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20.8.19

Memorabilia - Nuno Galopim: Série "Discos Perdidos" no Diário de Notícias (1) - Ocaso Épico - "Muito Obrigado"


Memorabilia

Nuno Galopim: Série "Discos Perdidos" no Diário de Notícias

(1) - Ocaso Épico - "Muito Obrigado"









30.6.17

Dead Can Dance - Dossier - "Na Terra Dos Sonhos"


DNMAIS
Sábado, / Junho 2003

DEAD CAN DANCE
Na Terra Dos Sonhos

O lançamento de um ‘best of’ convida a um reencontro com a música dos Dead Can Dance, projecto de Brendan Perry e Lisa Gerrard que marcou pela diferença o panorama alternativo dos anos 80 e vincou a identidade de uma das vertentes do som da 4AD.
Nuno Galopim


É uma música nova ou uma amálgama de músicas antigas? É world music ou pop/rock? As questões não são novas e, na verdade, recorrentes sempre que os Dead Can Dance se apresentam na berlinda. Ao reencontrar a sua memória, através de uma selecção de temas apresentados em Wake, um best of que nos convida a (re)descobrir a aventura sem tempo nem fronteiras da música deste projecto que nos revelou Brendan Perry e Lisa Gerrard, estas questões e memórias saudáveis dos dias de ouro da 4AD regressam à ordem do dia.
Banda de referência do catálogo da editora independente britânica 4AD, os Dead Can Dance definiram, disco após disco, um percurso entre o antigo e o contemporâneo, doseando tonalidades e sabores renascentistas, trovadorescos ou clássicos, juntando aromas mediterrânicos, africanos, do Leste europeu, do médio oriente, da Ásia. Entre canções de forma mais tradicional e uma requintada tecelagem de ambientes, a música oferece uma ideia de sonho sem tempo nem lugar, de apelo suave aos sentidos... E decididamente difícil de traduzir por palavras.
Começaram por ser um colectivo alargado, na clássica tradição da banda pop/rock, mas ao segundo álbum era já uma dupla, repartindo entre si as responsabilidades de composição e interpretação. Brendan Perry sempre foi a voz herdeira da tradição pop/rock alternativa, entoando formas concretas. Por seu lado, a Lisa Gerrard desde cedo coube o papel da libertação dos espartilhos da arquitectura vocal pop/rock, trabalhando ao longo dos anos um registo de vocalização decididamente pessoal que muito contribuiu para o definir de uma identidade característica nos Dead Can Dance.
OS PRIMEIROS DIAS. Tanto Lisa Gerrard como Brendan Perry têm ascendência anglo-irlandesa, remontando o encontro de ambos aos dias em que viviam em Melbourne (Austrália), em 1980. Brendan revelava então sinais de contaminação pela revolução punk que mudara a face da música no hemisfério Norte poucos anos antes. Lisa, por seu lado, educada e crescida no melting pot cultural de um bairro de emigrantes oriundos de regiões mediterrânicas, mostrava já uma evidente predisposição para abraçar os sabores «exóticos» das músicas desses muitos vizinhos... Curiosamente, depois de estabelecida uma amizade e traçado um desejo de futuro na música, passaram ambos pela cozinha de um restaurante libanês em Melbourne, no qual lavaram pratos a troco de um sonho de partida para Londres. Assim foi. Fizeram as malas, e na bagagem traziam já as primeiras canções. Mal imaginando que os aromas que traziam das vivências em Melbourne vinham já nas entrelinhas das intenções musicais. Entre essas primeiras composições encontrava-se já o hoje mítico Frontier, resultado de uma sessão de trabalaho baseada na improvisação, que agora é incluído no alinhamento de Wake.

NA CASA DE IVO. Os Dead Can Dance aterram em Londres em 1982, sem horizontes nem projectos concretos, mas donos de uma insistente vontade em fazer a sua música. Esses primeiros dias não foram fáceis, vivendo Lisa e Brendan do dinheiro do subsídio de desemprego, habitando um magro apartamento num bloco na Isles of Dogs, a Leste de Londres e recebendo, uma após outra, as recusas das mais diversas editoras...
Uma das cassetes foi deixada nos escritórios da recentemente criada 4AD, uma operação paralela da editora Beggars Banquet, formada para desenvolver emergente talento, e sob a direcção de Ivo Watts Russel, um antigo discotecário. A editora, que tinha assegurado a estreia em álbum dos Bauhaus e que era então «casa» de nomes como os Modern English e Dif Juz, encontrou na proposta de Perry e Gerrard uma das suas pérolas, definindo assim, em poucos anos, uma identidade muito peculiar de som e imagem, através de uma mão cheia de edições dos p´roprios Dead Can Dance, Cocteau Twins e This Mortal Coil, este último um projecto transversal às bandas da editora, reunindo a colaboração de membros de vários grupos sob a batuta do «patrão» Ivo Watts Russel.
Depois de um primeiro álbum menos característico, a música dos Dead Can Dance mostra então, ao longo da segunda metade da década de 80, um percurso de evolução linguística, atingindo a definição clara de identidade em Within The Realm Of A Dying Sun, e assinando as obras-primas da sua discografia nos seguintes  The Serpent’s Egg e Aion. O grupo mostrava já ter-se liberto dos rumos mais clássicos da tradição da canção pop/rock, optando antes por um labor centrado nos discorrer de ambientes e cenários. Estas marcas de identidade contribuíram rapidamente para o definir de uma admiração generalizada entre uma população jovem de horizontes musicais mais exigentes, vincando assim um culto que abraçou não só os Dead Can Dance, como também os restantes parceiros da «via ambiental» da 4AD.
Em poucos anos os Dead Can Dance tornam-se num nome com exposição global. Quando chegam ao circuito universitário norte-americano em inícios de 90 trazem na mala os sons de Aion, que fazem das actuações ao vivo um palco de encontro de fontes diferentes de som, permitindo o encontro dos sintetizadores com instrumentos de outras geografias e outros tempos. É de então que data o seu período de aposta mais evidente na estrada, assinando diversas digressões (uma delas mais tarde registada num DVD agora disponibilizado entre nós).
Tudo muda na vida dos Dead Can Dance quando, nos anos 90, Brendan Perry se muda para uma residência na Irlanda rural e Lisa Gerrard se instala numa casa de montanha na Austrália. O afastamento não impede a continuação do trabalho, mas determina uma progressiva separação de tendências e intenções que acabará por determinar o fim do grupo e a inevitável continuação dos percursos individuais, em carreiras a solo. Lisa Gerrard, depois de trabalhos nas bandas sonoras de O Informador, Gladiador e Ali, é hoje, mais que Brendan Perry, dona de nova carreira em ascensão.


DVD
Dead Can Dance
«Towards The Within»
4AD/MVM
Concerto: ***
Extras: ***
Originalmente lançado em vídeo por alturas da edição do álbum ao vivo com o mesmo título, este documentário sobre a digressão de 1993 cruza excertos de uma actuação no Mayfair Theatre em Santa Monica (Los Angeles, EUA) com momentos de conversa com Brendan Perry e Lisa Gerrard. O alinhamento live apresenta inúmeros inéditos, tal e qual a versão em disco. O melhor do DVD está, contudo, nos cinco extras nele incluídos, nada mais nada menos que videoclips, dois deles (The Host Of Seraphim e Yulunga) extraídos do filme Baraka (de Ron Fricke), que contou com a contribuição dos Dead Can Dance na respectiva banda sonora. O histórico Frontier e The Protagonist surgem em clips rodados por Nigel Grieson, uma das almas da 23 Envelope, companhia de design que definiu a imagem da 4AD.

Dead Can Dance
«Wake»
4AD/MVM
****
O segundo best of dos Dead Can Dance propõe, num CD duplo, um percurso de memórias captadas ao longo da discografia, não esquecendo o registo ao vivo de 1994. Para os admiradores em busca de novidade, Wake inclui o mítico Frontier, a primeira maquete dos Dead Can Dance, gravada ainda em Melbourne.

DISCOGRAFIA
A discografia dos Dead Can Dance está integralmente reeditada em CD pela 4AD (representada entre nós pela MVM). O ‘best of’ agora editado pode perfeitamente servir de cartão de visita a quem não conhecer a obra do grupo, assim como assegurar um bom retrato completo da sua obra para os mais velhos fiéis de 80 e 90. Wake é, todavia, um primeiro passo num processo de (re)descoberta que, para obter uma representação mais completa da obra deverá, depois, passar por discos-chave como Within The Realm Of A Dying Sun, The Serpent’s Egg e Aion, os melhore desta «safra». O álbum ao vivo de 1994 é um bom retrato das artes do palco de um grupo que nunca chegou a actuar entre nós (o DVD Towards The Within acrescenta depois o complemento directo visual). Para carteiras mais recheadas, a caixa de 2001 oferece uma belíssima visão de conjunto. Completar, depois, com os discos dos This Mortal Coil e, porque não, um olhar atento pelo catálogo da 4AD (ver página 14 desta edição).


 1984. «Dead Can Dance»
Mais «convencional», inclui o EP Garden Of Arcane Delights na edição em CD.
1985. «Spleen And Ideal»
Começa aqui o percurso de definição da linguagem muito peculiar do grupo.
1986. «With The Realm Of A Dying Sun»
Lisa e Brendan dividem o disco ao meio e cada um canta num dos lados.
1988. «The Serpent’s Egg»
Este é um dos dois discos obrigatórios do grupo, na plenitude da sua linguagem.
1990. «Aion»
Dominado por referências renascentistas, outro episódio fundamental.
1991. «A Passage In Time»
A primeira antologia, pensada para apresentar o grupo nos EUA e Canadá.
1993. «Into Labyrinth»
O retomar do percurso, em forma, mas sem a mesma surpresa.
1994. «Towards The Within»
Disco ao vivo registado em Los Angeles durante a digressão de 1993.
1996. «Spiritchaser»
Derradeiro registo de originais, muda azimutes, para o hemisfério Sul.
2001. «Dead Can Dance 1981-1998»

Caixa antológica com 3 CDs e o DVD de Towards The Within».






19.6.17

Electrónica - Anos 70 - Best of...



» As electrónicas circulam pela música desde a alvorada do século 20. Das ondas Martenot às primeiras composições de nomes como Varèse, Pierre Henry e, mais tarde, Stockhausen ou pioneiros de ‘bricolage’ analógica como Raymond Scott, muitas bases foram definidas. Porém, só depois das primeiras experiências de Moog (com Walter Carlos) a música popular descobriu que tinha ali novos caminhos a desbravar...
» Tal como os Neu! Ou os Can, os Kraftwerk são ‘produto’ da cena ‘kraut-rock’ germânica. Contudo, foram eles a quebrar definitivamente amarras com o formato rock. O homem emulou a máquina, a música seguiu-a.




Sábado 9 de Agosto de 2003

64 ELECTRÓNICA – ANOS 70

Com o regresso dos Kraftwerk aos discos, após 17 anos de ausência, era quase imperativo recordar as primeiras aplicações das então emergentes ferramentas electrónicas a um contexto mais ou menos próximo do universo pop. Da música de Walter Carlos para um certo ‘Laranja Mecãnica’ a uns Human League pré reinvenção ‘electro-pop’, aqui deixamos 10 inventores de um determinado futuro.

1972. Walter Carlos
«Music From A Clockwork Orange»
Não se trata da famosa banda sonora da Laranja Mecânica de Kubrick, mas antes a totalidade da música que o compositor então criou, da qual o realizador seleccionou os fragmentos que o filme tornou famosos. Um mergulho nos bastidores de uma genial peça de trabalho electrónico feito sob regras absolutamente clássicas.

1973. Can
«Future Days»
Os álbuns anteriores, Tago Mago e Ege Bamyasi já apontavam uma «fuga» em direcção a prolongadas planagens atmosféricas, marcadas pela rigidez da marcação rítmica de Liebezeit e a liberdade introduzida por teclados e sintetizadores. Future Days é a concretização desses sinais, um prenúncio orgânico de futuro electrónico.

1974. Tangerine Dream
«Phaedra»
Disco característico de uma segunda etapa na vida do grupo, na qual o experimentalismo cede a algum melodismo, naquele que ficou como um claro manifesto de futurismo musical na Europa de meados de 70. Usa efeitos de som, mas sem esconder algum piscar de olho a pontuais formulações mais clássicas.

1975. Neu
«Neu75»
O kraut-rock regenerou o rock’n’roll pela sua fragmentação. A motorika dos Neu é disso exemplo perfeito. Ritmos minimais, space-rock nas guitarras, «cut’n’paste» de sons dispersos. A sua influência chegou a toda a gente, de Bowie aos Kraftwerk, chegando ao pós-rock e à electrónica da actualidade (tudo explicado em Neu 75).

1976. Vangelis
«Albedo 0.39»
Depois do flirt sinfónico no pomposo Heaven And Hell (que muitos conheceram mais tarde como banda sonora de Cosmos, de Carl Sagan), Vangelis apresenta um álbum de clara exploração de padrões e sequenciações que define regras que serão padrão de muita da electropop que então brota por toda a Europa.

1977. Jean Michel Jarre
«Oxygène»
Com preparação em estudos de electrónica e música concreta desde finais de 60, Jean Michel Jarre edita o seu primeiro registo de originais, do qual faz nascer um verdadeiro monumento conceptual com intençõe spolíticas e sociais no retratar de um tempo (o que a possante capa logo indicia). Um disco tão envolvente quanto glacial.

1977. David Bowie
«Low»
Primeiro álbum da chamada trilogia berlinense (registada em conjunto com Brian Eno e que comporta ainda os discos Heroes e Lodger), mostra como a linguagem rock se apropria das electrónicas, não só nas canções, como sobretudo num lado B todo ele constituído por gélidos retratos instrumentais da Berlim de então.

1978. Brian Eno
«Music For Films»
Um ano depois do sublime Before And After Science, este álbum recolhe peças electrónicas gravadas entre 1975 e 78 para filmes imaginários, lançando pistas para o futuro imediato de Eno. Basta dizer que o álbum que sucedeu a este na sua discografia tinha por título Ambient 1: Music For Airports. Diz tudo...

1978. Kraftwerk
«The Man Machine»
Depois dos princípios básicos definidos entre Autobahn (1974) e Trans Europe Express (1976), os Kraftwerk chegam a 1978 com a ideia de lançar um álbum electrónico todo ele feito de canções. Sem imaginarem, acabaram por definir o futuro imediato da pop electrónica, que toma The Man Machine como ‘bíblia’ de referência.

1979. The Human League
«Reproduction»

Fruto directo das influências dos anos mais recentes, a pop dos Human League reflecte um tom gélido, mecânico, quase catastrofista, que muitos designam por «cold wave». Neste seu primeiro álbum juntam a essa linguagem um sentido lúdico que Dare!, dois anos mais tarde, transformaria num ícone de referência da electro pop.





18.6.17

Kraftwerk - Dossier - "Os Homens-Máquina"


DOSSIER
KRAFTWERK
OS HOMENS-MÁQUINA



17 anos depois de ‘Electric Cafe’, os Kraftwerk regressam com um álbum que não esconde o tempo em que nasce mas que se mantém firme na linguagem clássica do grupo. Não se procurem ‘modernices’ despropositadas nem invenções para enganar a idade. Os mestres sabem que ainda o são.

Nuno Galopim



Como tão bem o poderiam ter dito os Xutos & Pontapés, apesar de diametralmente opostos em termos musicais, longa se tornou a espera por quem, ano após ano, aguardava por novidades do quarteto de Dusseldorf que, como poucos grupos na história da música popular, é fonte de um raríssimo sentido de unanimidade, sendo-lhes atribuída uma espécie de carga matricial de tudo o que a pop herdou de electrónico nos últimos 30 anos...
Em 2000, quando anunciaram o regresso ao activo para então nos darem a conhecer a canção-tema «oficial» que haviam composto para a exposição universal de Berlim – que simplesmente intitularam Expo 2000 – muitos pensaram que talvez estivesse para breve a concretização de um há muito aguardado álbum de originais, o sucessor de Electric Cafe que data já de... 1985!



Mas não foi ainda dessa vez que o grupo de quatro elementos (dos quais se mantém apenas dois membros da formação «clássica», Ralf Hutter e Florian Schneider) abriu as portas do secretismo ao qual há muito envolveu o seu estúdio Kling Klang, que durante parte dos anos 90 serviu o árduo e lento processo de digitalização de todas as fontes de som analógicas usadas na extensa discografia lançada entre os anos 70 e 80. De resto, em The Mix, álbum de remisturas lançado em 1991 e no site oficial do grupo (em www.kraftwerk.com) são visíveis marcas desse trabalho de transposição de velhas fontes de som para os novos suportes digitais. Tudo isto sem «alterar» a alma «tradicional» do som Kraftwerk.
Muitos foram os que, ao longo dos últimos anos, defenderam a tese de que haveria uma suposta ansiedade instalada entre os Kraftwerk, que lhes fazia temer a edição de algo que não acabasse considerado ao nível da excelência da obra anterior. E aqui basta ouvir uma vez o novo e belíssimo Tour De France Soundtracks para entendermos que estamos perante uma obra que não só exala imediatamente as marcas dos seus autores, como sabe estar à altura tanto de reencontros com exigências antigas e com novos desafios, até mesmo novos sons, sem abusar, como em The Mix, dos «excessos» das novas linguagens rítmicas. Aliás, a reduzida presença de «modernices» rítmicas, em favor de um certo classicismo (mesmo com algumas excepções), acaba por ser uma das mais notáveis conquistas deste regresso finalmente concretizado.
Apesar do «receio» ou «não vontade» em apresentar qualquer material novo ao longo dos anos 90, nada impediu o grupo de, mesmo depois dos abandonos de Karl Bartos e Wolfgang Flur, encarar a hipótese de enfrentar plateias, o que aconteceu não muitas, mas suficientes vezes, ora devidamente documentadas (como no vídeo de campanha Stop Sellafield), ora registadas nas memórias dos felizardos que assistiram aos concertos em eventos como, entre outros, o Sónar, em Barcelona...
Há cerca de dois anos, num gesto inesperado que ninguém então ligou ao que acabaria por ser o futuro próximo do grupo, reeditaram em CD o histórico EP de 1983 Tour De France, disco que assinalava um reencontro com uma já antiga paixão pela ideia de viagem e dos percursos (basta evocar Autobahn, isto é, auto-estrada, ou Trans Europe Express, um comboio), adicionando ao som um elemento espantosamente novo e, oops, humano. Tour De France fala do esforço e camaradagem entre ciclistas e baseia a sua estrutura rítmica no arfar de quem pedala. Isto é, a máquina ainda está por lá como elemento protagonista, mas a fonte de som prioritária e mais evidente ao longo de toda a canção acaba por nascer do corpo humano. Contradição face a ditos do passado ou, antes, o definitivo reconhecer do papel uno entre o homem e a máquina, antes mesmo das invasões do mundo por «terríveis» cyborgs.
Tour De France Soundtracks tem tudo para ser um novo e um absolutamente «tradicional» álbum dos Kraftwerk. Como em momentos de Trans Europe Express e, sobretudo, Computer World e Electric Cafe, o álbum dedica parte do seu alinhamento a uma espécie de ciclo que se estende por várias etapas, aí uma evidente dedicatória à Volta a França em Bicicleta. Depois de um prólogo (Prologue) entramos numa sequência de três etapas, que terminam com um contra-relógio (Chrono), com uma continuidade de registos e soluções mecânicas que quase nos fazem sentir a memória conceptual de um Autobahn... Todas estas peças são novas, pontualmente captando um registo do Tour de France original, que se serve em versão revista e melhorada a fechar o álbum, qual epílogo.



Esta nova versão de Tour de France corresponde ao único momento não «inédito» do álbum, já que, ao contrário do que chegou a circular como primeira notícia, este é mesmo um álbum de originais. Além da suite dedicada à centésima Volta a França em Bicicleta (e ao próprio vigésimo aniversário do original Tour de France), o álbum mostra quão fiéis a si mesmos continuam a ser os «mestres» de Dusseldorf. Apesar de serem evidentes novas estruturas e maquinarias rítmicas, as fórmulas melodistas e o modo de usar as palavras seguem velhas e sábias fórmulas «robóticas». Evitando a contaminação do que não é seu, como sábios professores que sabem que certos alunos levaram a outros níveis os seus ensinamentos, mas que não têm o direito de agora as reclamar para si, evitam recorrer a fórmulas downtempo, trip hop, techno ou aos blips and blops tão na moda. Ideias que geneticamente descendem em alguns casos de velhas bíblias escritas nas caves secretas dos estúdios Kling Klang, mas que têm agora vida própria. Tal como vida própria continua a ter a estimulante música dos Kraftwerk. Escutando temas como Vitamin, Aero Dinamik ou Titanium verificamos quão perto estamos de presenciar um presente que sabe ser tão agora como a herança do antes. Já em Elektro Kardiogramm e na sua continuação, em Regeneration, reencontramos um sentido de melodismo que evoca os dias pop de Computer World, embora seja evidente que tecnologicamente o discurso verbal e musical seja do século XXI. As «máquinas», afinal, sabem bem onde e quando estão neste momento de regresso...
Escutado por diversas vezes, e ultrapassando o efeito viciante que o disco desencadeia sobre qualquer grande admirador do grupo sem receios de neles encontrar hoje uma banda 17 anos mais velha que a que fez Electric Cafe mas que formalmente não se afastou muito do seu rigor linguístico, Tour de France Soundtracks revela-se um disco que facilmente podemos colocar entre os melódica e espiritualmente mais tranquilos do quarteto. Não é a resposta nunca dada ao álbum Techno Pop, que incidentes passados impediram que alguma vez visse a luz do dia (nesse sentido, o tom espartano da contenção melodista de Electric Cafe talvez seja até o que de mais próximo dessa ideia perdida hoje podemos evocar).
Figuras de importância matricial na construção de uma linguagem que explica muita da música dos últimos 30 anos, com a coragem de evitar o chinfrim visual e eléctrico tão em voga nos inícios de 70, os mestres estão de volta. Em primeiro lugar merecem respeito. E, em segundo, que se lhes escute um álbum sóbrio e coerente, linguisticamente claro, esteticamente firme no desejo de não mudar o que «não tem» de ser mudado. Regras são regras. E se há grupo que as crie e siga à risca, esse grupo são os Kraftwerk!



  
A Paixão Pelo Ciclismo

Fruto de um interesse do grupo pelo ciclismo, ‘Tour de France’ surgiu em 1983. Um acidente de Hütter impediu que o projecto fosse, depois, mais longe.

A enorme popularidade angariada pelo grupo desde os sucessos de finais de 70 fez dos Kraftwerk um motivo de desejo pop com valor acrescentado na alvorada de 80.Contudo, contra o excesso de curiosidade, a resposta natural do grupo acontecia pelo silêncio, pela sucessiva recusa em dar entrevistas, pela cada vez mais discreta exposição. A dada altura há quase um regime de black out imposto pelos próprios a si mesmos, num desejo de paz procurando no «mui» secreto refúgio dos estúdios Kling Klang. Um silêncio coincidente com a chegada ao número um em Inglaterra de uma reedição (com capa à Computer World) do já clássico The Model... O silêncio é rompido apenas em 1983, com a edição de um novo single, Tour de France, e o anúncio de um álbum que supostamente se seguiria, que chegou mesmo a ter número de série mas acabou por nunca ser nem gravado nem editado...
Tour de France reflectia já um crescente interesse do grupo pelo ciclismo, desporto que se tornará entretanto actividade regular entre os elementos do colectivo, sobretudo depois de terminada a cansativa digressão que se seguiu a Computer World.
Chegados a uma meia idade na qual muito desperta um renovado interesse pela preservação do corpo, os Kraftwerk encontraram no ciclismo um desporto, sobre o qual Ral Hütter já nutria há muito um claro interesse.
Em pouco tempo a discussão sobre esta nova fonte de interesse passou da racionalização à acção, com encontros regulares num dos clubes velocipédicos da cidade. Não só trabalhavam o corpo como se mantinham juntos e, ao ar livre, asseguravam uma fuga pontual à relativa claustrofobia dos estúdios onde só eles e os mais próximos amigos tinham ordem para entrar. Ao mesmo tempo a actividade desportiva em conjunto permitiu-lhes criar um uniforme negro (da cor da noite, isto é, das suas horas normais de trabalho em estúdio) que todos usavam por igual. Enfim, a filosofia «kraftwerkiana» em acção velocipédica!
Do interesse à concepção de uma canção que o reflectisse o passo foi rápido e natural. Depois de temáticas de alta tecnologia nos anos 70, e de um olhar sobre os computadores na alvorada de 80, era o corpo humano, em diálogo com a máquina, a fonte central de reflexão a quatro. Mais ainda, depois dos motores dos carros e comboios, depois da radioactividade e dos mecanismos das máquinas de calcular, a ideia era a de celebrar os músculos humanos, o esforço físico. Tudo isto corresponde ainda a um momento histórico de escalada de um certo discurso ecologista, que leva os próprios membros dos Kraftwerk a trocar os seus belos Mercedes por carrinhos mais económicos.
A canção, em 1983, foi pensada segundo o som da respiração e do pedalar, sugerindo em pleno as intenções conceptualizadas.
Infelizmente, um gravíssimo acidente de bicicleta de Hütter não só atrasou o single como comprometeu um álbum de conceito de que certamente esta canção seria uma peça central. Justiça feita agora, 20 anos depois.

DISCOGRAFIA

Para uma discografia representativa, álbuns como ‘Autobahn’, ‘Radio-Activity’, ‘trans Europe Express’, ‘The Man Machine’ e ‘Computer World’ serão os essenciais. Os restantes completam apenas uma discografia fundamental.


1969. ‘Tone Foat’
Originalmente assinado como Organisation, é um espaço de improvisação.
1970. ‘Kraftwerk’
A «verdadeira» estreia demonstra ainda um predomínio do ensaísmo.
1971. ‘Kraftwerk 2’
Apesar da continuidade, em Kling Klang surgem saudáveis pistas novas
1973. ‘Ralf & Florian’
Momento de quase ruptura com o passado e desvio para o melodismo
1974. ‘Autobahn’
O primeiro clássico, com uma aproximação à ideia de canção pop!
1975. ‘Radio-Activity’
Novo registo conceptual, insiste na procura da linguagem da canção pop.
1977. ‘Trans Europe Express’
De grande importância histórica futura, definiu uma linguagem europeia.
1978. ‘The Man Machine’
A obra-prima da pop electrónica é a base da música dos últimos 25 anos.
1981. ‘Computer World’
Novo depoimento «conceptual», centra-se na relação com o computador.
1986. ‘Electric Cafe’
Em vez do «abortado» Techno Pop, um disco minimalista e experimental.
1991. ‘The Mix’
Uma revisão da matéria dada à luz das emergentes corrente rítmicas.
1998. ‘The Best Of Kraftwerk’
Editado apenas no Japão, um simples apanhado de clássicos para recordar.
1998. ‘Concert Classics’
Um dos dois discos live do grupo, esta ainda antes da chegada de Bartos.
1999. ‘Autobahn Tour’
Gravado na mesma digressão, um documento da era anterior à da «fama».
2000. ‘Expo 2000’
A canção oficial da Expo de Hannover surgiu em vários EPs, com remisturas.

PARA LÁ DA DISCOGRAFIA
LEITURAS E CONSULTAS

LIVROS




Bussy, Pascal: ‘Kraft-werk: Man Machine And Music’
S.A.F. 1993

Barr, Tim: ‘Kraftwerk – From Düsseldorf To The Future (With Love)’, Telbury Press, 1998.

Flür, Wolfgang: ‘Kraft-werk: I Was A Robot’, Sanctuary 2000



HOMENAGENS E TRIBUTOS



Uma banda com o peso histórico e matricial de uns Kraftwerk só podia gerar uma série de compilações de tributo. O curioso é que, além dos muitos tributos que existem no mercado, dois discos de autores concretos lhes dedicam atenção protagonista. Um deles é ‘Possessed’, que o Balanescu Quartet gravou em 1992, álbum sublime e referencial que assume uma abordagem por um quarteto de cordas à música destes quatro alemães. Igualmente ‘estranha’ e diferente foi a homenagem de Senor Coconut em ‘El Baile Alemán’, transformando as canções dos Kraftwerk em temas conduzidos por ritmos latino-americanos. Além destes dois discos temáticos abundam no mercado os álbuns-tributo aos Kraftwerk, do já histórico ‘Trans-Slovenia Express’ com bandas balcânicas e todo um extenso rol de propostas oriundas dos mais diversos cantos de actividade musical electrónica. Afinal, mestres são mestres e sabem ter descendência!

SITE OFICIAL

Vale a pena espreitar, com tempo, o site oficial dos Kraftwerk, em www.kraftwerk.com. Seguindo uma lógica de interactividade, o site convida à «visita» a várias canções que fizeram história, muitas delas permitindo ao visitante a hipótese de criar as suas versões, quebrar esquemas rígidos, interferir. Podemos, por exemplo, alterar as sequências de efeitos em ‘Boing Boom Tchak’, somar melodias aleatórias em ‘Pocket Calculator’ ou fazer dançar os quatro robôs em ‘The Robots’... O grafismo que acompanha cada canção respeita capas e motivos dos originais.
N.G.







16.6.17

Um Pouco de Literatura - Poesia: Manuel de Freitas - "Os Infernos Artificiais" (off-topic)


Um «quase nada» no inferno
Mais um livro de poemas de Manuel de Freitas. Itinerário povoado de memórias e de uma visão não celebratória da cidade

OS INFERNOS ARTIFICIAIS
Autor: Manuel de Freitas
Editora: Frenesi
Páginas: 100
Género: Poesia
Preço: 3000$00


  
Classificação ****

Ana Marques Gastão

Em Os Infernos Artificiais – segundo livro de Manuel de Freitas – também crítico e ensaísta – existe um relacionamento com o real (também com o lugar da cidade), que pode ser de mera observação, ou demonstrativo de uma condição física ou existencial; e a procura de uma baudelairiana flânerie quase impossível no contorno amargo da ironia.
Se existe, nestes poemas, o lado do transeunte que vagueia pela cidade, atento ao seu cosntante mal-estar, neles não se encontra a ideia de uma suspensão do real no ideal. No sórdido sabor das coisas e na consciência lúcida de um «quase nada» e do «triste devir sobre nós já traçado», é flagrante a formulação de um quotidiano desapiedado: «Junto ao cais morrem os homens, / as pedintes crianças usando caixinhas / onde a alegria não cabe. Morrem / - sem nunca terem visto a amurada chã / dos seus destinos, o nítido desassossego / das aves que este ano nos trouxeram / a mais rigorosa e cortante melancolia.»
No pendor deambulatório deste livro, revelador de modos de estar num mundo de lixos, graffitis, urinóis, eléctricos, bilhetes-postais, tabernas, bêbados, prostitutas, doentes de inferno e corpos nocturnos, Lisboa revela-se ainda enquanto esboço de um cenário na «ausência de qualquer consolo e na descrença do amor: «Talvez o amor / não exista, triste palavra sem lume lá dentro.»
E se há algum resquício de aproximação a certa poesia anglo-saxónica, por contraposição a cenários neo-românticos, em Os Infernos Artificiais, Manuel de Freitas (n. 1972) remete-nos, ainda que parcelarmente, para as Lisboas, de Armando Silva Carvalho, na sua não-celebratória visão da(s) cidade(s) e na medida em que este livro constitui, também, uma forma de itinerário pessoal povoado de memórias e de solidões que não perdoam. Embora sem a deambulação em torno do Portugal histórico no lugar da Europa, nem uma tão evidente sede de «turismo metafísico».
Não se pode, no entanto, dizer, como no caso do autor de Canis Dei – ressalvadas as devidas distâncias -, que haja um antilirismo no livro de Manuel de Freitas. Os abruptos vazios nos «interstícios da morte», o «horror de haver mundo» «entre ruínas e novas ruínas», os austeros amores, o rosto «sem estrofes de Benilde ao balcão», o acordar «mais perto da dor», o «infindável folclore da agonia», «esta merda, / esta impossível vontade de morrer» remetem-nos para um dolorido universo desabitado que não é senão a face poética do tédio.
Manuel de Freitas vislumbra a morte por entre as palavras – que denunciam aprofundada leitura de autores como Cesário, Álvaro de Campos, Armando Silva Carvalho, Joaquim Manuel Magalhães e Al Berto. E usa-as, às palavras, de uma forma bem mais descritiva do que narrativa, revisitando o quotidiano, com sageza, bem como o corpo não-resolvido, mas por vezes, à luz de um excessivo prosaismo.
Talvez Manuel de Freitas pudesse captar o ignóbil na cidade e nas gentes com um contorno metafórico menos superficial e vulgar, como neste caso: «Observo-a discretamente: gorda / e disforme sobre um sujo mar de jornais / com folhas verdes dispersas e alguma areia / - para que mije muito e cague muito mais.»
Até porque o poeta demonstra noutras passagens do livro, ao agarrar material semelhante, essa capacidade: «É fácil defender a felicidade. Fácil / como lamber uma latrina / ou fazer filhos entre escombros, roendo / as unhas à morte. Mias fácil decerto / do que escrever um verso, / um único verso que seja / - enquanto o bolor nos cresce nas mãos.»

Se os versos neste livro são uma espécie de «refúgio» - o de se «ser exactamente ninguém» - para um cenário humano e urbano circundante, a verdade é que anunciam também um ennui infiltrado nas pequenas coisas, no lado repetitivo da vida captada nem que seja por esse «esgoto de luz onde a voz se exilou». Mesmo no abjecto e destacando-se do tom «cálido» de muitos da sua geração, Manuel de Freitas penetra no território dissonante do inferno, sem pretender, nem na musicalidade, roubar á escrita qualquer espécie de redenção.




12.6.17

Livros Sobre O Post-Punk: "'Pós-Punk' Para Ler" - Artigo de Opinião -


DN-SONS

‘PÓS-PUNK’ PARA LER

Entre ensaios sobre o período 1978-84 e álbuns de fotografias, este é um espaço da cultura pop em fervilhante actividade editorial nos meios livreiros ingleses e norte-americanos.

No texto que agora apresenta no disco nascido do sucesso do seu livro Rip It Up (And Start Again), o jornalista Simon Reynolds sublinha que “estamos neste momento profundamente mergulhados num ressurgimento pós-punk”. E acrescenta que “não há ainda sinais de travagem”, tal é “a infindável procissão de novas bandas que procuram inspiração nessa era, colidindo com bandas veteranas que se reuniram, uma maré de reedições, compilações e antologias”. Quando, há um ano, o publicou, o fenómeno de concentração de atenções de novas bandas e públicos no legado pós-punk era já visível. E foi então sua a intenção de “mostrar a verdadeira diversidade” associada a este fenómeno, que considera menos uma questão de género, mas antes todo um conjunto de espaços e possibilidades que se abriram nos finais da década de 70.
Para Simon Reynolds, o punk “rejuvenesceu o rock, mas por alturas do Verão de 1977 o movimento tinha-se transformado numa paródia de si mesmo”. O livro explica, detalhada e claramente como bandas como a Joy Division, Gang Of Four, Talking Heads, The Fall, Associates ou Cabaret Voltaire, entraram em cena para cumprir a revolução incompleta lançada pelo punk alguns anos antes. “experimentando as electrónicas e os ritmos maquinais, adaptando ideias do dub, reggae e disco, tinham a certeza de que podiam inventar um novo futuro para a música”, explica no livro.
“Num tempo de tensão e ameaças”, que aponta num reaparecimento de figuras políticas de direita (nomeadamente Thatcher e Reagan), as bandas pós-punk “tentaram construir uma cultura alternativa através do nascimento de novas editoras independentes como a Rough Trade, Factory ou SST e a proliferação de uma política do it yourself”. Como retrata no seu livro, uma ideia de mudança constante morava entre os projectos desse tempo. Fala de intermináveis inovações “brilhantes” não apenas na música, mas também na escrita das letras, no desenvolvimento de novos conceitos performativos, nas ideias de estilo e design. Este é o espírito que Reynolds identifica e projecta como natural herança na nova pop de inícios de 80, em bandas como os Human League, Adam Ant, ABC, Madness, Dexy’s Midnight Runners ou Frankie Goes To Hollywood, “todas elas nascidas no punk, mas que a dada altura abraçaram um sentido de glamour e o vídeo de forma a projectar as suas ideias no coração da cultura mainstream”. O livro revela informação e reflexão, retrato exigente e claro de um tempo que, mais de 25 anos depois, volta a estar na ordem do dia.
Como complemento nas leituras ao fundamental livro de Simon Reynolds podemos ler um A a Z, sistematizando, não só o pós-punk, como o próprio punk em Up Yours!: A Guide to UK Punk, New Wave and Early Post Punk, de Vernon Joyson (Borderline Productions). Igualmente sistematizado, Post-Punk Diary (1980-82), de George Gimarc (Saint Martin’s Press), propõe um diário dos acontecimentos, citando 900 bandas e três mil gravações (com um CD como complemento à leitura).
A lista de livros sobre este período é vasta, podendo uma pesquisa mais profunda pedir leituras sobre o punk britânico em England’s Dreaming, de John Savage (Faber & Faber) ou o punk nova-iorquino em From the Velvets to the Voidoids: A Pre-punk History for the Post-punk World, de Clinton Heylin (em edições pela Helter Skelter e pela Penguin Books). Um retrato do punk em declarações na primeira pessoa lê-se em Please Kill Me, de Legs McNeil e Gillian McCain (Penguin Books).
Para o documentários visual deste período dois livros podem merecer algum destaque, ambos disponíveis em lojas online. Um deles, Made In The Uk: The Music Of Attitude, 1977-83 (Powerhouse Cultural Entertainment Books), reúne uma série de fotos de Janette Beckman que, em 132 páginas, documentam factos e rostos dos dias do punk e os que se lhe seguiram, abarcando diversas culturas pós-punk em solo inglês sem esquecer o movimento 2-Tone, os novos mods e os skinheads. Essencialmente centrado na cultura neo-romântica, Duran Duran Unseen é, apesar do que o título possa sugerir, um magnífico retrato da cultura nocturna (e seus protagonistas) na Birmingham de finais de 70, através de fotos de Paul Edmond, sob design de Malcolm Marrett e Kaspar de Graaff.
NG




George Gimarc
Post Punk Diary, 1980-1982
Saint Martin’s Press
374 páginas



Vernon Joynson
Up Yours! – A Guide To UK Punk...
Borderline Productions
450 páginas



Paul Edmond
Duran Duran: Unseen
Reynolds & Hearn
144 páginas




THE FACE
A “Bíblia Da Moda”  Dos Anos 80


Sem Internet, a propagação das boas novas que as descendências do punk projectavam na música e periferias (leia-se, sobretudo, o mundo da moda) fez-se através da publicações especializadas. E nenhuma serviu tão bem os primeiros anos da década de 80 como a revista mensal The Face, (1980-2004), valor acrescentado ao jornalismo musical sobre o fenómeno pós-punk que, desde o seu aparecimento em1978, se lia nas páginas dos há muito extintos semanários Melody Maker e The Sounds, e do ainda sobrevivente (mas descaracterizado) New Musical Express.
A The Face surgiu em Maio de 1980, sob o comando de Nick Logan, um antigo editor do NME nos anos 70 que, pouco tempo antes, criara a mais juvenil Smash Hits. Com um design revolucionário (durante os primeiros anos a cargo de Neville Broudie) e uma divisão de atenções entre a música, a moda, uma ideia discreta de club culture (ainda na sua proto-história) e espaços de cultura alternativa em geral, rapidamente conquistou leitores, em pouco tempo carinhosamente rotulada como a “bíblia da moda dos anos 80”.
O número um deu capa aos Specials, o segundo entrevistava Paul Weller (então nos The Jam), o terceiro assinalava a morte de Ian Curtis. No sexto revelavam-se os Spandau Ballet e, um mês depois, olhava-se cautelosamente para o emergente movimento neo-romântico, então apresentado como “o culto sem nome”... Vivienne Westwood, Bow Wow Wow, Ultravox, Human League, a implantação do teledisco, Julian Cope, Yazoo ou Haircut 100, Smiths ou a fotografia de Bruce Webber, entre muitos, passaram pelas páginas da Face nos seus primeiros anos de vida, quando não tinha rival à altura, estatuto que perdeu na segunda metade da década.

NG






3.5.17

Kraftwerk - Crítica de Discos - "Minimum Maximum"


DNm: 10 de Junho de 2005

A MÁQUINA AO VIVO





O Documento áudio da inesquecível digressão mundial dos Kraftwerk que nos visitou em 2004 chega em ‘Minimum Maximum’. Um verdadeiro ‘Best Of’ de 36 anos de carreira gravado ao vivo.
T: N.G.
Apesar de terem protagonizado algumas digressões históricas nos anos 70 e inícios de 80 (está de resto registada em disco a Autobahn Tour de 1974, mais concretamente nos álbuns não oficiais Concert Classics e Autobahn Live), os Kraftwerk não foram, durante uma série de anos, grandes “amigos” da estrada. Nos últimos tempos, porém, têm corrido o mundo, com a mais espantosa experiência audiovisual de alta tecnologia que os palcos pop/rock alguma vez assistiram. Uma experiência que agora, a meio de uma digressão que continua na estrada, se regista em álbum.
Há um ano, a dias da sua estreia em concerto em Portugal, numa inesquecível noite de música no Coliseu dos Recreios, Ralf Hutter explicou ao DN que só agora a tecnologia disponível lhes permite concretizar em palco uma velha visão de conceito multimédia que há muitos anos alimentavam como cenário de sonho para os seus espectáculos. “Temos o nosso próprio estúdio, o Kling Klang Studio, que é como que um instrumento para os Kraftwerk. E agora, no seu novo formato digital, é mais portátil, pode viajar...”, contou. “Pela primeira vez podemos tocar a nossa música em sincronismo com gráficos gerados por computador ou imagens de vídeo, pinturas electrónicas... Tudo o que a tecnologia hoje permite! Estamos muito felizes porque nesta digressão mundial, podemos apresentar, finalmente, as coisas que queremos segundo uma visão que há muito tínhamos. Essa visão é, agora, para nós, uma realidade”.
Tendo o grupo nascido nos dias de 70 com uma filosofia e imagem de clara oposição aos padrões tradicionais pelos quais se edificavam os mitos rock’n’roll, a sua postura em palco nunca visou quaisquer intenções de assimilar os hábitos performativos do rock. Pelo contrário, os quatro elementos do grupo sempre se mantiveram quase inertes por detrás dos seus teclados e consolas, deixando que o movimento necessário ao acompanhamento da música se fizesse através do desenho de luz e de projecções. A digressão mundial que o ano passado vimos em Lisboa e, depois, num serão acidentado no Sudoeste, e que agora registam em disco, recorre ao que designam por protótipo móvel Kraftwerk 2002, um conjunto complexo de computadores e outras máquinas que gerem em sincronismo a performance musical e o lançamento no espaço de imagens e gráficos gerados por computador. Hutter sublinhou aqui que, desta maneira, a tecnologia do século XXI deu assim a resposta a velhas Ânsias do grupo: “Deu-nos ferramentas para poder tornar reais certas visões nossas. E também mobilidade, movimento... Sempre nos interessámos bastante pelo movimento, daí a conhecida velha fascinação pelo ciclismo.” Hutter recordou ainda que a busca deste sentido de mobilidade das suas ferramentas electrónicas representou uma das demandas fundamentais desde os primeiros tempos de vida do grupo. “Eu e o meu amigo Florian Schneider criámos o nosso Kling Klang Studio em 1970 e dispendemos então muito tempo na sua construção para que assim conseguíssemos ser independentes e autónomos”, lembrou.
“Mas os nossos primeiros sintetizadores eram enormes e estavam constantemente a desafinar. Eram muito caros... O nosso primeiro sintetizador foi tão caro como o meu Volkswagen, que é o que está na capa de Autobahn. Sendo estudantes, tínhamos então os nossos problemas naturais... O Florian desenvolveu então o nosso primeiro instrumento electrónico de percussão, a partir de um outro órgão meu. Um amigo nosso, que era pintor, trabalhava connosco pintando as capas dos discos... Envolvíamo-nos em inúmeros projectos além da música, num contexto multimédia electrónico. E agora estamos a fazer a rodagem mundial do nosso protótipo móvel Kraftwerk 2002. Hoje podemos viajar e ser como pilotos de ensaio para software electrónico relacionado com a música. Continuamos, hoje, a trabalhar com o mesmo engenheiro musical que nos acompanha, desde o The Man Machine... É um processo de continuidade...”.
Quem viu os concertos, sabe que fala verdade.
Com precisão germânica, os concertos começam sempre à hora marcada (o que no caso da actuação no Sudoeste acabou por não dar tempo para a reparação de uma má comunicação entre os computadores que geram as imagens e os ecrãs). Uma voz robótica anuncia que o espectáculo vai começar. E logo as cortinas se abrem para, ao som de The Man Machine, revelar os quatro elementos do grupo estáticos frente aos seus teclados. E, por detrás, um gigantesco ecrã por onde evoluem imagens digitalmente criadas, filmes vintage, referências claras às capas dos discos, palavras cantadas... Extensão directa do conceito total que é a arte dos Kraftwerk, o concerto materializa mais uma ideia de instalação musical electrónica, uma vez mais reinventando os Kraftwerk como um espaço de afirmação de uma identidade oposta à iconografia tradicional da cultura rock’n’roll. O alinhamento, invariável, passa por momentos do recente Tour De France Soundtracks (como Vitamin, Aero Dynamic, Elektro Kardiogramm e diversas variações em torno do clássico Tour DE France), como proporciona um coerente mergulho por um passado mítico, através da recuperação de peças-chave da história da música como Autobahn, Radioactivity (versão mista entre a original, de 1975, e a remistura de 1991), Trans Europe Express (com adenda Metal On Metal), The Model, Neon Lights, Computer World (e o complemento Home Computer), Numbers, It´s More Fun To Compute, Pocket Calculator, Dentaku, Music Non Stop ou o mais recente Expo 2000, na versão Planet Of Visions. No primeiro dos encores abandonam o palco deixando-o entregue aos seus célebres robots, numa magistral celebração do tema The Robots (novamente em versão “actualizada”, segundo a norma aplicada no álbum The Mix, de 1991).

Com o esperado perfeccionismo áudio que caracteriza todas as gravações do grupo, Minimum Maximum traduz em disco o mais espantoso concerto que os palcos nos deram nos últimos anos. E consegue, talvez pela força do alinhamento best of, resistir à ausência da imagem (afinal, o concerto era, como se afirmou já, uma experiência audiovisual). A possibilidade de edição do DVD que documenta esta mesma digressão está na agenda imediata do grupo. Seguir-se-á a reedição remasterizada da obra editada entre 1974 e o presente. Hutter explicou que este trabalho de restauro lhes ocupou parte do tempo nos últimos anos: “estivemos a trabalhar na adaptação aos formatos digitais de toda a música dos Kraftwerk. Tínhamos fitas muito antigas que se estavam a degradar e havia muito trabalho para fazer. Estivemos a transformar 33 anos de trabalho de arquivo dos Kraftwerk em formato digital. Hoje todos os sons originais estão disponíveis e vamos brevemente lançar versões remasterizadas de todos os nossos álbuns desde Autobahn. Essa edição vai chamar-se The Catalog. E o grafismo dos discos vai incluir ideias que não pudemos usar no passado”, adiantou. Venham elas!





28.4.17

Van Der Graaf Generator - Artigo de Fundo + Crítica a "The Box"


DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 20 DE JANEIRO DE 2001
POP/ROCK

VAN DER GRAAF GENERATOR

VISÕES E FICÇÕES



A importante memória dos Van der Graaf Generator é revisitada numa caixa que percorre a obra mais importante do rock progressivo cuja redescoberta faz hoje todo o sentido.

Por oportuno exercício de memória, que poderá ter conhecido importante catalizador de atenções na maneira como o percurso recente dos Radiohead devolveu à ordem do dia alguns nomes do chamado rock progressivo, eis que chega finalmente aos escaparates aquela que parece ser a primeira manifestação de saudável restauração da inesquecível obra dos Van der Graaf Generator, sem dúvida a mais importante e marcante das bandas do seu tempo nesta mesma área.
O simples enunciar da expressão «prog rock» assustou, durante muitos anos, muitas almas que o associaram, sobretudo, à má memória dos subprodutos que gerou. Nomeadamente os tristes depoimentos de uns Yes, Emerson Lake And Palmer e de uns Genesis pós-Peter Gabriel... Afastada das atenções «grossitas», a obra dos Van der Graaf Generator marcou, todavia, o seu tempo. As letras plenas de um misticismo que Peter Hammill sempre cultivou e um inteligente suporte instrumental que nunca mostrou sinais de açúcar desnecessário, rasgaram o seu presente vislumbrando novos patamares de consciência estética, sugerindo uma noção de música acima de fronteiras e convenções que, regra nos nossos dias, era motivo para ditatorial jogo de política de fronteiras na alvorada de 70. O todo da proposta dos Van der Graaf Generator, contra o que nos mostravam então uns Pink Floyd ou Genesis, apontava à essência dos sons, em detrimento dos complementos directos (sobretudo os visuais). A sua música era mais profunda, negra e, sobretudo, desafiante, que a de outros contemporâneos. E hoje, quase 30 anos depois, soa estranhamente familiar e contemporânea. As visões de futuro além das formas, afinal, eram pertinentes.

EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE

As origens dos Van der Graaf Generator remontam a uma viagem de Chris Judge Smith a São Francisco no marcante Verão de 1967. De regresso a Manchester, onde em pouco tempo se viu a trabalhar com o cantor e compositor Peter Hammill e o teclista (então usava-se o termo «organista») Nick Peame. Como nome escolheram um dos que Chris trazia da lista escrita na viagem à Califórnia, Van der Graaf Generator (para abreviar, VdGG: uma máquina que cria electricidade estática)...
Vencida uma etapa de troca de line-up (situação recorrente ao longo de toda a história dos VdGG), que determinou inclusivamente a saída de Chris Judge Smith e Nick Peame, editado um primeiro single por uma etiqueta que não aquela à qual se encontravam ligados por contrato (o que determinou a sua imediata retirada do mercado), o soberbo álbum de estreia «The Aerosol Grey Machine» (que começou a ser gravado como se de um disco a solo de Hammill se tratasse) mostrava interessantes sinais de uma banda que procurava um caminho seu, emergindo directamente das recentes e marcantes experiências no domínio do psicadelismo.
A resposta minimal do público não demoveu os VdGG, que entre 1969 e 1971 gravam três álbuns determinantes na definição da ideia de uma música que parte de estruturas rock para, por processos de desconstrução, procurar contaminações por via da abolição de fronteiras com o jazz e a música clássica. Contra a corrente, a música demarcava-se imediatamente pelo desvio do centro melódico para o jogo entre as teclas dos órgãos de Hugh Banton e o saxofone de David Jackson. Não havia guitarrista protagonista, e a própria presença de um baixista não foi constante em todos os períodos da vida do grupo. Sem a pompa excessiva e flácida de outros contemporâneos, a música dos VdGG evidencia uma consistência invulgar, em muito sugerida pela excelência do edifício instrumental e pela presença vocal de Hammill, cuja teatralidade e escrita determinam uma das forças maiores da visão que na alvorada de 70 era proposta pelos VdGG. O épico «A Plague Of Lighthouse Keepers» (do álbum «Pawn Hearts, de 1971), será talvez o expoente maior da versatilidade cromática e da complexidade interior característica da música dos VdGG e que, ao vivo, fez do grupo uma das grandes referências de palco na alvorada de 70, em absoluta oposição à cenografia mais garrida da contemporânea primeira geração do emergente glam rock.

A SEGUNDA GERAÇÃO

Separados em 1972 depois de um calendário de intensa actividade na estrada, os VdGG reuniram-se em 1975 depois de três anos de percursos a solo. Os três álbuns editados entre 1975 e 76 reflectem uma maturação da ideia original, refinando arestas, implodindo as energias em favor de manifestos de procura de novas formas dentro das formas. Genial, o clássico «Still Life» (de 1976), recolhe os momentos mais significativos desta segunda etapa da vida do grupo. A canção volta a merecer nova abordagem estrutural, e sentem-se claras manifestações de ordem «clássica» nos arranjos com que os novos temas se apresentam. Se a etapa 69-71 definiu as linguísticas mais negras e desafiantes do rock progressivo, o período 1975-77 reflecte a busca de um sentido de «belo» determinado pelas regras reveladas nos dias da pós-adolescência criativa do grupo. É também deste frutuoso período que datam as referências «prog rock» que alguns grupos revisitaram na recta final de 90. Escute-se o tema-título do álbum «Still Life» e todo o percurso dos Radiohead depois de «The Bends» terá nova leitura.
A segunda etapa da vida dos VdGG não foi, como a primeira, alheia a convulsões internas, determinando mudanças de alinhamento. A mais marcante destas mudanças deu-se depois de terminada a digressão de 1976, com a saída (sem substituição possível) do organista Hugh Banton, que levou o colectivo sobrevivente a mudar de nome para Van der Graaf. Com a derradeira formação foi gravado mais um álbum de originais «The Quiet Zone The Pleasure Dome», ao que se seguiu a digressão mundial que os trouxe a Portugal para três concertos em Lisboa, Coimbra e Porto em Setembro de 1977. Desta digressão nasce, depois, o álbum ao vivo «Vital» que assinala, em 1978, o final da carreira do grupo.

CAIXA DE SURPRESAS

A edição desta caixa, que poderá prenunciar a reedição integral da obra dos VdGG (certamente bem vinda numa altura em que muitos novos admiradores serão certamente cativados pelas memórias aqui recolhidas). Mas antes de sonhar com a devolução aos escaparates dos álbuns do grupo, «The Box» permite-nos um olhar representativo do seu legado. Elaborada em estreita colaboração com os antigos elementos dos VdGG (Peter Hammill foi frequentemente consultado no decurso da produção), a caixa propõe mais que uma simples recolha antológica. É certo que parte de uma ordenação cronológica dos eventos, mas evita a simples compilação de faixas dos álbuns e singles dos VdGG. Pelo contrário, usa frequentemente sessões gravadas para a BBC e inúmeros registos de concertos ao vivo (muitos provenientes de velhos «bootlegs», em alguns casos denotando o envelhecimento dos originais, nem todos de restauro fácil) para completar a história que os álbuns (todos reeditados em CD) já contaram. Os velhos admiradores encontrarão nestas raridades e na própria remasterização do som das faixas retiradas da discografia oficial motivos suficientes para justificar o reencontro com a banda que mais interessantes visões «progressivas» nos mostrou em inícios de 70. Falha, apenas, a informação do «inlay» de designa apelativo mas de conteúdo diminuto, sobrevalorizando a listagem integral das datas ao vivo em detrimento de uma biografia mais cuidada e de uma discografia devidamente ilustrada.
Na essência, a obra dos VdGG está aqui devidamente recordada. «The Box» é um monumento a uma memória marcante e um documento de absoluta referência. Venham, agora, as reedições remasterizadas álbum a álbum...
N.G.


VAN DER GRAAF GENERATOR
«The Box»
Virgin / EMI-VC
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DISCOGRAFIA
ÁLBUNS
1968. «Aerosol Grey Machine»
1969. «The Least We Can Do Is Wave To Each Other»
1970. «H To He Who Am The Only One»
1971. «Pawn Hearts»
1972. «68-71»
1975. «Godbluff»
1976. «Still Life»
1976. «World Record»
1977. «The Quiet Zone The Pleasure Dome»
1978. «Vital»
1994. «Maida Vale (BBC Sessions)»
2000. «Introduction»
2000. «The Box»
SINGLES
1969. «People You Were Going To»
1970. «Refugees»
1972. «Theme One»
1976. «Wondering»





26.4.17

António Sérgio - Entrevista


ENTREVISTA   ANTÓNIO SÉRGIO
À FRENTE DO SOM



Vinte anos depois, o regresso Às memórias da rádio e da música de outros tempos numa viagem de regresso ao «Som da Frente» conduzida por António Sérgio, num CD agora editado.
EURICO NOBRE

A última emissão do «Som da Frente» foi para o ar na Rádio Comercial em Agosto de 1993, numa sexta dia 13. Mais de uma década depois da estreia. Mas nem um momento ou outro significam ou início ou fim de absolutamente nada. «O ‘Som da Frente’ não é o António Sérgio. É uma coisa já bem enraizada na década de 80 que já não existe e o António Sérgio ainda cá está para as curvas. É um produto do António Sérgio, como o foi o “Rolls Rock”, o “Grande Delta ou o “Rotação”, numa altura em que eu não tinha a noção, pelo menos nesses primeiros programas, de poder fornecer correctamente esse tipo de produto à rádio mas onde tinha uma vontade enorme de o fazer correctamente», contextualiza o autor do programa.
Com uma carreira cuja origem se perdeu no tempo, confessa que até há uns anos «sentia muita dificuldade em localizar esse tipo de coisas». Agora lembra África, «quando comecei a ver alguém fazer rádio à minha frente. Devo ter visto e aprendido coisas que nunca deixaram o bichinho morrer» e cita a Renascença, já em 67/68, «a altura em que uma pessoa pode dizer que começou realmente, com trabalhos de continuidade vulgares». Mas foi apenas mais tarde que o desenrolar de acontecimentos que fizeram de António Sérgio um dos mais importantes e respeitados nomes da rádio portuguesa das últimas décadas tiveram a sua génese. Até porque cada uma das suas experiências como que se foi encadeando nas outras, apenas mudando o nome e, por vezes, o cenário, mantendo uma atitude e coerência ímpares.

EM ROTAÇÃO
«O meu primeiro programa de autor é a “Rotação” que muitas vezes foi reduzido ao punk rock, o que não é verdade, embora tenha sido a emissão e o meio que deu mais exposição ao fenómeno em Portugal. Agora, há um tapping evidente do punk rock, porque eu estou muito atento e mesmo muito interessado como indivíduo, porque tudo o que me está a chegar soa-me bem, as atitudes, as opiniões, as conversas e os sons quando começam a chegar...», lembra sobre o programa inovador. Mais ainda dado o perfil da Renascença. «Na altura não tinha um canal de FM vocacionado, tinha uma Onda Média que emitia em FM.» A oportunidade demorou mas chegou e as memórias dos primeiros instantes ainda estão presentes, quando «em branca», sem qualquer fundo, se apresentou aos ouvintes: «Boa noite, a partir de hoje passa a existir, entre a uma e as três, um espaço dedicado a outras músicas no qual pretendemos que toquem nomes perdidos ou praticamente perdidos...». Nesse rol de nomes «no distante 1976», continua, «eu nomeava Frank Zappa, Captain Beefheart, os Byrds, Graham Parsons, e uma série de outra gente. Estávamos ainda muito longe de haver a advento Patti Smith».
Sobre a «Rotação» diz ter sido «um programa aventureiro como todos os outros» desde então. O que se seguiu, já na Comercial, foi o «Rolls Rock», em 1980. «Um nome inventado pelo João David Nunes, porque era ideia do Rolls Royce do Rock». Depois quando houve a hipótese de saltar para o horário diurno, deu-se o início do “Som da Frente”.» Anos mais tarde, no início da década de 90 experimentou algo diferente, um espaço mais aberto aos sons, com o «O Grande Delta», na XFM. Nos últimos cinco anos, de regresso à Comercial, é de novo companhia regular entre a uma e as três da manhã, com «A Hora do Lobo».

DA NOITE PARA O DIA
Apesar de haver um fio condutor uma vez que «há imensa coisa no anterior que acaba por ficar sempre na mesma», António Sérgio assume «não gostar de estar a mudar de estações ou de «slot» sem mudar o nome pelo menos do rótulo. Não quer dizer baralhar e voltar a dar». Mas, no fim de contas, «há um tratamento meu com a música e há um entendimento da música comigo.» E a música, diz, «é toda a que acontece», sem desespero na procura. «Este desespero é quase uma piscadela de olho de gozo à imprensa do “next big thing”. O que é que nós agora vamos por como arauto ou como cabeça de cartaz ou de locomotiva da máquina?». Não há necessidade disso, defende. «Hoje há uma pacificação da produção musical, os estilos esbateram-se muito, deixaram de haver grandes estrelas e passou a haver uma série de outras mini-estrelas e os sons estão a ganhar com isso. O “Som da Frente” é outra coisa, é um tempo de estrelas mesmo.»
Em 1982, intervém Ana Cristina ferrão, íntima e eterna cúmplice de António Sérgio, «a Comercial já há uma relação muito directa entre o Sérgio e o John Peel, porque é ele que em Inglaterra divulga o punk, na BBC. E o John Peel, que estava sempre a trabalhar à noite muda para um slot diurno. O Jaime Fernandes tem então a ideia peregrina de seguir o exemplo e colocar na nova grelha da Comercial o “Som da Frente” às quatro da tarde». Além disso, recorda Sérgio, «o Barros tinha decidido deixar de fazer a tarde para fazer um programa da manhã e tomar grandes pequenos almoços (risos)». Tal coincide, como relata, com «uma mudança de marcha da indústria musical portuguesa, em termos de andamento de comboio, mas há também uma mudança de situação, que é outra vez conjuntural, que é a nossa relação com os chamados mercados de importação.» Um sentimento espelhado no disco agora editado, «Som da Frente: 1982-1986».

A IRMANDADE DA LUZ
«É uma época de quase passa a palavra, de uma vontade urgente de mostrar as cosias novas. Havia pessoas que me iam levar discos que recebiam de Londres para eu tocar no “Som da Frente” porque eu tinha a possibilidade de os mostrar a muito mais gente. Há aqui uma Irmandade, e não é nenhuma Irmandade de Cruz Negra, há luz no meio disto. Luz da divulgação e do espalhar do bom gosto e do gozo, no fim de contas».
Foi uma época «de uma militância que era necessária, em que a música é encarada como um bem muito especial. Passar essa música, ouvi-la e depois comunicarmos uns com os outros», lembra António Sérgio. «É por isso que eu gosto muito desse disco, apesar de algumas falhas de repertório que eu sei que cá estão. Mas mesmo assim o CD é duplo e está cheio até ao fim. Tivemos mesmo de fazer um “fade out” nos Shriekback, porque o tema era muito grande e dava para roubar aquele bocadinho, caso contrário não ficava o dos Xutos inteiro, o que era para mim mais importante, porque é uma marca e eles nunca mais aquilo daquela maneira.»
Trata-se de uma compilação que «sai das paredes, sai dos armários dos discos» e embora não tenha sido difícil elaborar a lista inicial, «uma vez que tem mais de 100 temas», o quase insólito aconteceu depois quando «gabinete competente da editora fez os contactos para licenciamentos, etc.» e esbarrou nas respostas «que informavam que os produtos tinham sido descontinuados» aconselhando a fazer a cópia a partir do vinil. «É esse o estado das próprias majors em relação ao seu produto, que neste caso tem 20 anos e que para eles não vale absolutamente nada. É uma atitude de tiro no pé típica de pessoas que não sabe tratar do seu próprio negócio e que nos disseram, nalguns casos, que o material tinha sido eliminado, logo não existiam “masters”. Há aqui quebras de profissionalismo, de tudo, óbvias.»
O importante é que «venda ou não, é o tal artefacto que fica feito e que para mim é uma excelente memória do trabalho que fiz há alguns anos e de que me lembro fortemente.» Ao longo de 36 canções há aqui algumas repetições que António Sérgio justifica sem hesitar. «Projectos como o Julian Cope, Teardrop Explodes, Psychedelic Furs ou a Siouxsie era fundamental para mim que tivessem duas faixas. Como achei importante tocar nessa altura e insisti contra muitas marés num ambiente radiofónico e de divulgação musical diferente, teimaria hoje da mesma maneira. Quem ouvir o “Israel” e o “Mirage” apreende determinado tipo de coisas que podem ser importantes. Talvez arranje novos ouvintes para “A Hora Do Lobo”, dá-se sempre jeito e acaba por ser no mesmo horário... Portanto 20 anos depois, we’Re back». Quanto aos que ficaram de fora cita dois exemplos, até porque no cenário desta conversa a luz é baixa e afasta a visão da listagem com todos os eleitos. «A mim faz-me falta o Robert Wyatt, uma pessoa com uma posição mental e social claras, alguém muito inteligente que sempre prezei muito e que para mim é o paradigma de um certo tipo de rochedo que não se move mas que à parte disso é uma doçura...». E os Jesus & Mary Chain «num cenário completamente diferente, de rebentamento. A produção é completamente inovada ali e é quando se inaugura o período sónico que veio dar depois excelentes frutos. Depois é uma memória de baladas dos anos 50 que eles vão buscar não sei bem onde... É quase um caso para bruxas.»

SEM ESPAÇO NEM TEMPO
Mas apesar de enquadrado num espaço de tempo, este é um disco que não se poderia reduzir a tal dimensão. «Aliás isto começou antes e nunca mais acaba.» Uma perspectiva que tem muito a ver com aquilo que Sérgio refere como sendo «uma curiosa ligação minha, automática e intuitiva em relação à própria música, por ter crescido também quase com a idade do rock. Tenho a sorte de ter acesso a música do rock and roll norte-americano em África, via estar metido no meio de rádio, coisa que se me tem escapado me teria retirado imensa cultura musical, ou pelo menos informação musical, aquela mais automática.» Além disso, «sem querer, quem ouve rock and roll desse tempo ouve blues ou pelo menos alguma coisa de blues, o meu pai ainda tinha a mania de ouvir música clássica portanto...»
E quem o foi ouvindo ao longo de todos estes anos sabe do que fala. «A vida e os anos em rádio ensinam-nos muito, principalmente para quem paciência para fazer aquela tarimba que eu fiz, e não esperar estrelatos demasiados porque a rádio não é um meio que o proporcione. Gosto mais a ideia do sacerdócio e da dedicação. Também há mais carinho nisso e mais paixão.»
Para a Ana Cristina Ferrão «este foi o verdadeiro “Globo de Ouro” de António Sérgio. «Não é aquela cena emperuada e encasacada mas sim a hipótese de fazer um objecto rock, algo que vai permanecer, o que o motivou imenso. É um reconhecimento diferente.» No entanto, acrescenta Sérgio, «o verdadeiro artista aqui é a música, as bandas que cá estão dentro e os disparos de energia que têm.» Isto sem esconder o prazer que lhe deu ter um pretexto para remexer nestas suas memórias e no vinil todo, «coisa que já não faço porque não utilizo, uma vez que a cabina da Comercial não dá para o fazer.» Para andar «a carpir mágoas do passado» também não valia a pena. Desta forma foi diferente, até pela satisfação adicional em «lidar com criadores que são eles próprios a razão de ser da criatividade da música. Não são correios de transmissão de nada, não conseguem ser.»
Ciente de que a pior parte já passou, «que foi este material mais enterrado no tempo», já se perspectiva uma segunda edição, referente ao período 1987-1993, ainda sem data definida e sem a certeza de conhecer vida, tal como este, no ano em que se assinalam os 20 anos do «Som da Frente». «Nesse disco vou tentar evitar as repetições, não vai haver banda nenhuma com direito a mais que um tema, talvez tema e meio. Além disso terá a particularidade de saltar a década em si, e a década musical não é de maneira nenhuma a mesma dos calendários. Mas há coisas curiosas uma vez que entre 1988 e o princípio de 90 forja-se uma boa parte daquilo que se passou a seguir. Portanto vou tentar documentar isso o melhor possível.»
Para já fica o testemunho anterior num disco que «continua a ter uma certa rebeldia que está ligada ao nome do programa e a uma atitude intrínseca da pessoa que fazia o programa e das pessoas que o ouviam que em certos casos se manterá.» Um documento que «tentou cobrir um período muito rico da criação musical pop e rock, já com algumas inserções na world music, embora não se chamasse assim nessa altura...» E com um público bem definido. «A maior parte das pessoas que eu queria que fossem buscar este disco eram pessoas aventureiras, que quisessem outra vez entrar na aventura da descoberta dos sons e dos novos nomes. Como aqui há nomes tão velhos que podem parecer novos nomes... Há quem possa nunca ter ouvido falar, sei lá... da Durutti Column?»
Sem certezas sobre as motivações de uma geração que privou com o «Som da Frente» e que «pode estar ou não demitida dessa atitude perante a música», o desafio desta proposta é também o de fazer despertar a curiosidade a outras pessoas «que tinham oito ou nove anos na altura». Como? «Só se for por valer a pena de alguma maneira», responde de pronto António Sérgio. «Ou o repertório tem aqui manchas de talento que valem a pena, e aí temos de chamar a atenção porque eles não sabem, ou então não valerá a pena. Fica apenas a memória de um programa que existiu, foi muito funcional na altura e depois deixou de o ser.»


AS HORAS DO LOBO
Mais que uma escola, o «Som da Frente» era quase um momento de procissão de fé num tempo em que as janelas a outros mundos eram poucas, e difíceis de abrir. Hábito diário, a audição do «Som da Frente» era um complemento fundamental a um processo de descoberta de novos sons, novas sensações... O panorama musical de inícios e meados de 80 não mostrava os sinais da imbecilidade reinante do «mainstream» do presente mas, já então, o «Som da Frente» assumia a ousadia de, em alto e bom som, ir mais além. Ser fiel ouvinte do programa era condição necessária para a adesão a uma tribo que não se satisfazia com a máxima globalizante «todos diferentes todos iguais». O núcleo de ouvintes «hardcore» fazia questão de levar, depois, as sugestões ainda mais longe, encantando figuras e trapos condizentes com músicas e músicos, com o negro quase sempre presente, o «Blitz» debaixo do braço e as inevitáveis passagens pela Catedral da Rua da Beneficência ao Rego (o Rock Rendez Vous).
O «Som da Frente» estimulava a busca de um gosto pessoal, alargava horizontes. Apresentava-nos nomes como os Bauhaus, Joy Division, Cocteau Twins, Teardrop Explodes, This Mortal Coil, Danse Society, The Sound, Echo & The Bunnymen, The Cure, Clan Of Xymox, New Order, Durutti Column, REM, Siouxsie & The Banshees, Julian Cope...
O disco duplo que agora é editado consegue evocar, apesar da infeliz não cedência, pelos actuais detentores dos direitos, da importantíssima fatia de referências 4AD, o que era o tutano das emissões do «Som da Frente». A abrir o histórico instrumental dos Xutos & Pontapés, que serviu de indicativo. E, depois, memórias soltas como «Winning» dos The Sound, «Sunspots» de Julian Cope, «Taking The Veil» de David Sylvian, «Regiment» de Brian Eno e David Byrne, «Five Miles Of You» de Tom Verlaine, «Sunglasses After Dark» dos Cramps, «Atmosphere» dos Joy Division ou o sublime «This Big Hush» dos Shriekback, a dada altura um tema de rodagem diária obrigatória no programa. Como complementos, excelentes textos de acompanhamento sobre a memória do programa e a voz por trás do microfone, por Ana Cristina Ferrão. Memórias dos melhores momentos de um disco que evoca um programa chave da história da rádio portuguesa. Personalizando, aquele que me ensinou a ouvir música. Obrigado, Sérgio!
N.G.

VÁRIOS
«Som da Frente 1982-1986»
EMI-VC
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