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10.6.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (215) - Factory #10


Factory
Nº 10
ABRIL-JUNIO 1996
700 PTAS.

ESPANHA
68 páginas
formato A4 (um pouquinho maior)

interior - papel grosso e a p/b
Capa a cores



Coil
A Sombra No Espelho
O Sol Negro ilumina as criações de um projecto insano, surgido da visceralidade mais extrema.
Radicalismo post-industrial embebido em atmosferas obscuras e mananciais de águas turvas. Sangue de cenobites, banhos de terror e paixões intensas, dolorosas e muito perigosas


Génese
Em 29 de Maio de 1991 "The Last Live Perfomance Of T.G." pôs ponto final a um dos eventos mais violentos dos últimos trinta anos. Que o techno-pop está em dívida perpétua para com os Throbbing Gristle não é de todo rigoroso, pois, ainda que, considera um dos seus fundadores, Chris Carter, um génio do género, o motor que os impulsionava era bem distinto, mais perto da violência e da virulência que dos traçados musicais. A equação de ruído, arte e música que desenharam não pode ser resolvida através da sua continuação lógica: Psychic TV. Engendrados pelo extremado, mas não extremista, Genesis P-Orridge e o factor técnico dos Throbbing Gristle, Peter "Sleazy" Christopherson, o discurso derivado trazia terrenos menos criativos; The Temple Ov Psychick Youth era a Bíblia de não se sabe bem o quê, dos desvarios de Genesis. Uma postura tão firmemente impactante que se esgotou depois de um par de discos, enquanto uma diminuta célula crescia à margem do dogma.
John Balance era um rapaz homossexual de Brighton sem passado algum e com vocação de groupie. enamorado da violência mental com que o sacudiam os Throbbing Gristle, decide contactar com eles. As relações estreitam-se e Christopherson é convidado para as sessões de "Heathen Earth", nas quais participa episodicamente. Uma vez dissolvida a banda, Balance entra para a formação dos Psychic TV, mudando-se para Londres e partilhando a morada com Sleazy. A relação entre ambos vai avançando através dos gostos comuns pela simbologia, pela magia negra e pelas ratas que tinham em casa como animais de companhia. Sleazy, porém, gastava tempo no negócio, desde que a partir dos anos setenta trabalhava para a Hypnosis, uma companhia de desenho de capas de discos que trabalhou para os Pink Floyd ou Led Zeppelin, por exemplo. A soma de ambas as forças adoptou o nome de Coil, ainda que os seus primeiros trabalhos só incluíam John Balance (Peter Christopherson só se incorporará no grupo em 1984): uma série de cassetes de limitadíssima tiragem e temas em diversas compilações, alguma coisa na etiqueta Power Focus, que meses antes havia sido montada pelo próprio Balance com a intenção de trazer à luz algumas sessões live dos Throbbing Gristle.
No princípio, Coil nasceu como um projecto com forte tendência para a perfomance, necessidade que se foi apagando ao longo do tempo. De facto, desde que em 1984 se consolidam como um duo com a terapia de "How To Destroy Angels", a rejeição dos cenários apareceu como pressuposto e naturalmente. A gravação em si consistia numa montagem de sons não precisamente musicais e insignificantes com a finalidade de obter um todo em que aí sim se poderia colocar o rótulo de "música". "How To Destroy Angels" e, por extensão, toda a obra dos Coil supõe um ponto de intersecção entre uma maneira muito funcional de entender a música e a reafirmação teórica da mesma. Premeditado ou não, Coil, juntamente com o trabalho de músicos como Current 93 ou Steve Stapleton, abriram as portas a um mundo que não se partia de permissa alguma relacionada com o circuito rock, incluindo o alternativo. 95% inacessível se desejas que a música te ofereça o que esperas dela, nem mais nem menos; desde logo, como muitos pensarão de pois de escutar o disco, actua como um excelente relaxante no banho, abre os poros e alivia as tensões, além de ilustrar além de mostrar um ritual em que nem todos participamos. Na altura da sua edição, o selo Laylah só lhes financiava um 12". A reedição em 1992 recupera as sessões em toda a sua extensão, com design exclusivo de Derek Jarman e remisturas de Steve Stapleton, um tipo conhecido pelas suas colagens sonoras como Nurse With Wound, os seus desenhos de pénis para as capas de discos de Whitehouse ou dos próprios Coil e, assombrem-se, algumas colaborações com os Stereolab.

Génese Escatológica
Os primeiros espectáculos da banda confirmam-na como uma das propostas mais subversivas que estavam a aparecer no Reino Unido. Além disso, os Coil não eram uns desconhecidos. Quem não tinha seguido a sua trajectória anteior dizia que sim com a cabeça quando descobria este seu companheiro de excessos estéticos: Marc Almond. Até "Love's Secret Domain" (Threshold House, 91), o ex-Soft Cell colaborou em quase todas as aparições dos Coil, desde perfomances, em que recitava poesia, enquanto Balance aplicava baldes de sangue sobre o cenário, até papéis predominantes em vídeo-clips. A versão que fizeram de "Tainted Loved" era acompanhada por um vídeo que jogava com a estupidez britânica e deixava de rabo no ar a distribuidora do seu material em São Francisco. O tema não era outro que não a sida, com a notável diferença que que ao enfermo se negava a esperança e a piedade, com um Marc Almond desempenhando cinicamente o papel de Anjo da Morte. A distribuidora interpretou tanta confusão como uma postura anti-gay, o que despertou a sua ira, ao ponto de boicotarem todas os produtos da Wax Trax! (distribuidora nos EUA). Logicamente, tiveram de entrar em tribunal para comprovar como os royalties da produção iam parar a uma associação que estava a trabalhar em programas de investigação sobre a sida, a Terence Higgins Trust. Ainda assim o trabalho cumpriu os seus objectivos: a estultícia e a hipocrisia do negócio ficou patente. Máxime, se tivermos em conta que o vídeo, realizado por Sleazy, pôde ser visto por 35 milhões de espectadores, alcance que era o da TV por cabo na altura em que Steve, chefe da Some Bizarre e uma das pessoas que mais confiaram nos Coil, o emitiu num dia de 1984.
"A única coisa que há a temer é o medo em si mesmo". Era esta a mensagem de "Panto", que foi single do LP "Scatology" (Force & Form, 84), quiçá uma das peças mais directas e de menor conteúdo estético de toda a sua obra. "Scatology" foi concebido como um disco multi-conceptual, polvilhado com partículas com vida própria e história intransferível, que convence, quiçá pela sua habilidade descritiva, mais do que pelos seus argumentos ideológicos. A pureza das ideias e o sacrifício corporal são postos a nu perante a violência do som, suportada por todo um sistema icónico propriedade de satanistas como Alistair Crowley ou cosmólogos alucinados como Austin Spare. Concretamente de Crowley nasceu o símbolo do Sol Negro, uma ferramenta de ritualistas em que inclusivamente participaram grupos como All About Eve ou The Shamen na hora de desenhar as capas dos seus discos.

O Apocalipse De Uma Génese
Se "Sactolgy" resultava numa obra rica em conteúdo, mas dificilmente obtinha a cumplicidade do fan, "Horse Rotorvator" (Force & Form, 86) rompe a distância e erege-se como um disco de cabeceira. Po r aquela altura, o duo é convidado por um amigo a passar uma temporada na Tailândia, onde afirmam ter descoberto métodos mais satisfatórios para trabalhar o espírito. A partir dali também tiraram as toneladas de lirismo em bruto que que posteriormente filtraram em "Horse Rotorvator". Sem cair em demasiados efeitos, um dos mais bonitos que escutei deles, até aí. Foi o meu primeiro encontro com a banda e lembro-me de ter caído e adulador perante a lenda que acompanhava o vinilo. Que podia esperar-se daquilo? Salmos de apocalipse, relatos de um Marc Almond mascarado como Raoul Revere, abusos de Foetus, títulos como "Ostia", "Tha Anal Staircase" ou "The First Five Minutes After Death", a versão de "Who By Fire", de Leonard Cohen, e uma fotografia capazes de amortizar qualquer decepção depois de escutá-lo. Não havia tal coisa. Juntamente com "Eskimo" dos Residents, as almofadas de terror mais paralisantes que recordo. Creio que os Coil conseguiram dar um passo mais além do alcance que poderiam ter companheiros de (des)geração como Foetus ou Diamanda Gàlas. É uma aptidão que nem todos possuem; como William S. Burroughs, as suas ideias sempre avançavam até um milímetro adiante daquelas que tu poderias imaginar. Imagine um mundo aparentemente razoável, aparentemente bonito, mas sustentado em cimentos repulsivos, no caos, na negação de todo o real. E, no fundo, "Horse Rotorvator" recorre a bandas sonoras de filmes que cremos ter já visto mas que nos são impossíveis de recordar, como pesadelos cercando a memória e uma de cada vez no tempo. O disco contou com a colaboração de Stephen E. Thrower (ex Possession) dentro do grupo.
A compilação "Gold Is The Metal (With The Broadest Shoulders" (Force & Form, 87) multiplica a atracção ao recuperar incunábulos cantados por Sleazy, como a miniatura "Boy In The Suitcase", outtakes dos LPs anteriores e as bases sonoras sobres as quais desenvolveram outros temas mais conhecidos. Numa linha arqueológica similar desenvolve-se outra pérola, "Unnatural History" (Threshold House, 90), que acaba de ver editada a sua segunda parte, "Stolen & Contaminated Songs" (Theshold House, 93).



O Inferno De Uma Génese
Em Hollywood andava-se atrás de uma ideia de realizar um filme de terror baseada no guião de "Hellraiser". O escritor-realizador Clive Barker, com o encargo nas suas mãos e alertado das tendências dos Coil, vai ao apartamento da dupla em Londres com o fim de obter material para ilustrar a película. Barker desejava que o filme fosse repulsivo, e nada melhor que revistas sobre perfurações, relatos extraídos de "Maldoror", de Lautremont, e material pornográfico abundante. Pensando num complemento ideal, persuade a produtora para que os Coil se encarreguem da banda sonora, mas quando a cassete chega a Hollywood a devolução não se faz esperar.Devolveram a cassete obrigam Barker a refazer muitas das cenas do filme, sobretudo modificar as abundantes cenas de sexo explícito. Multiplicam o pressuposto por dez e, com a intenção de controlar o produto, trasladam o cenário para os Estados Unidos. Pouco depois, os Coil editariam um mini-LP com a música rejeitada do filme.
A série de acontecimentos falhados com o cinema continuará com a adaptação que foi realizada por David Cronenberg da novela de Burroughs, "O Festim Nu". Quando a companhia de Burroughs se inteirou do projecto contactaram os Coil, por ordem expressa do escritor. Contudo as portas de Hollywood mantiveram-se fechadas a sons tão esotéricos. Além disso, a intenção de Cronenberg era contar com o seu habitual Howard Shore para a banda sonora.
No final, os canis para conduzir o trabalho fazia um cinema de conotações gays. Com Jarman, as posturas eram mais próximas, tanto no forte conteúdo estético de ambas as obras como pela sua militância homosexual, ainda que as colaborações se cinjam quase exclusivamente à música do seu quarto filme, "The Angelic Conversation". Gravado em 1985, a banda sonora não seria editada durante dez anos. O resto é composto por um curto exercício de cut-up ("Disco Hospital") que levariam a "Blue", o último testemunho de um Jarman enfermo de sida, dirigido poucas semanas antes de morrer e já totalmente cego. Em troca, com Gregg Araki, a postura dos Coil não foi tão vinculativa nem comprometida. Um tema sujo aparece tanto em "The Living End" como na volta heterosexual que deu o realizador com "Maldita Generación", um suplício saturado de pretensiosismo que nem a selecção de termas consegue salvar do descrédito.
A Terence Higgins Trust, no seu labor de difusão de vídeos não adequados a menores, encontrou um recipiente mais lúcido para a música dos Coil. Contaram com eles para elaborara o "guai de sexo seguro para o homem gay", de que uma versão heterosexual chegou a distribuir-se por escolas, respeitando o muzak original dos Coil. A série continuou com outro manual de apoio sexual: "como satisfazer o seu par usando utensílios de cozinha".

Lucy In The Sky With Diamonds
O maxi "Windowpane" a o primeiro anúncio da ressurreição depois dos quatro anos que passaram de "Horse Rotorvator". O LP "Love's Secret Domain" parece unicamente um ponto de inflexão. Haveria que esperar por "The Snow EP" para observar a trajectória que aponta a curva em sentido contrário. Voltamo-nos para um novo conjunto de pequenos conceitos extraídos das teorias astrológicas de Austin Spare e do seu consequente poder sobre as pessoas. é o que denominam como o início de um novo ambiente, o som sideral. Este som, não muito bem definido todavia em "Love's Secret Domain", conseguirá a sua máxima expressão nos doze minutos de experimentação que incluirão na compilação "Chaos In Expansion". É "Love's Secret Domain", em troca, um disco technicolor onde se aprecia um esforço de investigação das possibilidades da técnica para confeccionar música e não fotografia de estados psicológicos terminais. A audição resulta muito mais hedonista, ainda que não amável, com os Coil centrados em sensações desenhadas pelas drogas (daí o jogo das iniciais do título do disco), como em sentimentos mais mundanos. As canções correm serenas, sem textos complementares nem prédisposição alguma para a sua escuta, o que é uma excepção até agora irrepetível. A sua prometida continuação ("International Dark Skies"), que era para contar com as colaborações de Burroughs e Tim Simenon (Bomb The Bass), parece ter ficado na gaveta.

Trance Como Dança
Um dos temas de "Love's Secret Domain", "The Snow", destacava-se do resto pela sua invocação inata de um deep listening, termo que os Coil utilizavam para descrever um lento estado de hipnose no ouvinte provocado por atmosferas rítmicas que fluem num segundo plano dentro da canção. Referências que podem ver-se reflectidas no trabalho de Mick Harris com os Scorn, muito fielmente desde "Evanescence"; inclusive desde a época dos Napalm Death, tanto Shane Embury como ele têm vindo a reafirmar a sua admiração pela capacidade dos Coil para recriar ambientes fronteiriços com extremismo em todas as suas encarnações.
Para realizar as remisturas de "The Snow" convidaram Jack Dangers (Meat Beat Manifesto), que é quem o faz em duas das seis que formam um EP diametralmente oposto ao que se poderia esperar dos Coil.Agora mesmo, tendo em conta o ostracismo a que têm sido relegados dentro da obra dos Coil, o EP cumpre dignamente o papel de referência de toda a corrente hardcore-techno de há quatros anos a esta parte.
Também por ampliar o leque de fans dentro da música industrial e exercer influência saudável em grupos como os Nine Inch Nails; DE facto Trent Reznor conseguiu parte da mediocridade da sua banda com a remistura que Christpherson fez para "Gave Up". Por graça divina, Reznor não lhes devolveu o favor e os Coil, com a mensagem esgotada e a mente posta noutras paragens, decidem dar nova volta de 180 graus.
Os Coil passaram a última parte do século debaixo do signo da abstracção. Com a Wax Trax na bancarrota, absorvida posteriormente pela TVT Records, decidem criar a sua própria editora, a Eskaton, e adoptar diferentes pseudónimos para realizar um trabalho autogestionado na sua totalidade e sem um passado a que prender-se. A primeira referência da etiqueta parece ser um EP repartido com um grupo desconhecido, de nome Elph. Dentro do disco, duas vertentes muito definidas: um tema, "Protection", dirigido aos clubes, e três esboços cubistas à beira da irritabilidade. Após pequenas pesquisas pode concluir-se que por detrás dos Elph não existe nada tangível, apenas um começo e um novo aparte: o do epitáfio de "Protection". Os outros três temas têm a sua continuação em "Worship The Glitch"; minimalista, esquivo, ambiental, sintético, elaborado com o apoio de Drew McDowell, quem, com a saída de Stephen E. Thrower e Otto Avery (que fez parte dos Coil na época de "Love's Secret Domain"), se converteu no terceiro elemento da banda. Uma tendência reforçada com a sua participação no disco de remisturas de Chris & Cosey ("Twist") aparecido há uns meses. As novas máscaras dos Coil (Black Light District, Backwards,...) são incógnitas de que ainda não temos informações explícitas. São os avais, quiçá o último esforço, que os Coil oferecem 'para preservar o nosso isolaconismo' (John Blanace).

Discografia
Resenha das primeiras edições europeias; existem edições posteriores de quase todos os discos com novas versões e temas acrescentados; nos Estados Unidos o material só pode ser distribuído pela Wax Trax. Todas as referências são LPs salvo explicitação em contrário.
"Transparent" - Cassete como Zos Kia (Nekrophile Records, 83)
"How To Destroy Angels" EP (Laylah Anti-Records, 84)
"Panic" / "Tainted Love" 12" (Force & Form, 84)
"Scatology" (Force & Form, 84)
"Nightmare Culture" EP como Sickness Of Snakes (Laylah Anti-Records, 85)
"The Anal Staircase" EP (Force & Form, 86)
"Horse Rotorvator" (Force & Form, 86)
"The Unreleased Themes For Hellraiser" 10" (Solar Lodge, 87)
"The Whee" 7" (Threshold House, 87)
"Gold Is The Metal (Whit The Broadcast Shoulders" (Force & Form, 87)
"Penetralia II" 7" (Shock Records, 87)
"Unnatural History" (Threshold House, 90)
"Wrong Eye" 7" (Shock Records, 90)
"Windowpane" 12" (Threshold House, 90)
"Love's Secret Domain" (Threshold House, 91)
"The Snow" EP (Threshold House, 91)
"Is Suicide A Solution?" 7" (Clawfist, 93)
"Theme For Derek Jarman's 'Blue'" 7" (Threshold House, 93)
"Stolen & Contaminated Songs" (Threshold House, 93)
"The Nodding God Unveiled" CD 5" como The Apocalyptic Folk (World Serpent, 93)
"The Angelic Conversation" (Threshold House, 94)
"The Gay Man's Guide To Safer Sex" (Music From The Vídeo) Cassete (Threshold House, 94)
"Nasa Arab" 12" (Eskaton, 94)
"Protection" CD-EP como Coil vs Elph (Eskaton, 94)
"Philm" 10" como Elph (Eskaton, 95)
"Worship The Glitch" como Elph vs Coil (Eskaton, 95)
"Unnatural History II" (Threshold House, 95)








11.2.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (159) - Factory #13


Factory
Nº 13
ENERO-MARZO 1997
700 PTAS.

ESPANHA
68 páginas
formato A4 (um pouquinho maior)

interior - papel grosso e a p/b
Capa a cores


Whitehouse
Não É Preciso Que O Peças Por Favor

Se a tonta Sandy ("Blue Velvet") ouvisse os Whitehouse de certeza que repetiria a sua frase favorita: "É um mundo estranho". Então, ressoaria uma das gargalhadas mais escandalosas que haveis podido ouvir em toda a vossa vida, a de William Bennett.

Mas não, Sandy nunca o dirá porque ainda que as suas obsessões (e sentido de humor) possam ser similares, lá onde David Lynch envolve as suas numa patine de mistério fetichista visualmente atractivo para consumo massivo, com  caução pseudoculta e pseudokitsch para comodidade e alívio do espectador, que não se sentirá ameaçado nem reflectido, o monstro criado por William Bennett faz mais de quinze anos que as apresenta com toda a sua crueza: directo, agressivo, terminal, extremo, incómodo para esse mesmo espectador que agora se sente vítima. Como certeiramente descreveu um dos seus membros, Philip Best: "O conceito dos Whitehouse é o prazer. Prazer para nós, ainda que às custas de outros".

"Sempre tive a fantasia de fazer um som que podia machucar o público, submetê-lo. Inspiraram-me grupos como os Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire e outros discos dos anos setenta, uns raros de Yoko Ono e coisas assim; mas mesmo isso era insuficiente", explica William com um sorriso que pode estalar a qualquer momento. Custa imaginá-lo a tocar a guitarra em Essential Logic. "Gravei aquele single - "Wake Up" - quando tinha uns dezassete anos. Queria meter-me na música, mas não conhecia nada de música esquisita. Foi depois, ao tocar guitarra com os Lora Logic, quando conheci Daniel Miller (Mute Records). Fomos em digressão, e o Daniel mostrou-me música estranha da Alemanha dos anos setenta, electrónica; levava-me à casa de Genesis P-Orridge e tudo isso. Conheci essa música através dele. Já então me cansava muito o rock. Ou seja, para mim, sobretudo quando os Sex Pistols... Parecia-me um grupo bom, mas teria de ser o último grupo de rock. Depois não poderia haver nada mais. Então, quando os Sex Pistols se separaram, eu já estava à procura de algo novo".
O "lendário" sintetizador Wasp vendido por Robert Rental e os conselhos de Miller ajudaram a erguer a Come Organisations, a etiqueta que também deu nome ao embrião (COME) do que já entrados nos anos 80 seriam os Whitehouse - um jogo com duplo sentido: Whitehouse é, ao mesmo tempo, o nome de uma revista porno inglesa e o apelido de Mary, uma activista inglesa em constante cruzada contra a suposta proliferação de imagens "sujas" na TV -. As coordenadas do seu som já estão estabelecidas desde o seu início, "Birthdead Experience" (8=): uma poderosa combinação de altíssimas frequências chiantes e outras quase subsónicas; pinceladas violentas de ruído rosa; variações imperceptíveis diante da saturação auditiva do sujeito passivo; ausência absoluta de respaldo rítmico (odeiam-no); e surgindo como que de um túnel dos horrores, uma voz dominadora, que "te" grita e "te" dá ordens, tratada, para que as suas palavras apenas se intuam - ainda que no primeiro LP tenham vindo as letras -, o que a torna ainda mais perturbadora. "Sim é música, simplesmente devido ao formato em que a obténs. É como a arte. É arte porque está num museu de arte. É assim tão simples. Se adquires um CD, tem que ser música. De toda a maneira, eu creio que é muito mais música que muita música minimalista ou experimental, porque ao fim e ao cabo, são canções, e têm letras, e de alguma forma há melodias também".

Alguém descreveu os Whitehouse como "música da qual só se fica consciente quando termina". O comentário, referindo-se ao efeito dos seus silêncios - por vezes temas inteiros, como "Birthdeath Experience" e "Politics": em vinilo temos o aliciante do ruído estático e os riscos do tempo; agora em CD salvam-se com um botão - entre semelhante estrondo, desvela com sucesso a condição de uns discos - a maioria apenas se aproxima da meia hora - que funcionam por saturação, pois esse silêncio não anuncia nenhum alívio final; não é sinal de tranquilidade nem relaxe para um ouvinte que está alerta à espera do seguinte pedaço sónico.
Se tivermos de falar de fases na trajectória dos Whitehouse, uma primeira, por definição, culminaria com "Erector" (80).
A subdivisão da colaboração com os Nurse With Wound de Steve Stapleton no instrumental bruto "The 150 Murderous Passions" (81) abre o caminho a um período de interesse temático por assassinos em série que abarca desde "Dedicated To Peter Kurten" (81) até "Right To Kill" (1983), onde dedicam uma faixa a Dennis Andrew Nilsen, a cujo julgamento assistirão "porque era ao lado da nossa casa... por doença".
Até ao mítico "Psychopathia Sexualis" (82), o trio era completado em estúdio por Peter McKay e Paul Reuter. O seu papel era praticamente o de músicos de estúdio, e quando em Fevereiro de 82 iniciam os seus concertos ao vivo, as celebradas Live Actions, a sua formação varia constantemente nessas lides com a participação de uma série de personagens afins como: Steven Stapleton (Nurse With Wound); Kevin Tomkins - fundador dos Suttclife Jugend, uns discípulos mas mais densos; passou com parte do seu reportório para os Whitehouse, saiu completamente da vida familiar, voltou nos primeiros anos da década de 90 com o grupo de rock Body Choke e acaba de ressuscitar os Suttclife Jugend -; Phillip Best - os seus Consumers Electronics também eram sumamente extremos e intensos; desde os seus 14 anos passou pelos Whitehouse em épocas distintas, e também pelos discípulos Ramleh -; Peter Sotos - de Chicago, editor de publicações e gravações que lhe trouxeram, digamos assim, alguns problemas legais -; Glen Michael Wallis - dos Konstructivits, apenas colaborava em alguns concertos e em que "lhe deixávamos o sintetizador sem teclado para que não se tornasse um virtuoso" -; David Tibet (Current 93); Jordi Valls (Vagina Dentata Organ; ver Factory 9) ou John Murphy - outro músico de sessão que passou pelos Associates, SPK, Shriekback, Gene Loves Jezebel e Hoodlum Priest -.

"Right To Kill", com Kevin Tomkins e Phillip Best, e "Great White Death" (85), com Tomkins, Dave Kenny e Glen Michael Wallis, avançam até "um ponto de não retorno" que traz duas abrasivas actuações no 666 de Barcelona (Janeiro de 1985), levaram a uma paragem devido a razões essencialmente criativas, mas também logísticas, devido às diversas mudanças de residência. O seu relançamento dar-se-ia em Chicago com duas sessões intermináveis, inciadas no mesmo 85, no estúdio de Steve Albini: "Conheci-o porque é amigo de Peter Sotos. Tem muita criatividade e dá algo de si a cada canção; porque se eu tinha a ideia e gravávamos os sons, ele de imediato mudava as coisas nem que fosse um pouco".
"Thank You Lucky Stars", primeiro single (88) e logo álbum (90), devolve-nos uns Whitehouse nos anos noventa com um som mais depurado e 'refinado', tão perturbador como imponente. Um regresso que se apoia em duas sucessivas compilações e a posterior reedição em CD de toda a sua discografia a um ritmo d e um disco por ano, para enfrentar o constante pirateamento e compensar as faixas retiradas dos seus discos.
Para a nova etapa, Susan Lawly - "este nome é baseado numa pessoa real, mas é uma alcunha privada de Steven Stapleton que não se pode explicar" - retoma o relevo da Come Organisations. A evolução esquisitamente brutal do seu som deu genialidades como "Never Forget Death" (92) ou o mais variado e aventureiro "Twice Is Not Enough" (92), que contém uma das esporádicas colaborações de Scorpio, alter-ego de Al Jourgensen (Ministry) baseada na sua admiração por "Dirty Harry": "Mesmo antes de tocar fui um grande fã dos Whitehouse. Quando nós começámos, teria eu uns 16 anos, e foi das primeiras músicas que ouvia. O que fazem actualmente não é do meu agrado". O agora periodista e "músico" ocasional Stefan Jawworzyn também contribuiu para aquele poderoso e necessário regresso: "Deve dinheiro a todo o mundo, e muitos dos discos tem-nos apenas para ensinar; na realidade, ama o jazz". Estabilizado já nos últimos anos o trio ("temos sempre que ser três") com Bennett, Best e Sotos, o seu último disco de estúdio, de novo pela mão de Steve Albini, foi "Quality Time" (95) que propõe "novas técnicas de gravação": "Experimentámos um novo estilo; igualmente extremo. É difícil explicar o que tem de novo (risos), mas é... Bom, é todo na mesma onda, mas com novos instrumentos, alguns digitais".

A nova fase dos Whitehouse trouxe consigo uma aparente mudança de atitude pública. Se antes jogavam com uma certa ambiguidade estudada, com ar provocador em declarações e uma linha recta para uma música que parece pedir isso mesmo, uma reacção contra tão violenta como a sua própria essência, agora as declarações vão mais no sentido de "fazemos música para os nossos fans, não para ofender". "Não creio que tenhamos provocado nunca; é o que pode parecer, mas isso foi feito sempre devido aos nossos gostos; vamos lá, as nossas obsessões. A aparência mudou um pouco. As capas são mais bonitas, tudo parece mais bonito; pode parecer um pouco mais comercial, inclusive, mas a verdade é que as nossas obsessões, os nossos gostos e inclusivamente o sentido das letras não mudaram em absoluto (risos). Um pouco mais máscara de normalidade; a aparência é uma chave e tudo parece muito normal, mas não". Quiçá isso traga como consequência uma certa atenção da imprensa britânica - que os havia ignorado até então -, quando reaparaceram, e que se voltou depois a diluir de novo. "Jamais tivemos uma fama especial. Saiu a crítica de um ou outro concerto de um ou outro disco mas... Tudo caminha assim, por ciclos. Nunca estivemos na moda, mas, com o passar do tempo, as mesmas coisas podem ser vistas e apercebidas de maneira diferente; por exemplo, todas as atrocidades deste século se vêem com maus olhos, porém tudo o que fizeram os romanos se vê como quase divertido, não? É como o Jack, o Estripador: agora é uma espécie de herói; todos os livros o representam como um semideus".

Nas suas já cerca de actuações ao vivo houve de tudo: aquela onde bloquearam as portas para que a polícia não entrasse, e quando as abriram, o grupo saiu do local tranquilamente graças às suas roupas normais enquanto a incursão entre o público continuava; outra onde esbofeteou uma rapariga do público - "fazíamo-lo muitas vezes, em Newcastle; logo não pudemos tocar ali durante dez anos"-, e atrás do tumulto terminaram a tocar apenas para uma pessoa que era o encarregado de fechar a sala; outra em San Francisco acompanhados por uns incipientes Slayer. "Gostava das letras que tinham, muito violentas e tal, mas a música é a de sempre; vai, a bateria chuckchcukchuck"; ou aquela outra "em Olympia (Washington), perto de Seattle; havia uns cristãos no exterior do local a tocar guitarras acústicas: 'não toquem aqui, não toquem aqui'. Assim, durante a actuação, entrou no concerto com uma cruz, e aproxima-se do palco assim, como se fôssemos vampiros; como isso não resultou, chamaram a polícia e disseram que não tínhamos documentos de trabalho; nós entramos sempre nos países como turistas pois obter uma permissão de trabalho custa muito dinheiro". Parte dessas situações, certamente surrealistas, podem escutar-se em "Whithehouse Audience Noise Tape" editada no Japão pela revista japonesa 'IR'. "É uma hora de ruídos do som entre as canções. É bastante incrível; ouve-se tudo menos a música, editado na forma de 'non stop' que vai de 82 até aos dias de hoje".

Se lhe podemos chamar hardcore electrónico, de certo modo 'ambiental', ou simplesmente repulsiva, o que é certo é que se a música alguma vez chegou a um extremo este chama-se Whitehouse. "Também disseram que era 'John Cage para o povo', mas as definições são impossíveis; e não o digo por presunção, porque eu próprio gostaria de ouvir música parecida, mas não há nada parecido".
Claro que os seus presumíveis imitadores são patéticos. "Não é que sejam maus, mas é que estão muito longe da coisa pura; o fazem-no sem o entender. Pensam que apenas têm que pegar num sintetizador e fazer ssssssssssssssss dois ou três minutos, é muito mais do que isso".

. E como explicas que são mais as pessoas que não o entendem, o crêem que não o compreendem?
.. Não se explica, porque os que compreendem, compreendem. As referências e os esboços que há... funciona em muitos planos, e os que não compreendem apenas o fazem no plano mais básico, e não entendem que há uma dimensão muito mais... É como falar das cores a um cego, se este não as vê, não as vê; não se pode explicar.
. De todas as maneiras o que demonstram esses maus imitadores é a dificuldade em fazê-lo bem.
.. É que há que pensar muito; ou seja, as canções são bem pensadas e compostas, não? Não é uma coisa do acaso, não é uma coisa em que chegas ao estúdio pegas nos sintetizadores e sssss... já está, as letras e os sons, tudo; há que pensar muito o que vais fazer. Por exemplo, em "Quality Time" foi tudo muito estudado e muito pensado. Além disso, nos últimos quatro ou cinco anos, os arranjos são bastante mais complicados.
. Descartam muito material?
.. Não muito, porque vamos sempre para o estúdio muito preparados. Por exemplo, para cantar as letras no último disco, ensaiava muito, antes de ir para estúdio; por exemplo, vais no carro para a autoestrada e podes ensaiar porque ninguém te ouve, e coisas assim. Disse-o a uns japoneses que me com "como podes ensaiar?, porque no Japão têm um problema porque as casas são muito pequenas; não se pode ensaiar em casa. Os ruídos, sim, porque ligas o volume muito baixo, mas a voz é quase impossível gravá-la porque as casas são tão pequenas, as paredes são tão finas, que se ouve tudo e os estúdios de gravação são caríssimos. Que podemos fazer? Podes-nos dar um conselho?". E eu disse-lhes: que quando fossem num carro numa autoestrada ou no campo... E eles: "Ah! muito bem, vamos fazer isso". Agora tenho a visão que no Japão há uns loucos andando pela estrada fora a gritar "aaaaaaaaahhhhh! Tora, tora! Banzai!".

Discografia:
Experiências Psicopáticas

O precedente dos Whitehouse é o quarteto COME (William Bennett, David Charles, Doctor Death e Fuckman), que deu origem ao selo Come Organisations. Publicaram o single "Come Sunday" / "Saved Slits" (78) e os LPs "Rampton" (79) e "I'm Jack" (81). Outro álbum, "I'm Country" (79) ficou inédito.
WHITEHOUSE:
. "Birthdeath Exoerience" (Come Org., 80 / Susan Lawly, 93)
. "Total Sex" (Come Org., 80 / Susan Lawly, 94)
. "Ultrasadism" Cassette (Come Org., 80)
Inclui "Total Sex" mais dois temas procedentes da compilação "Hoisting The Black Flag" (United Dairies, 81), que também foram incluídos na reedição em CD.
. "Erector" (Come Org., 80 / Susan Lawly, 95)
. "The 150 Murderous Passions" (Come Org., 81 / United Dairies, 94) Com os Nurse With Wound
. "Dedicated To Peter Kurten, Sadist And Mass Slayer" (Come Org., 81 / Susan Lawly, 96)
. "Bradford Red Light District" (Come Org., 81) Editado sob o alter-ego The New Order.
. "Buchenwald" (Come Org., 81 / Susan Lawly, 96)
. "New Britain" (Come Org., 82 / Susan Lawly, 96)
. "Psychopathia Sexualis" (Come Org., 82)
. "Right To Kill, Dedicated To Dennis Andrew Nilsen" (Come Org., 83)
. "Great White Death" (Come Org., 85 / Susan Lawly, 91)
. "Thank You Lucky Stars" / "Sadist" 7" (Susan Lawly, 88)
. "CreamOf The Second Coming" 2LP/CD (Susan Lawly, 90) Compilação.
. "Thank You Lucky Stars" LP/CD (Susan Lawly, 90)
. "Another Crack Of The White Whip" (Susan Lawly, 91) Compilação.
. "Still Going Strong" / "Ankles & Wrists" 7" (Susan Lawly, 91)
. "Twice Is Enough" (Susan Lawly, 92)
. "Never Forget Death" (Susan Lawly, 92)
. "Dictator" (Fanatics, 94) 3" CD-single exclusivo para o clube de fans japonês.
. "Halogen CD" (Susan Lawly, 94)
. "Quality Time" (Susan Lawly, 95)
. "Tokyo Halogen CD" (Fanatics, 96)
. "Just Like A Cunt (WB vocal version)" (Fanatics, 96) 3" CD-single exclusivo para o clube de fans japonês.
Salvo quando indicado, todas as referências de Come Org., são LPs e cassettes, e as de Susan Lawly apenas CD; "Psychopathia Sexualis" e "Right To Kill" provavelmente nunca aparecerão em CD; o primeiro porque se perderam as masters, o segundo para "preservar a integridade clandestina do original".
Mesmo assim, ambas as editoras têm tido sempre disponíveis para os fanáticos autênticos e completistas gravações domésticas em cassete e alguns vídeos de todos os seus concertos - "Live Actions" -, com alertas sobre a qualidade discutível de algumas gravações. Precisamente, estas cassetes têm sido fonte de inclusão em inúmeras compilações, sobretudo da sua primeira fase, em pleno florescimento das cassetes; a maioria gravadas sem qualquer tipo de autorização (também abundam discos piratas italianos e alemães, tanto de concertos como dos seus discos oficiais). Segundo a discografia oficial que vem incluída em "Never Forget Death", os Whitehouse apareceram nas colectâneas "The Second Coming" (Come Org., 80), "Holsting The Black Flag" (United Dairies, 81), "Für Ilse Koch" (Come Org., 83) e "Ohrenschrauben" (DOM, 85).

Mais Além:
William Bennett tocou broca sem o saber no disco do grupo americano Bastro, "Diablo Guapo" (89), produzido por Albini, que produziu a cassete.
Outro grupo americano, Christ On A Chrutch", editou o single "Kill William Bennett"; apesar de tudo parece ser dedicado ao senador republicano com o mesmo nome que ultimamente se destacou por pretender proibir as gravações de rap demasiado explícitas ou com linguagem ofensiva. Ainda que o seu homónimo diga entre risos que estar de acordo com ele, é de supor que, depois disso também os discos de Whitehouse seriam afectados, não?
A revista 'Impulse' editou o livro "Whitehouse-Still Going Strong" (93), um compilação de artigos, entrevistas e críticas de discos e concertos (pro e anti) publicados em revistas e fanzines britânicos e americanos ao longo de catorze anos. Um trabalho definitivo, que na na sua primeira edição incluia uma cassete - "White Stained Covers" - com versões pouco imaginativas (sampleando, alterando letras) de grupos "fantasma" (nomes com mensagem) que William abomina absolutamente... ainda que haja que reconhecer que a versão country de "You Don't Have To Say Please" tem a sua graça.
Os Whitehaouse protagonizam "Cheap Night Out", relato de Stewart Home incluído no livro "Gobbing, Pogoing And Gratuitous Bad Language. An Anthology Of Punk Short Stories" (96).
Finalmente, William Bennett traduziu para inglês, para a sua eminente publicação, o comic book mais besta ("Psychopathia Sexualis") do nosso colaborador Miguel Ángel Martín.

Texto: Félix Suárez   Fotos: Archivo RDL   Comic: Miguel Ángel Martín



outro artigo/entrevista interessante: Einstürzende Neubauten....




26.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (155) - Factory #11


Factory
Nº 11
JULIO-SEPTIEMBRE 1996
700 PTAS.

ESPANHA
68 páginas
formato A4 (um pouquinho maior)

interior - papel grosso e a p/b
Capa a cores


Diamanda Galás
O Grito Positivo

A performer do inferno, o alarido que agita e acorda consciências adormecidas, o chicote de Satanás, a faca da hipocrisia... A Santa do uivo, incansável na sua cruzada contra o establishment.
Galás apareceu naquela manhã de 14 de Março - um dias antes da sua "gala" (?) -, e não é uma vampira de verdade, é estupenda e é humana, é-o muito, embora também uma possessa que nos apraz escutar sepulcralmente nas suas actuações, assim como nos seus trabalhos discográficos "The Litanies Of Satan" (82), "Saint Of The Pit" (86) ou "You Must Be Certain Of The Devil" (8). Estão muito longe esses tesouros
vocais? Parece que não, mas de todas as formas ela evolui e aparece enevoando - apenas em parte - aquela fixação 2atrás da máscara". Passaram-se muitos anos disso, e deram a vez a "The Singer" (92), "Vena
Cava" (93) e ao pouco gracioso "The Sporting Life" (94), junto de John Paul Jones. O seu projecto actual - com toques teatrais - é "Schrei", onde silêncio e vozes se misturam intimamente na obscuridade.
Gálas arde, também devido às suas incríveis e frutíferas abordagens sonoras (e "físicas") no cinema: "The Last Of England", de Derek Jarman; "Drácula", de Coppola; "A Serpente e o Arco-Íris", de Wes Craven; e
"Silence=Detah", de Rosa von Praunheim - mais a sua actuação no filme "Positive" do mesmo realizador -. Recentemente, trabalhou na banda sonora de "Lord Of Illusions", de Clive Barker.
O certo é que Diamanda prossegue retratando, na sua forma lúgrube, a realidade crua dos menos afortunados, pendendo por um fio sobre o abismo de asfalto, sobressaindo como equilibrista sobre as suas próprias cordas vocais. O seu portento não está na escuridão, mas sim no seu compromisso social e artístico, revelando velhas portas empoeiradas e glorificando brilhantemente o seu reportório diversificado e refulgente.
A meio da mostra de vídeo-perfomance feminina "Era uma vez... do minimal ao cabaret: 70's-90's" (14 a 16 de Março, Teatro Central de Sevilha), a actuação de Diamanda Galás resultou num acontecimento social de
envergadura e de uma oportunidade única.


. Explica-nos, se tiveres a amabilidade, em que consiste o teu espectáculo "Judgement Day".
.. É um concerto para voz-solo na primeira parte, e na segunda parte para voz-piano. O primeiro é uma compilação de gospel mas com com textos meus, e gira em torno da cruxificação, que não é bonita mas real; é como algo muito feio, embora creio que seja necessário. A segunda parte é composta sobre poemas de Baudelaire, Nerval, Corbière, que não são tão conhecidos como o "Insane Asylum", de Willie Dixon, um gospel muito popular nas igrejas... Ele fez uma aproximação a outros aspectos, que se pode representar por duas pessoas que têm SIDA agora, que têm de lutar para sobreviver; é como uma canção de caça. É como um início, a nostalgia de que, e não quero com isso estabelecer nenhuma categoria na música. É por isso que decidi usar estas canções. Também vou cantar um poema de Miguel Mixco, de El Salvador. Ele estava na
FNL como guerrilheiro, e vou cantar a sua canção em espanhol, porque naturalmente penso que é importante cantar a canção na língua em que foi escrita, porque é a mesma coisa, a música e a língua. As
adaptações das letras a outros idiomas parecem-me uma estupidez... tipicamente americano.
. Parece que Baudelaire tem vem acompanhando desde há bastante tempo, não?
.. Baudelaire é para mim como um irmão de sangue. Sempre estive interessada na sua obra, não apenas ao princípio, mas sim ao longo de todos estes anos. Pelo menos dez peças das que componho em cada ano
são baseadas na leitura de Baudelaire. Também Corbière e Nerval são importantes para mim, assim como Henri Michaux, de que gosto muito.
. Gostas particularmente de te impregnar desse malditismo poético francês do século XIX?
.. Apenas penso que são bons poetas, o que me interessa é o que escreveram. Creio que este tipo de literatura é muito apropriado para o tipo de música que faço, e vice-versa.
. A tua voz é o teu principal instrumento. Como a cuidas?
.. Há muitos anos que utilizo a voz, e tenho praticado muito para me tornar uma cantora. Recebi lições de vocalização de três ou quatro cantores que era de uma grande precisão técnica. Cheguei a cantar não só a
minha música e a de outros compositores, mas também outras cosias. Para mim, isso é o mais importante, poder cantar o que ouves e não estar limitada pela voz, porque se não, a única coisa que fazes realmente
é repetir-te a ti própria e mentir no palco. Naturalmente não posso fazer coisas que sejam prejudiciais à voz, não posso fumar, apenas uma ou outra vez, não posso fazer muitas coisas de que gostaria, mas penso
que agora estou numa boa forma e espero continuar assim.
. Gostaria que me falasses das pessoas que escrevem coisas estranhas sobre ti.
.. Muitas vezes, as pesoas escrevem coisas estranhas porque não têm a mais pequena ideia sobre o que é a música, então começam a falar de cor de mim, da minha pintura, dos meus olhos, etc. Sempre trabalhei
em obras que versam o isolamento psicológico. Em 1990, escrevi uma peça sobre as pessoas torturadas pela junta militar da Grécia, pelo que isso representava para mim, que sou de ascendência grega. Também
escrevei sobre esse mesmo tempo mas no que se refere ao Brasil. O que sempre me interessou é como uma pessoa pode sobreviver nesse estado de isolamento... Penso na posição psicológica de uma bruxa no
momento antes de cair no fogo. Concretamente as pessoas que padecem de sida sabem que têm de criar a sua própria comunidade fora dos meios estabelecidos, as suas próprias obras, o seu próprio ambiente,
criar a sua própria vida quotidiana, as suas medicinas. Se alguém me pergunta porque trato estes temas, eu também poderia perguntar às outras pessoas porque compõem canções de amor sentimentais - risos -.
Porque gosto de canções de amor mas não das do tipo sentimental, como faz muita gente do rock, que estão sempre a falar dos seus filhos a cada canção. Para mim é muito difícil poder suportar isso.
. Trabalhaste com a tua voz em bandas sonoras de filmes de terror. Como o fazes?
.. Para mim são comédias, logo façoõ como se fosse uma representação circense. Essas cenas que às vezes parecem terríficas, como uma de "assassinos japoneses", do filme de Wes Craven, para mim é
realmente cómica, diverte-me muito. Além disso pagam-me muito bem e gosto muito daquela rapaziada.
. Que há em comum entre os teus efeitos sonoros para cinema e a tua experiência como cantora e compositora?
.. Diferencio muito entre o meu trabalho quando componho e canto como Diamanda Galás e quando trabalho para outras pessoas, como nessas colaborações com Clive Barker; o que faço são efeitos vocais, trabalho de uma forma técnica e profissional, ainda que não ponha a minha vida nisso; é um tema técnico. Creio que é muito bom para mim; não há qualquer espécie de menosprezo, porque creio que me força a trabalhar muitíssimo a voz com esses exercícios técnicos e vocais, mas acima de tudo diferencio totalmente um trabalho profissional de efeitos vocais do meu trabalho como compositora.
. Colocaram-te como o eixo principal da mostra ""Era uma vez...", mas qual é a tua relação com o mundo da perfomance?
... Normalmente não gosto muito de definir-me como "performer".. Componho e há todo um processo, desde o princípio, desde a ideia inicial até ao que é o desenho das luzes e som, até ao tratamento da voz, que mesmo quando estou a compor uma obra não sei exatamente como vai ficar, e que o resultado final deste processo é o que dá a obra final.; nesse aspecto tenho uma relação com a "perfomance", que é um meio muito aberto, flexível e versátil, assim como foram os meios de produção; de facto poderão classificar-se como "perfomances" uma série de acções que podem ter lugar num estúdio de artistas, numa garagem. Ou na rua; e que incorporam elementos distintos, tecnologia, etc. Eram artistas que partiam de uma ideia e a escreviam, dirigiam, interpretavam... O que me interessa a mim é a ideia de projecto global. Creio que é uma boa forma de compor música, numa aproximação às artes visuais. Não creio que seja nova a incorporação da mulher na música e na "perfomance", porque temos feito muitos trabalhos que afinal acabam por ser capitalizados por nomes masculinos. Por exemplo, Cathy Berberian, uma grande cantora que trabalhava com o seu marido, o compositor italiano Luciano Berio. Ela foi uma artista que experimentou muito e era uma belíssima improvisadora, mas Berio era, no final, quem ficava com todos os créditos e direitos. É por isso que não trabalho para nenhum homem. Se tenho que matar-me a trabalhar e pela minha voz, fá-lo-ei em meu próprio nome.





17.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (154) - Factory #14


Factory
Nº 14
ABRIL-JUNIO 1997
700 PTAS.

ESPANHA
68 páginas
formato A4 (um pouquinho maior)

interior - papel grosso e a p/b
Capa a cores
Suplemento - catálogo Munsterama - Catálogo de Munster de Venta por Correo Nº2 - Marzo 1997






ché Records
A Segunda Oportunidade

Dizia o defunto Paco Costas que o homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra. Depois do fracasso da Chereee, os responsáveis da Ché - aqui via The Green UFO's - voltaram para cavar uma dessas trincheiras onde se refugia a ética independente do rock britânico. Com Urusei Yatsura, Füxa, Kirk Lake ou Dart no seu catálogo, o airbaig é suficiente.

Vinita Joshi e Nick Allport fundaram a Ché Records no início de 1991 com a única intenção de editar a obra dos então desconhecidos Disco Inferno. A experiência acumulada ao comando da Chereee - a editora dos primeiros discos singles de Whipping Boy ou Bark Psychosis evaporou-se após trinta edições - ensinou-os a concentrar os seus esforços. E assim sobreviveram os dois primeiros anos, dando apoio ao talento de Ian Crause - o CD "In Debt", dos Disco Inferno, original de 1992 e reeditado após quase dois anos apassados, compilação das suas primeiras canções - e mordendo-se os lábios cada vez que uma nova cassete chegava Às suas caixas de correio. E assim, tendo os Suicide como sua fonte de inspiração - Ché é uma acópocope de, precisamente, "Cheree", uma canção de Martin Rev e Alan Vega sobre Che Guevara , não é de estranhar que a música te queime nas mãos.

Aliados com Tippy Toe para a edição de "Marbles" dos Tindersticks, Joshi (finanças) e Allport (criatividade) utilizam o dez polegadas para obter a notoriedade que a caprichosa imprensa britânica lhes nega. Animals That Swim - elogiados depois da sua assinatura pela Elemental -, Delta, Tripmaster Monkey, Fur o Frost Suite passam sem deixar rasto que os germano-dinamarqueses 18th Dye encandeiam John Peel. Começa então na sua modesta oficina do norte de Londres um período de actividade febril que inagura o CD-compilação "Joy! A Ché Compilation" (94) e que, nos dias de hoje, todavia, ainda não foi concluída. Com uma sorte desigual nas assinaturas - os Slipstream venderam tudo o que o mercado negou a Magic Hour - e a incorporação de Chris Cass (promoção) e John Wratten (assuntos jurídicos), a Ché vai-se convertendo a pouco e pouco no que agora é: um dos últimos redutos da ética genuinamente independente que perdura no Reino Unido.
Numa cena, a do rock britânico, onde a profissão de A&R tem que ver mais com a engenharia genética do que com o desempenho artístico - veja-se o exemplo de Bis, elevados aos céus e empurrados para o vazio sem sequer haver lançado qualquer disco -, o labor de editoras como a Ché é ainda mais meritória. Seguindo o exemplo da Mute, 4AD e Wiiija, ainda que estilisticamente mais próximos da Kill Rock Stars ou Matador, permitiram o crescimento de novas esperanças como os Bear, Dart ou Backwater, mantendo, por cima da rentabilidade, os seus votos de confiança (The Bardots). As colectâneas "Does The Word Duh Mean Anything To You?" (95) e "Disco Sucks" (96) não são apenas edições de promoção a preço simpático, mas sim verdadeiras radiografias do estado das coisas no género do rock alternativo - apresentando Bardo Pond na primeira e "scaneando" (30 Amp Fuse, Windy & Carl, Merzbow) a nova minoria psicadélica em segundo lugar - do planeta. Mesmo assim, a sua série de split singles "Ché Trading Limited Presents...", estreada por Spare Snare e Majesty Crush em 1995 e com nova edição já em preparação, permitiu descobrir uma camada de bandas (Exit, Mogwai, Dakota Suite, Transient Waves, Ligament, Space Bike, os mesmos que os The Delgados, ou os já citados Bis) que asseguram o seu futuro artístico e de outras editoras afins.

O êxito de Urusei Yatsura e, em menor medida, dos Lilys permitiu o nascimento de uma nova etiqueta/ramo, I Records, dedicado à electrónica extrema - o projecto Technoise/Hyware-, da poesia (Kirk Lake) ou do, bem..., post-rock (Drone, Füxa). Os direitos mundiais da Ché - excepto para o Reino Unido, claro - foram adquiridos pela Elektra, mas eles continuam a falar do que gostam (seja seu ou não) nas páginas do fanzine gratuito ´64 Silences of American Cheese´. E as suas setenta e sete referências do seu catálogo são um exemplo para a Chemikal Underground, Chute ou X10, editoras que, ainda que mais tarde ou mais cedo sejam absorvidas pelas majors, torneiam o clima económico com o "Faz Tu Mesmo" por lema. Filosofia?. Em 1994, Vinita Joshi teve um acidente de automóvel. Em plena recuperação, propôs aos membros da sua lista de contactos de email um concurso: escrever uma lista com canções sobre acidentes automobilísticos. Sabem qual era o prémio?: Um colarinho de gesso assinado por todas as bandas da Ché.
...
Füxa - Space Is The Place
Nada mais pós-jornalista que uma entrevista por fax: profiláctica, solipsista e sempre rodeada de uma aura de mistério. É, sem dúvida, o procedimento indicado para trocar impressões com uma banda como os Füxa, paladinos do que se convencionou chamar space rock, um eufemismo mais falso que uma moeda sevilhana para designar a evocação conjunta de Klaus Schulze, Silver Apples e Spacemen 3. "Peter (Kember) e Jason (Pierce) exerceram em mim uma grande influência. Sempre estiveram nos limites do espaço e do som - conta-nos um lacónico Randall Nieman; guitarra e teclados-, que é o que gostaria de fazer".
Vai por bom caminho. Principal instigador do projecto Once Dreamt - "o que escrevi quando estava nos Windy & Carl; não me pareceu editá-lo com o seu nome" - , foi ter com o ex Asha Vida, Ryan Anderson (baixo e percussão) essa autoestrada para o céu por onde circula agora o outro Detroit: Gravity Wax, Monoaural, Miss Bliss, os citados Windy & Carl... "Toda esta expectativa acerca do space rock é muito boa, mas não creio que dure muito. O space rock é ele mesmo como o espaço: sempre a mudar, sempre em movimento, mas sempre espaço. De toda a maneira, não temos muito em comum com eles. Porém gosto muito dos Tortoise e penso que a Thrill Jockey edita um material excelente.
Os primeiros singles dos Füxa, todos publicados pela Mind Expansion, a editora do nosso interlocutor, aparecem compilados em "3 Field Rotation" (Mind Expansion-I, 96). Do mesmo modo em que nas duas sinfonias em três actos situadas no equador, "Main Sequence Diffusion" e "Subway Short", nos mostram a sua faceta mais narrativa, "100 White Envelopes" e "Dreamlanding" dizem de si que não renunciam o pop.
"Toda a música dos Füxa é uma banda sonora; a da nossas vidas. Podemos usar qualquer estilo e fazê-lo com graça, alternando entre o nada e o tudo". Perdem momentaneamente a colaboração dos Space Monkeys Jesse Percival e Erik Morrison - agora assimilado pelo duo - em "Very Well Organized" (Mind Expansion-I, 96), um trabalho menos percussivo ainda que definidor das suas conexões com o dub "3cp"), o easy listening ("Pangea") e a composição cinematográfica ("Suspicious"). "A bateria volta no novo álbum - "Inflight Audio", já disponível através da I -. Utilizamos todo o tipo de sons, mas tentando não combinar demasiadas coisas de uma só vez. Além disso, não nos podemos esquecer que o nosso equipamento evolui em função do pressuposto -á partida".
A instrumentação tradicional do rock, um Moog e um quatro pistas são suficientes para gravar uma centena e meia de canções - "Homonym Hymn" não é mais do que "At Your Leisure" ao contrário - que acabam por não encontrar o seu tempo editorial. "Temos vários sete doze polegadas para editar em Abril e Maio. Também faremos algo com Juicy Eureka na nossa editora, mas esta é uma altura para nos relaxarmos um pouco e sentirmo-nos bem. A música é antes de tudo diversão, e se para ti não o é, tens então um problema".





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