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20.8.19
Memorabilia - Nuno Galopim: Série "Discos Perdidos" no Diário de Notícias (1) - Ocaso Épico - "Muito Obrigado"
Memorabilia
Nuno Galopim: Série "Discos Perdidos" no Diário de Notícias
(1) - Ocaso Épico - "Muito Obrigado"
30.6.17
Dead Can Dance - Dossier - "Na Terra Dos Sonhos"
DNMAIS
Sábado, / Junho 2003
DEAD CAN DANCE
Na Terra Dos Sonhos
O lançamento de um ‘best of’ convida a um reencontro com
a música dos Dead Can Dance, projecto de Brendan Perry e Lisa Gerrard que
marcou pela diferença o panorama alternativo dos anos 80 e vincou a identidade
de uma das vertentes do som da 4AD.
Nuno Galopim
É uma música nova ou uma amálgama de músicas antigas? É world music ou pop/rock? As
questões não são novas e, na verdade, recorrentes sempre que os Dead Can Dance
se apresentam na berlinda. Ao reencontrar a sua memória, através de uma
selecção de temas apresentados em Wake, um best of que nos convida a
(re)descobrir a aventura sem tempo nem fronteiras da música deste projecto que
nos revelou Brendan Perry e Lisa Gerrard, estas questões e memórias saudáveis
dos dias de ouro da 4AD regressam à ordem do dia.
Banda de referência do catálogo da editora independente
britânica 4AD, os Dead Can Dance definiram, disco após disco, um percurso entre
o antigo e o contemporâneo, doseando tonalidades e sabores renascentistas,
trovadorescos ou clássicos, juntando aromas mediterrânicos, africanos, do Leste
europeu, do médio oriente, da Ásia. Entre canções de forma mais tradicional e
uma requintada tecelagem de ambientes, a música oferece uma ideia de sonho sem
tempo nem lugar, de apelo suave aos sentidos... E decididamente difícil de
traduzir por palavras.
Começaram por ser um colectivo alargado, na clássica
tradição da banda pop/rock, mas ao segundo álbum era já uma dupla, repartindo
entre si as responsabilidades de composição e interpretação. Brendan Perry
sempre foi a voz herdeira da tradição pop/rock alternativa, entoando formas
concretas. Por seu lado, a Lisa Gerrard desde cedo coube o papel da libertação
dos espartilhos da arquitectura vocal pop/rock, trabalhando ao longo dos anos
um registo de vocalização decididamente pessoal que muito contribuiu para o
definir de uma identidade característica nos Dead Can Dance.
OS PRIMEIROS DIAS. Tanto Lisa Gerrard como Brendan Perry
têm ascendência anglo-irlandesa, remontando o encontro de ambos aos dias em que
viviam em Melbourne (Austrália), em 1980. Brendan revelava então sinais de
contaminação pela revolução punk que mudara a face da música no hemisfério
Norte poucos anos antes. Lisa, por seu lado, educada e crescida no melting pot
cultural de um bairro de emigrantes oriundos de regiões mediterrânicas,
mostrava já uma evidente predisposição para abraçar os sabores «exóticos» das
músicas desses muitos vizinhos... Curiosamente, depois de estabelecida uma
amizade e traçado um desejo de futuro na música, passaram ambos pela cozinha de
um restaurante libanês em Melbourne, no qual lavaram pratos a troco de um sonho
de partida para Londres. Assim foi. Fizeram as malas, e na bagagem traziam já
as primeiras canções. Mal imaginando que os aromas que traziam das vivências em
Melbourne vinham já nas entrelinhas das intenções musicais. Entre essas
primeiras composições encontrava-se já o hoje mítico Frontier, resultado de uma
sessão de trabalaho baseada na improvisação, que agora é incluído no
alinhamento de Wake.
NA CASA DE IVO. Os Dead Can Dance aterram em Londres em
1982, sem horizontes nem projectos concretos, mas donos de uma insistente
vontade em fazer a sua música. Esses primeiros dias não foram fáceis, vivendo
Lisa e Brendan do dinheiro do subsídio de desemprego, habitando um magro apartamento
num bloco na Isles of Dogs, a Leste de Londres e recebendo, uma após outra, as
recusas das mais diversas editoras...
Uma das cassetes foi deixada nos escritórios da
recentemente criada 4AD, uma operação paralela da editora Beggars Banquet,
formada para desenvolver emergente talento, e sob a direcção de Ivo Watts
Russel, um antigo discotecário. A editora, que tinha assegurado a estreia em
álbum dos Bauhaus e que era então «casa» de nomes como os Modern English e Dif
Juz, encontrou na proposta de Perry e Gerrard uma das suas pérolas, definindo
assim, em poucos anos, uma identidade muito peculiar de som e imagem, através
de uma mão cheia de edições dos p´roprios Dead Can Dance, Cocteau Twins e This
Mortal Coil, este último um projecto transversal às bandas da editora, reunindo
a colaboração de membros de vários grupos sob a batuta do «patrão» Ivo Watts
Russel.
Depois de um primeiro álbum menos característico, a
música dos Dead Can Dance mostra então, ao longo da segunda metade da década de
80, um percurso de evolução linguística, atingindo a definição clara de
identidade em Within The Realm Of A Dying Sun, e assinando as obras-primas da
sua discografia nos seguintes The
Serpent’s Egg e Aion. O grupo mostrava já ter-se liberto dos rumos mais
clássicos da tradição da canção pop/rock, optando antes por um labor centrado
nos discorrer de ambientes e cenários. Estas marcas de identidade contribuíram
rapidamente para o definir de uma admiração generalizada entre uma população
jovem de horizontes musicais mais exigentes, vincando assim um culto que
abraçou não só os Dead Can Dance, como também os restantes parceiros da «via
ambiental» da 4AD.
Em poucos anos os Dead Can Dance tornam-se num nome com
exposição global. Quando chegam ao circuito universitário norte-americano em
inícios de 90 trazem na mala os sons de Aion, que fazem das actuações ao vivo
um palco de encontro de fontes diferentes de som, permitindo o encontro dos
sintetizadores com instrumentos de outras geografias e outros tempos. É de
então que data o seu período de aposta mais evidente na estrada, assinando
diversas digressões (uma delas mais tarde registada num DVD agora
disponibilizado entre nós).
Tudo muda na vida dos Dead Can Dance quando, nos anos 90,
Brendan Perry se muda para uma residência na Irlanda rural e Lisa Gerrard se
instala numa casa de montanha na Austrália. O afastamento não impede a
continuação do trabalho, mas determina uma progressiva separação de tendências
e intenções que acabará por determinar o fim do grupo e a inevitável continuação
dos percursos individuais, em carreiras a solo. Lisa Gerrard, depois de
trabalhos nas bandas sonoras de O Informador, Gladiador e Ali, é hoje, mais que
Brendan Perry, dona de nova carreira em ascensão.
DVD
Dead Can
Dance
«Towards
The Within»
4AD/MVM
Concerto: ***
Extras: ***
Originalmente lançado em vídeo por alturas da edição do
álbum ao vivo com o mesmo título, este documentário sobre a digressão de 1993
cruza excertos de uma actuação no Mayfair Theatre em Santa Monica (Los Angeles,
EUA) com momentos de conversa com Brendan Perry e Lisa Gerrard. O alinhamento
live apresenta inúmeros inéditos, tal e qual a versão em disco. O melhor do DVD
está, contudo, nos cinco extras nele incluídos, nada mais nada menos que
videoclips, dois deles (The Host Of Seraphim e Yulunga) extraídos do filme
Baraka (de Ron Fricke), que contou com a contribuição dos Dead Can Dance na
respectiva banda sonora. O histórico Frontier e The Protagonist surgem em clips
rodados por Nigel Grieson, uma das almas da 23 Envelope, companhia de design
que definiu a imagem da 4AD.
Dead Can
Dance
«Wake»
4AD/MVM
****
O segundo best of dos Dead Can Dance propõe, num CD
duplo, um percurso de memórias captadas ao longo da discografia, não esquecendo
o registo ao vivo de 1994. Para os admiradores em busca de novidade, Wake
inclui o mítico Frontier, a primeira maquete dos Dead Can Dance, gravada ainda
em Melbourne.
DISCOGRAFIA
A discografia dos Dead Can Dance está integralmente
reeditada em CD pela 4AD (representada entre nós pela MVM). O ‘best of’ agora
editado pode perfeitamente servir de cartão de visita a quem não conhecer a
obra do grupo, assim como assegurar um bom retrato completo da sua obra para os
mais velhos fiéis de 80 e 90. Wake é, todavia, um primeiro passo num processo
de (re)descoberta que, para obter uma representação mais completa da obra
deverá, depois, passar por discos-chave como Within The Realm Of A Dying Sun,
The Serpent’s Egg e Aion, os melhore desta «safra». O álbum ao vivo de 1994 é
um bom retrato das artes do palco de um grupo que nunca chegou a actuar entre
nós (o DVD Towards The Within acrescenta depois o complemento directo visual).
Para carteiras mais recheadas, a caixa de 2001 oferece uma belíssima visão de
conjunto. Completar, depois, com os discos dos This Mortal Coil e, porque não,
um olhar atento pelo catálogo da 4AD (ver página 14 desta edição).
1984. «Dead Can Dance»
Mais «convencional», inclui o EP Garden Of Arcane
Delights na edição em CD.
1985. «Spleen And Ideal»
Começa aqui o percurso de definição da linguagem muito
peculiar do grupo.
1986.
«With The Realm Of A Dying Sun»
Lisa e Brendan dividem o disco ao meio e cada um canta
num dos lados.
1988. «The Serpent’s Egg»
Este é um dos dois discos obrigatórios do grupo, na
plenitude da sua linguagem.
1990. «Aion»
Dominado por referências renascentistas, outro episódio
fundamental.
1991. «A Passage In Time»
A primeira antologia, pensada para apresentar o grupo nos
EUA e Canadá.
1993. «Into Labyrinth»
O retomar do percurso, em forma, mas sem a mesma surpresa.
1994. «Towards The Within»
Disco ao vivo registado em Los Angeles durante a
digressão de 1993.
1996. «Spiritchaser»
Derradeiro registo de originais, muda azimutes, para o
hemisfério Sul.
2001.
«Dead Can Dance 1981-1998»
Caixa antológica com 3 CDs e o DVD de Towards The
Within».
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Nuno Galopim,
Post-Punk
19.6.17
Electrónica - Anos 70 - Best of...
» As electrónicas circulam pela música desde a alvorada
do século 20. Das ondas Martenot às primeiras composições de nomes como Varèse,
Pierre Henry e, mais tarde, Stockhausen ou pioneiros de ‘bricolage’ analógica
como Raymond Scott, muitas bases foram definidas. Porém, só depois das
primeiras experiências de Moog (com Walter Carlos) a música popular descobriu
que tinha ali novos caminhos a desbravar...
» Tal como os Neu! Ou os Can, os Kraftwerk são ‘produto’
da cena ‘kraut-rock’ germânica. Contudo, foram eles a quebrar definitivamente
amarras com o formato rock. O homem emulou a máquina, a música seguiu-a.
Sábado 9 de Agosto de 2003
64 ELECTRÓNICA – ANOS 70
Com o regresso dos Kraftwerk aos discos, após 17 anos de
ausência, era quase imperativo recordar as primeiras aplicações das então
emergentes ferramentas electrónicas a um contexto mais ou menos próximo do
universo pop. Da música de Walter Carlos para um certo ‘Laranja Mecãnica’ a uns
Human League pré reinvenção ‘electro-pop’, aqui deixamos 10 inventores de um
determinado futuro.
1972.
Walter Carlos
«Music
From A Clockwork Orange»
Não se trata da famosa banda sonora da Laranja Mecânica
de Kubrick, mas antes a totalidade da música que o compositor então criou, da
qual o realizador seleccionou os fragmentos que o filme tornou famosos. Um
mergulho nos bastidores de uma genial peça de trabalho electrónico feito sob
regras absolutamente clássicas.
1973. Can
«Future Days»
Os álbuns anteriores, Tago Mago e Ege Bamyasi já
apontavam uma «fuga» em direcção a prolongadas planagens atmosféricas, marcadas
pela rigidez da marcação rítmica de Liebezeit e a liberdade introduzida por
teclados e sintetizadores. Future Days é a concretização desses sinais, um
prenúncio orgânico de futuro electrónico.
1974. Tangerine Dream
«Phaedra»
Disco característico de uma segunda etapa na vida do
grupo, na qual o experimentalismo cede a algum melodismo, naquele que ficou
como um claro manifesto de futurismo musical na Europa de meados de 70. Usa
efeitos de som, mas sem esconder algum piscar de olho a pontuais formulações
mais clássicas.
1975. Neu
«Neu75»
O kraut-rock regenerou o rock’n’roll pela sua
fragmentação. A motorika dos Neu é disso exemplo perfeito. Ritmos minimais,
space-rock nas guitarras, «cut’n’paste» de sons dispersos. A sua influência
chegou a toda a gente, de Bowie aos Kraftwerk, chegando ao pós-rock e à
electrónica da actualidade (tudo explicado em Neu 75).
1976. Vangelis
«Albedo 0.39»
Depois do flirt sinfónico no pomposo Heaven And Hell (que
muitos conheceram mais tarde como banda sonora de Cosmos, de Carl Sagan),
Vangelis apresenta um álbum de clara exploração de padrões e sequenciações que
define regras que serão padrão de muita da electropop que então brota por toda
a Europa.
1977. Jean Michel Jarre
«Oxygène»
Com preparação em estudos de electrónica e música
concreta desde finais de 60, Jean Michel Jarre edita o seu primeiro registo de
originais, do qual faz nascer um verdadeiro monumento conceptual com intençõe
spolíticas e sociais no retratar de um tempo (o que a possante capa logo
indicia). Um disco tão envolvente quanto glacial.
1977. David Bowie
«Low»
Primeiro álbum da chamada trilogia berlinense (registada
em conjunto com Brian Eno e que comporta ainda os discos Heroes e Lodger),
mostra como a linguagem rock se apropria das electrónicas, não só nas canções,
como sobretudo num lado B todo ele constituído por gélidos retratos
instrumentais da Berlim de então.
1978.
Brian Eno
«Music
For Films»
Um ano depois do sublime Before And After Science, este álbum
recolhe peças electrónicas gravadas entre 1975 e 78 para filmes imaginários,
lançando pistas para o futuro imediato de Eno. Basta dizer que o álbum que
sucedeu a este na sua discografia tinha por título Ambient 1: Music For
Airports. Diz tudo...
1978. Kraftwerk
«The Man Machine»
Depois dos princípios básicos definidos entre Autobahn
(1974) e Trans Europe Express (1976), os Kraftwerk chegam a 1978 com a ideia de
lançar um álbum electrónico todo ele feito de canções. Sem imaginarem, acabaram
por definir o futuro imediato da pop electrónica, que toma The Man Machine como
‘bíblia’ de referência.
1979. The Human League
«Reproduction»
Fruto directo das influências dos anos mais recentes, a
pop dos Human League reflecte um tom gélido, mecânico, quase catastrofista, que
muitos designam por «cold wave». Neste seu primeiro álbum juntam a essa
linguagem um sentido lúdico que Dare!, dois anos mais tarde, transformaria num
ícone de referência da electro pop.
18.6.17
Kraftwerk - Dossier - "Os Homens-Máquina"
DOSSIER
KRAFTWERK
OS HOMENS-MÁQUINA
17 anos depois de ‘Electric Cafe’, os Kraftwerk regressam
com um álbum que não esconde o tempo em que nasce mas que se mantém firme na
linguagem clássica do grupo. Não se procurem ‘modernices’ despropositadas nem
invenções para enganar a idade. Os mestres sabem que ainda o são.
Nuno Galopim
Como tão bem o poderiam ter dito os Xutos & Pontapés,
apesar de diametralmente opostos em termos musicais, longa se tornou a espera
por quem, ano após ano, aguardava por novidades do quarteto de Dusseldorf que,
como poucos grupos na história da música popular, é fonte de um raríssimo
sentido de unanimidade, sendo-lhes atribuída uma espécie de carga matricial de
tudo o que a pop herdou de electrónico nos últimos 30 anos...
Em 2000, quando anunciaram o regresso ao activo para
então nos darem a conhecer a canção-tema «oficial» que haviam composto para a
exposição universal de Berlim – que simplesmente intitularam Expo 2000 – muitos
pensaram que talvez estivesse para breve a concretização de um há muito
aguardado álbum de originais, o sucessor de Electric Cafe que data já de...
1985!
Mas não foi ainda dessa vez que o grupo de quatro
elementos (dos quais se mantém apenas dois membros da formação «clássica», Ralf
Hutter e Florian Schneider) abriu as portas do secretismo ao qual há muito
envolveu o seu estúdio Kling Klang, que durante parte dos anos 90 serviu o
árduo e lento processo de digitalização de todas as fontes de som analógicas
usadas na extensa discografia lançada entre os anos 70 e 80. De resto, em The
Mix, álbum de remisturas lançado em 1991 e no site oficial do grupo (em www.kraftwerk.com) são visíveis marcas
desse trabalho de transposição de velhas fontes de som para os novos suportes
digitais. Tudo isto sem «alterar» a alma «tradicional» do som Kraftwerk.
Muitos foram os que, ao longo dos últimos anos,
defenderam a tese de que haveria uma suposta ansiedade instalada entre os
Kraftwerk, que lhes fazia temer a edição de algo que não acabasse considerado
ao nível da excelência da obra anterior. E aqui basta ouvir uma vez o novo e
belíssimo Tour De France Soundtracks para entendermos que estamos perante uma
obra que não só exala imediatamente as marcas dos seus autores, como sabe estar
à altura tanto de reencontros com exigências antigas e com novos desafios, até
mesmo novos sons, sem abusar, como em The Mix, dos «excessos» das novas
linguagens rítmicas. Aliás, a reduzida presença de «modernices» rítmicas, em
favor de um certo classicismo (mesmo com algumas excepções), acaba por ser uma
das mais notáveis conquistas deste regresso finalmente concretizado.
Apesar do «receio» ou «não vontade» em apresentar
qualquer material novo ao longo dos anos 90, nada impediu o grupo de, mesmo
depois dos abandonos de Karl Bartos e Wolfgang Flur, encarar a hipótese de
enfrentar plateias, o que aconteceu não muitas, mas suficientes vezes, ora
devidamente documentadas (como no vídeo de campanha Stop Sellafield), ora
registadas nas memórias dos felizardos que assistiram aos concertos em eventos
como, entre outros, o Sónar, em Barcelona...
Há cerca de dois anos, num gesto inesperado que ninguém
então ligou ao que acabaria por ser o futuro próximo do grupo, reeditaram em CD
o histórico EP de 1983 Tour De France, disco que assinalava um reencontro com
uma já antiga paixão pela ideia de viagem e dos percursos (basta evocar
Autobahn, isto é, auto-estrada, ou Trans Europe Express, um comboio),
adicionando ao som um elemento espantosamente novo e, oops, humano. Tour De
France fala do esforço e camaradagem entre ciclistas e baseia a sua estrutura
rítmica no arfar de quem pedala. Isto é, a máquina ainda está por lá como
elemento protagonista, mas a fonte de som prioritária e mais evidente ao longo
de toda a canção acaba por nascer do corpo humano. Contradição face a ditos do
passado ou, antes, o definitivo reconhecer do papel uno entre o homem e a
máquina, antes mesmo das invasões do mundo por «terríveis» cyborgs.
Tour De France Soundtracks tem tudo para ser um novo e um
absolutamente «tradicional» álbum dos Kraftwerk. Como em momentos de Trans
Europe Express e, sobretudo, Computer World e Electric Cafe, o álbum dedica
parte do seu alinhamento a uma espécie de ciclo que se estende por várias
etapas, aí uma evidente dedicatória à Volta a França em Bicicleta. Depois de um
prólogo (Prologue) entramos numa sequência de três etapas, que terminam com um
contra-relógio (Chrono), com uma continuidade de registos e soluções mecânicas
que quase nos fazem sentir a memória conceptual de um Autobahn... Todas estas
peças são novas, pontualmente captando um registo do Tour de France original,
que se serve em versão revista e melhorada a fechar o álbum, qual epílogo.
Esta nova versão de Tour de France corresponde ao único
momento não «inédito» do álbum, já que, ao contrário do que chegou a circular
como primeira notícia, este é mesmo um álbum de originais. Além da suite
dedicada à centésima Volta a França em Bicicleta (e ao próprio vigésimo
aniversário do original Tour de France), o álbum mostra quão fiéis a si mesmos
continuam a ser os «mestres» de Dusseldorf. Apesar de serem evidentes novas
estruturas e maquinarias rítmicas, as fórmulas melodistas e o modo de usar as palavras
seguem velhas e sábias fórmulas «robóticas». Evitando a contaminação do que não
é seu, como sábios professores que sabem que certos alunos levaram a outros
níveis os seus ensinamentos, mas que não têm o direito de agora as reclamar
para si, evitam recorrer a fórmulas downtempo, trip hop, techno ou aos blips
and blops tão na moda. Ideias que geneticamente descendem em alguns casos de
velhas bíblias escritas nas caves secretas dos estúdios Kling Klang, mas que
têm agora vida própria. Tal como vida própria continua a ter a estimulante
música dos Kraftwerk. Escutando temas como Vitamin, Aero Dinamik ou Titanium
verificamos quão perto estamos de presenciar um presente que sabe ser tão agora
como a herança do antes. Já em Elektro Kardiogramm e na sua continuação, em
Regeneration, reencontramos um sentido de melodismo que evoca os dias pop de
Computer World, embora seja evidente que tecnologicamente o discurso verbal e
musical seja do século XXI. As «máquinas», afinal, sabem bem onde e quando
estão neste momento de regresso...
Escutado por diversas vezes, e ultrapassando o efeito
viciante que o disco desencadeia sobre qualquer grande admirador do grupo sem
receios de neles encontrar hoje uma banda 17 anos mais velha que a que fez
Electric Cafe mas que formalmente não se afastou muito do seu rigor
linguístico, Tour de France Soundtracks revela-se um disco que facilmente
podemos colocar entre os melódica e espiritualmente mais tranquilos do
quarteto. Não é a resposta nunca dada ao álbum Techno Pop, que incidentes
passados impediram que alguma vez visse a luz do dia (nesse sentido, o tom
espartano da contenção melodista de Electric Cafe talvez seja até o que de mais
próximo dessa ideia perdida hoje podemos evocar).
Figuras de importância matricial na construção de uma
linguagem que explica muita da música dos últimos 30 anos, com a coragem de
evitar o chinfrim visual e eléctrico tão em voga nos inícios de 70, os mestres
estão de volta. Em primeiro lugar merecem respeito. E, em segundo, que se lhes
escute um álbum sóbrio e coerente, linguisticamente claro, esteticamente firme
no desejo de não mudar o que «não tem» de ser mudado. Regras são regras. E se
há grupo que as crie e siga à risca, esse grupo são os Kraftwerk!
A Paixão Pelo Ciclismo
Fruto de um interesse do grupo pelo ciclismo, ‘Tour de
France’ surgiu em 1983. Um acidente de Hütter impediu que o projecto fosse,
depois, mais longe.
A enorme popularidade angariada pelo grupo desde os
sucessos de finais de 70 fez dos Kraftwerk um motivo de desejo pop com valor acrescentado
na alvorada de 80.Contudo, contra o excesso de curiosidade, a resposta natural
do grupo acontecia pelo silêncio, pela sucessiva recusa em dar entrevistas,
pela cada vez mais discreta exposição. A dada altura há quase um regime de
black out imposto pelos próprios a si mesmos, num desejo de paz procurando no
«mui» secreto refúgio dos estúdios Kling Klang. Um silêncio coincidente com a
chegada ao número um em Inglaterra de uma reedição (com capa à Computer World)
do já clássico The Model... O silêncio é rompido apenas em 1983, com a edição
de um novo single, Tour de France, e o anúncio de um álbum que supostamente se
seguiria, que chegou mesmo a ter número de série mas acabou por nunca ser nem
gravado nem editado...
Tour de France reflectia já um crescente interesse do
grupo pelo ciclismo, desporto que se tornará entretanto actividade regular
entre os elementos do colectivo, sobretudo depois de terminada a cansativa
digressão que se seguiu a Computer World.
Chegados a uma meia idade na qual muito desperta um
renovado interesse pela preservação do corpo, os Kraftwerk encontraram no
ciclismo um desporto, sobre o qual Ral Hütter já nutria há muito um claro
interesse.
Em pouco tempo a discussão sobre esta nova fonte de
interesse passou da racionalização à acção, com encontros regulares num dos
clubes velocipédicos da cidade. Não só trabalhavam o corpo como se mantinham
juntos e, ao ar livre, asseguravam uma fuga pontual à relativa claustrofobia
dos estúdios onde só eles e os mais próximos amigos tinham ordem para entrar.
Ao mesmo tempo a actividade desportiva em conjunto permitiu-lhes criar um
uniforme negro (da cor da noite, isto é, das suas horas normais de trabalho em
estúdio) que todos usavam por igual. Enfim, a filosofia «kraftwerkiana» em
acção velocipédica!
Do interesse à concepção de uma canção que o reflectisse
o passo foi rápido e natural. Depois de temáticas de alta tecnologia nos anos
70, e de um olhar sobre os computadores na alvorada de 80, era o corpo humano,
em diálogo com a máquina, a fonte central de reflexão a quatro. Mais ainda,
depois dos motores dos carros e comboios, depois da radioactividade e dos
mecanismos das máquinas de calcular, a ideia era a de celebrar os músculos
humanos, o esforço físico. Tudo isto corresponde ainda a um momento histórico
de escalada de um certo discurso ecologista, que leva os próprios membros dos
Kraftwerk a trocar os seus belos Mercedes por carrinhos mais económicos.
A canção, em 1983, foi pensada segundo o som da
respiração e do pedalar, sugerindo em pleno as intenções conceptualizadas.
Infelizmente, um gravíssimo acidente de bicicleta de
Hütter não só atrasou o single como comprometeu um álbum de conceito de que
certamente esta canção seria uma peça central. Justiça feita agora, 20 anos
depois.
DISCOGRAFIA
Para uma discografia representativa, álbuns como
‘Autobahn’, ‘Radio-Activity’, ‘trans Europe Express’, ‘The Man Machine’ e
‘Computer World’ serão os essenciais. Os restantes completam apenas uma
discografia fundamental.
1969. ‘Tone Foat’
Originalmente assinado como Organisation, é um espaço de
improvisação.
1970. ‘Kraftwerk’
A «verdadeira» estreia demonstra ainda um predomínio do
ensaísmo.
1971. ‘Kraftwerk 2’
Apesar da continuidade, em Kling Klang surgem saudáveis
pistas novas
1973. ‘Ralf & Florian’
Momento de quase ruptura com o passado e desvio para o
melodismo
1974. ‘Autobahn’
O primeiro clássico, com uma aproximação à ideia de
canção pop!
1975. ‘Radio-Activity’
Novo registo conceptual, insiste na procura da linguagem
da canção pop.
1977. ‘Trans Europe Express’
De grande importância histórica futura, definiu uma
linguagem europeia.
1978. ‘The Man Machine’
A obra-prima da pop electrónica é a base da música dos
últimos 25 anos.
1981. ‘Computer World’
Novo depoimento «conceptual», centra-se na relação com o
computador.
1986. ‘Electric Cafe’
Em vez do «abortado» Techno Pop, um disco minimalista e
experimental.
1991. ‘The Mix’
Uma revisão da matéria dada à luz das emergentes corrente
rítmicas.
1998. ‘The Best Of Kraftwerk’
Editado apenas no Japão, um simples apanhado de clássicos
para recordar.
1998. ‘Concert Classics’
Um dos dois discos live do grupo, esta ainda antes da
chegada de Bartos.
1999. ‘Autobahn Tour’
Gravado na mesma digressão, um documento da era anterior
à da «fama».
2000. ‘Expo 2000’
A canção oficial da Expo de Hannover surgiu em vários
EPs, com remisturas.
PARA LÁ DA DISCOGRAFIA
LEITURAS E CONSULTAS
LIVROS
Bussy,
Pascal: ‘Kraft-werk: Man Machine And Music’
S.A.F.
1993
Barr,
Tim: ‘Kraftwerk – From Düsseldorf To The Future (With Love)’, Telbury Press,
1998.
Flür,
Wolfgang: ‘Kraft-werk: I Was A Robot’, Sanctuary 2000
HOMENAGENS E TRIBUTOS
Uma banda com o peso histórico e matricial de uns
Kraftwerk só podia gerar uma série de compilações de tributo. O curioso é que,
além dos muitos tributos que existem no mercado, dois discos de autores
concretos lhes dedicam atenção protagonista. Um deles é ‘Possessed’, que o
Balanescu Quartet gravou em 1992, álbum sublime e referencial que assume uma
abordagem por um quarteto de cordas à música destes quatro alemães. Igualmente
‘estranha’ e diferente foi a homenagem de Senor Coconut em ‘El Baile Alemán’,
transformando as canções dos Kraftwerk em temas conduzidos por ritmos
latino-americanos. Além destes dois discos temáticos abundam no mercado os
álbuns-tributo aos Kraftwerk, do já histórico ‘Trans-Slovenia Express’ com
bandas balcânicas e todo um extenso rol de propostas oriundas dos mais diversos
cantos de actividade musical electrónica. Afinal, mestres são mestres e sabem
ter descendência!
SITE OFICIAL
Vale a pena espreitar, com tempo, o site oficial dos
Kraftwerk, em www.kraftwerk.com.
Seguindo uma lógica de interactividade, o site convida à «visita» a várias
canções que fizeram história, muitas delas permitindo ao visitante a hipótese
de criar as suas versões, quebrar esquemas rígidos, interferir. Podemos, por
exemplo, alterar as sequências de efeitos em ‘Boing Boom Tchak’, somar melodias
aleatórias em ‘Pocket Calculator’ ou fazer dançar os quatro robôs em ‘The
Robots’... O grafismo que acompanha cada canção respeita capas e motivos dos
originais.
N.G.
16.6.17
Um Pouco de Literatura - Poesia: Manuel de Freitas - "Os Infernos Artificiais" (off-topic)
Um «quase nada» no inferno
Mais um livro de poemas de Manuel de Freitas. Itinerário
povoado de memórias e de uma visão não celebratória da cidade
OS INFERNOS ARTIFICIAIS
Autor: Manuel de Freitas
Editora: Frenesi
Páginas: 100
Género: Poesia
Preço: 3000$00
Classificação ****
Ana Marques Gastão
Em Os Infernos Artificiais – segundo livro de Manuel de
Freitas – também crítico e ensaísta – existe um relacionamento com o real
(também com o lugar da cidade), que pode ser de mera observação, ou
demonstrativo de uma condição física ou existencial; e a procura de uma baudelairiana
flânerie quase impossível no contorno amargo da ironia.
Se existe, nestes poemas, o lado do transeunte que
vagueia pela cidade, atento ao seu cosntante mal-estar, neles não se encontra a
ideia de uma suspensão do real no ideal. No sórdido sabor das coisas e na
consciência lúcida de um «quase nada» e do «triste devir sobre nós já traçado»,
é flagrante a formulação de um quotidiano desapiedado: «Junto ao cais morrem os
homens, / as pedintes crianças usando caixinhas / onde a alegria não cabe. Morrem
/ - sem nunca terem visto a amurada chã / dos seus destinos, o nítido
desassossego / das aves que este ano nos trouxeram / a mais rigorosa e cortante
melancolia.»
No pendor deambulatório deste livro, revelador de modos
de estar num mundo de lixos, graffitis, urinóis, eléctricos, bilhetes-postais,
tabernas, bêbados, prostitutas, doentes de inferno e corpos nocturnos, Lisboa
revela-se ainda enquanto esboço de um cenário na «ausência de qualquer consolo
e na descrença do amor: «Talvez o amor / não exista, triste palavra sem lume lá
dentro.»
E se há algum resquício de aproximação a certa poesia
anglo-saxónica, por contraposição a cenários neo-românticos, em Os Infernos
Artificiais, Manuel de Freitas (n. 1972) remete-nos, ainda que parcelarmente,
para as Lisboas, de Armando Silva Carvalho, na sua não-celebratória visão da(s)
cidade(s) e na medida em que este livro constitui, também, uma forma de
itinerário pessoal povoado de memórias e de solidões que não perdoam. Embora
sem a deambulação em torno do Portugal histórico no lugar da Europa, nem uma
tão evidente sede de «turismo metafísico».
Não se pode, no entanto, dizer, como no caso do autor de
Canis Dei – ressalvadas as devidas distâncias -, que haja um antilirismo no
livro de Manuel de Freitas. Os abruptos vazios nos «interstícios da morte», o
«horror de haver mundo» «entre ruínas e novas ruínas», os austeros amores, o
rosto «sem estrofes de Benilde ao balcão», o acordar «mais perto da dor», o
«infindável folclore da agonia», «esta merda, / esta impossível vontade de
morrer» remetem-nos para um dolorido universo desabitado que não é senão a face
poética do tédio.
Manuel de Freitas vislumbra a morte por entre as palavras
– que denunciam aprofundada leitura de autores como Cesário, Álvaro de Campos,
Armando Silva Carvalho, Joaquim Manuel Magalhães e Al Berto. E usa-as, às
palavras, de uma forma bem mais descritiva do que narrativa, revisitando o
quotidiano, com sageza, bem como o corpo não-resolvido, mas por vezes, à luz de
um excessivo prosaismo.
Talvez Manuel de Freitas pudesse captar o ignóbil na
cidade e nas gentes com um contorno metafórico menos superficial e vulgar, como
neste caso: «Observo-a discretamente: gorda / e disforme sobre um sujo mar de
jornais / com folhas verdes dispersas e alguma areia / - para que mije muito e
cague muito mais.»
Até porque o poeta demonstra noutras passagens do livro,
ao agarrar material semelhante, essa capacidade: «É fácil defender a
felicidade. Fácil / como lamber uma latrina / ou fazer filhos entre escombros,
roendo / as unhas à morte. Mias fácil decerto / do que escrever um verso, / um
único verso que seja / - enquanto o bolor nos cresce nas mãos.»
Se os versos neste livro são uma espécie de «refúgio» - o
de se «ser exactamente ninguém» - para um cenário humano e urbano circundante,
a verdade é que anunciam também um ennui infiltrado nas pequenas coisas, no
lado repetitivo da vida captada nem que seja por esse «esgoto de luz onde a voz
se exilou». Mesmo no abjecto e destacando-se do tom «cálido» de muitos da sua
geração, Manuel de Freitas penetra no território dissonante do inferno, sem
pretender, nem na musicalidade, roubar á escrita qualquer espécie de redenção.
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12.6.17
Livros Sobre O Post-Punk: "'Pós-Punk' Para Ler" - Artigo de Opinião -
DN-SONS
‘PÓS-PUNK’ PARA LER
Entre ensaios sobre o período 1978-84 e álbuns de
fotografias, este é um espaço da cultura pop em fervilhante actividade
editorial nos meios livreiros ingleses e norte-americanos.
No texto que agora apresenta no disco nascido do sucesso
do seu livro Rip It Up (And Start Again), o jornalista Simon Reynolds sublinha
que “estamos neste momento profundamente mergulhados num ressurgimento
pós-punk”. E acrescenta que “não há ainda sinais de travagem”, tal é “a
infindável procissão de novas bandas que procuram inspiração nessa era,
colidindo com bandas veteranas que se reuniram, uma maré de reedições,
compilações e antologias”. Quando, há um ano, o publicou, o fenómeno de concentração
de atenções de novas bandas e públicos no legado pós-punk era já visível. E foi
então sua a intenção de “mostrar a verdadeira diversidade” associada a este
fenómeno, que considera menos uma questão de género, mas antes todo um conjunto
de espaços e possibilidades que se abriram nos finais da década de 70.
Para Simon Reynolds, o punk “rejuvenesceu o rock, mas por
alturas do Verão de 1977 o movimento tinha-se transformado numa paródia de si
mesmo”. O livro explica, detalhada e claramente como bandas como a Joy
Division, Gang Of Four, Talking Heads, The Fall, Associates ou Cabaret
Voltaire, entraram em cena para cumprir a revolução incompleta lançada pelo
punk alguns anos antes. “experimentando as electrónicas e os ritmos maquinais,
adaptando ideias do dub, reggae e disco, tinham a certeza de que podiam
inventar um novo futuro para a música”, explica no livro.
“Num tempo de tensão e ameaças”, que aponta num
reaparecimento de figuras políticas de direita (nomeadamente Thatcher e
Reagan), as bandas pós-punk “tentaram construir uma cultura alternativa através
do nascimento de novas editoras independentes como a Rough Trade, Factory ou
SST e a proliferação de uma política do it yourself”. Como retrata no seu
livro, uma ideia de mudança constante morava entre os projectos desse tempo.
Fala de intermináveis inovações “brilhantes” não apenas na música, mas também
na escrita das letras, no desenvolvimento de novos conceitos performativos, nas
ideias de estilo e design. Este é o espírito que Reynolds identifica e projecta
como natural herança na nova pop de inícios de 80, em bandas como os Human
League, Adam Ant, ABC, Madness, Dexy’s Midnight Runners ou Frankie Goes To
Hollywood, “todas elas nascidas no punk, mas que a dada altura abraçaram um
sentido de glamour e o vídeo de forma a projectar as suas ideias no coração da
cultura mainstream”. O livro revela informação e reflexão, retrato exigente e
claro de um tempo que, mais de 25 anos depois, volta a estar na ordem do dia.
Como complemento nas leituras ao fundamental livro de
Simon Reynolds podemos ler um A a Z, sistematizando, não só o pós-punk, como o
próprio punk em Up Yours!: A Guide to UK Punk, New Wave and Early Post Punk, de
Vernon Joyson (Borderline Productions). Igualmente sistematizado, Post-Punk
Diary (1980-82), de George Gimarc (Saint Martin’s Press), propõe um diário dos
acontecimentos, citando 900 bandas e três mil gravações (com um CD como
complemento à leitura).
A lista de livros sobre este período é vasta, podendo uma
pesquisa mais profunda pedir leituras sobre o punk britânico em England’s
Dreaming, de John Savage (Faber & Faber) ou o punk nova-iorquino em From
the Velvets to the Voidoids: A Pre-punk History for the Post-punk World, de
Clinton Heylin (em edições pela Helter Skelter e pela Penguin Books). Um
retrato do punk em declarações na primeira pessoa lê-se em Please Kill Me, de
Legs McNeil e Gillian McCain (Penguin Books).
Para o documentários visual deste período dois livros
podem merecer algum destaque, ambos disponíveis em lojas online. Um deles, Made
In The Uk: The Music Of Attitude, 1977-83 (Powerhouse Cultural Entertainment
Books), reúne uma série de fotos de Janette Beckman que, em 132 páginas, documentam
factos e rostos dos dias do punk e os que se lhe seguiram, abarcando diversas
culturas pós-punk em solo inglês sem esquecer o movimento 2-Tone, os novos mods
e os skinheads. Essencialmente centrado na cultura neo-romântica, Duran Duran
Unseen é, apesar do que o título possa sugerir, um magnífico retrato da cultura
nocturna (e seus protagonistas) na Birmingham de finais de 70, através de fotos
de Paul Edmond, sob design de Malcolm Marrett e Kaspar de Graaff.
NG
George
Gimarc
Post
Punk Diary, 1980-1982
Saint
Martin’s Press
374
páginas
Vernon
Joynson
Up
Yours! – A Guide To UK Punk...
Borderline
Productions
450
páginas
Paul
Edmond
Duran
Duran: Unseen
Reynolds & Hearn
144 páginas
THE FACE
A “Bíblia Da Moda” Dos Anos 80
Sem Internet, a propagação das boas novas que as
descendências do punk projectavam na música e periferias (leia-se, sobretudo, o
mundo da moda) fez-se através da publicações especializadas. E nenhuma serviu
tão bem os primeiros anos da década de 80 como a revista mensal The Face,
(1980-2004), valor acrescentado ao jornalismo musical sobre o fenómeno pós-punk
que, desde o seu aparecimento em1978, se lia nas páginas dos há muito extintos
semanários Melody Maker e The Sounds, e do ainda sobrevivente (mas
descaracterizado) New Musical Express.
A The Face surgiu em Maio de 1980, sob o comando de Nick
Logan, um antigo editor do NME nos anos 70 que, pouco tempo antes, criara a
mais juvenil Smash Hits. Com um design revolucionário (durante os primeiros
anos a cargo de Neville Broudie) e uma divisão de atenções entre a música, a
moda, uma ideia discreta de club culture (ainda na sua proto-história) e
espaços de cultura alternativa em geral, rapidamente conquistou leitores, em pouco
tempo carinhosamente rotulada como a “bíblia da moda dos anos 80”.
O número um deu capa aos Specials, o segundo entrevistava
Paul Weller (então nos The Jam), o terceiro assinalava a morte de Ian Curtis.
No sexto revelavam-se os Spandau Ballet e, um mês depois, olhava-se
cautelosamente para o emergente movimento neo-romântico, então apresentado como
“o culto sem nome”... Vivienne Westwood, Bow Wow Wow, Ultravox, Human League, a
implantação do teledisco, Julian Cope, Yazoo ou Haircut 100, Smiths ou a fotografia
de Bruce Webber, entre muitos, passaram pelas páginas da Face nos seus
primeiros anos de vida, quando não tinha rival à altura, estatuto que perdeu na
segunda metade da década.
NG
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3.5.17
Kraftwerk - Crítica de Discos - "Minimum Maximum"
DNm: 10 de Junho de 2005
A MÁQUINA AO VIVO
O Documento áudio da inesquecível digressão mundial dos
Kraftwerk que nos visitou em 2004 chega em ‘Minimum Maximum’. Um verdadeiro
‘Best Of’ de 36 anos de carreira gravado ao vivo.
T: N.G.
Apesar de terem protagonizado algumas digressões
históricas nos anos 70 e inícios de 80 (está de resto registada em disco a
Autobahn Tour de 1974, mais concretamente nos álbuns não oficiais Concert
Classics e Autobahn Live), os Kraftwerk não foram, durante uma série de anos,
grandes “amigos” da estrada. Nos últimos tempos, porém, têm corrido o mundo,
com a mais espantosa experiência audiovisual de alta tecnologia que os palcos
pop/rock alguma vez assistiram. Uma experiência que agora, a meio de uma
digressão que continua na estrada, se regista em álbum.
Há um ano, a dias da sua estreia em concerto em Portugal,
numa inesquecível noite de música no Coliseu dos Recreios, Ralf Hutter explicou
ao DN que só agora a tecnologia disponível lhes permite concretizar em palco
uma velha visão de conceito multimédia que há muitos anos alimentavam como
cenário de sonho para os seus espectáculos. “Temos o nosso próprio estúdio, o
Kling Klang Studio, que é como que um instrumento para os Kraftwerk. E agora,
no seu novo formato digital, é mais portátil, pode viajar...”, contou. “Pela
primeira vez podemos tocar a nossa música em sincronismo com gráficos gerados
por computador ou imagens de vídeo, pinturas electrónicas... Tudo o que a
tecnologia hoje permite! Estamos muito felizes porque nesta digressão mundial,
podemos apresentar, finalmente, as coisas que queremos segundo uma visão que há
muito tínhamos. Essa visão é, agora, para nós, uma realidade”.
Tendo o grupo nascido nos dias de 70 com uma filosofia e
imagem de clara oposição aos padrões tradicionais pelos quais se edificavam os
mitos rock’n’roll, a sua postura em palco nunca visou quaisquer intenções de
assimilar os hábitos performativos do rock. Pelo contrário, os quatro elementos
do grupo sempre se mantiveram quase inertes por detrás dos seus teclados e
consolas, deixando que o movimento necessário ao acompanhamento da música se
fizesse através do desenho de luz e de projecções. A digressão mundial que o
ano passado vimos em Lisboa e, depois, num serão acidentado no Sudoeste, e que
agora registam em disco, recorre ao que designam por protótipo móvel Kraftwerk
2002, um conjunto complexo de computadores e outras máquinas que gerem em
sincronismo a performance musical e o lançamento no espaço de imagens e
gráficos gerados por computador. Hutter sublinhou aqui que, desta maneira, a
tecnologia do século XXI deu assim a resposta a velhas Ânsias do grupo:
“Deu-nos ferramentas para poder tornar reais certas visões nossas. E também
mobilidade, movimento... Sempre nos interessámos bastante pelo movimento, daí a
conhecida velha fascinação pelo ciclismo.” Hutter recordou ainda que a busca
deste sentido de mobilidade das suas ferramentas electrónicas representou uma
das demandas fundamentais desde os primeiros tempos de vida do grupo. “Eu e o
meu amigo Florian Schneider criámos o nosso Kling Klang Studio em 1970 e
dispendemos então muito tempo na sua construção para que assim conseguíssemos
ser independentes e autónomos”, lembrou.
“Mas os nossos primeiros sintetizadores eram enormes e
estavam constantemente a desafinar. Eram muito caros... O nosso primeiro
sintetizador foi tão caro como o meu Volkswagen, que é o que está na capa de
Autobahn. Sendo estudantes, tínhamos então os nossos problemas naturais... O
Florian desenvolveu então o nosso primeiro instrumento electrónico de
percussão, a partir de um outro órgão meu. Um amigo nosso, que era pintor,
trabalhava connosco pintando as capas dos discos... Envolvíamo-nos em inúmeros
projectos além da música, num contexto multimédia electrónico. E agora estamos
a fazer a rodagem mundial do nosso protótipo móvel Kraftwerk 2002. Hoje podemos
viajar e ser como pilotos de ensaio para software electrónico relacionado com a
música. Continuamos, hoje, a trabalhar com o mesmo engenheiro musical que nos
acompanha, desde o The Man Machine... É um processo de continuidade...”.
Quem viu os concertos, sabe que fala verdade.
Com precisão germânica, os concertos começam sempre à
hora marcada (o que no caso da actuação no Sudoeste acabou por não dar tempo
para a reparação de uma má comunicação entre os computadores que geram as
imagens e os ecrãs). Uma voz robótica anuncia que o espectáculo vai começar. E
logo as cortinas se abrem para, ao som de The Man Machine, revelar os quatro elementos
do grupo estáticos frente aos seus teclados. E, por detrás, um gigantesco ecrã
por onde evoluem imagens digitalmente criadas, filmes vintage, referências
claras às capas dos discos, palavras cantadas... Extensão directa do conceito
total que é a arte dos Kraftwerk, o concerto materializa mais uma ideia de
instalação musical electrónica, uma vez mais reinventando os Kraftwerk como um
espaço de afirmação de uma identidade oposta à iconografia tradicional da
cultura rock’n’roll. O alinhamento, invariável, passa por momentos do recente
Tour De France Soundtracks (como Vitamin, Aero Dynamic, Elektro Kardiogramm e
diversas variações em torno do clássico Tour DE France), como proporciona um
coerente mergulho por um passado mítico, através da recuperação de peças-chave
da história da música como Autobahn, Radioactivity (versão mista entre a
original, de 1975, e a remistura de 1991), Trans Europe Express (com adenda
Metal On Metal), The Model, Neon Lights, Computer World (e o complemento Home
Computer), Numbers, It´s More Fun To Compute, Pocket Calculator, Dentaku, Music
Non Stop ou o mais recente Expo 2000, na versão Planet Of Visions. No primeiro
dos encores abandonam o palco deixando-o entregue aos seus célebres robots,
numa magistral celebração do tema The Robots (novamente em versão
“actualizada”, segundo a norma aplicada no álbum The Mix, de 1991).
Com o esperado perfeccionismo áudio que caracteriza todas
as gravações do grupo, Minimum Maximum traduz em disco o mais espantoso
concerto que os palcos nos deram nos últimos anos. E consegue, talvez pela
força do alinhamento best of, resistir à ausência da imagem (afinal, o concerto
era, como se afirmou já, uma experiência audiovisual). A possibilidade de
edição do DVD que documenta esta mesma digressão está na agenda imediata do
grupo. Seguir-se-á a reedição remasterizada da obra editada entre 1974 e o
presente. Hutter explicou que este trabalho de restauro lhes ocupou parte do
tempo nos últimos anos: “estivemos a trabalhar na adaptação aos formatos
digitais de toda a música dos Kraftwerk. Tínhamos fitas muito antigas que se
estavam a degradar e havia muito trabalho para fazer. Estivemos a transformar
33 anos de trabalho de arquivo dos Kraftwerk em formato digital. Hoje todos os
sons originais estão disponíveis e vamos brevemente lançar versões
remasterizadas de todos os nossos álbuns desde Autobahn. Essa edição vai
chamar-se The Catalog. E o grafismo dos discos vai incluir ideias que não
pudemos usar no passado”, adiantou. Venham elas!
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28.4.17
Van Der Graaf Generator - Artigo de Fundo + Crítica a "The Box"
DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 20 DE JANEIRO DE 2001
POP/ROCK
VAN DER
GRAAF GENERATOR
VISÕES E FICÇÕES
A importante memória dos Van der Graaf Generator é
revisitada numa caixa que percorre a obra mais importante do rock progressivo
cuja redescoberta faz hoje todo o sentido.
Por oportuno exercício de memória, que poderá ter
conhecido importante catalizador de atenções na maneira como o percurso recente
dos Radiohead devolveu à ordem do dia alguns nomes do chamado rock progressivo,
eis que chega finalmente aos escaparates aquela que parece ser a primeira
manifestação de saudável restauração da inesquecível obra dos Van der Graaf
Generator, sem dúvida a mais importante e marcante das bandas do seu tempo
nesta mesma área.
O simples enunciar da expressão «prog rock» assustou,
durante muitos anos, muitas almas que o associaram, sobretudo, à má memória dos
subprodutos que gerou. Nomeadamente os tristes depoimentos de uns Yes, Emerson
Lake And Palmer e de uns Genesis pós-Peter Gabriel... Afastada das atenções
«grossitas», a obra dos Van der Graaf Generator marcou, todavia, o seu tempo.
As letras plenas de um misticismo que Peter Hammill sempre cultivou e um
inteligente suporte instrumental que nunca mostrou sinais de açúcar
desnecessário, rasgaram o seu presente vislumbrando novos patamares de
consciência estética, sugerindo uma noção de música acima de fronteiras e
convenções que, regra nos nossos dias, era motivo para ditatorial jogo de
política de fronteiras na alvorada de 70. O todo da proposta dos Van der Graaf
Generator, contra o que nos mostravam então uns Pink Floyd ou Genesis, apontava
à essência dos sons, em detrimento dos complementos directos (sobretudo os
visuais). A sua música era mais profunda, negra e, sobretudo, desafiante, que a
de outros contemporâneos. E hoje, quase 30 anos depois, soa estranhamente
familiar e contemporânea. As visões de futuro além das formas, afinal, eram
pertinentes.
EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE
As origens dos Van der Graaf Generator remontam a uma
viagem de Chris Judge Smith a São Francisco no marcante Verão de 1967. De
regresso a Manchester, onde em pouco tempo se viu a trabalhar com o cantor e
compositor Peter Hammill e o teclista (então usava-se o termo «organista») Nick
Peame. Como nome escolheram um dos que Chris trazia da lista escrita na viagem
à Califórnia, Van der Graaf Generator (para abreviar, VdGG: uma máquina que
cria electricidade estática)...
Vencida uma etapa de troca de line-up (situação
recorrente ao longo de toda a história dos VdGG), que determinou inclusivamente
a saída de Chris Judge Smith e Nick Peame, editado um primeiro single por uma
etiqueta que não aquela à qual se encontravam ligados por contrato (o que determinou
a sua imediata retirada do mercado), o soberbo álbum de estreia «The Aerosol
Grey Machine» (que começou a ser gravado como se de um disco a solo de Hammill
se tratasse) mostrava interessantes sinais de uma banda que procurava um
caminho seu, emergindo directamente das recentes e marcantes experiências no
domínio do psicadelismo.
A resposta minimal do público não demoveu os VdGG, que
entre 1969 e 1971 gravam três álbuns determinantes na definição da ideia de uma
música que parte de estruturas rock para, por processos de desconstrução,
procurar contaminações por via da abolição de fronteiras com o jazz e a música
clássica. Contra a corrente, a música demarcava-se imediatamente pelo desvio do
centro melódico para o jogo entre as teclas dos órgãos de Hugh Banton e o
saxofone de David Jackson. Não havia guitarrista protagonista, e a própria
presença de um baixista não foi constante em todos os períodos da vida do
grupo. Sem a pompa excessiva e flácida de outros contemporâneos, a música dos
VdGG evidencia uma consistência invulgar, em muito sugerida pela excelência do
edifício instrumental e pela presença vocal de Hammill, cuja teatralidade e
escrita determinam uma das forças maiores da visão que na alvorada de 70 era
proposta pelos VdGG. O épico «A Plague Of Lighthouse Keepers» (do álbum «Pawn
Hearts, de 1971), será talvez o expoente maior da versatilidade cromática e da
complexidade interior característica da música dos VdGG e que, ao vivo, fez do
grupo uma das grandes referências de palco na alvorada de 70, em absoluta
oposição à cenografia mais garrida da contemporânea primeira geração do
emergente glam rock.
A SEGUNDA GERAÇÃO
Separados em 1972 depois de um calendário de intensa
actividade na estrada, os VdGG reuniram-se em 1975 depois de três anos de percursos
a solo. Os três álbuns editados entre 1975 e 76 reflectem uma maturação da
ideia original, refinando arestas, implodindo as energias em favor de
manifestos de procura de novas formas dentro das formas. Genial, o clássico
«Still Life» (de 1976), recolhe os momentos mais significativos desta segunda
etapa da vida do grupo. A canção volta a merecer nova abordagem estrutural, e
sentem-se claras manifestações de ordem «clássica» nos arranjos com que os
novos temas se apresentam. Se a etapa 69-71 definiu as linguísticas mais negras
e desafiantes do rock progressivo, o período 1975-77 reflecte a busca de um
sentido de «belo» determinado pelas regras reveladas nos dias da
pós-adolescência criativa do grupo. É também deste frutuoso período que datam
as referências «prog rock» que alguns grupos revisitaram na recta final de 90.
Escute-se o tema-título do álbum «Still Life» e todo o percurso dos Radiohead
depois de «The Bends» terá nova leitura.
A segunda etapa da vida dos VdGG não foi, como a
primeira, alheia a convulsões internas, determinando mudanças de alinhamento. A
mais marcante destas mudanças deu-se depois de terminada a digressão de 1976,
com a saída (sem substituição possível) do organista Hugh Banton, que levou o
colectivo sobrevivente a mudar de nome para Van der Graaf. Com a derradeira
formação foi gravado mais um álbum de originais «The Quiet Zone The Pleasure
Dome», ao que se seguiu a digressão mundial que os trouxe a Portugal para três
concertos em Lisboa, Coimbra e Porto em Setembro de 1977. Desta digressão
nasce, depois, o álbum ao vivo «Vital» que assinala, em 1978, o final da
carreira do grupo.
CAIXA DE SURPRESAS
A edição desta caixa, que poderá prenunciar a reedição
integral da obra dos VdGG (certamente bem vinda numa altura em que muitos novos
admiradores serão certamente cativados pelas memórias aqui recolhidas). Mas
antes de sonhar com a devolução aos escaparates dos álbuns do grupo, «The Box»
permite-nos um olhar representativo do seu legado. Elaborada em estreita
colaboração com os antigos elementos dos VdGG (Peter Hammill foi frequentemente
consultado no decurso da produção), a caixa propõe mais que uma simples recolha
antológica. É certo que parte de uma ordenação cronológica dos eventos, mas
evita a simples compilação de faixas dos álbuns e singles dos VdGG. Pelo
contrário, usa frequentemente sessões gravadas para a BBC e inúmeros registos
de concertos ao vivo (muitos provenientes de velhos «bootlegs», em alguns casos
denotando o envelhecimento dos originais, nem todos de restauro fácil) para
completar a história que os álbuns (todos reeditados em CD) já contaram. Os
velhos admiradores encontrarão nestas raridades e na própria remasterização do
som das faixas retiradas da discografia oficial motivos suficientes para
justificar o reencontro com a banda que mais interessantes visões
«progressivas» nos mostrou em inícios de 70. Falha, apenas, a informação do
«inlay» de designa apelativo mas de conteúdo diminuto, sobrevalorizando a
listagem integral das datas ao vivo em detrimento de uma biografia mais cuidada
e de uma discografia devidamente ilustrada.
Na essência, a obra dos VdGG está aqui devidamente
recordada. «The Box» é um monumento a uma memória marcante e um documento de
absoluta referência. Venham, agora, as reedições remasterizadas álbum a
álbum...
N.G.
VAN DER
GRAAF GENERATOR
«The
Box»
Virgin / EMI-VC
+++++
DISCOGRAFIA
ÁLBUNS
1968. «Aerosol
Grey Machine»
1969.
«The Least We Can Do Is Wave To Each Other»
1970. «H
To He Who Am The Only One»
1971.
«Pawn Hearts»
1972.
«68-71»
1975.
«Godbluff»
1976.
«Still Life»
1976.
«World Record»
1977.
«The Quiet Zone The Pleasure Dome»
1978.
«Vital»
1994.
«Maida Vale (BBC Sessions)»
2000.
«Introduction»
2000.
«The Box»
SINGLES
1969.
«People You Were Going To»
1970.
«Refugees»
1972.
«Theme One»
1976.
«Wondering»26.4.17
António Sérgio - Entrevista
ENTREVISTA
ANTÓNIO SÉRGIO
Vinte anos depois, o regresso Às memórias da rádio e da
música de outros tempos numa viagem de regresso ao «Som da Frente» conduzida
por António Sérgio, num CD agora editado.
EURICO NOBRE
A última emissão do «Som da Frente» foi para o ar na
Rádio Comercial em Agosto de 1993, numa sexta dia 13. Mais de uma década depois
da estreia. Mas nem um momento ou outro significam ou início ou fim de
absolutamente nada. «O ‘Som da Frente’ não é o António Sérgio. É uma coisa já
bem enraizada na década de 80 que já não existe e o António Sérgio ainda cá
está para as curvas. É um produto do António Sérgio, como o foi o “Rolls Rock”,
o “Grande Delta ou o “Rotação”, numa altura em que eu não tinha a noção, pelo
menos nesses primeiros programas, de poder fornecer correctamente esse tipo de
produto à rádio mas onde tinha uma vontade enorme de o fazer correctamente»,
contextualiza o autor do programa.
Com uma carreira cuja origem se perdeu no tempo, confessa
que até há uns anos «sentia muita dificuldade em localizar esse tipo de
coisas». Agora lembra África, «quando comecei a ver alguém fazer rádio à minha
frente. Devo ter visto e aprendido coisas que nunca deixaram o bichinho morrer»
e cita a Renascença, já em 67/68, «a altura em que uma pessoa pode dizer que
começou realmente, com trabalhos de continuidade vulgares». Mas foi apenas mais
tarde que o desenrolar de acontecimentos que fizeram de António Sérgio um dos
mais importantes e respeitados nomes da rádio portuguesa das últimas décadas
tiveram a sua génese. Até porque cada uma das suas experiências como que se foi
encadeando nas outras, apenas mudando o nome e, por vezes, o cenário, mantendo
uma atitude e coerência ímpares.
EM ROTAÇÃO
«O meu primeiro programa de autor é a “Rotação” que
muitas vezes foi reduzido ao punk rock, o que não é verdade, embora tenha sido
a emissão e o meio que deu mais exposição ao fenómeno em Portugal. Agora, há um
tapping evidente do punk rock, porque eu estou muito atento e mesmo muito
interessado como indivíduo, porque tudo o que me está a chegar soa-me bem, as
atitudes, as opiniões, as conversas e os sons quando começam a chegar...»,
lembra sobre o programa inovador. Mais ainda dado o perfil da Renascença. «Na
altura não tinha um canal de FM vocacionado, tinha uma Onda Média que emitia em
FM.» A oportunidade demorou mas chegou e as memórias dos primeiros instantes
ainda estão presentes, quando «em branca», sem qualquer fundo, se apresentou
aos ouvintes: «Boa noite, a partir de hoje passa a existir, entre a uma e as
três, um espaço dedicado a outras músicas no qual pretendemos que toquem nomes
perdidos ou praticamente perdidos...». Nesse rol de nomes «no distante 1976»,
continua, «eu nomeava Frank Zappa, Captain Beefheart, os Byrds, Graham Parsons,
e uma série de outra gente. Estávamos ainda muito longe de haver a advento
Patti Smith».
Sobre a «Rotação» diz ter sido «um programa aventureiro
como todos os outros» desde então. O que se seguiu, já na Comercial, foi o
«Rolls Rock», em 1980. «Um nome inventado pelo João David Nunes, porque era
ideia do Rolls Royce do Rock». Depois quando houve a hipótese de saltar para o
horário diurno, deu-se o início do “Som da Frente”.» Anos mais tarde, no início
da década de 90 experimentou algo diferente, um espaço mais aberto aos sons,
com o «O Grande Delta», na XFM. Nos últimos cinco anos, de regresso à
Comercial, é de novo companhia regular entre a uma e as três da manhã, com «A
Hora do Lobo».
DA NOITE PARA O DIA
Apesar de haver um fio condutor uma vez que «há imensa
coisa no anterior que acaba por ficar sempre na mesma», António Sérgio assume
«não gostar de estar a mudar de estações ou de «slot» sem mudar o nome pelo
menos do rótulo. Não quer dizer baralhar e voltar a dar». Mas, no fim de
contas, «há um tratamento meu com a música e há um entendimento da música
comigo.» E a música, diz, «é toda a que acontece», sem desespero na procura.
«Este desespero é quase uma piscadela de olho de gozo à imprensa do “next big
thing”. O que é que nós agora vamos por como arauto ou como cabeça de cartaz ou
de locomotiva da máquina?». Não há necessidade disso, defende. «Hoje há uma
pacificação da produção musical, os estilos esbateram-se muito, deixaram de
haver grandes estrelas e passou a haver uma série de outras mini-estrelas e os
sons estão a ganhar com isso. O “Som da Frente” é outra coisa, é um tempo de
estrelas mesmo.»
Em 1982, intervém Ana Cristina ferrão, íntima e eterna
cúmplice de António Sérgio, «a Comercial já há uma relação muito directa entre
o Sérgio e o John Peel, porque é ele que em Inglaterra divulga o punk, na BBC.
E o John Peel, que estava sempre a trabalhar à noite muda para um slot diurno.
O Jaime Fernandes tem então a ideia peregrina de seguir o exemplo e colocar na
nova grelha da Comercial o “Som da Frente” às quatro da tarde». Além disso,
recorda Sérgio, «o Barros tinha decidido deixar de fazer a tarde para fazer um
programa da manhã e tomar grandes pequenos almoços (risos)». Tal coincide, como
relata, com «uma mudança de marcha da indústria musical portuguesa, em termos
de andamento de comboio, mas há também uma mudança de situação, que é outra vez
conjuntural, que é a nossa relação com os chamados mercados de importação.» Um
sentimento espelhado no disco agora editado, «Som da Frente: 1982-1986».
A IRMANDADE DA LUZ
«É uma época de quase passa a palavra, de uma vontade
urgente de mostrar as cosias novas. Havia pessoas que me iam levar discos que recebiam
de Londres para eu tocar no “Som da Frente” porque eu tinha a possibilidade de
os mostrar a muito mais gente. Há aqui uma Irmandade, e não é nenhuma Irmandade
de Cruz Negra, há luz no meio disto. Luz da divulgação e do espalhar do bom
gosto e do gozo, no fim de contas».
Foi uma época «de uma militância que era necessária, em
que a música é encarada como um bem muito especial. Passar essa música, ouvi-la
e depois comunicarmos uns com os outros», lembra António Sérgio. «É por isso
que eu gosto muito desse disco, apesar de algumas falhas de repertório que eu
sei que cá estão. Mas mesmo assim o CD é duplo e está cheio até ao fim. Tivemos
mesmo de fazer um “fade out” nos Shriekback, porque o tema era muito grande e
dava para roubar aquele bocadinho, caso contrário não ficava o dos Xutos
inteiro, o que era para mim mais importante, porque é uma marca e eles nunca
mais aquilo daquela maneira.»
Trata-se de uma compilação que «sai das paredes, sai dos
armários dos discos» e embora não tenha sido difícil elaborar a lista inicial,
«uma vez que tem mais de 100 temas», o quase insólito aconteceu depois quando
«gabinete competente da editora fez os contactos para licenciamentos, etc.» e
esbarrou nas respostas «que informavam que os produtos tinham sido descontinuados»
aconselhando a fazer a cópia a partir do vinil. «É esse o estado das próprias
majors em relação ao seu produto, que neste caso tem 20 anos e que para eles
não vale absolutamente nada. É uma atitude de tiro no pé típica de pessoas que
não sabe tratar do seu próprio negócio e que nos disseram, nalguns casos, que o
material tinha sido eliminado, logo não existiam “masters”. Há aqui quebras de
profissionalismo, de tudo, óbvias.»
O importante é que «venda ou não, é o tal artefacto que
fica feito e que para mim é uma excelente memória do trabalho que fiz há alguns
anos e de que me lembro fortemente.» Ao longo de 36 canções há aqui algumas
repetições que António Sérgio justifica sem hesitar. «Projectos como o Julian
Cope, Teardrop Explodes, Psychedelic Furs ou a Siouxsie era fundamental para
mim que tivessem duas faixas. Como achei importante tocar nessa altura e
insisti contra muitas marés num ambiente radiofónico e de divulgação musical
diferente, teimaria hoje da mesma maneira. Quem ouvir o “Israel” e o “Mirage”
apreende determinado tipo de coisas que podem ser importantes. Talvez arranje
novos ouvintes para “A Hora Do Lobo”, dá-se sempre jeito e acaba por ser no
mesmo horário... Portanto 20 anos depois, we’Re back». Quanto aos que ficaram
de fora cita dois exemplos, até porque no cenário desta conversa a luz é baixa
e afasta a visão da listagem com todos os eleitos. «A mim faz-me falta o Robert
Wyatt, uma pessoa com uma posição mental e social claras, alguém muito
inteligente que sempre prezei muito e que para mim é o paradigma de um certo
tipo de rochedo que não se move mas que à parte disso é uma doçura...». E os
Jesus & Mary Chain «num cenário completamente diferente, de rebentamento. A
produção é completamente inovada ali e é quando se inaugura o período sónico
que veio dar depois excelentes frutos. Depois é uma memória de baladas dos anos
50 que eles vão buscar não sei bem onde... É quase um caso para bruxas.»
SEM ESPAÇO NEM TEMPO
Mas apesar de enquadrado num espaço de tempo, este é um
disco que não se poderia reduzir a tal dimensão. «Aliás isto começou antes e
nunca mais acaba.» Uma perspectiva que tem muito a ver com aquilo que Sérgio
refere como sendo «uma curiosa ligação minha, automática e intuitiva em relação
à própria música, por ter crescido também quase com a idade do rock. Tenho a
sorte de ter acesso a música do rock and roll norte-americano em África, via
estar metido no meio de rádio, coisa que se me tem escapado me teria retirado
imensa cultura musical, ou pelo menos informação musical, aquela mais
automática.» Além disso, «sem querer, quem ouve rock and roll desse tempo ouve
blues ou pelo menos alguma coisa de blues, o meu pai ainda tinha a mania de
ouvir música clássica portanto...»
E quem o foi ouvindo ao longo de todos estes anos sabe do
que fala. «A vida e os anos em rádio ensinam-nos muito, principalmente para
quem paciência para fazer aquela tarimba que eu fiz, e não esperar estrelatos
demasiados porque a rádio não é um meio que o proporcione. Gosto mais a ideia
do sacerdócio e da dedicação. Também há mais carinho nisso e mais paixão.»
Para a Ana Cristina Ferrão «este foi o verdadeiro “Globo
de Ouro” de António Sérgio. «Não é aquela cena emperuada e encasacada mas sim a
hipótese de fazer um objecto rock, algo que vai permanecer, o que o motivou
imenso. É um reconhecimento diferente.» No entanto, acrescenta Sérgio, «o
verdadeiro artista aqui é a música, as bandas que cá estão dentro e os disparos
de energia que têm.» Isto sem esconder o prazer que lhe deu ter um pretexto
para remexer nestas suas memórias e no vinil todo, «coisa que já não faço
porque não utilizo, uma vez que a cabina da Comercial não dá para o fazer.»
Para andar «a carpir mágoas do passado» também não valia a pena. Desta forma
foi diferente, até pela satisfação adicional em «lidar com criadores que são
eles próprios a razão de ser da criatividade da música. Não são correios de
transmissão de nada, não conseguem ser.»
Ciente de que a pior parte já passou, «que foi este
material mais enterrado no tempo», já se perspectiva uma segunda edição,
referente ao período 1987-1993, ainda sem data definida e sem a certeza de
conhecer vida, tal como este, no ano em que se assinalam os 20 anos do «Som da
Frente». «Nesse disco vou tentar evitar as repetições, não vai haver banda
nenhuma com direito a mais que um tema, talvez tema e meio. Além disso terá a
particularidade de saltar a década em si, e a década musical não é de maneira
nenhuma a mesma dos calendários. Mas há coisas curiosas uma vez que entre 1988
e o princípio de 90 forja-se uma boa parte daquilo que se passou a seguir.
Portanto vou tentar documentar isso o melhor possível.»
Para já fica o testemunho anterior num disco que
«continua a ter uma certa rebeldia que está ligada ao nome do programa e a uma
atitude intrínseca da pessoa que fazia o programa e das pessoas que o ouviam
que em certos casos se manterá.» Um documento que «tentou cobrir um período
muito rico da criação musical pop e rock, já com algumas inserções na world
music, embora não se chamasse assim nessa altura...» E com um público bem
definido. «A maior parte das pessoas que eu queria que fossem buscar este disco
eram pessoas aventureiras, que quisessem outra vez entrar na aventura da
descoberta dos sons e dos novos nomes. Como aqui há nomes tão velhos que podem
parecer novos nomes... Há quem possa nunca ter ouvido falar, sei lá... da
Durutti Column?»
Sem certezas sobre as motivações de uma geração que
privou com o «Som da Frente» e que «pode estar ou não demitida dessa atitude
perante a música», o desafio desta proposta é também o de fazer despertar a
curiosidade a outras pessoas «que tinham oito ou nove anos na altura». Como?
«Só se for por valer a pena de alguma maneira», responde de pronto António
Sérgio. «Ou o repertório tem aqui manchas de talento que valem a pena, e aí
temos de chamar a atenção porque eles não sabem, ou então não valerá a pena.
Fica apenas a memória de um programa que existiu, foi muito funcional na altura
e depois deixou de o ser.»
AS HORAS DO LOBO
Mais que uma escola, o «Som da Frente» era quase um
momento de procissão de fé num tempo em que as janelas a outros mundos eram
poucas, e difíceis de abrir. Hábito diário, a audição do «Som da Frente» era um
complemento fundamental a um processo de descoberta de novos sons, novas
sensações... O panorama musical de inícios e meados de 80 não mostrava os
sinais da imbecilidade reinante do «mainstream» do presente mas, já então, o
«Som da Frente» assumia a ousadia de, em alto e bom som, ir mais além. Ser fiel
ouvinte do programa era condição necessária para a adesão a uma tribo que não
se satisfazia com a máxima globalizante «todos diferentes todos iguais». O
núcleo de ouvintes «hardcore» fazia questão de levar, depois, as sugestões
ainda mais longe, encantando figuras e trapos condizentes com músicas e
músicos, com o negro quase sempre presente, o «Blitz» debaixo do braço e as
inevitáveis passagens pela Catedral da Rua da Beneficência ao Rego (o Rock
Rendez Vous).
O «Som da Frente» estimulava a busca de um gosto pessoal,
alargava horizontes. Apresentava-nos
nomes como os Bauhaus, Joy Division, Cocteau Twins, Teardrop Explodes, This
Mortal Coil, Danse Society, The Sound, Echo & The Bunnymen, The Cure, Clan
Of Xymox, New Order, Durutti Column, REM, Siouxsie & The Banshees, Julian
Cope...
O disco duplo que agora é editado consegue evocar, apesar
da infeliz não cedência, pelos actuais detentores dos direitos, da
importantíssima fatia de referências 4AD, o que era o tutano das emissões do
«Som da Frente». A abrir o histórico instrumental dos Xutos & Pontapés, que
serviu de indicativo. E, depois, memórias soltas como «Winning» dos The Sound,
«Sunspots» de Julian Cope, «Taking The Veil» de David Sylvian, «Regiment» de
Brian Eno e David Byrne, «Five Miles Of You» de Tom Verlaine, «Sunglasses After
Dark» dos Cramps, «Atmosphere» dos Joy Division ou o sublime «This Big Hush»
dos Shriekback, a dada altura um tema de rodagem diária obrigatória no
programa. Como complementos, excelentes textos de acompanhamento sobre a memória
do programa e a voz por trás do microfone, por Ana Cristina Ferrão. Memórias
dos melhores momentos de um disco que evoca um programa chave da história da
rádio portuguesa. Personalizando, aquele que me ensinou a ouvir música.
Obrigado, Sérgio!
N.G.
VÁRIOS
«Som da Frente 1982-1986»
EMI-VC
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