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2.4.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 24 - Novembro de 2005


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
48 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano VII
Nº 24
Novembro de 2005



BOARDS OF CANADA
Constantes Em Mutação

Após dois álbuns e vários EPs que mudaram a face da electrónica, o duo escocês Boards Of Canada volta com “The Campfire Headphase”, um dos discos mais aguardados da recta final de 2005.



Na década de 70, duas crianças escocesas chamadas Michael Sandison e Marcus Eoin conheceram-se no Canadá. Ainda muito jovens, e já de regresso à Escócia, criaram as suas primeiras cassetes na viragem para a década de 90, o exacto momento em que o acid e o techno começaram a desenvolver-se. O tempo foi passando, e depois de muitas experiências artísticas os dois jovens decidiram enviar uma demo para várias editoras, incluindo a Skam. Sean Booth (dos Autechre) ouviu essa demo e a Skam decidiu imediatamente contratar o duo, chamado Boards Of Canada, nome derivado da National Film Board Of Canada, produtora especializada em filmes documentais que influenciaram os dois músicos durante a sua vivência no Canadá. A demo chamava-ºse “Twoism” e acabou por ser reeditada anos mais tarde, pela Warp. Através da Skam, os Boards Of Canada lançaram, em 1996, “High Scores” o seu primeiro EP com uma distribuição em larga escala, chamando a atenção da comunidade apreciadora da electrónica. “Music Has The Right To Children” foi o seu primeiro álbum, editado conjuntamente pela Skam e pela Warp, que se tornou instantaneamente uma obra-prima da música electrónica. Embebido de psicadelismo e de uma toada campestre, esse álbum teve um alcance muito além do seu estilo: a comunidade indie recebeu-o de braços abertos e os Boards Of Canada tronaram-se uma coqueluche da cena musical britânica.
Em 2000 lançam “In A Beautiful Place Out In The Country”, um novo EP. Vagamente baseado nos acontecimentos que levaram ao massacre de uma seita religiosa americana na década de 90, este trabalho mostrava a fecilidade da vida religiosa em comunidade, no campo, e a face escura da tragédia que caiu sobre ela. “Geoggadi”, o segundo álbum do duo lançado em 2002, seguiu um caminho ligeiramente diferente, aprofundando ainda mais a nostalgia dos documentários dos anos 70 e do psicadelismo. Estes dois discos contribuíram ainda mais para a criação de uma áurea mítica em torno do duo, que se viu envolvido em imensos boatos acerca das motivações que os levaram a criar estes dois trabalhos.
“The Campfire Headphase” é o novo álbum dos Boards Of Canada. E, tal como anteriormente, marca uma nova inflexão na sua sonoridade embora de uma forma subtil: as guitarras marcam mais presença e os samples de vozes estão quase ausentes. Por um lado há uma maior abstracção, mas por outro evita cair no tipo de obscuridade que levou à mistificação do duo. A luz espalha-se em cada canção, de uma forma natural, e tudo é envolvido por um brilho acústico que não existia nos trabalhos anteriores. “The Campfire Headphase” não é propriamente a chegada do Verão, é mais uma revisitação de temas correntes do duo, onde a noção de entretenimento descomprometido está mais presente. O que está longe de tornar o trabalho superficial, apenas mostra mais uma faceta deste duo em permanente mutação.
CAL
César A. Laia









8.3.17

Boards Of Canada - "Geogaddi"


Diário de Notícias
dnmais
30 de Março de 2002

Hippies Digitais



Apesar das revelações dos Primal Scream em 1990, a ideia de uma música hipnótica baseada em linguagens electrónicas não seguiu, depois, as linhas mestras das correntes pelas quais a música avançou ao longo da década, e foram pontuais os casos onde a fonte de inspiração para artes digitais se localizou na memória das escolas «alucinogénicas» de finais de 60.
Um interessante caso, seguido com atenção há já alguns anos, nasceu na Escócia, berço da dupla Marcus Eoin / Michael Sandison. Estrearam-se há seis anos na pequena independente Skam, que então editou um máxi-single de oito temas, correspondendo este a uma maquete (em vinil) que o duo havia enviado a diversas editoras. Seguiu-se o EP «Hi Scores», denotando sinais de busca entre referências electro, Hip Hop e noções de paisagismo, que o álbum de estreia «Music Has The Right To Children» revela com sinais de maioridade, já em 1998, num momento em que as marcas de uma postura de contemplação pelo passado (em detrimento da tradicional postura de antecipação que coordena muitas aventuras nestas áreas) se mostrava já evidente.
Com excepção para um EP («In A Beautiful Place Out In The Country», de 2000), os Boards Of Canada mantiveram-se em silêncio durante quatro anos e regressam, agora, com «Geogaddi», um segundo álbum que denuncia o assumir da herança do psicadelismo, incorporando-a na carne da música e não apenas enquanto uma máscara que se usa para teatro de imagem.
A capa indicia um primeiro sinal claro de um mergulho iminente num espaço de convite à libertação do corpo (à boa maneira das sugestões do psicadelismo de uns Pink Floyd ou Beatles de 1967). Um mundo de visões caleidoscópicas percorre, depois, todo o restante «inlay», e conduz-nos, pela mão, ao som que o disco depois encerra.
E aí entramos, aos poucos, num espaço que começa por nos traçar linhas sólidas, sugere tons e melodias e, aos poucos, transporta ao núcleo dos acontecimentos, como quem mergulha inevitavelmente num abismo que quase assusta mas depois, inevitavelmente, atrai... Há uma interessante lógica de construção «quase-narrativa» nesse processo de sedução induzida que nos conduz depois ao longo de todo o disco e nos faz segui-lo de fio a pavio, quase sugerindo tratar-se de uma peça conceptual. Será?
Alternam os momentos de construção de núcleos que quase sugerem a estrutura de canção (como «Julie And Candy», «1969» ou o belíssimo «Dawn Chorus»). Com pontes de passagem que asseguram o fluir constante da progressão da audição. O percurso acaba, depois, por revelar uma série de apropriações de ferramentas formais características do psicadelismo de 60, entre elas notas de sitar, vozes de tez indiana, linhas difusas em espiral, vozes rebobinadas, ruídos brancos... Vozes de um mundo real (ou talvez de sonho) cruzam pontualmente, ao longe, as texturas que evoluem no espaço, não assumindo nunca um protagonismo de linha da frente como sucede na canção.
No final da «viagem», uma espécie de «trip» hippie digital, instala-se uma sensação de paz. Uma paz que não decorre da mesma experiência do sentido de liberdade que transborda de discos recentes de nomes como os Manitoba, Fridge ou For Tet, onde as formas são, apesar de mais nítidas, menos rígidas... Condicionando (e condiconado por) um percurso muito concreto, «Geogaddi» não deixa de representar mais um saboroso convite a um espaço de fuga. Na era da formatação, um disco como este segundo álbum dos Boards Of Canada pode ter efeitos quase terapêuticos. Não inventa a pólvora, não rompe visões, mas recupera, de forma curiosa, marcas de um passado rico em criatividade. Tão rico que, com novas ferramentas, ainda sugere pistas a desbravar.
N.G.

BOARDS OF CANADA «Geogaddi»

Warp / Zona Música **** (4 estrelas)






23.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (108) - Monitor #45


Monitor
Nº 45

Ano V
Maio de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00
Tiragem 500 exemplares



Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Pedro Ivo Arriegas
Vasco Durão
Gonçalo Falcão
José António Moura
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Boards Of Canada
«Music Has The Right To Children»
[CD Skam / Warp, 1998]

Na verdade são escoceses. Electrónica de pouca iniciativa, que os Autechre tomaram-na já - «Sixtyten», «Pete Stands Alone» revelam mais quanto a isso do que qualquer comparação por escrito. Boards of Canada optam, no entanto, por uma via melódica mais acentuada, com mais espaço para os sons respirarem. E quem ouve consegue pensar em coisas que não a música, pormenor complicado com Autechre, tão herméticos que o desenrolar dos sons é logo uma história em si. Depois, BOC aceitam q.b. referências hip hop («Rue The Whirl», «Smokes Quantity»), nunca linha dura, não à militância. Na base desta música, sim, relativamente discreta: «A nostalgia é a fonte de toda a nossa música, a recusa em aceitar a idade adulta. Esforçamo-nos sempre por ser mais novos.» «Music Has The Right To Children» não acrescenta, torna-se disco correcto, amigável, sem surpresas, como alguém em quem se pode confiar. Todos os lares deviam ter um.
[JAM] - José António Moura

 






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