1993-07-14 Sonic Youth
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21.4.21
Tickets de concertos: agora a lista do Tiago Carvalho - #6
1993-08-07 Siouxsie & The Banshees + Tédio Boys
1993-09-11 Einsturzende Neubauten + Lucretia Divina
29.9.17
16.8.17
29.8.16
Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #61: Max Dax / Robert Defcon: "Einstürzende Neubauten - Nur Was Nich Ist, Ist Möglich"
autor: Max Dax / Robert Defcon
título: Einstürzende Neubauten - Nur Was Nich Ist, Ist Möglich
editora: ????
país: Alemanha
nº de páginas: 304
isbn: none
data: 2005
Edição Limitada, de 500 exemplares, autografada pelo grupo, capa dura, comemorativa dos 25 anos de actividade da banda.
29.6.15
Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (92) - Elegy - Nº 32
Elegy
Nº 32
Fevereiro / Março de 2004
Magazine + CD: 7€
100 páginas
um pouco maior que A4 ( a cores - papel de luxo brilhante, peso normal, capa mais pesado)
Einstürzende Neubauten,
Ar Líquido
Os Einstürzende Neubauten reentraram no circuito da Mute depois de terem ensaiado a autoprodução graças ao método de subscrição lançado através da Internet no ano passado. Não se trata verdadeiramente de um regresso ao ponto de partida, pois para este "Perpetuum Mobile", o novo álbum do quinteto, os subscritores terão também a oportunidade de reservar a sua parcela!
Perpetuum Mobile, novo álbum dos berlinenses, é baseado em dois princípios, o movimento, quer espacial quer temporal, daí a forte utilização de instrumentos de sopro. Se antes nos habituámos ao som dos compressores, aqui os prazeres são tornados mais fluidos.
- Vocês voltaram a assinar novamente pela Mute para a saída deste álbum em larga escala. Porquê?
Blixa Bargeld - Simplesmente porque todo o dinheiro da subscrição se gastou na gravação. Não nos restava nada, tínhamos de procurar uma editora, para espanto nosso e mau-grado os nossos anos de experiência nós tivemos que fazê-lo.
- Mas não foram procurar muito longe. Negociaram com Daniel Miller?
. É um facto. Mas, hoje em dia as editoras não têm tanto dinheiro como tinham há alguns anos.
Perpetuum Mobile é uma espécie de diário de bordo; utilizaste as tuas notas de viagem para escrever os textos?
. Sim, utilizei, em parte, as notas recolhidas ao longo das minhas viagens um pouco por todo o álbum.
- Duma certa forma Perpetuum Mobile parece estar na veia do teu Recycled Soundtrack, adicionando-lhe o modo "canção"...
. Não há uma única faixa cantada em Recycled Soundtrack!
- Sim, ams falava da ambiência. Ele está mais próximo, em todo o caso, sem a inércia, de "Ende Neu" do que de "Silence Is Sexy"...
. Não, eu não percebo bem que tu não sejas o primeiro a dizer-me isso, eu não vejo sentido nenhum nessa afirmação. É muito pessoal como abordfagem. Este álbum é muito diferente.
- Que é feito do álbum de Alexander Hacke que devia consistir em gravações de som feitas à volta do mundo, como as gravações de um lago gelado ou de cantos xamãnicos?
. Penso que é melhor perguntar-lhe a ele.
- Sobre o trabalho "Perpetuum Mobile", dizes que levas contigo a tua máquina de vreme gelado invisível, o quer isso dizer?
. De facto, há um erro, é a minha máquina de gelo. Faz parte das coisas com que nós ficamos para sempre, como as ideias. Eu tinha um frigorífico com um distribuidor de cubos de gelo, o que não era corrente na época. Isso fazia-me ficar, então, muito orgulhoso.
- Dizes também ter contigo o teu Zeppelin privado invisível...
. Eu gostaria mesmo de ter o meu próprio Zeppelin. Creio que é um meio de transporte aéreo verdadeiramente muito confortável, e deve ser também muito agradável estar dentro de um Zeppelin, de passar algum tempo dentro dos vapores de álcool no interior de um Zeppelin.
- E isso não será perigoso?
. Perigoso?
- Podes pegar fogo...
. Não, isso não é verdade. O Hindenburg pegou fogo não por causa do gás mas da pintura utilizada no revestimento exterior. Em seguida eles utilizaram - não me perguntes o nome - gás inflamável. Foi o embargo americano contra a Alemanha que os obrigou a usar o hidrogénio. Ah, foi o hélio que utilizaram à frente! A causa verdadeira foi uma tempestade, a nave ficou carregada electricamente, uma vez que tinham virado a âncora contra o sol, o que fez aquecer a camada de laca externa do dirigível. Nos nossos dias, nenhuma espécie de Zeppelin é feito com materiais inflamáveis, pelo menos na sua fase de concepção. (NDR: um estudo da Nasa sobre os detritos confirma o facto que é o invólucro que se inflamou a seguir à tempestade, por causa de uma descarga eléctrostática muito forte da carcaça. A utilização de hélio, ainda que seja menos inflamável que o hidrogénio, não altera nada). Adoraria ter o meu Zeppelin pessoal!
- Com um palco lá montado, não?
. Sim, isso seria muito bom também. E sabes que mais, tu poderias fazer uma actuação lá dentro também. Acho que poderíamos fazer bom material com este cenário.
- Encontramos de novo os metais e as cordas neste álbum...
. Sim, os metais e as cordas têm qualidades particulares que são difíceis de encontrar por um grupo como o nosso, muito baseado nos elementos percussivos. Nós não temos, dessa forma, instrumentos que produzam notas longas, pode ser que isso aconteça neste álbum, onde há muitos instrumentos de sopro (NDR: Blixa reproduz o som da respiração através de um tubo). Em geral tudo é curto. Se tu tocas notas mais longas, tens de fazê-lo com teclados, cordas ou metais.
- Por vezes com a guitarra?
. O quê? O "iiiiiiii"? Sim, é algo que eu faço por vezes.
- Um dos pontos chave da subscrição era que os apoiantes poderiam dar a sua opinião e sugestões sobre as composições em curso. Como correu essa interacção?
. Eu não falaria de interacção. Em todo o caso, eu diria que eles sacrificaram uma grande parte do seu tempo a ser testemunhas do que se passava, eles davam-nos muita atenção. Também faziam muitos comentários àquilo que fazíamos, o que foi de um grande valor, excepcional, mesmo. Mas não chegaria ao ponto de dizer que houve uma interacção, é um mau termo. Eu creio que correspondeu mais ao facto de dar a escutar uma mistura ainda em bruto a amigos, ou de lhes mostrar extractos de textos. E, assim, receber os seus comentários e ideias em troca. Eu tento evitar ao máximo essa palavra "interactivo".
- Porque é um termo da moda, nesta altura?
. Porque soa oco. Ninguém sabe na verdade o que quer dizer.
- Sem esses fãs, vocês teriam editado na mesma a faixa "Ein Seltener Vogel"?
. Sim, a uma certa altura ele seria abandonado.
- Quantas faixas passam o crivo habitualmente?
. Muitos mais, habitualmente. Ficam sempre alguns temas que não chegamos a acabar, mas no caso de "Ein Seltener Vogel", há o facto de conter uma improvisão ao vivo. Ensaiámos depois reproduzir e tentar melhorar o que se passou naquela noite. Acabámos por ir parar a um beco sem saída, aquilo não avançava. Não fazia sentido, não era bom. Estive quase a abandonar esse tema, e disse: "OK, avancemos, ideia seguinte". Mas os subscritores insistiram de tal forma, eles não pararam de nos colocar questões, até que o grupo foi obrigado a reexaminá-lo. "Que há de mau na vossa forma de o tocar actualmente?". "Porque é que isso não avança?". Uma vez analisado o que estava errado, nós fomos capazes então de o continuara tocar, já de uma maneira melhor. Subitamente, houve um clique, e tudo começou a avançar. Agora, estamos contens.
- Tens uma relação particular com os vulcões? Já houve "Armenia" em Zeichnungen des Patienten O.T. e agora "Ein Seltener Vogel", onde é tratado o monte Ararat, que não é muito longe geograficamente...
. Vulcão? Não estou a ver... Em "Armenia" é mesmo uma questão de vulcão. A referência a o monte Ararat saiu assim, de improviso. É o lugar em que possivelmente foi construída a arca de Noé.
- É também um vulcão adormecido...
. Como isso é interessante... Não o sabia.
- Contém também essa noção de desaparecimento, nada é imutável, os dinossauros podem desaparecer... EN não correm um risco de se tornar num no seu percurso?
. Não, nós não nos transformaremos num, felizmente, com a partida de Mufti (NDR: F.M.Einheit), essa ideia desapareceu. Nós não estávamos de acordo sobre o modo como deveríamos considerar as coisas, ele via qualquer coisa de grandioso. Eu não penso que um dia sejamos uns dinossauros como os U2.
- Tu foste sempre um apaixonado pela Astronomia, ou aqui as referências às estrelas têm mais a ver com o Marte Ataca do que com Copérnico...
. Não é tanto assim. O "A vida noutros planetas deve ser difícil" vem de facto de uma conferência de imprensa que demos na América do Suil. Alguém perguntou: "Que pensa da vida noutros planetas?" E eu respondi que ela deve ser difícil, mas eu pensava na vida ela mesma, como ela se apresenta no nosso planeta.
- Onde é que vão tocar aqui em França? Para GrünStuck", a segunda fase da subscrição (que é também o nome do do título final do álbum), vocês deixam entender que irão tocar em locais inabituais)
. Iremos tocar no Bataclan de novo. A respeito de GrüdStuck, é preciso que nos dêm tempo para trabalhar antes de tenatr saber onde terá lugar.
Entrevista de François Marlier
Discografia Seleccionada:
2004 - Perpetuum Mobile
2004 - Supporter's Album 1
2002 - 9-15-2000 Brussles
2000 - Silence Is Sexy
1996 - Ende Neu
1993 - Tabula Rasa
1989 - Haus Der Lüge
1987 - Fünf Auf Der Nach Oben Offenen Richterskala
1985 - 1/2 Mensch
1983 - Ziechnugen Des Patienten O.T.
1981 - Kollaps
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12.3.15
Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (47) - Die Neue Sonne - Nº 2 - Abril de 1988
Die Neue Sonne
Nº 2 - Abril de 1988
32 páginas A5 a p/b
Colaboram neste número: Jorge Pereira, Hansel, Gretel, Barbarian
Einstürzende Neubauten
Há um início do fim! Se há momento em que realmente vale a pena compenetrarmo-nos de que não passamos de míseras peças de uma maquiavélica engrenagem social, a audição da música do EINSTURZENDE NEUBAUTEN torna-se na verdade um potencial catalizador de acções mentais que apontam para essa ideia.
O grito assume um papel determinado. Quase fatal. Tudo é dor e desespero e torna-se-nos impossível mantermos hipóteses de que acções gratuitas povoem um trabalho tão belo e radical. Claro que, quando me refiro à beleza, não a rebusco em imagens estereotipadas e pré-construídas. Apoio-me simplesmente em estruturas mentais próprias: a beleza da dor, do suspiro confidente da criança hospitalizada, da martelada final, do bater ritmado de um trémulo coração em cadência finita...
Nos sons criados pelos E. Neubauten, tudo é terrivelmente cuidado. Mas é de salientar, porém, a presumível posição caótica de "o ruído". É que ele não é facilmente audível na sua perfeição: exige, pelo contrário, uma forçosa tomada de posição por parte do ouvinte. Ou se se afunda no sofá, arrasado, cansado, destruído, mas visivelmente bem para consigo próprio; ou numa atitude perfeitamente antagónica, se se começa a destruir tudo o que nos rodeia num gesto de fácil compreensão para quem lê a misteriosa e pertinente máxima ditada pela banda: "A DESTRUIÇÃO NÃO É NEGATIVA. TEMOS QUE DESTRUIR, PARA CONSTRUIRMOS! Para quem nunca com eles, a primeira audição provoca, como num acto de iniciação, um quase não conseguir abrir a boca ou activar o cérebro, que nesses momentos se torna nalgo de perfeitamente inútil. De seguida as emoções transmitem-se, por amor, para o pedaço de vinil... "Prédios novos desabando" - eis a tradução literal de EINSTURZENDE NEUBAUTEN. Não podia compreendê-lo! Noto agora que é mesmo necessário desligarmo-nos das coisas, mesmo que muito gostemos delas, para que de seguida possamos construir algo de suficientemente válido.
O idioma alemão, frio, cruel, torna-se numa arma poderosa. Aliás, uma das nove armas com as quais os E.N. prometem destruir aquelas novas estruturas que presumivelmente se sentem fortalecidos nos tempos que correm. As palavras são articuladas lenta e dolorosamente. Os estilhaços de vidros partidos continuam a pefurar-me a carne e os tímpanos. É terrivelmente apaixonante esta dor que me fere sem perdão. Nada de masoquismo: só o direito à verdade!
BLIXA respira e às marteladas sucedem-se sons metálicos estridentes transportando-nos até uma dimensão perfeitamente alucinante que não é mais a realidade que se prentende simular. Caos total. Nada gratuita, pois tudo é fruto de uma dor que parte do nada, do sentimento... Nada é pensado, porque a dor não se pensa. Sente-se!...
E a serra mecânica continua a dilacerar-me o cérebro. Rio-me tresloucadamente. Choro: torno-me paradoxal, incompreensível. Na rua olham-me com faces ameaçadoras e simultaneamente desiteressadas.Da janela continua a sair o desespero. Frio, niilista, mesmo radical. Os extremos tocam-se e facilmente se compreende assim o facto de na música dos NEUBAUTEN, a loucura e a frieza se misturarem cruelmente com a felicidade, a razão e o desejo. Pelo meio, ficam inúmeros vidros estralhaçados, metais amassados, sons cortantes capazes de violentar ouvidos ao mais surdo dos surdos e muitos, muitos sentimentos perdidos.
Há quem diga que a música dos NEUBAUTEN só é possível graças à constante busca de novas coisas. A tal "the next big thing"... Não acredito: A pop está morta, já o sdabemos. Cheira até mal, pois há anos que se arrasta em putrefacção. A arte dos E.N. desde há muito que era exigida, pois é das poucas coisas que ainda têm a coragem e a frieza de não nos mentir. Afinal ainda há quem nos diga: "oiçamos o barulho do coração a bater..."
Tudo indica que esta banda tivesse que surgir mais tarde ou mais cedo. Fê-lo em 1980. Para trás e para a frente, ficam-nos résteas de desesperos semelhantes: Test Department, Birthday Party, Lydia Lunch, Nick Cave & The Bad Seeds, Sonic Youth, Swans, Prunes, 23 Skidoos, Butthole Surfers, Crime & The City Solution... Tudo pérolas deitadas a porcos que não as sabem ou souberam reconhecer. Gastam-se energias e tempo com modas e esquece-se de restaurar a verdade, a força do grito dilacerante. Assumem-se atitudes incompreensíveis de rejeição à primeira audição, mas ignora-se que o amor e alegria sabem melhor quando pensados e reencontrados em algo realmente válido.
Afinal passeamo-nos sobre uma frágil corda instalada sobre um precipício e quem tiver coragem e força para olhar para baixo, duma coisa poderá ter a certeza: cairá, primeiro, mas pelo menos compreenderá o porquê da queda. Do fim...
A formação inicial dos EINSTURZENDE NEUBAUTEN, Blixa Bargeld; N. U. Unruh; Alexander Hacke; Marc Chung e finalmente F. Mufti Einheit, manteve-se ao longo destes sete anos de existência sem rupturas, apesar do interregno criativo da banda a que os seus próprios elementos se auto-impuseram, em inícios do ano de 1986. Porém, dia 7 de Setembro de 1987 foi a data de reencontro da banda com o seu público. Local escolhido: London Kilburn National, em Londres, claro... Os Showaddywaddy, banda que curiosamente se entrega à elaboração de um rock 'n' roll renascido e espectacularmente excitante, procuraram e de certa forma conseguiram reter os ânimos, mas não sem que tivessem incentivado anteriormente 4 pessoas do público a subir ao palco para mostrarem como se reage ao rock 'n' roll... Subiram 6 punks 2adarkalhados"! A tradição gótica (eh! eh! eh!) manteve-se: gerou-se ali tamanha pancadaria que só mesmo com a entrada e restantes elementos dos E.N. cessou Depois foi o delírio. "THIS WAS MADE TO END ALL PARTIES" - vociferou.
E cumpriu-se.
Marc Chung e Einheit, antigos elementos dos AbWarts são dois dos principais impulsionadores da "técnica" do "metal no meta". O espancamento dos instrumentos torna-se incessante. Unruh acompanha. Blixa, o líder, desde cedo se empenhou noutras "lutas": ele faz parte integrante dos BAD SEEDS, banda que acompanha Nick Cave nesta sua actividade após a dissolução dos B. Party.
A discografia dos Einsturzende Neubaute é já relativamente extensa. Em 82 lançam Kollaps, seguindo-se-lhe, no ano seguinte Zeichnungen des Patienten OT / Drowings on OT. Em 1984, editam uma compilação retrospectiva dos seus quatro anos de existência. 80-83 Strategien Gegen Architekture / Strategies Against Architecture é o título desse álbum, que incluía entre temas do primeiro LP e um single antigo dos tempos de início da banda, algumas faixas inéditas, ao vivo e em estúdio. Ainda em 84, sai também o 12" EP Yu Gung, acabando por ser lançado no ano seguinte Halber Mensch, último trabalho de longa duração anterior à já citada paragem. É a partir deste período que a banda se começa a abrir um pouco mais a "estrutura-canção", concretamente até pelo uso de teclados nas mesmas.
1987: novo álbum!
Após o auto-imposto exílio, o jogo de sombras sonoras é retomado, agora mais fortalecido e talvez mais coerente do que nunca. O raio de acção foi, sem dúvida, alargado. Não lhes procurem fugir, pois encontrá-los-ão sempre onde menos se espera. Serão a personalização desse memorável colapso arquitectural ou não se apelidassem eles o início do fim do suicídio.
1987: novo álbum: "FUN AUF DER NACH OBEN OFFENEN RICHTERSKALA".
1987: edição, pela Roir UK, York UK, de uma cassete não pirata, chamada "2x4", sem dúvida excelente, com gravações de registos de vários concertos e perfomances dadas pela banda. Para além disto, a K7 tem uma apresentação magnífica com uma composição deveras interessante...
3.3.15
Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (36) - Mondo Bizarre - Nº 3 - Maio de 2000
Mondo Bizarre
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 3 - Maio de 2000
40 páginas p/b
Entrevista
Einstürzende Neubauten
(Blixa Bargeld)
Na confortável sala panorâmica de um hotel de Lisboa, Blixa Bargeld falou à Mondo Bizarre. O mais recente disco dos Einstürzende Neubaute, "Silence Is Sexy", foi o mote de saída, mas a conversa estendeu-se às outras actividades do músico e ao seu gosto por canções populares escritas para mulheres.
. O press-release de "Silence Is Sexy" diz que este é o trabalho mais complicaod e fascinente da história dos Neubauten. Em que sentido?
- Não li o press-release. Penso que o disco parece ser mais acessível a quem o ouve. É mais fácil obter prazer com este trabalho. Mas, se se for mais fundo, descobre-se que é o nosso disco mais hermético. Está cheio de referências cruzadas, de conotações profundas.
. Como interpreta e vê o silêncio? Há muitas maneiras de ouvir e sentir o silêncio como o posição ao som e ao ruído (John Cage é uma maneira de entender o silêncio). No álbum, canta "silence is sexy" e logo a seguir diz "your silence is not sexy at all"...
- A primeira coisa que surge, em termos musicais, ao falarmos de silêncio é John Cage. O seu 4'33", em que alguém se senta ao piano e durante esses minutos não se ouve uma única nota. Na sua típica aproximação zen, John Cage tenta criar uma peça na qual, de repente, nos apercebemos de todos os sons que nos rodeiam, durante uma determinada altura. Nesse sentido, o que fiz em "Silence Is Sexy" é um antídoto ao tema de John Cage. Eu queria que se ouvisse que o silêncio é tenso. Que o silêncio se relaciona mais com a ausência do que com a unidade do universo. Foi um longo processo de pesquisa até saber como gravar o que pretendia. O grande impacto dá-se quando o acender de um cigarro, quase imperceptível, se ouve, se torna tenso. Tinha a ideia nuclear para "Silence Is Sexy". No processo de composição, juntamente com as letras, cheguei à conclusão de que o silêncio é muito pouco sexy. O silêncio sexy está ligado à morte e não sou necrófito. A morte não me dá prazer nenhum. Daí veio o "your silence is not sexy at all".
. Conhece o Instituto de Som de Estocolmo, no qual existe um compartimento, totalmente isolado, onde tudo o que se ouve é o asustador som produzido pelo bater do coração?
- Não conheço o Instituto de Estocolmo, mas sei o que é uma Camara Silens. Essa é outra das coisas sobre as quais se pode ler nos apontamentos de John Cage. É muito estranho entrar numa. É um laboratório de som, onde apenas se ouvem dois sons, um alto e outro baixo. O alto é o ruído produzido pelo nosso sistema nervoso e o baixo o sangue a correr no nosso corpo. Por isso, em "Silence Is Sexy" falo de Tinnitus (zumbidos nos ouvidos), uma doença muito comum de que sofro. É como uma campainha constante nos ouvidos. O nível de ruído é inconstante. Há alturas em que nem me apercebo e outras em que o volume é bastante alto. Pensei em trabalhar numa Camara Silens para este álbum, mas acabei por abandonar a ideia.
. Musicalmente, "Silence Is Sexy" paraece ser mais introspectivo e menos potente que os discos anteriores dos Neubauten. Há menos experimentalismos radicais e mais construções harmoniosas, próximas do tradicional formato de canção. Vinte anos de carreira permitem-lhe uma maior serenidade para expressar o que pretende?
- Queria que todos os bocados deste disco fossem uma canção, que tudo fosse passível de reprodução em concerto. Não há nenhum tema neste disco que tenha, a 100%, o formatoo tradicional de canção. Todos continuam a ser muito desconstruídos de dentro para fora. Deixei de ter vergonha de utilizar instrumentos convencionais, apesar de continuarmos a trabalhar com novos e velhos instrumentos e também com bocados de materiais. Já explorámos tudo o que tínhamos de explorar. Não é necessário continuarmos a repetir o mesmo modelo de disco para disco. Avancei para um terreno ainda pouco explorado por nós: as progressões harmónicas, sobre as quais ainda sei muito pouco.
. Ouvindo os discos mais antigos com atenção, é fácil descobrir que a linha desconstrutiva não é anárquica. De certo modo, os velhos temas dos Neubauten têm uma linha contínua, às vezes quase dançável.
- Sim. No início dos anos oitenta e até meados dessa década, trabalhámos com estruturas parcialmente dançáveis. Não vejo nenhum obstáculo entre os discos mais antigos e as nossas abordagens recentes. Os primeiros discos eram mais ritualistas, intensos e enérgicos. Este é uma espécie de inversão dessas sonoridades. "Silence Is Sexy" é uma continuação do que temos vindo a fazer. Se pusermos os trabalhos lado a lado, vemos que se completam.
. Três anos - desde "Ende Neu" - para fazer um álbum não é demasiado tempo para si? Foi difícil o processo criativo de "Silence Is Sexy"?
- O processo é sempre complicado para nós. Criamos problemas musicais que temos que ir resolvendo à medida que o tempo passa. Dizemos sempre "temos um ano para fazer o disco". Mas isso nunca resulta. Deparamo-nos com muitos becos sem saída. É como fazer um filme. Filma-se 10.000 metros e só 5000 são utilizados na montagem final. Este disco é muito longo. Podíamos ter parado aos 40 minutos, mas havia ideias que tinham que ser trabalhadas até ao fim. Tínhamos que criar totalmente este micro-cosmos. Nos Bad Seeds nunca teria estes problemas.
. Qual é a diferença do Blixa dos Einstürzende Neubauten e o Blixa dos Bad Seeds?
- É como falar duas línguas diferentes. Tocar com os Einstürzende Neubauten, como qualquer pessoa que tenha tocado connosco pode provar, é como falar uma língua estrangeira. Quando toco com o Nick Cave regresso a uma linguagem comum a várias pessoas. É mais fácil uma outra pessoa tomar o meu lugar nos Bad Seeds, mas já não se passa o mesmo com os Neubauten. O processo construtivo é completamente diferente nas duas bandas.
. É-lhe difícil mudar de uma banda para a outra?
- Não.
. Actualmente, a música electrónica e as remisturas são bastante populares, mesmo fora da "club Scene". Pensa que a fusão entre música electrónica e outras tipologias musicais (como a vossa), é um modo de criar novas e interessantes formas de música?
- Eu deixei de ouvir coisas novas, não porque me tenha deixado de interessar por música, mas porque o discurso corriqueiro que lhe está associado não me diz nada. Sei que a música electrónica se tornou muito visível. Eu cresci com os Can - Holger Czukai / Herman Schimt (sic) -, Kraftwerk, etc. Para mim, a música electrónica sempre foi vital, sempre foi normal. A Alemanha sempre teve uma grande tradição electrónica e não me surpreende que o techno seja, aí, tão forte.
. Vai deixar que "Silence Is Sexy", à semelhança de "Ende Neu", seja remisturado por outros músicos ou dj's?
- Não. Se voltarmos a remisturar alguma coisa seremos nós a fazê-lo.
. Costumam oferecer-lhe bandas para remisturar? Que banda gostava de remisturar?
- Estão sempre a oferecer-nos coisas para remisturar. Em especial bandas polacas estranhíssimas. [risos] Não tenho grande interesse em fazer remisturas, apercebi-me que esse processo é totalmente contrário à minha ideia de remistura. As remisturas tornaram-se numa desculpa para aplicar as nossas ideias no trabalho de outro artista. Para mim uma remistura é isso mesmo: voltar a remisturar as misturas originais. No nosso disco poucos o fizeram. Só o Jon Spencer e o Barry Adamson aceitaram trabalhar com as fitas originais e voltar, de facto, a misturá-las, mas mais ninguém o fez.
. Os Einstürzende Neubauten foram uma das mais importantes, seminais e admiradas bandas de Berlin dos anos 80. Olhando para o passado, como avaliaria a vossa carreira e trabalho, desde os princípios da música industrial?
- Quando nós aparecemos, no início dos anos 80, o termo música industrial, significava uma coisa totalmente diferente. Não se aplicava a nós. Era uma coisa utilizada para designar grupos como Throbbing Gristle e demais amigos de Genesis P Oridge. Agora aplica-se a grupos como Rammstein, Nine Inch Nails, Marylin Manson...
. Que não são, na realidade, grupos industriais.
- Exactamente. Isso faz com que exista um problema com a definição "industrial". Devia-se especificar se nos estamos a referir à primeira ou à segunda vaga de música industrial. No meio, entre meados dos anos 80 e 90, desapareceu totalmente. O termo renasceu na América e tenho que viver com essa falsa designação adoptada pelos media. Os discos dos Neubauten são enfiados na secção de música industrial. Não era isso que nós queríamos, mas é o que acontece.
. Em que categoria colocaria a música dos Neubauten?
- Na secção de folk ou de música sacra.
. Uma das coisas que aprecia são as percussões africanas.
- Em períodos em que nada se passava em termos musicais, e incluo 1977 e a revolução punk nesse nada, quando a world music ainda não tinha sido inventada, ouvia coisas como grupos de tocadores de tambores etíopes ou do deserto, coros galêses ou sons do extremo oriente.
. Então não gosta de punk...
- Não. Gosto muito do efeito social que o punk despoletou e também do que significou em termos de mudança da indústria. O poder-se fazer as coisas por nós próprios foi muito mais importante para mim, para os Neubauten, do que as guitarras ou os Sex Pistols como símbolo musical.
. Parece gostar de cantar papéis femininos. Em "Sand" faz as duas vozes e quando os Bad Seeds tocaram no Porto, em 1997?, cantou a parte da Kylie Minogue de "Where The Wild Roses Grow".
- Sim, gosto de cantar canções que foram escritas para mulheres. Quanto à parte da Kylie Minogue, quando gravámos o original de "Where The Wild Roses Grow", fui eu que cantei a parte dela. Ela recebeu uma cassete, para aprender a partir do que eu tinha gravado. Acabou por cantar exactamente com a minha fraseologia. Por isso, no Porto, eu não estava a imitar a Kylie Minogue. Estava a imitar-me a mim mesmo. [risos] Também já cantei "Johnny Guitar", originalmente cantada por Peggy Lee, que faz parte da banda sonora do filme homónimo. É o único western onde os homens não têm armas. Todas as armas estão na mão de mulheres. É um filme fantástico.
. E a Joan Crawford é sublime.
- É o melhor papel dela. Genial. Eu também gostava de cantar alguma coisa da Marlene Dietrich. Pensámos em gravar "Where All The Flowers Gone" para este disco, mas tivemos bastantes problemas com "Die Befindlichkeit des Landes", na qual eu só consegui introduzir a voz a seis de Janeiro, pois só nessa altura tive a melancolia necessária para o fazer. Foi necessário incutir a raiva através de uma terceira pessoa, de modo a não ser apenas um comentário cínico, ou uma versão moderna do cantor de protesto. "Where All The Flowers Gone" fazia parte desse jogo, mas acabou por não entrar no disco.
. O facto de gostar de cantar papéis femininos reflete-se, de algum modo, no seu trabalho? Tem alguma empatia especial com o seu lado feminino?
- Nunca pensei muito na razão dessa empatia. Tenho uma certa indiferença em relação aos papéis masculinos no mundo da música. Quando toco guitarra com o Nick Cave represento o papel tradicional. Uma guitarra é um símbolo fálico, um instrumento de poder, de machismo, de todas as coisas de que, musicalmente, não gosto. O meu modo de tocar guitarra é, geralmente, o oposto disso. Nasce do meu ódio a essas metáforas e conotações. Uma vez, o New York Times disse que eu tocava guitarra como quem espera um autocarro, para mim foi um elogio. Julgo que a minha falta de empatia com o cliché tradicional do rock faz com que me interesse mais pelas canções escritas para serem cantadas por mulheres. Mas não cantaria "This Boots Are Made For Walking" que é uma canção de homem cantada por uma mulher. É esse o fascínio da canção e eu só a tornaria estéril.
. De onde lhe veio a ideia do questionário onde interroga as pessoas sobre as suas recordações? Nunca o utilizou em Portugal pois não?
- Não, nunca o utilizei cá. O questionário serve-me de base a uma série de representações. Já as apresentei em: Berlin, Osaka, Buenos Aires, Londres, Estocolmo, Nova Deli e nos Camarões. São sempre feitas na língua nativa e resultam dos questiona´rios preenchidos anonimamente. Há sempre um cenário diferente, oradores e músicos.
. O que sente quando usa uma língua que não domina? Como reagem as pessoas?
- Era inútil ir ao Japão e ler a tradução das recordações dos japoneses em alemão. A reacção é sempre diferente. É muito estranho ouvir alguém ler as nossas próprias recordações. É um momento de transformação. Quando se entregam essas recordações, essas "Memórias Queridas" por escrito, elas ganham distância, tornam-se ficção, quase literatura. Passei dez dias nestas palestras e fiquei muito agarrado a algumas dessas memórias. Tornaram-se quase minhas.
. Nessas memórias, as dos japoneses eram mais chegadas à natureza e as dos ocidentais mais ligadas à pornografia.
- Porque diz que os japoneses estão mais ligados à natureza?
. Por várias razões. Os japoneses estão muito ligados à neve, à água, às flores, aos insectos. Aqui em Lisboa, no Museu da Gulbenkian, há um grande espólio de caixas usadas para guardar insectos.
- De facto, o mais curioso nas recordações japonesas era uma enorme ligação aos insectos. Mas nas memórias africanas, nos Camarões, não existe nenhuma ideia de natureza. Falam da aldeia, da selva. Mas quando lhes perguntamos se têm alguma "Memória Querida" ligada à natureza, respondem: "a morte da minha avó".
. Porque ela regressa ao solo.
- Não. A nossa ideia de natureza é muito eurocentrista. O conceito de natureza em África, é totalmente diferente. Não consideram as árvores, os pássaros, a floresta, natureza. Natureza são os ciclos da vida. Essa descoberta foi muito interessante, porque me mostrou que as p´roprias perguntas eram muito eurocentristas.
. Já fez trabalhos para teatro: Heiner Müller, Werner Schawab.
- Heiner Müller é um amigo da banda. Em vinte anos de Einstürzende Neubaute apenas fizemos música para duas peças, o que não é muito.
. Já pensou em fazer ou em escrever teatro?
- Estou a pensar encenar algo que não seja meu. Sempre que faço as "Memórias Queridas" enceno todo o espectáculo.
. Lembra-se do concerto de há seis anos em Lisboa?
- sim. Gostei da assistência e do local do concerto. Lembro-me de sair do local e toda a gente me saudar. Foi muito agradável.
Raquel Pinheiro / Vitor Afonso
11.1.15
Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (15) - Op - Nº 4 - Outono de 2001
Revista op (visões da matéria)
#4: autumn leaves: ano 1, 2001: distribuição gratuita
60 páginas
Ver o enquadramento desta revista neste post
Einstürzende Neubauten"1991 - 2001": Strategies Against Architecture III"
Rough Trade / Zona Música, 2001
Einstürzende Neubauten"Berlin Babylon (Original Soundtrack)"
Reihe EGO / Zona Música, 2001
Estrategas de uma arquitectura sonora ímpar, não é de estranhar que os berlineneses Einstürzende Neubauten tenham pautado a sua carreira pelo delinear de estratégias próprias contra a arquitectura musical reinante. Foi, aliás, sobe este propósito que a obra do colectivo multi-cultural sempre se orientou, como têm vindo a revelar os espontâneos capítulos auto-biográficos de "Strategies Against Architecture", retratos da prolífera arte de Bargeld, Hacke, Unruh, Einheit e companheiros, que agora atingem o volume terceiro. No primeiro capítulo, três anos chegaram para revelar os E.N.; no segundo volume, já foram seis os anos compilados; pois este terceiro sumário parte do trabalho de uma década para redescobrir 28 momentos imprescindíveis de uma forma peculiar de entender a música como arte e sonorizar a dicotomia destruição/criação. Se ao fim dos primeiros e já documentados anos a destruição parecia consumada, esta nova década aqui relembrada vem confirmar os Einstürzende Neubauten como construtores de uma nova musicalidade, alterando saudavelmente a máxima para "nada se destrói, tudo se transforma". Não deixa, entretanto, de se revestir de curiosidade a coincidência (ou talvez não) da edição da banda sonora do documentário "Berlin Babylon", sobre a nova arquitectura da cidade de Berlim do pós-guerra Fria. Entendeu o realizador Hubertus Siegert encomendar aos arquitectos-músicos a melodia da nova Babilónia berlinense, permitindo aos E.N. um raro e irreverente modelo da música para vr. Não terá sido por mero acaso que o tema desta BSO escolhido para figurar em "Strategies Against Architecture III" tenha sido "Architektur Ist Geiselnahme", apesar de aqui se navegar por entre Beethoven e Walter Benjamin. Lançados os dados, resultam dois álbuns que se completam inesperadamente num único molde: o da mestria subtil e melódica com que os Einstürzende Neubauten dominam o Ruído e o Silêncio, estados aparentemente criados para diversão destes geniais revolucionários.
Ricardo Sérgio.
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