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4.5.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (10)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre

[49] SÉTIMA LEGIÃO

MAR D’OUTUBRO



‘Mar D’Outubro’, o fundamental segundo álbum da discografia da Sétima Legião representou, em 1987, uma das mais importantes declarações de identidade portuguesa sob linguística pop/rock. Um absoluto clássico do seu tempo.

TÍTULO Mar D’Outubro
ALINHAMENTO Sete Mares / Noites Brancas / Noutro Lugar / Este Amor Que Nos Separa / Saudades / Baile (das Sete Partidas) / Além-Tejo / A Reconquista / Os Limites do Mar / Onde Tem Estado o Outono?
ANO 1987 (EMI)
PRODUTOR Ricardo Camacho

T: N.G.

Depois da explosão de 1980/81, na qual a grande novidade era o recurso ao português, os músicos puderam então respirar e pensar como descobrir um verdadeiro sentido de portugalidade com base numa linguagem com raízes reconhecidamente anglo-saxónicas. Os primeiros a fazê-lo foram os Heróis do Mar, numa abordagem temática, ideológica e iconográfica tão apurada e evidente que lhes valeu até equívoca interpretação. Seguiu-se-lhes António Variações, num encontro entre o cosmopolitismo pop e os cantos da Terra mãe, do folclore minhoto ao fado.
Um terceiro nome, a entrar em cena pouco depois, acabaria por conhecer um percurso de vida artístico que em si viu nascer a mais completa e representativa visão moderna e urbana da música que brotou deste solo. Tinham (e têm) nome de exército romano: Sétima Legião.
Se o mais recente Sexto Sentido (título fundamental da discografia portuguesa recente, editado em 1999) representou o culminar dessa demanda, definindo um conceito pop que expressa uma vivência que reconhece que o que somos hoje é também resultado do confronto do presente com toda uma genética cultural, o início de todo o processo remonta a um álbum que, como poucos, marcou o Portugal da segunda metade de 80.
A Sétima Legião tinha dado os primeiros passos num single que gerou culto (Glória, 1983) e num álbum que fez história 8ª Um Deus Desconhecido, 1984), ambos editados pela independente Fundação Atlântica. Foram Discos importantes, determinantes mesmo, mas reflectindo ainda mais os pontos de partida, as referências e paixões, que uma alma própria.
Essa emergiu de transformações não só estéticas mas também humanas no seio da banda, que de cinco passa a contar com oito elementos e um diferente naipe de instrumentos. Aléms dos veículos tradicionais em linguística pop/rock, a Sétima Legião mostra agora intensa relação com percussões, acordeão, gaita de foles e até mesmo uma guitarra portuguesa.

Mar D’Outubro, do qual nasceram clássicos como Sete Mares (que daria nome ao programa de Sílvia Alves na Antena 1) e Noutro Lugar, assim como espantosos depoimentos instrumentais em Noites Brancas ou Este Amor Que Nos Separa e ainda pujantes afloramentos de intensidade bebida na terra (de geografia portuguesa, mas projectada a Sul) em Saudade, Além-Tejo ou Reconquista materializou um novo e consequente sentido de identidade portuguesa na pop do seu tempo. Isto sem perder, no processo de reinvenção da sua música, as marcas de identidade e relação com os timoneiros estéticos de referência no seu tempo. Sem dúvida, um absoluto clássico de 80.





2.5.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (9)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre
15.07.2005

[48]        THIS MORTAL COIL

 IT’LL END IN TEARS



Criado por Ivo Watts Russell para promover uma série de colaborações entre músicos da sua editora, os This Mortal Coil, logo no seu álbum de estreia, acabaram por representar o paradigma da identidade atmosférica que caracterizou o som da 4AD em meados dos anos 80.

TÍTULO It’ll End In Tears
ALINHAMENTO Kangaroo / Song To The Siren / Holocaust / Fyt / Fond Afections / The Last Ray / Another Day / Waves Become Wings / Barramundi / Dreams Made Flesh / Not Me A Single Wish
ANO 1984 (4AD)
PRODUTOR Ivo Watts Russell

Além de ter representado uma fundamental (e então urgente) revolução estética e pragmática, o punk foi também catalisador de importantes transformações no meio editorial, tendo, tal como a música, devolvido o poder “Às bases”. Na Inglaterra de finais de 70, pequenas independentes apareceram por todo o lado, muitas associadas a redes de distribuição alternativas e lojas nas quais se podiam encontrar os singles das novas bandas. Entre as editoras que vingaram e sobreviveram à ressaca do punk, a 4AD (ligada à Beggars Banquet) cresceu para se afirmar como uma das mais importantes casas editoriais de 80. Editou Bauhaus (no início), Cocteau Twins, Dead Can Dance, Wolfgang Press e tantos outros nomes que então desenvolveram o emergente conceito de música indie, marcando identidade também através das capas desenhadas por Vaughan Oliver. Coordenada por um melómano, Ivo Watts Russell, a editora 4AD gerou em 1984 um colectivo transversal às bandas do catálogo: os This Mortal Coil.
Materialização evidente do gosto de Ivo Watts Russell, os This Mortal Coil foram um projecto de editora, juntando em estúdio músicos de difeentes grupos, tendo editado uma magnífica trilogia de álbuns entre 1984 e 1991.
O primeiro dos álbuns, o genial It’ll En In Tears reuniu músicos como Lisa Gerrard e Brandan Perry dos Dead Can Dance, Elisabeth Frazer, Simon Raymonde e Robin Guthrie dos Cocteau Twins, Gordon Sharp dos Cindytalk, Howard Devoto (dos Magazine, banda não assinada pela 4AD), Martyn Young dos Colourbox e Robbie Grey dos Modern English, entre alguns outros. O álbum, paradigma do som atmosférico que fez escola na 4AD em meados de 80, é uma pérola de bom gosto, subtileza melódica e riqueza textural.

Muitos recordam hoje o disco pela sublime e arrebatadora versão de Song To The Siren (de Tim Buckley) na voz de Elisabeth Frazer, um daqueles raros casos em que a versão supera o original (tendo David Lynch reconhecido ter servido de inspiração à sua aventura musical com Julee Cruise alguns anos depois) ou pelas não menos cativantes novas leituras de Kangaroo e Holocaust de Alex Chilton (dos Big Star) ou Not Me de Colin Newman. Mas It’ll End In Tears (tal como o álbum seguinte, Filigree And Shadow, de 1986) vale como um todo (que aacaba até por diluir em si as diferentes partes). A sucessão de canções define um percurso plácido por sonhos para voz e instrumentação quase ambiental, criando atmosferas de melodismo subtil e canções de complexa arte final numa linha próxima da que então tomava o rumo da obra dos Cocteau Twins e Dead Can Dance (claramente os pólos estéticos protagonistas nesta etapa dos This Mortal Coil).





30.4.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (8)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre
17 de Junho de 2005


[44] HERÓIS DO MAR

HERÓIS DO MAR


No meio da euforia editorial que caracterizou o Portugal Pop/Rock de inícios de 80 um álbum destacou-se dos demais e fez história. Apresentou os Heróis Do Mar e com eles conhecemos um verdadeiro sentido de portugalidade em regime pop que ainda hoje tem herdeiros na cena musical nacional

TÍTULO Heróis do Mar
ALINHAMENTO Brava Dança dos Heróis / Amantes Furiosos / Magia Papoila / Salmo / Bailar / Olhar No Oriente / Mar Alto / Saudade
ANO 1981 (edição Philips / Universal)
PRODUTOR António Pinho

T: Nuno Galopim

O Portugal musical de 1980/81 era um caldeirão em ebulição, entusiasmado com a descoberta da composição (e viabilidade no mercado) de uma música pop/rock feita em português. Depois dos sucessos iniciais de Rui Veloso, UHF, GNR, Táxi e Salada de Frutas, novas bandas, novos singles, surgiam a um ritmo alucinante, respondendo a uma procura igualmente ávida. Contudo, entre discos que denunciavam essencialmente um sentido de urgência prático, um acabou por se destacar pela inteligência formal, pela musicalidade atenta, actual e oportuna, pela ousadia estética, inscrevendo definitivamente um real sentido de portugalidade numa linguagem pop/rock. Chamou-se Heróis do Mar e revelou, em 1981, uma das mais marcantes bandas da história da música popular portuguesa.
Já havia antecedentes esteticamente estimulantes entre os elementos do grupo, alguns deles recém chegados da discreta (mas temporalmente consequente) aventura punk nos Faíscas e sua descendência natural nos Corpo Diplomático, banda cujo único e histórico álbum (Música Moderna, de 1979 e ainda por reeditar em CD) apresentava um título que sugeria a chegada de uma ideia de modernidade à pop portuguesa.
Firmes numa intenção política (leia-se ideário filosófico prático e não manifestação partidária) de dotar o país e uma nova geração de uma música “sua”, o disco nasce de longo período de reflexão durante o qual a atenção dos músicos pelos acontecimentos mais recentes da pop internacional se cruzou com leituras sobre a História de Portugal, preparação conceitual para um manifesto que desejou mudar a música portuguesa. E como mudou!
Num tempo ainda ecoando excessos revolucionários e receios perante inevitáveis e marcantes símbolos nacionais, numa altura em que se falava do futuro e parecia esquecer o passado, a música e atitude dos Heróis do Mar catalisou uma verdadeira revolução de mentalidades. Cruzou raízes da música portuguesa (e inclusivamente de África, como se escuta em Saudade) com a linguagem pop do momento, despertando um sentido de orgulho pela identidade cultural que fez carreira depois em diversos projectos musicais nacionais, da Sétima Legião aos Madredeus (vida posterior de Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade, respectivamente baixista e teclista dos Heróis do Mar).

Musicalmente arrebatador perante o restante cenário pop imberbe da época, ideologicamente consequente, colocou no mapa pop uma nova forma de ouvir Portugal). O terror perante certos símbolos (a cruz de Cristo, as fardas), valeu-lhes as suspeitas de alguns. Derrubadas, um ano depois, pelo êxito transversal de Amor.








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