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4.4.23

Jorge Lima Barreto - "Solo Sobre Vítor Rua" (artigo de JLB sobre VR na revista anarquista A Ideia #30-31, 1983


Jorge Lima Barreto

Solo sobre Vítor Rua

Este meteórico músico Português é um talento precoce que caminha na via láctea dos sons, estrelando de melodias misteriosas o horizonte provável da música do mundo: Vítor Rua.

Analisar a sua música é descrevê-lo em acção, inebriar-se com a sua persona introvertida (intimista por natureza) é perceber que todas as estratégias da sua vida são assumidas em função do seu único e verdadeiro amor: a guitarra. Podemos falar das suas guitarras eléctricas inspirados na tensão com que as toca, as acaricia ou as erotiza como que fazendo transparecer através delas todo o seu sentimento: há a «Morris» que usou em CTU/TELECTU que é versátil e mesmo adúltera (com ela pode Vítor Rua fazer tudo desde um baixo pontilístico ao fraseado insinuante e melódico até aos experimentalismos mais ousados).

Na «Gibson», da qual se orgulha ser model usado por John Abercombie, fez correr os seus dedos delicados (toda a mão é fina e frágil, apenas a força de ser lírica); escalas mas escalas e outras escalas, escalando os domínios da sabedoria musical, até ao momento em que o gesto será perfeitamente o resultado da ideia musical. Nesta praxis, ele torna o trabalho no deleito da aprendizagem (de manhã inundado de sol, à tarde iludido pela solidão e à noite envolto no sonho).

É também um exímio guitarrista baixo; aqui embrenha-se no funky, marcado de límpidas rítmicas isocrónicas, expurgando timbres arrojados e viris; inultrapassável na sua qualidade, muito americano.

A «Jaguar» (Fender), um instrumento apreciável pela raridade e pela leveza, monopolizou o seu saber: parece-nos, ao vê-lo tocar, que a conhece desde a sua existência, a mão segura no braço em subtis movimentos e a palheta tacteia evanescente pelas cordas, enunciando frases, figuras, notas simples, uma empatia tal que pensamos que a guitarra é uma extensão física do seu corpo magro e aristocrático.

Os olhos negros, brilho de inteligência, contemplam viciosamente a «Dom de Louise» uma lito-slide-guitar, oferecida pelo seu maior admirador, que foi feita à mão por um expert de Brooklin e é peça única: um amplificador primitivo, as armações em porcelana branca e uma pedra-mármore polido a servir de corpo. Obra artesanal para as elocubrações electrónicas do Vítor; esperam-se daí milagres como estamos certos que a ciência deste solista irá oferecer-nos o luxo computacional na «Roland» com sintetizador. Embora Vítor Rua experimente sintetizadores variados (tem um fraco pelo electrónico realizarão todas as suas ficções. A «Roland» é um plano realizado em «Belzebu» (Jorje).

De tez cigana o Vítor Rua lembra, e a propósito de encarnações, uma metempsicose alucinada de Django cujo mundo ambiente são os contos electrizantes dasa aparelhagens (o misturador, os amplificadores, o rockman, os auscultadores, o equalizador, os gravadores, as cassettes e os discos – enfim, a parafernália maravilhosa da música contemporânea. Hoje Boulou Ferré magnetizou este manouche Vítor como um íman sobre limalha de ferro.

Catalogado, apressadamente como músico pop (os seus êxitos adolescentes do «GNR», os serviços prestados em favor de quase inevitáveis oportunismos) Vítor Rua situou-se na cimeira da pop nacional e projectou a sua autoridade de líder na estética do rock (a eminênciaoculta de «avarias», os arranjos pertinazes de «INDEPENDANÇA») até culminar a carreira em «TELECTU», onde se excede no artifício dos experimentalismos e na virtuosidade das dobragens, obra que ele considera cumular a sua criatividade no rock. Mas o Vítor Rua é insatisfeito, a sua ambição não pode ter fronteiras (para quê as fronteiras se ele é tido como o melhor solista do rock português?) quer abolir com os convencionalismos (porque não, se ele levou ao extremo uma estética pop?) e não hesita: inicia já neste crepúsculo magnífico de adolescência o incêndio do convencional e a beleza da maturidade elabora uma síntese intelectual de todos os desejos de infância.

É a sua idade de ouro: filigranas preciosamente elaboradas pelos seus dedos, arte sonora que vibra das cordas, habilidades electrónicas que a curiosa esperteza congemina; fios que entram num aparelho e surgem noutro, plugs e jacks, pequenas magias, insignificantes segredos que subentendem a idiossincrasia dum estilo. Nestes inventos edificam os grandes solistas a sua marca musical – por isso, os músicos medíocres (falsos músicos, logo a música é uma verdade) não trabalham na própria linguagem apenas se divertindo em decalcar os outros, utilizando o que a tecnologia lhes apresenta, plagiando o que está feitio.

Vítor Rua, mesmo quando se comprometeu com a música ligeira, nunca copiou ou extirpou o trabalho alheio: donde o imenso sentimento de frustração e erro ao analisar esse compromisso, jamais assumido, mas a certeza da criatividade não poderá permitir de futuro qualquer espécie de prostituição.

É um juramento que Vítor Rua fez perante a música e depois dum concerto de Derek Bailey, na «Kitchen», New York.

Havia sido na «Kitchen» que se revelou também o seu ídolo: Robert Fripp. Numa fase em que Fripp condena as suas ideias musicais so sistema «Frippertronics» e se recusa a tocar para mais de 250 pessoas, admitindo dez iluminados como assistentes e acusa o regime do rock com o epíteto de desportivo. É este Fripp que o seduz. Foi este Fripp que o avassalou no concerto King Crimson do Restelo.

Desde essa noite entre espectadores promíscuos de circo romano ele aderiu à luta de Spartacus e pôs termo à alienação a que os sedentos de vedetismos televisivos, os comerciantes do som, os empresários ávidos de lucro o haviam querido condenar.

Vítor Rua revelou-se ao ouvir Robert Fripp.

É um ser hiper-sensível, muitas vezes amedrontado com a saúde, pacifista e duma generosidade que raia o prodigalismo.

Foi manipulado pelos interesses da mais-valia, mas nem foi a «consciência política» nem a «raiva insana» que o fizeram tomar uma posição: só podia ser um grande guitarrista a motivá-lo: Robert Fripp. Vítor Rua só pode ser sensibilizado por um músico, ou por alguém que estude música. Fripp apontou-lhe não só a nova semiologia do rock mas também lhe forneceu os elementos necessários para uma disciplina musical. O Vítor ouve diariamente os discos de Fripp, procura arduamente repetir as suas frases, estuda atentamente o ataque das notas, investiga estupefacto a sistematização rigorosa deste mestre da guitarra eléctrica, sonda com avidez o contexto metódico, extasia-se perante a genialidade do modelo. Gosta de tomar café no Penguin Café ouvindo a Orchestra local.

Vítor Rua havia tocado blues com a «King Fisher Band» ainda muito novo e Jimi Hendrix catapultou-o para a realidade psicadélica do rock. Houve unitemas a marcarem ancestralmente a sua técnica: os «Yes» ou os «Pink Floyd». Depois a revolução da New Wave fê-lo aderir à nova tecnologia do rock e os «Talking Heads», «Joy Division», os «Devo», os «Sparks», David Bowie, o «Disco Sound», estão como mais significativos, embora um a um sejam contestados pela sua própria evolução, mesmo levados até ao desprezo ou à indiferença.

 

Lições clássicas fugazes deixaram-lhe o conhecimento do dedilhado da guitarra erudita e a nominação de alguns compositores estereotipados pelo ensino académico.

Então e após o seu êxito com «INDEPENDANÇA» passa a tratar do progresso estilístico o que o leva a ultrapassar significativamente as directrizes iniciais do seu próprio grupo «GNR». Neste clima de tensões pessoais muito fortes, nem uma só vez o vi exasperado com os concorrentes do rock nacional. Ao contrário das estrelas cadentes (cujo brilho ofusca as mentalidades mais pobres) Vítor Rua não adere ao regime mercantilista que vigora localmente; qualquer dessas microcósmicas «vedetas» ao vê-lo de imediato o reverencia; até porque não é possível nenhuma hostilidade pessoal. Ele está verdadeiramente acima desse nível que os media (TV, Rádio, Jornais, Discos) impingem às massas e está assim sem elitismos repressivos porque já viveu essa realidade entre os considerados melhores e numa idade pouco comum.

Trabalhou um «GNR» táctico para o festival de Vilar de Mouros e angariou com «Anar Band» o primeiro prémio na Bienal de Vila Nova de Cerveira em contacto com performers e artistas plásticos no atelier musical do projecto «TELECTU».

Ash Ra Temple, melhor: Manuel Gotsching seduziu-o de forma totalitária; o regime melódico das repetições indu-lo a ouvir as escalas repetitivas americanas de música erudita. Steve Reich e Terry Riley interessaram-lhe de sobremaneira.

A rotura com a pop estava instaurada.

Ralph Towner, Metheny, Ryptall e a escola dos virtuosos neomelodiastas da guitarra interessam-lhe cada vez mais. Ouvira Tony Conrad e John Surman, este repetitivos esquisitos.

O Jazz insinua-se com Jim Hall, Joe Pass, Gabor Szabo, Mahavishnu, Coryell e tantos outros; mas é no contacto directo com grandes músicos (ele esteve ao lado de Cecil Taylor, Ed Blackwell) que o cativa em definitivo.

A repetição como estrutura estilística é um novo passo a dar pelo artista.

Já em Steve Hillage interessa-lhe o fraseado da repetição, unidas melódicas obsessivas ou discursos de conexão com obstinados e rasgos de improvisação (e aqui estão Harsall, Zappa, Hendrix, Eno ou os progressive lisergicamente projectando os delírios electrónicos nos rituais da guitarra, e o seu maxime: Robert Fripp).

Escutou atentamente música electrónica (de Stockhausen, Bério, Xenakis) para parâmetro de organização das escolas sonoras, sempre resultantes do solo de guitarra.

O Free-Jazz (Ornette) libertou-o de noções restritivas do tonalismo e a etnográfica (indiana e africana) salvou-o da imbecilidade binária da pop ou do infantilismo tonal do rock ligeiro. A escola da GRM de Paris dominou o critério sonoro.

Para o deliciar fale-se em Ash Ra ou Fripp ou Hendrix ou Hillage ou Bellow ou Frith (ele não se interessa muito por Clapton ou Page e abomina Alvin Lee e todo o hard rock, bem como exacra visceralmente o folk ou a canção ligeira ideológica).

A produção discológica apaixona-o. No estúdio discorre musicalmente entre as consolas, experimenta efeitos electro-acústicos e grande parte do seu êxito discográfico deve-se ao conhecimento empírico dos estúdios. Neste prisma do saber, Vítor Rua segue Eno e Rundgren para trabalhar a tessitura das vozes, estruturar as misturas, os replayings e as escalas disco-sound não lhe são alheias. O Free-Jazz tornou-o mais louco, arrebatado, sensual/frenético.

Esse empirismo é sobrepujado pela lógica improvisativa dos solos de guitarra. O destino da sua música está na guitarra e nos diálogos que a guitarra possa fazer com outros instrumentos (sintetizadores e caixas de ritmo têm a preferência).

Leão ou Caranguejo isso depende dos critérios astrológicos limítrofes. O seu corpo magérrimo de Cristo ou Mahatma é um fulcro impressionante de energia musical sempre produzido, em inovação constante.

Quando o pensamos abstraído, é por certo uma abstracção musical que o arranca à realidade. Muito reservado e calmo, inesperada loquacidade, esporadicamente eleva-se em psicotropia que excitam o seu ser sensível e levam a imaginação aos abismos da loucura. Tal um solista tribal, encara a música como uma imanência estupefaciente da realidade sonora.

Na nossa vagem a Nova York visitou, como disse, o oráculo da música contemporânea improvisada: a «Kitchen»! Aí ouviu e viu Derek Bailey Company. Bailey impressionou-o na música contemporânea improvisada para guitarra. Pessoalmente conotou as libertinagens deste virtuoso, a capacidade de criar dissimetrias rítmicas e explorar experimentalismos tímbricos.

Se Fripp o tornou um escravo revoltado, Bailey deu-lhe as armas da revolta. Mas talvez mais poderosa ainda foi a influência de Fred Frith, que na «Kitchen» fazia parte da Bailey Company. O prospecto da Company, distribuído à entrada, incutiu nele a ideia de poder um dia tocar junto a estes músicos. Frith surgiu com o seu arsenal home made, instrumentos artesanais, entrados sobre uma desmontagem virtual da guitarra que se extrapolava de um instrumental de percussão. Os discos de Frith, então, tornavam-se oráculos perante os quis Vítor Rua exercita a sua alma musical, beliscando com a palheta as cordas das suas guitarras, em emulação.

Como compositor é intuitivo. Conhecendo apenas rudimentos da musicografia (que o tempo irá transformar em ciência) tem para os eus modelos, os Faust, os Kraftwerk e a Penguim Café Orchestra (não escreveu Satie para orquestras de café?), Monk, Ellington, certa Soul Music; paradoxalmente não perfilha a estética de Zappa mas seduzem-nos os hits da história do rock (e agora do Jazz). Uma sinalética aberta (Cage) fundamenta «Belzebu» como escrita minimal, periódica.

Podemos situá-lo, como português e improvisador solista, na senda de Paredes ou Sarbib e estamos na espectativa do seu futuro apocalíptico.

Poder-se-á falar de um músico com apenas 21 anos de idade? Porque não se Mozart aos 6 jera já um notável compositor ou Charley Christian, que morreu com 22 anos?

A sua obra discográfica tem perceptíveis aberturas de talento em «Independança» GNR e fantásticas invenções tecno-melódicas em «Telectu Ctu», que faz desfilar os melhores solos da história do Rock em Portugal.

O caminho está rasgado entre o prazer da música (Rock ou não rock) e a força interior anima todos os gestos da forma musical.

Conheça-o quem o quiser amar.

 

P.S. – Agosto de 1983 –

 

A escrita desenvolveu-se em Telectu numa grafia deveras original. Qualquer guitarrista electrónico tem obrigação de consultar os esquematismos musicográficos de Vítor Rua da obra «Belzebu».

Agora pratica quase exclusivamente na Roland 808, no sentido de sobredeterminar a fase das guitarras acústicas electrificadas.

Num complexo regime minimal-repetitivo, que se filia na escola de Robert Fripp, arqueologicamente em Hillage, este guitarrista instaurou já uma sonoridade singular num fraseado económico, sintético, arrebatamento visceral.

Apoiando-se em esquemas repetitivos, regulares, dos fundos do sintetizador, Rua liberta-se em improvisações que merecem uma cuidadosa atenção e onde um jogo de tecnicismos electrónicos vanguardistas subscrevem a progressiva alteração melódica, impondo mesmo um novo conceito de melodia.

A escrita, por ele adoptada, garante que esse sistema de improvisação, constituído por unidades sonoras electrónicas, se perpetue como uma possibilidade, entre outras, de criação sonora.

O rock está bem longe; novos mitos, novos ritos: Reich, Riley, Glass estão sempre a girar, repetitivamente, no prato do gira-discos.

Esta situação obrigou-o também a uma revisão radical dos métodos de interconexão eletrónica da diversificada aparelhagem sonora.

Na Roland 808 Vítor Rua distanciou-se do pelotão de guitarristas nacionais e isolado elevou a sua música a um estatuto só reconhecível por um público exigente, que escasseia neste país.

Na Roland 808 é simultaneamente, um técnico de som e um improvisador e tornou-se possível o surgimento em Portugal, paralelamente a Carlos Zíngaro, da música minimal repetitiva.

O projecto de Telectu define perfeitamente essa linha evolutiva de sintaxes repetitivas improvisadas (em Ctu Telectu) para uma linguagem paradigmática repetitiva (Belzebu) até um regime de valores minimais repetitivos, que a prática amadureceu, para o plano do disco futuro «off-off».

P.S. – Numa luta aberta e decidida contra o fascismo (na persona do administrador da Valentim de Carvalho que decidiu despedi-lo: ou ele tocava música ligeira e lhe dava lucro ou não interessava a «música», rua com o Rua), grava Telectu/Belzebu na única editora independente portuguesa.

Também de frisar, e após um contacto fundamental com António Palolo, a pluridisciplinaridade do discurso (música/vídeo), em que utiliza processos de sincronia, contiguidade e colagem, concomitantes à música minimal periódica.









A IDEIA anartista

N.º 30-31 TRIMESTRAL 170$00 OUTUBRO 1983

120 páginas

 

A IDEIA – revista de cultura e pensamento anarquista

Director e Proprietário: João C. O. M. Freire.

Redacção e Administração: Apartado 3122 – 1303 Lisboa Codex – Portugal

Execução Gráfica: Gráfica 2000, Cruz Quebrada.

Editores: João Freire, Maria G. Oliveira, J. Paulo Oliveira, Teresa Silva, M. Alexandre Lousada e Conceição Vieira.

Colaboradores permanentes: Domingos Amaro, Manuel A. Oliveira, Rogério Souza, Carlos Reis, José Francisco, Artur Modesto, J. M. Carvalho Ferreira e Miguel Serras Pereira.

Correspondentes: Santarém – José M. Leandro; Porto – Pedro Almeida; Inglaterra – Claude Moreira; Brasil – Edgar Rodrigues.

Capa e arranjo gráfico: Vasco Rosa

Coordenaram este número: Hermínio Monteiro, João Freire, Manuel P. Silva, M. Alexandre Lousada, Miguel Serras Pereira e Vasco Rosa.

Distribuidora: Dijornal, R. Joaquim António de Aguiar, 64-2.º - 1000 Lisboa – Telefones 657550 – 657450 – 657870.

Condições de assinatura: Assinatura anual (2 números duplos) – 300 Escudos; Assinatura de apoio – 400 Escudos ou superior; Estrangeiro – 300 Pesetas / 20 Francs F. / 5000 Lire / 2 Pounds / 5 US Dollars.

Nº de Depósito Legal: 3276/83

Nº de Reg. Título: 104197

Nº de Reg. Prop.: 207384

 

A IDEIA Anartista 30-31 Índice

Alberto Pimenta / Acerca da poética ainda possível / 7

Eduardo Colombo / Do Desejo À Utopia / 12

Kenneth White / Notas sobre o pensamento anarquista / 27

Marianne Enckel / Digressão inacabada sobre o movimento perpétuo / 30

Nuno Félix da Costa / A fotografia e a perversão do olhar / 35

Alexandra Vasilikian / Teoria de uma exposição / 40

Pedro Borges / O cinema ou o espelho que cega / 44

Fiama Hasse Pais Brandão / História: o direito á alucinação / 46

Susan Margaret Brown / O banqueiro anarquista ou o poeta anarquista mascarado? / 49

Mário Cesariny / Carta do Shaman / Nomenclatura para depois do último Katun / 55

Fernando Alves dos Santos / Jogo / 56

Miguel Serras Pereira / «El Angel Exterminador» / 57

António Maria Lisboa / Quatro Poemas / 58

Mário Cordeiro / Em maio… / 60

António Macedo / «Mágico do Tempo…» / 61

Isabel de Sá / A tarde falecia… / 62

Rogério José / Viagens / 64

Manuela Silva / Apocalipse, Agora / 65

Aura Amaral / Era maio… / 66

Gabriel Bonito / À Tona de Água / 67

José Bebiano / Duas Cartas de Para Cá das Aves III / 68

Eugénio de Andrade / Rosa do Mundo / 69

Eduardo Guerra Carneiro / Ano Novo, Vida Nova / 70

Helder Moura Pereira / Claroescuro / 72

Manuel Hermínio Monteiro / Semana Santa… / 78

Joaquim de Oliveira Caetano / Três Cartas de Beja / 80

Mário Cláudio / In extremis ou elegia a Rudolph Valentino / 81

Maria Carlos Radich / Bárbara / 84

José Dinis Fidalgo / Olhos gaios / 88

Regina Louro / O carro do lixo passa às sete da manhã / 94

Almeida e Sousa / Linhas do horizonte / 98

Jorge Lima Barreto / Solo sobre Vítor Rua / 101

António Brandão Moniz / Santos Barros: poeta da minoria / 107

Evocação:

Edgar Rodrigues / José Oiticica / 111

Maria da Conceição / Ferreira de Castro / 113

Miscelânea / 114

 

Desenhos de

António Palolo, Pedro de Sousa, Mário Botas, Jean-Jacques Dauben, Ilda David, Isabel de Sá, Manuel Rosa e Graça Martins
















25.7.22

SYNTORAMA - nº 16 / 1989 - "ELECTRÓNICOS LUSITANOS" (parte 1/4) - TELECTU -


 

             ELECTRÓNICOS LUSITANOS

Já era altura de dedicarmos um espaço ao que se faz no país vizinho. Tudo o que se segue surgiu-nos na ideia após a audição de um concerto dado pelos TELECTU a propósito da bienal de Barcelona 87.

Apesar de deixar algumas coisas para outra ocasião, isto é, de momento, o que compilei relacionado com a música electrónica portuguesa. Seguir-se-á mais informação nos próximos números.

TELECTU

Surgiram no ano de 1982 em Lisboa. Eles começaram no Jazz e na música Rock, cada um por seu lado. VÍTOR RUA foi um dos fundadores dos GNR (Grupo Novo Rock), um dos grupos mais inovadores neste campo. Jorge Lima Barreto já faz música desde 1968 (Jazz e música electrónica).

Além de se dedicarem a tocar desenvolvem outras actividades, como a crítica, vídeo-arte, programas de rádio. Colaboraram com uma grande diversidade de gente; Por isso não vou continuar a contar a sua trajectória, já que a mesma se encontra reflectida na entrevista que fizemos a um dos responsáveis, Jorge Lima Barreto e que aparecerá mais à frente.

 

TELECTU. – Música multimédia, electronic live, jazz mimético, música minimal repetitiva. Música para vídeo, performance, teatro, cinema e dança.

 

JORGE LIMA BARRETO. – Piano, sintetizadores, electrónica, saxofone digital, sampler.

VÍTOR RUA. – Guitarra electrónica, electrónica, engenharia de som, vídeo, guitarra digital, sampler.

ANTONIO PALOLO. – Diapositivos, vídeo, artes gráficas.

 

VÍDEOS DE VÍTOR RUA:

1985 – HALLEY (50 min)

1986 – EBRAC (30 min); AUTO LOOP (10 min)

1987 – ALIENADO (20 min); AS AVENTURAS DO CARRO AMARELO (25 min)

1988 – COMPGRAF 2 (30 min); MIMESIS (37 min. 50 seg)

 

DISCOGRAFIA TELECTU

- “CTU TELECTU” – EMI 1982

- “BELZEBU” – CLICHÉ 1983

- “OFF-0FF” (duplo) – 3 MACACOS 1984

- “PERFORMANCE” – 3 MACACOS 1984

- “TELEFONE” – LIVE IN MOSCU 1985

- “ROSA-CRUZ”. LIVE GULBENKIAN 1985

- “HALLEY” – ÁLBUM DE LUXO COM TEXTO E SERIGRAFIA DE a. PALOLO – CENTRO NACIONAL DE CULTURA / ALTAMIRA 1986

- “DATA” – (MÚSICA PARA VÍDEO) 1986

- “CAMERATA ELETTRONICA” (DUPLO) - AMA ROMANTA 1988

- “MIMESIS” (LP e CD) – TRANSMEDIA 1988

- “BEM JOHNSON (DUPLO LP e CD) – 1989

 


VICTOR RUA

SINGLES: Com GNR – “Portugal na CEE” e “Sê Um GNR”

LP’s: Com GNR – “Independança – EMI Valentim de Carvalho, 1981

                               “Pipocas” – Ama Romanta, 1988

                               “Mimi” – Transmedia, 1989

 

JORGE LIMA BARRETO

“Anar Band” – Alvorada, 1976

“Encounters”, com Sahed Sarbid – Alv, 76

 

TELECTU

JORGE LIMA BARRETO

R/da Imprensa Nacional, 83-2ºD

1200-Lisboa (Portugal)

 

ENTREVISTA TELECTU

ROGELIO PEREIRA – Seria interessante se nos contasses como começaram.

JORGE LIMA – Primeiramente temos que considerar que os TELECTU provêm da reunião de dois músicos diferentes, na concepção musical e na vivência.

Eu toco desde 1968, primeiro em grupos de jazz-off, depois tendo fundado com CARLS ZÍNGARO a ASSOCIAÇÃO DE MÚSICA COCEPTUAL que abriria novos rumos à música portuguesa contemporânea, no sentido de uma investigação em electrónica-live (sintetizadores, piano electronicamente preparado, banda magnética), desde logo com uma actividade paralela como crítico musical e musicólogo (escrevi já 87 livros sobre música, que vão desde “REVOLUÇÃO DO JAZZ” a “MUSICÓNIMOS” (este último sobre filosofia da música e intensas observações sobre o rock).

VÍTOR RUA tinha formado em 1978 o grupo GNR (grupo novo rock) que era sem dúvida o melhor grupo de rock nacional.

Nesse tempo eu andava entre os EUA e o Brasil e quando regressei, conheci-o. Eu tinha gravado ANAR BAND (música experimental para piano, sintetizador e banda magnética) e “ENCOUNTERS” com o grande músico português de jazz, SAHEB SARBIB (música para contrabaixo, flauta e electrónica).

O VÍTOR tinha gravados vários singles de grande êxito e o LP “INDEPENDANÇA”, sempre com os GNR.

Formámos um grupo com o baterista dos GNR, um vocalista e fizemos uma obra de fusão “CTU TELECTU” pioneira na sua linguagem de ART-ROCK. A partir daí e depois de uma grande controvérsia com os princípios da multinacional para quem gravávamos, decidimo-nos pela edição independente. Introduzimos o minimalismo em Portugal, escrevi “música minimal repetitiva” e fizemos uma série de obras minimais como “BELZEBU”, “OFF-OFF”, “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, “FUNDAÇÃO”, “ROSA CRUZ”, “HALLEY”, “DATA” e, recentemente, sintaxes repetitivas em “MIMESIS” e “BEN JOHNSON”.




Os princípios que geraram a nossa música foram muito diversos e de foro estético multifacetado; vão desde a investigação em texturas tímbricas, coordenação de dispositivos sonoros, banda magnética, instrumentos acústicos tratados (guitarra e piano), estruturas miméticas, inclusão de computador, processos multifónicos, mistura de média, multimédia, aproveitamento de novos sentidos da improvisação, nova notação musical, enfim, um processo que não deveria ajustar-se a uma definição normalizadora de tantas e tão díspares actividades.

O VÍTOR RUA trabalha essencialmente com a guitarra e engenharia de som e eu em teclados e percussão electrónica.

R. PEREIRA – Nos poucos anos que levais como duo, já garavaram um bom número de LP’s, e apesar disso na altura de editar os vossos discos recorreram, na maioria dos casos, à autoprodução e autoedição. Neste último disco “MIMESIS” gravado numa etiqueta tão importante como é a TRANSMEDIA. Pensma que, finalmente, encontraram uma editora estável para futuras gravações?

JORGE LIMA – O problema da edição independente não se pode pôr nesses termos. Como somos independentes não temos proprietários. Assim estamos livres para fazer a música que queremos e editá-la onde nos pode dar mais acessibilidade e dignidade.

R. PEREIRA – A vossa música serviu de suporte a bandas sonoras de filmes. Para que filmes contribuíram com a vossa música?

JORGE LIMA – Fizemos uma banda sonora para o filme experimental de ANTONIO PALOLO “OHM”, mas fundamentalmente fizemos músicas funcionais para performances (no CENTRO POMPIDOU de Paris), para vídeo, poesia, teatro.

O VÍTOR RUA é um vídeo-artista inovador e as nossas realizações musicais têm sido sempre uma interacção musical com o vídeo, a instalação e a performance (prémio AICA no ano de 86 pela instalação “EBRAC” com Câmara Pereira). O ANTÓBIO PALOLO é parte dos TELECTU (diapositivos, capas de discos, vídeo-arte…)

R. PEREIRA – Na vossa obra “CAMERATA ELETTRONICA” escutamos uma música mais próxima do jazz, abandonando de certa forma a formas minimalistas de anteriores álbuns. Pensam seguir nesta linha ou foi apenas mais uma experiência?

JORGE LIMA – Como já disse, eu também sou musicólogo de Jazz. Em obras como “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, e especialmente na peça “BAKU RESTAURANT”, gravada em Moscovo, abordámos mimetismos do Jazz. Dizemos mimetismos porque não sendo músicos de Jazz, pretendemos simular a partir de instrumentos acústicos e electroacústicos, a linguagem do Jazz.

Consideramos em 87 que poderíamos ultrapassar-nos, sem abandonar os processos minimalistas, e inflectimos a nossa música para um tipo de Jazz-Off electrónico, dando mais relevo à improvisação electrónica ao vivo.

A segunda parte da pergunta tem como resposta evidente que nós continuaremos num Work In Progress das nossas concepções musicais, sem qualquer compromisso determinado com esta ou aquela tipologia musical. O futuro nasce da própria acção criativa, depende das circunstâncias tecnológicas e de novas percepções sonoras, ou seja, para além do disco e do concerto temos muitas outras situações para compor e executar a nossa música.

R. PEREIRA – Aparte de fazer música, também se dedicam a escrever em semanários musicais. Por outro lado, tu, Jorge, tens escrito algum outro livro? Tens projectos no campo literário?

JORGE LIMA – Apenas escrevo em semanários musicais. Tenho 12 livros escritos, todos no âmbito da musicologia, estou a iniciar o meu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, em música e mass media, tenho livros e textos já traduzidos (espanhol, italiano, inglês e francês). Neste momento estou a elaborar a minha tese e paralelamente estou a escrever um livro sobre Novas Músicas. Dei também conferências sobre este tema tão aberto, em Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro, São Paulo, Cuzco, Moscovo, Macau, Génova, …

R. PEREIRA – Como avalias o panorama da música electrónica Portuguesa?

JORGE LIMA – Temos de verificar que a minha opinião não pode ser encarada como a opinião de um músico apenas. Como musicólogo tenho reflectido desde sempre sobre a electrónica na música portuguesa, fui pioneiro na Electric live neste país. Escrevi um “breviário de música electrónica” onde está escrito o que penso sobre a música electrónica portuguesa. Consideremos dois tipos: 1 de estúdio, 2 ao vivo. Na electrónica de estúdio, músicos como JORGE PEIXINHO, FILIPE PIRES e sobretudo EMANUEL NUNES (residente na Alemanha), fizeram abordagens electrónicas sobre serialismo, tape music, computação, electro-acústica e, ultimamente, novos valores têm-se revelado.


Na “electrónica live” temos o CARLOS ZÍNGARO que toca com TEILTELBAUM, TELECTU, TÓ-ZÉ FERREIRA e toda uma série indiscriminada de culturas dentro de músicas mais dirigidas a uma massificação estética que inclui o rock, pop, new age e ambientes e funcionalismos musicais. Num panorama pobre, sem um estúdio de música electrónica, e que provém da própria iniciativa dos músicos, sem um eco notório na imprensa musical, praticada normalmente por ignorantes de música, tirando uma ou outra excepção.

R. PEREIRA – Há um par de anos chegaram a actuar na bienal de Barcelona, actuação da qual usaram uma parte em “CAMERATA ELETTRONICA. Têm vontade de tocar de novo em Espanha?

JORGE LIMA – Não temos apenas vontade, queremos profundamente fazer uma tournée em Espanha. Parece impossível que, tendo tocado em todos os continentes, não tenhamos quase conseguido tocar em Espanha, que é o nosso país vizinho. Temos um monte de propostas que incluem concertos, instalação, vídeo musical, performance, conferências, edição de traduções dos meus livros, mas tudo é muito difícil de concretizar; é que o governo português está muito longe de se interessar pela música portuguesa e muito menos por música portuguesa a ser tocada no estrangeiro, lugar que não interessa para captar votos para as eleições. Mas oxalá esta entrevista possa servir como incentivo para essa realizações.

R. PEREIRA – Conheces alguma da música electrónica feita em Espanha?

JORGE LIMA – Evidentemente. Tive contactos pessoais e entrevistei para o meu livro “Musicónimos” o LUIS DE PABLO, gosto muito especialmente da peça “Chaman”, também obras acústicas de BENGUEREL, MESTERES QUADRENY, SOLER, TALTABULL, POLONIO …

Em Espanha, como em Portugal, não há um importante Centro de Música Electrónica e são poucas as multinacionais do disco, que são evidentemente as mesmas que dominam o mercado musical português, que mostrem algum interesse por esta estética musical. E claro que se entendemos o termo música electrónica como toda e qualquer prática instrumental electrónica (ligada ao rock, Jazz, novas músicas, e a música comercial), torna-se muito difícil poder apreciar a música electrónica espanhola, já que os instrumentos não fazem a música sem os músicos. Gostaria de poder aprofundar o meu conhecimento, que é tão superficial, da música electrónica espanhola…

R. PEREIRA – Que outros LPs editaram separadamente?

JORGE LIMA – Eu gravei “ANAR BAND” (76) e “ENCOUNTERS” com o SAHEB SARBIB (77). Por seu lado o VÍTOR tem três LPs: Com os GNR, sob o nome de PSP-PIPOCAS (87) e MIMI (89).

R. PEREIRA – Quais são as vossas preferências musicais?

JORGE LIMA – É um campo vasto de desejo: etnográficas, clássica (que engloba obras orquestrais e de carácter solístico), electrónica, acusmática, concreta, Jazz, rock, pop, música de massas, sons naturais, obras para banda magnética, colagem musical… enfim, somos observadores conscientes de toda a música sem excepção, a não ser uma indiferença e até uma repulsa pelo comercialismo e pela indecorosa conduta das editoras e dos pseudo-músicos que contaminam, com propostas anti-estéticas, todo o consumo musical. É como dizer que se prefere BACH a CAGE, MONK a FRIPP, TEATRO CAGAKU (Japão) a uma RAGA HINDU, se todos são mundos tão maravilhosos para ouvirmos.

R. PEREIRA – Algo que queiras acrescentar?

JORGE LIMA – Penso que numa entrevista o mais importante é o que fica por dizer. Assim, poderíamos estar horas e horas a falar de música, da experiência literária, das novas notações, dos meios de comunicação, de uma composição, de um solista, de um concerto… enfim, seria uma infinidade de considerações a tecer sobre o que se ama: a música.

O desejo de poder ir, tocar e mostrar a nossa criatividade em Espanha, como interesse primordial.

E finalmente, que nos seduz imensamente o movimento estético-musical da vossa revista SYNTORAMA, que denota uma qualidade cultural e gráfica, como também pelo carácter de intervenção que revela.

Esta entrevista com JORGE LIMA BARRETO, membro dos TELECTU, foi realizada por correio, em Abril de 1989.




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