Da revolução de 1980/81, quando na sequência dos êxitos
de Rui Veloso, dos UHF, GNR, Trabalhadores do Comércio e Salada de Frutas se
instituiu uma espécie de nova ordem de gostos e prioridades, colocando o novo
pop/rock cantado em português na primeira linha dos objectivos, nasceu um
verdadeiro cenário de explosão demográfica no panorama musical lusitano.
Grande parte das carreiras emergentes usavam o single
como veículo de exposição ideal para as suas canções, raros sendo os casos de
grupos e artistas que apostaram em primeiro lugar no formato de álbum. Rui
Veloso, Táxi e Opinião Pública são raros casos de apostas no LP, dele nascendo,
depois, os inevitáveis singles.
O clima de euforia colectiva que o meio pop/rock então
vivia levou a que muitas pequenas editoras se aventurassem na edição de rock
português. Afinal, nada mais que a aplicação (à nossa escala) de princípios que
a revolução punk e a continuidade via new wave tinham impresso recentemente À
bem nutrida indústria discográfica inglesa. Entre as pequenas editoras que
então entram em cena destaca-se a Rotação, na qual o homem do leme era António
Sérgio (já então um conhecido divulgador na rádio e com provas já prestadas na
edição discográfica, nomeadamente como co-produtor, em 1979, de «Música
Moderna», o álbum dos Corpo Diplomático, isto sem esquecer a «famosa»
compilação «Punk Rock 77»).
A «bandeira» da Rotação era, naturalmente, a estreia
discográfica dos Xutos & Pontapés, que ali editaram os dois primeiros
singles «Sémen» (1981) e «Toca e Foge» (1982), bem como o álbum de estreia
«78/81» (também em 1982). Perante o cenário de investimento que caracterizava
todos os pólos de edição na altura, a Rotação avança pelo ano de 1982 com uma
série de novos nomes: Mau Mau, com o single «Xangai», Tânger, com o single «Zé,
Zé Ninguém», Manifesto com o single «Nuclear (À Beira Mar)». A estes juntam-se
ainda os Malaposta e os Sub-Verso... Todavia, nenhum dos grupos da Rotação, à
excepção dos Xutos & Pontapés, conhecem tamanha expectativa interna e
alguns resultados concretos como os Opinião Pública, uma banda, de certa forma,
«apadrinhada» pelos UHF.
No quarteto, constituído por Carlos Estreia (voz,
guitarra), Pedro Lima (guitarra), Luís Fialho (baixo, teclas) e Carlos Baltasar
(bateria), António Sérgio identificara um caso de possível complementaridade
pop aos Xutos & Pontapés. A estreia faz-se com «Puto da Rua», canção que imediatamente
chega à rádio e tira os Opinião Pública do anonimato e apresenta o álbum «No
Sul da Europa», com o qual o grupo faz a sua estreia (encetando uma discografia
que receberia depois, apenas, o single «Puto da Rua»).
Se nos Xutos & Pontapés António Sérgio «ousara» um
lugar na produção, com os Opinião Pública cede a cadeira a António Manuel
Ribeiro (dos UHF) e à própria banda. De som seguro e muito característico. Das estéticas
da altura, «No Sul Da Europa» é um interessante (e quase esquecido) documento
do rock português de inícios de 80, dividindo as canções entre momentos de puro
prazer de uma pop lúdica (como «Ritmo de Vida» ou «Walkman», e alguns retratos
de cenas do quotidiano urbano de então (de que são bons exemplos «Puto da Rua»
e «Subúrbio»).
Apesar de coerente e significativamente mais interessante
que grande parte dos demais estreantes seus contemporâneos, os Opinião Pública,
tal como todo o restante catálogo da Rotação (à excepção dos Xutos &
Pontapés), desapareceram entre as primeiras vítimas da crise de 1982/84, uma
das mais «mortais» da história pop/rock cantada em português.
N.G.
OPINIÃO PÚBLICA
«No Sul da Europa»
LP Rotação
Lado A: «Ritmo de Vida», «Sem Destino», «Sul da Europa»,
«Puto da Rua», «Na Terra»;
Lado B: ««Walkman», «Cumprindo As Regras», «Duplo
Controle», «Subúrbio»
Produção: António Manuel Ribeiro e Opinião Pública
Lisboa, 1978. Os Tantra enchiam o Coliseu, José Cid
apostava em «10 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte», os Petrus Castrus
regressavam aos álbuns com «Ascensão e Queda»... O rock de alma sinfónica
tentava borbulhar à superfície num tempo ainda dado a protagonismos nas esferas
da intervenção política, suas sequelas e primeiras reacções opostas em domínios
ligeiros...
Em espaços de ebulição no restrito circuito underground
da capital, dois projectos encabeçaram então uma vaga de reacção ao sistema,
assimilando a essência da revolução punk que varrera Londres em 76. São eles os
Faíscas (de quem nasceriam os Corpo Diplomático), que acabam por não editar, e
os Aqui d'El Rock.
Os Aqui d’EL Rock são uma banda nascida em filhos do
proletariado urbano de 70, com uma crueza punk primordial no seu discurso,
diferente dos Faíscas, filhos da classe média. A violência verbal é a arma
primordial, e a seu favor pende ainda uma rodagem maior dos quatro elementos,
em tempos conhecidos como Osíris, numa encarnação formal bem diferente. Com uma
linguagem muito próxima das manifestações de raiz do punk londrino, os Aqui
d’El Rock são o primeiro e, na absoluta verdade, o único grupo punk português a
editar discos, já que os restantes praças do movimento que também chegaram ao
registo discográfico o fizeram já em momentos das suas carreiras em que o punk
havia já evoluído uma linguagem própria, ou no sentido da new wave (Corpo
Diplomático) ou para um novo, e menos espartano, rock urbano, mais temperado
(Xutos & Pontapés).
A estreia dos Aqui d’El Rock faz-se com o single «Há Que
Violentar O Sistema», single que incluía «Quero Tudo» no lado B, duas canções
que traduzem hoje a essência possível do punk português, fenómeno que viveu
mais de boas intenções e desejos de mudança que de factos realmente consumados.
A sua importância seria, sobretudo marcante ao nível da abertura de frestas na
consciência de alguns divulgadores e editores, preparando, inconscientemente, o
caminho para a revolução que assolaria o país musical em 1980.
Sem papas na língua e «speedados» (como se anunciam),
desferem golpes no sistema, que violentam por uma música não sofisticada, directa.
Todavia, estávamos em tempos de poucas atenções mediáticas por fenómenos
corrosivos a um sistema que ensaiava uma ideia de democracia de facto, que só
seria devidamente estabilizada (social e economicamente) depois. E excluindo
timoneiros da divulgação como António Sérgio, a revolução punk ficou sem
amplificação para o país real.
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