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29.6.26

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #122: José António Moura - "IRREAL SOCIAL - Blitz - Pregões e Declarações - Amor, Partilha e Ódio antes da vida online - Ano 1: 1985"


 

autor: José António Moura
título: IRREAL SOCIAL - Blitz - Pregões E Declarações - Amor, Partilha e Ódio antes da vida online Ano 1: 1985
editora: Holuzam
nº de páginas: 68
isbn: N/A
data: 2025 (Dezembro)
1ª Edição - Segunda tiragem de 100 exemplares





IRREAL SOCIAL

BLITZ

PREGÕES E DECLARAÇÕES

AMOR, PARTILHA E ÓDIO ANTES DA VIDA ONLINE: ANO 1 (1985)

Introdução, compilação de textos, paginação e montagem gráfica com base em elementos originais publicados no jornal Blitz no ano de 1985: José António Moura

Ésta é uma publicação independente da Holuzam.

Impressão em risografia no estúdio DESISTO. Primeira tiragem de 100 exemplares

Holuzam, Dezembro 2025

 

NOTAS:

1. Cândida Teresa Ruivo, Antena 3, 6.11.2024.

https://www.rtp/play/p2362/e807152/especial-a3

2. ibid.

3. Manuel Falcão, Antena 3, 6.11.2024

https://www.rtp/play/p2362/e807152/especial-a3

4. Cândida Teresa Ruivo, por telefone, 24.9.2025.

5. ibid.

6. Manuel Falcão, Posto Emissor, 2.11.2024.

https://expresso.pt/blitz/2024-11-02-os-pregoes-e-declaracoes-davam-para-tudo-a-dada-altura-chegavam-centenas-por-semana-manuel-falcao-primeiro-diretor-do-blitz-93a7472a

7. Miguel Francisco Cadete, Posto Emissor, 2.11.2024.

8. Cândida Teresa Ruivo, por telefone, 24.09.2025.

9. ibid.

10. ibid.

11. ibid.

12. ibid.

13. Manuel Falcão, Posto Emissor, 2.11.2024.

14. Cândida Teresa Ruivo, por telefone, 24.9.2025.

15. ibid.

16. Decreto-Lei n.º 268/85, de 16 de Julho.

Htpps://diariodarepublica.pt/detalhe/decreto-lei/268-1985-183439

 

Agradecimentos: Cândida Teresa Ruivo, Cristina Maria Nunes, Maria João Lopes, Miguel Francisco Cadete, Rui Tentúgal.

 

Páginas: 68

A5

 

 

O diário Portugal Hoje deixou de ser publicado em Julho de 1982. Nessa altura e desde há muitos meses, incluía aos Sábados o suplemento de música Som 80, coordenado a partir de certa altura por Manuel Falcão e com arranjo gráfico de Cândida Teresa Ruivo. «O Manuel deixava-me fazer tudo, até paginar!»1

Isto sugere quase um perigo, ouvindo o tom das palavras de Cândida, mas para o Blitz, continuou a poder disfrutar dessa liberdade enquanto responsável gráfica pelo jornal: «Inicialmente, eu tinha muito pouca ideia do que é que ia ser o Blitz, porque fui apanhada muito de repente […] e havia três coisas que para mim eram marcantes: New Musical Express, a Rolling Stone e o Melody Maker. Aquilo tudo misturado podia dar qualquer coisa. Eu acho que quando há coisas bem feitas, uma pessoa… Não é estar a copiar, é ter aquilo como inspiração, porque resulta, porque funciona, e portanto eu juntei essas coisas todas e juntei uma coisa que eu percebi rapidamente que tinha que arranjar, que era uma paginação que eu pudesse mudar depressa. Porque ás vezes tinha a página fechada e chegava mais um anúncio e nós não nos podíamos dar ao luxo de deitar fora um anúncio […].»2

Manuel Falcão transmite a ideia de que os primeiros números de um jornal, pelo menos aqueles em que trabalhou, nunca resultam como se pensava: «Há sempre uns compromissos que tem de se fazer, sobretudo à boca da máquina, […] mas eu acho que existia uma ideia gráfica daquilo que nós queríamos que fosse […]. Nós entendíamo-nos perfeitamente sobre isso, eu e a Cândida […].»3

Um dos aspectos visuais distintivos do Blitz fora transportado do Som 80: a ocupação da primeira página com uma só fotografia, grande. Falcão menciona o jornal francês Libération como modelo, sobretudo, o suplemento Sandwich, publicado entre 1979 e 1981, cuja capa tinha uma fotografia de página inteira.

Pouco antes da estreia do Blitz, a minúscula redacção encabeçada por MF estava insatisfeita com a identidade visual já criada. É nesse ponto que Cândida é chamada, segundo ela quase literalmente na véspera, para refazer tudo: «[…] Digamos que o jornal foi paginado – o número 1 – na bancada da gráfica, […] parece-me que nem houve maquetes […].»4 O único elemento que não podia ser alterado era o logotipo, detestado desde o início mas intocável durante um ano, período requerido por lei. Só findo esse prazo era permitida qualquer alteração de logotipo nas publicações periódicas. A designer tratou de adoptar uma estratégia simples para ocultar essa primeira imagem identitária do jornal: «[…] entrei naquela fúria, com as cabeças todas que podia e não podia, de tapar o logotipo. […] Há um número 4, se não é o número 4 é o número 6, que é um que tem o Jorge Palma na capa, emq eu só se vê o princípio do B e a ponta do Z.»5

Também essa ilegibilidade passou a fazer parte da identidade gráfica e em nada parece ter prejudicado a comunicação com potenciais leitores.

Sandwich aparecia aos Sábados, tal como o Som 80, sendo que era esse o dia da semana em que o Portugal Hoje mais vendia. Foi argumento fundamental para convencer a empresa (CEIG) que publicava o Portugal Hoje a investir na criação de um novo semanário de música. Mas a história do jornal Blitz ficará aqui largamente secundária À presente recolha de conteúdo da sua mais popular secção: Pregões e Declarações. Também esta foi inspirada no Sandwich, que publicava pequenos anúncios pessoais gratuitos, desde as comuns trocas e vendas até filosofia compactada e desabafos políticos. O suplemento francês duraria apenas cerca de uma ano, talvez vítima das convulsões internas no Libération, suspenso entre Fevereiro e Maio de 1981. E em 82 admite pela primeira vez publicidade paga, decisão contra natura muito contestada pelo núcleo que tinha partilhado das esperanças revolucionárias pós-Maio de 68. O jornal afastava-se da sua génese libertária e, após a suspensão temporária, ficou próximo do socialismo de François Miterrand.

Não era intenção editorial do Blitz assumir qualquer aproximação política, antes suprir uma necessidade sentida na realidade musical portuguesa. Manuel Falcão destaca como factor importante para a implantação do jornal o crescente número de bandas a serem formadas durante e na sequência do boom do rock em Portugal (1979-82), criando-se um circuito mais ou menos subterrâneo que carecia de divulgação. Algumas bandas na marginalidade dos media contribuíram, aliás, com pregões próprios. Neste primeiro ano em que nos concentramos conseguem detectar-se, por exemplo, Xutos & Pontapés, Neo-Mono-Var, Grito Final e Hist. No caso de Grito Final, muita proactividade no uso das mensagens para conseguir concertos fora da zona de Lisboa; Neo-Mono-Var e Hist com tiradas contraculturais; Tim dos Xutos & Pontapés procurava vender um “baixo de combate”.

Como prelúdio ao aparecimento dos Pregões (a partir do número 15), logo na segunda edição combina-se semanalmente na redacção uma frase a colocar discretamente na primeira página. MF: «Essa ideia partiu de mi. […] Era normalmente eu que fazia isso durante o tempo em que estive no Blitz.»6 Com cada frase pretendia-se uma espécie de slogan representativo do espírito da equipa nessa semana, piada privada partilhada com o mundo. Mas desde o primeiro editorial em 6m de Novembro de 1984 que se anunciava a intenção de chamar os leitores a participar.

No número 14 é apresentada e explicada a nova secção Pregões e Declarações, inaugurada na semana seguinte, 12 de Fevereiro de 1985, as poucas mensagens inicialmente inventadas para fazer volume rapidamente deixaram de ser necessárias porque os postais passaram a chegar às dezenas e depois às centenas por semana: «Sei os sacos que ficavam por publicar. O que era publicado seriam alguns dez por cento.»7 Antes do percurso jornalístico que se reconhece, Miguel Francisco Cadete entrou no Blitz como mão de obra para dactilografar os pregões, desafiado por Cristina Barrau, secretária de redacção.

O processo, hoje em dia impensável, é descrito com minúcia por Cândida Teresa: «[…] nós recebíamos os sacos com os pregões, aquilo era dactilografado numa máquina de escrever daquelas com fitinha, e depois dali ia para a foto-composição do jornal, onde havia umas senhoras e uns senhores que copiavam o que já estava naquelas folhas para [outras] folhas com uma máquina de escrever com fita de carbono […].»

Outra máquina transformava o resultado em tiras de texto, que alguém colava em novas folhas que, ao adquirirem aspecto de página, era preciso fotografar, passar a uma chapa e inserir a chapa na máquina onde levaria a tinta que depois ficaria impressa no papel. Ainda sem qualquer apoio digital na paginação e impressão, «[…] aqueles pregões levavam imenso tempo a ser produzidos, como tudo o resto no jornal. […] estava-se a dactilografar sempre e sobravam muitos.»8

O peso que a quantidade semanal de postais veio representar reflectiu-se no restante trabalho do núcleo redactorial que, pequeno (o jornal arrancou com concertos, recolha e redacção de notícias, escrita de artigos e críticas, etc. Para além do facto de vários elementos acumularem trabalho com outros jornais.

«[…] ao princípio é tudo muito novo, é tudo muito giro, mas depois manter a continuidade destas coisas às vezes transforma-se num pequeno pesadelo.»9

Se inicialmente a redacção fazia questão em estar a par das mensagens que chegavam, «[…] começou a ser pesado ler aquilo todas as semanas, aquelas toneladas, porque […] depois passou a ser assim uma coisa… eram caixotes e caixotes com aquelas folhinhas pequeninas coladas em postais […]»10

Muito óbvia, então, a necessidade de mãos extra apenas para sustentar a regularidade da secção, «[…] foi preciso começar a arranjar gente que dactilografasse aquilo, não se conseguia dar vazão a tanto. Depois, era preciso ler tudo, principalmente quando se instituiu a história do Pregão da Semana. […] E então, como eles estavam a escrever e essas coisas, e enquanto eles escreviam eu não podia paginar, fiquei eu com o encargo de ler aquilo.»11

O espírito e tom das mensagens conduziu à separação temática: Amores, Polémicas, Anti-Wham!, Mensagens Suaves, Trocas e Vendas, Pensamentos Ociosos. Extraíram-se aqui destaques do primeiro ano de publicação, trabalhados sem essa separação temática e com um mínimo de alterações. Nem todos os erros gramaticais foram corrigidos, nem toda a pontuação foi revista, e assim se ecoa sem compromisso rígido parte do espírito de azáfama que, na época, não permitia já atenção detalhada a pormenores. Nas páginas originais, é frequente encontrarem-se mensagens repetidas em edições diferentes, por vezes na mesma, também reflexo do enorme volume de postais recebidos, da maior pressa em processá-los e, não menos importante, da multiplicação de mensagens que as próprias pessoas enviavam, com o intuito de reforçar as possibilidades de publicação.

De certo modo, pode pensar-se nos Pregões como algo que se tomou forma autónoma e ganhou a sua própria lógica livre, virtualmente sem critério nem censura. Em Novembro passa a ser escolhida também semanalmente uma imagem enviada por leitores, premiada com a oferta de um LP. Pelas palavras (as imagens são muito poucas para suscitar conclusões), toma-se contacto com o meio ambiente de 1985, filtrado a partir das emoções e comentários que, inevitavelmente retratavam as grandes linhas de comportamento da juventude portuguesa, do Liceu para cima. Quão acima não é possível determinar, apenas fica a dúvida instalada pela quantidade de amor atribuída a referências musicais de uma ou duas gerações anteriores, com largo destaque para Pink Floyd e Jim Morrison.

Apesar do confronto explícito, por vezes agressivo, entre tribos musicais, Cândida Teresa observou uma comunidade a ser criada através deste fórum de opiniões e convivência que gerava alguma mitologia própria: «Há coisas que só os leitores do Blitz é que conheciam como piada. […] Na altura estava a dar aulas na Amadora, à noite, e os meus alunos insultavam-se, mandavam bocas uns aos outros com coisas destas, […] que eu sabia onde é que eles tinham ido buscar […] quase como se fizesse parte de um grupo, aquilo também permitia isso.»12

A formação de identidade está tão intimamente ligada à necessidade de pertença como à necessidade de oposição. O conforto do número, a multidão que ecoa os nossos pensamentos e convicções, funcionam como confirmação de uma direção, reforço e validação do ser. Mostrar que se gosta da mesma música sempre foi crucial para a inserção em grupos de pessoas cujo estilo de vida se cobiça ou que se descobre partilharem do estilo que já adoptáramos. Faz-se parte de uma célula, e frequentes vezes essa célula é de guerrilha e mutuamente exclusiva em relação a outras. Há exemplos de diversidade, em alguns pregões, exemplos de sentido de comunhão e vontade em ler menos discussões, mas a regra era a militância marcada em qualquer coisa: Metal, Surf, Vanguarda, Pink Floyd, Porto ou Lisboa, Homens ou Mulheres são alguns dos tópicos mais acesos na troca de mensagens. A enorme quantidade de linhas que lhes são dedicadas rapidamente banaliza e tipifica os remetentes, tornando monótona e desinteressante a leitura continuada, se o intuito da mesma for a surpresa ou a descoberta de vozes distintas.

A exibição de opiniões não é novidade para pessoas do século XXI habituadas às redes sociais, mas na década de 1980 havia poucos meios de comunicação onde se pudessem manifestar essas opiniões em público, sobretudo fora do âmbito político. Normal encontrar, no pós-25 de Abril, não só jornalismo engajado e maior espaço para opinião de leitores, mas também vários exemplos de tentativas para incluir esses leitores num lote informal de colaboração assídua. Mesmo na imprensa musical, em fase mais quente, a revista Mundo da Canção parecia querer funcionar em regime de cooperação. Em 78/79, a Rock em Portugal publicou vários artigos escritos por leitores. O Musicalíssimo em 1980-81. A participação que o Blitz implementou não contemplava o conteúdo habitual do jornal, ou seja, não se abria o jornal à “escrita musical” dos leitores, antes se procurava conhecê-los, «[…] conseguimos perceber para quem é que estávamos a escrever.»13

Embora a afirmação seguinte esteja totalmente aberta a interpretações, esse conhecimento dos leitores equivalia à actual “mineração de dados” efectuada por plataformas online. De uma forma muito menos deliberada e sistematizada, só por consequência dirigida ao proveito económico, as mensagens pessoais no Blitz não eram alvo de captura de informação com propósitos comerciais directos e prévios, eram sim encaradas como uma espécie de grupo focal que poderia ajudar na eventual adaptação de alguns conteúdos do jornal aos gostos dos leitores. Encontram-se exemplos claros de pedidos de destaque e artigos sobre determinados artistas.

No fundo, as páginas de Pregões e Declarações permitiam mostrar o que se era ou pretendia ser. Humanamente, as diferenças de então para agora são perto de zero. A necessidade é a mesma, a natureza humana é a mesma, exceptuando o grau de ingenuidade, maior em 1985. A ferramenta havia sido criada e colocada à disposição, e o facto de não ser possível obter respostas ou resultados no imediato não foi obstáculo À popularidade da secção. Ao enviar-se um postal estavam a admitir-se duas cosias hoje quase inadmissíveis quando se trata de comunicar: o tempo físico de entrega do postal no destino e a incerteza quanto à publicação.

Nos bastidores identifica-se uma outra diferença fundamental entre hoje e então: o que se designou atrás como “mineração de dados” – na prática, a angariação de endereços postais e números de telefone dos leitores – acontecia meramente para que as pessoas pudessem entrar em contacto entre si. Num cenário actual de vida online, essa angariação é a primeira pedra para posterior exploração comercial. Numa publicação em papel em 1985, e da dimensão do Blitz, é duvidoso ter existido sequer qualquer tipo de organização das mensagens com intuitos estatísticos, não só porque a equipa era reduzida e tal tarefa exige dedicação plena, eventualmente um departamento atribuído, mas também porque a cultura do jornal não era essa. E apesar de ser notório que quem transcrevia as mensagens adquiria quase automaticamente conhecimento transversal das massas de leitores, daí não terá resultado nenhum tipo de base de dados, como hoje seria dado adquirido para capturar nomes, traçar perfis e dirigir publicidade. A informação entrava em bruto e em bruto era publicada.

Mais tarde, em 1992, ao ser integrado no grupo Sojornal juntamente com o AutoSport, existiu a intenção manifestada a partir do topo de começar a cobrar pelo espaço dos Pregões. Para Cândida a questão era simples: pagar para enviar mensagens significaria, a prazo, o fim da secção. Francisco Pinto Balsemão entendeu. Uma outra mudança foi o fim no entanto introduzida no jornal, para desgosto de Cândida: os anúncios regulares passariam a ser a cores, tal como muitas fotografias, correspondendo ao padrão contemporâneo de outros jornais. «[…] era uma coisa que eu não queria de maneira nenhuma, porque para mim os jornais eram a preto-e-branco e mais uma cor e ele disse Não, que os anúncios a cores são mais bem pagos. […] Se não houvesse anúncios não havia ordenados ao fim do mês.»14

Foi alegadamente a única cedência gráfica que Cândida teve de fazer durante os 17 anos em que trabalhou no jornal. Sempre com liberdade para implementar ideias e mudar o que entendesse mudar, afirma que outra das suas irritações era o excessivo uso da cor vermelha na imprensa. Em linha com a equipa reduzida, também a nível de recursos era necessário poupar. Seguiu, assim, uma sugestão para reaproveitar tinta de várias cores que sobrava de outras publicações na gráfica, alterando frequentemente a cor da palavra Blitz.» O Blitz sempre viveu um bocado daquilo a que chamávamos as reformulações gráficas instantâneas, que era… Um dia eu achava que aquelas cabeças já eram muito feias, ou que não tinha paciência para aquilo, ou já estava farta, e fazia umas novas e dava umas voltas ao jornal assim só porque me apetecia. Como ninguém reclamava comigo e toda a gente achava que valia a pena ir mudando, eu ia mudando! Pronto, foi isso, é a grande história gráfica do Blitz. […] Nunca tive impedimento nenhum por parte de nenhum dos meus directores.»15

Esta abordagem casual traduzia-se na experiência de folhear o jornal e acabava por reflectir a orientação musical “alternativa2 que o Blitz começou por adoptar e também o caos controlado dos Pregões e Declarações, raramente censurados. Apesar do tom duro e insultuoso de algumas mensagens, seria preciso ultrapassar um limite considerado abusivo e, de acordo com o que Cândida dá a entender, isso raramente aconteceu.

Mas o filtro não era apertado, começando pela publicação aberta dos contactos que, se não servia para proveito comercial do jornal, era a via mais directa para o estabelecimento de laços no mundo físico dos leitores que contribuíam e de todos os que apenas liam. Laços afectivos e procura de correspondência tanto quanto procura de confronto. Noutro grau que vamos supor minoritário, também ódio e vingança. Um caso, pelo menos, gerou acção em tribunal: rapaz divulgou contacto da ex-namorada, acompanhado de palavras nada abonatórias que originaram vaga de telefonemas insultuosos. O pai da rapariga apresentou queixa contra o Blitz.

O acesso a música (gravação de cassetes e mesmo compra de discos em circuito paralelo ao das lojas) foi enorme aliciante nos Pregões, tal como a consolidação de um mercado informal de instrumentos musicais em segunda mão. Durante anos, não foi incomum recorrer-se a esquemas de contrabando para evitar as elevadas taxas aduaneiras ou simplesmente arranjar instrumentos ou equipamento inexistente em Portugal. Neste ano de 1985, o IX Governo Constitucional fez promulgar em Decreto-Lei a redução em 50% dos direitos de importação e eliminação da sobretaxa adicional. Reconhecia que «compete ao Estado promover e assegurar o acesso dos cidadãos à fruição e criação cultural, nos termos constitucionais. Os instrumentos musicais constituem meio inequívoco de estimular a criatividade e identidade cultural.»16

Até então era genericamente aceite que o aceso a instrumentos estava facilitado apenas para bandas filarmónicas e outras associações consideradas de promoção cultural. O Decreto-Lei entrou em vigor cerca de um mês após a assinatura do tratado de adesão de Portugal À CEE, prenunciava tempos de maior abertura e acessibilidade à informação e consumo (também cultural), inevitabilidade do progresso social.

Nas páginas do Blitz já se criava uma rede de cobertura nacional onde cultura se fundia com entretenimento e negócio privado, mas onde se estabeleceu também uma plataforma de desabafo e escape psicológico, promoção de personalidades, ideais, combates e protesto e sobretudo, entende-se ao ler com pormenor, a observação do fundo comum de humanidade simples, até banal, que permeia e sustenta a vida em sociedade.







29.5.26

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #121: António Sérgio, Joaquim Manuel Lopes, Nuno Diniz, Ana Cristina, José António Santos - "Rock Final"


 

autor: António Sérgio, Joaquim Manuel Lopes, Nuno Diniz, Ana Cristina, José António Santos
título: Rock Final
editora: Holuzam
nº de páginas: 72
isbn: N/A
data: 2026
1ª Edição - Segunda tiragem de 50 exemplares

Esta é uma reedição da versão original de Março de 1982, que também tenho e que está postado aqui.
A única diferença é na encadernação, esta lombada colada a original com argolas.
Esta edição tem ainda uma folha amarela e uma folha verde (reproduzidas abaixo) em que se contextualiza a reedição.

Rock Final
Número único - comemorativo dos dois anos de actividade do programa radiofónico "Rolls Rock", do pioneiro António Sérgio
72 páginas
Março de 1982
















Segunda tiragem: 50 exemplares

Holuzam, Abril 2026-05-26

(original – Março de 1982, também tenho, com encadernação em lombada de plástico preto com gavinha/argolas, meio rotativo.

 

…agora que a “ROCK FINAL” está feita, contemos um pouco da sua história. Tudo começou com o desejo expresso por um grupo de amigos e ouvintes da emissão do Rolls Rock, no FM Estéreo da Rádio Comercial, em obterem os textos que eram difundidos no programa. Mas mais ainda esses ouvintes e muitos de nós, sonhávamos com a hipótese dum periódico que fosse de informação musical alternativa, à pobreza infelizmente habitual nas publicações nacionais.

Em vez de se conseguir uma revista mensal, chegou-se, por empurrões de dificuldade financeira, à possibilidade de fazer uma revista com maior número de páginas que servisse de comemoração ao 2º aniversário do Rolls Rock, que reunisse a maior parte dos textos de grande impacto feitos durante 1981 e que, pelo facto de aparecer finalizada, pudesse abrir perspectiva para um órgão de imprensa musical como nós gostamos.

O pequeno núcleo de amigos lançou-se ao trabalho. Eles sabem que só no conteúdo poderão ter lançado a alternativa, já que no aspecto gráfico tiveram de bater-se com todo o tipo de dificuldades, tendo sido obrigados a optar pelo uso mais económico dum off-set, sem sequer usar composição tipográfica. Daí que ninguém possa encontrar nem cor nem arranjos gráficos de luxo nesta “ROCK FINAL”.

Mesmo assim algumas das páginas aqui incluídas traduzem bem o espírito criativo existente entre os que meteram mãos a este trabalho.

“ROCK FINAL” é portanto uma dedicatória marginal ao programa “Rolls Rock” e aos seus ouvintes. Daí não ter fins lucrativos e o preço de venda ser rigorosamente destinado a cobrir as despesas de arte-finalização e impressão.

Os que fizeram a “ROCK FINAL” esperam que a recepção seja boa, tal como esperam uma atitude crítica compreensiva por parte dos que dela forem leitores.

 

“ROCK FINAL” – contactos: Ana Cristina Barrento Pereira – Apartado 24 – Vila Franca de Xira.

Rolls Rock – Rua Sampaio e Pina, 26 Lisboa 1000 codex

 

FICHA TÉCNICA

Textos de António Sérgio, Joaquim Manuel Lopes, Nuno Diniz, Ana Cristina, José António Santos.

Colaborações de Ricardo Camacho e Zé Paulo.

Artes finais de Ana Cristina e Joaquim Manuel Lopes.

Compilado em Dezembro e Janeiro (81/82).

Os textos incluídos foram transmitidos de Fevereiro a Dezembro de 81, no “Rolls Rock” – Rádio Comercial FM Estéreo, de 2ª a 6ª das 20 às 21 e Sáb. das 22 às 24h.








5.1.26

D-GENERATION - magazine - #2 - 2025 - tem CD oferta [119]


 

à volta de Genesis P-Orridge

D-GENERATION


Issue #2


PLUS: Exclusive Bonus CD


Ultra-Mail Prod. 

Para saber mais pormenores sobre o CD, ver aqui: 
https://www.discogs.com/release/35301343-Various-D-Generation-II-CD-2-August-2025






papel brilhante e a cores, pesado, de luxo, pois.


Conteúdo

Artigo Assunto Autor Página

Confessions It began in the Autumn of 1976 Dorothy Max Prior 4

Controlled Bleeding Paul Lemos interview John Wisniewski 14

Val Denham Interview Carl Abrahamsson 18

The Final Academy A report Matthew Levi Stevens 36

A Short Friendship & Collaboration Genesis P-Orridge & Mark Perry Mark Perry 48

Butler's Wharf Photos of the event Kevin Thorne 56

Einstürzende Neubauten On film in the 80's Gary Parsons 58

Invocation TOPY Chicago Mikel Boyd 66

The Story Of... Third Mind Records (part 1) Gary Levermore 76

In Conversation With... Sinan Revell Chandra Shukla 84

Farmacia Working with Monte & Val Translated by Carolina Quiroga 90

CD Credits Information Various 94


D-GENERATION | VOLUME 1 | ISSUE 2

96 PÁGINAS

Agosto de 2025


ver abaixo imagem de contracapa da sleeve do sleeve CD de oferta


mas ok, eu digito mais qualquer coisa:

ALTERNATIVE TV - Terrified of Dogs (1979). All instruments/tapes by Dave George & Mark Perry. Previously included on the 'Back To Sing For Free Again Soon' cassette compilation, released by Fuck Off Records in 1979.

ATTRITION The Alibi. Words & music - Martin Bowes, Vocals - Martin Bowes, Yvette Winkler, Joanne Wolf, Elisa Day.

ATTRITION The Pillar. Muiasc - Martin Bowes, Vocals - Elisa Day. Subway train recorded at Ossington Station, Toronto.

CONTROLLED BLEEDING Live At Brooklyn Bazaar 9-28-2016. Paul Lemos - guitars, vocals / Chvad SB - synths, programming vocals / Michael Bazini - guitars, synths, programming vocals / Michael LaRocca - drums

DEAD VOICES ON AIR: DADU We Need Our Tyrants Whole, Skinned. Martin Harvey, Mark Spybey, Stephen Weatherall, Gary Widdowfield. Recorded 2024, North Yorkshire, EU.

VAL DENHAM The Body Rubicon. Val Denham & James Hardiman.

VAL DENHAM New York. Val Denham, Dr. Vanessa Sinclair & Pete Murphy.

FARMACIA ADN (with Monte Cazazza). Ariel Sima, music, additional keyboards / production; Diego Sima lyrics / vocals; Monte Cazazza, music, background. farmacia.bandcamp.com

POST DOOM ROMANCE Invocation. Seah and Mykel Boyd © 2024 post doom romance www.postdoomromance.com

TONE GENERATOR + THE BODY WITHOUT ORGANS Chemical Straightjacket. Tone Genrator & Scott Barnes

SINAN Dai Gah - sister, Don't Leave. Original music written and produced by Robert J. Revell. Lyrics & Vocals by Sinan Revell.

WE BE ECHO Out Of Time [fisrts mix]. Words & Music: Kevin Thorne







17.12.25

feld - magazine - #1 - 2025 - by Jörg Follert - tem compilação para download


 

feld 


magazine com compilação digital ou vice-versa

2025

nº 1




With Aki Tsuyuko... Andi Lemke... Anja Sackarendt... Catherine Norris

David Yates... Didda Jonsdottir... Dolly Dolly & Fogroom... Frieda Luczak

Jeannette Priolli... João Paulo Daniel... Knistern... Listening Center

Michael Hoepfel... Nobukazu Takemura... Paul Bareham... Plastic Moonrise

Raffael Dörig... Retep Folo... Simon Bridgestock... Sukhdev Sandhu

The Heartwood Institute... Volker Pantenburg


Aki Tsuyuko & Mole G Mussoco - Mole

Andi Lemke - Séance der Steine

Dolly Dolly & Fogroom - Geometric Shapes

Knistern - Zwischen rot und morgen

Listening Center - Uncertain Slopes

01 Saturn Aspect

02 Uncertain Slopes A

03 Uncertain Slopes B

04 Uncertain Slopes C

05 Uncertain Slopes D

06 Uncertain Slopes D

07 Uncertain Slopes E

Paul Bereham - Islander

01 Blackwater Composites

02 Clattering Halyards

03 St. Peter-on-the-Wall

04 Doomsday Across The Water

Plastic Moonrise 01 Islands of the Blessed

02 Lovesong (fortune)

03 Maggie

Retep Folo - Cell I

Simon Bridgestock - Another Threshold (Diptych)

The Heartwood Institute - Your Chances Of Survival


The music can be found here: https://bit.ly/Feld_music_2025


I am just a hint

When I had the idea for Feld, I wasn't thinking about something coherent and styllistically

homogeneous. There was just an urge to give expression to something still formless. A state

of entanglement, of connectedness and of apparent contradictions, perhaps. All I realized

quite quickly that I wanted to involve people who I value, who interests me or who has been

with me for a long time. Direct and indirect. With the inspiration that I owe them and because

 of their idiosyncrasies and the happy and surprised moments that they or their actions have

revealed to me. And because they were prepared to entrust me with their works, I can´t

 emphasize enough how happy that makes me. So the release of this magazine may seem a

rather loose mixture to some, but I suspect that it is more than that, I hope it´s an inspiration

and a place of possible associations. A blurring and a bit more clarity at the same time.

In any case, it is a search for a hidden structure that seems to work through the world and

how I sometimes sense it.


Jörg Follert (06/2025)


mail@joergfollert.de joergfollert.de


34 páginas A4 papel grosso - 100grs, tipo cartolina, não brilhante a cores. 











30.7.25

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #118: Vários - "man is the animal: a coil zine issue two"


 

autor: Vários
título: man is the animal: a coil zine - issue two
editora: Temporary Boundary Press
nº de páginas: 64
isbn: N/A
data: 2021
1ª Edição




Temporal Boundary Press

temporalboundary@gmail.com

“The boundary is undefined”


Published Winter solstice 2021


Copyright Temporal Boundary Press and individual contributors


Edit by Cormac Pentecost


Em Inglês


Papel brilhante e grosso de excelente qualidade, fotográfico.


Contents

Man is the Animal – 4

A Slip (or a Jump) In Beverley Road, by Nick Soulsby – 6

Letter to the Esoteric Order of Dagon, by John Balance – 13

Towards a Magickal Appreciation of Coil, by Patrick Weir – 15

Agapanthus: Four Poems for John Balance, by Jeremy Reed – 26

The Caosphere, by Stephen Sennitt – 34

Shakespeare, Jarman, Coil: A Conversation, by Cormac Pentecost – 40

Everything Keeps Dissolving, by Sheer Zed - 48




29.5.24

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #110: Gérard Nguyen + Xavier Béal et Pascal Bussy - "ATEM 1975-1979 - Une Sélection D'Articles Et D'Interviews"



autor: Gérard Nguyen + Xavier Béal et Pascal Bussy
título: ATEM 1975-1979 - Une Sélection D'Articles Et D'Interviews
editora: Camion Blanc
nº de páginas: 564
isbn: 978-2-35779-071-1
data: 2010
1ª Edição - Junho

1208

Gérard Nguyen

+

Xavier Béal et Pascal Bussy

ATEM 1975-1979

Une Sélection D’Articles E D’Interviews

CAMION BLANC

L’éditeur qui véhicule le rock!

© Camion Blanc, 2010

www.camionblanc.com

ISBN: 978-2-35779-071-1

Dépot legal: juin 2010

Couverture: Peter Hammill © Droites reserves

Illustrations: Droits reserves

Secrétariat de redaction et mise en pages: Gérard Nguyen

Livro em Francês.

Achvé

 

Na capa:

KEVIN AYERS

TIM BUCKLEY

CAN

KEVIN COYNE

NICK DRAKE

BRIAN ENO

FAUST

ROBERT FRIPP

PHILIP GLASS

PETER HAMMILL

HATFIELD & THE NORTH

HELDON

HENRY COW

HUGH HOPPER

MAGMA

JOHN MARTYN

NICO

STEVE REICH

THE RESIDENTS

SUICIDE

THIS HEAT

THROBBING GRISTLE

TOM WAITS

ROBERT WYATT

N/A

2010

(Junho)

1ª Edição

N/A

564

Artes / Música / Rock Progressivo / Crítica Musical / Música Popular / Artigos Musicais / Entrevistas Musicais / Recolha em Livro de Artigos saídfos em Fanzine / Fanzine ATEM / França

978-2-35779-071-1

Dépot legal: juin 2010




PRÉFACE

 

ATEM 1975-1979

 

«Chaque artiste, comme créateur, doit exprimer ce qui est propre à sa persone.

«Chaque artiste, comme enfant de son époque, doit exprimer ce qui est propre à cette époque (élément de Style dans la valeur intérieure).

«Chaque artiste, comme serviteur de l’art, doit exprimer ce qui, en général est propre à l’art (élément d’art pur et éternel qui n’obéit, comme élément essentiel de l’art, à aucune loi d’espace ni de temps.)»

Kandinsky, Principe de la Nécessité Intérieure

 

En 1975, à Nancy, une poignée des passionnés, aprés avoir organisé quelques concerts (Can, Hatfield and the North, Henry Cow, National Helath, Kevin Coyne, Keith Tippett with Hugh Hopper & Elton Dean…), créent le fanzine Atem qui se veut une ouverture sur les musiques Nouvelles ou de traverses. Seize numerous et plus de mille abonnés plus tard, en 1979, le fanzine cessera sa parution, sans avoir oerdu un seul centime.

 

Dábord tire à 2000 exemplaires, distributes via le réseau des disquaires et libraires sympathisants, les trois derniers números seront tirés à 7000 exemplaires, mis en pages à Libération, distribués par les N.M.P.P. (Nouvelles messageries de la presse parisienne) et vendus à environ 5000 copies.

 

Un fanzine, avec tous ces excès, ses partis pris, un magazine de fans, non profissionnels, tape sur une machine à écrire Japy avant la machine IBM à boules. On se savait pas qu’il y aurait un jour les ordinateurs et la P.A.O., de la musique en CD, en MP3, à télécharger etc.

Bref, que les good old days seraient bientôt derrière nous…

 

Je me souviens qu’à l’époque, les disques n’avaient pas de code-barres, que les directeurs artistiques (A&R) n’étaient pas encore devenus des chefs de produit, que les disquaires ne pratiquaient pas encore la V.A.O. (vente assiste par ordinateur), que la plupart des disques incontorunables sortaient sur les amjors et que ce n’était pas l’ordinateur qui décidait de ce qui devait être dans les bacs des disquaires…

 

Je me souviens du Moulin de la Vierge, à Paris, une boulangerie du 14ème arrondissement, où l’on pouvait trouver dans l’arrière-boutique des imports simplement rangés dans ces cartons posés À même le sol (les premiers Virgin – Hatfield, Henry Cow, Lady June…, les beaux disques de chez Island – Nico, Nick Drake, John Cale, Eno, Kevin Ayers…) et où j’ai rencontré ceux qui allaient faire partie du noyau dur de Atem: Pascal Bussy et Xavier Béal; de Givaudan (Bd St Germain), Music Action (Carrefour de l’Odéon), de l’Open Market (rue des Lombards), et de Sirènes (Montpellier), où l’on trouvait les imports de Pearls Before Swine, de Tim Buckley, de Neil Young, du Velvet Underground… les premiers Ze Records et tous les singles de chez Lust/Unlust…

 

Je me souviens des bureau de Virgin Records, à Portobello Road où, sans prevenir, avec le premier numéro à la main, on avait obtenu en moins de quinze minutes des rendez-vous avec Kevin Coyne, Henry Cow, Hatfield and the North et meme avec Kevin Ayers et Mike Ratlege qui n’étaient pas de la maison… et parlé au telephone avec Robert Wyatt… et des packs de bière descendus avec Kevin Coyne qui, à la fin de l’interview avait dit: «Et si on allait au pub du coin boire quelques verres?»

 

Je me souviens d’un coup de Téléphone à six heures du matin de quelqu’un qui s’est prénsenté comme l’un des Residents et qui m’a demandé de le retrouver le soir même au Palace: c’étai bien l’un des Residents (secret professionnel, sans prescription)…

 

Je me souviens de Charles Bullen et Gareth Williams (This Heat) insistant pour faire la vaisselle, après avoir déjeuné dans le petit apartment où je vivais À Saint-Maur-des-Fossés… pas loins de chez Jean-François Bizot, qui me disait alors qu’il pensait relancer Actuel…

 

Je me souviens du concert d’Henry Cow avec le Mike Westbrook Orchestra sous le nom d’Orkhestra, au Regent’s Park de Londres et, le lendemain, du tea time chez Robert Wyatt, À Twickenham, avec Alfie, Bill McCormick, Hugh Hopper et… Julie Christie (Julie Christie!)…

 

Je me souviens du concert de Captain Beefheart, à l’Hippodrome (Paris), en première partie de Mouloudji et de François Mitterand…

 

Je me souviens aussi d’Alain Dister, de Kevin Coyne, Nic o, Pip Pyle, Elton Dean, Gareth Williams, Lady June, Ivor Cutler, Chris McGregor, Mongezi Feza, Michael Karoli, Hugh Hopper, Gary Windo, Ian Carr, Snakefinger, Hector Zazou, Daniel Caux, Jean-François Bizot, Jean-Pierre Lentin, Dominique Buscail (Freebird), Michel Grèzes (Tartemption), Masashi Kitamura (Fool’s Mate, Japan)… Ce livre leur est dédié.

2008-2010

La selection des articles a été faite de manière compètement arbitraire, la seule restriction étant celle du nombre de pages de ce livre. Tous ces articles ont été retapés `l’ordinateur et n’ont subi aucune coupe. Quelques fautes ont été corrigées (il doit bien en reste quelques-unes), quelques phares ont été remises dans le bom ordre et j’ai essayé de respecter quelques règles typographiques, chose impossible À l’époque. Voilà, tels quels, quelques articles etr entretiens qui ont plus de trente ans, inclus quelques inédits (Robert Frpp, Frippertronics, Can) censés paraître dans le numéro 17.

Gérard Nguyen, avril 2010

Atem.magazine@gmail.com

 

 

Un grand Merci

À Xavier Béal et Pascal Bussy,

À tous les collaborateurs réguliers ou occasionnels de la revue: Antoine Lengo, Richard Pinhas, Klaus Blasquiz, Hector Zazou, Ferdinand Richard, Sabine Troncin, Chris Cutler, Tim Hodgkinson, Michel Venchiarutti, Pascal Desassis, Jean-Marc Bailleux, Bruno Fisson, Jean-Baptiste Barrière, Philippe Caraguel, Patrick Geschlecht, Jean Martin, Michel Lousquet, Oliver Cossard, Jean-Louis Verdier, Jean-Pierre Morisset, Keneth Ansell, Malcolm Heyhoe, Jea-Noel Ogouz, Pascal Comelade, Emmanuel Mainesse, Jean-Pierre Silvestre, Alain Mikowski, Francis Juif, P. & Y. Hervé, Olivier Crossard, Tom Carson…

 

À Jackie Berroyer, Patrick Plunier (Festival Musiques de Traverses de Reims), Georges Leton, Francis Falcetto, Serge July, Jacques Pasquier, Gilles Verlant, Antoine de Caunes… pour leur soutien divers.

 

À Steve Feigenbaum (Wayside), Archie Patterson (Eurock), Fred Frith qui m’a présenté À Bill Laswell et Martin Bisi e m’a offert son hospitalité À New York, À Chris Cutler qui ma prêté son vélo pour aller À Cold Storage avec Charles Bullen de This Heat, et À Robert Wyatt, notre supporter sans faille, without whom…

 

Et à tous les distributeurs…

… Si nous n’avons pas fait ce que nous aurions pu faire, au moins nous avons essayé…

2010: merci À Corinne Guillaume, Jacques Peltre, Philippe Djanoumoff, Fabrice Revolon e Sébastien Raizer…

 

SOMMAIRE

AGITATION FREE – P.15

KEVIN AYERS: Interview – P.27

TIM BUCKLEY: Greetings for Tim Buckley – P.37

CAN: Interview – P.57

INGRID CAVEN – P.73

CHROME – THROBBING GRISTLE – P.75

KEVIN COYNE – P.85

KEVIN COYNE – My message to the people – P.99

NICK DRAKE – P.111

BRIAN ENO 1 – P.115

BRIAN ENO 2: Obscure Records – P.129

BRIAN ENO 3: In New York – P.147

FAUST – P.167

ROBERT FRIPP – Interview – P.183

ROBERT FRIPP: Frippertronics – P.193

PHILIP GLASS – Interview – P.197

PETER HAMMILL: La colère de Dieu – P.215

PETER HAMMILL: Jericho’s strange – P.231

PETER HAMMILL: Vision – P.237

PERTER HAMMILL: Le hall des mirrors – P.251

HATFIELD AND THE NORT – P.257

HELDON – P.273

HENRY COW: L’histoire (Presque complete – P. 283

HUGH HOPPER: Hopper tunity – P.331

MICHAEL HURLEY – P.343

INCREDIBLE STRING BAN – P.349D

KRAFTWERK – P.357

LARD FREE – URBAN SAX: Interview – P. 363

MAGMA: Interview – P.371

PHIL MANZANERA – P.389

ALBERT MARCOEUR – P.396

JOHN MARTYN – P.403

NICO – P.421

YOKO ONO – P.443

PEARLS BEFORE SWINE – P.459

STEVE REICH – P.469

THE RESIDENTS – P.479

BRIDGET ST JOHN – P.493

SUICIDE – P.501

THIS HEAT – P.509

TOM WAITS – P.517

ROBERT WYATT: Interview – P.531

ROBERT WYATT: Mon Top Ten – P.537

ZnR: Hector Zazou and Joseph Racaille – P.547




 





13.2.24

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #107: David Elliott - "Neumusik - The Complete Edition"


 

autor: David Elliott
título: Neumusik - The Complete Edition
editora: Korm Plastics
nº de páginas: 428
isbn: N/A
data: 2023



Capa:

NEUMUSIK

THE COMPLETE EDITION

DAVID ELLIOTT

 

Contracapa:

Neumusik – The Complete Edition contains all six issues of the UK-based fanzine which existed between 1979-82. The ‘zine focused on European, electronic and experimental music which had come out of krautrock, French progressive rock and the more esoteric side of British post-punk.

 

KORM

PLASTICS

 

Contents / Índice

Introduction – 7

Neumusik 1 Nov 1979 – 9

Neumusik 2 March 1980 – 41

Neumusik 3 July 1980 – 103

Neumusik 4 Jan 1981 – 187

Neumusik 5 July 1981 – 257

Neumusik 6 April 1982 – 329

YHR Cassettography – 411

Index – 416

Colofon – 422

 

428 páginas

 

Introduction

Neumusik fanzine

European, electronic and experimental music

 

Between 1979 and 1982, I edited a UK-based fanzine called Neumusik about European, electronic and experimental music. It was quite basic, put together with staples, glue, love and innocence. There were only six issues but, aside from the first, each one run to 60-80 pages. There were other ‘zines out there, covering similar musics, some more sophisticated, some less so. But I was lucky enough to be geographically very close to the ‘scene’ which at the time, for me anyway, centred around West Germany and France. Indeed, I lived in Strasbourg on the border between the two countries for some of that time.

This book contains all six issues, reproduced as they originally looked, for better or worse. The writing is often naïve, even embarrassing, mine included, but it was fun. Those were invigorating, formative, creative times for me, and I look back on them with fondness.

Late 1970s / early 1980s Britain was awash with fanzines. Punk had been an energy-force which urged, even incited, people to form bands – or if not form a band, then to write about them. You didn’t have to be adept. Substitute guitar, bass and drumkit with typewriter. Pritt stick and photocopy machine; add some passion and attitude, and you were all set. Just do it, as Nike would later say.

Most punk ‘zines were short-lived with tiny print-runs, but some went on to become quite famous: Sniffin’ Glue, Ripped & Torn, In The City, 48 Thrills, London’s Outrage etc.

It´s often said that fanzines were the result of a perceived vacuum – that the British music press wasn´t writing about punk. That might have been true in 1976, but by the following year they’d caught up – certainly Sounds and New Musical Express had. Personally, I think it was less about a vacuum and more about t he heady opportunity to express oneself, simply and immediately.

As a schoolkid at the time, I was less into the music of punk, which was somehow retro, sped-up rhythm and blues, but loved its irreverence and revolutionary zeal. I was more into the weirder, more experimental scene which seemed to follow in its wake – groups like Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire, This Heat, Suicide and The Residents. (Actually, these bands had formed in the early 70s, even if most of their debut releases coincided with punk). I was also into Eno, Bowie and still some prog-rock, despite the latter being on the wane. Seemingly overnight, schoolfriends were split into followers of old wave and new wave and you were looked upon with suspicion if you liked both, which I did. By the end of the decade, there was also the forward-looking synthpop of Human League and OMD to appreciate.

But actually, what I was particularly into at the time was krautrock – or to be more accurate, ‘eurock’, as it was termed by a small coterie of fans. For me, it stemmed from a fascination with continental Europe and its kind of intoxicating ‘otherness’. As a child in the early 70s, it was Jeux Sans Frontières and repeats of Belle and Sebastian on TV, Tintin and Asterix comic books, and camping holidays in France. As a football fan, I loved the glamour of European club matches: midweek evening games, Borussia Mönchengladbach, Cruyff.

Then, as I became a teenager in the mid-70s, krautrock bands like Tangerine Dream, Kraftwerk, Klaus Schulze, Can, Faust, Neu!, Popol Vuh, Ash Ra Tempel, Cluster and others began to vie for my attention, usurping the likes of King Crimson, Yes and Pink Floyd. It was more of that ‘otherness’. Most people would say that, like prog, krautrock’s heyday was the early 70s. That’s true, but I also liked its later, less critically praised – even dismissed – era from say 1975-80. In part this is because it perfectly coincided with my teenage years, the time when one’s musical education is at its most receptive, and partly because the scene was becoming less trippy and more crafted, as well as taking advantage of the leaps and bounds that electronic instrumentation had made. A good example of the divide is that, whilst I loved Ash Ra Tempel, I preferred Ashra’s New Age of Earth and Blackouts. And still do. I started getting into French bands too: especially Heldon, but also Magma, Lard Free, Urban Sax, Etron Fou Leloublan, ZNR, Bernard Szajner, etc.

Unlike punk and post-punk, German and French new music really wasn´t covered by the British national music press. There might be the occasional review (which I treasured, cut-out and stored), and you might catch the odd track on John Peel (which I recorded on an old reel-to-reel tape deck), but it was scant. And then there was the task of buying the records once you were aware of them. It helped that Virgin, Island and United Artists were releasing a few of the artists, but beyond that it meant tracking down labels like Brain, Sky, Egg, Cobra, to name the better-known ones, through a mysterious network of UK distributors and mail order companies like Making Waves and Lotus Records.

 

But back to the fanzines… In my last couple of years at school, I began to hunt for ‘zines which covered eurorock to a greater or lesser degree. Oddly enough, the first one I stumbled upon was American, the appropriately named Eurock, which had been around since 1974. It looked quite professional, borderline fanzine/magazine, and had a bit of distribution in the UK, so I managed to get hold of some back issues and make contact with its editor, Archie Peterson.

Next up was Face Out and Aura, both debuting in 1978. These were classic British fanzines: barely designed, roughly printed, the former with no pictures, just dense utilitarian text. Face Out ran to eight issues. Aura four. But they were treasure troves of information, including where you could buy the albums they reviewed. I wrote to the editors and immersed myself in a whole new world of alternative networks. They were what got me started on thinking of doing my own fanzine.

In 1979 I came across French publication Atem, probably trough its parallel record label which had recently started releasing albums by Univers Zero and Art Zoyd. It was quite plush, more magazine than fanzine, and balanced the French scene with a lot on British and American alternative music. (Much later, in 2010, a book, Atem 1975-1979, collected nearly 50 interviews from its pages, but only a few were with French artists). From there I tracked down Dominique Grimaud’s Un Certain Rock (?) Français, a two-volume compendium of French rock covering 1968-77, an era almost as defined as krautrock’s heyday, but less well-known. Although its two glossy monochrome covers hinted at a sophisticated graphic design inside, the page spreads were actually a riot of fanzine cut’n’paste. It was kind of hard work, but if you persisted, you’d be rewarded with a whole new world of music. (For some reason I never met Grimaud, or Grimo as he was known, although I liked and reviewed his later band Videó-Aventures). Oh, and I should also mention Impetus, a UK ‘zine which was a bit like Atem, or vice-versa. A kind of precursor to The Wire.

In the autumn of 1979, I left home for Sussex University. It was a cathartic first term. The sense of freedom, free time and (in those lucky, far-off days) full student grant allowed me to indulge in musical interests – rather more than academic ones to be honest. So, in those first 10 weeks, inspired by all above, I started a fanzine, which I called simply Neumusik. It had a tagline – European, Experimental and Electronic Music – although I didn’t use it much. I also hosted a campus radio show, again called Neumusik; formed a ‘group’, MFH, with fellow student Andrew Cox, and a label, York House Recordings (YHR), to release the weird bedroom doodling that resulted, as well as cassettes by other artists.

Neumusik lasted two and a half years and six issues, the last of which came out in April 1982. Apart from the first issue, the rest were quite substantial – between 60-80 pages. This sounds a bit mad for a fanzine but seemed totally logical at the time. All six are reproduced in the following pages. A few of the photos in #6 heve been corrected but otherwise they are as they were, warts and all. They seem very amateur, almost quaint now. But they were enjoyable to do and began a need in me to document stuff, cultural ephemera, in due course through exhibitions and books. I’ve also added some words and pictures to introduce each issue, continue the narrative and break up the page spreads.

A big thank you to Frans de Waard for suggesting we do this book. It was a pleasant surprise and an honour to collaborate. Also to designer Bertin van Vliet who was done wonders transforming the poor originals into something readable.

Thanks also to all those who contributed to Neumusik at thye time: to stalwarts Wolfgang Fenchel and Gary Scott (40+ years later, I remain good friends with both); in memorian to Andrew Cox, partner-in-crime at the beginning; and to all those who penned articles or reviews: Jeaan-Baptiste Barrière, Philippe Bouillin, Pascal Bussy, Jonathan Coleclough, Patrick Daniels, Steve and Alan Freeman, Andy Garibaldi, Pierre Grimaud, Gordon Hope, Gunter Korber, Dave Lawrence, Clive Littlewood, A Newton, Gerard Nguyen, Tim Owen, James T Parker, Archie Patterson, Barry Pikesley, Colin Potter, Mark Shreeve, Jane Spooner, Anthony Thomas, Mark Valentine, Kim Wood. And all those who gave time to be interviewed.

And finally, hats off to the editors of several other early 1980s likeminded fanzines, which to a greater or a lesser extent, covered eurorock and the experimental synth and industrial scene in UK and USA, Kudos to Martin Reed’s Mirage (UK), Thom Holmes’s Recordings (USA), Gordon Hope’s Strange Sounds (UK), Ian Dobson & Gordon Hope’s Flowmotion (UK), Bruno Chapoutot’s Notes (France), Wybo Goslinga’s Sonic Report (Netherlands), Jarl-Hugo Lastad’s Agitasjon (Norway), Alberto Crosta’s AND (Italy), John Loffink’s Surface Noise (USA), Dennis & Jeanette Emsley’s Inkeys (UK) (which was actually a cassette rather than a printed ‘zine), François Grapard’s Synthesis (France), Andreas Müller’s Datenverabeiting (Germany), and last but definitely-not-least, Steve and Alan Freeman’s phenomenally-enduring Audion started in 1986 and is still going.















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