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16.9.26
Danças Ocultas - "Danças Ocultas Estreiam AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM"
pop rock >> quarta-feira >> 21.02.1996
pop rock >> portugueses
PÚBLICO – Como decorreu a gravação?
ARTUR FERNANDES – No início trazíamos uma forma de execução, um tipo de reportório e uma determinada afinação das concertinas, a tradicional, com as palhetas mais vibrantes. A pedido do Tó Pinheiro da Silva [engenheiro de som e responsável pela sonoplastia], estudámos a possibilidade de ter o som mais afinado, com as palhetas mais próximas. Foi o que fizemos. Não podemos igualmente negar a influência, no modo de trabalhar, do produtor Gabriel Gomes, determinante na feitura dos arranjos. Nos três dias que antecederam a gravação, alterámos alguns aspectos dos temas.
P. – Gravaram ao vivo no estúdio?
R. – Como temos vindo a tocar sempre os quatro desde há seis anos, criou-se entre nós um balanço próprio. O Tó Pinheiro entendeu que isso devia ser aproveitado, essa envolvência, gravando não por pistas mas todos juntos. Claro que deu mais trabalho, sempre que alguém se enganava tínhamos de gravar outro “take”.
P. – A relação com a tecnologia deu-se sem atritos?
R. – Tenho essa relação, mas a outro nível. Estou neste momento a fazer estágio no curso superior de Composição, mantendo uma relação com a música electro-acústica, com sistemas digitais e analógicos. Este trabalho com as concertinas funciona, no entanto, a outro nível.
P. – O tema inicial, “Folia”, constitui uma experiência radical na utilização da concertina…
R. – No acordeão e na concertina existe um botão do ar que liberta o fole sem ser necessário tocar nos botões. No acordeão, este botão serve essencialmente para, no fima da música, fechar o fole. Na concertina ele tem outra função, que é, durante a música, compensar a necessidade de maior ou menor tempo a abrir e a fechar o fole. Havendo esta funcionalidade do movimento do fole, optámos por explorá-lo isoladamente, de maneira a produzir uma sensação de respiração humana.
P. – As pessoas costumam ver na concertina um instrumento folião, extrovertido, mas “Danças Ocultas” é um disco bastante melancólico, poderíamos mesmo dizer de música de câmara…
R. – Exacto. Comecei na música tradicional, a tocar concertina nos grupos folclóricos. Depois fui para o Conservatório e iniciei experiências com a concertina, precisamente na área da música erudita. Verifiquei que o instrumento afinal não era tão limitado assim. O que era necessário era explorar as suas potencialidades. Fui descobrindo então o tipo de trabalho que se faz na música de câmara, com distribuição das vozes pelos instrumentos, o tipo de envolvência, ou a necessidade de tocar com o máximo de conforto. Anatomicamente, há a necessidade de tocarmos sentados, para obtermos um máximo de rendimento em termos de expressão.
P. – O “No8c) turno das 7” traz-nos ecos de uma “gnossienne” de Erik Satie…
R. – Não posso negar. Sobretudo no acompanhamento harmónico e no tipo de ritmo. Mas há no disco todas as influências da música que ouço e estudo, Piazzola (em “Quartetra”), de quem sou grande fã, músicas tradicionais da Europa, menos Stravinsky, Messiaen e Webern, este último pelo culto da forma. Um pouco o que eu tento disciplinar neste projecto e que aprendi com a análise de Webern. Na “moda assim ao lado”, não poso negar a inspiração de um Riccardo Tesi ou de um Kepa Junkera. Mas o nosso som resulta pessoal, em parte devido à afinação diferente que procurámos. Em Portugal, a concertina tem um som estridente. Em Itália ou nos países celtas, trabalha-se um som que os afinadores chamam mais “ligado”. Nós ainda fomos a um extremo maior. Tentámos, nos vários arranjos, explorar a diferença de timbres, nas mãos esquerda e direita, além dos tais movimentos do fole.
P. – Já pensou na possibilidade de desenvolver o instrumento, liga-lo à electrónica, como faz, por exemplo, Valentin Clastrier com a sanfona?
R. – Para já não penso nisso, gosto imenso do som acústico. Sinto mais vibração no corpo assim do que com os sons electrónicos ou electrificados.
P. – Está consciente do risco que é editar em Portugal um disco instrumental, para mais centrado num único instrumento?
R. – O projecto, quando começou, partiu precisamente da tal influência da música de câmara. Sei que, por vezes, as pessoas precisam de seguir, ouvir uma letra, mas, talvez por estudar música, consigo dispensar a voz. Neste aspecto tenho como modelo o “Quinteto do novo Tango”, do Piazzola, onde os instrumentos têm como função imitar as vozes humanas. É um pouco pedagógico tentar ensinar as pessoas a ouvir música e a aperceber-se de que não interessa se uma música é comercial ou não.
P. – Para eventuais interessados, quanto custa uma concertina?
R. – Há concertinas a três e duas vozes. Quer dizer, cada botão dispara três ou quatro palhetas. Com três palhetas, o som é mais potente. A de três vozes é mais cara, custará agora à volta de 200 contos. As italianas, que são as melhores, custam ainda mais.
NOTA: Os Danças Ocultas apresentam o seu disco de estreia num espectáculo a realizar a 16 de Março, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Por agora, estão a gravar um vídeo de promoção com realização de Tó Forte, um jovem de 27 anos cujo currículo inclui já trabalhos com os Kussondulola, Diva, Sacred Sin, Sérgio Godinho, Mário Laginha e Janita Salomé, além da assinatura em programas para a televisão como o extinto Pop-Off ou, actualmente, o de moda, “86-80-86”.
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