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20.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (18)


DN - Diário de Notícias
29 Junho 2002

Discos Pe(r)didos


Emigrado para França depois de uma recusa em combater na Guerra Colonial, Luís Cília é um entre uma “família” de músicos portugueses que desviam de Lisboa para Paris o palco de criação de alguns dos mais importantes discos que a língua portuguesa conheceu na década de 60. É em Paris que conhece figuras como as de Paco Ibanez, Colette Magny, Georges Brassens, Luigi Nono... É também em Paris que enceta a sua obra discográfica, com o fundamental “Portugal-Angola: Chants de Lutte” (editado em 1964 pela Chant du Monde).
Ainda durante a década de 60 edita “Portugal Resiste” (um EP) e os três álbuns da série “La Poèsie Portugaise”. Em 1969 assina “Avante Camarada”, canção que, gravada por Luísa Basto, se transformaria depois no hino do PCP. E, ainda antes do regresso a Portugal, grava e edita “Contra A Ideia da Violência, a Violência da Ideia”, disco que assinala o seu reencontro com a Le Chant du Monde.
Quatro dias depois do 25 de Abril, Luís Cília regressa a Portugal e logo causa polémica ao afirmar que Alfredo Marceneiro era um cantor revolucionário. A ligação que era feita, pela turba revolucionária, entre o fado e o regime deposto, não permitia a aceitação deste tipo de opinião de bom grado.
A demarcação mais efectiva ainda de Luís Cília face a alguns excessos desses tempos ganhou forma naquele que foi o primeiro álbum editado após a revolução. Sem embarcar na multidão que então fazia do canto de intervenção a linguagem musical do Portugal de todos os dias, Luís Cília procura reunir num disco uma colecção de romances antigos, os mais recentes datados do século XIX, os mais remotos do século XIII!
Para o processo de recolha não recorreu aos trabalhos de Michel Giacometti e Lopes Graça (duas referências já devidamente reconhecidas), mas antes a uma busca em nome próprio, para tal socorrendo-se do acervo da biblioteca da Fundação Gulbenkian em Paris, na qual consultou uma série de cancioneiros. De uma série de trabalhos de recolha que vinham de antes do 25 de Abril nasceu a ideia de um álbum que, no agitado 18«974, rumou então contra a corrente.
Para a concretização do projecto, Luís Cília regressou a Paris. Por companhia levara, de Portugal, o produtor executivo José Niza, nomeado pela Orfeu, com quem o músico havia assinado. Na capital francesa tinha todos os músicos que julgara necessários para dar forma ao projecto. Em primeiro lugar o guitarrista clássico Bernard Pierrot, que Cília conhecia por ter sido, também, aluno do seu professor de composição Michel Puig. Pierrot assinou os arranjos e, com o seu grupo de música antiga, participou na gravação de “O Guerrilheiro”, cujas sessões tiveram lugar nos estúdios Sofreson, em Paris.
Disco esquecido, importante registo de referência de uma atitude muito particular perante a recolha do legado da música tradicional portuguesa, “O Guerrilheiro” deu à Intersindical o seu hino, mais concretamente na música do tema-título (originalmente uma canção alentejana do século XIX, aparecida em 1852, por ocasião das lutas civis de Patuleia e Maria da Fonte).
Oito anos depois (em 1982), Luís Cília voltou ao estúdio, onde regravou as partes vocais do álbum que, então, a Sassetti reeditou com o título “Cancioneiro”. Todavia, nem esta versão de 1982, nem a histórica versão original, tiveram ainda luz verde para a reedição em CD.
Teremos ainda de esperar muito?
N.G.

LUÍS CÍLIA 
“O Guerrilheiro” 
LP ORFEU, 1974
Lado A: “O Adeus d’um Proscrito”, “O Conde Ni#o”, “Flor de Murta”, “A Guerra do Mirandum”, “O Conde de Alemanha”; 
Lado B: “D João da Armada”, “Canção do Figueiral”, “D. Sancho”, “O Guerrilheiro”
Produtor delegado: José Niza






18.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (16)



DN - Diário de Notícias
27 Julho 2002

Discos Pe(r)didos


Tal como o californiano Darin Pappas nos anos 90 (ver entrevista ao lado), Sheila Charlesworth encontrou em Portugal os estímulos que a levaram a encetar uma carreira na música. Nascida em Toronto (Canadá) em 1949, viveu parte da infência e juventude em Montreal, onde conheceu os primeiros sucessos como actriz e modelo.
Por ocasião de uma viagem a França, em 1970, assiste em Paris a uma representação do musical «Hair», e algum tempo depois faz parte do elenco, como actriz. É aí que conhece Sérgio Godinho, com quem terá uma relação pessoal e em quem conhecerá um importante parceiro musical. Em 1971, Sheila participa nas gravações de «Os Sobreviventes», álbum de estreia de Sérgio Godinho, no qual surge depois creditada com «coros, sanduíches e amor».
Com Sérgio Godinho vive, então uma série de episódios históricos. Juntam-se ao Living Theatre (com o qual vivem o «caso» brasileiro de 71, com dois meses de prisão em Ouro Preto), residem temporariamente em Amsterdão, regressam a Paris para gravar «Pré-Histórias» e, em 1972, partem para o Canadá onde casam e se dedicam ao teatro.
Já com a filha Jwana, o casal regressa definitivamente a Portugal. Sheila colabora então numa série de discos: «À Queima-Roupa» (Sérgio Godinho, 1974), «Semear Salsa Ao Reguinho» (Vitorino, 1975), «De Pequenino Se Torce O Destino» (Sérgio Godinho, 1976), «Fernandinho Vai Ao Vinho» (1976)...
Em 1977 grava finalmente, então já com o nome artístico de Shila, um álbum de canções que conta com um lote de colaboradores de luxo já que, além de Sérgio Godinho, estão presentes Fausto, Carlos Zíngaro, Júlio Pereira, Paulo Godinho (ex-Pop Five Music Incorporated), Guilherme Scarpa, Francisco Fanhais e uma bem jovem Eugénia Melo e Castro. O disco, que receb por título «Doce de Shila» é um magnífico conjunto de canções, a maior parte delas da autoria de Sérgio Godinho (duas em colaboração com Carlos Zíngaro, uma num trabalho conjunto de adaptação de um tema popular com Fausto), uma de Júlio Pereira e uma de Fausto (sobre poema de Reinaldo Ferreira). Os arranjos são assinados por Godinho e Fausto, à excepção de «Entre a Flor e a Enxada», de Júlio Pereira.
Tiveram particular exposição os temas «Chula» (tradicional, com letra adaptada e transformada por Sérgio Godinho e Fausto, dando origem ao conhecido refrão «P’ra melhor está bem está bem / P’ra pior já basta assim») e «Mais Um Filho». Contudo, o «caso» deste álbum será inevitavelmente o tema de abertura: «Espectáculo». Esta corresponde à primeira gravação de um tema que Sérgio Godinho gravou, mais tarde em «Canto da Boca» e que, recentemente, conheceu nova leitura na colaboração com os Clã para o espectáculo (e disco) «Afinidades». Um ainda suave e delicioso «sotaque» pontua, todavia, esta versão original de Shila, num momento histórico ainda à espera de passaporte para a era digital.
Nos anos seguintes, Shila gravaria ainda o álbum «Lengalengas e Segredos» (editado em 1979) e ainda alguns singles. Dedica-se essencialmente ao teatro antes de, já em 1990, abandonar definitivamente a vida artística.
N.G.

SHILA
«Doce de Shila» 
LP, Lá Mi Ré (1977)
Lado A: «Espectáculo», «Chula», «Doce de Shila», «Mais Um Filho», «Entre a Flor e a Enxada»;
Lado B: «Rapa Tira Deixa e Põe», «Parteira do Mar», «Dança de Amargar», «Rosie», «Gente Assim».

Engenheiro de Som: José Fortes






21.7.13

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #33: Sérgio Godinho e Arnaldo Saraiva - "Canções de Sérgio Godinho"


autor: Sérgio Godinho e Arnaldo Saraiva (estudo crítico e notas)
título: Canções De Sérgio Godinho
editora: Assírio & Alvim
nº de páginas: 192
isbn: N/A
data:1977




sinopse:

A Canção E a Canção de Sérgio Godinho
Aqui e agora, a canção é, ainda, sinal de divisão. Há os que, fanáticos, mesmo que não inscritos em fan-clubes, não podem ou não sabem viver sem ela: os que por ela se colam ao transístor, ao rádio, à televisão, ao pick-up, ao gravador, ao juke-box; os que morreriam se perdessem, ao vivo ou em transmissão, um festival, um music-hall, um serão para trabalhadores, um canto livre (ou equivalentes), um programa de discos pedidos; os que sabem tudo da vida e da obra de um (de uma) cançonetista; os que, sós ou em grupo, no trabalho ou no descanso, parados ou em viagem, ao ar livre ou em casa, não passam uma hora sem trautear, cantarolar, interpretar as velhas ou as novas canções da moda.
Mas há também os que recusam a canção - por vezes com um fanatismo que pede meças ao dos que a defendem: os que a acham (só) ligeira, banal, medíocre, repetitiva, cansativa, deseducativa, alienante.
Não é difícil dar o nome geral de uns e outros, que aliás se dividem também perante outras produções que circulam na sociedade de consumo: as massas - e os intelectuais; as pessoas vulgares - e as élites. [...]






12.1.12

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #7: Vários - "Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa (1960-1997)"


Este nem deu para scanear completamente, pois tem um formato esquisito, algures entre o A4 e o A3.
Vai mesmo "cortado" pois dá para ver o essencial.

autor: Vários
título: Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa (1960-1997)
editora: Público/FNAC
nº de páginas: 144
isbn: 972-8179-26-X
data: Julho de 1998




Os vários autores são: Rui Catalão, Jorge Dias, Marta Duarte, Fernando Magalhães, Luís Maio e Nuno Pacheco.
Os álbuns recenseados são mais de 100.

sinopse:
Apresentação
Desde os seus primeiros passos como projecto jornalístico que o Público procurou dar especial atenção à música, vendo nela um importante factor de cultura e de comunicação e não apenas, como outros o faziam e ainda fazem, de simples entretenimento. Por isso, desde a edição do seu primeiro número, a 5 de Março de 1990, que o Público mantém suplementos onde a música está presente não só na sua relação com o mercado mas também na evolução das mais variadas correntes e tendências estéticas: primeiro o "Vídeodiscos", depois o "Pop Rock" e por fim o "Sons2. Em todos eles se procurou desenvolver um olhar crítico e atento sobre a produção musical nas mais variadas latitudes, antecipando, sempre que possível, nomes promissores ou potenciais fenómenos em evolução. Uma postura que nos obrigou quase sempre a privilegiar o futuro em detrimento do passado. Mas como o futuro rapidamente se transforma em passado, na voragem das épocas e das modas, há um tempo em que é preciso olhar para trás e ver o que ficou que valha a pena. Foi o que fizemos, um dia, ao ousar um balanço qualitativo da música popular portuguesa através dos seus melhores álbuns e desde os alvores do vinil. Não foi fácil a escolha, dada a necessidade de, por um lado, privilegiar o valor intrínseco de cada obra e, por outro, não deixar de fora correntes minimamente representativas destas quatro décadas. Mas fizemo-la, nas páginas do então "Pop Rock". Hoje, ao olhar para trás e ao reler estes textos escritos à volta de discos que fazem parte da nossa memória colectiva, gostaríamos que o livro que agora se edita, em frutuosa colaboração com a FNAC, não fosse visto como uma obra acabada mas sim como um contributo, entre outros, para aproximar cada leitor do universo da música popular em Portugal.
Nuno Pacheco
Director Interino do Público




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