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2.5.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (9)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre
15.07.2005

[48]        THIS MORTAL COIL

 IT’LL END IN TEARS



Criado por Ivo Watts Russell para promover uma série de colaborações entre músicos da sua editora, os This Mortal Coil, logo no seu álbum de estreia, acabaram por representar o paradigma da identidade atmosférica que caracterizou o som da 4AD em meados dos anos 80.

TÍTULO It’ll End In Tears
ALINHAMENTO Kangaroo / Song To The Siren / Holocaust / Fyt / Fond Afections / The Last Ray / Another Day / Waves Become Wings / Barramundi / Dreams Made Flesh / Not Me A Single Wish
ANO 1984 (4AD)
PRODUTOR Ivo Watts Russell

Além de ter representado uma fundamental (e então urgente) revolução estética e pragmática, o punk foi também catalisador de importantes transformações no meio editorial, tendo, tal como a música, devolvido o poder “Às bases”. Na Inglaterra de finais de 70, pequenas independentes apareceram por todo o lado, muitas associadas a redes de distribuição alternativas e lojas nas quais se podiam encontrar os singles das novas bandas. Entre as editoras que vingaram e sobreviveram à ressaca do punk, a 4AD (ligada à Beggars Banquet) cresceu para se afirmar como uma das mais importantes casas editoriais de 80. Editou Bauhaus (no início), Cocteau Twins, Dead Can Dance, Wolfgang Press e tantos outros nomes que então desenvolveram o emergente conceito de música indie, marcando identidade também através das capas desenhadas por Vaughan Oliver. Coordenada por um melómano, Ivo Watts Russell, a editora 4AD gerou em 1984 um colectivo transversal às bandas do catálogo: os This Mortal Coil.
Materialização evidente do gosto de Ivo Watts Russell, os This Mortal Coil foram um projecto de editora, juntando em estúdio músicos de difeentes grupos, tendo editado uma magnífica trilogia de álbuns entre 1984 e 1991.
O primeiro dos álbuns, o genial It’ll En In Tears reuniu músicos como Lisa Gerrard e Brandan Perry dos Dead Can Dance, Elisabeth Frazer, Simon Raymonde e Robin Guthrie dos Cocteau Twins, Gordon Sharp dos Cindytalk, Howard Devoto (dos Magazine, banda não assinada pela 4AD), Martyn Young dos Colourbox e Robbie Grey dos Modern English, entre alguns outros. O álbum, paradigma do som atmosférico que fez escola na 4AD em meados de 80, é uma pérola de bom gosto, subtileza melódica e riqueza textural.

Muitos recordam hoje o disco pela sublime e arrebatadora versão de Song To The Siren (de Tim Buckley) na voz de Elisabeth Frazer, um daqueles raros casos em que a versão supera o original (tendo David Lynch reconhecido ter servido de inspiração à sua aventura musical com Julee Cruise alguns anos depois) ou pelas não menos cativantes novas leituras de Kangaroo e Holocaust de Alex Chilton (dos Big Star) ou Not Me de Colin Newman. Mas It’ll End In Tears (tal como o álbum seguinte, Filigree And Shadow, de 1986) vale como um todo (que aacaba até por diluir em si as diferentes partes). A sucessão de canções define um percurso plácido por sonhos para voz e instrumentação quase ambiental, criando atmosferas de melodismo subtil e canções de complexa arte final numa linha próxima da que então tomava o rumo da obra dos Cocteau Twins e Dead Can Dance (claramente os pólos estéticos protagonistas nesta etapa dos This Mortal Coil).





1.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (140) - Música & Som #105


Música & Som
Nº 105

Agosto de 1985
Publicação Mensal
Esc. 200$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira e Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 + suplemento/destacável Computadores... & Vídeo (16 páginas) - Nº 6
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.
poster: Kenny Loggins (A3 a cores - centrais)


Grupos Portugueses
3. Mler Ife Dada - Ou A Harmonia Dos Contrários
por Luís Maio

«Talvez a natureza goste dos contrários e saiba deles extrair a harmonia, ainda que não se interesse pelos semelhantes; é por isso que une o macho e a fêmea e não relaciona os seres do mesmo sexo; compôs a concórdia original pelos contrários e não pelos semelhantes. Parece que também a arte, imitando a natureza, faz o mesmo. (...) A música misturando notas agudas e graves, longas e breves, consegue uma só harmonia em tons diferentes».
in «Do Mundo», autor anónimo contemporâneo de Aristóteles.



As produções artísticas da cultura ocidental, como expressão e reflexo da sua configuração, são francamente dualistas. Alicerçam-se no posicionamento de contradições, para se cristalizarem sob a forma de compromisso com um dos dois pólos antagónicos. Com a descoberta, em finais do século passado, das lógicas trivalentes, o edifício científico clássico estremeceu e foi obrigado a remodelar-se; todavia, ao nível do senso comum e da arte, a bivalência foi mantida como se nada se tivesse passado - a tríade princípio de identidade / não contradição / terceiro excluído conservou-se intacta na regimentação das formas de pensar desses dois domínios de expressão. esta situação verifica-se particularmente no nosso país. Basta dizer que, no emprego corrente da nossa língua, a partícula 'ou' não conhece praticamente o uso inclusivo, acepção em que é sinónima de 'e'. «Ou isto ou aquilo» significa invariavelmente que um dos disjuntos é para ser excluído. Mas não é só no plano do senso comum e da sua linguagem que este estado de coisas se constata entre nós - também a criação artística se subordina a tal engrenagem de pensamento. A nossa música popular é a esse nível particularmente elucidativa: ou se faz música convencional ou vanguardista, ou comercial ou marginal, ou alienante ou interventiva. Mas a terceira possibilidade, a que a lógica aristotélica interditou, é a que ninguém se tem atrevido a explorar. Surge agora uma leve esperança com o projecto musical dos Mler Ife Dada, grupo vencedor do primeiro concurso de música moderna no Rock Rendez Vous, e que também gravou recentemente um máxi-single de estreia, como prémio pelo sucesso alcançado naquele certame. O ponto de partida desta nova proposta é, como nos explicou Nuno Rebelo, na circunstância o representante do agrupamento, uma visão da realidade que se distancia sensivelmente das mais ortodoxas entre a classe dos músicos portugueses.
«Quer em relação à vida, quer em relação à música, divido as coisas em duas partes distintas: há o que é conhecido e corrente, e há o que é novo e invulgar. Não faz sentido cingirmo-nos a uma dessas parcelas, visto em qualquer delas ser possível encontrar pontos de interesse e motivos de prazer. No que é conhecido, na medida em que o é, pode-se seleccionar aquilo que já se sabe agradar-nos, o que se encontra já consagrado como fonte de prazer. No que é inédito, vale sempre a pena apostar, porque sentir o novo, pelo menos no primeiro instante, funciona por si só como razão de satisfação». Ou seja, embora supondo uma base bipolar, esta perspectiva não se define, como é mais frequente, tomando partido por uma das antíteses.No lugar disso, procura integrar e conciliar as duas simultaneamente, não resvalando para qualquer unilateralidade.



Em termos musicais, um dos termos do confronto, o usual, corresponde às formas sonoras a que o público se encontra mais habituado, aquilo que vulgarmente se diz ser agradável. Por seu turno, o outro, o inusitado, emerge musicalmente em projecções sonoras pouco divulgadas, ou em que o público não está suficientemente adestrado.
«a nossa música contsrói-se em função de elementos absolutamente díspares. Por um lado, procuramos fazer uma música bonita e agradável que entre facilmente no ouvido dos auditores mais familiarizados com o comercial. Mas, por outro lado, procuramos também que o nosso som inclua elementos de maior elaboração e complexidade, susceptíveis de cativar um público musicalmente mais culto e, nessa medida, necessariamente minoritário. A procura do mais convencional faz-se sobretudo ao nível das melodias, enquanto é no timbre e, no caso do disco, na produção, que a outra componente vem a ser mais desenvolvida. Tentamos assim chegar a um estilo misto capaz de ser apreciado por facções do público bastante diversificadas». Há portanto, nos Mler Ife Dada uma intenção de extrapolar do plano vivencial para o musical a ideia de uma harmonia pela tensão entre os opostos.
Mas uma tal harmonia não é conseguida, nem sequer possível, pela simples reposição estática dos polos antitéticos. Essa compatibilização aponta necessariamente para o cruzamento, para a fusão dinâmica dos termos de que se parte. Disso estão perfeitamente conscientes os membros da banda, cujas composições são elaboradas pelo jogo subtil que consiste em recriar cada um desses termos de modo a transmudá-lo no seu oposto: «às vezes pegamos em padrões musicais muito batidos, perfeitamente banalizados. Na maior parte dos casos, são melodias caídas em desuso, já apagadas da memória do público. Nestas circunstâncias, retomá-las pode ter um efeito insólito, porque tendo sido esquecidas, a sua reposição pode aparecer como novidade genuína».
Não há pois instâncias fixas para esta empresa musical ocupar o lugar do seu oposto; tudo é e não é, tudo é possibilidade de deixar ou de vir a ser.
Evidentemente, toda esta ambiência musical que se pretende criar requer uma concretização, um trabalho compositivo ajustado ao tipo de resultados que se pretende alcançar. Sobre este tópico, o porta-voz dos Mler Ife Dada revela-nos que o seu labor criativo segue uma metodologia contígua aos seus objectivos: «usamos duas estratégias criativas. Uma: ligamos a caixa dos ritmos, escolhemos um tema base e sobre ele improvisamos. Outra: fazemos uma linha de guitarra ou de baixo e improvisamos a partir dela. Num ou noutro caso, gravamos o resultado, que ulteriormente será trabalhado até atingir uma forma mais definitiva. Note-se, todavia, que uma vez a canção acabada, mantém-se sempre um espaço, mais ou menos delimitado, para a improvisação.».
Como vimos, eles pretendem conciliar o habitual e o insólito. Mas, o habitual não precisa de ser procurado - está ali, nos temas dados pelas caixas de ritmos e nos acordes preparados pelas violas. Em contrapartida, o insólito necessita de despontar do acaso - ele requer a espontaneidade do improviso.
Eis como se atinge uma coincidência plena entre a inspiração conceptual e a concretização na obra produzida. Note-se, todavia, que a improvisação também pode funcionar como factor de repetição, enquanto o refrão pode preencher o lugar oposto, ou seja, o papel inovador. De facto, nesta música não há posições pré-determinadas, há sempre uma saudável instabilidade que nunca conduz à obstrução da vontade de criar e ouvir, porque não há nenhuma meta definitiva que ela se proponha atingir.
É claro que também se pode levantar a questão: onde será que esta música se expande mais directamente? Através do disco ou da actuação ao vivo? A pergunta posta a quem é não faz sentido, porque supõe a subvalorização de um dos termos em detrimento do outro, o que por princípio é recusado pela pessoa a quem é endereçada. São ainda as reminiscências dos vícios dualistas que nela se esbatem, mas importa ultrapassar: «É preciso fazer notar a grande diferença entre uma canção apresentada num concerto e executada num disco. O disco é feito essencialmente para ser ouvido à medida que o tempo passa, enquanto o concerto é mais imediato, tem a dimensão do acontecimento circunstancial. Por isso, a canção ao vivo tem de ser dirigida aos sentidos à maneira de estar momentânea; em contrapartida, quando ela é para aparecer em disco, tem de ser mais trabalhada, para poder atingir a longevidade. Todavia, apesar das diferenças, uma e outra formas de exposição completam-se e interpenetram-se, não havendo pois que desqualificar ou privilegiar uma única».
Talvez um dia, quando os músicos portugueses conseguirem resolver os dilemas de afirmação e de identidade, possam seguir este exemplo de superação da sua lógica simplista que é encarnado nos Mler Ife Dada.




Finalmente!...
Cocteau Twins e This Mortal Coil
Desde a edição do máxi «Song To The Siren» de This Mortal Coil que pairava no ar uma reclamação em surdina: e o resto? Cocteau Twins e o álbum «It'll End In Tears»? Afinal fomos surpreendidos com a edição de ambos: «Treasure» dos Cocteau Twins e «It'll End In Tears» de This Mortal Coil. Já não há motivo para renegar a nacionalidade. Portugal já pode comprar o melhor som da Grã-Bretanha, e mesmo da música popular.


O motivo por que se junta estes dois grupos numa só prosa, parece-me óbvio: LIZ FRAZER. Com efeito esta senhora passa por ter uma das melhores vozes actuais, e não é impunemente que isso acontece. Eu diria mesmo que Elizabeth Frazer é uma das melhores cantoras de sempre.
Mas este artigo não é sobre Frazer, porque ao referir Cocteau Twins ou This Mortal Coil está-se obrigatoriamente a falar dela. Esclarecida a situação, adiante.
A música «pop» está velha de trinta anos. É impossível fazer algo de novo, sem que não surjam referências já conhecidas. No entanto, é possível ainda reinventar sonoridades, reconverter fórmulas e reintegrá-las num todo inexplorado. Isto trocado por miúdos significa que com imaginação e muito talento consegue-se ser diferente, e mais do que isso, melhor. É claro que isso é privilégio de poucos, mas entre esses, encontram-se Cocteau Twins e This Mortal Coil, dois «primos» dentro da mesma companhia - a 4AD - pertença de um homem idealista e visionário, Mr. Ivo, uma peça-chave nesta história. Foi ele o responsável pelo nascimento de This Mortal Coil, ao recrutar para o Blackwing Studio, vários músicos ligados à sua editora. Deram o seu contributo para a sessão Michael Conroy (baixo) e Gary McDowell (guitarra) dos Modern English; Elizabeth Frazer (voz) e Robin Guthrie (guitarra) dos Cocteau Twins; Gordon Sharp (voz) dos Cindytalk; e Martin Young (teclas) dos Colour Box. O resultado veio em doze polegadas memoráveis. «Song To The Siren», um original de Tim Buckley é revelador da validade do projecto de Ivo, mercê de uma interpretação inesquecível de Liz Frazer. A onda de choque provocada pelo disco alarga-se a Portugal, que a partir daí passa a ser fiel seguidor da obra de This Mortal Coil. Não é por acaso que «It'll End In Tears» conviveu várias semanas com Wham, Alphaville, Scorpions e quejandos, na tabela dos vinte discos mais vendidos. Em que outro país isso poderia acontecer? Além de que essa estadia no «top» possibilitou a visão fascinante de Liz Frazer a cantar «Song To The Siren» num verdadeiro «anti-clip».
Em «Acabará Em Lágrimas» compareceram de novo Robin Guthrie, Gordon Sharp, Liz Frazer e Martin Young, e pela primeira vez, Robbie Gray (Modern English), Lisa Gerrard e Brendan Perry (Dead Can Dance) e Mark Cox (Wolfgang Press). «Another Day» de Roy Harper é revisitado por Liz Frazer com espantosa delicadeza, transformando-o no melhor tema do álbum.
Lisa Gerrard por seu lado não deixa em branco a sua contribuição: dois temas, «Waves Become Wings», e «Dreams Made Flesh» são uma pequena amostra do que Lisa é Capz. Ainda a destacar a repescagem de dois temas de Alex Chilton, «Kangoroo» e «Holocaust», sobriamente cantados por Gordon Sharp. Álbum muito heterogéneo, de um não menos heterogéneo grupo, «It'll End In Tears» inclui ainda temas de Rema-Rema, e do colectivo This Mortal Coil. E tal como é tradição e orgulho da 4AD, a capa é uma pequena obra de arte, da autoria de «23 Envelope».

Gémeos

Cocteau Twins estando muito próximo de This Mortal Coil, segue no entanto outro caminho. Sendo também um colectivo de três pessoas, que assina todos os discos e músicos, simplesmente como Cocteau Twins, sem nunca existir referências a nomes, os Twins possuem um trunfo que falta a T.M.C. - Liz Frazer a tempo inteiro.
Frazer personaliza indelevelmente o som Cocteau Twins. E embora no início fossem acusados de cópia de Siouxsie And The Banshees (com algum fundamento), hoje os Cocteau Twins ultrapassaram por completo essa influência. Liz Frazer, que se diz usar uma tatuagem de Siouxsie no braço, suplantou largamente a sua musa, em todos os aspectos, inclusive, o canto de Liz é muito superior ao da líder dos Banshees.
A edição no nosso país de «treasure», o mais recente álbum do grupo, datado de 1984, constitui um marco nas edições discográficas nacionais, arriscando-se desde já, a ser o melhor disco do ano. Para trás, ficam dois outros álbuns, «Garlands» e «Head Over Heels», e o espantoso 12 polegadas «Pearly Dewdrop's Drops». A última produção do trio chama-se «Aikea-Guinea», um máxi-single, colocado semanas a fio na chart independente da Grã-Bretanha. Se «Treasure» é um precioso e raríssimo tesouro, para guardar cuidadosamente como quem guarda uma jóia, «Aikea-Guinea» é uma dádiva dos Twins aos seus adeptos. Contendo quatro temas este máxi exala a mesma atmosfera de «Treasure», perpetuando o invulgar esquema rítmico dos Twins, e fazendo justiça, ao fabuloso jogo de guitarras acústicas e eléctricas com o piano, há que destacar «Aikea-Guinea» e «Quisquose». O clima onírico de sons e palavras, cantado por Liz Frazer podia ser operático («Kookaburra») ou tão perfeito como uma arte decorativa («Rococo»). Em «Quisquose» percorre todo o seu manancial vocal, que vai de Siouxsie a Kate Bush, numa reminiscência de «Persophone» do álbum «Treasure».
E se no álbum, «Aloysius», «Domino», «Ivo» (uma dedicatória ao «boss») ou «Lorelei» são momentos difíceis de ultrapassar, pensava-se, «Aikea-Guinea» desmente-o à primeira audição. Depois destes discos, tudo pode acontecer na música popular. Até capas tão excelentes como estas.
Célia Pedroso



Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. 15º Festival Cascais-Jazz - reportagem e textos de Trindade Santos - Fotos de Fernando Peres Rodrigues
. Discos em Análise:
.. Associates - «Perhaps» [WEA 229240497.1, por Luís Maio
.. José Mário Branco - «A Noite» [UPAV-001], por Luís Maio
. Rock Em Família - The Moody Blues, por Fernando Matos




12.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (45) - ...Da Frente - Nº 4 - Abril/Maio de 1985


... Da Frente
34 páginas A5 p/b
Nº 4 - Abril / Maio 85
40$00 (quarenta escudos)




Editorial
Confessamos a ausência dizendo-vos que ela nos foi quase mortal.
Para muitos, terá sido o neófito da tranquilidade. Não pelo pressuposto sentido de que a nossa escrita incomoda, ou faz tremer alguns alicerces ideológicos sobre a música popular, mas porque temos um lugar definido, ou uma terra própria, se assim lhe quiserem chamar.
Gloriosamente para nós, a tenebrosa Vontade e o Amor que temos pela matéria e sentimento defendidos (uma mística, às vezes necessariamente dogmática) dá-nos um fôlego de raiva e de novas provas a criar. É a loucura (fé) de querer jogar um corpo frágil, perante cegos e filisteus.
Que fique pela eternidade escrito e entendido que nunca houve cultos de superioridade. Não andamos a vender crenças por uns míseros votos de diferença (economicamente rentáveis). O que possuímos é definitivamente pessoal. Podem alguns ter náuseas pela nossa arrogante disputa, mas temos seguramente a honestidade do nosso lado. Somos imperadores do nosso desejo. De qualquer forma, é aos outros que apixonadamente nos dirigimos, aos amantes que sempre perseguiram este encontro.
Vamos tomar formas mais reais e dar solitude à separação que trazemos guardada, aos barcos ancorados que pela memória de todos os dias aguardam a ordem e o canto final. Fica a promessa, e o nevoeiro, que cabe a nós dissipar.

Responsabilidade de edição: Musiconovistas de Portugal
Grafismo e orientação estética: João Carlos I. Reis
Algumas imagens (pinturas) originais: Paulo Veríssimo
Fotografia e imagenm - colaboração: Fernando Santos Marques, Luís A. L. Freixo e Maria Augusta Nunes.
Impressão: offset Repro 2000, Campo Grande - Lisboa
Tiragem total do número anterior: 600 exemplares
Preço de cada exemplar via CTT: 40$00 + selo de 16$00
Informações: tel. 9811166 (de segunda a sábado entre as 14h e as 15h - rede de Lisboa)
Correspondência e colaboração: Apartado 235 - 2675 Odivelas
Rua Doutor Sousa lote 1, 2º dto. - 2300 Tomar
Apartado 420 - 40007 Porto Codex

Nota: a edição de '...DA FRENTE' é aperiódica
. sem intuitos comerciais

Pontos de venda:
Odivelas: Livraria Semântica, Rua D. Dinis
Lisboa: Tabacaria Mázi no C. Comercial Imaviz; Tabacaria do C. Comercial Apolo 70; Livraria Castil no C. Comercial de Alvalade
Porto: Livraria Bertrand e Discoteca Parágrafop no Shopping Center Brasília; MC/Discoteca, Rua Passos Manuel; Discoteca Tubitek, Praça D. João I; Papelaria O Cachimbo, Parque Residencial do Luso/lima 5; Musitek no Centro Comercial de Ermesinde
Tomar: Os Nossos Amores - Fotocópias, C. Comercial Templários.

Conteúdo (entrevistas, artigos, textos, poemas e reportagens)
GNR
Cocteau Twins
This Mortal Coil
Dalis Car
The Smiths
Novo Rock Ao Vivo - II Ciclo no Porto
Leonard Cohen
Tones On Tail
Lista da Frente - nº 0
Bauhaus
Ezra Pound e a Loucura
Han-Hau e Deus da Guerra: nomes para uma outra realidade encarnada
Dos Crepúsculos
. «cilada»
Tom Waits
Soltas
. The Cult; Once in a Blue Moon; Green on Red; Julian Cope; Cocteau Twins
1984: música nova, em balanço
O Corpo Bauhaus
Rita Mitsouko
Jad Wio
Echo & The Bunnymen
O Lirismo
. violação orgástica
Os Afluentes Belgas
Art Of Noise

This Mortal Coil
Vale A Pena Amar

Quando em Portugal foi editado o primeiro máxi dos This Mortal Coil, o coração de muitos apaixonados foi finalmente acalmado, contudo hoje está de novo exaltadio, e mais do que nunca por causa de "It'll End In Tears" (LP), já para não falar da outra pérola "Kangaroo" (EP. Funcionando sem base fixa, senão aquela que vem de Ivo (mestre da 4AD), os TMC são a natureza de um luar ilimitado pela paixão. Os símbolos celestes são nossos, face à quebra daquele muro sombrio que os amantes do heavy montam na beleza crepuscular dos raios finos da fé. Amar os TMC, é amar o nada e amar o tudo. É viver como ospoetas, num enigma que os enaltece. À simplicidade predisposta assume-se linguagem sonhadora e melancolia própria da alma.
O princípio dos sons é o fim das nossas ansiedades. Um momento apenas transporta-nos ao silêncio da noite, uma curta audição acrescenta ao momento vivido, minutos vários de beleza e de sonho, como um sussurro.
Amar as folhas que nascem na primavera é amar o eco dos jardins dos sons, amar as janelas entreabertas por onde saem os sons sem fronteiras da nossa escolha.
Fernando Marques

Lista da Frente
Ainda a título experimental, esta é a primeira LISTA DA FRENTE nº 0, resultado das primeiras indicações preferenciais que recebemos. Sem se enquadrar no carácter repetitivo e vicioso dos tops, a LF é no entanto, e necessariamente, um esquema ordenado de temas/canções.
Continuem a enviar cupões, distinguindo os '10' da vossa preferência entre o ano de 1980/85...
. Perfomance / Tones on Tail
. Faith (live / The Cure
. Head Hang Low / Julian Cope
. The Killing Moon / Echo & The Bunnymen
. Song to The Siren / This Mortal Coil
. Atmosphere / Joy Division
. Ivo / Cocteau Twins
. Slice Of Life / Bauhaus
. Red Army Blues / Waterboys
. Real Around The Fountain / The Smiths
. Thieve Like Us / New Order
. Stars Are Stars / Echo & The Bunnymen
. It Ain't Necessarily So / Bronski Beat
. Sixteen Days - Gathering Dust / This Mortal Coil
. Passion Of Lovers / Bauhaus
. Walk Away / Sisters of Mercy
. Love My Way / Psychedelic Furs
. Bad / U2
. Instincts / Romeo Void
. Real Life / Tones On Tail
. Lorelei / Cocteau Twins
. Spiritwalker / The Cult
. The Power Of Love / Frankie Goes To Hollywood
. 2000 Light Years From Home / Danse Society
. I Know Is True But I'm Sorry To Say / Violent Femmes
. New England / Billy Bragg
. Ceremony / New Order
. Love Cats / The Cure
. Porta do Sol / Sétima Legião
. Love Song / Simple Minds
. The Eternal / Joy Division
. Each And Everyone / Everything But The Girl
. O Slow Que Veio Do Frio / Grupo Nove De Rock (GNR)
. Take My Hand / In Tua Nua
. Close To The Edit / Art Of Noise


1984: música nova, em balanço
Esta lista não é a prova definitiva dos grandes nomes de 84.
Será antes a imagem das paixões que nutrimos, com a ingratidão de não podermos ter amado e julgado todas as obras que de facto o mereceram.
LÁ FORA

                                                                  Morrisey, The Smiths

. grupo - The Smiths
. revelação - The Smiths - alternativa: Everything But The Girl
. esperança - Very Things
. decepção - David Bowie
. canção/tema: Venceremos / Working Week
    alternativa: 1. Take My Hand / In Tua Nua
           2. Free Nelson Mandela / Special A.K.A.
. disco - Treasure / Cocteau Twins
    alternativa: 1. From The Gardens Where We Feel Secure / Virginia Astley
           2. Who's Affraid Of... / Art Of Noise
. vídeo - Pictures On My Wall / Echo & The Bunnymen
    alternativa: 1. A Factory Vídeo / Vários

PORTUGAL

                                                              R. Reininho, GNR

. grupo - GNR
. revelação - Ocaso Épico
    alternativa: 1. Neo-Mono-Var
. esperança
. decepção - Heróis do Mar
. espectáculo - Echo & The Bunnymen
. canção/tema - Porta do Sol / Sétima Legião
    alternativa: 1. Muçulmania / GNR
           2. Pois Que Deus Assim O Quis / Sétima Legião
. disco - A Um Deus Desconhecido / Sétima Legião

O Lirismo
violação orgástica

Vamos ter piedade dos doentes e dar-lhes a ordem!
Morte aos piedosos!
Deixem-me! Deixem-me espalhar o terror!

As mães belas ainda desejadas
e o pai belo possuir o seu corpo

Patricidas e matricidas; incondenáveis
imperadores do crime; matá-los quem queira

Amar um pai nunca é tão importante
como dormir em cemitérios incendiados

Há quem deseje para si o nevoeiro e a violação
A beleza é tão grande que não caberá no céu

Porque a atmosfera se ufana de flores e gatos
nas bolhas de sal há duendes longínquos

Longe a Britânica e deus merece piedade
um filho amava os seios e vagina da mãe

um filho acidental
é o único que sabe dormir em luas e pianos
HUITZILOTPOCHIL
Jorge Ferraz Martins




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