inglesa?
V.R. - Penso que é um desafio maior vir tocar para pessoas que não conhecem a minha música. Em Inglaterra, a imprensa procura dar cabo dos grupos. Passam a vida a aborrecer os músicos. A imprensa cheira mal, tresanda... E esquece-se que, apesar de todas as críticas que ela produz, os discos continuam a vender-se. A indústria discográfica está corrupta. É necessário empreender uma revolução para alterar o estado das coisas.
M&S - E os Durutti Column estão dispostos a estar na vanguarda desse movimento revolucionário, a fazer a revolução?
V.R. - Estamos preparados para o fazer de uma maneira muito suave, muito calma.
M&S - Encontraste uma boa recepção na América?
V.R. - Fiz concertos em Boston, Nova Iorque, Toronto e Montreal e posso afiançar-te que fiquei agradavelmente surpreendido com a boa recepção que por lá tive. Poucas pessoas conheciam a minha música e no entanto reagiram muito bem.
M&S - Preocupa-te o tamanho do recinto onde actues? Preferes actuar em salas pequenas ou grandes?
V.R. - Para mim, não interessa nada o tamanho do recinto onde actuo. Depende das músicas que interpreto. Se vejo que há mais público a encher a grande área, recorro a um material mais excitante. Principalmente se noto que as pessoas estão a impancientar-se...
M&S - Tens alguma preferência relativamente à música que se faz na Grã-Bretanha?
V.R. - Há centenas de grupos que não são comerciais e que fazem boa música. Eu tive a sorte de me encontrar com o Tony Wilson e de poder gravar a minha música. Há muito mais pessoas criadoras que ainda não tiveram essa chance. Ouço os A Certain Ratio, por exemplo... mas não ouço muita música desta que se faz actualmente... Ouço aquele material maçador (That boring stuff) do Tchaikovsky... do Benjamin Britten... Isto que eu estou a dizer pode parecer preconceituoso, mas, na realidade, eu tenho muita dificuldade em concentrar-me e não escuto muito a música que os outros fazem.
M&S - Quando sobes para o palco, sentes-te deprimido?
V.R. - Durante 50 minutos, esqueço o meu estado de espírito, a depressão.

Vini parecia fatigado. Afastámo-nos para tentar encontrar o acompanhante, Bruce Mitchell. Não tardou muito que o mesmo estivesse sentado no mesmo sítio onde, meia-hora antes, tinha estado Vini. Bruce pareceu estar com vontade de falar e de contar histórias. Aqui estão elas.



M&S - Sabemos que tu também tens trabalhado com o grupo Alberto & Los Trios Paranóias. Como é, trabalhar em dois grupos tão diversos?
Bruce Mitchell - São dois estilos completamente opostos. Mas eu, essencialmente, acredito no talento, nas pessoas que o t~em. E tenho estado a trabalhar com o Vini de há um ano para cá.
M&S - Preferes trabalhar inserido nos Durutti Column ou nos Alberto & Los Trios Paranóias?
B.M. - Não sei fazer a escolha, porque são dois estilos completamente opostos. É como estar a trabalhar em dois mundos diferentes. Eu «sou» duas pessoas, mudo de personalidade. Estou sempre a trabalhar em duas esferas opostas.
M&S - Que pensas da vossa vinda a Portugal?
B.M. - Eu já vivi em Portugal há cerca de 12 anos, durante três meses, integrado num grupo, The Flame. vivi em Cascais. Adoro a comida portuguesa. E o vinho!
M&S - Como é trabalhar com o Vini Reilly?
B.M. - Penso que isso constitui um desafio muito grande para mim, dado que o Vini é um grande estilista. Nunca sei qual é a nota que ele vai tocar a seguir. E penso que nem ele próprio sabe o que vai tocar! É perfeitamente imprevisível! É a mesma sensação que eu teria se estivesse com o Ravi Shankar!!! Mas tu já topaste como é o Vini? É um tipo cheio de piada! Reparaste nas calças que ele traz?!!!
M&S - E como era trabalhar com o Alberto & Los Trios Paranóias?
B.M. - Eles são completamente chanfrados! Totalmente! São giríssimos! Já fizemos uns shows para a televisão, em que entrou também o lunático do John Cooper Clark e asseguro-te que os espectáculos foram bizarrissímos!
M&S - O Alberto já morreu há uma data de tempo, não é?
B.M. - Há cerca de três anos. Morreu com um cancro. Ele sabia que ia morrer e nas últimas semanas de vida foi visitado no seu quarto do hospital por uma data de celebridades... O Elvis Costello... o Ian Dury... muita malta da Stiff... E quando foi o enterro?!!! Então aí é que foi o fim da picada! Foi enterrado nos montes dos Peninos. O cemitério ficava no topo do monte e tivemos de transportar o Ian Dury até lá acima numa padiola! Estava um frio danado! Nevava! E agora vamos lá todos os anos dançar sobre a tumba! Nunca me diverti tanto num funeral!! Estavam montes de pessoas conhecidas! E o Alberto, como não gramava o padre e já esperava um discurso fúnebre viciado, resolveu fazer um elogio fúnebre e um comentário que depois entregou ao padre, exortando-o a lê-lo durante as cerimónias do enterro. E esse discurso fazia críticas à malta que estava presente, dava agradecimentos e cumprimentos a outros... enfim... aquilo foi um verdadeiro pandemónio! E quando ele estava no hospital, o Ian Dury foi lá para lhe cortar o cabelo! Ai, aquele Alberto!...

Já estava quase na hora da actuação. Bruce Mitchell revelou ser o oposto de Vini Reilly. Mais comunicativo, mais brincalhão, sempre com piadas na ponta da língua, com histórias mirabolantes resultado de uma longa carreira no interior do show-business, muitos contactos com vários grupos, muitos anos como baterista. Ao longo do espectáculo, era o contraponto do sisudo e alheado Vini Reilly, sempre com o sorriso nos lábios. Eis uma das facetas dos Durutti Column, uma banda verdadeiramente genial, com um mentor jovem como Vini a brindar-nos com as suas efusões musicais.



Vilar De Mouros 82:
Estranhas coisas.
Estranhos lugares.
Estranhas gentes!


Do nosso enviado especial Carlos Marinho Falcão
Fotos: Luís Ramos

«Loucura! Loucura! Loucura controlada... sem medicamentos... sem camisas de força! Loucura controlada pela vossa inteligência e pelo amor! Adeus, adeus... obrigado, obrigado!...»
Com estas palavras épicas, sem dúvida, se declarou averto o festival de Vilar de Mouros de 82, pela voz do dr. Barge, essa mistura deliciosa de português à moda antiga e de louco sem idade. Eram cerca de 22.30 e o público começava a impancientar-se...

Entre coelhos e estranguladores

Um riozinho mimoso, uma meiguice bucólica, uma paisagem campestre subitamente invadida por uma estranha romaria. Bonito e curioso, um painel cheio de contrastes - porreirinho. Sobre o palco, finalmente, Echo & The Bunnymen, a bandazinha deliciosamente atormentada de Ian McCullogh e, presentemente, uma das minhas favoritas. Não desiludiram, os Bunnymen. Capazes de transpor para o palco todo o ambiente impetuoso e lírico dos seus trabalhos em disco, eles foram justamente os primeiros heróis do festival e, como a seguir veremos, talvez os únicos da noite.



Vital e expressiva, caudalosa e explosiva, a música dos Bunnymen em Vilar de Mouros foi capaz de criar toda uma ambiência sonora, cardíaca e impetuosa, arrebatadora e empolgante, conducente directamente ao coração da festa, ao centro da paixão, à sístole e à diástole do corpo em estreita comunhão com a terra e o céu. Concentrado e conciso, tímido e neurótico, Ian McCullogh foi o mestre de cerimónias. Por vezes, o charme demasiado vivo, embora fugaz - quase sempre a melancolia. Belo e sedutor. Não faço ideia que tragédias perseguem McCullogh para este se embrenhar daquela maneira nos seus indecifráveis tormentos interiores, mas é o espectáculo que aqui importa e, como espectáculo, é indubitável que a coisa resulta. Com uma fluidez onírica feroz, caóticos e introvertidos, quase todos os temas de «Crocodiles» e «Heaven Up Here» desfilaram perante um público dividido e impaciente, já com um olho posto nos Stranglers, tidos a priori como as grandes estrelas da noite. Puro engano. E, sobretudo, uma atitude injusta para com a banda de McCullogh, que, em Vilar de Mouros, demonstrou ser, na verdade, uma das mais interessantes do rock actual.

Recebidos com pompa e circunstância de superstars, os Stranglers acabaram por ser a grande desilusão da noite. Para eles, de facto, a hora da retirada estratégica parece ter soado. Os lançadores de anátemas, sem dúvida arrefecidos pelos incidentes numerosos com a Polícia ao longo da sua carreira, acalmaram-se. Pelo menos na aparência. Terminada parece estar a época dos concertos/happening, da algazarra tempestuosa. Agora, as palavras-chaves são o rigor, a frieza, a distância. Estranguladores estrangulados pela perfeição formal. Nada de notas deslocadas, uma presença minimal, relâmpagos sóbrios e fugazes de quatro personagens que se apagam humildemente (?) por detrás da sua música. Uma sensação de ausência. Demasiado aplicados na recriação perfeita do som dos sues últimos discos, os Stranglers tornaram-se glaciais, límpidos e indiferentes como a virtude. Negligenciando todo o sentido de dinâmica, em Vilar de Mouros os temas seguiram-se uns atrás dos outros todos semelhantes, sem qualquer subida ou descida de tensão, como que apontados a um alvo (qual?) como a flecha de um arqueiro zen. Autores festejados de uma música feia, o belo-horrível por excelência, em Vilar de Mouros eles não passaram de uma desilusão. No fim, a sensação amarga de nada se ter passado. Nada. A não ser que se trate de uma nova maneira de provocar. Mais subtil...



A Importância de Ser Zé Pereira

Por mais herética que passa ser esta afirmação, não me parece ter sido Vilar de Mouros o lugar ideal para um concerto clássico - pelo menos para aquele concerto clássico. No fundo, sob a capa de uma convivência entre tradições musicais e públicos diferentes reunidos num espaço comum, o que se passou, em parte, foi a simples transposição da ambiência geral de uma sala de concertos tradicional para o campo, para o ar livre.
Neste sentido, se não deixou de ser interessante apreciar o contraste cómico entre a casaca de Vitorino de Almeida e as fatiotas sem dúvida peculiares dos Claudius Qualquerius do rock, forçados ali, um pouco contra-natura, a curtir uma de clássica; se não foi menos interessante notar como essa mesma casaca contrastava com a poeirada que se erguia no ar e nos impestava a todos de alto a baixo, o certo é que, se não fossem os Zés Pereiras, os seus tambores, o seu ritmo, a sua exuberância contagiante, tão próxima do rock, afinal, talvez nos tivéssemos todos limitado a caricaturar o S. Carlos, o S. Luís ou a Gulbenkian, numa paródia burlesca a uma verdadeira convivência entre géneros e tradições musicais diversas, obviamente desejável. E depois, aquela sinfonia (des)concertante!...

A terminar, uma referência muito especial a uma curiosa intervenção de Jorge Lima Barreto (incansável no seu linguajar típico, ao longo de todo o festival...) ao microfone: «Isto que está a acontecer é importante, porque prova que o público não está aqui só para o rock, tem sensibilidade...» Querendo apesar de tudo acreditar não ser isto, exactamente, que ele queria dizer, não deixou de ter piada o dichote. Pela parte que lhe cabe, o rock agradece. Mais que não seja, por uma questão de sensibilidade...

Os Anti-Heróis

Suponho que com o objectivo - muito válido, certamente - de divulgar a cultura do Minho e a sua música, se incluiu no programa a desfolhada à minhota. Só que, efectivamente, aquilo não resultou. Não resultou, porque não podia resultar num palco daqueles, com aquelas luzes, naquele ambiente muito mais virado para outro tipo de acontecimentos. Não quero com isto dizer, atenção, que não fossem de incluir no programa diversas actividades directamente relacionadas com a cultura da região. Pelo contrário, seria até desejável que esse aspecto fosse incrementado já no próximo festival (se houver...), em 84. Mas, definitivamente, não àquela hora, com o público muito mais motivado para outro tipo de música! E, sobretudo, nunca durante duas horas! Desfolhadas à minhota, grupos folclóricos? Por que não durante o dia, como forma de preencher o tempo que, desta vez, as pessoas passaram sem qualquer tipo de ocupação? O mesmo, aliás, se poderá dizer acerca da música clássica. Mas não sinfónica, por favor! Amplificada, medonha - naquele lugar impróprio...

Uma vez desfolhada a espiga, vieram os The Gist - uma banda originada a partir dos defuntos Young Marble Giants. Os anti-heróis, por excelência. A fusão inteligente, ingénua e original do músico com a electrónica, aqui claramente posta ao serviço do homem e não o contrário. Uma experiência curiosa, uma música estranha e bela na sua ornamentação frágil e em metamorfose constante, The Gist foram em Vilar de Mouros a recusa do supérfluo, a provocação atrevida. Sublimes no seu delicioso «crew cut», rapazitos malandros fascinados pela electrónica e procurando tirar dela o melhor partido, eles foram, sobretudo, o escândalo de Vilar de Mouros, diante de um público que nunca conseguiu digerir muito bem aquele gravador «pespegado» mesmo à sua frente, bem no centro do palco. A sua música: um complexo rendilhado elaborado a partir de esquemas rítmicos muito simples, melodias banais a fazer lembrar os bailes de sábado À noite num qualquer clube de bairro, apontamentos melódicos breves, subtis e entrecruzados, acumulados em redor de um tema base. Nada daquilo tem o aparato megalítico do rock, de um certo rock. Ausentes de espectacularidade. The Gist terão sido a primeira grande surpresa de Vilar de Mouros. Apesar da discordância do público...

Você Também?

Pondo de lado a inútil e despropositada tirada antifascista de Vitorino de Almeida (outro incansável do linguajar fácil em Vilar de Mouros), a noite de terça-feira começou com a actuação banal da Orquestra (!?) Mikis Theodorakis. Entoando umas melopeias ditas de intervenção, melodias de sempre para antifascistas, a referida Orquestra (!?) sumiu-se da mesma forma como apareceu - ninguém deu por isso.
Após a actuação relâmpago de Carlos do Carmo, que afirmou estar em Vilar de Mouros com propósitos inteiramente pacíficos (numa brilhante tirada que comoveu toda a assistência), os Jafu'mega foram a primeira banda portuguesa a subir ao palco, dada a ausência dos Heróis do Mar no primeiro dia. Baseando a sua actuação essencialmente em temas do seu segundo álbum, os Jafu'mega revelaram-se aquilo que realmente são: uma banda dotada de músicos de boa craveira (com especial realce para o guitarrista Mário Barreiros - estupendo! - e para Zé Nogueira, no sax), fazendo uma música cuidada, uns quantos furos acima do que é comum nas chamadas bandas de «rock português». Criando um som aqui e ali a fazer lembrar os Police (talvez devido ao timbre vocal de Luís Portugal), no final a banda foi fortemente aplaudida, culminando-se assim uma actuação de mérito, um espectáculo dignificante.
Finalmente, a coqueluche da noite, o primeiro momento verdadeiramente alto do festival. No palco, U-2, uma banda cujo primeiro trabalho - «Boy» - se encontra editado em Portugal, embora esgotado.
Pretendem as más línguas que os irlandeses dos U-2, não são os novos Boomtown Rats, mas antes os novos Taste (lembram-se de Rory Gallagher?). Bono (o cantor) não será, talvez, o monstro do palco que ele sempre sonhou ser. The Edge (guitarrista) não é ainda Tom Verlaine, mas, não obstante, os U-2 trazem consigo o expressionismo, a potência inquieta e o lirismo negro capazes de dar um nome decente ao heavy-metal. Isso mesmo, ao heavy-metal.



Porque os U-2 são um caso único. O que é que eles tocam afinal? Qual o género em que se enquadram? Nenhum. Em todo o caso, não é nem novo nem moderno. Vestem-se como se estivessem em casa e tocam os seus instrumentos como se o mundo deixasse de existir à volta deles. Um grupo sem imagem, «Gloria», «Rejoice», «Fire» - três avalanches sonoras condensadas e envolvidas num lirismo elementar. Rod Stewart cantava assim, quando não era ainda o borregão ridículo que hoje é. Obcecada pelo público, a banda rapidamente se torna imbatível no palco: uma voz que fere e emociona, guitarras que inundam, um ritmo diabólico que vibra até à saturação. Optimistas e emocionantes, os temas vão-se sucedendo, entrecruzados de intenções por vezes ingénuas de delicadeza e meiguice. Guiando-se exclusivamente pelo instinto, é como que a um público virgem de toda a cultura rock que a banda se dirige em primeiro lugar. Um público autêntico, capaz de reagir também por instinto, por intuição. Lá, onde outros grupos se apoiam nos truques mais corriqueiros para impressionar e cativar o público, os U-2 surgem-nos armados apenas de uma honestidade humilde, desmunida, ingénua, mas cem por cento eficaz. O som: maciço, épico, cheio de souplesse e energia. Há nesta banda o mesmo deslumbramento do circo. Pequenos grandes truques como «ladies and gentlemen and now, the great!... Bono». E Bono, levado pela densidade empolgante de todo aquele ritmo explosivo, erguido no ar pela guitarra dilacerante e enorme de The Edge, vai aos poucos, através do seu lirismo instintivo, subjugando a multidão - sem se dar por isso, com uma dignidade natural, diluindo-se progressivamente no fluxo sonoro, por vezes para o exaltar, outras, em contraponto, para o «apaziguar», através de uma inflexão violentamente interior. Em suma, foi este vaivém instável, este desequilíbrio eléctrico e pungente que fez da música dos U-2 em Vilar de Mouros uma das mais combativas, persuasivas e atraentes apresentadas ao longo do festival. Uma música unidimensional, sem dúvida, mas, sobretudo, visceral.
Johnny Copeland veio a seguir. O blues do Texas. Apesar do êxito retumbante dos U-2 pouco tempo antes, não foi difícil a este bluesman soberbo agarrar o público, chamá-lo a si. O blues. Sempre o bom velho som cadenciado, aqui e ali a resvalar para o rythm'n'blues, um piano discreto mas tão rigoroso como eficaz nas suas intervenções breves e incisivas, uma guitarra tocada com a alma, uma voz quente, audível até ao pormenor. O blues de Johnny Copeland pode ser escutado como um longo apelo arrancado à alegria e à tristeza, à dor e à melancolia, qualquer coisa langorosamente sensual apontada directamente ao centro da paixão. O homem tem estilo, uma dignidade negra muito especial, cheia de humor e savoir-faire. Enfim, Johnny Copeland: a continuação desejada para o caminho anteriormente aberto pelos U-2. Musicalmente, Vilar de Mouros vibrava verdadeiramente pela primeira vez. Felizmente não seria a última...



Jazz, Jazz, Jazz...

Finalmente, o jazz. Após a ausência forçada e um tanto inesperada dos Old & New Dreams, que, dois dias antes, deixara muita gente desiludida, chegara o momento de destemperar as orelhaças com outras sonoridades, outras estéticas.
O quarteto de Saheb Sarbib foi o primeiro. Com Paul Motian (bateria), Joe Ford (sax soprano) e Booker T (sax tenor), além do próprio Saheb Sarbib no contrabaixo, estes quatro músicos encheram o recinto com uma música rigorosa, um trabalho interessante e homogéneo, com alguns momentos de rara beleza e emoção. Sarbib e Motian: o diálogo perfeito, a malha complexa e subtil sobre a qual os dois saxofones iam construindo quer em dueto, quer a solo, pequenas e (por vezes) maravilhosas viagens melódicas, gemidos orgásmicos gritados cá de dentro (Booker T, principalmente, com apontamentos notáveis nos agudos), ou, pelo contrário, doces melodias coloridas e rendilhadas, tristes e melancólicas, desenhadas com a mestria ímpar de 4 músicos acima de qualquer suspeita. No todo, um jazz muito certinho, sim, mas mais pela qualidade de cada um dos músicos individualmente considerados, do que, propriamente, pelo rasgo inovador, o tom de ruptura, o toque impetuoso da música interpretada pelo grupo. Em suma, quatro músicos de craveira técnica muito acima da média e uma música escorreita, rigorosa, feita sem grandes alardes, mas, ainda assim, recheada de pequenas pe´rolas, momento privilegiados, instantes compensadores. Uma abertura boa quanto baste, enfim, para a noite de quarta-feira...



Rão Kyao foi, sobretudo, uma vítima das circunstâncias. Abstraindo-nos agora de quaisquer problemas havidos com a organização, sucedeu ter sido no momento da sua actuação que ocorreram os incidentes junto da paliçada, com o consequente desvio da atenção de grande parte do público para outro tipo de acontecimentos protagonizados pela GNR e por algumas dezenas de indivíduos que tentavam - e conseguiram - entrar sem pagar, derrubando a paliçada. Talvez por essa razão e também pelo tipo de música tocada, a actuação de Rão Kyao's Goa foi, no seu todo, bastante apagada. Faltou atenção e disponibilidade por parte do público; faltou a Rão Kyao capacidade para (re)conquistar esse mesmo público. Talvez o tipo de música escolhida para o concerto não fosse o mais indicado para aquela ocasião - em que se pediria, talvez, qualquer coisa mais «Swingante», mais festiva. É uma hipótese...
A actuação da Anar Band acabou por não ser mais feliz do que a de Rão Kyao, embora por motivos diferentes. Pomposamente fantasiada com o epíteto de «música de vanguarda», espalhafatosa na sua apresentação, aparatosa na sua redundância, no final, apenas a sensação vaga de nada ter sucedido. Tal como com os Stranglers, a sensação de vazio, de inutilidade, de uma vanguarda vã e fútil submersa e perdida nos meandros da sua auto-indulgência. Como contrapartida positiva, dois aspectos: os diaporamas projectados pelo grupo Neon - sensacionais, sem dúvida! - e a soberba actuação de Vítor Rua, no baixo, fazendo-nos amiúde esquecer o papel essencialmente rítmico normalmente desempenhado por este instrumento. Um acabou por ser só por si o motivo porque a Anar Band não teve um débito de fracasso ainda maior em Vilar de Mouros.
Por fim, e a culminar uma noite apesar de tudo positiva em termos musicais, um dos momentos mais ansiosamente esperados de todo o festival: a actuação da Sun Ra Arkestra.




A primeira conclusão a tirar é: não é possível rotular esta música, porque ela, simplesmente, foge a qualquer tipo de etiqueta. De Ellington a Count Basie, passando, sobretudo, pelo free: tambores africanos e o sax epiléptico de John Gillmore; bailado de influências ocidentais (um pouco desenquadrado de toda aquela euforia negra) e um dançarino capaz de recriar em cada movimento todo o mistério do sentir africano; por fim, a culminar, uma maestro fabulosamente negro (Sun Ra), um Gungunhana do palco, um músico que, não obstante a obesidade, acaba por ser ainda mais escorregadio que uma enguia. Eis a Sun Ra Arkestra: um espectáculo musical e uma cerimónia litúrgica. Uma forma fabulosa de entretenimento e um jazz que, englobando os mais diversos estilos, acaba por ser em si mesmo um estilo. Único. Cíclico. Fechado em si e, simultaneamente, aberto a todas as influências, não simplesmente para as reproduzir, mas, muito pelo contrário, para as recriar e incorporar no todo único e autónomo que é a Sun Ra Arkestra - um ritual pagão transposto para o palco (o altar), em que o público, mais do que nunca, é assumido como um instrumento activo do que se está a passar em palco. Uma música panteísta, uma maestro tirânico, uma enxurrada deliciosamente caótica de música tribal, de simples, primordial e excitante música tribal, o concerto da Arkestra foi a chave de ouro com que se encerrou Vilar de Mouros em termos de jazz.




A Beleza Do Silêncio

Após os episódios pitorescos de quinta-feira (invasão pacífica do palco por alguns elementos do público), que puseram mais uma vez em destaque a fragilidade da segurança (chamar àquilo segurança é já um eufemismo), sexta-feira chegou e com ela a promessa de mais rock, afinal o prato forte deste Festival de Vilar de Mouros 82.



Contratados à última hora por razões obscuras, os Renaissance vieram a Vilar de Mouros demonstrar que, apesar de fora de moda, o chamado rock sinfónico ainda reúne muitos adeptos em Portugal. Fazendo uma música que integra elementos clássicos com algumas influências folk, possuidores de um som personalizado e forte todo ele construído em volta de Jon Camp (baixo) e da voz magnífica de Annie Haslam, os Renaissance podem, na verdade, não ter deslumbrado, mas certo é que também não desiludiram. Com uma actuação bastante fria a princípio, é verdade que só no encore cedido a banda mostrou mais algum entusiasmo, alguma entrega. No baixo, Jon Camp demonstrou o seu virtuosismo espectacular, assumindo-se como o elemento impulsionador de todo o som da banda. Em suma, uma actuação apesar de tudo discreta, uma música hesitante entre a espectacularidade sumptuosa e fácil e um ou outro momento mais interessante, no fundo, fica apenas a questão: para quê trazer esta banda a Vilar de Mouros? Desnecessário e incoerente, se se tiver em conta a importância e, sobretudo, a actualidade das restantes bandas de rock trazidas ao festival.
Com o Durutti Column atingiu-se mais um momento privilegiado em Vilar de Mouros. Uma bateria e uma guitarra. De vez em quando um piano eléctrico. O uso e abuso consciente do eco, como forma de definir um estilo, uma música. O eco. Luminoso e ondulante, marítimo e interior, a utilização exacerbada do eco assume nos Durutti Column um papel fundamental. A música do tempo interior. Apaziguante e bela. Comovente e frágil - a fragilidade dos titãs. Sendo, como se disse, uma música interior, um som que, pura e simplesmente, prescinde rigorosamente de qualquer ideia de espaço, a música dos Durutti Column serve-se do eco como forma de reforçar a permanência do tempo. Neste sentido, elogio da memória por excelência, subtil e bela como só o silêncio, um longo riacho límpido e cristalino correndo serenamente em direcção ao fundo de nós, sente-se (fisicamente) esta música como uma ferida que nunca deixou, afinal, de sangrar, embora por vezes possa parecer o contrário... Memória e silêncio, jardins, flores e infância, com os Durutti Column a viagem faz-se, sim, mas para dentro. Em direcção ao tempo perdido.

O Rodopio Saboroso Do Caos

No sábado, penúltimo dia do Festival, e antecedendo o último grande momento deste Vilar de Mouros 82, tivemos em versão reduzida uma actuação (a última?) dos GNR. No fundo, uma Anar Band revisitada e (felizmente) melhorada - talvez pela presença e pela força cénica e interpretativa de Rui Reininho; talvez pela ausência (no palco) de Jorge Lima Barreto. Enfim, tocando apenas três temas, um realce muito especial para a interpretação (corajosa) de «Avarias», com um final (improvisado pelo Rui) verdadeiramente empolgante pelo seu apropósito.
Por fim, os Rip Rip and Panic...
Um baterista epiléptico, um baixo black funky com visual rasta, eis a base de sustentação rítmica sobre a qual se iria fundar cada um dos temas. Um ritmo completamente infernal, cataratas do Niagara a domicílio, servindo de ponto de partida para o delírio de cada um. Cada um: uma cantora negra, que dança como deve dançar alguém que foi educado nos altos cumes do Quénia, passando depois 5 anos numa art-school de New York - numa palavra, um truque autêntico, coreográfico, improvisado e sensual simplesmente fabuloso. Por vezes, ela canta e então é fantástica, uma voz que grita, improvisa e se transcende, a meio caminho entre o encantatório e o sublime. A seu lado, um companheiro branco em calções, tão caótico ou ainda mais que ela. Tudo isto se passa na parte da frente do palco. Atrás, há um pianista a resvalar para o free de vez em quando; um tipo a tocar trompete e outro a tocar sax e ainda o maluco branco que canta e dança, por vezes toca piano, outras clarinete, após o que vem para diante do público fazer caretas, deitar a língua de fora, incitá-lo. E tudo isto na coisa mais louca e impensável jamais vista. Servindo de pano de fundo, uma música por vezes funky, apelando irresistivelmente à dança, outras vezes free - a improvisação total, o gosto saboroso do caos. Enfim, Rip Rig and Panic: tudo aquilo que os Talking Heads da fase «Remain in Light» nunca conseguiram fazer e que, afinal, aparece aqui incrivelmente simples e louco e sedutor. Uma banda digna do seu nome...
E com os Rip Rig and Panic estava, praticamente, o Festival terminado. De facto, nem a Tom Robinson Band (chamada à última hora para substituir os Hawkwind, impedidos de vir por um dos seus elementos se ter ferido numa mão), nem A Certain Ratio, conseguiram conduzir o concerto em crescendo até ao seu final.
Tom Robinson pode ser simpático, pode ser um mestre em fazer músicas catitas para pôr toda a gente a cantar, mas está longe, muito longe, de ser qualquer coisa mais do que isso (o que já não é pouco, podem dizer-me...);



quanto aos A Certain Ratio, após tê-los visto, parece-me fazerem uma música demasiado pretensiosa, tendo em conta os resultados obtidos - que, convenhamos, foram bastante exíguos. Ideia final: um excelente baterista e um bando de rapazinhos à sua volta, todos muito senhores do seu nariz, experimentando tudo quanto é instrumento diante de um público estranhamente receptivo. Como conclusão, pelo que me foi dado a ver, sobre esta banda terminarei dizendo o seguinte: faz coisas curiosas em disco (algumas delas interessantes mesmo); ao vivo, dificilmente me tornarão a ver num concerto seu. Em Vilar de Mouros não me pareceu valer a pena...


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. "Conversa" com Gareth Sager (Rip Rig & Panic), entrevista por Ana Rocha
. Pop Musik - artigo de fundo por Célia Pedroso
. Discos em Análise:
.. Roxy Music - «Avalon» [Polydor 2311 154] por Carlos Marinho Falcão
.. Jethro Tull - «Broadsword and the Beast» [Crysalis, 6399343], por Carlos Marinho Falcão
.. Opinião Pública - «No Sul da Europa» [Rossil Doze/998], por Carlos Marinho Falcão
.. Pigbag - «Dr. Heckle and Mr. Jive» [Y Records - CM LP-003], por Trindade Santos
.. Gang of Four - «Songs of the Free» [EMI 11C 078 64792], por Ana Rocha
.. Né Ladeiras - «Alhur» [EMI 11C 052 40594], por Carlos Marinho Falcão
. Marc Bolan «...Como Um Meteoro», artigo de José Ângelo Guerreiro






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