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2.5.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (9)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre
15.07.2005

[48]        THIS MORTAL COIL

 IT’LL END IN TEARS



Criado por Ivo Watts Russell para promover uma série de colaborações entre músicos da sua editora, os This Mortal Coil, logo no seu álbum de estreia, acabaram por representar o paradigma da identidade atmosférica que caracterizou o som da 4AD em meados dos anos 80.

TÍTULO It’ll End In Tears
ALINHAMENTO Kangaroo / Song To The Siren / Holocaust / Fyt / Fond Afections / The Last Ray / Another Day / Waves Become Wings / Barramundi / Dreams Made Flesh / Not Me A Single Wish
ANO 1984 (4AD)
PRODUTOR Ivo Watts Russell

Além de ter representado uma fundamental (e então urgente) revolução estética e pragmática, o punk foi também catalisador de importantes transformações no meio editorial, tendo, tal como a música, devolvido o poder “Às bases”. Na Inglaterra de finais de 70, pequenas independentes apareceram por todo o lado, muitas associadas a redes de distribuição alternativas e lojas nas quais se podiam encontrar os singles das novas bandas. Entre as editoras que vingaram e sobreviveram à ressaca do punk, a 4AD (ligada à Beggars Banquet) cresceu para se afirmar como uma das mais importantes casas editoriais de 80. Editou Bauhaus (no início), Cocteau Twins, Dead Can Dance, Wolfgang Press e tantos outros nomes que então desenvolveram o emergente conceito de música indie, marcando identidade também através das capas desenhadas por Vaughan Oliver. Coordenada por um melómano, Ivo Watts Russell, a editora 4AD gerou em 1984 um colectivo transversal às bandas do catálogo: os This Mortal Coil.
Materialização evidente do gosto de Ivo Watts Russell, os This Mortal Coil foram um projecto de editora, juntando em estúdio músicos de difeentes grupos, tendo editado uma magnífica trilogia de álbuns entre 1984 e 1991.
O primeiro dos álbuns, o genial It’ll En In Tears reuniu músicos como Lisa Gerrard e Brandan Perry dos Dead Can Dance, Elisabeth Frazer, Simon Raymonde e Robin Guthrie dos Cocteau Twins, Gordon Sharp dos Cindytalk, Howard Devoto (dos Magazine, banda não assinada pela 4AD), Martyn Young dos Colourbox e Robbie Grey dos Modern English, entre alguns outros. O álbum, paradigma do som atmosférico que fez escola na 4AD em meados de 80, é uma pérola de bom gosto, subtileza melódica e riqueza textural.

Muitos recordam hoje o disco pela sublime e arrebatadora versão de Song To The Siren (de Tim Buckley) na voz de Elisabeth Frazer, um daqueles raros casos em que a versão supera o original (tendo David Lynch reconhecido ter servido de inspiração à sua aventura musical com Julee Cruise alguns anos depois) ou pelas não menos cativantes novas leituras de Kangaroo e Holocaust de Alex Chilton (dos Big Star) ou Not Me de Colin Newman. Mas It’ll End In Tears (tal como o álbum seguinte, Filigree And Shadow, de 1986) vale como um todo (que aacaba até por diluir em si as diferentes partes). A sucessão de canções define um percurso plácido por sonhos para voz e instrumentação quase ambiental, criando atmosferas de melodismo subtil e canções de complexa arte final numa linha próxima da que então tomava o rumo da obra dos Cocteau Twins e Dead Can Dance (claramente os pólos estéticos protagonistas nesta etapa dos This Mortal Coil).





5.11.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (256) - Melody Maker - Music Magazine - Jornal Musical


Melody Maker

31 de Julho de 1993

preço 70p

48 páginas, papel de jornal - capa e algumas (+/- 25%) páginas a cores, o resto a p/b. (tamanho A3)

Tenho por aqui alguns exemplares deste magazine, ou antes jornal, musical, que, em conjunto com a New Musical Express eram, nos 70s, 80s e 90s, pelo menos, os guias de consulta obrigatória para todos os melómanos mais ousados.
Entre nós tínhamos o Blitz, no mesmo estilo mas com menos conteúdo (páginas)

Aqui fica a capa de um desses jornais.








19.5.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (208) - Lime Lizard - Agosto de 1993


LIME LIZARD
UK

Agosto de 1993
Preço: £2,95
Editor: Patrick Fraser

Nº páginas: 92
Papel um pouco maior que A4 a cores e papel brilhante fino





Telefonei a Ivo para escritório da 4AD da Califórnia, onde ele se encontrava a passar duas semanas. Eu, entretanto, estou instalado nos escritórios deles, em South London, numa sala bela e espaçosa, dominada por uma extraordinária pilha de equipamento hi-fi. Ivo é amigável e loquaz, orgulhoso e entusiasta acerca da música que edita.
Em 1986, disseste que estavas a editar a música mais original e excitante dessa época; pensas que ainda o continuas a fazer , nos dias de hoje?
“Sim, na maioria dos caos. Especialmente durante este ano.”
Que bandas me particular?
“Os Red House Painters, para o meu gosto pessoal. Mas, sabes, tudo o que editámos ou finalizámos até aqui faz-me ficar delirantemente feliz com: The Breeders, Dead Can Dance (novos álbuns serão editados no Outouno), Belly... pessoalmente gosto muito do disco do Frank Black – sei que não é a coisa mais popular na Inglaterra neste momento – e His Name Is Alive, claro.”
Parece que o álbum dos Red House Painters preencheu um vazio; é um álbum realmente incrível...
“É – apesar de eu não pensar que vá vender muito. É como, eu olho para a mentalidade futebolística e isso não existe no meu interior algo que consiga compreender porque é que as pessoas vão assistir a jogos de futebol. Da mesma forma, compreendo que não existe no íntimo da maioria das pessoas algo que os faça responder e compreender e gostar do tipo de música que o Mark Kozelek faz.”
A 4AD alterou, ao longo do tempo, aquilo que tu imaginavas que iria ser?
“Nunca pensei nisso, mas não poderia nem conseguiria acreditar que iria editar a quantidade e qualidade de discos que foi feito. Foi tudo muito para além do que os meus melhores sonhos poderiam fazer-me esperar.”
Agora que tens bandas com tanto sucesso na editora, estás já acima dos constrangimentos financeiros com que te costumavas preocupar?
“Oh, não. Foda-se, não, porque o que aconteceu então é que toda a gente se envolveu com agentes e advogados. O tipo de fundos que as pessoas precisam antecipadamente multiplicou de valor por vinte ou trinta vezes. É absurdo. Tens uma situação onde uma banda venderá milhões e milhões, e a indústria é atraída, como que magneticamente, para esse tipo de música, sem discriminação, sem qualquer tipo de entendimento.
Não podes acusar as pessoas por lucrar, por tentar tirar dividendos da absurdez desta indústria, mas penso que isso não é saudável para a música.
“É fácil para mim dizer que o barómetro do sucesso é o artigo acabado antes de alguém sequer o ouvir, mas a maioria das pessoas precisa e quer ter a aclamação de todo o mundo, posições nas tabelas de venda, etc. Assim, de forma a manter e aguentar tudo isso, foda-se, nós somos apenas como uma companhia de gravação tradicional!”
Tens planos para fazer mais coisas sob a capa “This Mortal Coil”?
“Não, This Mortal Coil já não existe como projecto e por agora comecei os Son Of This Mortal Coil, ou que diabo seja que lhe iremos chamar! – Não tenho intenções de trabalhar com ninguém da 4AD, de facto é bastante importante que assim seja.”
Então estás a trabalhar em coisas novas.
“Pensei nisso durante anos, e Deus abençoe Warren DeFever por me ter dado um pontapé no cu mensalmente e dizer ‘Faz qualquer coisa!’ Fui para um estúdio na Escócia por alguns dias e ensaiei algumas peças, interpretações de músicas de outras pessoas, conseguindo 5 canções. Espero que seja principalmente acústico, e quero trabalhar com muito menos pessoas num disco. Tive um monte de ideias este fim de semana no deserto. Um dos grandes bónus de se viver na Califórnia é que o deserto está tão acessível, e tu podes ir para lá e pensar nas coisas...”
Tens algumas teorias sobre a razão de ter uma tal explosão da música ‘indie’ a transformar-se em mainstream nestes últimos anos – porque me parece que isso aconteceu com a 4AD e com os Pixies muito antes dos Nirvana.
“Haverá sempre alguém que incorporará uma data de trabalho e criatividade que foi feita antes. Ninguém é único, e obviamente os Pixies pagam tributo a bandas como aquelas em que esteve Bob Mould – É apenas uma questão de tempo para que as coisas sejam filtradas. E depois há sempre uma segunda e terceira geração depois dos originais... os Velvet Underground são o exemplo clássico. Ou os Big Star, foda-se! Mesmo até há 4 anos atrás ninguém conhecia os Big Star. Às vezes isso preocupa-me, obviamente não por mim, porque eu estou a tirar prazer disso, mas por causa de pessoas como Kurt Ralske ou His Name Is Alive. Quantos Velvet Underground ou Big Stars trabalhámos nós?”

“Eu fiz uma grande porcaria às dez e meia desta manhã”, começa a responder a uma particularmente estúpida questão acerca da peça preferida da sua própria obra.
Não a espécie de comportamento que esperes do príncipe do redemoinho, capa misteriosa, Vaughan Oliver. A sua auto-depreciação da própria inteligência (a citação de Tommy Cooper “vidro, garrafa, garrafa, vidro” do prefácio do seu catálogo de exposição em França, ao lado de outra do fotógrafo parisiense Robert Doisneau) meramente se adiciona ao enigma que ele criou para a companhia de discos que emprega os seus serviços. Nos últimos 12 anos Vaughan coordenou e realizou o design das capas para a famosa etiqueta independente 4AD, envolvendo a música dos Pixies e dos Lush, entre outros, com profundidade de ideias e também alguma provocação à mistura.
Capas genuínas de discos mantêm-se em alta estima de todos, formando parte da recente exposição Twentieth Century, no V&A.
Apesar dele e da sua equipa de designers, a V23, tenha também feito trabalhos para outras áreas (capas de livros, posters de exibições e, de forma bizarra, designa de apresentação para o agora em dúvida ramal ferroviário de King’s Cross / Chunnel) ele é ainda mais conhecido por aquilo que criou para a 4AD e dentro dos quadrados de 12 polegadas de cartão que envolvem os discos – trabalho que destrói a imagem do disco como mero produto de consumo.
Ele fornece um lado físico à música que a imagem complementar é escolhida para rodear – uma pista visual dos sons no interior, ajudando o ouvinte a apegar-se mais ao disco e à arte da capa como uma entidade artística única.
“A razão principal por que faço isto é que eu irei comprar a maior parte da música, de qualquer forma. Não é como se estivesse a trabalhar. Sou genuinamente inspirado pela música e coloco uma capa num disco que estará na minha colecção em casa e por isso quero que seja uma coisa que valha a pena. Não há nada pior do que uma peça de música com uma capa de merda nela – apenas te afasta dela. Eu pretendo tornar a música o mais próxima das pessoas possível.”
O cliché acerca da arte das capas da 4AD é que é um cliché por si próprio. Sobre-desenhadas, imagem de marca da etiqueta discreta sem lugar a preocupações com o seu baixo custo, um beco indie lo-fi. Mas a marca semigenérica dada por Vaughan e os seus contemporâneos dos anos 80, a etiqueta Postcard Records da Escócia e Peter Saville na Factory, formaram os Mandamentos para a adesão quando se pensa em formar uma pequena etiqueta independente. A Too Pure, Wiiija e a Sub Pop dos seus inícios, têm todas as suas capas com um débito a esses pioneiros na sua abordagem. A influência de Vaughan alargou-se ainda mais. As páginas do catálogo do obscuro designer de moda belga Wim Neel’s, supostamente feitas nos escritórios de todo o mundo, são quase-reproduções do trabalho de Vaughan para o primeiro LP dos This Mortal Coil e para os Cocteau Twins, era Garlands.
E isto é apenas um exemplo entre dezenas de capas de discos, capas de livros e catálogos que incorporaram a sua arte gráfica. Vaughan reconhece a frequentemente criticada consistência entre as suas capas para artistas individuais e para a 4AD como um todo, mas apesar disso dar a uma empresa “sem face” identificativa e que está no mercado, alguma identidade e personalidade, ele arrepende-se o efeito que frequentemente lhe é apontado.
“Em certo sentido, eu devia ter evitado essa identificação da editora porque entra depois em conflito com as personalidades de cada banda de per si. No final do dia, se as pessoas respondem ao logótipo na contracapa, o facto é que é um disco da 4AD, então isso é bom. Mas isso tende a dar às pessoas uma ideia pré-concebida de como tudo será e soará. Mas numa análise sobre a criatividade, é muito difícil fazer tudo completamente diferente.”

Vaughan colabora com uma vasta gama de artistas na sua empresa V23 e a sua equipa parece toda ela partilhar os mesmos ideais quanto à boa arte, enquanto trabalham num contexto de artes gráficas comerciais. É o que faz a V23 tão diferente e única e permite que um humilde designer de uma capa de disco seja aclamado nas suas aparições em França (com apoio do Ministério da Cultura Francês) e no Japão.
Quer a sua opinião seja a de que o que Vaughan realiza é realmente arte, o seu impacto é indiscutível e criou uma imagem que se destaca no meio da infinidade de edições discográficas. Ele acredita firmemente que “não consegues ter o mesmo impacto com as capas dos CDs. Toma como exemplo as capas dos Pixies, onde existe uma fotografia de um cão, ou de um bebé a chorar, ou o que quer que seja. Há um elemento de choque numa coisa como essas – que é incrementado quando passas para o tamanho do poster. Se o passares para o tamanho do Cd fica logo inestético e diluído”.
Podemos estar a falar de tecnologia ultrapassada, mas há qualquer coisa de orgânico quando se trata do tal quadrado de cartão com 12 polegadas de lado. Tu precisas e queres ter muito cuidado com ele, o que te dá um envolvimento muito mais pessoal com o objecto/disco, se fores um velho sentimental como eu. Ou Vaughan.
“Sabes, levas o teu disco para casa, tiras a capa interior e metes de novo o vinilo dentro dela e oh! É um sentimento muito forte e agradável! Muito mais do que abrir uma caixa de plástico de um CD e ficares com uma coisa pequena na mão. Como objecto é muito mais apetecível.”
Pronto para dar a sua contribuição artística em outros media (o actual calendário da 4AD e uma série que vai sair de capas para livros para a editora Serpent’s Tail, só para citar dois exemplos), Vaughan e V23 transformam artigos de consumo em artigos de que tu nunca mais vais querer separar-te. Ele está a lutar na retaguarda contra a pressão para consumir e dispensar cada vez mais os objectos – simplesmente colocando o seu amor à música em utilização e de uma forma construtiva.
“Sabes, eu passei/dei doze anos da minha vida a peças de cartão quadradas com doze polegadas,” diz Vaughan, “falando muito a sério acerca de uma peça de memorabilia.”
O terceiro poster da série 23 Envelope, será disponibilizado ainda este ano.



A 4AD está a celebrar 30 anos como incubadora natural de música de qualidade, esplendidamente apresentada. Lucy Cage e Razor olham para trás sobre a história lustrosa da editora, Lucy Cage falou com Ivo Watts-Russelll acerca das suas inspirações, enquanto Gareth Grundy se encontrou com Vaughan Oliver, da 23 Envelope.

A menos que seja confrontado por uma daquelas perguntas de questionário “Que Discos Mudaram A Sua Vida?”, não é provável que a evolução do seu gosto musical venha à tona e seja objecto de escrutínio público. E mesmo assim, pode sempre mentir. Mas não se você for o patrão da 4AD, Ivo Watts-Russell. A história da sua estética pessoal está gravada em vinilo para todos poderem ouvir. Felizmente, quer para ele quer para nós, o seu ouvido conduziu-o a trabalhar frequentemente com as melhores bandas de diversos géneros, ou até, frequentemente, com bandas cujos discos e aparição na cena musical definiram elas próprias um novo género. A 4Ad tornou-se num símbolo de qualidade e integridade num mercado geralmente com menos cuidados com o consumidor.
Oh My Goth
É fácil esquecermo-nos que a etiqueta que renovou os gostos, com música etérea de bandas como os Cocteau Twins, os naquela época deliciosamente sensaborões Bauhaus e os Birthday Party. Claro que, naqueles tempos até os Cocteau Twins eram góticos. O seu álbum de estreia – Garlands (1982) – é marcadamente repetitivo, carregado de ira e geralmente fornecia razões para comprar antes (ou a par) o EP dos Sisters Of Mercy “Reptile Houde”. Os Birthday Party utilizavam uma abordagem mais guerilheira, espalhando cacos de horror como o lentamente triturador “The Friend Catcher” ou a lasticidade monstruosa de “Mr. Clarinet”. Algures no meio encontramos os Bauhaus de Peter Murphy, mestres do humor negro em vez da magia negra, com canções doidas mas sem expressividade como “God In An Alcove”, “Small Talk Stinks”, “Telegram Sam”. Quando os Bauhaus partiram para a companhia mãe Beggars Banquet, em 1981, levaram consigo o co-fundador Peter Kent com eles e a 4AD tornou-se (virtualmente) uma editora autónoma sob o domínio de Ivo.
Atacados Pela Imprensa
Sem surpresa, a maioria das edições iniciais da 4AD foram singles. Ao lado de discos de bandas como os Modern English e os Birthday Party – a espinha dorsal da sua lista em desenvolvimento – estiveram lá muitas bandas de um só disco, o que fazia parecer que a editora estava a flexibilizar o seu estilo. Entre eles estava o 12” pelos já extintos Rema-Rema, uma das canções que seria mais tarde refeita e editada no primeiro LP dos This Mortal Coil, e cuja formação incluía Marco Peroni, que mais tarde se juntou aos Adam & The Ants e Gary Asquith, agora com os Renegade Soundwave; enquanto Mark Cox e Mick Allen formaram equipa com Andy Gray para constituir os In Camera -  - um outro grupo estranho da 4AD, que trabalhava nas franjas do pop psicológico – para formar os Wolfgang Press. Considerando que Allen descreve ele próprio a banda como “quase um hobby” durante os primeiros anos da sua existência – quando ela produziu uma linha de, moderadamente, - discos inacessíveis – isso é testemunho da força de Ivo e da sua forte convicção neste último sobrevivente da 4AD, neste período de “Raincoat”, em que os Wolfgang Press sairam com um álbum de brilho incontestável: o subtil Bird Wood Cage, de 1988,. Com “Queer”, o qual – paradoxalmente – Allens reconhece como o mais experimental depois do seu primeiro, Foi o que fez os Wolfgang Press atingirem o mainstream, vingando retrospectivamente anos de ostracismo imerecido.
Pinte Com Qualquer Cor Excepto O Preto
O que tem de especial o dubpop cool de caixas de ritmos dos Colourbox que atraíram a atenção de Ivo no mesmo ano em que assinou com os Cocteau Twins? “Não faço a mínima ideia”, revela elusivamente Martin Young, o líder da banda na sua primeira entrevista da última meia década. Na altura, eles eram conhecidos como uma editora negra e assustadora. Nós nunca lhe envia ríamos uma demo tape.” Mas um nosso amigo enviou, e os Colourbox puseram cá fora um álbum que, com um fluxo lento mas constante, no meio do material da 4AD, alcandorou o sucesso entre ’82 e ’86.
Aplicando chocantes excessos de efeitos de estúdio – atrasos de voz sonantes, estranhas paragens, efeitos electrónicos fantasmáticos – Às suas canções pop cheias de soul, ou passando meramente diálogos de filmes, iluminou as suas canções de forma infecciosa (uma vez ouvidas..., tentem o seu “Official World Cup Theme”, nunca mais nos saem da cabeça). Mas foi preciso esperar por 1987 e a colaboração entre MARRS e A.R.Kane para os Colourbox conseguirem os seu primeiro (e da editora) número um no top.
“Eu não quero acreditar que o Martyn e o Steve Young – tão talentosos – não tivessem encontrado a inspiração para acabar alguma coisa”, diz Ivo tristemente. Não houve produção dos Colourbox desde “Pump Up The Volume”. Paguei-lhes adiantadamente para fazerem o álbum seguinte. Se Martyn alguma vez acabasse alguma coisa, eu editava, mas parece-me que cada vez mais isso se está a tornar menos provável.”
Martyn admite: “Eu passei por um longo período em que o meu interesse pela música foi nulo”. Mas ele está agora a trabalhar em material novo, embora não deva sair sob o nome de Colourbox. E já não se sente mais intimidado pelo seu hit. “Certamente que não devo e não vou tentar repeti-lo. É melhor que tenha morrido e fique enterrado, na verdade”. Dito isto, à custa dele foi-nos permitido viver durante seis anos. Esse aspecto da questão está ok!”
Vivendo Num Mundo Etéreo
Depois de Garlands, foi-se tornando gradualmente claro que os Cocteau Twins tinham um lado mais forte na sua música. Nos EPs “Lullabies” e “Peppermint Pig” os sons da bateria eram ainda mais crocantes, a guitarra de Robin Guthrie ainda guinchava e dava a base, mas as harmonias começaram a ser mais quentes, e essa característica vocal de contraponto, obtida com a técnica de overdub, de Liz Fraser veio para a frente. Em Head Over Heels (1983), o processo de género-fracassado estava concluído quando eles prenderam a máquina de ritmos através de um efeito de reverberação em vez de apenas um delay. O resultado? Um afofamento. Mas que magnífico, apocalíptico afofamento ele foi: o espírito do Etéreo estava entre nós.
Elevar A Morte
Os Cocteau Twins tornaram-se a banda da 4AD que mais vendia e a principal banda no papel de atrair novos ouvintes para a editora (com a qual eles estavam fortemente identificados). Além deles, isto é, de um duo Australiano – largamente ignorado até aqui, mas certeiramente incensado no resto do mundo – conhecido como Dead Can Dance. Se os Cocteau Twins tinham as suas raízes no Gótico, a principal inspiração dos DCD era estritamente gótica: tímbalos e pandeiretas, metais e instrumentos chineses combinados com a voz angélica de Lisa Gerrard e mais os tons base de Brendan Perry, que relembra a história:
“Na Austrália não havia muito interesse no tipo de música que estávamos a fazer, por isso decidimos vir para a Europa – Conhecíamos a 4AD através dos dos Birthday Party. Apesar de termos enviado uma demo para quatro companhias, a 4AD foi a única que nos deu uma resposta positiva. Recebemos uma carta do Ivo, mas na altura ele não estava em posição de nos ajudar. Isso foi por volta de 1982. Mas mantivemos o contacto.”
Em 1984 quer a banda (orquestra é uma palavra que talvez mais se ajustasse) e a editora estavam prontos para uma relação de trabalho. Apesar de o seu álbum inicial ser um pouco sombrio, não é exagero dizermos que todos e cada LP subsequente dos DCD é perfeito. Desfalecimento.
Dreampop
Na altura em que fizeram Heaven Or Las Vegas, os Cocteau Twins redefiniram-se novamente: Com as suas fortes linhas que agarravam o ouvinte, batidas balanceantes e grandes vendas, este é um álbum eminentemente pop. Ao lado de My Bloody Valentine, o som dos Cocteau – apesar de inimitável – influenciou uma onde de novas bandas, desde a muito analisada ‘blissed-out pop’ dos A. R. Kane, Lush e Pale Saints e os shoegazers, Guthrie mostrava progressivamente sinais de suaves mudanças e os arpeggios tornaram-se definitivamente um tipo particular de indie-pop.
O Céu Vermelho Não Pode Esperar
Quando as Throwing Muses assinaram, em 1986, elas representaram uma mudança definitiva de direcção por parte da editora. “Ivo, que é o único executivo editorial, que conheci, que ouvia realmente as demos – e ainda o faz – chamou-nos”, relembra Kristin Hersh.
“Nós éramos um bando de miúdos a viver em Boston – havia dezanove pessoas a viver no mesmo apartamento – e tínhamos todos dezassete anos ou perto disso. Ele chamou-nos e disse “Isto é Ivo”, e eu não percebi o que ele queria dizer. Pensei que era um dos namorados de Leslie (Langston, a baixista original dos Throwing Muses). Nós mantivemos uma lista de todos os namorados de Leslie e que eram suposto saberem, algum deles, onde Leslie se encontrava quando precisávamos dela, e que era suposto mentirem também. Assim, eu limitei-me a sussurrar “Uh-huh...?” Ele disse que tinha gostado da demo, mas que não assinava com bandas americanas. Eu fiquei tipo “Ok, bem, seja. “Bye ‘Ivo’”. Eu nunca tinha ouvido aquele nome também. Então ele voltou a contactar umas semanas depois e disse. “Ainda é uma boa demo, mas eu também ainda não assino com bandas americanas”. Eu fiquei tipo “Quem é este maluco?” Então, finalmente, ele chamou-nos de novo e disse “Okay, eu vou assinar com uma banda americana MAS apenas para um disco.”
No seu aclamado disco de início, as canções de Hersh desgastavam e impacientavam entre arrebatamentos delirantes e dançáveis de estábulo, country e western lamentoso e ritmos nervosos, tudo com uma cativante imprevisibilidade. Na altura da edição de Real Ramona em 1991 a banda soava mais segura e confiante mas ainda assim inclassificável, produzindo canções pop entre os seus dentes e preocupações introduzidas com uma guitarra frenética e harmonias bizarra, de tão assustadoras que eram.
De Barriga Lisa
A meia-irmã de Kristin, Tanya Donelly, abandonou as Muses em 1992 para se concentrar na sua própria banda. Belly conquistou o seu caminho para os corações dos ouvintes com a voz sussurrante de Tanya e a força pura dos seus ganchos pop. Canções como ‘Low Red Moon’ e ‘Dancing Gold’ do primeiro EP utilizam guitarras límpidas que deslizam e arranham à volta de vocalizações sussurrantes que nos contam histórias de forte desolação. Belly tem na capa um sorriso tão grande como uma talhada de melancia, e as linhas de guitarra são tão irresistivelmente charmosas que até as letras torcidas como eram soavam doces na terra da MTV.
Baixando Até O Bunuel
Tal como as Throwing Muses, os Pixies eram originários de Boston e trouxeram a 4AD na direcção pop/rock, apesar de sempre à beira do precipício. Ivo relembra: “Lembro-me da altura em que me deram a primeira demo dos Pixies: estava em Nova Iorque, fazendo uma caminhada e divertindo-me imenso, mas a pensar “Será que isto é muito próximo do rock & roll? Será que me quero envolver com isto?” Foi a Deborah, que trabalhava na 4AD, que me disse que eu não devia ter esse tipo de dúvidas estúpidas. “Os ganidos inarticulados de Black Francis e a guitarra guinchante de Joey Santiago formavam um apreciável conjunto apesar assombrar a audiência. Os caracteres fora de ordem que habitavam as canções dos Pixies poderiam muito bem trepar até contos de fadas de um mundo paralelo esquisito. Mick Allen dos Wolfgang Press rogou para que assinasse com eles um contrato. “Eu penso que ele trouxe para a frente pessoas que possivelmente nunca ninguém teria ouvido, e em certo sentido os Pixies foram o princípio do grunge. Com toda a certeza, Surfer Rosa é um dos melhores discos desse tipo de música. Uma série de grupos pegaram no que eles estavam a fazer e nas possibilidades que eles levantaram.”
A Comichão Do Décimo Terceiro Ano
O gosto impecável de Ivo conduziu-o recentemente a um ângulo mais orientado para as canções: “Eu penso que o mundo já não precisa de mais grupos americanos liderados por um guitarrista, em que tu não consegues perceber as palavras. Eu agora estou mais numa de música mais espacial e acústica.” O seu projecto This Mortal Coil é patente o testemunho reverente que ele presta em The Song – em cada um dos três álbuns dos TMC encontramo-la estirpada profundamente até aos ossos frágeis, tocada e cantada com uma elegíaca (e apropriadamente gótica) adoração, embelezada com veludo auditivo. As assinaturas recentes da editora foram Heidi Berry e Red House Painters, ente outros, que exemplificam a nova onda da editora. As canções elegantes e gentilmente nostálgicas de Berry, com um fundo plangente de cordas e piano, são reminiscentes do herói de Ivo, Nick Drake, assim como de Joni Mitchell; enquanto Mark Kozelek dos Red House Painters escreve com uma melancolia autobiográfica, as suas letras desconfortavelmente abertas, complementadas subtileza calma da sua música baseada na guitarra.
A nova estrela da editora é o freak Mark Robinson dos Unrest, que tem a sua própria editora em Washington DC – TeenBeat – que ainda mantém os direitos para editar os singles 7”. Os Unrest acabaram de gravar um novo álbum para a 4AD, apesar de Mark vangloriara-se “Vamos editar uma caixa de seis 7” do álbum na TeenBeat”. O seu pop aparado tem mais em comum com os preferidos pelos fanzines, como os Tsunami ou os Velocity Girl do que com os colegas de editora, mas estando na 4AD tem as suas vantagens: “Tínhamos sempre pelo menos uma pessoa em cada concerto nos Estados Unidos com uma t-shirt dos Cocteau Twins ou dos Lush vestida. As pessoas iam aos nossos concertos só porque estávamos na 4AD”.
Apesar da partida dos Cocteau Twins e da fragmentação dos Pixies, é ainda muito cedo para demover a 4AD de ser a editora independente mais vital em todo o mundo. Ivo está excitado o suficiente com a sua lista de bandas para pôr juntos alguns artistas menos conhecidos nos concertos de Julho no ICA, sob o lema “A Sarna dos Trinta Anos”: “Isto pode ser um momento breve em que uma grande parte destas pessoas podem tocar juntas e divertir-se; O ICA é suficientemente pequeno que não importa quem é o cabeça de cartaz ou outra coisa qualquer. Apenas interessa aparecer e dizer, “Bem, isto é aquilo que nós fazemos”, e sentir-se muito orgulhoso por isso durante uma semana.”

Discografia Essencial, Tal Como Recomendado Próprios Integrantes da 4AD
IVO:
Cocteau Twins – Heaven Or Las Vegas LP
Red House Painters – Red House Painters LP
His Name Is Alive – Home Is In Your Head LP
MICK ALLEN:
Pixies – Surfer Rosa LP
Dif Juz – Huremics LP
Cocteau Twins – Heaven Or Las Vegas LP
BRENDAN PERRY:
A.R.Kane – Lolita EP
The The – Burning Blue Soul LP
Michael Brook – Sleep With The Fishes LP
MARTYN YOUNG:
Modern English – Swans On Glass
Cocteau Twins – Head Over Heels LP
Pixies – Velouria EP
KRISTIN HERSH
Pixies – Come On Pilgrim LP
(“Prefiro não dizer mais pois seria injusta para muitas outras pessoas que teriam de ficar de fora”)
MARK ROBINSON:
The Tintwistle Brass Band – 7” of two Pale Saints’ songs as played by a brass band...
In Camera – 13 (Lucky For Some) LP
Lush – Scar LP
Modern English – After The Snow LP






15.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (152) - Option #27


Option
Music Alternatives
JUL/AUG  1989  No. 27
$3.00

USA
132 páginas
interior - papel brilhante fino profusamente ilustrado com imagens e fotografias e com muitos textos de artigos de fundo, críticas, etc.
papel interior a p/b
capa e contracapa a cores.
Publisher And Executive Editor: Scott Becker




Sound On Sound
On Track With Wolfgang Press

by Andrew Jones
"O Acid House está moribundo. O Verão do Amor acabou."
Mick Allen, o guitarrista, vocalista e letrista, de 30 anos, dos Wolfgang Press, profetiza acerca das tendências actuais da música Britânica enquanto beberica um Molson, uma calorosa cerveja Canadiana, que lhe foi fortemente recomendada por Mark E. Smith. Allen encontra-se em Montreal com os seus companheiros de banda, Mark Cox e Andrew Gray, e esta tarde estão a puxar-se mutuamente para cima. Estás a ver, estes três Dukes de dança funk altrada vão abrir para os concertos de Nick Cave que está em digressão pela América do Norte, e estão a promover o seu quarto álbum, Bird Wood Cage (4AD / Rough Trade), por outro lado.


Apesar de o prospecto indicar que entram em palco antes do São Nick não seja nada comparado com a situação musical potencialmente perigosa agora encarada por Allen. Sentando-se muito perto do grande piano no hall do hotel, parece que a sua atenção é atraída por um velho bafiento que está a meio de aniquilar esta tarde. "Conheces algum filho de Duke Ellington?" , pergunta, inundando-nos com o hálito de um ou mais amarettos. "Oh, possivelmente não conseguirei tocar sem a minha pauta musical", diz Allen com um sorriso maroto na sua cara.
"Tem de ser posto no contexto certo," continua Allen depois do nosso jazzman ter terminado. "Não podes ouvir Acid House sentado numa cadeira. Vais a um clube e tens o teu hit, e isso é porreiro para mim, parece ser como era o punk. As pessoas querem algo. Ver-se livre deste nonsense e tentar que alguma coisa de interessante aconteça, algo excitante. É uma situação terrível quando tens 16, 17 anos, e está a acontecer apenas porcaria."
Nascidos em 1983 a partir do tédio dos subúrbios do lado Este de Londres a a partir das cinzas de 2 bandas post-punk, Rema Rema e Mass, os Wolfgang Press eram inicialmente compostos por 5 músicos nómadas que tinham um ódio comum por música a partir de pautas musicais.O teclista Mark Cox, que já tinha tido o seu quinhão de "não fazer puto" no que toca à música e que manipulou maliciosamente a sua idade em "20-10", encontrou Allen na altura em que este último estudava pintura na escola. Assinaram por uma etiqueta recém criada pelos ex-críticos musicais Ivo-Watts Russell e Nick Kent (4AD), e o duo editou um álbum ainda como Mass, "You and I". Foi de imediato surrado na imprensa britânica como uma "carga de droning opressivo e berraria".
Tentando um novo caminho, recrutaram o guitarrista Andrew Gray, que até aí trabalhava como "escravo" numa loja tipográfica, o baterista Richard Thomas, e Richard Thomas, dos Dif Juz, para os loops de percussão, piano e flauta.. "Quando iniciámos os Wolfgang Press não nos víamos como uma banda", recorda Cox. "Apenas nos víamos como uma espécie de Wolfgang Press, e quem fazia o quê não era particularmente importante. Eram apenas umas experimentações". "The Burden Mules" (1983) foi o primeiro resultado dessas experiências. Atmosférico e extremo, o álbum é uma espécie de saco de recolha de batidas e ondulações ao estilo PIL ("Complete & Utter"), pancada contundentes e abrasivas ("Journalists"), e peças ambientais assustadoras com letras decididamente retorcidas ("Slow As A Child").
Desde "The Burden Of Mules, os Wolfgang Press nunca mais utilizaram um baterista. O leve trio composto por Allen, Cox e Gray manipulam agora todas as percussões e baterias, e tornaram os ritmos fora de ordem como uma forma de semente para novas canções. "Nós gostamos de ter bateria ao vivo sobre o som dos padrões da máquina mecânica de ritmos, de modo a obtermos aquela temporização imperfeita", diz Cox. Aperfeiçoando as suas imperfeições também significa que são amaldiçoados com sons esporádicos, apesar de um que inclui a série de EPs de 12" que são autênticas obras-primas: "Scarecrow", "Water", "Sweatbox" (colectados no LP "The Legendary Wofgang Press and Other Tall Stories") e "Big Sex". Nós não nos retemos numa fórmula que tenhamos acordado e escrevemos uma canção," explica Cox. "O material que produzimos é orgânico, e é feito através de uma abordagem lenta e demorada".


Sons descartados, o lixo sonoro dos dias normais da vida quotidiana, são talvez as coisas mais importantes atiradas para a pilha de materiais de composição dos Wolfgang Press. Vinda de uma banda cujo saco de instrumentos musicais contém coisas tão exóticas como carrilhões, pixiphone, apitos, correntes, e clarinete, isso não é de forma nenhuma surpreendente. "Eu sempre gostei e utilizei instrumentos e sons estranhos," diz Cox de forma excitada. "Estou sempre à procura de coisas para gravar e samplar. Para nós, essas são as coisas que nos mantêm interessados na música. E eu penso que estamos a ficar cada vez melhores nesse aspecto. Porque as coisas em Bird Wood Cage estão muito mais simples, há espaço para ouvir o que está a acontecer. No passado nós usávamos bons sons, mas usávamo-los em tão grande quantidade que se confundiam uns aos outros.."
O assunto da samplagem e poluição sonora captou a atenção de Gray. Até ao momento ele tinha estado imerso nas texturas das linhas que pendiam de um buraco no joelho das suas calças. "Uma das melhores coisas que comprámos ultimamente foi um pequeno teclado Casio que nos custou 80 £," diz ele, com um brilho nos olhos. "E está por todo o álbum. É um sampler muito barato, na verdade é um brinquedo. Mas devido ao modo como os seus samples soam, eles não surgem do modo como os ouviste da primeira vez; dá-te uma nova interpretação. A maioria das vezes isso é mais interessante. "O que foi samplado para as canções de Bird Wood Cage? "Louis Armstrong. Pessoas. Amigos nossos perpassam por esses sons. Mas eles não fazem a mínima ideia que estão lá," diz Allen secamente.
Lembro-me de uma parte de uma cassete Tellus que ouvi cedo nessa manhã. "16 Great Turn-ons" consiste nos sons de 16 electrodomésticos a serem ligados uns a seguir aos outros. Cox ri-se. "É isso - as possibilidades são infinitas. Podes gravar uma amostra de 3 segundos de uma máquina de café a ser ligada, extrair daí 0,2 segundos e tens uma batida de baixo.
Seguindo os conselhos dos King of Ping, Brian Eno, que deitam cá +ara fora manuais de instruções e deixam os seus sintetizadores cair em elevados estados de irreparação, Cox descobriu alguns sons fortes e acidentes felizes. "O som de teclas principal em 'Shut That Door' (de Bird Wood Cage) é uma antiguidade, um ARP Odissey que eu tenho há 11 anos. Eu comprei-o quando ele estava mesmo velho, e tinha cancro terminal. Alguém deixou cair umas gotas de cerveja sobre ele há cerca de 4 anos atrás e agora está mesmo morto de poder. Mas por causa disso, ele consegue sons particulares, que não era suposto fazer, o que é bom. Tanto quanto é nossa preocupação não interessa o modo como obténs os teus sons e ruídos, é o som/ruído que é importante."
Com uma dezena de melodias nos seus inícios e os seus ruídos favoritos a reboque, os Wolfgang Press começaram a procurar um produtor compreensivo.Eles sentiram que o estilo de produção do seu Standing Up Straight, pelo produtor da casa - 4AD -, John Fryer, era um pouco densa, fria e húmida. Então fizeram uma audição com Simon Rodgers, que tinha passado algum tempo com os The Fall, e com Flood, que se tinha sentado por detrás da mesa de produção para trabalhos de Nick Cave, New Order, U2 e Anna Domino. Eles encontraram-se com os dois, gostaram de ambos, e gravaram duas faixas com cada um deles. Com Rodgers a coisa não funcionou. De acordo com Cox, Flood é que tinha o dom; uma combinação inusual de um elevado grau de sapiência técnica com uma empatia artística.
"Muitas das nossas ideias vinham-nos em casa, porque labutávamos na confusão e encontrávamos uma combinação particular de sons de que gostávamos. Por vezes o som de que gostávamos era o resultado de um processo que usávamos para o gravar.
Assim, o que fizemos em casa de modo a obter uma coisa acabada é diferente do que tínhamos feito no estúdio. Flood era mais capaz do qualquer outra pessoa com quem havíamos trabalhado, em ultrapassar esses problemas técnicos. Ele era muito bom em compreender que as coisas importantes para nós eram alguns dos sons, em vez da composição. Muitos produtores apenas querem misturar tudo com os acordes e nós não sabíamos nenhum. Apenas sabíamos o que soava bem."
"Eu sei um acorde," confessa Allen. "Eu toco-o na guitarra. É o G, não é?" pergunta ele a Gray.
Allen expande o seu acorde único juntando-lhe algumas bonitas letras , as quais são onomatopeicas, ominosas e, em geral acrescentadas em último lugar.. "Não é fácil escrever letras, tu sabes. Eu nunca me vi como um contador de histórias, no sentido de pessoas como Tom Waits. Eu faço-o numa espécie de sons, em certa medida. E têm de ter um certo significado. Para mim, pelo menos. Poderão não fazer muito sentido para outras pessoas. Pensando agora nisso, tenho reparado que as outras pessoas ficam um pouco confusas."
"Mas é a natureza abstracta das tuas letras aquilo com que eu me divirto mais," protesta Cox. "Não há muitas pessoas que utilizem as letras dessa forma. A maioria das pessoas limita-se a descarregar letras que são autênticos 'clichés', tipo 'I reaaly love you baby'. Quantas vezes escrevem as pessoas 'I love you baby'? suspira ele, cansado. Ok, então que tal coisas do Allen como "ela tem um meio, exactamente como o da sua mãe / Ela tem um meio, governado centralizadamente," ou "abençoa o meu irmão / escondido no caixote do lixo"? Se houvesse uma banda sonora necessária para o mundo caprichoso e repugnante filme de Raymond Briggs, Fungus the Bogeymanou para os contos góticos subtilmente cáusticos de Edward Gorey, os Wolfganag Press encarregar-se-iam eficaz e plenamente da tarefa.

Na Primavera passada os Wolfgang Press iniciaram a sua primeira grande digressão pelos Estados Unidos, e adoraram as coisas excelentes do corrupto modo de vida Americano - sanduíches de clubes, comida japonesa, canais religiosos 24 horas por dia. A sua recepção foi entusiástica, mas ainda assim eles foram cautelosos na tentativa de recriar o seu som em palco. "Parece que encontrámos pessoas que pareciam pretender que gravássemos os nossos espectáculos ao vivo, em disco, o que é interessante, porque nós nem sempre temos uma opinião muito positiva sobre as nossas actuações ao vivo., revela Cox. "Nós estamos realmente muito determinados em alterar essa situação e começar a executar tudo ao vivo. O problema é sempre o mesmo, tu sabes. Precisamos de duplicar em tamanho de imediato. Como ter mais três pessoas na bateria, baixo e percussões. E nós não estamos interessados em contratar nenhum daqueles velhos músicos do tipo Sindicato, queremos pessoas que estejam interessadas realmente naquilo que nós fazemos.."
Em palco os Wolfgang Press rockam como três dissidentes Russos a aquecer-se numa manhã fria em Smolensk. Com calças largas e apenas uma ligeira sugestão de pêlos na sua cabeça, Gray parece a toda a hora um doutor do ruído, pois dispara wahh-wah solos ensurdecedores desde o início. Vestido de cabedal e com um boné, Cox tem ao seu dispor uma bateria de sintetizadores primitivos enquanto Allen se arrasta à volta do microfone como o idiota da aldeia, abanando o seu corpo atarracado e as rastas prateadas. "Tirem o cu das cadeiras e dancem," pede ele, e o concerto termina com uma remistura cavernosa de "Sweatbox".
Ao vivo, o material de Bird Wood Cage também revela o funk escondido dos Wolfgang Press. Ouça-se "Hang On Me", uma remistura reggae atravessada com uma guitarra distorcida, ou o retorcido som tipo Motown de "King of Soul". "Raintime" tem uma batida de fundo lenta, tipo James Brown, enquanto o ponto alto da sua actuação, uma versão esteroizada de "Respect", que até faz abanar o chão. "Algumas pessoas pensam que essa canção é uma porcaria," nota Allen, "mas não é. É uma das nossas canções favoritas. Não há qualquer desrespeito para com Aretha".
Como que por magia, Stevie Wonder aparece no grande ecrã do bar, e todos nós paramos para relembrar os "setentas", quando as gravatas eram largas, Carter estava no poder, Burt Reynolds fazia furor a facturar, e o "disco" tresandava.
"Eu penso que é muito subconsciente, na verdade," diz Cox. "Mas nessa altura, eu entusiasmava-me realmente com James Brown e algumas importações Americanas de discos funk, no início dos anos setenta. Havia uma série de grupos de que gostava do primeiro e/ou segundo LPs, como os Fatback Band e os Ohio Players, que eram realmente crus e excitantes no seu início. Mas depois ficaram grandes, e começaram a produzir "papel de parede". Até Roy Ayers, eu tenho um álbum dele chamado Mystic Voyage que é brilhante".
Mesmo com tons leves explícitos de funk, Gray sente que a nova batida dos Wolfgang Press os trouxe a um ciclo vicioso. "Com Bird Wood Cage pensoq ue regressámos mais às raízes do nosso som e começámos a despojar-nos novamente, enquanto Big Sex tinha... como direi... mais groove nele. Era mais complicado, estava a começar a ficar um pouco faustoso, no mau sentido da palavra."
Allen mostra-se horrorizado. "Poderíamos ter começado a soar como os Kool & The Gang".



Reading Matters
by Richie Unterberger
Books

The Real Frank Zappa Book, by Frank Zappa with Peter Occhiogrosso.


Desde meados da década de sessenta, Frank Zappa tem sido um dos músicos mais populares e premiados, à falta de uma frase menos banal, iconoclasta. Ele derrubou convenções e atacou os standards públicos no que à música diz respeito, mas também na imprensa, e no seu discurso chave na American Society of University Composers (com as frases de abertura, "Não pertenço à vossa organização. Não sei nada sobre ela. Não estou sequer interessado nisso"). E finalmente, em 1985, os seus pontos de vista foram finalmente reconhecidos pela America mainstream como ele testemunhou antes de um congresso de um subcomité investigar a imoralidade na música rock. Como poderíamos esperar, a sua autobiografia não é muito linear, documentação linear dos seus feitos, mas uma visão anedótica e altamente pessoal dos seus altos e baixos, com muitas digressões pelo comentário social. As primeiras cerca de 100 páginas são dedicadas à sua infância, onde tudo começou, e à sua subsequente ascenção a rei da pop satírica nos anos sessenta e início dos anos setenta, e são ricas em factos pouco conhecidos, fascinantes, e, por vezes pequenas cócegas e petiscos para o público. Algumas preciosidades encontradas: o jovem Frank fez uma chamada telefónica de longa distância para o estrangeiro, para Edgar Varése, como presente do seu 15º aniversário ("Deduzi que uma pessoa que se parecia como um cientista louco só poderia viver num local chamado Greenwich Village"); recolecções de histórias sobre a produção para Captain Beefheart do seu Trout Mask Replica, no qual o Sr. Van Viet não conseguia cantar sincronizadamente com o fundo musical que lhe eram disponibilizados nos seus auscultadores, preferindo cantar através da ligação com "a conexão áudio que lhe vinha através de três painéis de vidro a que distava a janela da sala de controlo"; a abertura dos Simon & Garfunkel para os Mothers em Nova Iorque em 1967 disfarçados sob a capa do seu grupo original, o duo de doo-wop Tom & Jerry; a abertura para Vanilla Fudge e ser-lhe gritado pela audiência, "Vocês não prestam para nada! Tragam os Fudge!".
Depois entramos numa parte muito detalhada, com descrições quase filosóficas de como cada membro de um grupo rock funciona; como ele grava no estúdio; as imensas dificuldades em tocar e gravar trabalhos orquestrais; as imensas chatices legais e burocráticas do negócio da música e dos seus "patrões" (completado com um longo excerto de uma transcrição de um julgamento num tribunal britânico em que todos acusavam Zappa de tocar material obsceno). Os últimos capítulos são de crítica social, como Frank entende a PMRC, a família nuclear, e o nosso governo. Zappa é um homem cínico, mas tem uma inteligência aguçada, e, bem, é engraçado, na maioria do tempo. Não concordo com tudo o que profere, mas o que ele escreve faz-me põe-me quase sempre a pensar - seja acerca do complexo militar-industrial, a guerra às drogas, ou a banalidade das canções de amor. Gostaria que o livro contivesse mais material sobre como ele escreveu e produziu alguns dos seus álbuns - Ainda não consegui encontrar uma explicação plausível de como uma banda de R&B/blues chamada Mothers rapidamente se transformaram na melhor banda satírica da cena pop-rock de todos os tempos. Detalhes sobre clássicos como We're Only In It For The Money são surpreendentemente esparsos - será porque Zappa compreendeu, no seu coração, que os seus últimos discos dos finais da década de sessenta são de longe mais inovadores, e muito superiores às suas actuais produções? Apesar de tudo, esta é uma leitura compensadora que vai muito para além da biografia standard de músico rock, embora os não fanáticos por Zappa devam esperar pelo livro de bolso devido ao elevado preço a pagar por esta edição. (Poseidon, 352 pp., $19.95).






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