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18.12.18

Memorabilia: Tops Música & Som


Música & Som
Ano IX
Nº 109 

Janeiro de 1986

Top de Dezembro de 1985


Música & Som
Ano IX
Nº 108 - Especial Natal 85

Novembro / Dezembro de 1985

Top de Outubro / Novembro de 1985


Música & Som
Nº 105

Agosto de 1985

Top de Junho / Julho de 1985








12.12.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 16 - Agosto de 2003


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
72 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano IV
Nº 16
Agosto de 2003



SPIRITUALIZED - Fora de Controlo

Os Spiritualized são uma respeitável instituição do rock britânico. Jason Pierce, também conhecido por J. Spacemen, lidera este colectivo que levou às últimas consequências as premissas de rock narcótico enunciadas na década de oitenta pelos Spacemen 3. Agora está de regresso com um novo álbum, "Amazing Grace", um capítulo divergente nesse processo de evolução.

Numa década de actividade regular, Jason Pierce guiou os Spiritualized através da produção de cinco álbuns de originais que foram levando cada vez mais longe as suas ideias de rock baseado em drones e riffs repetitivos, a que se foram juntando ideias pilhadas em compositores de vanguarda como La Monte Young, nos Can e também no jazz. A esta base Jason foi juntando a sua paixão pela música religiosa americana, também ela devedora do mesmo tipo de circularidade, assim como um certo gosto pelo sinfonismo, que resultou numa sonoridade única e cada vez mais sofisticada que teve os seus pontos altos em "Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space", o álbum de 1997, e "Let It Come Down", de 2001.
Reconhecido por ser um tanto ou quanto megalómano nos conceitos utilizados para a gravação dos seus discos (entre outras curiosidades há gravações que sofreram duas misturas - uma para cada canal de audição) Jason pertence a uma espécie em vias de extinção: a do intelectual que conceptualiza o rock 'n' roll. Daí que tenha a fama de não ser um tipo fácil: um rocker que fala por elipses, elabora conceitos que parecem cada vez mais discordantes da volatilidade dos dias que correm, que despede músicos e se dá mal com as editoras. Tudo isto porque é um melómano exigente. Como ele próprio diz no fim desta entrevista: "o futuro está na boa música". Para o novo "Amazing Grace" houve também, como seria de esperar, um novo conceito, e uma nova abordagem que teve a ver com os métodos do free-jazz e com um gosto renovado pelas sonoridades mais cruas doo rock de garagem. O que teve por consequência um álbum que deriva bastante do percurso evolutivo presente nos anteriores. Esta mudança de direcção e o estado da indústria musical no presente levou a um afastamento da anterior ligação com o grupo BMG que tinha editado todos os álbuns da banda durante a década passada. Um novo contrato com uma independente em ascensão - a Sanctuary Records - e uma data para lançamento de "Amazing Grace", que esteve cerca de um ano na gaveta, trazem este aristocrata do rock britânico de novo à ribalta.

:: O novo álbum resulta de uma gravação mais crua, onde cada faixa foi registada sensivelmente num único dia. Esta aproximação "back-to-basics" é surpreendente vinda de alguém reconhecido por ser bastante exigente com os processos de gravação e que no ano passado até foi um tanto ou quanto megalómano com as suas produções. Qual foi a ideia que esteve por detrás desta nova abordagem de gravação?
:::: Não penso que este seja um álbum "back-to-basics". Não «épropriamente uma gravação primitiva que funciona como reacção ao lado mais leaborado do álbum anterior, "Let It Come Down". O que aconteceu aqui foi um pouco um produto da experiência de gravar com os Spring Heel Jack, uma banda de jazz experimental que também colaborou com os Spiritualized. Adorei o tipo de trabalho, era como se a música jorrasse deles. A ideia era ter um microfone onde estava a acção. Eles gravaram tudo: o chiar dos metais, o som das mãos a mexer nos instrumentos. Esse lado físico de tocar e a expressão que era necessária para o fazer foi o que me fascinou, e este álbum dos Spiritualized tem a ver com isso. Com o capturar do som da banda em bruto, antes de alguém saber sequer tocar as canções. As canções foram apresentadas à banda no dia em que foram gravadas. Fomos atrás daquele momento em que as possibilidades ainda são infinitas, porque ainda ninguém tinha cristalizado as suas partes nas músicas. Portanto, ainda podíamos explorar para onde ia a canção. Acho que conseguimos alguma coisa de único.
:: Como irá passar o álbum do estúdio para o palco, se as canções foram compostas e fixadas desse modo?
:::: Penso que quando se passa as canções para o palco é preciso, de certo modo, "desaprender". Uma vez aprendida uma canção é preciso saber qual a quantidade de energia que se consegue retirar dela. Ao vivo as coisas funcionam sempre de modo diferente, depende muito da reacção da audiência e do que ela contribui para a interpretação. é muito diferente de estar numa sala a ouvir um disco. É um processo dez vezes mais envolvente.
:: Para além da abordagem na gravação este é um disco muito mais cru, com muito mais de um certo tipo de rock de garagem a la Stooges...
:::: É um disco de música não processada. Sem a produção, um pouco ao modo como as gravações de jazz eram feitas. De certa maneira é uma abordagem mais honesta, é como re-ouvir o Robert Johnson ou o Elmore James. É um tipo de música de expressão física que não tem a ver com produção ou equalização. Foi o que tentámos neste disco, não saber exactamente como iria resultar. A ideia era gravar e pôr o álbum cá fora sem que as pessoas sequer soubessem que o íamos gravar.
:: Mas de momento vão fazer uma digressão com os Soledad Brothers, uma banda de um tipo de rock muito cru. É uma paixão recente pelo rock de garagem e os blues? É que não muito normal uma banda como os Spiritualized trazer consigo um suporte como os Soledad Brothers...
:::: Não sei, gosto do que eles fazem. E sou um bocado snob com a música e penso que toda a gente o é. Tenho esta es+écie de metrónomo que começa aos saltos se a música começa a ir para o lado errado. E os Soledad Brothers nunca empurram a agulha para esse lado. Acho que eles andam sempre no lado certo da cidade. E gosto disso.
:: No novo álbum há temas como "this Little Life Of Mine" ou "Never Going Back" que são cruas e garagistas e outras como "Hold On" ou "Oh Baby" que são mais do tipo narcótico-orquestral, o tipo de sonoridade que se associa aos seus discos anteriores. Houve aqui uma tensão entre a nova sonoridade dos Spiritualized e os velhos Spiritualized?
:::: Entre os novos e os velhos Spiritualized? Bem, eu acho que este álbum é mais nu no que apresenta. É como alguém que nos sussurra ao ouvido. É como uma espécie de conselho que vem de mim e eu sou o último tipo de pessoa de quem se espera um conselho. Uma coisa que empurrou este álbum para ser o que é, foi um espectáculo que demos para a televisão. Foi uma merda e apeteceu-me fazer um conjunto de canções que mostrasse: isto é o que eu sou, isto é o que eu sinto. O que fizemos neste disco é algo de muito humano e falível, algo que não tem respostas concretas, mas é um trabalho que demonstra uma espécie de compaixão. E acho que funciona.
:: Antes de ser  lançado oficialmente neste formato o novo álbum foi previamente editado num conjunto e três EPs em vinil. Foi uma oferta especial para os "vinyl-freaks" ou uma maneira de testar as águas no que dizia respeito ao novo material?
:::: (Risos) Acho que foi mais a primeira hipótese. Este disco soa muito bem em vinil. Os nossos discos anteriores não soam muito bem em vinil. O "Pure Phase" e o "Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space" foram editados com misturas diferentes para cada canal auditivo, portanto são misturas diferentes que se ouvem na coluna da esquerda e na coluna da direita. E isso não funciona muito bem no vinil. Mas este disco funciona muito bem em vinil, que é um objecto absolutamente fantástico desde que de boa qualidade. Esta ideia também serviu para contrariar um bocado aquela coisa do marketing que aponta todas as baterias para um dia de lançamento específico. É bom que as pessoas possam ter o disco em vinil ou possam ouvi-lo na internet antes do lançamento propriamente dito. Porque isto tem a ver com música e não com campanhas de marketing. É importante que as pessoas possam ouvir a música quer a queiram comprar ou não...
:: Entre o lançamento dos álbuns de originais - isto é, entre "Let It Come Down" e "Amazing Grace" - foi editada a compilação dupla de material raro, "Complete Works Volume One", uma quase obra-prima de rock narcótico. O que sentiu ao recuperar esse material antigo?
:::: Não foi muito difícil porque é uma coisa cronológica. Começa aqui, acaba ali. E isto é tudo o que está no meio. Foi interessante, porque houve uma sensação de intemporalidade. A música em que estava a mexer não tinha nada a ver com o que está ou esteve na moda. Não estamos muito interessados em estar na moda e vender mais discos por causa disso. Estava curioso em saber como soaria aquele material. Mas não soou como se tivesse sido feito há dez anos atrás, poderia bem ser material gravado para o novo álbum ou para o "Ladies And Gentlemen". Senti-me bastante bem em relação ao que ouvi.
:: No seu trabalho passado há aproximações ao tipo de electrónica de drones (sons repetitivos e circulares que funcionam como indutores de uma espécie de transe). Nunca se sentiu tentado a explorar mais a electrónica. Usar loops e grooves samplados, por exemplo?
:::: Acho isso um bocado preguiçoso. Acho que o que fazemos é rock 'n' roll. Temos falado muito sobre free-jazz ultimamente. Aquilo que fazemos não é free-jazz, mas gosto da ideia de se ouvir um som e de se responder a esse estímulo. É isso que faz a música, a interactividade. Penso que há certos pontos musicais, em certos discos, que me fazem evitar sequer querer fazer um disco de que penso não me ir conseguir aproximar. Um desses discos é o dos Rocket From The Tombs, que é uma espécie de colecção de demos dos primeiros discos dos Pere Ubu e dos Dead Boys. Esse disco diz-me: "mantém-te afastado da verdadeira música de garagem, porque nem sequer te vais conseguir aproximar". Por outro lado, os Kraftwerk conseguem ter uma espécie de alma dentro da música electrónica - que é um aspecto que não se associa muito à música electrónica uma musicalidade e melodia que me fazem ficar afastado de tentar atirar-me a esse tipo de área. Há já quem o faça tão bem...
:: Desde o tempo dos Spacemen 3 e mais uma vez em "Amazing Grace" - logo a começar pelo título - parece haver uma obsessão com Jesus e "O Senhor". É realmente um crente ou esta é uma maneira de exprimir a dependência humana por entidades superiores?
:::: Não sou crente. Acho que esta é a "graça fabulosa" de que cantava Elvis Presley. Não tem nada a ver com religião. A expressão tem a ver com a outra metade do rock 'n' roll: a estranha música de igreja da Europa que foi levada para os Estados Unidos e que se tornou no gospel e na country por mistura com os cânticos negros. A única diferença entre a música gospel e a pop é que a primeira chegou às crianças através de Jesus. Só que a paixão que as pessoas demonstram quando cantam sobre Jesus é muito maior do que a das que cantam sobre amores falhados. E eu gosto disso na música gospel.
:: Mas afinal isso não é um bocado irónico quando até se diz que o rock 'n' roll é a música do Diabo...
:::: Eu acho que as pessoas gostam de brincar com isso. É como usar calças de cabedal. Há um certo imaginário que as pessoas criam. Costuma-se dizer que o Diabo tem as melhores melodias, mas se o Diabo tem as melhores melodias então a Igreja tem os melhores cantores...
:: Desde os Spacemen 3, até "Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space", "Let It Come Down" ou agora "Amazing Grace" existe desde sempre na sua música um flirt entre a espiritualidade e a utilização de drogas. Acha que as drogas podem aumentar o nosso lado espiritual?
:::: Não sei... Acho que a melhor música acontece quando estamos fora de controlo. Quando estamos fora daquilo que sabemos que podemos fazer. E é por isso que as pessoas recorrem muito às drogas no rock. Mas a ideia que as drogas produzem melhor música é obviamente errada. A boa música não é um produto directo das drogas.
:: No final de "Amazing Grace" há uma demolição do hino americano, o "Star Spangled Banner" em versão algures entre o free-jazz e uma banda de funeral de New Orleans. É um comentário ao papel dos EUA no mundo neste momento?
:::: Se eu quisesse ser realmente pomposo acerca do assunto, diria que sim. essa ideia surgiu de conversas que tive com o Dr. John [pianista de Nova Orleães, cujos discos são uma mistura explosiva de r&b de Nova Orleães e rock, que se apresenta vestido com fatos do Mardi Gras e que é colaborador habitual dos Spiritualized] uma semana e meia a seguir ao 11 de Setembro. Ele disse-me: "devias escrever sobre esta merda, isto é importante, mas não especificamente sobre os eventos desse dia". Também teve a ver com o facto de ter ouvido uma versão do Maceo Parker do "Amazing Grace" [canção tradicional norte-americana], uma espécie de desconstrução esquisita. Tentámos fazer uma versão disso, que foi lançada em vinil no ano passado. E resultou numa associação de ideias que chegou até aqui. Para ser específico não é uma mensagem sobre a situação.
:: As mudanças de sonoridade neste novo álbum dos Spiritualized foram responsáveis pela mudança de editora, pela saída da BMG?
:::: Este álbum foi pensado para sair sem grandes aparatos. Tornou-se um assunto mais aparatoso porque mudámos de editora e houve um atraso no lançamento por causa das negociações. Nós acabámos o disco e vimos que podíamos sair do antigo contrato, e era importante que isso acontecesse naquela altura. Por uma grande série de razões. Acho que eles são uma grande máquina de vender discos e não estavam muito interessados em vender como este. Acho que quando quisemos romper eles ficaram um bocado naquela que nós estávamos a assaltar o banco. Nós dissemos: "desculpem lá, roubámos o banco mas agora vamos embora". Foi mais ou menos mútuo.
:: Acha que o futuro está nas companhias independentes?
:::: Acho que o futuro está na boa música. O problema neste momento é que as companhias de discos estão a ir pelo cano abaixo. E estão a atirar discos cá para fora como balas. Há tanto produto barato - "rápido, embora fazer mais duzentas mil girl-groups; rápido, embora fazer mais duzentos mil disto e daquilo". Penso que um dos maiores problemas é que a injdústria discográfica foi construída à volta da ideia de que pode enganar-nos: "Se conseguirmos boas críticas, pondo dinheiro nisso, se conseguirmos uma grande campanha publicitária e um vídeoclip bonitinho vamos conseguir vender-vos isto e sacar-vos o dinheiro ainda antes de vocês ouvirem esta merda." Mas isso é um engano, as pessoas vão querer saber primeiro como é. Por isso é que a indústria é tão avessa à internet.
Jorge Dias




Spacemen 3
Formados por Jason Pierce e Sonic Boom (Peter Kember) em 1982, os Spacemen 3 tornaram-se uma das principais bandas do indie-rock britânico dos anos 80, estando inclusivamente ligados è origem do movimento apelidado de "shoegazing". Numa altura em que a produção britânica derivava à volta do gótico e do pós-punk ou, por outro lado, parecia procurar a canção pop perfeita nas guitarras à maneira dos Smiths, os Spacemen 3 traziam as tonalidades narcóticas de um rock repetitivo e negro muitas vezes inspirado em bandas de vanguarda dos anos 60 e 70 como os Silver Apples ou Suicide. Após quatro álbuns de originais ["Sound Of Confusion" (1986); "Perfect Prescription" (1987); "Playing With Fire (1989) e "Recurring" (1991] acabam por separar-se devido a problemas com drogas de Sonic Boom e à crescente conflituosidade deste com Jason.

DISCOGRAFIA SELECCIONADA
LAZER GUIDED MELODIES (1992 - Dedicated / BMG)
Após longo processo de incompatibilização com Sonic Boom - o outro elemento central dos Spacemen 3 - Jason arrasta os restantes músicos da banda e constitui os Spiritualized. Além destes traz os drones, os tremolos, as modulações e a paixão pela música de inspiração religiosa. "Lazer Guided Melodies" é um álbum dividido entre as faixas no formato próximo da canção de raízes indie-rock e as sonâmbulas digressões por uma espécie de rock ambiental e narcótico já a prever os sinfonismos que se seguiriam. No ano em que "Nevermind" e o "heroin-chic" explodem, Jason está lá longe, no espaço sideral, e sorri com ar de quem está muito à frente...
PURE PHASE (1995 - Dedicated / BMG)
Tendo assumido o nome Spiritualized Electric Machine para este período, Jason começa a libertar-se do fantasma dos Spacemen 3 juntando a todas as componentes do drone rock que persegue desde o início, uma nova vertente vagamente sinfónica. Por entre as modulações, as ressonâncias e as explosões de distorção surgem agora inteiras secções de metais ou as intervenções do reputado Balanescu Quartet, enquanto se ensaia o fervor do gospel. "Pure Phas" é o épico possível até esse momento, um álbum extenso e ambicioso misturado duas vezes por Pierce, para um efeito stereo mais luxuriante e envolvente. Inclui uma versão de "Born Never Asked" de Laurie Anderson.
LADIES AND GENTLEMEN WE ARE FLOATING IN SPACE (1997 - Dedicated / BMG)
O disco da "caixa de comprimidos", que é o álbum por excelência dos Spiritualized. Aqui Jason Pierce, ainda acompanhado por alguns dos elementos da primeira formação da banda, mas com mais meios, expande todas as ideias que trazia dentro da sua música para um patamar superior. A junção de coros e orquestra transforma as canções de J. num grandiloquente caos orquestral que é tão devedor do ruído quanto as ambiências sonoras mais sofisticadas. "Ladies And Gentlemen" é a obra-prima do rock narcótico que é a sua especialidade. Um disco de óptimas ideias, grandes concretizações e talvez o melhor conjunto de canções que escreveu, com pontos altos em "I Think I'm In Love", "Electricity" ou no lindíssimo "Broken Heart".
LIVE AT ROYAL ALBERT HALL (1998 - Deconstruction / BMG)
Aproveitando a excelente recepção a "Ladies And Gentlemen" e a digressão que se lhje seguiu, este é o álbum que captura a energia dos Spiritualized em palco, em formato aumentado por coro, secção de cordas e metais. Um duplo álbum correspondendo às ambições de grandiosidade de Jason e que percorre alguns dos melhores momentos dos três álbuns de originais editados até então, fazendo mesmo uma incursão por território Spacemen 3. A sessão encerra com uma versão do clássico gospel 2Oh Happy Day", numa derivação entre o transe religioso e o épico sinfónico.
LET IT COME DOWN (2001 - Spaceman / Arista / BMG)
A lista de participantes aumenta a olhos vistyos. Não só a banda foi completamente reformulada, como as orquestras e os coros são cada vez maiores, Jason começa a aproximar-se da megalomania sem efeitos surpreendentemente superiores ao conseguido antes. "Let It Come Down" é um bom álbum mas um pouco mais do mesmo por comparação com o excelente "Ladies And Gentlemen". Como se o processo evolutivo iniciado pelos Spiritualized tivesse chegado a um beco sem saída.
THE COMPLETE WORKS VOLUME ONE (2003 - Spaceman Records / Arista / BMG)
Para assinalar a despedida da BMG J. organiza esta feliz compilação de material disperso por edições à margem dos álbuns. É um excelente duplo CD onde se mistura alguma da inocência das primeiras gravações do projecto (algumas delas ainda pertencentes ao último álbum dos Spacemen 3) com versões experimentais editadas em formatos de menos responsabilidade e lados B. É um leque de música produzida em diferentes períodos e circunstâncias mas que funciona como um todoo surpreendetemente coerente, resultante noutro inesperado épico de rock narcótico.
AMAZING GRACE (2003 - Spaceman Records - Sanctuary / Som Livre)
Quem se habituou às ambiências envolventes dos álbuns dos Spiritualized até aqui fica com os cabelos em pé logo com as primeiras duas faixas. "This Little Life Of Mine" e "She Kissed Me (It Felt Like a Hit)". Há feedback e distorção à solta, o som é roufenho e Jason berra parecendo estar a liderar uma encarnação britânica dos Stooges, com pianinho martelado e tudo. Mais à frente surgem "Never Goin' Back" ou "Cheapster" que exploram a mesma via sonora, entrecortada por baladas narcóticas onde se regressa a terreno mais habitual neles. Só que em versão mais próxima de uma "rough mix", nada dos embelazamentos sinfónicos de antes. Pelo meio, em momentos mais caóticos como "The Power And The Glory" e na versão do hino americano "Star Spangled Banner", aproxima-se mais das desconstruções do free-jazz. Na realidade este é um disco onde as componentes base da sonoridade da banda foram separadas quase que à força funcionando o conjunto mais por saltos de registo do que por esquema de continuidade, como antes. E é natural que depois dos processos perfeccionistas dos álbuns anteriores, Jason necessite mudar de métodos, mas esta nova abordagem em regime de força bruta não produz necessariamente os melhores resultados. "Amazing Grace" não é um mau disco, tem algumas ideias interessantes e um naipe de boas canções como "Lord Let It Rain On Me" ou "Oh Baby", mas soa inevitavelmente uns furos abaixo do melhor que os Spiritualized já gravaram.
Jorge Dias




Reedições
ASMUS TIETCHENS
Asmus Tietchens é um dos mais conceituados compositores alemães, ligado à música experimental, abstracta e concreta, mas também várias vezes conotado com o movimento "bruitiste" e a música industrial. Nascido em 1949, iniciou a sua actividade musical em 1965 e desde 1980 tem vindo a editar algumas das obras mais desafiantes dentro desses géneros. Num constante work-in-progress e numa atitude inconformista, tem procurado sempre encontrar novas soluções de composição e de abordagem para a sua música. A sua extensa obra, espalhada por uma série de pequenas editoras, é incontornável e os seus discos - principalmente os primeiros LP's - encontram-se há muito esgotados. Por essa razão, a editora Die Stadt iniciou este ano a mega-tarefa de reeditar em CD os 18 primeiros  LP's de Asmus Tietchens, editados entre 1980 e 1990, a uma média de um disco cada três meses, todos eles acompanhados de temas inéditos. O primeiro volume desta série é "Adventures In Sound / Nachtstucke" (2XCD Die Stadt), um duplo CD que inclui gravações inéditas de Asmus Tietchens e o seu primeiro disco, produzido por Peter Baumann (Tangerine Dream) para a EGG. "Adventures In Sound" é preenchido com temas inéditos gravados entre 1965 e 1969 com a ajuda de Okko Bekker - amigo e produtor que contribuiu de uma forma activa no resultado final de muitos dos seus discos - e de Hans Dieter Wohlmann. "Adventures In Sound" é, acima de tudo, um trabalho de investigação sonora e de exploração das possibilidades dos instrumentos. Experiências que correm a música concreta e a electro-acústica realizadas por um jovem músico autodidacta à procura de um ponto de partida para o seu trabalho. "Nachtstucke" é substancialmente diferente.
Da música concreta passamos para um ambientalismo electrónico, onde encontramos peças harmoniosas de uma claridade musical própria. "Biotop" (CD Die Stadt), por seu lado, é o primeiro de um lote de quatro discos que Asmus Tietchens editou na Sky [editora alemã dedicada à música electrónica por onde passaram, entre outros, nomes como Brian Eno, Cluster, Dieter Moebius e Hans J. Roedelius] e que compreendem uma etapa à parte dentro da sua discografia, pelo tipo de abordagem mais convencional da música electrónica ambiental - leia-se "pseudo-pop". Uma das grandes diferenças entre "Biotop" e "Nachstucke" é a instrumentação utilizada, em especial uma unidade geradora de ritmos - a Roland CompuRhythm -, as possibilidades do Moog, e a tentativa de escrever peças que não excedessem os quatro minutos. O resultado é um álbum recheado de temas curtos, ritmados, banhado por uma acessibilidade relativa influenciado por alguns dos seus grupos favoritos da altura: Cluster, Kraftwerk e Faust. Depois de "Spat-Europa", "In Die Nacht" e "Litia" - os outros três discos editados pela Sky - Tietchens cortaria o cordão umbilical e editaria "Formen Letzter Hausmusik" pela United Daries (editora de Stephen Stapleton, dos Nurse With Wound) ainda hoje uma das suas obras mais radicais e difíceis. Começava aí a segunda vida de Asmus Tietchens.
Nota de rodapé: Aparentemente as capas de todas as reedições parecem iguais, mas um olhar mais atento constata que existe um pormenor de cor que se vai aproximando de nós à medida que a colecção vai avançando, e enquanto as lombadas vão formado o nome de Asmus Tietchens. Essa foi uma das intenções de Asmus Tietchens, poder dar uma noção forte de "colecção", optando por reproduzir no booklet que acompanha cada CD, e em tamanho semelhante a um LP, a capa de cada disco. Só é pena que os textos explicativos que Asmus Tietchens escreveu para cada disco estejam em alemão...
HM (Hugo Moutinho)





31.8.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 20 - Setembro de 2004


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
64 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano V
Nº 20
Setembro de 2004



REEDIÇÕES
SANTA MARIA, GASOLINA EM TEU VENTRE!
Aventuras Sónicas



Ao longo da sua já longa carreira, Jorge Ferraz passou por vários projectos. Actualmente a liderar os Fatimah X, o músico fundou, entre outros, os Ezra Pound e a Loucura, Bye Bye Lolita Girl, João Peste & O Acidoxibordel, God Speed My Aeroplane e Mua’dib Off Distortion. A sua vontade de desaparecer temporariamente do meio musical e uma cíclica vontade de começar de novo, fez com que Ferraz se desdobrasse em vários grupos. Os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, banda que emerge em Lisboa, em 1986, e que durou cinco anos, foi talvez o projecto que lhe deu maior notoriedade, devido ao considerável impacto que tiveram na fértil cena independente portuguesa da segunda metade dos anos 80. Vítor Inácio, o principal cúmplice de Jorge Ferraz, em vários dos seus projectos, foi o único outro músico que integrou os Santa Maria desde o início. Pelas várias formações do grupo passaram músicos como Sapo (Pop Dell’Arte, Mão Morta) ou Tó Trips (Lulu Blind, Dead Combo). “Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção2, álbum editado em 1989 pela Ama Romanta e um EP de edição de autor de 1991, são agora oportunamente editados em conjunto pela Sabotage.




- Como surgiu a ideia de reeditar “Free Terminator” e o EP? Porquê uma reedição conjunta?
 A ideia partiu da Sabotage, que apresentou a proposta e demonstrou sempre grande empenho e ponderação nos contactos e nas negociações com todas as partes envolvidas, Santa Maria e Ama Romanta. Conseguiu-se igualmente que o Nuno Leonel, que já trabalhara connosco, fizesse uma nova capa. Quanto à edição ser conjunta; bem, teve a ver com questões práticas – os 2 discos têm no total uma duração comum à dos CDs actuais-, e afectivas – queríamos mostrar todo o trabalho que foi gravado em estúdio pelo grupo, dando igualmente, conta da sua riqueza e diversidade na evolução.
- Porque reeditar estes discos agora? Que reacções espera?
 Porque, para além do interesse que o João Peste sempre foi demonstrando com a reedição, só agora apareceu alguém, a Sabotage, entusiasmado com o projecto e que assumiu e financiou a sua edição. Por outro lado, espero que contribua para dar a conhecer a um público mais alargado e aos apaixonados que nunca conseguiram os discos, as gravações em estúdio do grupo. Que reacções?... Sinceramente, não sei. Tudo era um pouco paradoxal e contraditório. Na altura em que o LP foi editado, as críticas foram na generalidade muito boas ou “de perplexidade”. No entanto, repetiam-se aqui e acolá algumas ideias que me irritavam imenso pela sua incorrecção e injustiça. Falo em especial da colagem aos Sonic Youth que algumas pessoas faziam. Finalmente, depois deste tempo todo e do estatuto de culto e de “projecto irrepetível” ou “alienígena” que se foi paradoxalmente construindo em redor Santa Maria algum tempo depois do seu fim, espero que se perceba de vez que este grupo não era bem do mesmo mundo que os Sonic Youth, apesar da encruzilhada noise. Por outro lado, e para ser totalmente honesto é preciso dizer que os Santa Maria desfrutavam de uma “visibilidade” mediática superior ao seu peso em termos de número de pessoas a que chegavam ou encantavam. Convites para concertos eram poucos e só em Lisboa ou arredores e as tiragens dos discos foram pequenas. Veja-se, por exemplo, que o grupo era “apadrinhado” por 2 pessoas importantes do mundo da música alternativa portuguesa: João Peste e Adolfo Luxúria Canibal. Logo, isso contribuía muito para o “mediatismo” do grupo – embora não para o seu apelo “comercial”. No entanto, por outro lado, os apaixonados que conseguíamos, senão eram muitos, pelo menos ficavam bem enfeitiçados. Por isso, não sei que reacções esperar.
- Quando foi originalmente editado, “Free Terminator” surgiu como um ovni no underground. Pode-se afirmar que é um disco de pós-rock que apareceu alguns anos antes de se falar nesse estilo musical. É um disco avançado no tempo?
 Não sei se é ou não pós-rock ou avant-rock ou free rock ou etc. No entanto, se pensarmos no que se seguiu nos anos 90, talvez. Para ser rigoroso, estaria mais próximo do pós-rock o que fiz logo de seguida com God Speed My Aeroplane ou God Spirou. Por outro lado, nunca os Santa Maria tiveram o tom de frase – melodia e ritmo -, em evolução circular do pós-rock; os Santa Maria sempre foram romanticamente excessivos, irresponsavelmente “tecnológicos” e pouco hipnóticos. Por isso não sei se é antes do tempo ou fora do tempo.
- Que fontes de inspiração (discos, literatura, filmes, etc.) estiveram na origem de “Free Terminator”? Que música ouvias nessa altura?
 Bem, só posso falar por mim e, embora os Santa Maria espelhassem muito o meu imaginário, o grupo não era apenas eu. As outras pessoas também deixavam um cunho pessoal e importante, em particular o Vítor Inácio, o baixista. Sobre filmes, não sei – se há alguma relação, será inconsciente. Só se for toda a mitologia western, desde os clássicos até ao western spaghetti. Literatura, sim! Bem mais importante até que as influências musicais. Aliás, sempre quis fazer poesia em música. Assim, há claramente a paixão pela ficção científica “high tech-low life”. E, depois toda a tradição da literatura e poesia malditas da 2ª metade do século XIX até às vanguardas do século XX – em especial os modernismos, dadaísmos, surrealismos, saltando depois para a beat generation. Música, posso falar de quatro coisas -, que conscientemente tive como referência – pontos de navegação à vista, sem nunca querer ir morrer nos seus braços: Sun Ra, a no-wave, o dramatismo e a densidade melódico-harmónica de José Mário Branco e as canções de adeus e embalar. Certamente tive outras influências, e tenho, só que não são conscientes. O que mais ouvia na altura… havia um disco de versões de músicas de Ennio Morricone “The Big Gundown” coordenado por John Zorn, que eu ouvia muito, aliás era bem consumido pelos membros do grupo. E Robert Fripp, Sonic Youth, Public Enemy, Funkadelic, Can, Big Black, Love, Glenn Branca, Pop Dell’Arte, Terry Riley, Schooly D, Negativland, United States Of America, Thelonius Monk, Sun Ra, My Bloody Valentine, Elliot Sharp, Jimi Hendrix, Jacques Brel, etc.
- A música dos Santa Maria eram essencialmente instrumental. Não estava interessado em fazer canções mais formais, com letras e voz?
 Os temas eram compostos e arranjados como instrumentais que nos pareciam assim suficientemente falados, pois estavam cheios de imagens evocadas e de pequenos poemas na sombra e nos títulos. Além disso não havia ninguém vocacionado para cantar.
- O seu projecto anterior Ezra Pound e a Loucura tinha características sonoras diferentes dos Santa Maria. O que o fez evoluir para uma banda intensamente eléctrica e radical?
 Bem, entre Ezra Pound e a Loucura e os Santa Maria, ainda formei, com o Vítor Inácio, os Bye-Bye Lolita Girl. Não vejo essas diferenças assim tão acentuadamente. Nos timbres, na proficiência técnica, nas capacidades e nos conhecimentos técnico-musicais, na consciência em relação aos objectivos, sim, há diferenças. Além disso, os Santa Maria têm uma agressividade positiva, exaltante, excessiva que estava pouco presente nos grupos anteriores. Todavia, a desconstrução e brusquidão dos ritmos, a dissonância – a preto e branco nos Ezra Pound e de cores pop e doces nos Bye-Bye Lolita Girl -, as melodias excessivas e à beira da dissolução que os vários instrumentos punham em jogo, lutando e amando-se, um lirismo exacerbado, uma música aparentemente desajeitada e nunca totalitária, isso sempre existiu – com intencionalidade e consciência diversas -, em todos os meus projectos, até hoje. Ou melhor, foi progressivamente existindo… Certamente também houve um apuramento de programas e capacidades, interiorizando e sintetizando o que o tempo em volta e a técnica traziam. Ou, se calhar, arranjamos melhor equipamento e desenvolvemos as técnicas de guitarrear e distorcer o som dos instrumentos. A mudança foi gradual e em continuidade. Portanto sobre ruptura radical… nunca a vi desse modo.
- Havia muito espaço para improvisação nos concertos dos Santa Maria?
 Em geral, não; a densidade excessiva e a estrutura da nossa música não permitiam grandes improvisos, pois facilmente se chegaria a uma cacofonia injustificada e inconsequente, e esse não era o nosso objectivo.
- O título do tema “Era Uma Vez Um Preto Com SIDA (AIDS)!”, causou, na altura, alguma polémica e foram acusados de racismo.
 Para mim sempre foi de uma crueldade triste e irónica ouvir dizer isso. Só vejo 2 motivos para que se acredite numa coisa dessas: haverá gente que escutou demasiado en-passant e fixou certas frases bombásticas sem ouvir tudo atentamente. As palavras todas, a sua organização, o contexto, o modo como eram ditas, quem dizia, os vários níveis de significação que isso implica, etc., ou então reproduziu ideias de “ouvir dizer”, fiando-se em aparências não indagadas ou em associações incorrectas; haverá quem objectivamente teve má vontade e/ou preconceitos, ou foi facilmente manipulável, o que levou a uma recusa em ouvir, ver e entender para além dos lugares comuns, dos slogans e chavões de boas intenções e demagogia ou de artísticas frases-feitas. O texto é duro e nada fácil de digerir, por exemplo com enunciação de práticas sexuais polémicas, mas é um texto magoado; aliás como o tema. E, além disso, a arte não é entretenimento de beberete ou “belos” vazios consensuais, mas fundamentalmente beleza convulsiva, como dizia Breton, feitiço perturbante e despertar de corpos e sensações vivas e consciências e reflexão. O texto trata de uma realidade que, hoje, é ainda mais tragicamente apocalíptica: a devastação provocada pela Sida na África Negra. Um problema de uma parte enorme da humanidade, onde, ao contrário do sucedido com outros grupos – que estavam a ser alvo de ataque e discriminação como a comunidade homossexual do mundo ocidental – e isso era subliminarmente referido no poema -, e que tiveram e têm alguma capacidade de mobilização económica, política e social para enfrentar a questão com relativo sucesso – o ser cultural, política e economicamente da África Negra, no mundo actual, parece traçar um fatídico e ignorado destino. Além disso, o texto remetia também para um dos perigos das sociedades actuais, uma forma de alienação perigosa: é que ao invés de nada se dizer, fala-se antes de tudo e de uma forma telegráfico-noticiosa, ou numa linguagem clínica pseudo científica ou ainda tudo sendo apropriado como afirmações artístico-publicitárias pós-modernas, com enunciados desconstruídos que lhe tiram todo o sentido subversivo e a real capacidade de intervenção social. Aliás essa não foi a única acusação. Por muitas posições que fui assumindo, à boca pequena chamaram-me racista, militarista-fascista e até mesmo homofóbico. Talvez seja porque eu nunca partilhei do pensamento dominante de conservadorismo politicamente correcto e demagógico, travestido de discurso revolucionário e vanguardista, de uma certa esquerda portuguesa que pretende ou pretendia ser o guardião dos dogmas, político-sociais e das posições morais, no mundo artístico não comercial. E, talvez também porque tomei posições contra, ou não alinhei em, leninismos, trotskismos, maoísmos e guevarismo-castrismo, que nos meios ditos de cultura vanguardista, contaminam de uma forma dogmática e demagógica e intolerante o discurso e as ideias. Aliás onde é que está a liberdade inominável em todos esses movimentos e referências ideológicas, cujos mentores criaram ditaduras altamente violentas. E isto não faz de mim defensor de posições de direita, o que também não seria um pecado mortal, embora não o seja de todo. Agora, sim, sou um feroz individualista defensor de um “libertanismo” responsável que entende o solidarismo como uma responsabilidade ética fundamental, onde se mistura, nem sei como, uma crença que, à falta de melhor, eu diria ser católica, no aspecto encantatório dos mistérios e da fé, e na angústia da culpa, mas nunca na organização institucional e nos dogmas de comportamento social.
- Depois dos Santa Maria formou vários grupos e ainda faz música. Sendo um resistente da sua geração como vê a evolução do cenário musical português?
 De bom: muita quantidade e variedade com qualidade média, descentralização, maior actualidade nas linguagens, capacidade de auto-organização, produtos mais profissionais e exigentes nos aspectos técnico-formais, fim dos complexos de modernismo ou das crises de adolescência que leve a ignorar o que vem detrás. De menos bom: o provincianismo do “sou tão bom como lá fora”, as capelinhas, a guetização dos diferentes tipos de músicos e músicas que os leva a desconhecer ou a menosprezar o que no gueto ao lado se faz ou o que não vem com o formato normalizado e, acima de tudo, a excessiva preocupação com o fazer as coisas bem, parecer “pro” e estar bem com os media, em vez de se arriscar, criar, inovar, partir a cabeça e, no meio disso, se vislumbrar uma luz mágica que identifica os aventureiros e os descobridores de mundos, mesmo que morram na viagem.
Nuno M. Castêdo

SANTA MARIA GASOLINA EM TEU VENTRE
Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção + EP (CD Sabotage)

“Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção”, álbum editado originalmente há 15 anos, permanece como uma das mais radicais experiências da história do rock português. De cariz arty, a música nele contida é misteriosa e agreste. Este não é um trabalho de fácil audição (até porque é essencialmente composto por instrumentais), mas é um disco aconselhável a quem procura ousadia estética no rock. Paisagens sónicas de um lirismo inflamado, súbitas explosões de electricidade, mudanças bruscas de direcção, diálogos de guitarras caóticos devedores do free jazz, atitude desconstrutivista e confrontacional da no wave, exploração das imensas possibilidades da guitarra eléctrica, torrentes de ruído branco, jogos tímbricos e harmónicos em rota de colisão… tudo isto forma um álbum singular onde dissonância, melodia e ritmo dissolvem-se num magma sonoro abrasivo e intenso. O EP (sem título) que assinalou o fim da banda beneficia de uma produção mais cuidada, mas mantendo intacta a expressividade das guitarras angulares e toda a estranheza que desde sempre caracterizou a banda. Saúda-se a reedição destes dois registos, com realce para “Free Terminator”, uma obra marcante da música urbana portuguesa.
Nuno M. Castêdo




FELIX KUBIN
Matki Wandalki (CD A-Musik)
E eis que chega a festa! Felix Kubin está de volta com um novo álbum, e com ele toda a gama de efeitos e de melodias sacadas do carrossel mágico ou de um Star Trek dopado com LSD. Completamente irrequieto, “Too Technical” é um exemplo disso, uma canção pop atravessada pela perversão do industrial (é o próprio Kubin que confessa a influência dos DAF e dos Throbbing Gristle) e pela irrisão dos Devo ou dos Negativland. Neste novo álbum há uma faixa com Holger Hiller (pioneiro na introdução do humor na electrónica alemã) em que o carrossel se torna evidente e surrealista qb, surrealismo que se torna particularmente óbvio na delirante versão do horripilante “Hello” de Lionel Richie. Kubin apropria-se da memória colectiva e rasga-a aos pedacinhos, reconstruindo-a de seguida com um sorriso simultaneamente infantil e perverso. Talvez por o novo álbum ser um pouco mais acessível, o humor exibe ainda mais a faceta rebelde e surpreendentemente reflexiva da forma com que Kubin se ouve a si próprio.
(8/10) CAL

SAMUEL JERÓNIMO
Redra, Andra, Endre De Fase (CD Thisco)
Eis que a Thisco, importante editora portuguesa vocacionada para as tendências alternativas da electrónica, muda radicalmente de diapasão e investe na edição de um disco de música minimal repetitiva. Na esteira de gurus desta linguagem musical como Steve Reich, Philip Glass, Terry Riley ou La Monte Young, Samuel Jerónimo apresenta três longas composições, tecnicamente irrepreensíveis e de difícil execução, que se baseiam, claramente, nos postulados da estética minimalista os quais norteiam o compositor a criar motivos melódicos (ou rítmicos) repetitivos que se vão complexificando, paulatinamente, com a junção progressiva de novos elementos que vão enriquecendo a estrutura no seu todo. É um disco que exige atenção por parte do ouvinte, dada a riqueza de pormenores e as subtis alterações estruturais. Seria um trabalho original, caso não estivesse datado (esta estética tem mais de 30 anos de vida nos EUA) e fosse uma experiência pioneira do género em Portugal, visto que a primeira fase da carreira dos Telectu (Jorge Lima Barreto e Vítor Rua) há vinte anos atrás, foi preenchida com trabalhos dentro desta abordagem Estética). De qualquer modo, “Redra, Andra, Endre De Fase” não deixa de ser um disco a descobrir por parte dos melómanos mais conhecedores deste tipo de composição musical.
(6/10) VA

VÁRIOS
Antologia De Música Electrónica Portuguesa (CD Plancton Music)
Faltava à discografia nacional um disco como este: um disco que compilasse alguns dos maiores nomes da música electrónica portuguesa, sendo esta entendida mais no sentido de música experimental ligada às correntes avant-garde (electro-acústica, concreta, livre-improvisação, etc.). O responsável por esta antologia (pela selecção e produção) é um músico que conhece por dentro todas as manifestações estéticas relacionadas com a música electrónica portuguesa: Rafael Toral. Assim, neste disco estão representadas as maiores referências nacionais das novas músicas contemporâneas. Filipe Pires (um dos pioneiros da criação musical por computador), Nuno Canavarro, Cândido Lima, João Pedro Oliveira, Carlos Zíngaro, Telectu, Nuno Rebelo ou o pioneiro (e tantas vezes incompreendido) Jorge Peixinho. “Antologia De Música Electrónica Portuguesa” tornar-se-á, desta feita, um importante documento histórico sobre esta faceta da criação musical portuguesa.
(7/10) VA

reedições
PHILIPPE BESOMBES
Philippe Besombes surge no contexto da cena avant garde dos anos 70, um território sem margem, influenciado pela cultura popular, numa Europa fértil de novas concepções artísticas e maiores revoluções sociais. Membro de dois grupos do circuito francês, Pôle e Hydravion, Besombes conseguiu relacionar através das suas incursões electrónicas diversos subgéneros do rock e do jazz convencional, encandeando-os num espaço de liberdade e experimentação, alcançando resultados verdadeiramente inovadores. A sua linguagem incaracterística destilou a animosidade aos cânones de Morton Feldman, aproximou-o do minimalismo de Tony Conrad, LaMonte Young e do “Dream Syndicate” em geral – com notável incidência na vertente psicadélica e étnica de Angus Maclise -, e encerrou-se nos primórdios do kraut rock. “Libra” (CD MIO) é o seu primeiro trabalho a solo e remonta a 1973. É também o primeiro de uma trilogia a ser reeditada pela Mio Records este ano. Composto por 17 peças distintas este disco foi feito enquanto banda sonora para um filme com o mesmo nome. Cada tema decorre num ambiente distinto, onde breves minutos de melodia sintetizada introduzem longos instrumentais de distorção. A percussão é muitas vezes extraída das cordas do piano. As colagens são quase sempre ambíguas e torna-se impossível identificar a origem do som. No mais fantasmagórico dos cenários percebe-se a voz de uma criança entrelaçada no ritmo de um texto a correr em código morse. No final, dois temas bónus interpretados em piano preparado, excluídos das sessões de gravação do disco.
Joana de Deus



Publicações
BANANAFISH #17


(http://www.midheaven.com/labels/tedium.house.publications.html)
Com uma capa da autoria do cartoonista canadiano Jason McLean, eis que se nos apresenta – para gáudio de alguns e irritação de outros -, mais um número daquela que será a publicação sobre música mais radical da actualidade. O teor dos textos continua a ser elegantemente cáustico sem deixar de manifestar entusiasmo para com os seus objectos, e entre estes contam-se, desta vez, Carla Bozulich, o duo Jazzkamer ou o músico noise japonês Astro. O destaque vai contudo para a entrevista conduzida por Tim Barnes a Hetty MacLise (companheira de Angus MacLise) e para a peça sobre o próprio Jason McLen que aproveita para discorrer sobre os comics, o movimento fluxus e as doenças mentais. No que diz respeito à secção de críticas há muito por onde vaguear. Imaginem escritores ou artistas do movimento surrealista a escreverem sobre avant-rock, música improvisada, electrónica e reedições de nomes da música popular… JM





16.7.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 21 - Dezembro de 2004


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
64 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano VI
Nº 21
Dezembro de 2004



JOHN PEEL, Music Lover
25 de Outubro de 2004. Na cidade inca de Cuzco, no Peru, um ataque cardíaco rouba a vida a John Peel. De todo o mundo chegam lágrimas dos seus órfãos: os ouvintes semanais, entre um auditório que extravasava as ilhas britânicas, as bandas que deram os primeiros passos nos seus programas, os colecionistas de “Peel Sessions” de todo o mundo, ou, em abstracto, a música popular, de todas as cores e feitios. Aquela voz nem sempre perceptível, mas entusiasta, rebelde, britanicamente sarcástica e apaixonada não volta mais aos microfones da rádio. As novas bandas, para as quais Peter Hook, numa reacção à morte do radialista, prevê vidas difíceis, não vão poder ter no seu curriculum uma sessão gravada para o programa de Peel, nem tão pouco vão poder dizer, inchadas de orgulho, coisas como “o Peel ouviu-nos e gostou!”.
John Robert Parker Ravenscroft começou a fazer rádio nos EUA, em 1962. Cinco anos depois, regressou a  Inglaterra, para realizar na estação pirata Radio London o programa “The Perfume Garden”. Foi aí que se viu obrigado a mudar de nome: Ravenscroft era demasiado longo para os directores da Radio London e um funcionário sugeriu-lhe o nome Peel. Curiosamente, o novo apelido viria a tornar-se uma imagem de marca da BBC Radio One (em cujos quadros ingressou no mesmo ano do regresso a Inglaterra) devidos às Peel Sessions, sessões de estúdio exclusivas com bandas e artistas das mais diversas proveniências, tanto geográficas como estéticas, para posterior emissão nos seus programas. O obituário da BBC lembra que “quase toda a gente que é alguém no mundo da música gravou uma sessão para Peel”. Dos Pink Floyd aos Lightning bolt, dos Pixies aos Franz Ferdinand, de Marc Bolan aos Napalm Death, dos Joy Division aos Autechre, meio mundo gravou para Peel. A origem das Peel Sessions remonta ao tempo do “needletime” (tempo de agulha) dos anos 60, quando o sindicato dos músicos britânicos fixava uma quota de música gravada que as rádios podiam passar, conforme relata Ken Garner, autor do livro “In Session Tonight”. As novas Radio 1 e Radio 2, da BBC, especialmente orientadas para a música, tinham entre elas, em 1967, apenas sete horas de “needletime”. Para ultrapassar os limites, a programação via-se obrigada a incluir nas suas grelhas a emissão de música tocada ao vivo, e o novo programa de John Peel, “Top Gear”, mais tarde “John Peel Show”, não fugia à regra. Ao longo destes quase quarenta anos, o ouvido atento de Peel descobriu e ajudou a disseminar milhares de novos projectos e de revoluções estéticas que foram acontecendo. O punk, a new wave, o reggae, o hip hop e as electrónicas, para citar apenas alguns dos campos em que Peel se movimentava sem precisar de mapa, num saudável ecletismo, que contrasta fortemente com a ideia de rádios formatadas trazidas nos anos 90, nunca poderiam ter sido os mesmos se não tivesse um amigo tão esforçado e tão apaixonado quanto Peel. E muitos ouvintes encontravam aí uma prova de que é capaz de se ser simultaneamente aberto e crítico, e ainda melhor, surpreendente: quando o punk estava a rebentar em Inglaterra, e ele próprio era um dos instigadores dessa explosão, lembrou-se de gravar a cantora folk June Tabor para emitir num dos seus programas…
Era o único que até há poucas semanas, aos 65 anos de idade, continuava a apresentar novos sons com o mesmo entusiasmo que teria nos anos 60 e 70. “I may be old but the programme isn’t”, dizia numa entrevista realizada há poucos anos. Não é de estranhar que no obituário de uma revista como a Economist apareça, logo na linha por baixo de “Yasser Arafat, Leader Of The Palestians”, a seguinte inscrição: “John Peel, Music Lover”. Que bem que lhe cai o epíteto.

CURIOSIDADES
- Em 1967, Peel foi o primeiro homem da rádio a passar “Sergeant Pepper’s Lonely Heart Club Band”, dos Beatles.
- Era fanático pelos Fall. Entre as declarações que foram lembradas no funeral, ouviu-se uma onde Peel dizia: “Sou sortudo. Tenho tudo o que queria em miúdo (…). Se morrer amanhã, não terei nada de que me queixar – a não ser o facto de haver um álbum dos Fall no ano seguinte.”
- Clube favorito: Liverpool. Era habitual começar os DJ sets para os quais era convidado com uma gravação em vinil do relato do golo de Alan Kennedy ao Real Madrid, em 1981, quando o Liverpool ganhou a sua terceira Taça dos Campeões.
- Tema favorito: “Teenage Kicks”, dos Undertones. Peel Chegou a passa-lo duas vezes seguidas na rádio, algo de inédito até então. No seu funeral, ouviu-se “Teenage Kicks” e o hino do Liverpool, “You’ll Never Walk Alone”.
- Concerto favorito: The Faces, em Sunderland, 1977.
- John Peel tinha perto de trinta mil LPs em casa. Uma estação de rádio norte-americana já ofereceu um milhão de libras pelo espólio e existe também o interesse da British Library.
- O palco de novos talentos do festival de Glastonbury, de onde todos os anos Peel fazia reportagens, vai passar a ter o seu nome.
- John Peel tornou-se, em 1998, um OBE, ou seja, cavaleiro da Rainha de Inglaterra, e possuía vários doutoramentos honoris causa atribuídos por universidades britânicas.
Vítor Junqueira



LISTA
2004 – OS MELHORES DO ANO
1 – FRANZ FERDINAND: “Franz Ferdinand” (Domino / Edel)
2 – DEVENDRA BANHART: “Rejoicing In The Hands” (XL Recordings)
3 – SONIC YOUTH: “Sonic Nurse” (Geffen / Universal)
4 – MORRISSEY: “You Are The Quarry” (Attack / Sanctuary)
5 – ANIMAL COLLECTIVE: “Sung Tongs” (Fat Cat / Ananana)
6 – BLUES EXPLOSION: “Damage” (Mute / EMI-VC)
7 – TV ON THE RADIO: Desperate Youth, Blood Thirsty Babes” (4AD)
8 – TOM WAITS: “Real Gone” (Anti / Edel)
9 – TORTOISE: “It’s All Around You” (Thrill Jockey / Ananana)
10 – MARK LANEGAN BAND: Bubblegum” (Beggars Banquet)
11 – LORETTA LYNN: “Van Lear Rose” (Polydor / Universal)
12 – BLONDE READHEAD: “Misery Is A Butterfly” (4AD)
13 – FIERY FURNACES: “Blueberry Boat” (Rough Trade)
14 – INTERPOL: Antics” (Labels / EMI)
15 – THE STREETS: “A Grand Don’t Come For Free” (679 / Warner)
16 – EINSTURZENDE NEUBAUTEN: “Perpetuum Mobile (Mute / EMI)
17 - !!! – “Louden Up Now (Warp)
18 – NICK CAVE & THE BAD SEEDS: “Abattoir Blues / The Lyre Of Orpheus” (Mute / EMI)
19 – cLOUDDEAD: “Tem” (Big Dada / Ananana)
20 – COMETS ON FIRE: “Blue Cathedral” (Sub Pop)
21 – THE DATSUNS: “Outta Sight / Outta Mind” (V2 / Edel)
22 – BLANCHE: “If We Can’t Trust The Doctors (Loose / Ananana)
23 – DEAD COMBO: “Vol 1” (Transformadores) 
24 – RTX: “Transmaniacon” (Drag City / Ananana)
25 – WRAY GUNN: “Eclesiastes 1.11” (Nortesul)
26 – THE DILLINGER ESCAPE PLAN: “Miss Machine” (Relapse)
27 – PJ HARVEY: “Uh hu Her” (Island / Universal)
28 – THE MAHARAJAS: “Unrelated Statements” (Low Impact)
29 – FENNESZ: “Venice” (Touch)
30 – ONEIDA: “Secret Wars” (Rough Trade)
31 – THE PONYS: “Laced With Romance” (In The Red / Sabotage)
32 – N.E.R.D.: “Fly Or Die” (Virgin)
33 – WILCO: “A Ghost Is Born” (Nonesuch)
34 – AMERICAN MUSIC CLUB: “Love Songs For Patriots” (Cooking Vinyl / Farol)
35 – SHANNON WRIGHT: “Over The Sun” (Quarterstick / Sabotage)
36 – LAMBCHOP: “Aw C’mon – No, You C’mon (City Slang / EMI)
37 – ENTRANCE:  “Wandering Stranger” (Fat Possum)
38 – THE BLACK KEYS: “Rubber Factory” (Fat Possum / Edel)
39 – THE ICARUS LINE: “Penance Soirée” (V2 / Edel)
40 – FANTÔMAS: “Delirium Còrdia” (Ipecac / Sabotage)
41 – PAN SONIC: “Kesto” (Mute)
42 – COCOROSIE: “La Maison De Mon Rêve” (Touch & Go / Sabotage)
43 – LAURA VEIRS: “Carbon Glacier” (Bella Union / Symbiose)
44 – LIARS: “They Were Wrong So We Drowned” (Mute / EMI)
45 – THE MAGNETIC FIELDS: “I” (Nonesuch / warner)
46 – MR. DAVID VINER: “This Boy Don’t Care” (Loog)
47 – RADIO 4: “Stealing Of A Nation” (City Slang)
48 – GRAHAM COXON: “Happiness In Magazines” (parlophone)
49 – X-WIFE: “Feeding The Machine” (Nortesul)
50 – ROGUE WAVE: “Out Of The Shadow (Sub Pop / Musicactiva)



ANN SHENTON / ANA DA SILVA
Anas Em Colisão Electrónica Feminina (Versão 2004)



Ann e Ana, Ana e Ann. Uma esteve nos Add N To (X), a outra nas Raincoats. Este ano editaram respectivamente “The Electronic Bible Chapter 1” e “The Lighthouse”, dois discos onde a electrónica assume muitas formas.
A música electrónica tem sido um género em que poucas mulheres se têm aventurado – apesar da forte expansão que o género conheceu nos anos 90 -, ao contrário da área do pop-rock, onde a presença feminina sempre foi uma constante. Certamente este fenómeno tem muito a ver com o facto da música electrónica ser essencialmente instrumental, recorrendo muitas vezes a um imaginário tipicamente masculino, quer no culto do DJ nas pistas de dança, quer na presença fortemente maquinal que acontecia nos Kraftwerk. Simplesmente não parecia haver muito espaço para uma sensibilidade que fugisse ao simples apelo à dança ou ao fascínio das máquinas. Ainda assim, ao longo do tempo, diversas produtoras foram aparecendo com novas propostas, como Mira Calix, Neotropic ou Andrea Parker. As coisas só começaram verdadeiramente a mudar quando a pop começou a apropriar-se novamente da electrónica, na onda de revivalismo dos anos 80, que caracteriza o electroclash. As Chicks On Speed, estiveram, de certa forma, na liderança desse movimento feminista, trazendo grupos como as Le Tigre ou os DAT Politics para uma ribalta quase a raiar o mainstream. No lado mais intrspospectivo da indietrónica, apareceram também os Lali Puna liderados por Valerie Trebeljahr, e tornou-se óbvio que as mulheres tinham chegado à electrónica e estavam a trazer algo de novo. Chegamos a 2004 e surgem álbuns de Ann Shenton [ex-Add N To (X] e Ana Da Silva (ex-Raincoats, agora amadrinhada pelas Chicks On Speed).
Ann Shenton foi certamente uma das pioneiras femininas na electrónica. Ex-membro do trio Add N To (X), Ann é uma exímia instrumentista fascinada por instrumentos electrónicos antigos como os Moog ou o Theremin. Mais importante ainda, os Add N To (X) foram uma banda fundamental na integração do rock mais experimental da época (pós-rock?) num contexto electrónico, buscando inspiração no krautrock dos Neu! Ou Can; na electrónica divertida de Jean Jacques Perrey ou de Raymond Scott; no underground sórdido das bibliotecas de sons de filmes pornográficos e no rock de uns Cramps e de uns Suicide (se não no som, pelo menos na atitude). A extinção dos Add N To (X) foi o resultado natural de um projecto que explorou o que tinha para explorar, e Ann Shenton virou-se imediatamente para um projecto a solo adaptando o nome de Large Number (título de uma canção dos Add N To (X), lançado no ano passado “Spray On Sound”. Neste primeiro álbum de originais o fascínio pelo retro é exacerbado por sons que parecem vir directamente de um estranho clube nocturno dos anos 70. Com muitos ecos de Raymond Scott pelo meio, é um álbum simultaneamente experimental e divertido quanto baste para o tornar quase pop. Este ano, e depois da aparição no Festival Número, em Lisboa, Ann Shenton propõe uma colectânea ironicamente chamada de “The Electronic Bible Chapter I”, o que parece ser uma espécie de resposta à compilação de temas antigos de electrónica “Connectors” do ex-companheiro dos Add N To (X), Barry 7. Só que para Ann Shenton faz tanto sentido o presente / futuro quanto o passado, e é assim que na sua compilação marcam presença nomes como Sean O’Hagan dos High Llamas (e colaborador assíduo dos Stereolab) ou Richard H Kirk, dos Cabaret Voltaire (sob o pseudónimo Pat Riot). Entre o retro e o noise futuristas Ann Shenton não conhece barreiras, apontando diferentes perspectivas musicais.
A presença de Ana da Silva na editora das Chicks On Speed é uma daquelas coisas que deve dar mais prestígio à editora que à artista. Presença fundamental da new-wave no início dos anos 80 através das Raincoats, a portuguesa Ana da Silva atravessou uma fase de semi-obscurantismo até que um dia Kurt Cobain a redescobriu numa livraria de Londres. De pioneira da new-wave a exploradora de novos sons com um instrumento electrónico digital, que lhe caiu nas mãos, vai apenas um pequeno passo. E é fácil de perceber que algo assim seria inevitável acontecer quando se ouve “The Lighthouse”, o seu novo álbum. Pegando num passado que não se deita para trás assim tão facilmente, a sonoridade das Raincoats e dos Young Marble Giants aparece recontextualizada num novo mundo digital, explorando as possibilidades de fazer canções dentro das perspectivas que o novo brinquedo abriu para Ana da Silva. Curiosamente, em muitas canções, “The Lighthouse” lembra “Scary World Theory” dos Lali Puna, e não só por causa de algumas canções serem cantadas em português. Tal como os Neu! E os United States Of America foram bandas importantíssimas para os Stereolab e Broadcast, os Young Marble Giants e Laurie Anderson são a grande fonte de inspiração dos Lali Puna e de Ana da Silva. Os arquétipos do passado são usados então em “The Lighthouse”, permitindo a produção de um som mais acessível para os ouvintes desejosos por canções e pouco adeptos das paisagens sonoras da música instrumental.
Até que ponto o impacto da sensibilidade feminina vai ser importante na electrónica só o futuro dirá. Para já as duas An (n)as distinguem-se por um universo pessoal completamente aparte dos seus pares. No fundo a boa música não conhece géneros sexuais: brota de pessoas que sentem que têm algo para dizer ao mundo.
César A. Laia

Discos
LAIBACH
Anthems (CD Mute)
Os Laibach, eminentes pseudo-fascistas da Eslovénia, são herdeiros da atitude provocadora dos Throbbing Gristle e foram uma das bandas mais importantes da cena industrial dos anos 80. Com um humor corrosivo, os Laibach apropriaram-se da estética militarista fascista como meio de provocação das flores luminosas da pop de então. E não olharam a meios para o fazer, como demonstra esta compilação. Canções horripilantes como “The Final Countdown” dos Europe ou “In The Army Now” dos Status Quo foram revisitadas como uma caricatura, onde tudo o que estaria menos evidente se torna claro como água. A boçalidade foi usada como uma arma, mas também serviu para transformar canções dos Beatles como “Get Back” em hinos para fascistas desprevenidos. “Anthems” demonstra toda esta evolução, desde o passado ainda agarrado aos Throbbing Gristle, passando pela sátira, até ao presente com a excelenete canção “Tanz Mit Laibach”. Tudo isto acompanhado de um segundo CD com remisturas difíceis de encontrar, para atrair os fãs que têm os álbuns todos. Há que redescobrir os Laibach, e nada melhor do que começar por aqui.
(9/10)
CAL




STEALING ORCHESTRA
Bu! (MP3 You Are Not Stealing Records)
Os criminosos voltam sempre ao local do crime. Os maiores ladrões de samples que se conhecem em Portugal, regressam ao Far-West dos assaltos a carruagens de sons, prontos a montar, desmontar e remontar o que se apanhar. É a lógica dos irmãos Metralha aplicada à música, e qual é o melhor sítio para uma banda como esta lançar EPs? Uma netlabel, pois claro! E como se diz que ladrão que rouba a ladrão tem mil mp3 de perdão… “Bu!” é o segundo EP dos Stealing Orchestra lançado na netlabel You Are Not Stealing Records, e sucede ao irreverente “É Português?! Não Gosto!”. A forma como os Stealing Orchestra têm evoluído é notável. Quando começaram, com o álbum “Stereogamy”, tinham imensas boas ideias, mas eram ainda mal aplicadas. Eram um circo ainda com os palhaços por todo o lado e faltava um pouco de organização. Já no ano passado, contudo, “The Incredible Shrinking Band”, o segundo álbum, mostrava uma banda que preferia a ironia è piada desbragada da D. Lina, tornando-se mais refinada e atenta aos pormenores. “Bu!” é a evolução lógica do álbum do ano passado, apontando ainda mais para um imaginário cinemático underground, à procura dos monstros da série Z. Bem, não é tanto assim, afinal agora surgem textos de Miguel Torga e de Alexandre O’Neill. Marco Paulo deu lugar à literatura? Não, o que aconteceu foi uma apropriação dos textos para a criação de ambientes de terror, quase a lembrar Vincent Price ou então Mão Morta, nas declamações descritivas do terror feitas por Adolfo Luxúria Canibal. “Bu!” lembra mais filmes do que discos de outros grupos. Ou seja, este bando de malfeitores está cada vez mais a cruzar as plataformas mas entre a música e a imagem, entre o humor e o gore. O medo vai ter tudo, inclusive um excelente EP de graça.
(8,5/10)
César A. Laia

Clássicos
SCARLET STREET
Fritz Lang (USA 1945)
Fritz Lang foi reconhecidamente um dos realizadores imigrantes em Hollywood que mais se preocupou com o cariz não linear de desenvolvimento do comportamento das personagens. A sua abordagem cinematográfica passou repetidamente pela procura do lado recôndito, obscuro e pessimista da condição humana, na perspectiva da sua génese e da sua manifestação mais consequente. Esta direcção, alinhada com os principais arquétipos do filme noir, contribuiu fortemente para a caracterização desse género e para a sua solidificação e disseminação no período do pós-guerra. Scarlet Street tornou-se uma das principais marcas iconoclastas do mestre Lang e desse género transversal que é o film noir. Lang reutilizou o trio de actores do seu filme anterior “The Woman In The Window” – Edward J. Robinson, Joan Bennett e Dan Duryea -, na mesma trama triangular clássica. Robinson é Christopher Cross (excelente a sua conotação com o significado do diminutivo criss-cross), um homem de meia-idade, caixa de um banco, desiludido com a monotonia problemática da sua vida afectiva, resultado de um casamento despropositado com uma mulher anódina, tendo, no entanto, nas suas aspirações artísticas de pintor, a única fuga ao seu tormento quotidiano. O aparecimento casual de Kitty March (Joan Bennett) na sua vida facilmente se torna uma via para a sua realização pessoal e afectiva, cedendo imediatamente às suas faculdades físicas e representação de liberdade. Kitty, mulher de expedientes fáceis sempre à procura do próximo golpe, ladeada por Johnny (Dan Duryea), híbrido de namorado e chulo, aceita a relação na suposição de que Chris é um pintor rico e excêntrico de Manhattan. A preocupação psicanalítica de Lang em conferir um realismo cru, de certa forma frio, ao percurso de Chris realça e eleva o drama e a profundidade da história. A não linearidade referida no início torna-se evidente na associação que Lang trabalha entre contexto-causa-efeito: um homem com valores éticos tradicionais, uma aderência procurada ao adultério e a inusitada recorrência ao roubo, mentira e… crime. Lang como que opera uma metamorfose no triângulo de personagens da sua trama juntando imaginariamente os três vértices num mesmo ponto comum. A conclusão do filme é extraordinariamente brutal, sem concessões, mostrando os caminhos para lelos da punição como uma realidade comum e fulminante nas suas consequências e sem necessidade de promoção artificial de moral (o que nos faz pensar em “M”, outra obra-prima assinada pelo mestre ainda na Alemanha). Trata-se de um dos finais mais emblemáticos, surpreendentes e marcanteMiguel S. Leocádios da história do cinema, ao lado de “White Heat”, de Raoul Walsh, e “Kiss Me Deadly”, de Robert Aldrich. Um tour-de-force negro, frio e sem eufemismos. Para ver e rever, sobretudo para quem tem saudades de “filmes totais”, que não sucumbem na sua criatividade aos sessenta minutos.
Miguel S. Leocádio









21.6.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 22 - Março de 2005


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
56 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano VI
Nº 22
Março de 2005



Clássicos
DISCOS

SPACEMEN 3
Playing With Fire (CD Fire Records, 1989)





Rugby é uma pequena povoação cravada na Inglaterra profunda. A vila é também conhecida como “Drugby” devido à quantidade de agarrados às drogas duras por metro quadrado que por lá (sobre)vivem. No início dos anos 80, dois miúdos com uma impressionante quantidade de coincidências entre si (nasceram no mesmo dia do mesmo ano e viveram, ambos, infâncias problemáticas, por exemplo) juntaram-se para fazer barulho com guitarras. Nos primeiros anos, ninguém lhes prestava atenção. Ou, então, eram alvo de manifestações de violência por parte das assistências nos concertos. Até que, em Fevereiro de 1989, depois de “The Sound Of Confusion” e “The Perfect Prescription”, Pete Kember e Jason Pierce – já em fase de ruptura – lançaram o seu terceiro álbum: “Playing With Fire”. E da noite para o dia, toda a gente passou a ouvir “Revolution”, talvez a mais conhecida faixa dos Spacemen 3: seis minutos de furacão eléctrico em rodopio minimal e crescente. Sem nunca esconderem as influências absorvidas de uns MC5, Stooges, Suicide ou Velvet Underground, os Spacemen 3 não se preocupavam em disfarçar um romantismo que caminhava de mãos dadas com referências nem sempre subtis às drogas e a Deus. “Playing With Fire” esvoaça, também, entre amores naïfs (“Honey”), mantras de ecos minimalistas e acentuadamente hipnóticos (“How Does It Fell?”), teclados de igreja em pré-trip de Rohypnol (“I Believe It”), apelos ao céu e ao Senhor estendidos em canção de embalar (“Lord, Can You Hear Me?”), ou desarmantes atmosferas de uma tristeza cintilante estupidamente belas (“All Of My Tears”). Hoje, mais de década e meia volvida desde “Playing With Fire”, Jason Pierce é um compositor de créditos firmados devido aos magníficos trabalhos com os Spiritualized e já não sente necessidade de provar o que quer que seja – o seu futuro, diz-se, oscilará entre o garage rock polvilhado de gospel e blues com uma tendência crescente para colidir, cada vez mais, nos meandros do free-jazz. Pete Kember, por seu turno, estagnou. E não mais se libertou de uma inércia química: lança discos de qualidade duvidosa afogados no pantanoso território do drone rock, prossegue um programa de tratamento de drogas e vai amealhando libras à custa dos discos por si autografados que ele próprio coloca á venda nos leilões do Ebay. Isto, alguns anos depois de ter andado por Londres a vender frascos de metadona com a sua assinatura no rótulo…
Joaquim Asa Delta.











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