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19.5.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (208) - Lime Lizard - Agosto de 1993


LIME LIZARD
UK

Agosto de 1993
Preço: £2,95
Editor: Patrick Fraser

Nº páginas: 92
Papel um pouco maior que A4 a cores e papel brilhante fino





Telefonei a Ivo para escritório da 4AD da Califórnia, onde ele se encontrava a passar duas semanas. Eu, entretanto, estou instalado nos escritórios deles, em South London, numa sala bela e espaçosa, dominada por uma extraordinária pilha de equipamento hi-fi. Ivo é amigável e loquaz, orgulhoso e entusiasta acerca da música que edita.
Em 1986, disseste que estavas a editar a música mais original e excitante dessa época; pensas que ainda o continuas a fazer , nos dias de hoje?
“Sim, na maioria dos caos. Especialmente durante este ano.”
Que bandas me particular?
“Os Red House Painters, para o meu gosto pessoal. Mas, sabes, tudo o que editámos ou finalizámos até aqui faz-me ficar delirantemente feliz com: The Breeders, Dead Can Dance (novos álbuns serão editados no Outouno), Belly... pessoalmente gosto muito do disco do Frank Black – sei que não é a coisa mais popular na Inglaterra neste momento – e His Name Is Alive, claro.”
Parece que o álbum dos Red House Painters preencheu um vazio; é um álbum realmente incrível...
“É – apesar de eu não pensar que vá vender muito. É como, eu olho para a mentalidade futebolística e isso não existe no meu interior algo que consiga compreender porque é que as pessoas vão assistir a jogos de futebol. Da mesma forma, compreendo que não existe no íntimo da maioria das pessoas algo que os faça responder e compreender e gostar do tipo de música que o Mark Kozelek faz.”
A 4AD alterou, ao longo do tempo, aquilo que tu imaginavas que iria ser?
“Nunca pensei nisso, mas não poderia nem conseguiria acreditar que iria editar a quantidade e qualidade de discos que foi feito. Foi tudo muito para além do que os meus melhores sonhos poderiam fazer-me esperar.”
Agora que tens bandas com tanto sucesso na editora, estás já acima dos constrangimentos financeiros com que te costumavas preocupar?
“Oh, não. Foda-se, não, porque o que aconteceu então é que toda a gente se envolveu com agentes e advogados. O tipo de fundos que as pessoas precisam antecipadamente multiplicou de valor por vinte ou trinta vezes. É absurdo. Tens uma situação onde uma banda venderá milhões e milhões, e a indústria é atraída, como que magneticamente, para esse tipo de música, sem discriminação, sem qualquer tipo de entendimento.
Não podes acusar as pessoas por lucrar, por tentar tirar dividendos da absurdez desta indústria, mas penso que isso não é saudável para a música.
“É fácil para mim dizer que o barómetro do sucesso é o artigo acabado antes de alguém sequer o ouvir, mas a maioria das pessoas precisa e quer ter a aclamação de todo o mundo, posições nas tabelas de venda, etc. Assim, de forma a manter e aguentar tudo isso, foda-se, nós somos apenas como uma companhia de gravação tradicional!”
Tens planos para fazer mais coisas sob a capa “This Mortal Coil”?
“Não, This Mortal Coil já não existe como projecto e por agora comecei os Son Of This Mortal Coil, ou que diabo seja que lhe iremos chamar! – Não tenho intenções de trabalhar com ninguém da 4AD, de facto é bastante importante que assim seja.”
Então estás a trabalhar em coisas novas.
“Pensei nisso durante anos, e Deus abençoe Warren DeFever por me ter dado um pontapé no cu mensalmente e dizer ‘Faz qualquer coisa!’ Fui para um estúdio na Escócia por alguns dias e ensaiei algumas peças, interpretações de músicas de outras pessoas, conseguindo 5 canções. Espero que seja principalmente acústico, e quero trabalhar com muito menos pessoas num disco. Tive um monte de ideias este fim de semana no deserto. Um dos grandes bónus de se viver na Califórnia é que o deserto está tão acessível, e tu podes ir para lá e pensar nas coisas...”
Tens algumas teorias sobre a razão de ter uma tal explosão da música ‘indie’ a transformar-se em mainstream nestes últimos anos – porque me parece que isso aconteceu com a 4AD e com os Pixies muito antes dos Nirvana.
“Haverá sempre alguém que incorporará uma data de trabalho e criatividade que foi feita antes. Ninguém é único, e obviamente os Pixies pagam tributo a bandas como aquelas em que esteve Bob Mould – É apenas uma questão de tempo para que as coisas sejam filtradas. E depois há sempre uma segunda e terceira geração depois dos originais... os Velvet Underground são o exemplo clássico. Ou os Big Star, foda-se! Mesmo até há 4 anos atrás ninguém conhecia os Big Star. Às vezes isso preocupa-me, obviamente não por mim, porque eu estou a tirar prazer disso, mas por causa de pessoas como Kurt Ralske ou His Name Is Alive. Quantos Velvet Underground ou Big Stars trabalhámos nós?”

“Eu fiz uma grande porcaria às dez e meia desta manhã”, começa a responder a uma particularmente estúpida questão acerca da peça preferida da sua própria obra.
Não a espécie de comportamento que esperes do príncipe do redemoinho, capa misteriosa, Vaughan Oliver. A sua auto-depreciação da própria inteligência (a citação de Tommy Cooper “vidro, garrafa, garrafa, vidro” do prefácio do seu catálogo de exposição em França, ao lado de outra do fotógrafo parisiense Robert Doisneau) meramente se adiciona ao enigma que ele criou para a companhia de discos que emprega os seus serviços. Nos últimos 12 anos Vaughan coordenou e realizou o design das capas para a famosa etiqueta independente 4AD, envolvendo a música dos Pixies e dos Lush, entre outros, com profundidade de ideias e também alguma provocação à mistura.
Capas genuínas de discos mantêm-se em alta estima de todos, formando parte da recente exposição Twentieth Century, no V&A.
Apesar dele e da sua equipa de designers, a V23, tenha também feito trabalhos para outras áreas (capas de livros, posters de exibições e, de forma bizarra, designa de apresentação para o agora em dúvida ramal ferroviário de King’s Cross / Chunnel) ele é ainda mais conhecido por aquilo que criou para a 4AD e dentro dos quadrados de 12 polegadas de cartão que envolvem os discos – trabalho que destrói a imagem do disco como mero produto de consumo.
Ele fornece um lado físico à música que a imagem complementar é escolhida para rodear – uma pista visual dos sons no interior, ajudando o ouvinte a apegar-se mais ao disco e à arte da capa como uma entidade artística única.
“A razão principal por que faço isto é que eu irei comprar a maior parte da música, de qualquer forma. Não é como se estivesse a trabalhar. Sou genuinamente inspirado pela música e coloco uma capa num disco que estará na minha colecção em casa e por isso quero que seja uma coisa que valha a pena. Não há nada pior do que uma peça de música com uma capa de merda nela – apenas te afasta dela. Eu pretendo tornar a música o mais próxima das pessoas possível.”
O cliché acerca da arte das capas da 4AD é que é um cliché por si próprio. Sobre-desenhadas, imagem de marca da etiqueta discreta sem lugar a preocupações com o seu baixo custo, um beco indie lo-fi. Mas a marca semigenérica dada por Vaughan e os seus contemporâneos dos anos 80, a etiqueta Postcard Records da Escócia e Peter Saville na Factory, formaram os Mandamentos para a adesão quando se pensa em formar uma pequena etiqueta independente. A Too Pure, Wiiija e a Sub Pop dos seus inícios, têm todas as suas capas com um débito a esses pioneiros na sua abordagem. A influência de Vaughan alargou-se ainda mais. As páginas do catálogo do obscuro designer de moda belga Wim Neel’s, supostamente feitas nos escritórios de todo o mundo, são quase-reproduções do trabalho de Vaughan para o primeiro LP dos This Mortal Coil e para os Cocteau Twins, era Garlands.
E isto é apenas um exemplo entre dezenas de capas de discos, capas de livros e catálogos que incorporaram a sua arte gráfica. Vaughan reconhece a frequentemente criticada consistência entre as suas capas para artistas individuais e para a 4AD como um todo, mas apesar disso dar a uma empresa “sem face” identificativa e que está no mercado, alguma identidade e personalidade, ele arrepende-se o efeito que frequentemente lhe é apontado.
“Em certo sentido, eu devia ter evitado essa identificação da editora porque entra depois em conflito com as personalidades de cada banda de per si. No final do dia, se as pessoas respondem ao logótipo na contracapa, o facto é que é um disco da 4AD, então isso é bom. Mas isso tende a dar às pessoas uma ideia pré-concebida de como tudo será e soará. Mas numa análise sobre a criatividade, é muito difícil fazer tudo completamente diferente.”

Vaughan colabora com uma vasta gama de artistas na sua empresa V23 e a sua equipa parece toda ela partilhar os mesmos ideais quanto à boa arte, enquanto trabalham num contexto de artes gráficas comerciais. É o que faz a V23 tão diferente e única e permite que um humilde designer de uma capa de disco seja aclamado nas suas aparições em França (com apoio do Ministério da Cultura Francês) e no Japão.
Quer a sua opinião seja a de que o que Vaughan realiza é realmente arte, o seu impacto é indiscutível e criou uma imagem que se destaca no meio da infinidade de edições discográficas. Ele acredita firmemente que “não consegues ter o mesmo impacto com as capas dos CDs. Toma como exemplo as capas dos Pixies, onde existe uma fotografia de um cão, ou de um bebé a chorar, ou o que quer que seja. Há um elemento de choque numa coisa como essas – que é incrementado quando passas para o tamanho do poster. Se o passares para o tamanho do Cd fica logo inestético e diluído”.
Podemos estar a falar de tecnologia ultrapassada, mas há qualquer coisa de orgânico quando se trata do tal quadrado de cartão com 12 polegadas de lado. Tu precisas e queres ter muito cuidado com ele, o que te dá um envolvimento muito mais pessoal com o objecto/disco, se fores um velho sentimental como eu. Ou Vaughan.
“Sabes, levas o teu disco para casa, tiras a capa interior e metes de novo o vinilo dentro dela e oh! É um sentimento muito forte e agradável! Muito mais do que abrir uma caixa de plástico de um CD e ficares com uma coisa pequena na mão. Como objecto é muito mais apetecível.”
Pronto para dar a sua contribuição artística em outros media (o actual calendário da 4AD e uma série que vai sair de capas para livros para a editora Serpent’s Tail, só para citar dois exemplos), Vaughan e V23 transformam artigos de consumo em artigos de que tu nunca mais vais querer separar-te. Ele está a lutar na retaguarda contra a pressão para consumir e dispensar cada vez mais os objectos – simplesmente colocando o seu amor à música em utilização e de uma forma construtiva.
“Sabes, eu passei/dei doze anos da minha vida a peças de cartão quadradas com doze polegadas,” diz Vaughan, “falando muito a sério acerca de uma peça de memorabilia.”
O terceiro poster da série 23 Envelope, será disponibilizado ainda este ano.



A 4AD está a celebrar 30 anos como incubadora natural de música de qualidade, esplendidamente apresentada. Lucy Cage e Razor olham para trás sobre a história lustrosa da editora, Lucy Cage falou com Ivo Watts-Russelll acerca das suas inspirações, enquanto Gareth Grundy se encontrou com Vaughan Oliver, da 23 Envelope.

A menos que seja confrontado por uma daquelas perguntas de questionário “Que Discos Mudaram A Sua Vida?”, não é provável que a evolução do seu gosto musical venha à tona e seja objecto de escrutínio público. E mesmo assim, pode sempre mentir. Mas não se você for o patrão da 4AD, Ivo Watts-Russell. A história da sua estética pessoal está gravada em vinilo para todos poderem ouvir. Felizmente, quer para ele quer para nós, o seu ouvido conduziu-o a trabalhar frequentemente com as melhores bandas de diversos géneros, ou até, frequentemente, com bandas cujos discos e aparição na cena musical definiram elas próprias um novo género. A 4Ad tornou-se num símbolo de qualidade e integridade num mercado geralmente com menos cuidados com o consumidor.
Oh My Goth
É fácil esquecermo-nos que a etiqueta que renovou os gostos, com música etérea de bandas como os Cocteau Twins, os naquela época deliciosamente sensaborões Bauhaus e os Birthday Party. Claro que, naqueles tempos até os Cocteau Twins eram góticos. O seu álbum de estreia – Garlands (1982) – é marcadamente repetitivo, carregado de ira e geralmente fornecia razões para comprar antes (ou a par) o EP dos Sisters Of Mercy “Reptile Houde”. Os Birthday Party utilizavam uma abordagem mais guerilheira, espalhando cacos de horror como o lentamente triturador “The Friend Catcher” ou a lasticidade monstruosa de “Mr. Clarinet”. Algures no meio encontramos os Bauhaus de Peter Murphy, mestres do humor negro em vez da magia negra, com canções doidas mas sem expressividade como “God In An Alcove”, “Small Talk Stinks”, “Telegram Sam”. Quando os Bauhaus partiram para a companhia mãe Beggars Banquet, em 1981, levaram consigo o co-fundador Peter Kent com eles e a 4AD tornou-se (virtualmente) uma editora autónoma sob o domínio de Ivo.
Atacados Pela Imprensa
Sem surpresa, a maioria das edições iniciais da 4AD foram singles. Ao lado de discos de bandas como os Modern English e os Birthday Party – a espinha dorsal da sua lista em desenvolvimento – estiveram lá muitas bandas de um só disco, o que fazia parecer que a editora estava a flexibilizar o seu estilo. Entre eles estava o 12” pelos já extintos Rema-Rema, uma das canções que seria mais tarde refeita e editada no primeiro LP dos This Mortal Coil, e cuja formação incluía Marco Peroni, que mais tarde se juntou aos Adam & The Ants e Gary Asquith, agora com os Renegade Soundwave; enquanto Mark Cox e Mick Allen formaram equipa com Andy Gray para constituir os In Camera -  - um outro grupo estranho da 4AD, que trabalhava nas franjas do pop psicológico – para formar os Wolfgang Press. Considerando que Allen descreve ele próprio a banda como “quase um hobby” durante os primeiros anos da sua existência – quando ela produziu uma linha de, moderadamente, - discos inacessíveis – isso é testemunho da força de Ivo e da sua forte convicção neste último sobrevivente da 4AD, neste período de “Raincoat”, em que os Wolfgang Press sairam com um álbum de brilho incontestável: o subtil Bird Wood Cage, de 1988,. Com “Queer”, o qual – paradoxalmente – Allens reconhece como o mais experimental depois do seu primeiro, Foi o que fez os Wolfgang Press atingirem o mainstream, vingando retrospectivamente anos de ostracismo imerecido.
Pinte Com Qualquer Cor Excepto O Preto
O que tem de especial o dubpop cool de caixas de ritmos dos Colourbox que atraíram a atenção de Ivo no mesmo ano em que assinou com os Cocteau Twins? “Não faço a mínima ideia”, revela elusivamente Martin Young, o líder da banda na sua primeira entrevista da última meia década. Na altura, eles eram conhecidos como uma editora negra e assustadora. Nós nunca lhe envia ríamos uma demo tape.” Mas um nosso amigo enviou, e os Colourbox puseram cá fora um álbum que, com um fluxo lento mas constante, no meio do material da 4AD, alcandorou o sucesso entre ’82 e ’86.
Aplicando chocantes excessos de efeitos de estúdio – atrasos de voz sonantes, estranhas paragens, efeitos electrónicos fantasmáticos – Às suas canções pop cheias de soul, ou passando meramente diálogos de filmes, iluminou as suas canções de forma infecciosa (uma vez ouvidas..., tentem o seu “Official World Cup Theme”, nunca mais nos saem da cabeça). Mas foi preciso esperar por 1987 e a colaboração entre MARRS e A.R.Kane para os Colourbox conseguirem os seu primeiro (e da editora) número um no top.
“Eu não quero acreditar que o Martyn e o Steve Young – tão talentosos – não tivessem encontrado a inspiração para acabar alguma coisa”, diz Ivo tristemente. Não houve produção dos Colourbox desde “Pump Up The Volume”. Paguei-lhes adiantadamente para fazerem o álbum seguinte. Se Martyn alguma vez acabasse alguma coisa, eu editava, mas parece-me que cada vez mais isso se está a tornar menos provável.”
Martyn admite: “Eu passei por um longo período em que o meu interesse pela música foi nulo”. Mas ele está agora a trabalhar em material novo, embora não deva sair sob o nome de Colourbox. E já não se sente mais intimidado pelo seu hit. “Certamente que não devo e não vou tentar repeti-lo. É melhor que tenha morrido e fique enterrado, na verdade”. Dito isto, à custa dele foi-nos permitido viver durante seis anos. Esse aspecto da questão está ok!”
Vivendo Num Mundo Etéreo
Depois de Garlands, foi-se tornando gradualmente claro que os Cocteau Twins tinham um lado mais forte na sua música. Nos EPs “Lullabies” e “Peppermint Pig” os sons da bateria eram ainda mais crocantes, a guitarra de Robin Guthrie ainda guinchava e dava a base, mas as harmonias começaram a ser mais quentes, e essa característica vocal de contraponto, obtida com a técnica de overdub, de Liz Fraser veio para a frente. Em Head Over Heels (1983), o processo de género-fracassado estava concluído quando eles prenderam a máquina de ritmos através de um efeito de reverberação em vez de apenas um delay. O resultado? Um afofamento. Mas que magnífico, apocalíptico afofamento ele foi: o espírito do Etéreo estava entre nós.
Elevar A Morte
Os Cocteau Twins tornaram-se a banda da 4AD que mais vendia e a principal banda no papel de atrair novos ouvintes para a editora (com a qual eles estavam fortemente identificados). Além deles, isto é, de um duo Australiano – largamente ignorado até aqui, mas certeiramente incensado no resto do mundo – conhecido como Dead Can Dance. Se os Cocteau Twins tinham as suas raízes no Gótico, a principal inspiração dos DCD era estritamente gótica: tímbalos e pandeiretas, metais e instrumentos chineses combinados com a voz angélica de Lisa Gerrard e mais os tons base de Brendan Perry, que relembra a história:
“Na Austrália não havia muito interesse no tipo de música que estávamos a fazer, por isso decidimos vir para a Europa – Conhecíamos a 4AD através dos dos Birthday Party. Apesar de termos enviado uma demo para quatro companhias, a 4AD foi a única que nos deu uma resposta positiva. Recebemos uma carta do Ivo, mas na altura ele não estava em posição de nos ajudar. Isso foi por volta de 1982. Mas mantivemos o contacto.”
Em 1984 quer a banda (orquestra é uma palavra que talvez mais se ajustasse) e a editora estavam prontos para uma relação de trabalho. Apesar de o seu álbum inicial ser um pouco sombrio, não é exagero dizermos que todos e cada LP subsequente dos DCD é perfeito. Desfalecimento.
Dreampop
Na altura em que fizeram Heaven Or Las Vegas, os Cocteau Twins redefiniram-se novamente: Com as suas fortes linhas que agarravam o ouvinte, batidas balanceantes e grandes vendas, este é um álbum eminentemente pop. Ao lado de My Bloody Valentine, o som dos Cocteau – apesar de inimitável – influenciou uma onde de novas bandas, desde a muito analisada ‘blissed-out pop’ dos A. R. Kane, Lush e Pale Saints e os shoegazers, Guthrie mostrava progressivamente sinais de suaves mudanças e os arpeggios tornaram-se definitivamente um tipo particular de indie-pop.
O Céu Vermelho Não Pode Esperar
Quando as Throwing Muses assinaram, em 1986, elas representaram uma mudança definitiva de direcção por parte da editora. “Ivo, que é o único executivo editorial, que conheci, que ouvia realmente as demos – e ainda o faz – chamou-nos”, relembra Kristin Hersh.
“Nós éramos um bando de miúdos a viver em Boston – havia dezanove pessoas a viver no mesmo apartamento – e tínhamos todos dezassete anos ou perto disso. Ele chamou-nos e disse “Isto é Ivo”, e eu não percebi o que ele queria dizer. Pensei que era um dos namorados de Leslie (Langston, a baixista original dos Throwing Muses). Nós mantivemos uma lista de todos os namorados de Leslie e que eram suposto saberem, algum deles, onde Leslie se encontrava quando precisávamos dela, e que era suposto mentirem também. Assim, eu limitei-me a sussurrar “Uh-huh...?” Ele disse que tinha gostado da demo, mas que não assinava com bandas americanas. Eu fiquei tipo “Ok, bem, seja. “Bye ‘Ivo’”. Eu nunca tinha ouvido aquele nome também. Então ele voltou a contactar umas semanas depois e disse. “Ainda é uma boa demo, mas eu também ainda não assino com bandas americanas”. Eu fiquei tipo “Quem é este maluco?” Então, finalmente, ele chamou-nos de novo e disse “Okay, eu vou assinar com uma banda americana MAS apenas para um disco.”
No seu aclamado disco de início, as canções de Hersh desgastavam e impacientavam entre arrebatamentos delirantes e dançáveis de estábulo, country e western lamentoso e ritmos nervosos, tudo com uma cativante imprevisibilidade. Na altura da edição de Real Ramona em 1991 a banda soava mais segura e confiante mas ainda assim inclassificável, produzindo canções pop entre os seus dentes e preocupações introduzidas com uma guitarra frenética e harmonias bizarra, de tão assustadoras que eram.
De Barriga Lisa
A meia-irmã de Kristin, Tanya Donelly, abandonou as Muses em 1992 para se concentrar na sua própria banda. Belly conquistou o seu caminho para os corações dos ouvintes com a voz sussurrante de Tanya e a força pura dos seus ganchos pop. Canções como ‘Low Red Moon’ e ‘Dancing Gold’ do primeiro EP utilizam guitarras límpidas que deslizam e arranham à volta de vocalizações sussurrantes que nos contam histórias de forte desolação. Belly tem na capa um sorriso tão grande como uma talhada de melancia, e as linhas de guitarra são tão irresistivelmente charmosas que até as letras torcidas como eram soavam doces na terra da MTV.
Baixando Até O Bunuel
Tal como as Throwing Muses, os Pixies eram originários de Boston e trouxeram a 4AD na direcção pop/rock, apesar de sempre à beira do precipício. Ivo relembra: “Lembro-me da altura em que me deram a primeira demo dos Pixies: estava em Nova Iorque, fazendo uma caminhada e divertindo-me imenso, mas a pensar “Será que isto é muito próximo do rock & roll? Será que me quero envolver com isto?” Foi a Deborah, que trabalhava na 4AD, que me disse que eu não devia ter esse tipo de dúvidas estúpidas. “Os ganidos inarticulados de Black Francis e a guitarra guinchante de Joey Santiago formavam um apreciável conjunto apesar assombrar a audiência. Os caracteres fora de ordem que habitavam as canções dos Pixies poderiam muito bem trepar até contos de fadas de um mundo paralelo esquisito. Mick Allen dos Wolfgang Press rogou para que assinasse com eles um contrato. “Eu penso que ele trouxe para a frente pessoas que possivelmente nunca ninguém teria ouvido, e em certo sentido os Pixies foram o princípio do grunge. Com toda a certeza, Surfer Rosa é um dos melhores discos desse tipo de música. Uma série de grupos pegaram no que eles estavam a fazer e nas possibilidades que eles levantaram.”
A Comichão Do Décimo Terceiro Ano
O gosto impecável de Ivo conduziu-o recentemente a um ângulo mais orientado para as canções: “Eu penso que o mundo já não precisa de mais grupos americanos liderados por um guitarrista, em que tu não consegues perceber as palavras. Eu agora estou mais numa de música mais espacial e acústica.” O seu projecto This Mortal Coil é patente o testemunho reverente que ele presta em The Song – em cada um dos três álbuns dos TMC encontramo-la estirpada profundamente até aos ossos frágeis, tocada e cantada com uma elegíaca (e apropriadamente gótica) adoração, embelezada com veludo auditivo. As assinaturas recentes da editora foram Heidi Berry e Red House Painters, ente outros, que exemplificam a nova onda da editora. As canções elegantes e gentilmente nostálgicas de Berry, com um fundo plangente de cordas e piano, são reminiscentes do herói de Ivo, Nick Drake, assim como de Joni Mitchell; enquanto Mark Kozelek dos Red House Painters escreve com uma melancolia autobiográfica, as suas letras desconfortavelmente abertas, complementadas subtileza calma da sua música baseada na guitarra.
A nova estrela da editora é o freak Mark Robinson dos Unrest, que tem a sua própria editora em Washington DC – TeenBeat – que ainda mantém os direitos para editar os singles 7”. Os Unrest acabaram de gravar um novo álbum para a 4AD, apesar de Mark vangloriara-se “Vamos editar uma caixa de seis 7” do álbum na TeenBeat”. O seu pop aparado tem mais em comum com os preferidos pelos fanzines, como os Tsunami ou os Velocity Girl do que com os colegas de editora, mas estando na 4AD tem as suas vantagens: “Tínhamos sempre pelo menos uma pessoa em cada concerto nos Estados Unidos com uma t-shirt dos Cocteau Twins ou dos Lush vestida. As pessoas iam aos nossos concertos só porque estávamos na 4AD”.
Apesar da partida dos Cocteau Twins e da fragmentação dos Pixies, é ainda muito cedo para demover a 4AD de ser a editora independente mais vital em todo o mundo. Ivo está excitado o suficiente com a sua lista de bandas para pôr juntos alguns artistas menos conhecidos nos concertos de Julho no ICA, sob o lema “A Sarna dos Trinta Anos”: “Isto pode ser um momento breve em que uma grande parte destas pessoas podem tocar juntas e divertir-se; O ICA é suficientemente pequeno que não importa quem é o cabeça de cartaz ou outra coisa qualquer. Apenas interessa aparecer e dizer, “Bem, isto é aquilo que nós fazemos”, e sentir-se muito orgulhoso por isso durante uma semana.”

Discografia Essencial, Tal Como Recomendado Próprios Integrantes da 4AD
IVO:
Cocteau Twins – Heaven Or Las Vegas LP
Red House Painters – Red House Painters LP
His Name Is Alive – Home Is In Your Head LP
MICK ALLEN:
Pixies – Surfer Rosa LP
Dif Juz – Huremics LP
Cocteau Twins – Heaven Or Las Vegas LP
BRENDAN PERRY:
A.R.Kane – Lolita EP
The The – Burning Blue Soul LP
Michael Brook – Sleep With The Fishes LP
MARTYN YOUNG:
Modern English – Swans On Glass
Cocteau Twins – Head Over Heels LP
Pixies – Velouria EP
KRISTIN HERSH
Pixies – Come On Pilgrim LP
(“Prefiro não dizer mais pois seria injusta para muitas outras pessoas que teriam de ficar de fora”)
MARK ROBINSON:
The Tintwistle Brass Band – 7” of two Pale Saints’ songs as played by a brass band...
In Camera – 13 (Lucky For Some) LP
Lush – Scar LP
Modern English – After The Snow LP






1.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (140) - Música & Som #105


Música & Som
Nº 105

Agosto de 1985
Publicação Mensal
Esc. 200$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira e Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 + suplemento/destacável Computadores... & Vídeo (16 páginas) - Nº 6
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.
poster: Kenny Loggins (A3 a cores - centrais)


Grupos Portugueses
3. Mler Ife Dada - Ou A Harmonia Dos Contrários
por Luís Maio

«Talvez a natureza goste dos contrários e saiba deles extrair a harmonia, ainda que não se interesse pelos semelhantes; é por isso que une o macho e a fêmea e não relaciona os seres do mesmo sexo; compôs a concórdia original pelos contrários e não pelos semelhantes. Parece que também a arte, imitando a natureza, faz o mesmo. (...) A música misturando notas agudas e graves, longas e breves, consegue uma só harmonia em tons diferentes».
in «Do Mundo», autor anónimo contemporâneo de Aristóteles.



As produções artísticas da cultura ocidental, como expressão e reflexo da sua configuração, são francamente dualistas. Alicerçam-se no posicionamento de contradições, para se cristalizarem sob a forma de compromisso com um dos dois pólos antagónicos. Com a descoberta, em finais do século passado, das lógicas trivalentes, o edifício científico clássico estremeceu e foi obrigado a remodelar-se; todavia, ao nível do senso comum e da arte, a bivalência foi mantida como se nada se tivesse passado - a tríade princípio de identidade / não contradição / terceiro excluído conservou-se intacta na regimentação das formas de pensar desses dois domínios de expressão. esta situação verifica-se particularmente no nosso país. Basta dizer que, no emprego corrente da nossa língua, a partícula 'ou' não conhece praticamente o uso inclusivo, acepção em que é sinónima de 'e'. «Ou isto ou aquilo» significa invariavelmente que um dos disjuntos é para ser excluído. Mas não é só no plano do senso comum e da sua linguagem que este estado de coisas se constata entre nós - também a criação artística se subordina a tal engrenagem de pensamento. A nossa música popular é a esse nível particularmente elucidativa: ou se faz música convencional ou vanguardista, ou comercial ou marginal, ou alienante ou interventiva. Mas a terceira possibilidade, a que a lógica aristotélica interditou, é a que ninguém se tem atrevido a explorar. Surge agora uma leve esperança com o projecto musical dos Mler Ife Dada, grupo vencedor do primeiro concurso de música moderna no Rock Rendez Vous, e que também gravou recentemente um máxi-single de estreia, como prémio pelo sucesso alcançado naquele certame. O ponto de partida desta nova proposta é, como nos explicou Nuno Rebelo, na circunstância o representante do agrupamento, uma visão da realidade que se distancia sensivelmente das mais ortodoxas entre a classe dos músicos portugueses.
«Quer em relação à vida, quer em relação à música, divido as coisas em duas partes distintas: há o que é conhecido e corrente, e há o que é novo e invulgar. Não faz sentido cingirmo-nos a uma dessas parcelas, visto em qualquer delas ser possível encontrar pontos de interesse e motivos de prazer. No que é conhecido, na medida em que o é, pode-se seleccionar aquilo que já se sabe agradar-nos, o que se encontra já consagrado como fonte de prazer. No que é inédito, vale sempre a pena apostar, porque sentir o novo, pelo menos no primeiro instante, funciona por si só como razão de satisfação». Ou seja, embora supondo uma base bipolar, esta perspectiva não se define, como é mais frequente, tomando partido por uma das antíteses.No lugar disso, procura integrar e conciliar as duas simultaneamente, não resvalando para qualquer unilateralidade.



Em termos musicais, um dos termos do confronto, o usual, corresponde às formas sonoras a que o público se encontra mais habituado, aquilo que vulgarmente se diz ser agradável. Por seu turno, o outro, o inusitado, emerge musicalmente em projecções sonoras pouco divulgadas, ou em que o público não está suficientemente adestrado.
«a nossa música contsrói-se em função de elementos absolutamente díspares. Por um lado, procuramos fazer uma música bonita e agradável que entre facilmente no ouvido dos auditores mais familiarizados com o comercial. Mas, por outro lado, procuramos também que o nosso som inclua elementos de maior elaboração e complexidade, susceptíveis de cativar um público musicalmente mais culto e, nessa medida, necessariamente minoritário. A procura do mais convencional faz-se sobretudo ao nível das melodias, enquanto é no timbre e, no caso do disco, na produção, que a outra componente vem a ser mais desenvolvida. Tentamos assim chegar a um estilo misto capaz de ser apreciado por facções do público bastante diversificadas». Há portanto, nos Mler Ife Dada uma intenção de extrapolar do plano vivencial para o musical a ideia de uma harmonia pela tensão entre os opostos.
Mas uma tal harmonia não é conseguida, nem sequer possível, pela simples reposição estática dos polos antitéticos. Essa compatibilização aponta necessariamente para o cruzamento, para a fusão dinâmica dos termos de que se parte. Disso estão perfeitamente conscientes os membros da banda, cujas composições são elaboradas pelo jogo subtil que consiste em recriar cada um desses termos de modo a transmudá-lo no seu oposto: «às vezes pegamos em padrões musicais muito batidos, perfeitamente banalizados. Na maior parte dos casos, são melodias caídas em desuso, já apagadas da memória do público. Nestas circunstâncias, retomá-las pode ter um efeito insólito, porque tendo sido esquecidas, a sua reposição pode aparecer como novidade genuína».
Não há pois instâncias fixas para esta empresa musical ocupar o lugar do seu oposto; tudo é e não é, tudo é possibilidade de deixar ou de vir a ser.
Evidentemente, toda esta ambiência musical que se pretende criar requer uma concretização, um trabalho compositivo ajustado ao tipo de resultados que se pretende alcançar. Sobre este tópico, o porta-voz dos Mler Ife Dada revela-nos que o seu labor criativo segue uma metodologia contígua aos seus objectivos: «usamos duas estratégias criativas. Uma: ligamos a caixa dos ritmos, escolhemos um tema base e sobre ele improvisamos. Outra: fazemos uma linha de guitarra ou de baixo e improvisamos a partir dela. Num ou noutro caso, gravamos o resultado, que ulteriormente será trabalhado até atingir uma forma mais definitiva. Note-se, todavia, que uma vez a canção acabada, mantém-se sempre um espaço, mais ou menos delimitado, para a improvisação.».
Como vimos, eles pretendem conciliar o habitual e o insólito. Mas, o habitual não precisa de ser procurado - está ali, nos temas dados pelas caixas de ritmos e nos acordes preparados pelas violas. Em contrapartida, o insólito necessita de despontar do acaso - ele requer a espontaneidade do improviso.
Eis como se atinge uma coincidência plena entre a inspiração conceptual e a concretização na obra produzida. Note-se, todavia, que a improvisação também pode funcionar como factor de repetição, enquanto o refrão pode preencher o lugar oposto, ou seja, o papel inovador. De facto, nesta música não há posições pré-determinadas, há sempre uma saudável instabilidade que nunca conduz à obstrução da vontade de criar e ouvir, porque não há nenhuma meta definitiva que ela se proponha atingir.
É claro que também se pode levantar a questão: onde será que esta música se expande mais directamente? Através do disco ou da actuação ao vivo? A pergunta posta a quem é não faz sentido, porque supõe a subvalorização de um dos termos em detrimento do outro, o que por princípio é recusado pela pessoa a quem é endereçada. São ainda as reminiscências dos vícios dualistas que nela se esbatem, mas importa ultrapassar: «É preciso fazer notar a grande diferença entre uma canção apresentada num concerto e executada num disco. O disco é feito essencialmente para ser ouvido à medida que o tempo passa, enquanto o concerto é mais imediato, tem a dimensão do acontecimento circunstancial. Por isso, a canção ao vivo tem de ser dirigida aos sentidos à maneira de estar momentânea; em contrapartida, quando ela é para aparecer em disco, tem de ser mais trabalhada, para poder atingir a longevidade. Todavia, apesar das diferenças, uma e outra formas de exposição completam-se e interpenetram-se, não havendo pois que desqualificar ou privilegiar uma única».
Talvez um dia, quando os músicos portugueses conseguirem resolver os dilemas de afirmação e de identidade, possam seguir este exemplo de superação da sua lógica simplista que é encarnado nos Mler Ife Dada.




Finalmente!...
Cocteau Twins e This Mortal Coil
Desde a edição do máxi «Song To The Siren» de This Mortal Coil que pairava no ar uma reclamação em surdina: e o resto? Cocteau Twins e o álbum «It'll End In Tears»? Afinal fomos surpreendidos com a edição de ambos: «Treasure» dos Cocteau Twins e «It'll End In Tears» de This Mortal Coil. Já não há motivo para renegar a nacionalidade. Portugal já pode comprar o melhor som da Grã-Bretanha, e mesmo da música popular.


O motivo por que se junta estes dois grupos numa só prosa, parece-me óbvio: LIZ FRAZER. Com efeito esta senhora passa por ter uma das melhores vozes actuais, e não é impunemente que isso acontece. Eu diria mesmo que Elizabeth Frazer é uma das melhores cantoras de sempre.
Mas este artigo não é sobre Frazer, porque ao referir Cocteau Twins ou This Mortal Coil está-se obrigatoriamente a falar dela. Esclarecida a situação, adiante.
A música «pop» está velha de trinta anos. É impossível fazer algo de novo, sem que não surjam referências já conhecidas. No entanto, é possível ainda reinventar sonoridades, reconverter fórmulas e reintegrá-las num todo inexplorado. Isto trocado por miúdos significa que com imaginação e muito talento consegue-se ser diferente, e mais do que isso, melhor. É claro que isso é privilégio de poucos, mas entre esses, encontram-se Cocteau Twins e This Mortal Coil, dois «primos» dentro da mesma companhia - a 4AD - pertença de um homem idealista e visionário, Mr. Ivo, uma peça-chave nesta história. Foi ele o responsável pelo nascimento de This Mortal Coil, ao recrutar para o Blackwing Studio, vários músicos ligados à sua editora. Deram o seu contributo para a sessão Michael Conroy (baixo) e Gary McDowell (guitarra) dos Modern English; Elizabeth Frazer (voz) e Robin Guthrie (guitarra) dos Cocteau Twins; Gordon Sharp (voz) dos Cindytalk; e Martin Young (teclas) dos Colour Box. O resultado veio em doze polegadas memoráveis. «Song To The Siren», um original de Tim Buckley é revelador da validade do projecto de Ivo, mercê de uma interpretação inesquecível de Liz Frazer. A onda de choque provocada pelo disco alarga-se a Portugal, que a partir daí passa a ser fiel seguidor da obra de This Mortal Coil. Não é por acaso que «It'll End In Tears» conviveu várias semanas com Wham, Alphaville, Scorpions e quejandos, na tabela dos vinte discos mais vendidos. Em que outro país isso poderia acontecer? Além de que essa estadia no «top» possibilitou a visão fascinante de Liz Frazer a cantar «Song To The Siren» num verdadeiro «anti-clip».
Em «Acabará Em Lágrimas» compareceram de novo Robin Guthrie, Gordon Sharp, Liz Frazer e Martin Young, e pela primeira vez, Robbie Gray (Modern English), Lisa Gerrard e Brendan Perry (Dead Can Dance) e Mark Cox (Wolfgang Press). «Another Day» de Roy Harper é revisitado por Liz Frazer com espantosa delicadeza, transformando-o no melhor tema do álbum.
Lisa Gerrard por seu lado não deixa em branco a sua contribuição: dois temas, «Waves Become Wings», e «Dreams Made Flesh» são uma pequena amostra do que Lisa é Capz. Ainda a destacar a repescagem de dois temas de Alex Chilton, «Kangoroo» e «Holocaust», sobriamente cantados por Gordon Sharp. Álbum muito heterogéneo, de um não menos heterogéneo grupo, «It'll End In Tears» inclui ainda temas de Rema-Rema, e do colectivo This Mortal Coil. E tal como é tradição e orgulho da 4AD, a capa é uma pequena obra de arte, da autoria de «23 Envelope».

Gémeos

Cocteau Twins estando muito próximo de This Mortal Coil, segue no entanto outro caminho. Sendo também um colectivo de três pessoas, que assina todos os discos e músicos, simplesmente como Cocteau Twins, sem nunca existir referências a nomes, os Twins possuem um trunfo que falta a T.M.C. - Liz Frazer a tempo inteiro.
Frazer personaliza indelevelmente o som Cocteau Twins. E embora no início fossem acusados de cópia de Siouxsie And The Banshees (com algum fundamento), hoje os Cocteau Twins ultrapassaram por completo essa influência. Liz Frazer, que se diz usar uma tatuagem de Siouxsie no braço, suplantou largamente a sua musa, em todos os aspectos, inclusive, o canto de Liz é muito superior ao da líder dos Banshees.
A edição no nosso país de «treasure», o mais recente álbum do grupo, datado de 1984, constitui um marco nas edições discográficas nacionais, arriscando-se desde já, a ser o melhor disco do ano. Para trás, ficam dois outros álbuns, «Garlands» e «Head Over Heels», e o espantoso 12 polegadas «Pearly Dewdrop's Drops». A última produção do trio chama-se «Aikea-Guinea», um máxi-single, colocado semanas a fio na chart independente da Grã-Bretanha. Se «Treasure» é um precioso e raríssimo tesouro, para guardar cuidadosamente como quem guarda uma jóia, «Aikea-Guinea» é uma dádiva dos Twins aos seus adeptos. Contendo quatro temas este máxi exala a mesma atmosfera de «Treasure», perpetuando o invulgar esquema rítmico dos Twins, e fazendo justiça, ao fabuloso jogo de guitarras acústicas e eléctricas com o piano, há que destacar «Aikea-Guinea» e «Quisquose». O clima onírico de sons e palavras, cantado por Liz Frazer podia ser operático («Kookaburra») ou tão perfeito como uma arte decorativa («Rococo»). Em «Quisquose» percorre todo o seu manancial vocal, que vai de Siouxsie a Kate Bush, numa reminiscência de «Persophone» do álbum «Treasure».
E se no álbum, «Aloysius», «Domino», «Ivo» (uma dedicatória ao «boss») ou «Lorelei» são momentos difíceis de ultrapassar, pensava-se, «Aikea-Guinea» desmente-o à primeira audição. Depois destes discos, tudo pode acontecer na música popular. Até capas tão excelentes como estas.
Célia Pedroso



Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. 15º Festival Cascais-Jazz - reportagem e textos de Trindade Santos - Fotos de Fernando Peres Rodrigues
. Discos em Análise:
.. Associates - «Perhaps» [WEA 229240497.1, por Luís Maio
.. José Mário Branco - «A Noite» [UPAV-001], por Luís Maio
. Rock Em Família - The Moody Blues, por Fernando Matos




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