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9.10.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 19 - Junho de 2004


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
72 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano V
Nº 19
Junho de 2004



MADE IN JAPAN

São cada vez mais. Desaparecidos ou não, os músicos e grupos japoneses ganham hoje uma proeminência reconhecida em terras norte-americanas num fenómeno que lembra a British Invasion dos anos 60. Mas há que ter cautela com as analogias. Estes são projectos que nunca alcançaram popularidade, nem no seu país de origem, nem no de recepção. Fizeram, contudo, o mais importante: ajudaram o rock a dar um passo estético. Aqui apresentamos três desses projectos: Mainliner, Kosokuya e High Rise. Contamos, mais tarde, dar conta de outros, até porque no dito passo existem inúmeras pistas.



Não é novidade o facto de o Japão se ter intrometido entre os EUA e o Reino Unido na luta pelo domínio e definição dos caminhos da música popular urbana contemporânea. Inesperada é, porém, a realidade das trocas culturais que se vão realizando no campo do rock: os britânicos deixaram de ser os principais interlocutores dos norte-americanos e cederam o lugar aos japoneses. As apropriações, adaptações ou osmoses culturais são hoje feitas entre dois velhos inimigos. E se tudo começou nos EUA (e para lá parece regressar) a verdade é que poucos esperavam que a linguagem do rock pudesse conhecer novo fôlego ainda mais quando surgido fora do universo anglo-saxónico. Mas assim aconteceu. Tal como a Alemanha dos anos 70, o Japão dos anos 80 tragou o género antes de o regurgitar, mas neste caso o processo aconteceu de forma mais particular.
Não existiam limites ou pelo menos ninguém os impunha, nem a história, nem a crítica, nem as tradições, o sucesso ou qualquer voluntarioso cânone. Sem estes constrangimentos,  os músicos nipónicos avançaram na sua recriação de um objecto cultural vindo do ocidental, com um olhar já de si antigo. O olhar do excesso e das justaposições e cruzamentos. Prolongaram-se até ao limite as possibilidades sonoras dos instrumentos, juntaram-se elementos de géneros e épocas diferentes e realizaram-se, de forma não programada, variações intermináveis.
De entre esses intérpretes destacaram-se por exemplo os High Rise (cujo legado começa a ser reconhecido em bandas dos EUA, como os Oneida e os Comets On Fire). Surgidos em meados dos anos 80 e liderados pelo baixista Asahito Nanjo, começaram como um híbrido entre o punk e o garage-rock psicadélico. Num sinal curioso de como as evoluções da música rock acontecem, é de notar que foi exactamente esse género que enformou muitos dos projectos japoneses da década de 80. Como se, sem porto na Europa, não lhes restasse outra alternativa que rumar a outras paragens. Assim nomes como Blue Cheer, Sonics, Count Five, The Seeds, Quicksilver Messenger Service encontraram artistas que avivariam as suas memórias ao lado do punk e da no wave dois géneros bem recebidos no país do Sol Nascente. Nanjo reconhece aliás a importância dos trêss géneros, mesmo quando não consegue esconder uma predilecção pelo rock psicadélico do qual extirpou características como a distorção e subsequente criação de espaços sonoros “infinitos”. A guitarra, acrescentada das suas inúmeras manipulações, é o instrumento central nas obras dos High Rise, até quando os impede de criar “canções”, cercando-as de uma densidade e quase impenetrabilidade mais próximas do improviso e do free-jazz do que do rock. É a recusa quase inconsciente da canção e a tomada “irresponsável” do riff e dos efeitos sonoros retirados dos diversos pedais que torna a obra dos High Rise tão marcante. Mesmo sem as sedutoras “tunes”.
Se os High Rise afundam a melodia numa muralha de som, então os Mainliner significam, de forma abusadora, o som enquanto experiência total. Formados também por Asahito Nanjo, e Makoto Kabawata dos Acid Mothers Temple, viram o seu único trabalho 8”Mellow Out”), datado de 1996, conhecer uma reedição pela mão da casa inglesa Riot Season, e de modo inesperado voltaram a ser objecto de citações e novos interesses. Algumas revistas de metal não deixaram passar ao lado o acontecimento, mas foi no universo do avant-rock (se quiserem fazer uso de outra taxinomia) que a influência dos Mainliner mais se salientou.
É que tanto Nanjo, como Kabawata, estruturam uma obra, que apesar de embebida na lava sonora dos Blue Cheer (Black Sky) e nas convulsões do free-jazz (vale a pena ouvir a intro de “m2) oferecia a quem quisesse algo de excitante: a electrização da canção. Por outras palavras as guitarras prolongavam-se até aos amplificadores que, sempre no vermelho, assinalavam a reverberação à beira do choque. Nada será mais exemplar nesse sentido que a faixa “Cockmamies”, tema que cinco anos antes já previa a chegada de um grupo como os Sightings. Com vocalizações repetitivas, numa espécie de recriação de registos ocidentais, os Mainliner, incorporavam a voz no ruído e impunham-lhe uma natureza quase rítmica.
Antes de fundar os High Rise, Nanjo chegou a fazer parte de outro grupo mítico, os Kosokuya, mas até hoje ainda não se conhece nenhuma gravação desse período. Na verdade, este grupo de Tóquio acabou por encontrar uma formação base composta por Jutok Kaneko, Mick e Ikuro Takarashi, que entre 1989 e 1990 acabariam por lançar o álbum de estreia, ganhando um culto imediato nos EUA. A razão não é para menos, se pensarmos que não é só o hard rock psicadélico que parece entrar no jogo. Os Flipper, os Black Flag e os Crazy Horse também podem ser para aqui convocados. Mas o melhor mesmo é centrarmo-nos no primeiro disco (reeditado o ano passado pela PSF Records) e travar a tentação das comparações. É que ao fazermos isso compreenderemos a excelência dos Kosokuya. “The Miracle”, por exemplo, é uma das mais belas faixas do rock de sempre. Liderada pela voz da única mulher do grupo (Mick) traduz-se num opus dramático onde as declamações ou citações são substituídas por acordes, riffs, fluxos de decibéis e uma bateria polimorfa, enquanto “Removal” perversamente detém uma melodia angustiada que, sem deixar o campo do rock, se aproxima das convenções da música clássica. Os temas finais, “The Dark Spot” e “Suffering Broken Song”, por sua vez conjuram todos os espólios da música mais intensa alguma vez feita (pelos bluesmen, pelos primeiros Pere Ubu, pelos Black Sabbath, pelos Birthday Party) e esmagam-nos lentamente, antes de os distribuírem por quem ouve. É caso para dizer que dos EUA à Europa a expressão banzai se ouve novamente. Agora, felizmente de forma benigna.
José Marmeleira
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MINIMAL COMPACT
O Regresso À Torre De Babel



Será o regresso dos Minimal Compact apenas mais um na euforia de revivalismo oitentista? Parece que não. De facto esta banda de base israelita, mas muito mais cosmopolita musical e geograficamente, foi um intenso vórtice cultural entre o Ocidente e o Oriente na década de 80, e ouvida hoje continua a sê-lo. E há esperança de que a magia da música de Samy Birnbach, Berry Sakharov, Malka Spigel, rami Fortis e Max Franken tenha força para construir de novo a Torre de Babel no Séc. XXI.
A história começa em 1981 com a migração de Israel para Amesterdão de Malka (baixo e voz), Samy (voz e textos) e Berry (guitarra, teclas e voz). Iam à procura de uma identidade musical. Não eram músicos profissionais e nem sequer sonhavam que alguma vez iriam ter um papel crucial no pop-rock europeu dos anos 80. Gravaram em casa uma demo com dois temas e tornaram-se um dos primeiros projectos a assinar pela Crammed Discs. A gravação oficial acabou por se estender para um EP – “One” – que deu à luz os míticos “Statik Dancin” e “Creation Is Perfect”. A new wave cheia de ritmo e com sabor a Médio Oriente cativou desde logo a imprensa. Surgia assim, em 1982, o primeiro LP, “One By One”. O baterista holandês Max Franken aderia ao projecto e começavam as digressões europeias dos Minimal Compact que fizeram história – curiosamente, a banda nunca tocou nos EUA porque nunca lhes concederam vistos de entrada no país. “Deadly Weapons” (1984), que abriu as portas à colaboração permanente do guitarrista Rami Fortis; “Raging Souls” (1985), o mais popular; “Lowlands Flight” (1987), o mais experimental; “The Figure One Cuts” (1987), o último de originais; e “Live” (1988), que documenta a banda ao vivo e já editado a título póstumo, foram os marcos de uma curta carreira de sete anos com grande sucesso artístico. Os últimos anos não foram pacíficos e alguns desencontros resultaram num final amargo e mal resolvido.
O regresso começou a desenhar-se 15 anos depois, com a exibição do documentário sobre os Minimal Compact realizado por Nathan Mandelbaum, um israelita fã do grupo. Samy Birnbach revela que já tinham existido tentativas de reencontros no passado, recusadas por ele próprio, que entretanto se afirmou como DJ Morpheus nas pistas de dança. Era a negação de qualquer tipo de fenómeno de nostalgia colectiva. Mas havia entre os músicos a sensação que o fim nunca fora definitivo. E sem qualquer tipo de racionalização, voltaram à estrada como se o último concerto tivesse sido ontem. A digressão do regresso passou pela Europa e por Israel, onde foram recebidos em apoteose. Conta Birnbach que num dos concertos em Tel Aviv tocaram para 3 gerações e mais de 3000 pessoas em delírio, onde até se encontrava a sua mãe. Aliás, foi a mesma imprensa israelita que os baniu nos anos 80 por viverem nos Países Baixos e por não cantarem em hebreu mas sim em inglês, que hoje os coloca nos píncaros e os impulsiona para um regresso aos originais.
Quanto à caixa que aqui nos trás “Returning Wheel (classics, remixes & archives)”, ela recupera a magistral e solitária epopeia de um grupo que soube renovar o imaginário do rock e antecipar mensagens extremamente actuais. O primeiro CD é o «besto f» necessário e sem grandes surpresas, a não ser o primeiro tema “Dedicated”, nunca antes editado. Os remixes e remakes, comissionados por Samy Birnbach e sugestivamente intitulados “There’s Always Now”, são na sua maioria electrónica no seu estado dançável, alguns deles pouco ou nada fiéis aos originais, destacando-se o último tema, um remake do maravilhoso “When I Go”, aqui na voz de Efrat Ben-Tzur. O interesse maior para os aficionados está sem dúvida no CD “Music From Upstairs (Archives)”, as gravações caseiras “perdidas” que Malka Spigel felizmente guardou. Mais de uma hora de demos inacabadas, música encomendada para filmes, puras experiências, gravações para uma rádio holandesa em 1982, e algumas demos gravadas há poucos anos na Bélgica, aquando de uma reunião efémera em meados dos anos 90. “Protótipos electro da época”, nas sábias palavras de Birnbach. Arrumada a casa com esta apetecível caixa, parece que os Minimal Compact vão mesmo passar de projecto semi-abandonado a projecto assumido em definitivo e para o futuro. N asenda da “banda-irmã” Tuxedomoon que também foi uma refer~encia do rock avant-garde dos anos 80 na Crammed Discs e que também se reuniu recentemente. A ver vamos se a Torre de Babel dos Minimal Compact também tem forças para se reerguer e com a mesma energia do passado.
Vasco Durão



Reedições

GLENN BRANCA   Ruídos Sinfónicos

Seriam os Sonic Youth os mesmos sem a influência directa desse guru chamado Glenn Branca? Seria o conceito de sinfonia o mesmo, caso este músico nova-iorquino não o tivesse utilizado para dar nome às suas criações? A resposta às duas perguntas é negativa. No período efervescente do movimento no wave, Glenn Branca assumiu-se como paladino da vanguarda de Nova Iorque (com John Zorn, Elliott Sharp ou Arto Lindsay) e determinou, em grande medida, os cânones estéticos do rock mais avançado e alternativo dos anos 80 e 90. Branca é daqueles músicos para quem as fronteiras de géneros musicais não fazem qualquer sentido. E ainda bem. A propósito da recente reedição do seu primeiro e seminal álbum “Lesson Nº 1” (1980), Glenn Branca explica alguma das facetas do seu peculiar percurso artístico nestes últimos vinte e cinco anos. Sempre com uma desarmante simplicidade.



- A  sua relação com a música começou na segunda metade dos anos 70, com a explosão do movimento no wave em Nova Iorque e com músicos como Lydia Lunch, Arto Lindsay e Suicide. Olhando para o passado, considera que esse foi um momento importante para sua evolução musical?
:: Sim, foi uma surpresa para mim todo esse movimento. Eu vim para Nova Iorque nos anos 70 para fazer teatro e fazia muita música para teatro, mas não tinha perspectivas de fazer carreira como músico. Todavia, sempre quis formar uma banda rock desde que aprendi a tocar guitarra, aos 15 anos. Quando cheguei a Nova Iorque estava o movimento punk no auge e foi algo muito excitante para mim. Entretanto, conheci um músico no teatro que também tinha desejo de formar uma banda rock e demos início a uma banda. Foi um processo muito rápido: formámos a banda em poucas semanas, arranjámos concertos e audiência num ápice. Ambos tínhamos interesse em todo o tipo de música experimental, fosse na forma de jazz, de rock ou de música clássica contemporânea.
- Na verdade, a sua música nunca se cingiu apenas ao rock. Costuma dizer que o jazz ou compositores contemporâneos minimalistas como La Monte Young ou Philip Glass, foram importantes para si. Como lida com estas referências tão díspares?
:: Bom, para mim isso nunca constituiu problema. Eu estudei música e nunca senti qualquer estranheza em gostar de diferentes referências musicais. Podia ouvir num minuto os Beatles e os Kinks e, no minuto a seguir, Mahler e Penderecki, e depois, Miles Davis ou Brian Eno. Nunca me importei com essas diferenças convencionais entre géneros musicais, o que importava mesmo eram as ideias, a criatividade dos músicos e as experiências estéticas que retirava de cada artista, de cada disco.
- Fale-nos um pouco sobre o seu método de composição. Por exemplo, como é que faz para juntar o minimalismo e a “teoria da afinação” de La Monte Young com a energia do rock de guitarras?
:: Humm… É uma boa pergunta! Eu sempre gostei de música rock intensa e enérgica, e o tipo de compositores contemporâneos que ouvia era gente como Ligeti e Stockhausen. Eram esses os compositores que eu achava serem aqueles que faziam música mais intensa. Fazia sentido gostar de música intensa e brutal e deixar-me influenciar por esses compositores, que eu gostava de ouvir em casa com o volume bem alto. O tipo de teatro que fazia também comungava dessa intensidade, desse espírito de confrontação estética.
- Gosta da palavra experimental para classificar a sua música?
:: Sim, essa é a palavra de que sempre gostei e que sempre usei para caracterizar o meu trabalho desde os anos 70. O movimento no wave foi um movimento que eu considero ter sido experimental, ainda que mais tarde tenha sido chamado de art-rock, uma designação que eu julgo ser terrível e desajustada, até porque era confundida com o rock progressivo inglês que na altura estava também a ter muita aceitação.
- Nas suas criações musicais, dissonância, consonância e caos representam três conceitos importantes para si. É um trabalho difícil conjugar estes três tipos de abordagem ao som?
:: Esse tem sido o grande desafio e a parte interessante da minha actividade musical. Quando me apercebi que podia misturar esses conceitos – algo que eu procurava concretizar de forma consciente e deliberada – conclui que o resultado podia ser muito estimulante e criativo. É um trabalho que compositores clássicos já tentaram fazer há muito tempo, como Mahler, ainda que a dissonância explorada por este compositor não fosse muito proeminente, comparando com a minha abordagem que é bem mais extrema.
- Ao longo da sua carreira editou diversas sinfonias pelas quais é mais conhecido. A sua intenção ao usar o termo “sinfonia” vai no sentido de dar outro significado à palavra e de se afastar, deliberadamente, da conotação rock?
:: Não, eu escrevi sinfonias simplesmente porque queria escrever sinfonias, e foi o que fiz. Não tive qualquer outra intenção.
- Contudo, as suas obras foram já interpretadas por orquestras clássicas como a The London Sinfonietta. Como lida com esta confrontação entre a música dita convencional e os conceitos avant-garde?
:: Isso nunca foi um problema para mim. Os chamados músicos convencionais estão, na verdade, muito familiarizados com técnicas avant-garde. Aquilo que faço é muito menos avant-garde do que Xenakis, John Cage ou Morton Feldman. Essa transição e conexão entre esses dois universos foi sempre, para mim, natural.
- A sua música influenciou muitas bandas importantes do rock dos anos 80, como Sonic Youth ou My Bloody Valentine. Disse numa entrevista recente que já não ouve música rock. Significa que o panorama rock actual já não é suficientemente excitante para si?
:: Detesto dizer que é verdade. Por vezes ouço uma ou outra banda de que gosto, mas na generalidade não me interessam muito essas bandas que fazem parte de movimentos de moda, acho-as extremamente aborrecidas. Por isso prefiro ouvir coisas como Sonic Youth ou Swans.
- Os seus primeiros álbuns foram reeditados, “Lesson Nº 1” (1980), e “The Ascension” (1981). O principal motivo destas reedições tem a ver com a necessidade de dar a conhecer estas obras às novas gerações?
:: Não! (risos) A editora original desses discos, a 99 Records, recusou-se a licenciar-me os direitos para uma reedição., pelo que estiveram muitos anos na gaveta. Quando encontrei uma editora que estava interessada em licenciar e editar esses discos em CD, não perdi a oportunidade. De facto foi um processo longo…
- O seu primeiro disco agora editado em CD “Lesson Nº 1”, revela um trabalho compulsivo na exploração das guitarras eléctricas. Parece que ouvimos um potente e hipnótico ritual repetitivo de sons sónicos e intensos. Parece caótico, mas tem como base um processo de composição meticuloso. É assim?
:: Exactamente. Obrigado pela observação. Creio que, em poucas palavras, descreveu na perfeição não só esse disco como a minha música em geral. Eu não costumo categorizar a minha música. Gosto que as pessoas a ouçam e se sintam bem com ela. As catalogações deixo-as para os críticos. A revista The Wire disse uma vez que a minha música era uma espécie de mistura entre “heavy metal symphony” e “punk rock minimalismo”, rematando dizendo que era, no fundo, “beautiful noise”. Acho que acaba por ser uma bela descrição da minha música. (risos)
- Continua a viver e a trabalhar em Nova Iorque. Mesmo depois do 11 de Setembro, esta cidade continua a exercer grande influência e inspiração em si no que diz respeito à parte criativa?
:: Bom, eu não costumo ser influenciado por acontecimentos. É um erro pensar que a minha música é inspirada pela cidade e seus diversos acontecimentos. A música tem mais a ver com ela própria, não precisa de mais referências para se justificar. A música que escrevo deriva de um processo muito técnico e laborioso, e não tem tanto a ver com conceitos como o mal, a destruição ou o caos. A música que faço tem mais relação com noções de intensidade, consciência e exploração de novas ideias.
- Sabia que o seu apelido em português significa “branco”? Por causa disso, um amigo meu costumava chamá-lo de Glenn White-Noise”, num trocadilho entre o seu nome Branca e um certo noise que pratica.
(risos) Ah! Gosto dessa descrição! Branca é um apelido italiano, e já sabia que significava branco (white), mas esse trocadilho é realmente divertido e, mais importante, apropriado.
Victor Afonso

GLENN BRANCA
Lesson Nº 1 (CD Acute Records, reed. 2004)


Durante o último quarto de século, Glenn Branca, compositor e guitarrista nova-iorquino, experimentou (praticamente) todas as possibilidades expressivas da guitarra eléctrica. Mas foi muito mais longe do que isso: procurou entrelaçar a energia do rock de guitarras com conceitos da música de vanguarda, como a corrente minimal repetitiva americana (Glass, La Monte Young, Reich) e com a facção mais experimental (Xenakis, Ligeti). Com estas referências, Branca teve sempre como objectivo explorar novos domínios sonoros, não se importando com destrinças de género musicais, e tendo em comum o balançar difuso entre dissonância e consonância. “Lesson Nº 1” (1980), primeiro disco de Branca, agora reeditado com uma faixa vídeo extra, permite um revigorado olhar sobre a obra do compositor de “The Ascension”. É um disco de uma energia compulsiva, catártica, destemida e austera, devedora ainda dos resquícios noisy da no-wave e dos ensinamentos teóricos dos minimalistas. O ensemble, constituído por duas guitarras eléctricas, órgão (com o grande Anthony Coleman), baixo e bateria, redefiniu a linguagem rock como nunca antes se vira (e ouvira). Nas três longas peças do disco, Glenn Branca redesenhou as estruturas rítmicas e os alicerces canónicos do rock. No tema mais longo (16 minutos), “Bad Smells”, tocam os dois guitarristas dos Sonic Youth: Thurston Moore e Lee Ranaldo. Branca foi o tutor, o mestre vanguardista, o guia espiritual para muitos jovens guitarristas daquela geração e de outras posteriores. No fundo, “Lesson Nº 1” serviu de tubo de ensaio para a imparável experimentação que se seguiria na carreira de Glenn Branca, nomeadamente, com os subsequentes e igualmente fundamentais discos, “The Ascension” (1981) e “Symphony Nº 1 – Tonal Plexus” (1983). Ouvir de um só fõlego “Lesson Nº 1” pode deixar estonteado o ouvinte menos prevenido. Mas será, com certeza, uma descoberta sonora repleta de sensações fortes e inesperadas. Em suma, como laguém disse, “just beautiful noise”.
VA


Reedições
LIASIONS DANGEUREUSES
PALAIS SCHAUMBURG


Alimenta os discursos mundanos da cena musical, que, qual sanguessuga, se contorce em lentos desvarios, mas continua destituído de um habitat onde possa voltar depois de convenientemente rapinado. O livro de Simon Reynolds é um parto difícil e assim o pós-punk permanece corpo não reconhecível e disforme do qual muitos querem vestir a pele. Se no caso do Reino Unido, alguma clareza lá se vai impondo, no continente europeu as coisas complicam-se face à diversidade de nomes que entre 1978 e 1981 aí circularam. Os seus trabalhos e legados continuam a impedir que o certo enquistamento ontológico se realize e porventura perante tal facto não evitamos sentir um certo contentamento. O pós-punk é um cadáver, sim, mas esquisito.
Por essa razão vale a pena viajar um pouco atrás no tempo antes de nos apearmos em território alemão tendo as mutações sociais e culturais provocadas pelo Plano Marshall como pano de fundo. Aqui sub-repticiamente, a Neue Deutsche Welle (termo usado para definir o pós-punk germânico) ia disseminando o seu estranho vírus depois das anteriores investidas do Krautrock. De entre os vários projectos que se destacaram ao longo deste derrame musical dois, após relançamentos recentes, exigem urgentemente novas audições: Palais Schaumburg – “Palais Schaumburg” (CD Tapete Records) -, e Liasions Dangeureuses – “Liasions Dangeureuses” (CD Hit Thing Records).
Os primeiros, fundados por um ex-DAF, deixaram um álbum homónimo no qual as contracções da dança se mesclam com um uso abusivo da electrónica e do ruído. A estes elementos acrescente-se a voz do vocalista Krishna Golneau que repete de forma monocórdica em francês e espanhol incitações à dança ou poemas urbanos e, passados mais de 20 anos, é impossível descartar os Liasions Dangeureuses como simples nota de rodapé. Detentores de uma aparente dimensão pan-europeia exalavam um negrume que só ritmos proto-techno conseguiam atenuar. Em “Mystére Dans La Broiullard” e “Aperitif De La Mort” a utopia irónica dos Kraftwerk é substituída por ritmos marciais, misteriosas vozes de crianças e abruptas ondas de ruído. Já temas como “Los Ninos Del Parque” e “Peut Etre… Pás” assumem uma vertente mais celebrativa. Em suma assentam perfeitamente no espaço de uma pista de dança (o primeiro chegou mesmo a ser um hit) mesmo quando rangem os dentes na direcção de um alvo específico. Apreciados pelas hostes da house e do techno, os Liasions Dangeureuses vêem hoje uma parte do seu legado ser regurgitado pelo Electroclash, mas apenas uma parte, pois, porque este só lhe tomou o ritmo. Já as explosões e as vozes que nelas estalam, depois de tragadas pelo new-beat belga, revolvem-se hoje na cena electrónica de noise de Miami e do Michigan.
Mais devedores do funk branco e do dub, os Palais Schumburg não deixaram por isso de abraçar, ainda que de forma muito particular, a electrónica. Liderados por Thomas Fehlman (mais tarde dos The Orb) e Holger Hiller, lançaram o seu primeiro e homónimo trabalho no mesmo ano que os Liason Dangeureuses e foram identificado como os “Pop Group alemães”. Contudo, e ao contrário da banda de Bristol, eram bem menos abrasivos e um pouco mais lúdicos. As letras, cantadas em alemão e num registo que lembra Blixa Bargeld, sublinhavam o absurdo da então RFA e o modo trocista como certos sons eram elaborados não estava longe do método dos Residents (“Die freude”). O que contudo ressaltava era o ritmo confiado pelos instrumentos fossem estes o baixo ou velhos teclados analógicos (“Gute Luft”). Nalguns casos até o trompete e a percussão eram chamados à liça, propiciando às faixas uma diversidade tão interessante como aquela evidenciada na Inglaterra pelos Blurt!, 23 Skidoo e A Certain Ratio. O tema final, “Madonna”, interpelado pelo skronk das guitarras, os ecos deformados e os espasmos do teclado, exemplifica de forma excelente tal característica. A colagem e/ou o contágio estéticos e culturais reviram-se assim, e vice-versa, nos Palais Schaumburg numa realidade paralela aos “ataques” perpetrados pelos Einstürzende Neubauten em Berlim. Atento às movimentações verificadas em Leeds, Nova Iorque e Londres, o pós-punk teutónico antecipava já, sem o saber, o fim da velha Alemanha. Só o muro resistia às incursões. Por pouco tempo.
José Marmeleira.




SPACEMEN 3

Em meados dos anos 80 os Spacemen 3 eram possivelmente a única banda britânica interessada em prolongar, a partir do rock, as experiências musicais conhecidas, ainda hoje, como tripes. Depois de um primeiro disco onde emularam os Stooges e os 13th Floor Elevators num exercício que já prefigurava a atracção pelo efeito hipnótico do drone e das notas de um Farfisa, Sonic Boom, Jason Pierce, Pete Bassman, Rosco e Owen John avançariam mais profundamente numa exploração sonora que era, ora induzida por substâncias ilícitas, ora por uma afectação pelas noções de espacialidade e ambiência. Tal passo deter-se-ia com mais evidência em “The Perfect Prescription” (2XCD Space Age Recordings) e desdobrado em diferentes versões, demos e versões. Como Sonic Boom escreve nas liner notes, aqui toda a criatividade dos Spacemen 3 para escrever canções aparece descarnada para acentuar ainda mais o delicioso roubo que estes jovens músicos descarada e deliciosamente efectuaram. Terry Riley, The Cramps, The Doors, Suicide, Neu!, Red Crayola, MC5, Sun Ra, entre outros, viram-se vilipendiados, mas por uma boa causa. Afinal nenhum destes artistas teve a oportunidade de escrever um tema tão absorvente, com as suas vibrações dolorosoas, como “Ecstasy Symphony”, ou “Come Down easy” no qual a voz de Pierce assume tal solidão que a presença dos sons (do fuzz, tremelo e feedback) acabam por revelar um lado alucinatório. Mesmo nos temas mais acústicos e suaves os Spacemen 3 emitem uma onda de choque que, ainda hoje, de forma pungente, nos perturba. Quando, por exemplo, somos confrontados com a versão da versão de “Starship” não conseguimos deixar de pensar que esta banda vivia constantemente num limbo. Presa entre um fantasiar da história do rock e da pop e a realidade exterior que lhes murmurava que acordassem. Nunca acordaram. E ainda bem. Acordámos nós por eles, lentamente ao som de “Transparent Radiation” e “Walking With Jesus”.
José Marmeleira






31.8.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 20 - Setembro de 2004


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
64 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano V
Nº 20
Setembro de 2004



REEDIÇÕES
SANTA MARIA, GASOLINA EM TEU VENTRE!
Aventuras Sónicas



Ao longo da sua já longa carreira, Jorge Ferraz passou por vários projectos. Actualmente a liderar os Fatimah X, o músico fundou, entre outros, os Ezra Pound e a Loucura, Bye Bye Lolita Girl, João Peste & O Acidoxibordel, God Speed My Aeroplane e Mua’dib Off Distortion. A sua vontade de desaparecer temporariamente do meio musical e uma cíclica vontade de começar de novo, fez com que Ferraz se desdobrasse em vários grupos. Os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, banda que emerge em Lisboa, em 1986, e que durou cinco anos, foi talvez o projecto que lhe deu maior notoriedade, devido ao considerável impacto que tiveram na fértil cena independente portuguesa da segunda metade dos anos 80. Vítor Inácio, o principal cúmplice de Jorge Ferraz, em vários dos seus projectos, foi o único outro músico que integrou os Santa Maria desde o início. Pelas várias formações do grupo passaram músicos como Sapo (Pop Dell’Arte, Mão Morta) ou Tó Trips (Lulu Blind, Dead Combo). “Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção2, álbum editado em 1989 pela Ama Romanta e um EP de edição de autor de 1991, são agora oportunamente editados em conjunto pela Sabotage.




- Como surgiu a ideia de reeditar “Free Terminator” e o EP? Porquê uma reedição conjunta?
 A ideia partiu da Sabotage, que apresentou a proposta e demonstrou sempre grande empenho e ponderação nos contactos e nas negociações com todas as partes envolvidas, Santa Maria e Ama Romanta. Conseguiu-se igualmente que o Nuno Leonel, que já trabalhara connosco, fizesse uma nova capa. Quanto à edição ser conjunta; bem, teve a ver com questões práticas – os 2 discos têm no total uma duração comum à dos CDs actuais-, e afectivas – queríamos mostrar todo o trabalho que foi gravado em estúdio pelo grupo, dando igualmente, conta da sua riqueza e diversidade na evolução.
- Porque reeditar estes discos agora? Que reacções espera?
 Porque, para além do interesse que o João Peste sempre foi demonstrando com a reedição, só agora apareceu alguém, a Sabotage, entusiasmado com o projecto e que assumiu e financiou a sua edição. Por outro lado, espero que contribua para dar a conhecer a um público mais alargado e aos apaixonados que nunca conseguiram os discos, as gravações em estúdio do grupo. Que reacções?... Sinceramente, não sei. Tudo era um pouco paradoxal e contraditório. Na altura em que o LP foi editado, as críticas foram na generalidade muito boas ou “de perplexidade”. No entanto, repetiam-se aqui e acolá algumas ideias que me irritavam imenso pela sua incorrecção e injustiça. Falo em especial da colagem aos Sonic Youth que algumas pessoas faziam. Finalmente, depois deste tempo todo e do estatuto de culto e de “projecto irrepetível” ou “alienígena” que se foi paradoxalmente construindo em redor Santa Maria algum tempo depois do seu fim, espero que se perceba de vez que este grupo não era bem do mesmo mundo que os Sonic Youth, apesar da encruzilhada noise. Por outro lado, e para ser totalmente honesto é preciso dizer que os Santa Maria desfrutavam de uma “visibilidade” mediática superior ao seu peso em termos de número de pessoas a que chegavam ou encantavam. Convites para concertos eram poucos e só em Lisboa ou arredores e as tiragens dos discos foram pequenas. Veja-se, por exemplo, que o grupo era “apadrinhado” por 2 pessoas importantes do mundo da música alternativa portuguesa: João Peste e Adolfo Luxúria Canibal. Logo, isso contribuía muito para o “mediatismo” do grupo – embora não para o seu apelo “comercial”. No entanto, por outro lado, os apaixonados que conseguíamos, senão eram muitos, pelo menos ficavam bem enfeitiçados. Por isso, não sei que reacções esperar.
- Quando foi originalmente editado, “Free Terminator” surgiu como um ovni no underground. Pode-se afirmar que é um disco de pós-rock que apareceu alguns anos antes de se falar nesse estilo musical. É um disco avançado no tempo?
 Não sei se é ou não pós-rock ou avant-rock ou free rock ou etc. No entanto, se pensarmos no que se seguiu nos anos 90, talvez. Para ser rigoroso, estaria mais próximo do pós-rock o que fiz logo de seguida com God Speed My Aeroplane ou God Spirou. Por outro lado, nunca os Santa Maria tiveram o tom de frase – melodia e ritmo -, em evolução circular do pós-rock; os Santa Maria sempre foram romanticamente excessivos, irresponsavelmente “tecnológicos” e pouco hipnóticos. Por isso não sei se é antes do tempo ou fora do tempo.
- Que fontes de inspiração (discos, literatura, filmes, etc.) estiveram na origem de “Free Terminator”? Que música ouvias nessa altura?
 Bem, só posso falar por mim e, embora os Santa Maria espelhassem muito o meu imaginário, o grupo não era apenas eu. As outras pessoas também deixavam um cunho pessoal e importante, em particular o Vítor Inácio, o baixista. Sobre filmes, não sei – se há alguma relação, será inconsciente. Só se for toda a mitologia western, desde os clássicos até ao western spaghetti. Literatura, sim! Bem mais importante até que as influências musicais. Aliás, sempre quis fazer poesia em música. Assim, há claramente a paixão pela ficção científica “high tech-low life”. E, depois toda a tradição da literatura e poesia malditas da 2ª metade do século XIX até às vanguardas do século XX – em especial os modernismos, dadaísmos, surrealismos, saltando depois para a beat generation. Música, posso falar de quatro coisas -, que conscientemente tive como referência – pontos de navegação à vista, sem nunca querer ir morrer nos seus braços: Sun Ra, a no-wave, o dramatismo e a densidade melódico-harmónica de José Mário Branco e as canções de adeus e embalar. Certamente tive outras influências, e tenho, só que não são conscientes. O que mais ouvia na altura… havia um disco de versões de músicas de Ennio Morricone “The Big Gundown” coordenado por John Zorn, que eu ouvia muito, aliás era bem consumido pelos membros do grupo. E Robert Fripp, Sonic Youth, Public Enemy, Funkadelic, Can, Big Black, Love, Glenn Branca, Pop Dell’Arte, Terry Riley, Schooly D, Negativland, United States Of America, Thelonius Monk, Sun Ra, My Bloody Valentine, Elliot Sharp, Jimi Hendrix, Jacques Brel, etc.
- A música dos Santa Maria eram essencialmente instrumental. Não estava interessado em fazer canções mais formais, com letras e voz?
 Os temas eram compostos e arranjados como instrumentais que nos pareciam assim suficientemente falados, pois estavam cheios de imagens evocadas e de pequenos poemas na sombra e nos títulos. Além disso não havia ninguém vocacionado para cantar.
- O seu projecto anterior Ezra Pound e a Loucura tinha características sonoras diferentes dos Santa Maria. O que o fez evoluir para uma banda intensamente eléctrica e radical?
 Bem, entre Ezra Pound e a Loucura e os Santa Maria, ainda formei, com o Vítor Inácio, os Bye-Bye Lolita Girl. Não vejo essas diferenças assim tão acentuadamente. Nos timbres, na proficiência técnica, nas capacidades e nos conhecimentos técnico-musicais, na consciência em relação aos objectivos, sim, há diferenças. Além disso, os Santa Maria têm uma agressividade positiva, exaltante, excessiva que estava pouco presente nos grupos anteriores. Todavia, a desconstrução e brusquidão dos ritmos, a dissonância – a preto e branco nos Ezra Pound e de cores pop e doces nos Bye-Bye Lolita Girl -, as melodias excessivas e à beira da dissolução que os vários instrumentos punham em jogo, lutando e amando-se, um lirismo exacerbado, uma música aparentemente desajeitada e nunca totalitária, isso sempre existiu – com intencionalidade e consciência diversas -, em todos os meus projectos, até hoje. Ou melhor, foi progressivamente existindo… Certamente também houve um apuramento de programas e capacidades, interiorizando e sintetizando o que o tempo em volta e a técnica traziam. Ou, se calhar, arranjamos melhor equipamento e desenvolvemos as técnicas de guitarrear e distorcer o som dos instrumentos. A mudança foi gradual e em continuidade. Portanto sobre ruptura radical… nunca a vi desse modo.
- Havia muito espaço para improvisação nos concertos dos Santa Maria?
 Em geral, não; a densidade excessiva e a estrutura da nossa música não permitiam grandes improvisos, pois facilmente se chegaria a uma cacofonia injustificada e inconsequente, e esse não era o nosso objectivo.
- O título do tema “Era Uma Vez Um Preto Com SIDA (AIDS)!”, causou, na altura, alguma polémica e foram acusados de racismo.
 Para mim sempre foi de uma crueldade triste e irónica ouvir dizer isso. Só vejo 2 motivos para que se acredite numa coisa dessas: haverá gente que escutou demasiado en-passant e fixou certas frases bombásticas sem ouvir tudo atentamente. As palavras todas, a sua organização, o contexto, o modo como eram ditas, quem dizia, os vários níveis de significação que isso implica, etc., ou então reproduziu ideias de “ouvir dizer”, fiando-se em aparências não indagadas ou em associações incorrectas; haverá quem objectivamente teve má vontade e/ou preconceitos, ou foi facilmente manipulável, o que levou a uma recusa em ouvir, ver e entender para além dos lugares comuns, dos slogans e chavões de boas intenções e demagogia ou de artísticas frases-feitas. O texto é duro e nada fácil de digerir, por exemplo com enunciação de práticas sexuais polémicas, mas é um texto magoado; aliás como o tema. E, além disso, a arte não é entretenimento de beberete ou “belos” vazios consensuais, mas fundamentalmente beleza convulsiva, como dizia Breton, feitiço perturbante e despertar de corpos e sensações vivas e consciências e reflexão. O texto trata de uma realidade que, hoje, é ainda mais tragicamente apocalíptica: a devastação provocada pela Sida na África Negra. Um problema de uma parte enorme da humanidade, onde, ao contrário do sucedido com outros grupos – que estavam a ser alvo de ataque e discriminação como a comunidade homossexual do mundo ocidental – e isso era subliminarmente referido no poema -, e que tiveram e têm alguma capacidade de mobilização económica, política e social para enfrentar a questão com relativo sucesso – o ser cultural, política e economicamente da África Negra, no mundo actual, parece traçar um fatídico e ignorado destino. Além disso, o texto remetia também para um dos perigos das sociedades actuais, uma forma de alienação perigosa: é que ao invés de nada se dizer, fala-se antes de tudo e de uma forma telegráfico-noticiosa, ou numa linguagem clínica pseudo científica ou ainda tudo sendo apropriado como afirmações artístico-publicitárias pós-modernas, com enunciados desconstruídos que lhe tiram todo o sentido subversivo e a real capacidade de intervenção social. Aliás essa não foi a única acusação. Por muitas posições que fui assumindo, à boca pequena chamaram-me racista, militarista-fascista e até mesmo homofóbico. Talvez seja porque eu nunca partilhei do pensamento dominante de conservadorismo politicamente correcto e demagógico, travestido de discurso revolucionário e vanguardista, de uma certa esquerda portuguesa que pretende ou pretendia ser o guardião dos dogmas, político-sociais e das posições morais, no mundo artístico não comercial. E, talvez também porque tomei posições contra, ou não alinhei em, leninismos, trotskismos, maoísmos e guevarismo-castrismo, que nos meios ditos de cultura vanguardista, contaminam de uma forma dogmática e demagógica e intolerante o discurso e as ideias. Aliás onde é que está a liberdade inominável em todos esses movimentos e referências ideológicas, cujos mentores criaram ditaduras altamente violentas. E isto não faz de mim defensor de posições de direita, o que também não seria um pecado mortal, embora não o seja de todo. Agora, sim, sou um feroz individualista defensor de um “libertanismo” responsável que entende o solidarismo como uma responsabilidade ética fundamental, onde se mistura, nem sei como, uma crença que, à falta de melhor, eu diria ser católica, no aspecto encantatório dos mistérios e da fé, e na angústia da culpa, mas nunca na organização institucional e nos dogmas de comportamento social.
- Depois dos Santa Maria formou vários grupos e ainda faz música. Sendo um resistente da sua geração como vê a evolução do cenário musical português?
 De bom: muita quantidade e variedade com qualidade média, descentralização, maior actualidade nas linguagens, capacidade de auto-organização, produtos mais profissionais e exigentes nos aspectos técnico-formais, fim dos complexos de modernismo ou das crises de adolescência que leve a ignorar o que vem detrás. De menos bom: o provincianismo do “sou tão bom como lá fora”, as capelinhas, a guetização dos diferentes tipos de músicos e músicas que os leva a desconhecer ou a menosprezar o que no gueto ao lado se faz ou o que não vem com o formato normalizado e, acima de tudo, a excessiva preocupação com o fazer as coisas bem, parecer “pro” e estar bem com os media, em vez de se arriscar, criar, inovar, partir a cabeça e, no meio disso, se vislumbrar uma luz mágica que identifica os aventureiros e os descobridores de mundos, mesmo que morram na viagem.
Nuno M. Castêdo

SANTA MARIA GASOLINA EM TEU VENTRE
Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção + EP (CD Sabotage)

“Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção”, álbum editado originalmente há 15 anos, permanece como uma das mais radicais experiências da história do rock português. De cariz arty, a música nele contida é misteriosa e agreste. Este não é um trabalho de fácil audição (até porque é essencialmente composto por instrumentais), mas é um disco aconselhável a quem procura ousadia estética no rock. Paisagens sónicas de um lirismo inflamado, súbitas explosões de electricidade, mudanças bruscas de direcção, diálogos de guitarras caóticos devedores do free jazz, atitude desconstrutivista e confrontacional da no wave, exploração das imensas possibilidades da guitarra eléctrica, torrentes de ruído branco, jogos tímbricos e harmónicos em rota de colisão… tudo isto forma um álbum singular onde dissonância, melodia e ritmo dissolvem-se num magma sonoro abrasivo e intenso. O EP (sem título) que assinalou o fim da banda beneficia de uma produção mais cuidada, mas mantendo intacta a expressividade das guitarras angulares e toda a estranheza que desde sempre caracterizou a banda. Saúda-se a reedição destes dois registos, com realce para “Free Terminator”, uma obra marcante da música urbana portuguesa.
Nuno M. Castêdo




FELIX KUBIN
Matki Wandalki (CD A-Musik)
E eis que chega a festa! Felix Kubin está de volta com um novo álbum, e com ele toda a gama de efeitos e de melodias sacadas do carrossel mágico ou de um Star Trek dopado com LSD. Completamente irrequieto, “Too Technical” é um exemplo disso, uma canção pop atravessada pela perversão do industrial (é o próprio Kubin que confessa a influência dos DAF e dos Throbbing Gristle) e pela irrisão dos Devo ou dos Negativland. Neste novo álbum há uma faixa com Holger Hiller (pioneiro na introdução do humor na electrónica alemã) em que o carrossel se torna evidente e surrealista qb, surrealismo que se torna particularmente óbvio na delirante versão do horripilante “Hello” de Lionel Richie. Kubin apropria-se da memória colectiva e rasga-a aos pedacinhos, reconstruindo-a de seguida com um sorriso simultaneamente infantil e perverso. Talvez por o novo álbum ser um pouco mais acessível, o humor exibe ainda mais a faceta rebelde e surpreendentemente reflexiva da forma com que Kubin se ouve a si próprio.
(8/10) CAL

SAMUEL JERÓNIMO
Redra, Andra, Endre De Fase (CD Thisco)
Eis que a Thisco, importante editora portuguesa vocacionada para as tendências alternativas da electrónica, muda radicalmente de diapasão e investe na edição de um disco de música minimal repetitiva. Na esteira de gurus desta linguagem musical como Steve Reich, Philip Glass, Terry Riley ou La Monte Young, Samuel Jerónimo apresenta três longas composições, tecnicamente irrepreensíveis e de difícil execução, que se baseiam, claramente, nos postulados da estética minimalista os quais norteiam o compositor a criar motivos melódicos (ou rítmicos) repetitivos que se vão complexificando, paulatinamente, com a junção progressiva de novos elementos que vão enriquecendo a estrutura no seu todo. É um disco que exige atenção por parte do ouvinte, dada a riqueza de pormenores e as subtis alterações estruturais. Seria um trabalho original, caso não estivesse datado (esta estética tem mais de 30 anos de vida nos EUA) e fosse uma experiência pioneira do género em Portugal, visto que a primeira fase da carreira dos Telectu (Jorge Lima Barreto e Vítor Rua) há vinte anos atrás, foi preenchida com trabalhos dentro desta abordagem Estética). De qualquer modo, “Redra, Andra, Endre De Fase” não deixa de ser um disco a descobrir por parte dos melómanos mais conhecedores deste tipo de composição musical.
(6/10) VA

VÁRIOS
Antologia De Música Electrónica Portuguesa (CD Plancton Music)
Faltava à discografia nacional um disco como este: um disco que compilasse alguns dos maiores nomes da música electrónica portuguesa, sendo esta entendida mais no sentido de música experimental ligada às correntes avant-garde (electro-acústica, concreta, livre-improvisação, etc.). O responsável por esta antologia (pela selecção e produção) é um músico que conhece por dentro todas as manifestações estéticas relacionadas com a música electrónica portuguesa: Rafael Toral. Assim, neste disco estão representadas as maiores referências nacionais das novas músicas contemporâneas. Filipe Pires (um dos pioneiros da criação musical por computador), Nuno Canavarro, Cândido Lima, João Pedro Oliveira, Carlos Zíngaro, Telectu, Nuno Rebelo ou o pioneiro (e tantas vezes incompreendido) Jorge Peixinho. “Antologia De Música Electrónica Portuguesa” tornar-se-á, desta feita, um importante documento histórico sobre esta faceta da criação musical portuguesa.
(7/10) VA

reedições
PHILIPPE BESOMBES
Philippe Besombes surge no contexto da cena avant garde dos anos 70, um território sem margem, influenciado pela cultura popular, numa Europa fértil de novas concepções artísticas e maiores revoluções sociais. Membro de dois grupos do circuito francês, Pôle e Hydravion, Besombes conseguiu relacionar através das suas incursões electrónicas diversos subgéneros do rock e do jazz convencional, encandeando-os num espaço de liberdade e experimentação, alcançando resultados verdadeiramente inovadores. A sua linguagem incaracterística destilou a animosidade aos cânones de Morton Feldman, aproximou-o do minimalismo de Tony Conrad, LaMonte Young e do “Dream Syndicate” em geral – com notável incidência na vertente psicadélica e étnica de Angus Maclise -, e encerrou-se nos primórdios do kraut rock. “Libra” (CD MIO) é o seu primeiro trabalho a solo e remonta a 1973. É também o primeiro de uma trilogia a ser reeditada pela Mio Records este ano. Composto por 17 peças distintas este disco foi feito enquanto banda sonora para um filme com o mesmo nome. Cada tema decorre num ambiente distinto, onde breves minutos de melodia sintetizada introduzem longos instrumentais de distorção. A percussão é muitas vezes extraída das cordas do piano. As colagens são quase sempre ambíguas e torna-se impossível identificar a origem do som. No mais fantasmagórico dos cenários percebe-se a voz de uma criança entrelaçada no ritmo de um texto a correr em código morse. No final, dois temas bónus interpretados em piano preparado, excluídos das sessões de gravação do disco.
Joana de Deus



Publicações
BANANAFISH #17


(http://www.midheaven.com/labels/tedium.house.publications.html)
Com uma capa da autoria do cartoonista canadiano Jason McLean, eis que se nos apresenta – para gáudio de alguns e irritação de outros -, mais um número daquela que será a publicação sobre música mais radical da actualidade. O teor dos textos continua a ser elegantemente cáustico sem deixar de manifestar entusiasmo para com os seus objectos, e entre estes contam-se, desta vez, Carla Bozulich, o duo Jazzkamer ou o músico noise japonês Astro. O destaque vai contudo para a entrevista conduzida por Tim Barnes a Hetty MacLise (companheira de Angus MacLise) e para a peça sobre o próprio Jason McLen que aproveita para discorrer sobre os comics, o movimento fluxus e as doenças mentais. No que diz respeito à secção de críticas há muito por onde vaguear. Imaginem escritores ou artistas do movimento surrealista a escreverem sobre avant-rock, música improvisada, electrónica e reedições de nomes da música popular… JM





3.7.18

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #74: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume XI: 2003"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - Prefácio: Victor Afonso (Kubik)
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume XI: 2003
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 592
isbn: none
data: Julho de 2018

 Vol 11

PREFÁCIO

Fernando Magalhães – O Espírito Inquieto
Por Victor Afonso

Fernando Magalhães era um espírito inquieto. Para já, adorava o que fazia, que era ouvir música e escrever sobre ela. Ir a concertos e partilhar opiniões com os amigos. Ouvir discos e falar deles apaixonadamente até altas horas num bar do Bairro Alto. A sua inquietação dizia respeito ao prazer de descobrir constantemente música nova e a satisfação (quase pueril) de a dar a conhecer aos seus leitores.  Ou evocar a boa música do passado (anos 70 e 80). Gostava de muitos géneros musicais diferentes, e abria o espectro da curiosidade estética até ao limite do horizonte, que é como quem diz, até à plena diversidade artística. Interessava-lhe primeiramente a qualidade da arte musical. Só depois surgiam os rótulos, quase sempre necessários para etiquetar este ou aquele disco, este ou aquele estilo.
Mas este sempre foi um país que liga muito pouco à crítica de arte. Os críticos que escrevem para a imprensa generalista ou especializada, sejam de música, cinema, artes plásticas, literatura, ou de teatro, têm a nobre função de divulgar e promover os objetos culturais que analisam. Mas para quem escrevem os críticos? A verdade é que, na esmagadora maioria dos casos, os críticos escrevem para o próprio umbigo, para uns quantos iniciados e para... os outros críticos. É um círculo vicioso que em nada beneficia o leitor médio de jornais ou revistas. O exercício da crítica deve conter tanto de informativo como de emissão de juízo de valor e, tendencialmente, elaborada numa linguagem o menos técnica e hermética possível. Ora, no caso do Fernando Magalhães, a sua tónica era a de tornar percetível a toda a gente o seu discurso crítico. Não queria nada com linguagens académicas ou herméticas, queria que a sua análise chegasse ao maior número de pessoas possível. Talvez esta sensibilidade se devesse ao facto do Fernando ter sido formado em filosofia, e só mais tarde enveredaria pelo jornalismo por manifesta paixão. A filosofia deu-lhe ferramentas para saber escrever com superior qualidade, quer no conteúdo, quer na forma. Assim como certamente lhe abriu diferentes portas de perceção analítica, de abordagem crítica e de pensamento discursivo.
Durante anos escreveu para diversas publicações, mas foi no (então) semanário Blitz e no diário Público que a escrita de Fernando Magalhães se fez notar e granjeou uma pequena legião de seguidores. Para além do grande domínio da língua portuguesa, o jornalista tinha uma vasta e diversificada cultura musical, que lhe permitia dissertar com a mesma desenvoltura sobre fado, krautrock, eletrónica experimental, folk ou jazz (foi a ler muitas das suas críticas que desenvolvi o gosto pelas mestiçagens estéticas). Depois, detinha um sentido de humor férreo e sarcástico, sobretudo quando fazia reportagens de concertos ao vivo, com aquele seu olhar tão atento aos pormenores e às relações improváveis que estabelecia entre matérias como literatura, história, filosofia, cinema e, naturalmente, música. Tanto revelava valores musicais emergentes e obscuros como escrevia longas recensões sobre artistas consagrados como Frank Zappa, Residents, King Crimson, Anthony Braxton, Dead Can Dance, Tom Waits, Kepa Junkera ou (o seu muito amado) Peter Hammil. Muitas vezes se queixou que o Público não lhe dava rédeas soltas para escrever sobre aquilo que queria realmente escrever (dado que privilegiava as correntes musicais marginais e alternativas), facto que lhe proporcionava uma angústia crescente enquanto profissional da escrita jornalística. A crítica musical de Fernando Magalhães era cirúrgica, extremamente bem construída, inteligente, pragmática e pedagógica (a tal premissa importante mas desprezada por muitos críticos). Outra das suas características particulares: adorava elaborar listas. Listas dos melhores discos de cada ano e de cada género musical. Fez muitas dezenas de listas que divulgava nos jornais e na internet – como nesse magnânimo e insurreto fórum SONS, sítio online de boa memória com quem partilhava e discutia descontraidamente com muitas dezenas de amigos (muitos deles virtuais).

Voltando ao início e reiterando esta ideia: Fernando Magalhães exercitava com enorme prazer o seu gosto pela música, qual criança que descobria um brinquedo novo e excitante. Era um fervoroso militante no exercício da divulgação musical e não fazia concessões de gosto. Escrevia com prazer, e com prazer dissertava sobre as sonoridades que o fascinavam. Como diria o também saudoso radialista António Sérgio, o Fernando tinha esse poder de “incendiar o imaginário dos leitores”, o que não é dizer pouco. Pelo contrário, é dizer tudo, e só podia ser assim vindo de um espírito inquieto.


ÍNDICE


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17.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (104) - Monitor #41


Monitor
Nº41

Ano IV
Janeiro de 98
III série

28 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00
Tiragem 500 exemplares


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Victor Afonso
Pedro Ivo Arriegas
Martin Davidson
Vasco Durão
Gonçalo Falcão
Jorge Mantas
José António Moura
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Os Melhores de 1997

Paulo Somsen
Poderá parecer absurdo, mas à medida que mais seriamente me envolvo com a música mais dificuldade tenho na elaboração das listas anuais (quanto mais envelheço mais noção tenho que nada sei). Este ano, aind
apor cima a gestão de tempo não me proporcionou bons momentos auditivos. Recorri inúmeras vezes ao método (que critico) de «picar» os discos na procura de momentos altos, e acreditem, só dois ou três
trabalhos me mereceram maior atenção. Penso que, independentemente do álbum que se ouve, há sempre a necessidade de as condições e os ambientes que nos circunscrevem serem favoráveis. A existência de
crianças viciadas nos cartoons da TV (ou no biberão) proporciona sossego mas cria um ruído de fundo irritante. Sugeriram-me, para contornar esta situação, o uso de uma carapuça almofadada nas orelhas, por onde debitava o som. Não surtiu efeito. Para além de, passado um tempo, começar a incomodar, a ausência completa de realidade também não me seduziu. Resolvi ainda apetrechar o meu local de trabalho com
CD-player incorporado. Em vão. O trimmmmmm do telefone e os permanetes «posso»? dominaram o panorama 9 to 5.
Bom, vamos ao que interessa: é a música que me traz aqui e não uma divagação pelo meu diário de bordo.
Vários - «Burt Bacharach» [Tzadik]
Orchester 33 1/3 - «s/t» [Rhiz!/PDN]
Robert Wyatt - «Shleep» [Hannibal]
Jim O'Rourke - «Bad Timing» [Drag City]
Shabotinski - «Stenimals» [Plag Dich Nicht]
Thievery Corporation - «Sound From...» [18th Street Loung Music]
Isotope 217 - «The Unstable Molecule» [Thrill Jockey]
Stock, Hausen & Walkman - «Organ Transplants» [Hot Air]
Ground Zero - «Consume Red» [ReR]
To Rococo Rot - «Veiculo» [City Slang]

Victor Afonso
Squarepusher - «Hard Normal Daddy» e «Burningn' Tree» [Warp]
Jim O'Rourke - «Bad Timing» [Drag City]
Amon Tobin - «Bricolage» [Ninja Tune]
Art Zoyd - «Haxan» [Atonal]
Fuschimuschi Math-Ice - «Short Stories» [Maniffatture Criminali]
Kreidler - «Weekend» [Kiff]
Autechre - «Chiastic Slide» [Warp]
Meira Asher - «Dissected» [Crammed]
Photek - «Modus Operandi» [Science]
David Holmes - «Let's Get Killed»

Pedro Ivo Arriegas
Rome - «Rome» [Thrill Jockey]
Stock, Hausen & Walkman - «Organ Transplants Vol. I» [Hot Air]
Ben Neill - «Triptycal» [Antilles]
Gerd - «This Touch Is Greater Than Moods» [Universal Language]
Berger, Hodge, Moufang & Ruit - «Conjoint» [KM20]
Bob Marley - «Dreams Of Freedom» [Sony]
Sofa Surfers - «Transit» [Klein]
The Rootsman Vs Muslimgauze - «City Of Djinn» [Third Eye]
Tipsy - «Trip Tease» [Asphodel]
Karma - «Pad Sounds» [Groove Attack]
Air - «Premiers Symptomes» [Source]
Fresh Moods - «Fresh Moods» [Electrolux]
Tuatara - «Breaking The Ethers» [Epic]
We - «As Is» [Asphode]
Vários - «Double Articulation» [Sub Rosa]
Tosca - «Opera» [G-Tone]
Reflection - The Errornormous World» [Clear]
David Shea - ««Satyricon» [Sub Rosa]
Beanfield «Beanfields» [Compost]
Hendrik Lorenzen - «Bastard Memory» [Maniffatture Criminali]
A Small Good Thing - «Block» [Leaf]

Vasco Durão
Pós-Rock
Jim O'Rourke - «Bad Timing» [Drag City]
David Grubbs - «Banana Cabbage, Potato Lettuce, Onion Orange» [Table of Elements]
Boxhead Ensemble - «Dutch Harbor: Where The Sea Breaks Its Back» [Atavistic]
Sea And The Cake - «The Fawn» [Thrill Jockey]
Trans Am - «Surrender To The Night» [Thrill Jockey / City Slang]
Salaryman - «s/t» [City Slang]
Him - «Interpretive Belief System» [WordSound Recordings]
John Fahey & Cul de Sac - «The Epiphany Of Glenn Jones» [Thristy Ear Records]
Kante - «Zwischen Den Orten» [Kitty-Yo Int.]
Pop-Rock
Coctails - «Live At Louge Ax» [Carrot Top Records]
Pavement - «Brighten The Corners» [Domino]
Yo La Tengo - «I Can Hear The Heart Beating As One» [Matador]
Will Oldham - «Joya» [Drag City]
Dinosaur Jr. - «Hand It Over / Take A Ride At The Sun» [Warner Music]
Folk Implosion - «Dare To Be Surprised»
One-man band
Fuschimuschi - «Short Stories» [Maniffatture Criminali]
The Lonesome Organist - «Collector Of Cactus Echo Bags» [Thrill Jockey]
Jazz
Wayne Horwitz - «Cold Spell» [Knitting Factory
Isotope 217
Tzadik
Burt Bacharach - «Burt Bacharach - Great Jewish Music» [Tzadik]
Serge Gainsbourg - «Serge Gainsbourg - Great Jewish Music» [Tzadik]
Naftule's Dream - «Search For The Golden Dreydl» [Tzadik]
John Zorn - «Filmworks VII» [Tzadik]
Electrónica
Stock, Hausen & Walkman / Die Veteranen - «Venetian Deer» [Systhema]

Gonçalo Falcão
György Ligeti - «Gyöorgy Ligeti edition 1-6» [Sony Classical]
Harry Partch - «The Harry Partch Collection vol 1-4» [CRI]
Christian Marclay - «More Encores» [ReR]
Frank Zappa - «Lather» [Ryko]
Christian Marclay - «Records» [Atavistic]
Derek Bailey, Pat Metheny, Gregg Bendian & Paul Wertico - «The Sign Of 4 [Knitting Factory Works]
Han Bennink & Dave Douglas - «Serpentine» [Songlines]
Loren Mazzacane Connors - «In Pittsburgh» [Dexter's Cigar]
Louis Andriessen - «Zilver» [New Albion]
Matthew Shipp "String" Trio - «By The Law Of Music» [Hat Art]
Orchester 33 1/3 - «s/t» [Rhiz!]
John Fahey - «Womblife» [Table Of The Elements]
Stock, Hausen & Walkman - «Buy Me Sue Me» [7" Hot Hair]
The Jon Spencer Blues Explosion - «Now I Got Worry» [Mute]

Jorge Mantas
Fushitsusha - «The Caution Appears» [Disques Du Soleil et L'Acier]
Fushitsusha - «Pathetique» [PSF]
Fushitsusha  «Double Live» [PSF]
Vários - «A Way Out - New Music From Portugal Vol. I» [AnAnAnA]
Swans - «Soundtracks For The Blind» [Atavistic]
Gerry Miles, Alan Licht & Haino Keiji - «s/t» [Atavistic]
Elliott Shap (V/A) - «State Of The Union» [Atavistic]
Arcado String Trio - «Live In Europe» [Avant]
Cro Magno - «Bull?» [Lowlands]
Dave Douglas - «Sanctuary» [Avant]
Andy Haas - «Amhem Land» [Avant]
Deutsch Nepal - «!Compreendido... Time Stop!» [Release / Cold Meat Industry]
Dissecting Table - «Human Breeding» [Release]
Flux [James Plotkin] - «Protoplasmic» [Release]
Caspar Brötzmann & Page Hamilton - «Zulutime - Subsonic» [Sub Rosa / Blast First]

Rui Neves
1. Muhal Richard Abrams - «Song For All» [Soul Note]
2. Derek Bailey, Pat Metheny, Gregg Bendian & Paul Wertico - «The Sign Of 4 [Knitting Factory Works]
3. Paul Bley & Gary Peacock - «Mindset» [Soul Note]
4. Anthony Braxton - «Composition nº 193» [Braxton House]
5. Uri Caine - «Primal Light-Gustav Mahler» [Winter & Winter]
6. Clusone Trio - «Love Henry» [Gramavision]
7. Ornette Coleman & Joachim Kuhn - «Colors» [Harmolodic Verve]
8. Scott Colley - «Portable Universe [Freelance]
9. Marilyn Crispel, Gary Peacock & Paul Motian - «Nothing Ever Was, anyway» [ECM]
10. Dave Douglas - «Sanctuary» [Avant]
11. James Emery - «Standing On A Whale» [Enja]
12. Ellery Eskellin - «One Great Day» [Hat Hut]
13. Jim Hall - «Textures» [Telarc]
14. Keith Jarrett - «La Scala» [ECM]
15. Daunik Lazro - «Dourou» [Bleu Regard]
16. Jeanne Lee, Mal Waldron & Toru Tenda - «Travellin' In Soul time» [BVhaast]
17. Joe Maneri - «In Full Cry» [ECM]
18. Masada / John Zorn - ««Het» [DIW]
19. Misha Mengelberg - «No Idea» [DIW]
20. Nils Petter Molvaer - «Khmer-Remixes» [ECM]
21. Joe Morris - «You Be Me» [Soul Note]
22. Matthew Shipp - «Duo With Joe Morris: Thesis» [Hat Hut]
23. Sonny Simons - «Transcendence» [CIMP]
24. Chris Speed - « «Yeah No» [Songlines]
25. Thomas Stanko - «Litania» [ECM]
26. Bill Stewart - «Telephaty» [Blue Note]
27. Steve Swallow - «Descronstructed» [x-TRAWatt]
28. Henry Threadgill & Make a Move - «Where's Your Cup?» [Columbia]
29. Tom Warner - «Martian Heartache» [Soul Note]
30. Kenny Wheeler - « Angel Song» [ECM]

Rui Eduardo Paes
1. Helmut Lachenmann, Salvatore Sciarriono e Iancu Dimitrescu - qualquer disco disponível no mercado português, independentemente da data de edição
2. Terry Riley com stefan Scodanibbio - «Lazy Afternoon Among The Crocodiles» [Al - reedição]
3. Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble - «Toward The Margins» [ECM]
4. Christian Marclay - «Records» [Atavistic]
5. Vienna Art Orchestra - «20th Anniversary» [Verve]
6. John Zorn - «New Traditions In East Asian Bar Bands» [Tzadik]
7. Robert Wyatt - «Schleep» [Hannibal]
8. Nick Cave And The Bad Seeds - «The Boatman's Call» [Mute]
9. John Fahey - «Womblife» [Table of the Elements]
10. Derek Bailey, Pat Metheny, Gregg Bendian & Paul Wertico - «The Sign Of 4 [Knitting Factory Works]
Extra: Carlos Zíngaro - «Release From Tension» [AudEo]

Pedro Santos
1. Orchester 33 1/3 [Plag Dich Nicht]
2. The Boxhead Ensemble - «Dutch Harbor» [Atavistic]
3. We - «As Is» [Asphodel]
A Small Good Thing - «Block» [Leaf]
Autechre - «Chiastic Slide» [Warp]
Boymerang - «Balance of Force» [Regal]
Curd Duca - «Easy Listening Vol 5» [Plag Dich Nicht]
David Grubbs - «Banana Cabbage» [Table of the Elements]
Elliott Sharp - «Tectonics» [Atonal]
Fuschimuschi - «Short Stories» [Maniffatture Criminali]
Genf - «Import/Export» [Compost]
Isotope 217 - «The Unstable Molecule» [Thrill Jockey]
Jim O'Rourke - «Bad Timing» [Drag City]
John Fahey - «Womblife» [Table of the Elements]
John Zorn - «Duras:Duchamp» [Tzadik]
Karl Berger, Jamie Hodge, Gunter 'Ruit' Kraus & David Moufang - «Conjoint» [KM20]
Kreidler - «Weekend» [Kiff]
Lydia Lunch - «Matrikamantra» [Atavistic]
Luke Vibert - «Big Soup» [Mo'Wax]
Mamoru Fujieda - «Paterns of Plants» [Tzadik]
Maurizio - «M» [M]
Roni Size & Reprazent - «New Forms» [Talkin'Loud]
Shabotinski - «Stenimals» [Plag Dich Nicht]
Sofa Surfers - «Transit» [Klein]
Stock, Hausen & Walkman - «Organ Transplants Vol 1» [Hot Air]
Thievery Corporation - «Sound From The Thievery Hi-Fi» [8th Street Lounge Music]
Tied + Tickled Trio - «s/t» [Payola]
Tipsy - «Trip Tease» [Asphodel]
Tom Rechion - «Chaotica» [Tiny Organ]
Uri Caine - «Primal Light - Gustav Mahler» [Winter & Winter]

Jorge Saraiva
1. Mamoru Fujieda - «Patterns of Plants» [Tzadik]
2. Orchester 33 1/3 - «s/t» [Rhiz!/PDN]
3. Autechre - «Chistaic Slide» [Warp]
4. Marc Ribot - «Shoe String Symphonettes» [Tzadik]
5. Robert Wyatt - «Shleep» [Hannibal]
6. Vários - «Great Jewish Music - Burt Bacharach» [Tzadik]
7. Louis Andriessen - «Zilver» [New Albion]
8. Musci, Venosta & Marianni - «Loosing The Ortodox Path» [Victo]
9. John Scott - «In These Great Times» [Tzadik]
10. Squarepusher - «Hard Normal Daddy» [Warp]
11. Compostela - «Wadachi» [Tzadik]
12. Paul D. Miller - «The Viral Sonata» [Asphodel]





3.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (37) - Mondo Bizarre - Nº 2 - Fevereiro de 2000


Mondo Bizarre
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 2 - Fevereiro de 2000
40 páginas p/b



NON
A Delicadeza Da Perversão




NON é o nome de guerra e o alter ego de uma personagem deveras ímpar no panorama da música dita alternativa dos anos 80 e 90 (a par com Genesis P. Orridge dos electro-industriais Throbbing Gristle). Boyd Rice, o homem por detrás deste projecto musical (ou anti-musical) tem granjeado, ao longo destas duas décadas, alguma fama e projecção à custa de muita provocação e destruição dos cânones estéticos mais ortodoxos. Nascido na Califórnia, Boyd Rice desde cedo manifestou comportamentos desviantes do normal, tendo almejado seguir uma carreira musical inconformista nos meados dos anos 70, aquando da sua deriva pelas ruas gravando e recolhendo (para posterior manipulação) sons e ruídos aleatórios.
Após o início das hostilidades musicais, Rice desenvolveu igualmente uma série de actividades como escritor, artista multimédia e, ultimamente, actor em filmes mais ou menos experimentais. Sempre, claro está, envolto em mantos estilísticos de intenso negrume e obscurantismo. O seu primeiro álbum, "Black Album", teve apenas 85 exemplares e foi gravado no fim de 1975 (um disco onde explorava, acima de tudo, frequências e "drones" aleatórios). Por sorte, numa viagem que efectuou a Londres, conhece Daniel Miller, o responsável pela Mute Records, que desde logo manifestou interesse no trabalho arrojado do músico californiano. Foi nesse momento que Rice decidiu outorgar o seu projecto com o nome NON. "O nome implicava tudo e nada ao mesmo tempo. Era uma época onde, para mim, os valores do punk nada me diziam; o punk foi apenas mais um movimento hippie que cedo se fossilizou, por isso quis um nome que fosse contra isso tudo", explica Rice. O projecto NON tem-se assumido como um motor de pesquisa de novas sonoridades experimentais, sempre conotadas com ambientes góticos e industriais, numa tentativa de desvendar os segredos mais obscuros e negros da mente humana e da natureza (colaborou com uma série de músicos ou grupos afins à sua estética, designadamente, Coil, Death In June, Current 93, Steve Stapleton, Fad Gadget...).
O místico poeta Lautréamont ou o esotérico Aleister Crowley foram figuras que muito influenciaram esta safra de músicos e grupos dos anos 80. Em 1989, NON publica um dos seus discos mais aclamados: "Music, Martinis and Misanthropy", uma colecção de temas acústicos em parceria com outras almas negras e inquietas - Sol Invictus, Tony Wakeford e Douglas Pierce. Em 1995, edita "Might", uma sinfonia noise em formato "spoken word" e que suscitou reacções de atentado à moral e à decência. Sempre imperturbável, Boyd Rice tem ainda tempo para substituir Anton La Vey na controversa "Church Of Satan", facto que nos EUA tem levantado ondas de polémica pelo apego manifesto ao satanismo. Entretanto, NON acaba de editar o seu nono registo para a Mute, "Receive The Flame", um disco onde a abordagem ambient-noise coabita, friamente, com canções semi-acústicas despojadas de ornamentos e de sentimentos filantrópicos. É um disco que, mais uma vez, assedia o lado da perversidade humana e da sua natureza malévola. Por agora, Boyd Rice está em vias de assinar uma remistura da banda sonora do filme "A Laranja Mecância", a não ser que, tal como inicialmente previsto, a assine outra mente atormentada do mundo musical: Tricky.
Victor Afonso.





Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (36) - Mondo Bizarre - Nº 3 - Maio de 2000


Mondo Bizarre
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 3 - Maio de 2000
40 páginas p/b



Entrevista
Einstürzende Neubauten
(Blixa Bargeld)

Na confortável sala panorâmica de um hotel de Lisboa, Blixa Bargeld falou à Mondo Bizarre. O mais recente disco dos Einstürzende Neubaute, "Silence Is Sexy", foi o mote de saída, mas a conversa estendeu-se às outras actividades do músico e ao seu gosto por canções populares escritas para mulheres.

. O press-release de "Silence Is Sexy" diz que este é o trabalho mais complicaod e fascinente da história dos Neubauten. Em que sentido?
- Não li o press-release. Penso que o disco parece ser mais acessível a quem o ouve. É mais fácil obter prazer com este trabalho. Mas, se se for mais fundo, descobre-se que é o nosso disco mais hermético. Está cheio de referências cruzadas, de conotações profundas.
. Como interpreta e vê o silêncio? Há muitas maneiras de ouvir e sentir o silêncio como o posição ao som e ao ruído (John Cage é uma maneira de entender o silêncio). No álbum, canta "silence is sexy" e logo a seguir diz "your silence is not sexy at all"...
- A primeira coisa que surge, em termos musicais, ao falarmos de silêncio é John Cage. O seu 4'33", em que alguém se senta ao piano e durante esses minutos não se ouve uma única nota. Na sua típica aproximação zen, John Cage tenta criar uma peça na qual, de repente, nos apercebemos de todos os sons que nos rodeiam, durante uma determinada altura. Nesse sentido, o que fiz em "Silence Is Sexy" é um antídoto ao tema de John Cage. Eu queria que se ouvisse que o silêncio é tenso. Que o silêncio se relaciona mais com a ausência do que com a unidade do universo. Foi um longo processo de pesquisa até saber como gravar o que pretendia. O grande impacto dá-se quando o acender de um cigarro, quase imperceptível, se ouve, se torna tenso. Tinha a ideia nuclear para "Silence Is Sexy". No processo de composição, juntamente com as letras, cheguei à conclusão de que o silêncio é muito pouco sexy. O silêncio sexy está ligado à morte e não sou necrófito. A morte não me dá prazer nenhum. Daí veio o "your silence is not sexy at all".
. Conhece o Instituto de Som de Estocolmo, no qual existe um compartimento, totalmente isolado, onde tudo o que se ouve é o asustador som produzido pelo bater do coração?
- Não conheço o Instituto de Estocolmo, mas sei o que é uma Camara Silens. Essa é outra das coisas sobre as quais se pode ler nos apontamentos de John Cage. É muito estranho entrar numa. É um laboratório de som, onde apenas se ouvem dois sons, um alto e outro baixo. O alto é o ruído produzido pelo nosso sistema nervoso e o baixo o sangue a correr no nosso corpo. Por isso, em "Silence Is Sexy" falo de Tinnitus (zumbidos nos ouvidos), uma doença muito comum de que sofro. É como uma campainha constante nos ouvidos. O nível de ruído é inconstante. Há alturas em que nem me apercebo e outras em que o volume é bastante alto. Pensei em trabalhar numa Camara Silens para este álbum, mas acabei por abandonar a ideia.
. Musicalmente, "Silence Is Sexy" paraece ser mais introspectivo e menos potente que os discos anteriores dos Neubauten. Há menos experimentalismos radicais e mais construções harmoniosas, próximas do tradicional formato de canção. Vinte anos de carreira permitem-lhe uma maior serenidade para expressar o que pretende?

- Queria que todos os bocados deste disco fossem uma canção, que tudo fosse passível de reprodução em concerto. Não há nenhum tema neste disco que tenha, a 100%, o formatoo tradicional de canção. Todos continuam a ser muito desconstruídos de dentro para fora. Deixei de ter vergonha de utilizar instrumentos convencionais, apesar de continuarmos a trabalhar com novos e velhos instrumentos e também com bocados de materiais. Já explorámos tudo o que tínhamos de explorar. Não é necessário continuarmos a repetir o mesmo modelo de disco para disco. Avancei para um terreno ainda pouco explorado por nós: as progressões harmónicas, sobre as quais ainda sei muito pouco.
. Ouvindo os discos mais antigos com atenção, é fácil descobrir que a linha desconstrutiva não é anárquica. De certo modo, os velhos temas dos Neubauten têm uma linha contínua, às vezes quase dançável.
- Sim. No início dos anos oitenta e até meados dessa década, trabalhámos com estruturas parcialmente dançáveis. Não vejo nenhum obstáculo entre os discos mais antigos e as nossas abordagens recentes. Os primeiros discos eram mais ritualistas, intensos e enérgicos. Este é uma espécie de inversão dessas sonoridades. "Silence Is Sexy" é uma continuação do que temos vindo a fazer. Se pusermos os trabalhos lado a lado, vemos que se completam.
. Três anos - desde "Ende Neu" - para fazer um álbum não é demasiado tempo para si? Foi difícil o processo criativo de "Silence Is Sexy"?
- O processo é sempre complicado para nós. Criamos problemas musicais que temos que ir resolvendo à medida que o tempo passa. Dizemos sempre "temos um ano para fazer o disco". Mas isso nunca resulta. Deparamo-nos com muitos becos sem saída. É como fazer um filme. Filma-se 10.000 metros e só 5000 são utilizados na montagem final. Este disco é muito longo. Podíamos ter parado aos 40 minutos, mas havia ideias que tinham que ser trabalhadas até ao fim. Tínhamos que criar totalmente este micro-cosmos. Nos Bad Seeds nunca teria estes problemas.
. Qual é a diferença do Blixa dos Einstürzende Neubauten e o Blixa dos Bad Seeds?
- É como falar duas línguas diferentes. Tocar com os Einstürzende Neubauten, como qualquer pessoa que tenha tocado connosco pode provar, é como falar uma língua estrangeira. Quando toco com o Nick Cave regresso a uma linguagem comum a várias pessoas. É mais fácil uma outra pessoa tomar o meu lugar nos Bad Seeds, mas já não se passa o mesmo com os Neubauten. O processo construtivo é completamente diferente nas duas bandas.
. É-lhe difícil mudar de uma banda para a outra?
- Não.
. Actualmente, a música electrónica e as remisturas são bastante populares, mesmo fora da "club Scene". Pensa que a fusão entre música electrónica e outras tipologias musicais (como a vossa), é um modo de criar novas e interessantes formas de música?
- Eu deixei de ouvir coisas novas, não porque me tenha deixado de interessar por música, mas porque o discurso corriqueiro que lhe está associado não me diz nada. Sei que a música electrónica se tornou muito visível. Eu cresci com os Can - Holger Czukai / Herman Schimt (sic) -, Kraftwerk, etc. Para mim, a música electrónica sempre foi vital, sempre foi normal. A Alemanha sempre teve uma grande tradição electrónica e não me surpreende que o techno seja, aí, tão forte.
. Vai deixar que "Silence Is Sexy", à semelhança de "Ende Neu", seja remisturado por outros músicos ou dj's?
- Não. Se voltarmos a remisturar alguma coisa seremos nós a fazê-lo.
. Costumam oferecer-lhe bandas para remisturar? Que banda gostava de remisturar?
- Estão sempre a oferecer-nos coisas para remisturar. Em especial bandas polacas estranhíssimas. [risos] Não tenho grande interesse em fazer remisturas, apercebi-me que esse processo é totalmente contrário à minha ideia de remistura. As remisturas tornaram-se numa desculpa para aplicar as nossas ideias no trabalho de outro artista. Para mim uma remistura é isso mesmo: voltar a remisturar as misturas originais. No nosso disco poucos o fizeram. Só o Jon Spencer e o Barry Adamson aceitaram trabalhar com as fitas originais e voltar, de facto, a misturá-las, mas mais ninguém o fez.
. Os Einstürzende Neubauten foram uma das mais importantes, seminais e admiradas bandas de Berlin dos anos 80. Olhando para o passado, como avaliaria a vossa carreira e trabalho, desde os princípios da música industrial?
- Quando nós aparecemos, no início dos anos 80, o termo música industrial, significava uma coisa totalmente diferente. Não se aplicava a nós. Era uma coisa utilizada para designar grupos como Throbbing Gristle e demais amigos de Genesis P Oridge. Agora aplica-se a grupos como Rammstein, Nine Inch Nails, Marylin Manson...
. Que não são, na realidade, grupos industriais.
- Exactamente. Isso faz com que exista um problema com a definição "industrial". Devia-se especificar se nos estamos a referir à primeira ou à segunda vaga de música industrial. No meio, entre meados dos anos 80 e 90, desapareceu totalmente. O termo renasceu na América e tenho que viver com essa falsa designação adoptada pelos media. Os discos dos Neubauten são enfiados na secção de música industrial. Não era isso que nós queríamos, mas é o que acontece.
. Em que categoria colocaria a música dos Neubauten?
- Na secção de folk ou de música sacra.
. Uma das coisas que aprecia são as percussões africanas.
- Em períodos em que nada se passava em termos musicais, e incluo 1977 e a revolução punk nesse nada, quando a world music ainda não tinha sido inventada, ouvia coisas como grupos de tocadores de tambores etíopes ou do deserto, coros galêses ou sons do extremo oriente.
. Então não gosta de punk...
- Não. Gosto muito do efeito social que o punk despoletou e também do que significou em termos de mudança da indústria. O poder-se fazer as coisas por nós próprios foi muito mais importante para mim, para os Neubauten, do que as guitarras ou os Sex Pistols como símbolo musical.
. Parece gostar de cantar papéis femininos. Em "Sand" faz as duas vozes e quando os Bad Seeds tocaram no Porto, em 1997?, cantou a parte da Kylie Minogue de "Where The Wild Roses Grow".
- Sim, gosto de cantar canções que foram escritas para mulheres. Quanto à parte da Kylie Minogue, quando gravámos o original de "Where The Wild Roses Grow", fui eu que cantei a parte dela. Ela recebeu uma cassete, para aprender a partir do que eu tinha gravado. Acabou por cantar exactamente com a minha fraseologia. Por isso, no Porto, eu não estava a imitar a Kylie Minogue. Estava a imitar-me a mim mesmo. [risos] Também já cantei "Johnny Guitar", originalmente cantada por Peggy Lee, que faz parte da banda sonora do filme homónimo. É o único western onde os homens não têm armas. Todas as armas estão na mão de mulheres. É um filme fantástico.
. E a Joan Crawford é sublime.
- É o melhor papel dela. Genial. Eu também gostava de cantar alguma coisa da Marlene Dietrich. Pensámos em gravar "Where All The Flowers Gone" para este disco, mas tivemos bastantes problemas com "Die Befindlichkeit des Landes", na qual eu só consegui introduzir a voz a seis de Janeiro, pois só nessa altura tive a melancolia necessária para o fazer. Foi necessário incutir a raiva através de uma terceira pessoa, de modo a não ser apenas um comentário cínico, ou uma versão moderna do cantor de protesto. "Where All The Flowers Gone" fazia parte desse jogo, mas acabou por não entrar no disco.
. O facto de gostar de cantar papéis femininos reflete-se, de algum modo, no seu trabalho? Tem alguma empatia especial com o seu lado feminino?
- Nunca pensei muito na razão dessa empatia. Tenho uma certa indiferença em relação aos papéis masculinos no mundo da música. Quando toco guitarra com o Nick Cave represento o papel tradicional. Uma guitarra é um símbolo fálico, um instrumento de poder, de machismo, de todas as coisas de que, musicalmente, não gosto. O meu modo de tocar guitarra é, geralmente, o oposto disso. Nasce do meu ódio a essas metáforas e conotações. Uma vez, o New York Times disse que eu tocava guitarra como quem espera um autocarro, para mim foi um elogio. Julgo que a minha falta de empatia com o cliché tradicional do rock faz com que me interesse mais pelas canções escritas para serem cantadas por mulheres. Mas não cantaria "This Boots Are Made For Walking" que é uma canção de homem cantada por uma mulher. É esse o fascínio da canção e eu só a tornaria estéril.
. De onde lhe veio a ideia do questionário onde interroga as pessoas sobre as suas recordações? Nunca o utilizou em Portugal pois não?
- Não, nunca o utilizei cá. O questionário serve-me de base a uma série de representações. Já as apresentei em: Berlin, Osaka, Buenos Aires, Londres, Estocolmo, Nova Deli e nos Camarões. São sempre feitas na língua nativa e resultam dos questiona´rios preenchidos anonimamente. Há sempre um cenário diferente, oradores e músicos.

. O que sente quando usa uma língua que não domina? Como reagem as pessoas?
- Era inútil ir ao Japão e ler a tradução das recordações dos japoneses em alemão. A reacção é sempre diferente. É muito estranho ouvir alguém ler as nossas próprias recordações. É um momento de transformação. Quando se entregam essas recordações, essas "Memórias Queridas" por escrito, elas ganham distância, tornam-se ficção, quase literatura. Passei dez dias nestas palestras e fiquei muito agarrado a algumas dessas memórias. Tornaram-se quase minhas.
. Nessas memórias, as dos japoneses eram mais chegadas à natureza e as dos ocidentais mais ligadas à pornografia.
- Porque diz que os japoneses estão mais ligados à natureza?
. Por várias razões. Os japoneses estão muito ligados à neve, à água, às flores, aos insectos. Aqui em Lisboa, no Museu da Gulbenkian, há um grande espólio de caixas usadas para guardar insectos.
- De facto, o mais curioso nas recordações japonesas era uma enorme ligação aos insectos. Mas nas memórias africanas, nos Camarões, não existe nenhuma ideia de natureza. Falam da aldeia, da selva. Mas quando lhes perguntamos se têm alguma "Memória Querida" ligada à natureza, respondem: "a morte da minha avó".
. Porque ela regressa ao solo.
- Não. A nossa ideia de natureza é muito eurocentrista. O conceito de natureza em África, é totalmente diferente. Não consideram as árvores, os pássaros, a floresta, natureza. Natureza são os ciclos da vida. Essa descoberta foi muito interessante, porque me mostrou que as p´roprias perguntas eram muito eurocentristas.
. Já fez trabalhos para teatro: Heiner Müller, Werner Schawab.
- Heiner Müller é um amigo da banda. Em vinte anos de Einstürzende Neubaute apenas fizemos música para duas peças, o que não é muito.
. Já pensou em fazer ou em escrever teatro?
- Estou a pensar encenar algo que não seja meu. Sempre que faço as "Memórias Queridas" enceno todo o espectáculo.
. Lembra-se do concerto de há seis anos em Lisboa?
- sim. Gostei da assistência e do local do concerto. Lembro-me de sair do local e toda a gente me saudar. Foi muito agradável.
Raquel Pinheiro / Vitor Afonso
 






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