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10.7.19

Memorabilia: Audion #46 (feat.) Karlheinz Stockhausen


Revista / Fanzine
Audion
Nº 46
Verão de 2002
44 páginas A4 (A3 dobrado e agrafado ao meio) - brochado
Muito boa apresentação
Capa e Contracapa a 2 cores Creme / Preto
Interior a Preto e Branco




Índice



Chris Conway assiste...

3 Concertos de Stockhausen

Karlheinz Stockhausen Electronic Festival
no Barbican Centre, Londres
13 a 18 de Outubro de 2001

Decidi tratar-me bem e assistir a um fim de semana completo de Karlheinz Stockhausen. Tinha falhado o Hymnen, devido a estar a trabalhar na altura, mas havia ainda muito para ouvir. Para começar, o foyer tinha uma instalação sonora pelo membro dos Can, o Irmin Schmidt, aqui com o Kuomo. Sons electrónicos filtrados sobre um enorme número de altifalantes, espalhados por todo o espaço, o que realmente funcionava beme colocava os espectadores na onda para o festival. Também tinham o filme "In Absentia", pelos Quay Brothers com música (Zwei Paare) do Stockhausen (recentemente exibido na BBC) em loop permanente, numa sala pequena, o que era excelente - Eu vi-o uma série de vezes enquanto esperava pelos espectáculos. Raramente tenho visto filme e música tão bem combinados entre si.

Fui a três concertos em dois dias...

Cenas Da Luz
Não era para ter ido ver este espectáculo, mas estava sem nada para fazer e em Londres... e o bilhete era barato, apenas 6£. Também queria ver o génio do trompete, Markus Stockhausen, pois já não o via actuar há algum tempo, e sou grande fan. Karlheinz Stockhausen apareceu e deu uma explicação sobre o que iríamos assistir - vestido num fato branco e algumas hesitações no seu inglês, mas as suas notas foram importantes para interpretar o que iríamos ver e ouvir.
A primeira peça era para um solo de entrada de Markus, Entrance and Formula, pequenas peças da obra THURSDAY FROM LIGHT. Markus estava vestido de uma forma negligente em veludo azul e com uma camisola com o símbolo do Michael estampado. Alternando 4 diferentes silêncios obtendo um belo efeito. Depois foi a vez da peça para piano Klavierstuck X, que não conseguiu manter o meu interesse por muito tempo. Consigo perceber o ponto em utilizar as cordas sustenidas e em grupo, mas penso que a duração foi demasiado longa e, talvez apenas para mim, pareceu-me um pouco datado. Depois do intervalo veio então o grande tratado da tarde - Mission e Ascension para trompete e trompa tocados por Markus e uma muito bela Barbara Bouman. Estas peças são também de THURSDAY FROM LIGHT e eu estava familiarizado com elas através da edição de MICHAEL REISE para a ECM. Os protagonistas tocaram as partes à medida que tocavam a música e houve uma grande interacção entre eles, o que encantou a audiência. A última peça era estilisticamente não muito dissimilar pois também era para trompa (tocada por Suzanne Stevens) e flauta (Kathinka Pasveer) e era de MONDAY FROM LIGHT. De novo os intérpretes apareceram com vestimentas exóticas e tocaram e actuaram as várias partes através da música. Eu cometi o erro de não ter lido antecipadamente o programa acerca desta peça o que tornou muito difícil o acompanhamento da história.

Música Electrónica
Nessa mesma noite com apenas um pouquinho de tempo para beber uma vodka ou duas no bar, começou a performance de música electrónica, de um dos primeiros "estudos" de Karlheinz Stockhausen, de 1953, até Telemusic, de 1996. O Professor Stockhausen (quase parecendo um cientista) introduziu a primeira peça Electronic Study I (ele veio cá abaixo, saindo da mesa de mistura, para introduzir cada peça). Foi a primeira peça totalmente sintetizada a ser feita apenas a partir de ondas sinusoidais. Para mim foi mais de interesse académico assim como o Electronic Study II, que foi diferente devido à utilização de novas escalas e envelopes musicais. Foi interessante ouvir a explicação acerca das técnicas e do que está por trás do resultado final.
Depois foi a vez de uma peça que eu há muito andava à procura de ouvir ao vivo - Gesang Der Junglinge onde os sons electrónicos se misturam com uma voz juvenil e a primeira peça onde Karlheinz utilizou arranjos sonoros espaciais - de modo que os sons flutuavam à volta de toda a sala. Karlheinz recomendou a todos que fechassem os olhos quando ouvem música espacial e WOW! Confesso que subestimei o efeito 3D. Depois foi a vez de Telemusik, que utiliza world music como fonte sonora parcial e um anel de moduladores que fez, para muitos, um zunido de frequências - também usou o efeito espacial o que foi maravilhoso.
Depois do intervalo chegou o tempo de apresentar o mais pesado Kontakte, que tomou conta de toda a segunda parte. Utilizou pulsos electrónicos como a sua fonte de material e usou também efeitos rotacionais que Karlheiz Stockhausen gravou com um altifalante rotativo rodeado de microfones. Quanto à música achei-a um pouco seca, mas os seus efeitos 3D foram incríveis e têm de ser ouvidos para se acreditar. Ouvir um som de besouro a andar dentro da tua cabeça no sentido dos ponteiros do relógio, enquanto um som de um zumbido roda no sentido contrário é uma experiência realmente incrível.
Karlheinz foi muito simpático e desta forma consegui um autógrafo como um verdadeiro e triste fan. Também conheci o Markus que estava na audiência e obtive o seu álbum de duetos ao vivo CLOSE TO YOU (que é excelente e obtenível a partir do seu website www.markusstockhausen.com). Ele contou-me que não tinha planos para mais trabalhos com Terje Rypdal e que o último álbum que gravaram juntos foi todo gravado á primeira numa única sessão toda de seguida. Também não tem planos imediatos para um álbum futuro com o seu irmão Simon, o que é uma pena pois eles fazem grande música em conjunto. Um bom dia de audições e aquele buzzing está ainda dentro da minha cabeça a rodar, a rodar...

Sexta-Feira Da Luz
Há alguns anos eu fui ver THURSDAY FROM LIGHT na ópera e nunca mais o esqueci. Eu não gosto, em geral, do som da voz operática e fiquei agradavelmente surpreendido e não sendo muito estridente e não muito longe da ópera Kilingon. Foi uma performance quasi-concerto da obra e por isso os coros de adultos e crianças estavam pré-gravados em fita magnética. Os personagens principais desempenaram os seus papéis (soprano, baixo e barítono mais trompa e flauta) sobre um fundo de sons electrónicos e sons das cenas. Eu conhecia bem os sons de fundo pois tenho o CD de ELECTRONIC MUSIC AND SOUND SCENES FROM "FRIDAY FROM LIGHT". Mais uma vez, estava totalmente impreparado para os efeitos 3D, que transformam radicalmente a música. Os "sons de cena" que tinham lugar a cada 5 ou 10 minutos mais ou menos apareceram e ajudaram a marcar o ritmo de progressão da peça - na qual vozes são moduladas com outros pares de coisas (fotocópia / máquina de escrever, cão / gato, etc.). A única coisa estranha foi que com as cenas das crianças e com o coro final sem estar em palco, isso significou que uma boa parte da ópera que estava a ser apresentada não estava no palco, e assim foi-nos dito para fecharmos os olhos e usarmos a nossa imaginação. Eu não me importei, pois como disse, gosto da música e estava a curtir o som 3D, mas imagino que deveria ter sido bastante curioso para aqueles que são novições na audição das obras de Karlheinz Stockhausen. As cenas finais, quando todas as cenas sonoras estavam a tocar em simultâneo sobrepondo-se por todos os cantos, foi de cortar a respiração e fez-em compreender o quanto Karlheinz compõe no espaço. O stereo parece-em maçador a partir de agora.
No átrio encontrei-me com Irmin Schmidt que é uma pessoas simpática. Cometi alguns ligeiros erros (pois não estou familiarizado com o trabalho dos Can) por isso quando ele disse que era dos Can, eu percebi que ele tinha dito que era de Cannes - ele pareceu ficar curioso com a minha resposta de que devia ser um lugar adorável. A conversa mudou depois. Ele tem um álbum novo com o Kumo "Masters of Confusion", que é um álbum ao vivo. Em resumo, passei uns belos dias na terra da electrónica - havia montes de outras coisas a acontecerem no festival mas o que relatei foi o que vi - louvor para o Barbican por este programa aventureiro e por ter trazido Karlheinz Stockhausen e a sua equipa de volta a estas paragens.







The Audion #46 Top 10 New Releases
Arkham - Arkham (Cuneiform) CD
Embryo - Live 2001, Vol 1 (Schneeball / Indigo) CD
Eruption - Lava (Auricle) CDR
Fred Frith - Accidental (Fred R´R) CD
Goblin - Nohosonno (Cinevox) CD
The Muffins - Bandwith (Cuneiform) CD
NeBeLNeST - Nova Express (Cuneiform) CD
Rouge Ciel - Rouge Ciel (Monsieur Fauteux) CD
Univers Zero - Rhythmix (Cuneiform) CD
Volcano the Bear - Guess The Birds (Beta Lactam Ring) 10"






26.12.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (267) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano IX
Nº 422
2 de Dezembro de 1992
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 100$00
32 páginas
Capa e algumas páginas interiores a 3 cores, outras a preto e branco.
Suplemento Manifesto (?Mensal?) de 4 páginas. Ver abaixo autoria do mesmo, na ficha técnica


Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Av. Infante D. Henrique, 334, 1802 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Redacção:
Cristina Duarte
Miguel Francisco Cadete
Nuno Galopim
Raquel Pinheiro (Porto)
Rita Carmo (Fotografia)
Direcção Gráfica:
Cândida Teresa
Colaboradores:
Adágio Flor
Álvaro Romão
André Lepecki (Nova Iorque)
António Freitas
António Maninha
António Pedro Saraiva
Bruno Branco
Bruno Maçães
Diniz Conefrey (ilustração)
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Santos Marques
Gimba
Hélder Moura Pereira
Hélder Salsinha (fotografia)
Hugo Moutinho (Porto)
Isabel Lucena (Londres)
João Correia
João Bugalho
José António Moura
José Antunes
Lili Wilde (Londres)
Luís Mateus
Luís Pinheiro de Almeida
Maria Ana Soromenho
Maria Baptista
Maria João Gouveia
Mário Correia
Miguel Cunha
Miss Ex
Monsieur Sardin
Paulo da Costa Domingos
Paulo Somsen
Pedro Esteves
Pedro Portela
Rafael Gouveia (Paris)
Rui Eduardo Paes
Sérgio Noronha
Sofia Louro
Teresa Barrau
Vítor Vasques (fotografia)

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Tiragem média do mês anterior: 19 290 exemplares

Tal como disse aqui, este é um número de um período posterior em cerca de três anos e que cai naquela fase que então cataloguei como a segunda decadência, quicá o início dela, quiçá a última...
O Director continua a ser o mesmo (Rui Monteiro), alguns colaboradores são de qualidade (ver lista abaixo), mas já não era a mesma coisa. E fico-me por aqui.
Curiosamente, apesar da deriva mainstream a tiragem média decresceu.


«KURTZWELLEN»
DE KARLHEINZ STOCKHAUSEN

Work In Progress

Stockhausen escreveu «Kurtzwellen» em 1968 para piano, electronium, viola e quatro rádios de ondas curtas.
O uso que Cage faz do rádio receptor foi uma das mais discutidas técnicas e propostas da música conceptual. Uma espécie de jogo Dada levada ao mundo da rádio, ligando ou desligando o aparelho de acordo com a notação e ouvindo tudo o que acontece nas ondas de rádio.
Mas Stockhausen tem uma visão diferente deste uso; Stockhausen interessa-se menos pelos materiais e mais pelos processos de modificação, e desenvolve a composição «processus» em «Kurtzwellen» onde os materiais provêm das emissões de rádio em ondas curtas. Stockhausen recorre aos sons da rádio como ponto de partida e cria situações para interacções estreitas no seio do conjunto dos executantes; é a «música de toda a terra» que pode ser, segundo Stockhausen, mais emocional, transcendental e emocionante que a própria emissão de ondas curtas – o acontecimento consiste apenas no que o mundo difunde agora.
Emanado do espírito humano e modificado continuamente pela interferência mútua (rádio e intérprete instrumental) à qual todas as emissões são sujeitas é elevada à maior unidade pelos músicos. Atinge-se um mundo que nos oferece os limites do acessível, do imprevisível. «Deve ser possível qualquer coisa não pertença a este mundo e se encontre por acaso, qualquer coisa que até agora não podia ter sido descoberta por uma estação de rádio». É essa coisa que procura descobrir com «kurtzwellen» (Griffiths, 1978, passim).
A transmissão radiofónica da música é uma mensagem sonora imaginária, diferente da mensagem sonora falada.
Comunicação não figurativa cujos elementos são abstractos em relação ao universo dos sons realistas e sem relação directa com eles. A união da rádio com o fonógrafo, que forma generalidade das programações radiofónicas, produz uma estrutura muito especial, uma «work in progress» já que depende da sincronização da emissão radiodifundida, irrepetível. A recepção em ondas curtas dessas frequências estabelece um princípio fantasmático, que subentende toda a transmissão radiofónica.

Exploração Metamusical



Stockhausen pretende com «Kurtzwellen» um mundo totalmente novo, um mundo universal, a participação humana em todos os acontecimentos humanos, num pangeografismo. Cada ouvinte é potencialmente anónimo e a difusão radiofónica tem um caracter desagregador das culturas popular e individual.
Em «Espace», Varése preconizava micros interligados por ondas de rádio e Nam June Paik aconselhava: «fechem os olhos e oiçam a música da rádio como uma eternidade».
Convém esclarecer a escolha das ondas curtas feita por Stockhausen: as ondas baixas são um modo de propagação sobre toda a Terra. Atenuam-se regularmente com a distância, são tão mais intensas quanto mais potente for a estação emissora. As ondas curtas, porém, projectam-se na camada de ozone a dez quilómetros de altura depois de se propagarem da superfície, sujeitas assim a variações e flutuações. As ondas médias têm uma forma incisiva de propagação num espaço limitado de centenas de quilómetros sobre a superfície.
Em «Kurtzwellen», Stockhausen considerou um outro aspecto técnico da rádio: a diafonia, que acontece quando uma estação se sobrepõe a outra, resultando interferências da gama de frequências.
A exploração das estações, mudar de AM para FM, por exemplo, é um algoritmo essencial para a detecção sucessiva e aleatória de programas musicais. Um acto de espontaneidade gratuita mas também um acto estético, segundo Belyne na sua «Psychobiology of Art», é também um dos actos elementares da vida perceptiva do ouvinte radiofónico. (in: «Vibration 3», passim). Stockhausen deu instruções aos músicos duma forma geral usando os sinais «+»e «-» como notação e inspirado na «yin» e no «yang» da filosofia «zen» mas também na antinomia matemática do zero e do infinito. Pede para reagirem a certos pontos de frequências e estudarem esses aspectos reactivos nos ensaios. Esta notação de «+» e «-», já usada na música intuitiva de «procession» serve como signo cinestésico onde as relações intuitivas dos executantes entramem jogo. A mensagem musical de «Kurtzwellen» é estética e sensualizada, conotativa, baseada sobre a associação de elementos (frequências radiodifundidas e instrumentos musicais), um jogo como fonte da criatividade da imaginação e da fantasia. Disse Degas sobre a pintura: «a pintura não é a forma, mas a maneira de ver», esta asserção está implícita na composição de Stockhausen numa realização sublime da sua tese metamusical.
Rui Eduardo Paes






6.12.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (263) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano IX
Nº 433
16 de Fevereiro de 1993
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 100$00
40 páginas
Capa e algumas páginas interiores a 3 cores, outras a preto e branco.



Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Av. Infante D. Henrique, 334, 1802 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Redacção:
Cristina Duarte
Miguel Francisco Cadete
Nuno Galopim
Raquel Pinheiro (Porto)
Rita Carmo (Fotografia)
Direcção Gráfica:
Cândida Teresa
Colaboradores:
Adágio Flor
Álvaro Romão
André Lepecki (Nova Iorque)
António Freitas
António Maninha
António Pedro Saraiva
Bruno Branco
Bruno Maçães
Diniz Conefrey (ilustração)
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Santos Marques
Gimba
Hélder Moura Pereira
Hélder Salsinha (fotografia)
Hugo Moutinho (Porto)
Isabel Lucena (Londres)
João Correia
João Bugalho
José António Moura
José Antunes
Lili Wilde (Londres)
Luís Mateus
Luís Pinheiro de Almeida
Maria Ana Soromenho
Maria Baptista
Maria João Gouveia
Mário Correia
Miguel Cunha
Miss Ex
Monsieur Sardin
Paulo da Costa Domingos
Paulo Somsen
Pedro Esteves
Pedro Portela
Rafael Gouveia (Paris)
Rui Eduardo Paes
Sérgio Noronha
Sofia Louro
Teresa Barrau
Vítor Vasques (fotografia)

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Tiragem média do mês anterior: 19 290 exemplares

Tal como disse aqui, este é um número de um período posterior em cerca de três anos e que cai naquela fase que então cataloguei como a segunda decadência, quicá o início dela, quiçá a última...
O Director continua a ser o mesmo (Rui Monteiro), alguns colaboradores são de qualidade (ver lista abaixo), mas já não era a mesma coisa. E fico-me por aqui.
Curiosamente, apesar da deriva mainstream a tiragem média decresceu.



AS ORIGENS

TECHNO 50 / 70
De pachhhh-bk-iiipschhhhhhh-bik a bzzzzzzzzzzzzz via boiiing boom tachak

Ninguém nasce por geração espontânea. Os biólogos e bio-químicos desde há muito deixaram clara a existência de um longo processo evolutivo biológico, antecedido por uma ainda mais longa fase de ensaios químicos (pré-biológicos), unicamente para explicar a origem de vida na Terra.
Com os géneros musicais, por mais cibernéticos, afastados dos padrões biológicos ou desumanos que os queiram caracterizar, há também que entender a necessidade de uma pré-história onde as bases fundamentais, os vocabulários possam nascer, desenvolver-se.
Só é possível um «Charly» de uns Prodigy porque, desde o advento das electrónicas, o homem sempre tentou nelas encontrar um veículo para diversas aplicações, entre as quais as musicais.
As primeiras experiências válidas podem ser encontradas em trabalhos experimentalistas assinados por nomes como Karlheinz Stockhausen, Iannis Xenakis ou Pierre Boulez, nos anos 50.



Stockhausen deve aqui ser referido como um nome fundamental, uma vez que «Gensag Der Junglinge» (1956) pode ser apontado como dos primeiros trabalhos a remodelar os até então frequentes encontros entre as técnicas de gravação ligadas à música concreta e certas escolas electrónicas. Este trabalho, juntamente como outros por si assinados (como «Hymnen» ou «Aus Den Sieben Tagen») serviram de base para intensos estudos (Stockhausen, e a grande maioria dos seus contemporâneos, era académico), tendo encantado espíritos igualmente inovadores como os de Terry Riley ou Philip Glass que, mais tarde podemos encontrar como membros fundadores do movimento minimal repetitivo norte-americano. A techno foi, portanto, um território de estranha e quase impenetrável experimentação. Claro que, nesta altura, o termo techno não existia, nem faria qualquer significado.
Para terem ideia do som destes primeiros ensaios «technológicos», tentem brincar, simultaneamente, com um rádio de ondas curtas e as mais estranhas fontes geradoras de som, desde cordas de piano soltas a gotas de água em dia de chuva.
Por territórios experimentalistas a techno permaneceu até à alvorada dos anos 70. Antes, ainda nos anos 50, devemos apontar algumas tentativas de fuga aos nebulosos laboratórios nomeadamente as protagonizadas pela BBC Radiophonic Workshop, responsável pela concepção de sons para programas da série «Dr. Who» - talvez se recordem de alguns destes sons na brincadeira dos KLF, sob o alter-ego The Timelords, «Doctorin’ The Tradis». Por essa mesma altura, na Califórnia, o dr. Robert Moog dedicava, diariamente, horas de estudo a um projecto seu que, apenas em 1972, fez a sua estreia em disco: o sintetizador (o disco era «Son of My Father» dos Chicory Tip). Com um novo meio disponível, e outros tantos em fase de acabamento, a techno viveu então a aurora de um processo que, em menos de dez anos dela faria um dos elementos fundamentais da música.
Sediados nos «sagrados» estúdios Kling Klang em Düsseldorf, quatro alemães desenvolviam os fundamentos estruturais para uma nova linguagem exclusivamente derivada de códigos electrónicos. Filhos-prodígio de uma vaga «electrónica» surgida na Alemanha em 1970, os Kraftwerk souberam, a princípio, investigar as possibilidades e capacidades dos seus instrumentos. «Kraftwerk 1» (1971), «Kraftwerk 2» (1972) e «Ralf and Florian» (1973) pouco mais permitiam que novos ensaios, novos testes. Em 1974, uma vez dominada a nova tecnologia, criam o clássico «Autobahn», o primeiro disco «techno» para ouvidos menos sofisticados. Com os sucessores «Radio Activity» (1975), «Trans Europe Express» (1977) e, sobretudo, «The Man Machine» (1978), definem as regras para uma aproximação das novas linguagens à chamada música popular. Yello, Yellow Magic Orchestra, Human League ou Gary Numan completam a elaboração de princípios suficientes para que, em finais de 70, surja, explosivo, o fenómeno da «techno pop».



O entendimento entre linguagens «techno» e a música de dança foi, pela primeira vez, concretizado pelos próprios Kraftwerk, por ocasião da composição de «The Model» em 1978. Pouco tempo bastou para que outros lhe seguissem os passos. Além das diversas abordagens dançantes «techno pop» (Depeche Mode, Heaven 17, OMD, ...) ou de si derivadas (Yello, Yellow Magic Orchestra, Ryuichi Sakamoto), outras leituras em breve se tornaram possíveis. Seguindo pistas já ensaiadas no «funk» de finais de 70, alguns entre os primeiros «rappers» desenvolveram as vias «electro». «Planet Rock» dos África Bambaataa pode servir como exemplo. Foi também por mãos negras que, na Detroit de meados de 80, DJs como Derrick May, Kevin Saunderson ou Juan Atkins protagonizavam um processo de fusão entre linguagens «techno» e os ritmos «house» que então emergiram em Chicago. Eram os primeiros passos da «techno house» que, passados quase seis anos, conheceu já tantas formas quanto as que a imaginação de músicos e DJs tem permitido: «acid house», «hardcore techno», «progressivo house», «new beat», «italo techno», «techno trance», blá blá blá bzzzzzz!
Tudo tem um começo.

Nuno Galopim






28.3.12

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #15: Karlheinz Stockhausen e Mya Tannenbaum - "Diálogo com Stockhausen"


autor: Karlheinz Stockhausen e Mya Tannenbaum
título: Diálogo com Stockhausen
editora: Edições 70
nº de páginas: 117
isbn: 972-44-0795-0
data: 1991 (original de 1985)


sinopse:
Karlheinz Stockhausen, o compositor contemporâneo mais amado e discutido, reafirma os direitos da criatividade e da invenção face às pressões do mercado e do consumo. No colóquio com Mya Tannenbaum encontram-se os múltiplos aspectos da personagem Stockhausen: o compositor, o homem, o organizador, o investigador, o maestro rigoroso.
A entrevista foi concedida por Stockhausen no âmbito de um longo período que vai de 1979 a 1981. O maestro falou quase sempre em alemão, passando aqui e ali, inadvertidamente, ao inglês ou francês. Os textos por mim traduzidos sujeitei-os seguidamente à meticulosa verificação do meu interlocutor.
O primeiro capítulo foi elaborado na base das conversas tidas em Roma, em Novembro de 1979. O segundo, em Florença, em Julho de 1980. O terceiro, o quarto e o quinto, em Paris, em Outubro de 1980. O sexto, em Milão, em Março de 1981 e o sétimo, de novo em Roma, em Abril de 1981.




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