Sonora #2 - 1991 98 páginas Bilingue: Italiano + Inglês com CD de oferta
Nº 2 da revista Sonora, editada pela Materiali Sonori de Itália. Já aqui apresentámos o Nº1, de 1990.
Este número é mais dedicado ao cinema e às ligações deste com a música.
Daí ao texto ilustrativo abaixo, sobre David Lynch.
Lynchmania (c)
"Sobre técnicas de filmagem há muitos manuais, sobre a crítica temos muitas opiniões, mas quanto a iluminações existem apenas alguns lampejos espasmódicos"
James Broughton, Seeing The Light, 1977
Graças à Palma de Ouro com que foi galardoado no Festival de Cinema de Cannes por Wild At Heart, e acima de tudo, pelo êxito retumbante a nível mundial da série televisiva Twin Peaks, David Lynch foi rapidamente transformado de um director de culto num realizador de primeira classe e celebridade mundial. Agora já um realizador conhecido, como poderíamos esperar em tais casos, para a imprensa, especializada e não especializada, que se diverte a si própria encontrando toda a espécie de significados e referências nos seus, indubitavelmente, estranhos filmes.
A Lynchmania contagiosa dos últimos meses tem contudo trazido na sua trouxa novos elementos nos média que deveríamos ter assumido como sendo incompatíveis com largas audiências televisivas: Temas de uma morbidez maníaca, níveis de violência física e psicológica sem precedentes, megadoses de ironia surreal e puro nonsense.
Significativamente mais importantes são as inovações de Lynch a nível da sintaxe fílmica, ou de preferência a devoção a especificidades visuais poéticas do cinema do realizador, construídas através la lente da câmara em vez de nas páginas do script (tal como Greenway, Jarman e outros poucos realizadores contemporâneos). A linguagem que Lynch usa de modo tão sábio e com tal auto-confiança, é essencialmente sensorial e institiva, e precisamente por esta razão a banda sonora (frequentemente uma colagem de peças evocativas e efeitos sonoros desconcertantes, de que o realizador se ocupa pessoalmente) não tem menos importância do que os ângulos da cãmara e a prova das imagens, em que a história recua no fundo, algumas vezes apenas um pretexto para orgias de citações visuais e estilização. Como um maestro de sinfonias bizarras, Lynch parece uma espécie de voyeur naif, genuinamente interessado em tornar o espectador seu cúmplice, enquanto explora as ocorrências do filme e o comportamento patológico que parece sempre ser estar sempre à espreita sob a superfície da, assim chamada, normalidade. As suas poesias são quase minimalistas, desenhadas com uma clareza ao estilo da banda desenhada, com personagens bem definidas, expressões e características físicas levadas ao extremo, e uma tal manáiaca subdivisão entre o Bem e o Mal, pureza e malvadez, melodia e ruído, que nos fazem pensar se não estamos a ser levados ainda mais longe. Entre os símbolos recorrentes, um dos mais explícitos tem a ver precisamente com a precariedade da visão cinemática, da maneira como ela é condicionada pelos raios de luz que saem do projector num continuum, alternando entre Luz e Escuridão. É o tremeluzir de lâmpadas quase a avariar, que encontramos no quarto da personagem principal de Eraserhead, tal como nas cenas finais de Blue Velvet e em vários momentos de Twin Peaks, são as chamas vacilantes de uma vela, novamente em Blue Velvet, os fósforos que são repetidamente postos, parados, defronte da lente da câmara em Wild At Heart e as luzes stobe em Industrial Symphony N.1. Um salto nos cantos mais recônditos e escuros do desconhecido podem surpreender-nos a qualquer momento, transpotando-nos para universos misteriosos, mas também de repente e inesperadamente, podemos ter as mais belas e felizes revelações a iluminar-nos.
RENAISSANCEHEAD
David Lynch nasceu em 20 de Janeiro de 1946, em Missoula, Montana. Passou a sua infância em vários estados dos EUA, mudando-se com o seu pai, um investigador científico nso US Forest Service. Bom a desenhar desde cedo, completou, de forma algo desorganizada, os seus estudos em artes nos anos sessenta, tendo também viajado pela Europa e acabando num estúdio de uma expressionista abstracto com o nome programático de Michael Angelo. Enquanto trabalhava nos mais inclassificáveis empregos, frequentou a Philadelphia Academy of Fine Arts, começando a produzir trabalhos extravagantes de arte gráfica, tal como um poster mostrando uma galinha estripada. Tendo casado com uma colega de curso e depois tornado-se pai pela primeira vez em 1967, Lynch, talvez estimulado pela experimentação criativa de realizadores independentes como Harry Smith e Stan Brakhage, fez alguns projectos multimédia: ganhou o primeiro prémio numa competição artística com uma espécie de filme-escultura, um ecrã com três unidades tridimensionais na qual se projectava um filme de animação. Também Alphabet é uma curta metragem que junta animação e acção ao vivo, e que lhe granjeou a possibilidade de estudar no prestigiado American Film Institute. A curta seguinte, The Grandmother, a história de um rapaz solitário que faz crescer uma generosa avó a partir de uma semente (!), foi bem recebida em várias competições. Depois de uma mudança para Los Angeles, de 1971 a 1976 Lynch dedica-se a si próprio, sendo confrontado com problemas financeiros e pessoais, para conseguir acabar a longa metragem Eraserhead, um projecto muito pessoal e radical (depois de se ter divorciado da sua mulher, acabou por ficar literalmente a viver no estúdio de realização, dormindo no quarto onde grande parte da acção do filme tinha lugar). Uma surpresa desagradável aguardava o autor quando o seu pesadelo a preto e branco ficou finalmente acabado. - foi-lhe recusada a entrada nos mais prestigiados festivais cinematográficos, até o distribuidor Ben Barenholtz lhe dar a oportunidade de se tornar num filme de culto de sessões da meia-noite. Depois de um período de inactividade forçada, Lynch arranja maneira de começar The Elephant Man que recebeu nada menos do que oito nomeações para os óscares, em 1980, estabelecendo a reputação do realizador de uma vez por todas. Dune veio a seguir, uma adaptação ambiciosa da saga de ficção científica de Frank Herbert que foi recebido de forma morna pelos críticos e pelo público, e depois o bizarro mas feliz Blue Velvet, uma filme controverso devido à sua rudeza na manipulação de géneros cinematográficos, moldando-os aos caprichos de uma ardente imaginação visual. O sucesso de bilheteira, apesar das reservas postas por alguns críticos, permitiu a Lynch usar a mesma fórmula em Wild At Heart, que venceu em Cannes e, acima de tudo, agradou muito às novas gerações, e com a série televisiva Twin Peaks, que, inesperadamente, atraíu uma vasta audiência, encorajando a feitura de novos episódios, após o conjunto inicial de oito. Tendo atingido o pico da fama com apenas cinco filmes, Lynvh, do seu período com estudante de artes reteve uma evidente abordagem multimédia na sua criação cinematográfica. Os seus filmes tendem a recuperar e recapitular uma multiplicidade de estímulos culturais (desde a pintura à banda desenhada, desde o rock aos vídeoclips) e o realizador, ele próprio, gosta devariar nas suas actividades evidenciando um ecletismo ao bom estilo Renascentista: escreveu letras de canções (assim, ele é mais do que um simples criador de ruídos abstractos), escreveu e desenhou tiras de banda desenhada (a sua tira semanal para o L.A. Reader, The Angriest Dog in the World, tinha sempre os seus desenhos e textos derivados das mais banais conversas), ele exibiu ainda de forma regular as suas pinturas perturbadoras, tirou fotografias (um livro vai ser publicado com os temas improváveis de arqueologia industrial e higiene oral - pensamos que não ficaria mal nas edições da Re/Search!), é actor (aparecendo de forma breve na segunda série de Twin Peaks como um detective quase surdo, e em Zelly & Me, de Tina Rathbone) e ainda terá, provavelmente, mais uma série de cartas para jogar. O Diário Secreto de Laura Palmer, que se tornou num best-seller internacional, não é o habitual livro sobre uma série televisiva, mas na verdade o diário privado da personagem principal e vítima de Twin Peaks, da forma como é representada na TV: ela contém muitos elementos novos, é uma peça incompleta de um mosaico multimédia no qual há também lugar para "Diane...", as fitas magnéticas que o detective Cooper dita a uma secretária invisível, editado em cassete pela Simon & Schuster com a voz de Kyle MacLachlan. Emprestando-se a si próprio a inevitáveis aventuras de marketing, Lynch geriu-as de tal forma a obter novas teias da sua própria mitologia da psicose, criando ligações complexas entre a realidade e a ficção (não é por acaso que os seus familiares, amigos e elementos autobiográficos são frequentmente misturados nos seus filmes, o diário foi escrito pela sua filha Jennifer que tinha a mesma idade de Laura Palmer...). É precisamente aqui que a estranha força do autor se baseia, em ter de gerir para construir, como William S. Burroughs nas suas novelas, um universo de símbolos composto por camadas e meta-narração que intermutam de forma explicita entre um trabalho e outro, fazendo explodir as convenções de uma história linear, prescindindo das vantagens de uma forma mais tradicional de comunicar mas ganhando acesso a dimensões inexploradas do inconsciente, para todos aqueles espectadores preparados para aceitar uma participação diferente e mais dinâmica na visualização das suas obras ("Penso que a vida é como eu a mostro, que a podes reduzir cada vez mais e que mesmo assim continuará sempre a fazer um sentido fantástico").
TWIN SOUNDTRACKS
Como já referimos, para Lynch a banda sonora é de capital importância na feitura do filme, o cuidado com que ele escolhe as peças de reportório a usar e os colaboradores musicais, tal como a atenção dada à gravação e produção sonora das várias bandas sonoras, não tem quaisquer rivais na história recente do cinema (traz-nos à memória o célebre e inteligente comentário de Kubrick para 2001: A Space Odissey e A Clockwork Orange). Assim, não é particularmente surpreendente, especialmente ultimamente, que os produtos sonoros de Lynch têm tido um sucesso que vai muito para além dos coleccionadores de bandas sonoras, tendo até conseguido alguns lugares honrosos nas tabelas de vendas (além disso, Simon Frith, num ensaio incluído no volume recente Facing The Music, analisa de forma perspicaz o incremento que se tem verificado nas colaborações entre as indústrias cinematográfica e musical).
Eraserhead é um conto mórbido sobre Henry Spencer (John Nance) que sofre de alucinações, do seu casamento com a retardada Mary X e o nascimento de uma criança monstruosa, que é morta pelo seu pai no final visonário. A extraordinária atmosfera de pesadelo é tão devida à fotografia expressionista e sinistra como o desconcertante continuum sonoro de rssoar industrial, baforadas de vapor e vento assobiador, que quase sempre se sobrpõem os magros diálogos das personagens, criando um efeito paradoxal de filme mudo. Lynch, juntamente com Alan R. Splet, é o responsável pela banda sonora chocante e cacofónica, onde do magma sonoro ele permite a emergência apenas breve e distorcida de extractos de velhas gravações de jazz (que Henry ouve no seu gramofone), e uma pequena canção minimal com música de Peter Ivers, In Heaven, cantada por uma cantora deficiente e deformada que Henry vê, ou sonha que vê, no radiador do seu esquálido pequeno quarto. Deprimente e fascinante ao mesmo tempo, Eraserhead é feito com aquele sentido sombrio de dificuldade existencial que pertencia à geração punk de 1977, e é, assim, muito propriado que a estranha banda sonora tenha sido publicada pela editora Alternative Tentacles, a editora independente dos Dead Kennedys (uma foto da incrível criança é disponibilizada juntamente com o disco).
Uma das pequenas piadas sobre a natureza é também o centro da sua empreitada cinematográfica seguinte, The Elephant Man, que em linguagem tradicional narra a história verídica de John Merrick, uma pessoa sensível, prisioneira num corpo monstruoso, sujeito aos tormentos mórbidos e à curiosidade doentia das pessoas normais. A época vitoriana na qual a história se passa foi recoonstruída com acuidade exemplar, mais uma vez numa fotografia inspirada a preto e branco. A música, composta e conduzida por John Morris, orquestrada por Jack Hayes para a National Philharmonic Orchestra, recria a atmosfera do tempo duma forma convencional, mas digna de nota, com soluções orquestrais dramáticas, tocantes ou grotescas (as árias do circo que acompanham as cenas nas apresntações públicas). O único parêntesis musical ocorre quando o Elephant Man está a ver um conto de fadas, em pantomima, no teatro ao som do Adagio For Strings pelo compositor americano Samuel Barber (1910 - 1981). Lynch não resiste à oportunidade de se dispersar pelas áreas sombrias de Londres no pico da Revolução Industrial com os seus efeitos sonoros particulares, que também em trabalhos futuros aparecem para representar algo que é a sua marca.
Dune, um filme que Lynch fez de forma feliz depois de tanto Jodorowski e Ridley Scott terem sido obrigados a desistir do projecto, é ainda um teste de uma natureza diferente para o realizador, muito influenciado pela procura de uma mega-produção. A música foi atribuída aos pomposos Toto, um grupo formado por músicos de estúdio americanos bem conhecidos, de alguma forma em declínio depois dos estrondosos êxitos de vendas dos seus dois primeiros álbuns. A banda dos irmãos Porcaro utilizaram a Vienna Symphony Orchestra para os arranjos e o resultado é algo maneirista, sendo as únicas excepções o evocativo tema principal Main Title e o etéreo Prophecy Theme, que foi contudo composto e executado por Brain Eno, Daniel Lanois e Roger Eno, músicos mais apropriados para a interpretação esotérica-introspectiva de Lynch da famosa saga de ficção científica. Para os Toto, o disco foi um completo flop, enquanto no filme, apesar de muitos altos e baixos, podemos apreciar as imagens barrocas e o cuidados retrato das personagens. Um processo diferente, e mais de acordo com o estilo de Lynch e com a sua sensibilidade musical, foi então utilizado nos dois filmes seguintes. Blue Velvet e Wild At Heart. O primeiro é um thriller com uma história amorosa que acompanha um jovem, Jeffrey, numa espécie de viagem inicática (um dos temas favoritos da literatura americana), através dos negros mistérios que estão escondidos sob a aprentemente vida calma de uma pacata cidade, Lumberton. O segundo é um road movie suis generis que reconta a fuga da bela Lula da sua despótica e cruel mãe, na companhia do seu namorado, Sailor, um autêntico rocker rebelde, ambos parecidos em espírito e aparência. Em ambos os casos Lynch utilizou música original de Angelo Badalamenti, escrito tendo em mente os sons típicos da música pop dos anos 50 e 60, o período em que se passam as histórias, misturados com temas bem escolhidos do reportório standard, que servem frequentemente para elevar ou baixar o nível da acção, sublinhando sistematicamente os momentos chave dos filmes. A canção lânguida The Blue Velvet, cantada por Dorothy Vallens / Isabella Rossellini é o hit romântico tirado das tabelas de venda de 1963 por Bobby Vinton (em 1990 entrou novamente para os tops na Grã-Bretanha, por influência directa do filme de Lynch), e também outro hit de 1963, In Dreams, de Roy Orbinson, cantado em palyback por um gangster homosexual (utilizando uma lanterna como microfone: que melhor metáfora para o modo como o som e a imagem podem ser absolutamente complementares um do outro?) para agradar a Frank Booth, o criminoso psicopata, competentemente interpretado por Dennis Hopper, um verdadeiro fetish rock 'n' roll que se expressa quase em exclusivo por citações de letras de canções famosas. Lynch gosta de fazer os seus actores cantar, e assim a perfomance de Sailor / Nicholas Cage ao estilo Presley (que já tinha sido colocado em teste, musicalmente falando, no contexto dos anos 60, no filme de Coppola, Peggy Sue Got Married) não são meramente decorativos, mas constituem um código secreto entre os amantes em fuga, sendo Love Me Tender a fórmula mágica que propícia o final feliz. Se para a exploração macro-fotográfica de uma orelha humana ou para dentro de uma colónia de insectos novamente correspondem ruídos que parecem amplificar os micromecanismos naturais e as suas vozes para além dos níveis normais de percepção, a orquestração suave de Badalamenti (Mysteries Of Love, Dark Spanish Symphony) serve para segurar a audiência, antes de repentinas explosões de violência e irracionalidade virando a narrativa de pernas para o ar. Os clássicos de rock 'n' rolle as lânguidas baladas adolescentes (Be-Bop A Lula, Love Letters), juntamente com anacronismos deliberados (do hardcore de Powermad ao recente sucesso Wicked Game, de Chris Isaak, Lynch queria que ele resultasse também em Wild At Heart, competindo de forma avessa para criar interconexões intricadas de citações entre os dois filmes, em que ambos apontam para a importância do papel da música rock e da cultura rock no desenvolvimento cultural do realizador (Wild At Heart, com a sua sucessão selvagem de sequências memoráveis, tem o estilo de um longo vídeoclip).
A série Twin Peaks, pelo menos nos primeiros episódios que foram mais directamente supervisionados por Lynch (a terceira série perdeu virtualmente toda a sua força original), é ainda mais uma fenomenal concentração de citações da cultura musical e cinematográfica-televisiva Americana (A mais obstinada reconstrução da multiplicidade de referências escondidas pode ser encontrada no segundo episódio do magazine Americano Vídeo Watchdog), todos levados ao ponto da exasperação, partindo-os e virando-os do avesso, os cânones da telenovela e mistério (é suficiente dizer que a personagem principal, Laura Palmer, é já um corpo morto desde o início!). Também aqui encontramos pessoas ligadas à música de uma forma maníaca, como Leland Palmer, que, quando não está a rir ou a chorar de forma desalmada, está a dançar e a cantar de uma forma obsessiva. Pode haver uma repentina pausa na acção quando a Girl Singer é cantada na Roadhouse, ou quando uma canção da época é seleccionada na jukebox, ou ainda quando James Hurley decide tocar guitarra acústica e cantar uma melancólica canção de amor. Mais que tudo a música de Badalamenti, logo directamente a partir do inesquecível tema de abertura, com teclados místicos e notas de baixo profundas que expressam a paragem/cristalização de uma angústia, contribui de uma forma decisiva para definir o código estilístico da série, com as guitarras vibrantes, o número do coro cheio de carícias, o fumarento fascínio do cool jazz, as melodias aparentemente inocentes que nos enviam directamente para os inícios da década de sessenta, quando a sofisticação minimalista dos arranjos fez os críticos citar a escola da etérea música New Age mais do que uma vez. E se as composições rarefeitas de Badalamenti vão bem para além do espritualismo ecológico dos produtos ambientais soft de Windham Hill, Twin Peaks é à sua maneira o programa perfeito para ageração New Age, que tem por hábito descobrir e consumir acontecimentos paranormais e teorias metafísicas todos os dias. Talvez seja precisamente agradecer às novas audiências que diferiam em muito, no que toca aos seus gostos, do homem normal, de 30 a 40 anos de idade, velho ex-punks, que uma série de leitura tão difícil tenha sido um estrondoso êxito. De outra forma, termos de pensar que as audiências televisivas como um todo estão mais emancipadas do que habitualmente somos levados a crer, e pedir nada menos que uma mudança na dieta monótona que nos servem de talk shows e quiz games.
O DIÁRIO SECRETO DE ANGELO BADALAMENTI
O sucesso da banda sonora de Twin Peaks, que trepou pelas tabelas de vendas por todo o mundo deram lugar a espúrias versões dançáveis, o que forçou o seu criador a sair do escuro e dar alguns magros detalhes biográficos. Ele é de origem italiana, não muito novo, com um diploma em piano e composição da Manhattan Music School, um professor de música e ainda um compositor/arranjador de jingles publicitários, musicais e bandas sonoras (num inespecificado número de estilos, e dos mais diversos, desde o espalhafatoso Cousins aos filmes de terror, A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors), Angelo Badalamenti conheceu Lynch na rodagem do filme Blue Velvet, para onde tinha sido enviado para dar lições de canto a Isabella Rossellini. Deram-se tão bem que o músico se viu envolvido na totalidade da banda sonora, e desde aí não parou de colaborar com Davod. O modo de trabalhar da equipa é muito simples: o realizador escreve poemas minimais que servem de letras para as canções (com frases românticas tão banais que até parecem metafísicas), depois descreve detalhadamente ao músico a atmosfera que a peça tem de evocar, e Badalamenti, com sofisticada sensibilidade e uma boa dose sentido latino de paixão, deita cá para fora aquelas melodias subtilmente perturbadoras e aqueles efeitos de atmosferas elusivas, que tanto têm contibuído para a popularidade de Twin Peaks (na realidade um segundo volume de temas musicais da série está já em preparação). Badalamenti, que também possui um estúdio de gravação e co-produziu as últimas edições dos Pet Shop Boys, considera-se um músico completo e não apenas um compositor de bandas sonoras. Enquanto muito lhe colocaram a coroa do novo Morricone dos anos noventa, Angelo está já a trabalhar na música para o próximo filme de Lynch e para o segundo álbum de Julee Cruise, a voz escolhida para interpretar as canções vaporosas do duo.
JULEE CRUISE - A DAMA FLUTUANTE
Uma cantora de anúncios comerciais e uma cantora de coro na Broadway num grande número de espectáculos (Cabaret, Little Shop Of Horrors, etc.), com um diploma em trompa, Julle Cruise é do Ohio. Badalamenti, que já tinha tido a oportunidade de trabalhar com ela no campo publicitário, propôs a sua voz etéra a Lynch, para cantar Mysteries of Love que acompanha os créditos finais de Blue Velvet. O talento natural da cantora e a sua cara peculiar, uma espécie de versão doentia e existencialista de Annie Lennox, causou uma tal impressão ao realizador que foi planeado um álbum inteiro de canções só para ela, Floating Into The Night, que teve uma boa recepção por parte da crítica. O segundo álbum contém dez faixas escritas por Lynch e Badalamenti, três das quais foram também incluídas em Twin Peaks, onde Cruise faz de Girl Singer. Badalamenti tocou os teclados e, com a ajuda de alguns músicos de sessão, criou arranjos delicados e desfocados, muito à imagem das fotos sobrepostas de Lynch que aparecem na capa, enquanto Julee canta numa voz aguda e doce, que não lhe vem de forma natural dela, ou então sussurra as letras. Contudo, muito disso foi planeado conscientmente, esta operação musical atinge um resultado muito fresco e persuasivo. Não contente com o facto de ter dado uma nova vida às suas canções separada do filme, David levantou a fasquia apresentando uma ambiciosa perfomance multimedia, na Brooklyn Academy of Music, em 10 de Novembro de 1989, Symphony N.1 - The Dream of The Broken Heart, que era uma colagem de composições escritas com Badalamenti, intercaladas com ruídos, cantada por Cruise no mei de actuações industriais e aparições surreais que eram de forma flagrante óbvias (um anão que recita enquanto serra uma árvore ao meio, um enorme veado sobre palafitas, bonecas a flutuar no ar, etc.). A presença unificadora no trabalho, que está disponível em forma de vídeocassete, com um prólogo de Nicholas Cage e Laura Dern (a peça pode ser considerada um apêndice onírico à história de amor de Sailor e Lula), é precisamente a figura diáfana da cantora, com a sua face pálida e o seu vestido de seda branca como a neve, que palpita em palco quase na totalidade do espectáculo, com a ajuda de fios invísiveis, uma encarnação enigmática do mais sedutor dos pesadelos do realizador.
PARA VICIADOS APENAS: DAVID ROCKER
Apesar da sua aparência séria e contrita e das suas roupas impecáveis, Lynch mostrou de forma inequívoca nos seus filmes que estava a esconder um coração apaixonadamente rocker. Tanto quanto a isso diz respeito, o mundo musical imediatamente percebeu isso, fazendo de Eraserhead um primeiro manifesto, do tumulto interno e do desgosto niilista das tribos punk/new wave. Os Tuxedomoon, uma influente banda do underground de San Francisco, prestou homenagem ao realizador gravando uma versão tecnológica de In Heaven, a pequena canção bizarra de The Lady In The Radiator, para a compilação Can You Hear Me? Live At The Deaf Club (Walking Dead Records, 1980) - a mesma faixa aparece de novo na colectânea retrospectiva Pinheads On The Move (Cramboy/Maso, 1987). Mas não é caso único. In Heaven é de facto gravada pelos Danse Society também, no seu EP Seduction (Society, 1982), pelos Pixies no Lado-B do seu single Gigantic (4AD, 1988), pelos italianos Pankow no seu primeiro LP Freiheit Fuer Die Sklaven (Contempo, 1987 - também uma versão em concerto, em Omne Animal Triste Post Coitum, Contempo, 1990), e também por um certo Adamski no álbum Musical Pharmacy. Além disso, no início da década de 80, um grupo punk londrino, que deixou marcas apenas em edições em cassete, decidiram chamar-se a si próprios de Eraserhead. Nem o segundo filme de Lynch escapou à atenção carinhosa da cena musical. Em Itália foi oportunamente editado um single de música melancólica para uma banda sonora de isolamento, atribuída aos The Elephant Men (Italian Records, 1981 - entre os cinco misteriosos Irmãos Merrick a voz de Freak Antoni dos Skiantos pode ser distintamente reconhecida). O The Elephant Man aparece na capa do single Freak, do ex-Jam Bruce Foxton e, ainda na Grã-Bretanha, no final dos anos oitenta houve um grupo com o desconcertante nome (I Had Sex With) John Merrick's Remains (um nome certamente estimulado pelo famoso anúncio de Michael Jackson sobre a sua intenção de comprar os ossos verdadeiros do Elephant Man!). A banda nova-iorquina de trash metal, Anthrax, dedicou as letras de Now It's Dark (de State of Euphoria, Megaforce, 1988) ao arquicriminoso de Blue Velvet, desempenhado por Dennis Hopper, um actor/realizador fortemente ligado à cultura e ideologia pop. O carinho de Lynch pelas emoções do rock e celebridades do rock foi rapidamente amplamente devolvida, e não nos esqueçamos de um projecto que anda a cirandar pela mente de Lynch durante muitos anos, Ronnie Rocket, cuja personagem principal é um anão louco provido de poderes estranhos: tudo isso leva-nos a esperar por uma banda sonora explosiva...
Fazendo parte de duma rica tradição de realizadores/músicos que remonta a Chaplin, Lynch caracteriza o seu próprio radicalismo tornando-se ele próprio o manipulador de largas quantidades de sons concreetos e electrónicos, mais ao menos que os Throbbing Gristle lançavam o seu primeiro trabalho e que, conjuntamente com outas bandas, iria criar o estilo chamado então de industrial: provas repetidas de um ouvido atento e sintonizado no mesmo comprimento de onda dos músicos mais inovadores da altura. Mesmo tendo em conta que ele não chegou a fazer um filme do chamado estilo musical ou uma biografia rock (como o visonário Ken Russell em Tommy ou Oliver Stone em The Doors), Lynch foi secundado apenas por Jim Jarmusch em Stranger Than Paradise e Mystry Train na sua habilidade para capturar o espírito das verdadeiras vibrações da cultura musical dos mais novos. Se foi um pouco mais do que acaso a escolha de Sting para uma parte em Dune ou a presença de John Lurie numa parte de Wild At Heart, foi sobretudo na cobertura estilizada de temas trash e sua estética, comum a muitos dos mais sanguinolentos e transgressivos grupos rock, que Lynch mostrou a sua idealização de membro da grande tribo de rebeldes do Apocalipse: o seu interesse mórbido por tudo oq ue fuigisse à norma ou que fosse bizarro, o culto da obsessão maniáca, a ausência de julgamento moral ou crítica política, o empurrar as barreiras da demência e visionarismo para além de qualquer limite. Sex Love Murder são as escarrapachadas gigantescas letras da campanha publicitária para os seus últimos filmes em cassete, numa paródia aos velhos filmes exploitation B-movies (horror, agitação, ficção científica, road movies, etc.). É precisamente aludidno aos crus pesadelos artificiais do cinema que pôs cá fora, devotado a ultrapassar os limites do bom gosto e senso comum, aos quais as franjas mais radicais da cultura jovem se voltavam cada vez mais como último refúgio de uma atitude anti-establishment, que Lynch fez uma tentaiva extrema de tocar nervos nus da sua audiência, para a forçar a abandonar hábitos enraizados e entrar numa dimensão extraterrestre. Por causa do seu inesperado sucesso, o realizador correu o risco de tornar aceitável e previsível a sua própria verve transgressiva, devido a fechar a porta ao estranho que ele abriu às audiências de massas e para outros realizadores suficientemente originais e corajosos ultrapassar os seus limites. Como o cinema, como qualquer outro Media, tem o poder vampiresco de sugar o conteúdo da expressão artística, para evitar tornar-se uma paródia de si próprio, Lynch foi talvez obrigado a encontrar um novo equilíbrio estilístico. Neste momento, contudo, a indústria de entretenimento está, respitosamente carregando as excentricidades desestabilizadoras de Lynch com a sua colossal máquina promocional, é um pouco como o (mecâncio) robin de peito vermelho que possui uma barata negra no seu nariz das sequências finais de Blue Velvet. "É um mundo estranho, não é?"
TRABALHOS DAVID LYNCH FILMES
The Alphabet - curta-metragem (4') 1968 USA
The Grandmother - curta-metragem (34') 1970 USA
Eraserhead - Libra Films (90') 1970 USA
The Elephant Man - Brooksfilm (125') 1980 USA
Dune - De Laurentis / Universal (137') 1984 USA
Blue Velvet - De Laurentis Entertainment (120') 1986 USA
Wild At Heart - Samuel Goldwyn Company (120') 1990 USA PROJECTOS
Ronnie Rocket
Goddess
One Saliva Bubble TELEVISÃO
The Cowboy & The Frenchman 1988 FRA
Opium 1989 USA
Clean Up - We Care About NY 1989 USA
Chris Isaak - Wicked Game 1989 USA
Twin Peaks 1990 USA
American Chronicles 1991 USA VÍDEO
Industrial Symphony N.1 - The Dream Of The Broken Hearted 1990 USA BANDAS SONORAS
John Morris - The Elephant Man LP 1980
D. Lynch & Alan R. Splet - Eraserhead LP Alternative Tentacles (Virus 30) 1982 GB
Toto - Dune LP Polydor (823770-1) 1984 USA
A. Badalamenti / Autores Vários - Blue Velvet LP/CD Varese Sarabanda (VSD-47227) 1986 USA
Autores Vários - Wild At Heart LP/CD Polydor (845 098-2) 1990 USA
A. Badalamenti - Music From Twin Peaks LP/CD Warner Bros (7599-26316-1) 1990 USA PRODUÇÕES
Julee Cruise - Floating Into The Night (com A. Badalamenti) LP/CD Warner Bros (925 859-1) 1989 USA
Die Neu Sonne Nº 4 - Agosto(?) de 1988(?) 36 páginas A5 a p/b Colaboraram neste número: Jorge Pereira; José Moura; Abel Raposo; Faísca.
HIST - ENTREVISTA 1988 / JULHO
1
DNS - HIST: um nome curto; um projecto que assenta basicamente em 2 pessoas; Abel Raposo e Eurico Coelho; mas que contou, por certo, com vários outros convidados, digamos eventuais. Dêem-me um panorama mais ou menos fiel do que foram todos estes anos de trabalho subterrâneo.
AR - Para começar, já fiz uma série de entrevistas, mas nunca dei nenhuma. Nós já fomos, de facto, contactados para dar uma entrevista, mas não acedemos na altura porque não nos convinha.
Começando a falar do passado, podemos citar um grupo de pessoas que ouviam música com assiduidade e que, mais tarde, começou a fazer uns certos ruídos. Desse mesmo grupo, pela dedicação e assiduidade, acabaram por se destacar duas pessoas que são a formação bas edos HIST. Havia também a participação de outras pessoas mas, devido ao facto de ser um projecto muito amplo, a formação variava muito, chegando a ter até oito elementos. Éramos um pouco mal compreendidos mas isso não nos fez desistir, se bem que às vezes tenha travado o processo criativo. Aquilo a que chamávamos seesões Hist não eram concertos ou espectáculos. Tratavam-se de reuniões em que produzíamos sons/temas e a intenção era, de facto, fazermos uma espécie de ensaios que se encaminhavam sempre para a gravação.
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DNS - Vocês ao optarem, agora, pela edição da K7-álbum pela editora Facadas na Noite, acham que isso pode ser um passo, senão importante, pelo menos interessante e útil na vossa actividade?
E não acham inconvenientes, pelo facto dos temas incluídos na K7 serem representativos de uma época passada dos Hist, em que talvez se trabalhasse com outros instrumentos e meios, com outros objectivos?
Qual a vossa atitude/projectos ao editar agora esse material e o que pensam fazer futuramente?
EC - Bom... uma edição feita agora com temas antigos de um grupo de pessoas de uma terra de província que se entretem aos Domingos a tocar numas latas, pode ter um interesse retrospectivo para se tentar ver um pouco do folclore da música contemporânea em Portugal!...
Depois passaram uns anos; eu segui um percurso individual, enquanto que o Abel seguiu um outro. Cada um experimentou sons diferentes, envolvendo-nos numa experiência muito mais individualizada. De certa maneira, a edição desta K7 vem-nos colocar novamente em contacto. Experimetámos tocar juntos, depois de tanto tempo e isso resultou. Quem sabe se isto não poderá resultar mais vezes...
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DNS - Porquê a opção dos HIST se exprimirem em inglês, aliás como actualmente a maioria das novas bandas independentes europeias? O inglês é um idioma mais sério, mais duro? Procuram fugir um pouco ao desiqulíbrio da voz portuguesa; a dificuldade de se exprimir com aquela intensidade com que se poderá fazer com o inglês?
AR - O inglês é uma língua universal. O português também poderia ser, mas não é. Acho que são coisas que nada têm a ver... Simplesmente, quando juntamos aos ruídos que fazemos, uma componente verbal, se ela for feita em código, possui uma outra magia. Funciona, mais ou menos, como se se tratasse de uma missa em latim. Utilizamos assim a língua com uma responsabilidade bastante menor; usamos os sons que esse idioma nos proporciona! Podíamos fazê-lo em chin~es ou grego, só que é muito mais difícil...
EC - Quanto a mim, cada texto que escrevo, faço-o já a pensar na música e vou à procura da língua que mais se aproxime dessa sonoridade. Pode sair em francês, inglês, alemão (por vezes misturo-as)... Se o inglês predomina será um pouco, também, por influência, pelo hábito, pela facilidade existente em aplicar esses sons verbais à música. Não há uma localização específica, até em termos culturais. Evita-se assim também uma limitação nesse aspecto. Se falasse em português estaria a localizar demasiadamente o que fazemos e isso não nos interessa. Penso que é também um problema de nacionalidade; acho uma atitude perfeitamente portuguesa o querer não estar cá!...
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DNS - A edição da K7 numa caixa de vídeo parece bastante original. Logicamente os Hist propõem novas e diferentes apresentações exteriores face ao público, tanto na edição como nas futuras apresentações ao vivo. Estão a estudar alguma perfomance ou alguma visualização complementar à música? E para quando novos concertos, isto no caso de já terem dado, no passado, alguns?
EC - Em 1º lugar, é natural que a apresentação visual de qualquer produto sonoro HISTY, "sofra" um cuidado especial da nossa parte, até porque eu, pessoalmente, sou profissional do ramo. Como designer, tenho participado activamente em cenários, exposições, etc. O Abel tem também mostrado grande interesse, tendo aliás mantido uma actividade de construtor minimalista orgâncio que, quem sabe, se tivesse continuação poderia dar resultados interessantes.
AR - Uma das coisas que procurámos desde sempre foi conjugar as várias vertentes, desde o som a imagem e muito se poderia dizer sobre espectáculos multimedia que idealizámos e alguns mesmo que chegámos a realizar, não como espectáculos para audiências, mas para nós próprios.
EC - Tudo se ficou muito como um jogo entre amigos e foram muito poucos os trabalhos que foram tornados públicos, propriamente ditos. À excepção de umas exposições em que nos integrámos como elementos dissidentes das Belas Artes. Sem ser isso, todos os nossos percursos foram sempre muito individualizados e muito fechados.
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DNS - Noto que muitos dos vossos temas são, no mínimo, embriagantes e envolventes. Como os fizeram ou, enfim, em poucas achegas, qual o vosso método de trabalho?
AR - Chegámos à conclusão que o nosso método de trabalho seria uma improvisação sistematizada. Normalmente costumamos começar um tema com um de nós a dar uma base. Os outros procuram acompanhar essa base e delineamos o tema progressivamente.
EC - A atitude pode parecer meio freak, mas temos muito a ver com colagens e montagem de várias peças num puzzle. É claro que cada um tem as suas próprias refer~encias, hoje muito amplas e acho que é uma atitude possível a de tentar juntar esses pequenos pedaços de sons que nos rodeiam e montá-los numa música total. Isto não é verdade nenhuma... é uma grande mentira e por isso é que talvez valha a pena!
AR - Depois da tal colagem e de termos as coisas assentes, registamos o resultado e, normalmente à 2ª ou 3ª vez procedemos à gravação definitiva. As condições sempre foram muito deficientes, não só no aspecto de instrumentos, mas também no de gravação. Agora há sobretudo melhores condições e as deficiências técnicas que antes nos frustravam podem ser agora, em parte, superadas.
EC - É claro que as responsabilidades e sentido crítico também aumentaram ao longo destes anos e é natural que se torne um trabalho muito mais árduo e difícil. Mas vamos continuar!
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DNS - Nota-se nos vossos temas um conteúdo opressivo, duro, onde se desenrola uma espécie de observação de um outro mundo, à parte, onde diversos interesses são jogados. Vocês vêem-se como espectadores pessimistas?
AR - Não considero a nossa atitude pessimista, mas de uma lucidez irónica!
EC - Aliás, acho que é uma atitude que também faz falta... Tem que haver uma contrapartida aos Domingos Disney e creio que a possível tensão que possa transparecer na nossa sonoridade tem muito a ver connosco e também com toda a gente. Penso que é apenas o resultado de uma canalização da violência que se encontra contida dentro de nós. A maneira como nós levamos tudo isto tem a ver com uma atitude introspectiva: é quase um exorcismo!...
AR - A transposição dessa mesma tensão para a música, considero-a que é um equilíbrio fornecido pela forma mais intelectual com que o Eurico a faz e pela forma visceral com que eu procuro criar. É algo de que nos apercebemos há já muito tempo.
HIST : Eurico Coelho - Abel Raposo Entrevista: Jorge Pereira
Refúgio
Domingos
21.30 - 23.30 (R.U.T.)
Explorando Novos Sons
Como tínhamos dito num dos números iniciais, íríamos proceder a alterações no fanzine, nomeadamente criar novos espaços e secções. Esta é uma meia página que, por número, vamos "dar" aos bons programas que se vão por aí elaborando. Começamos com o
REFÚGIO - Domingos das 21:30 às 23:30 na R.U.T / Lisboa - Locução e Realização de José Moura.
Playlist / Julho 1988
1. Esplendor Geométrico - Kosmos Kino - LP 1988 E.G. Rec.
2. Front Line Assembly - State of Mind - LP 1987 Dossier
3. Front Line Assembly - Disorder - mLP 1988 Third Mind
4. Front Line Assembly - The Initial Command - LP 1987 KK
5. De Fabriek - Made In Spain - LP 1986 E.G. discos
6. Men 2nd - The Antibody Song - EP 1988 Antler
7. Poesie Noire - Tales of Doom - LP 1987 Antler
8. Snony Red - Treat Me - 7" 1988 Antler
9. The Klinik - Plague - LP 1987 Antler
0. Attrition - At The Fiftieth... - LP 1988 Antler
9. Digital Sex - Essence & Charm - CD 1986 S. Sentim.
8. Liquid G. - The Execution - K7 1988 Liquid Pro.
7. The Incarnate - Looking Out Of... - K7 1987 Temper F.T.
6. Pankow - Feiheit Fur Die... - LP 1987 Contempo
5. Compilação - Music From The Dead... - K7 1987 Dead M.C.
4. Compilação - Insane Music From... - K7 1987 Insane M.
3. Compilação - Climax 1 - LP 1987 Climax P.
2. Recoil - Hidrology - LP 1988 Mute
1. Greater Than One - All The Masters - LP 1987 Side Eff.
0. Compilação - Out Of Tune - 7" EP 1988 Body Records
1. Johnson Engineering - Demo-Tape - K7 87/88
2. Het Zweet - Het Zweet - LP 1987 Dossier
Die Neue Sonne Nº 3 - Agosto de 1988 36 páginas A5 a p/b
Colaboradores neste número: Jorge Pereira; Faca na Liga; Fred Somsen; José Moura e Luís Sousa.
Preço deste número: 100$00. Via CTT, acrescentar mais 30$00.
Rua Dr. Alberto Cruz, 50 4700 Braga Portugal
Editorial
Voltamos a encontrar-nos. Cumprimos oo estabelecido há uns meses atrás: saída de dois números do DIE NEUE SONNE em Agosto.
Sobre este número, em particular, há algumas coisas a serem ditas. O fanzine sofreu um processo, anteriormente planeado, de actualização e radicalização (no sentido de divulgarmos bandas mais marginais, novas e independentes). Os 2 primeiros números, embora não tenham sido aquilo que na altura sda sua edição mais desejássemos, foram importantes para o fanzine e todo o projecto envolvente se tornar mais divulgado e para que as pessoas interessadas se sentissem atraídas em participarem. Isso aconteceu parcialmente.
Quanto a este número, há a dizer que as notícias/informações foram abolidas, porque tinham um interese muito reduzido e demasiado pontual/parcial. Surgem artigos sobre os Big Black, Godfathers, Henri Rollins, Siglo XX, Club Moral e finalmente sobre os The Klinik. Quanto a este último trabalho, da autoria do José Moura, ele, de facto, saiu num exemplar atrasado do jornal "Blitz" mas, para informação daqueles que nos estão a ler, nós já tínhamos o artigo antes da publicação do mesmo nesse semanário, e mais, contávamos publicá-lo.
Apresentamos igualmente duas entrevistas exclusivas, com Bill Lebb dos Front Line Assembly e com 2 dos elementos dos Mão Morta.
Há ainda a registar um pequeno apontamento sobre os Johnson Engineering, banda inglesa de que falaremos muito mais detalhadamente num dos próximos números do fanzine; um outro trabalho sobre os excelentes Current 93, da autoria de Fred Somsen, originalmente publicado no fanzine "Ibérico" e ainda um dossier sobre os Joy Division, que julgamos com interesse.
Enfim... esperemos que vos agrade.
Entrevista - Exclusivo DIE NEUE SONNE Front Line Assembly
Um dos objectivos a ser postos em acção do DIE NEUE SONNE é o de tentar variar, tentando evitar a repetição e cansaço. As entrevistas funcionam como óptimas hipóteses de se saber um pouco mais sobre as pessoas e bandas em questão, mas servem igualmente como um factor de desconcentração e de variedade.
Tudo isto, porque desta vez temos o privilégio de vos dar a ler mais um depoimento EXCLUSIVO, desta vez realizado pelo José Moura, mentor do projecto REFÚGIO. A entrevista, por questionário, foi elaborada para ser respondida por Bill Leeb, dos FRONT LINE ASSEMBLY e foi recebida no dia 15 de Julho de 1988
. Antes de mais, porquê a música totalmente electrónica?
- A razão porque gosto de música electrónica é, fundamentalmente, talvez devido às minhas influências, dos primeiros tempos dos SPK, passando por NEUBAUTEN, TEST DEPT, KRAFTWERK... Estou mais interessado nos próprios sons do que em estruturar canções com refrão e melodias, processo mais comum em guitar-bands.
. Acontece frequentemente as pessoas ligarem-te aos Skinny Puppy? Qual foi exactamente a tua participação nos Skinny Puppy?
- No que respeita à minha conexão com os S. Puppy, estive com eles desde o início e colaborei nos 2 primeiros álbuns (NOTA: Remission e Bites), além de fazer também uma tournée com eles, pelo Canadá e EUA. Sentia-me orgulhoso por ser parte do projecto. Fazia-se excelente música e nunca no Canadá se havia feito algo do género. Na altura falou-se muito em desentendimentos, mas até deixar o grupo, fiz realmente parte dele.
. Tens alguma explicação para o facto de nenhum dos vossos discos ter sido editado directamente numa editora canadiana ou americana?
- Apesar de todos os nossos discos terem saído em editoras europeias (NOTA: Corrosion e Disorder), têm distribuição no Canadá e EUA através da Wax Trax, provavelmente uma das melhores editoras independentes norte-americanas. Aliás para mim, é melhor que a Nettwerk.
. Antes de participares no LP "Bites" dos Skinny Puppy estiveste envolvido nalgum outro projecto?
- Skinny Puppy foi, mais ou menos, a minha primeira banda, ao mesmo tempo em que colaborava com N. Ogre no projecto MUTUAL MORTUARY. Além disso, fiz algumas experiências musicais com outras pessoas.
. Achas que é fácil para bandas como os Front Line Assembly ou Skinny Puppy se desenvolverem e terem sucesso no Canadá?
- Quanto a ter sucesso na América, nos EUA fomos tão bem recebidos como na Europa. Acho que no Canadá é um pouco mais difícil. Há menos pessoas e parece-me que as guitar-bands são acarinhadas em demasia, porém nós continuamos a trabalhar... Ainda somos uma banda recente, por isso vasi levar algum tempo.
. Os vossos discos têm sido bem aceites em Inglaterra?
- Em Inglaterra, temo-nos saído razoavelmente bem e já apareceram boas críticas no Melody Maker e no NME, que são os dois maiores jornais e para os quais devemos fazer umas entrevistas. E como a Third Mind é uma editora inglesa, Gary Levermore está a fazer um bom trabalho, tentando promover-nos lá, mas realmente a pop, as guitar-bands têm muito sucesso. Os Pixies, Swans, Butthole Surfers, todo esse estilo de bandas. Em termos de música electrónica, a única coisa que lá é popular, são os Depeche Mode, e isso para mim é hip hop, pop, que eu não gosto nada. Mas só o tempo o dirá...
. Alguma ideia particular por detrás do slogan "Opression Breeds Violence"?
- Esse slogan (NOTA: Opressão origina violência), foi algo que eu li uma vez e que penso sintetizar tudo. Seja em arte, modos de vida, política ou música, todos temos que fazer o jogo dos manda-chuvas, dos patrões, para conseguir alguma coisa. Por isso, a nossa música (e outras mais), provavelmente, é agressiva porque sentimos que estamos sempre encurralados, se não fizermos a música que eles querem (para as rádios oficiais, etc.).
. Há alguma razão para o facto de que quase sempre no fim de cada lado dos vossos discos aparece um tema com características obscuras, ambientais?
- Quanto a isso, parece-me que é pura coincidência eles aparecerem quase sempre no fim de cada lado de um disco, mas eu gosto tanto de música ambiental como de música cheia de drum-machines e percussões fortes. Gosto de misturar estas duas concessões. Não me agradam os discos que começam no lado 1 e acabam no lado 2 apenas com uma drum-machine tocando constantemente. Gosto muito mais de criar uma disposição para ideias e coisas diferentes, e isso estará sempre presente na nossa música.
. A vossa música inclui frequentemente vários tipos de colagens. Isso significa que os mass media têm influência no vosso trabalho?
- Quando, à noite, se vêem as notícias, sabendo que somos bombardeados diariamente por 20000 imagens, é difícil não se ser influenciado pelas coisas que se passam no mundo inteiro. Acho que nós tendemos a apresentar tudo isso, esperando que não de uma maneira demasiadamente negativista ou macabra. Mas sim, gostamos de aproveitar os acontecimentos para a nossa música e, claro, os noticiários sempre exercerão sobre nós uma determinada influência.
. As letras das vossas canções não são fáceis de apanhar, por isso, acerca de que escreves?
- Não gosto que as letras monopolizem as músicas, prefiro usá-las como um instrumento suplementar. Mas tivemos já imensos pedidos de folhetos com as letras e ainda estamos a debater o assunto, porque eu sempre pensei que fornecer tais folhetos era uma atitude um tanto ou quanto comercial. E, também penso que é mais interessante e misterioso se cada pessoa interpretar individualmente as letras, embora muita gente me me pergunte acerca do que eu canto. Fundamentalmente, os temas das minhas letras são coisas que acontecem todos os dias. Eu tento identificá-las, e não dizer às pessoas o que fazer. Tento explorar ambos os lados desses acontecimentos, tanto o sério como o estranho, ou engraçado. Tento descrever as coisas de um modo positivo, em vez de optar por um mundo depressivo ou obscuro, apenas dizendo "Bom, não há esperança, mais vale suicidar-nos". Para mim, isso parece a saída mais fácil. Acho que é mais difícil achar coisas boas na vida, coisas positivas, sobre as quais se possa escrever. Assim, tento focar os dois aspectos, deixando o ouvinte decidir qual o caminho que quer tomar, ou a interpretação que quer fazer do significado de tudo isto.
. Desde Outubro de 87, a vossa produção tem sido intensa (NOTA: 3 LPs e 1 Mini-LP). É difícil gravar tanto material em tão pouco tempo? Já agora, como é que vocês procedem normalmente para compor um tema?
- Quanto a editar 4 álbuns num período de tempo relativamente curto, isso deve-se sobretudo às editoras discográficas. Dois dos discos haviam sido gravados uma ano antes, e demorou-se assim tanto tempo a fazer os contactos, a conseguir capas para os discos, etc! Além disso, viver no Canadá (do outro lado do Atlântico), quando todas as editoras interessadas, estão na Europaé problemático, porque há que contar com o tempo que as cartas demoram a ir e vir, e há que enviar K7's-master às editoras. Tudo somado, passam-se meses...
Alguns discos eram para ter saído algum tempo antes, mas parece que sairam todos muito próximo uns dos outros, por isso o caso não é o de termos escrito tanto material em tão pouco tempo, mas sim o facto das editoras não poderem trabalhar o suficientemente rápido.
No que diz respeito à composição dos nossos temas, não existe nenhuma fórmula. Eu apenas tento encontrar sons que me interessem e depois trabalho esses sons, ou por vezes ritmos, mas em geral, não me costumo sentar e pensar "OK, vou compor um tema". Há dias em que tenho ideias loucas, inspiradas em várias coisas, e acho que é preferível não existir uma fórmula, visto quando isso acontece se começar a fazer tudo com base nela e se começar a fazer constantemente a mesma coisa (isso é frequente em música electrónica). Tentamos afastar-nos desse procedimento.
. Bandas electrónicas como os Skinny Puppy ou Poesie Noire, tentam reagir contra os concertos electrónicos "sem vida", frios. O que pensas deste tipo de concertos e qual a vossa atitude em relação às actuações ao vivo?...
- É muito difícil representar música electrónica de um modo em que tudo pareça tocado ao vivo, porque tudo é feito com base em sequenciadores, caixas de ritmo, etc. Humana e manualmente é quase impossível tocar tudo ao vivo. Para mim é uma situação necessária, porque a maior parte das pessoas que gostam deste estilo de música, compreende que este é o modo como ela é criada. Se se possui um mínimo de conhecimentos, sabe-se que não existe uma maneira possível de tocar tão perfeitamente (e de uma forma tão rápida) este género musical. Se forem ver um concerto de uma banda electrónica e ouvirem um dos seus discos, já sabem provavelmente como as coisas funcionam, por isso é estupidez criticá-los e dizer que são tudo gravações, que não se gosta, ao passo que as guitar-bands podem tocar todos os instrumentos ao vivo, e isso é o que se espera delas.
Penso que o aspecto mais importante nos grupos electrónicos é, mesmo que utilizes muitas gravações, a sua apresentação e conduta em palco, como por exemplo o recurso a encenações, filmes, slides, ou o que quer que seja. Nós, provavelmente vamos ter um baterista (uma percussão realmente tocada ao vivo), um teclista e eu próprio fazendo as vozes, as teclas e o que mais houver. Sei lá... slides ou fogo ardendo no palco...
. Penso que a imagem é também importante nos Front Line Assembly. Já fizeram algum vídeo? Se sim, o que tentam vocês exprimir no trabalho visual?
- Temos um vídeo chamado "Body Count", que considero como vídeo de propaganda, com muitas cenas violentas, motins, guerras, usando centenas de imagens de noticiários e reportagens. Foi feito para o tema "Body Count" e se souberem a intensidade desse tema, então já imaginarão a intensidade do vídeo. Mas, no meio disto, só aparecemos no vídeo uma ou duas vezes, pois não gostamos de ver os nossos rostos por cima de tudo. Preferimos ficar mais na sombra, alimentar o mistério.
Em relação à imagem, com os S. Puppy isso era muito importante, mas no que toca aos F.L.A., nós tentamos não adoptar nenhum tipo de imagem. Deixamos apenas a música criar a sua imagem própria na mente das pessoas. Deste modo, não é só um tipo de pessoa que vem aos nossos concertos. Gosto mais que hajam lá pessoas de tipos variados, que venham pela música e não pelo aspecto.
. Os 3 LPs dos Front Line Assembly sairam em 3 editoras diferentes, mas agora parece que vão ficar pela Third Mind. Porquê esta escolha?
- Vamos ficar na Third Mind por mais algum tempo porque conseguimos um bom acordo com eles e eles têm-nos ajudado. Também porque a Third Mind tem uma licença com a Wax Trax nos EUA, por isso temos uma espécie de editora dupla para a qual ambas trabalham. Desta forma, podemos contar com uma boa distribuição tanto na Europa, como nos EUA. Estamos satisfeitos com as duas e nos próximos tempos, pelo menos, vamos continuar assim.
. Como nasceu exactamente a ideia de criares os Front Line Assembly?
- F.L.A., basicamente, nasceu do facto de estar na outra banda - os Skinny Puppy - e descobrir, à medida que o tempo passava, que estava cada vez menos à vontade com a ideia que eles projectavam de sangue no palco e toda a teatralização, enquanto que eu queria que as coisas fossem um pouco mais reais e vulgares. Apenas coisas que acontecessem todos os dias, que sempre me interessaram mais do que, por exemplo, o horror ou o gótico.
Queria uma atitude mais industrial, mais simples, suor, trabalho e todo esse tipo de coisas. Acrescentei aos F.L.A., de certo modo, algumas ideias militares, que já me assolavam o espírito pouco antes de ter deixado os Puppy. Eram ideias que eu tinha necessidade de criar, independentemente, e foram-se desenvolvendo cada vez mais. F.L.A. não pára de crescer. Até onde chegará?
. Como é que te juntaste a Michael Balch e Rhys Fulber? Eles já faziam música antes disso?
- Rhys Fulber era um admirador, quando eu estava nos S. Puppy, e ele costumava estar sempre a falar comigo. Com isso tudo, ficámos bons amigos e começámos a ensaiar umas coisas juntos, de vez em quando, e descobri que tínhamos muitos interesses em comum. Como nos tornámos amigos, o que veio a seguir foi apenas uma progressão natural. Continuámos os ensaios e, quase sem darmos por isso, estávamos a fazer um trabalho bastante interessante. Neste momento, acaou de gravar um LP chamado "Delirium - Faces, Forms & Illusions" que irá sair na Dossier Records e que se trata de um projecto à parte, muito obscuro e muito ambiental, tipo banda sonora. Rhys aproveitou algum trabalho meu para o disco, que se trata de uma tentaiva artística (diferente dos F.L.A.).
Michael Balch conheci-o depois de os Neubauten estarem cá num fim de semana. Encontrámo-nos com eles e estivemos numa festa toda a noite. Michael, por acaso estava nese clube e deu-me uma cassete dele, que ouvi e achei que tinha partes muito interessantes. Ainda, sem ter a certeza, do que podia acontecer, telefonei-lhe mais tarde, encontrámo-nos e, a princípio, todo o trabalho se sucedeu naturalmente. mas acho que quando se trabalha em conjunto, por vezes os resultados demoram um pouco a surgir. Mas a nossa colaboração foi-se desenvolvendo e ele, que é muito virado para a tecnologia e tinha um computador entrou para os F.L.A., até porque era essa parte que realmente faltava.
. Como os F.L.A. já participaram em várias compilações, até que ponto as achas como uma boa contribuição para o sucesso dos grupos?
- Essa participação é definitivamente benéfica para a maioria dos grupos, especialmente quando se está a começar. Eu costumava receber da Europa muitas K7s-compilação, conhecendo assim inúmeras bandas das quais nunca tinha ouvido falar. Falando das compilações da Insane, que foram as que participámos, acho Alain Neffe (NOTA: "patrão da INSANE) um tipo bastante porreiro. Ele faz um trabalho excelenete, basicamente por amor à música e se houvessem mais pessoas assim, mais compilações desse tipo, os grupos underground teriam mais hipóteses de ser descobertos, de se lançarem. Penso que é uma boa maneira de se lançarem e é bom contribuir para isso, mesmo que as editoras pareçam pequenas e insignificantes, na altura. Há sempre alguém lá fora que ouve. Já recebi cartas de sítios como África do Sul, de pessoas que ouviram as compilações da Insane.
. Como conclusão, queres dizer alguma coisa em particular a todos os que gostam de música electrónica alternativa em Portugal?
- Para todos eles aconselho que mantenham os olhos abertos para os Front Line Assembly e a sua digressão oficial pelas trincheiras. Talvez algum dia nós estejamos por aí, dentro dos próximos 8 ou 9 meses. Nada está ainda confirmado, mas nós vamos de certeza.
E sairá um 12" no Outuno (será apenas um single com "Vexation" no lado 1 e no outro uma faixa ainda sem títuko), por isso estejam atentos. E pronto, acho que é tudo.
Haverão mais notícias em breve. José Moura
Joy Division Dossier Die Neue Sonne
Assumindo o "perigo" de podermos ser acusados de revivalistas, de estarmos a desenterrar o passado, apenas ripostamos com dois pormenores: primeiro, não é possível desenterrar-se o que nunca esteve enterrado e morto e em segundo falar dos Joy Division, neste momento não é estar desactualizado, pois as sementes lançaadas há anos pelos mesmos frutificam agora, uma vez mais. Os Swans recriaram há bem pouco tempo o tema "Love Wil Tear Us Apart"; os Sonic Youth, nas suas actuações ao vivo dão uma nova dimensão à faixa "Shadowplay" e também uma série de bandas muito interessantes que agora despertam prometem "pensar no caso"...
Aliás, o trabalho que nos propomos apresentar não vai recair, como já tantos fizeram, sobre as palavras expleidas por Curtis, nem pelos sentimentos que as mesmas t~em e tiveram capacidade de despoletar... Elas continuam vivas, só que isso já foi feito. Vamos tentar reviver os factos... aqueles pormenores, que realmente aconteceram e que muita gente desconhece. Ao verídico, junta-se muitas vezes a lenda, esse manto de ambiguidade que torna tudo, porém, mais fascinante. A seguir a toda a descrição evolutiva do percurso da banda, segue-se uma lista, mais ou menos exaustiva (foi o que conseguimos recolher...) de discos e registos piratas da banda. Jorge Pereira
A primeira aparição dos futuros Joy Division dá-se a 9 de Dezembro de 1976 quando, com o nome de Stiff Kittens, Bernard Dickens (depois Albrecht), Peter Hook e Terry Mason, colegas numa escola de Manchester, tocam no Electric Circus, na sua cidade natal, sendo a crítica feita pela "Sounds" na altura, bastante pesada e dura. Uns dias depois, a banda encontra Ian Curtis e, já com ele, escrevem a primeira canção, intitulada Gutz. Durante o ano de 77, o grupo soa bastante pesado e espesso e tocam em pubs de Salford e de Manchester, especialmente nos Black Swan e Rafters.
Mudam também o nome para WARSAW e o baterista passa a ser Steve Brotherdale (Depois Steve Morris).
Em 18 de Julho de 1977 gravam a sua primeira demo-tape nos Penine Studios, com 4 temas: Inside The Line, Gutz, At A Later Date e The Kill.
Continuavam os Warsaw como banda de suporte de vários clubes, quando surge a primeira grande oportunidade, sob a forma de uma actuação do Electric Circus, acompanhados de nomes como os Panik, Negatives, V2, Steel Pulse, Slugs, Drones, The Fall, Buzzcocks ou Magazine, entre vários outros. Decorria o dia 2 de Novembro de 1977 e nessa altura foi registado o tema "At a later date" que sairá em Junho de 78, sob o selo da Virgin, incluído no 10" SHORT CIRCUIT.
Em Dezembro de 1977, os Warsaw registam o seu primeiro e único registo vinílico legal: An Ideal For Living (ver extracto da capa ao lado), um 7" com 4 temas, Warsaw, No love lost, Leaders of Men e Faillures (or the modern man), mas que não vem estampado porque o grupo não ficou satisfeito com a qualidade da impressão.
Como, na altura existia um grupo londrino chamdao WARSAW PACT, viram-se então na necessidade de terem que alterar novamente o nome da banda. A inspiração do novo nome, conta-se, vem de uma passagem de um conto pornográfico intitulado "No Love Lost" que falava de um grupo de prisioneiros de um campo de extremínio nazi, que se prostituia perante os soldados arianos e a quem um general chamou de JOY DIVISION.
Durante a contínua busca de uma casa discográfica que os apoiasse, Ian Curtis, graças à sua amizade com Derek Branwood, manager promotor da RCA, consegue que esta editora dê alguma atenção aos Joy Division, sendo encarregado Richard Searling de seguir o grupo.
Em 14 de Abril de 1978, os Joy Division participam num concurso de bandas organizado no Rafters Club, pela Stiff e pela Chiswick Records, onde se procuravam seleccionar novos talentos. Obtiveram um certo sucesso, mas sobretudo conseguiram a entusiástica aprovação de Mark Johnson.
A RCA decide editá-los, e no primeiro dioa de Maio o grupo entra em estúdio, gravando 11 temas: The Drawback (depois intitulada de All of this for you), Leaders of Men, They Walked in line, Faillures, Novelty, No love lost, Transmission, Ice Age, Interzone, Warsaw e finalmente Shadowplay.
Firmam um contrato, mas 3 dias depois, anulam o mesmo, porque descobrem que se tratava de um contrato-standard americano para artistas desconhecidos em que só se atribuíam 3% dos lucros à banda. Uma miséria...
Mas Ian, na altura, não esmorece, e assima dois importantes com Rob Gretton, manager da Panik e que se tornará mais tarde manager da banda e com Tony Wilson, produtor da BBC que, em associação com alguns grupos estava a formar aquilo que seria a FACTORY.
No mês de Junho, os Joy Division publicam, pagando eles próprios todas as despesas, 5 mil cópias de uma versão 7 polegadas de "An Ideal For Living", com uma capa maquetada e desenhada por Albercht. Dão numerosos concertos em clubes até que chegam a Outubro de 1978, mês em que saem as versões 12" e EP do seu 1º disco editado. Estes dois primeiros discos saem sob 2 etiquetas diferentes: pela Enigma Records e também pela Anonymous, propriedade momentânea dos Joy Division.
Em 11 de Outubro de 1978 registam, pela recém-surgida Factory, os temas Digital e Glass que serão incluídos num 7" chamado "A FACTORY SAMPLE".
Em 20 de Outubro retornam ao Russel Club, onde tocam juntamente com os Tiller Boys e com os Cabaret Voltaire, entrando também em contacto com a Rabid Records, anteriormente apenas distribuidora e cujo produtor base era um senhor chamado Martin Hannett.
O primeiro concerto dado em Londres acontece a 27 de Dezembro de 1978 no "Hope and Archor" e a 31 de Janeiro de 1979 são convidados a participarem nas famosas Peel Sessions, emitidas na Radio 1 / BBC. Gravam então, Exercise One, Insight, Transmission e She's Lost Control, temas esses que vão para o ar no dia 14 de Fevereiro de 1979.
Em Março desse ano entram em contacto com Martin Rushent, chefe da Genetic Records, editora subsidiária da WEA, para o qual enviam uma demo-tape gravada nos Eden Studios e que incluía os temas Glass, Transmission, Ice Age e Insight. Este registo nunca mais foi encontrado, nem mesmo editado sob a forma de disco pirata.
Em Abril de 1979, com produção de Martin Hannett e nos Stawberry Studios, os Joy Division gravam 15 músicas, sendo 10 delas incluídas no disco que viria a chamar-se UNKNOWN PLEASURES, editado pela Factory nesse ano.
Mais tarde registam 2 temas chamados Autosuggestion e From Safety To Where...? editados pela Fast Records, incluidos no EP denominado EARCON 2 - CONTRADITION e ainda 5 temas para a Picadilly Radio, gravados nos Peninne Studios a 4 de Junho. Foram eles These Days, Candidate, The Only Mistake, Chance (mais tarde o título foi alterado para Atmisphere), e Atrocity Exibition.
Em Julho entram nos Central Sound Studios de Manchester onde gravam os temas Transmission e Novelty (tendo saído ambos posteriormente nos 7 e 12" pela Factory em 25 de Outubro de 1979), Dead Souls (saído depois no disco com o título de LIGHT UND BLINDHERT) e Something Must Break (que acabará por ver a luz do dia no derradeiro disco chamado STLL).
No dia 8 de Setembro de 79 actuam em Leeds, no Futurama, onde obtêm um estrondoso sucesso. Em 13 desse mês, Malcom Withead filma no Scala Cinema de Tottenham Court RD, uma película de 17 minutos em Super 8 que compreende registos dos temas de Unknown Pleasures, uma entrevista a Rob Gretton, etc.
A 27 e 28 de Outubro, os Joy Division tocam no Appolo Theatre de Manchester, onde Richard Boon, manager dos Buzzcocks e grande amigo da banda, os filma, sendo esse registo incluído no vídeo póstumo HERE ARE THE YOUNG MEN, em 1981.
Em 26 de Novembro gravam a 2ª Peel Session, que vai para o ar a 10 de Dezembro de 1979, com os temas Sounds of Music, 24 Hours, Colony e Love Will Tear Us Apart.
Neste período, Bob Krasnow, vice-presidente da Warner Bros., encontrou-se com Martin Hannett e Peter Saville (responsável pela apresentação gráfica dos discos da banda), oferecendo aos Joy Division um contrato para a distribuição americana e a participação nalgum vídeo em troca de um milhão de dólares. Contudo, não consegue convencer Rob Gretton e tudo é anulado.
A 11 de Janeiro de 80 dão no Paradiso Club de Amesterdão, um memorável concerto, documentado no disco pirata chamado GRUFTGESAENGE.
Em 23 de Janeiro, de retorno a Inglaterra e durante uma breve pausa, compõem os temas Incubation, Komakino, As You Said (que sairá num flexi-disc) e Heart And Soul. No mês de Março trabalham intensamente em estúdio e conseguem recriar de forma soberba, algo tão belo como Love Will Tear Us Apart e These Days, que serão editados em 27 de Julho de 1980 num 7", sendo o 12 polegadas simultaneamente lançado com uma versão dupla de Love Will Tear Us Apart, visto Curtis e M. Hannett não estarem de acordo quanto à versão a incluir. Gravam ainda mais 9 músicas, que em Junho de 80 constituirão o segundo LP do grupo, chamado CLOSER e os temas She's Lost Control que, com Atmosphere (anteriormente incluído no EP Licht und Blindheit) sairão no 12" americano.
Sempre em Março, sai pela editora francesa Sordide Sentimental, o 7" com apenas 1578 exemplares, contendo Atmosphere e Dead Souls (registado em Junho e Julho de 79).
Em Abril tocaram com os Section 25 no Anjta Theatre em Derby e durante o concerto, as duas bandas juntam-se fazendo uma sessão onde tocam Girls Don't Count, tema dos Section 25, cantado por Ian Curtis. Abril foi, no entanto, um período de pésimas condições de saúde de Curtis, constantemente atacado por epilepsia e vários concertos tiveram mesmo que ser simplesmente anulados.
Em 2 de Maio deu-se o último concerto no High Hall em Birmingham, onde tocaram pela primeira e única vez o tema CEREMONY. Durante a execução de Decades, Ian foi conduzido até fora do palco, ajudado por pessoas que rapidamente o assistiram, mas conseguiu ainda recompor-se e entoou o encore de Digital.
Em 19 de Maio, os Joy Division deveriam partir para a sua primeira tournée americana. Nos Estados Unidos iriam encontrar Don Loggins, presidente internacional da WEA que havia feito à banda a tentadora proposta de lhes pagar novamente um milhão de dólares, mas, sendo desta vez as restantes condições expressas no contrato muito mais favoráveis. Mas, a 18 de Maio de 1980, Ian Curtis foi encontrado enforcado em casa dos seus pais, em Macclesfield...
Suicidara-se, deixando sós os Joy Division, uma esposa e uma filha de apenas um ano!
Depois do fim dos Joy Division, os restantes componentes da banda decidem, muito honestamente alerarem o nome da banda para NEW ORDER e seguem um novo caminho.
Porém, em Outubro de 1981, é ainda editado o duplo LP, denominado STILL que contém um primeiro lado com faixas registadas em estúdio, enquanto a 2ª face-parte do disco (portanto segundo disco...) é exclusivamente ocupado com o registo sonoro do último concerto da banda.
NOTA: Saiu, como noticiámos num dos 2 primeiros números do DIE NEUE SONNE, há cerca de 1 ou 2 meses uma compilação de temas dos Joy Division, intitulada SUBSTANCE (e não Atmosphere, como havíamos noticiado).
Discos e K7s Piratas
A discografia pirata de qualquer banda é uma coisa dificílima de ser assegurada, com todas as certezas. Aos discos, propriamente ditos, sucedem-se os bootlegs em k7, os vídeos, enfim... tudo o que satisfaça a ânsia dos verdadeiros coleccionadores, esses apaixonados insatisfeitos.
Nós quisemos arriscar e procurámos indicar uma lista o mais completa possível. Porém... não se fiem: devem haver muitas mais coisas. Estas são simplesmente aquelas que conhecemos.
- Unreleased DEBUT LP "Warsaw", 45 minutos
- Komakino 7" (edição em flexidisc e várias edições em vinil, em vários países, com ou sem livro a acompanhá-las). Inclui 4 temas, entre os quais Incubation 1 e 2 e You're no Good For Me)
- Unreleased LP "Komakino", Live in the Lyceum, London, 24/January/1980
- Le Terme, Demos and Live, 1980
- Le Terme, Part 2, Live 79/80
- Here Are The Young Men (music from the vídeo)
- The Sun ain't gonna shine anymore, 90 min.
- Live in London, University, 08/February/1980
- Gruftgesaenge, Live in Paradiso Club, Amsterdam, 11/January/1980
- Live in Manchester, June/79
- Live in Manchester, Dec./79
- Live in Paris, December/79
- Last Order, 54 min.
- Atmosphere LP, 60 min.
- Bowden Vale Youth Club 14/March/79
- Live in Eindhoven, 18/01/80
- Disorder - Live in High Wycombe 02/February/80
- Pearl Harbour LP
- Lost Control EP
Inclui os 4 temas da primeira Peel Session.
- Dante's Inferno LP
- Shadowplay LP
Inclui as Radio Sessions
- Enigma - vinil azul, LP
- A Retrospective on the vinyl Pain and Pleasure, LP 50 minutos
- Live at Apollo Manchester 27/28.October.1979
- Les Bains Deuches - London M.79/80
- Preston Warehouse - 60 minutos
- Altringham, 1979 - 60 minutos
- How Many Echoes Are There
Lyceum Soundcheck, 20/2/80
Peel Session 31/1/79
Peel Sesion 26/11/79
- Live at Russel Club - 13/June/1979
- Try to Cure Yourself
Live at London Nashville 9/22.October.1979
- Live at Winter Gardens,
Malvern, 05/April/80
- Live at Eric's, Liverpool 11/August/1979
Die Neue Sonne Nº 2 - Abril de 1988 32 páginas A5 a p/b Colaboram neste número: Jorge Pereira, Hansel, Gretel, Barbarian
Einstürzende Neubauten
Há um início do fim! Se há momento em que realmente vale a pena compenetrarmo-nos de que não passamos de míseras peças de uma maquiavélica engrenagem social, a audição da música do EINSTURZENDE NEUBAUTEN torna-se na verdade um potencial catalizador de acções mentais que apontam para essa ideia.
O grito assume um papel determinado. Quase fatal. Tudo é dor e desespero e torna-se-nos impossível mantermos hipóteses de que acções gratuitas povoem um trabalho tão belo e radical. Claro que, quando me refiro à beleza, não a rebusco em imagens estereotipadas e pré-construídas. Apoio-me simplesmente em estruturas mentais próprias: a beleza da dor, do suspiro confidente da criança hospitalizada, da martelada final, do bater ritmado de um trémulo coração em cadência finita...
Nos sons criados pelos E. Neubauten, tudo é terrivelmente cuidado. Mas é de salientar, porém, a presumível posição caótica de "o ruído". É que ele não é facilmente audível na sua perfeição: exige, pelo contrário, uma forçosa tomada de posição por parte do ouvinte. Ou se se afunda no sofá, arrasado, cansado, destruído, mas visivelmente bem para consigo próprio; ou numa atitude perfeitamente antagónica, se se começa a destruir tudo o que nos rodeia num gesto de fácil compreensão para quem lê a misteriosa e pertinente máxima ditada pela banda: "A DESTRUIÇÃO NÃO É NEGATIVA. TEMOS QUE DESTRUIR, PARA CONSTRUIRMOS! Para quem nunca com eles, a primeira audição provoca, como num acto de iniciação, um quase não conseguir abrir a boca ou activar o cérebro, que nesses momentos se torna nalgo de perfeitamente inútil. De seguida as emoções transmitem-se, por amor, para o pedaço de vinil... "Prédios novos desabando" - eis a tradução literal de EINSTURZENDE NEUBAUTEN. Não podia compreendê-lo! Noto agora que é mesmo necessário desligarmo-nos das coisas, mesmo que muito gostemos delas, para que de seguida possamos construir algo de suficientemente válido.
O idioma alemão, frio, cruel, torna-se numa arma poderosa. Aliás, uma das nove armas com as quais os E.N. prometem destruir aquelas novas estruturas que presumivelmente se sentem fortalecidos nos tempos que correm. As palavras são articuladas lenta e dolorosamente. Os estilhaços de vidros partidos continuam a pefurar-me a carne e os tímpanos. É terrivelmente apaixonante esta dor que me fere sem perdão. Nada de masoquismo: só o direito à verdade!
BLIXA respira e às marteladas sucedem-se sons metálicos estridentes transportando-nos até uma dimensão perfeitamente alucinante que não é mais a realidade que se prentende simular. Caos total. Nada gratuita, pois tudo é fruto de uma dor que parte do nada, do sentimento... Nada é pensado, porque a dor não se pensa. Sente-se!...
E a serra mecânica continua a dilacerar-me o cérebro. Rio-me tresloucadamente. Choro: torno-me paradoxal, incompreensível. Na rua olham-me com faces ameaçadoras e simultaneamente desiteressadas.Da janela continua a sair o desespero. Frio, niilista, mesmo radical. Os extremos tocam-se e facilmente se compreende assim o facto de na música dos NEUBAUTEN, a loucura e a frieza se misturarem cruelmente com a felicidade, a razão e o desejo. Pelo meio, ficam inúmeros vidros estralhaçados, metais amassados, sons cortantes capazes de violentar ouvidos ao mais surdo dos surdos e muitos, muitos sentimentos perdidos.
Há quem diga que a música dos NEUBAUTEN só é possível graças à constante busca de novas coisas. A tal "the next big thing"... Não acredito: A pop está morta, já o sdabemos. Cheira até mal, pois há anos que se arrasta em putrefacção. A arte dos E.N. desde há muito que era exigida, pois é das poucas coisas que ainda têm a coragem e a frieza de não nos mentir. Afinal ainda há quem nos diga: "oiçamos o barulho do coração a bater..."
Tudo indica que esta banda tivesse que surgir mais tarde ou mais cedo. Fê-lo em 1980. Para trás e para a frente, ficam-nos résteas de desesperos semelhantes: Test Department, Birthday Party, Lydia Lunch, Nick Cave & The Bad Seeds, Sonic Youth, Swans, Prunes, 23 Skidoos, Butthole Surfers, Crime & The City Solution... Tudo pérolas deitadas a porcos que não as sabem ou souberam reconhecer. Gastam-se energias e tempo com modas e esquece-se de restaurar a verdade, a força do grito dilacerante. Assumem-se atitudes incompreensíveis de rejeição à primeira audição, mas ignora-se que o amor e alegria sabem melhor quando pensados e reencontrados em algo realmente válido.
Afinal passeamo-nos sobre uma frágil corda instalada sobre um precipício e quem tiver coragem e força para olhar para baixo, duma coisa poderá ter a certeza: cairá, primeiro, mas pelo menos compreenderá o porquê da queda. Do fim...
A formação inicial dos EINSTURZENDE NEUBAUTEN, Blixa Bargeld; N. U. Unruh; Alexander Hacke; Marc Chung e finalmente F. Mufti Einheit, manteve-se ao longo destes sete anos de existência sem rupturas, apesar do interregno criativo da banda a que os seus próprios elementos se auto-impuseram, em inícios do ano de 1986. Porém, dia 7 de Setembro de 1987 foi a data de reencontro da banda com o seu público. Local escolhido: London Kilburn National, em Londres, claro... Os Showaddywaddy, banda que curiosamente se entrega à elaboração de um rock 'n' roll renascido e espectacularmente excitante, procuraram e de certa forma conseguiram reter os ânimos, mas não sem que tivessem incentivado anteriormente 4 pessoas do público a subir ao palco para mostrarem como se reage ao rock 'n' roll... Subiram 6 punks 2adarkalhados"! A tradição gótica (eh! eh! eh!) manteve-se: gerou-se ali tamanha pancadaria que só mesmo com a entrada e restantes elementos dos E.N. cessou Depois foi o delírio. "THIS WAS MADE TO END ALL PARTIES" - vociferou.
E cumpriu-se.
Marc Chung e Einheit, antigos elementos dos AbWarts são dois dos principais impulsionadores da "técnica" do "metal no meta". O espancamento dos instrumentos torna-se incessante. Unruh acompanha. Blixa, o líder, desde cedo se empenhou noutras "lutas": ele faz parte integrante dos BAD SEEDS, banda que acompanha Nick Cave nesta sua actividade após a dissolução dos B. Party.
A discografia dos Einsturzende Neubaute é já relativamente extensa. Em 82 lançam Kollaps, seguindo-se-lhe, no ano seguinte Zeichnungen des Patienten OT / Drowings on OT. Em 1984, editam uma compilação retrospectiva dos seus quatro anos de existência. 80-83 Strategien Gegen Architekture / Strategies Against Architecture é o título desse álbum, que incluía entre temas do primeiro LP e um single antigo dos tempos de início da banda, algumas faixas inéditas, ao vivo e em estúdio. Ainda em 84, sai também o 12" EP Yu Gung, acabando por ser lançado no ano seguinte Halber Mensch, último trabalho de longa duração anterior à já citada paragem. É a partir deste período que a banda se começa a abrir um pouco mais a "estrutura-canção", concretamente até pelo uso de teclados nas mesmas.
1987: novo álbum!
Após o auto-imposto exílio, o jogo de sombras sonoras é retomado, agora mais fortalecido e talvez mais coerente do que nunca. O raio de acção foi, sem dúvida, alargado. Não lhes procurem fugir, pois encontrá-los-ão sempre onde menos se espera. Serão a personalização desse memorável colapso arquitectural ou não se apelidassem eles o início do fim do suicídio.
1987: novo álbum: "FUN AUF DER NACH OBEN OFFENEN RICHTERSKALA".
1987: edição, pela Roir UK, York UK, de uma cassete não pirata, chamada "2x4", sem dúvida excelente, com gravações de registos de vários concertos e perfomances dadas pela banda. Para além disto, a K7 tem uma apresentação magnífica com uma composição deveras interessante...
Die Neue Sonne Nº 1 - Março 1988 24 páginas p/b Tiragem: 100 exempl. Venda: directamente, o fanzine custa 100$00. Através dos CTT, custa mais 30$00
Espectador Caro Dead Johnny: Estou no Porto. Nem vento, nem nevoeiro, nem florestas! Só luz e mau cheiro. Tudo vive imbecil e cansativamente estereotipado. Reivindicam-se uns aos outros. Trituram-se estupidamente como numa máquina infernal, digna de Kafka, tendo, enfim, consciência de que as opções não são só deles. Hoje um, amanhã outros. Sorriem também ao som de umas canecas de cerveja. O cigarro continua a diluir-se entre os dedos. Sangue entre cabelos derramados à frente da alma. Agonizo. Esmago uma bruxa entre lábios... Já em Braga. Ciclo vicioso, enfim! Mas o ciclo repete-se a menor velocidade. Palhaços ou belos actores?... Aqui ainda se vai no primeiro acto; ainda as ameixas são virgens... Dorme-se com a melodia dos corações torturados. O novo sol já não é elitizado. Ah! Ah! Ah! Agrada-me isso. Adoro ver-me furioso, sem saber o que fazer. Sabias que hoje apetecia-me matar-ta? Afinal, somos apenas heróis. E assim teremos que morrer putrefactos...
DIE NEUE SONNE Nº 1... Março 1988... Rua Dr. Alberto Cruz, 50 - 4700 Braga.. Aceitamos colaboração, sob a forma de artigos, fotografias, comentários a concertos, críticas a discos, artigos ou opiniões. Ah! Também podem enviar BD's... Colaboram neste número: Jorge Álvares Pereira; Carlos Vieira; Celina Parente; Abel Raposo e José Cruz. Montagem gráfica: Jorge P. Este número é dedicado à Celina P.
Bourbonese Qualk (entevista / lista de perfomances / artigo) Mão Morta Luxúria Canibal Gogol 1er et La Horde E assim vão as coisas (notícias) The Sisters of Mercy Editorial-1 Intenções Metal on Metal - Berlin - Einstürzende Neubauten,... Arte Toal - Arte Nova - LAYLAH Eyeless In Gaza (entrevista + discografia) Nick Cave - A minha vida é a caixa de um morto
Editorial-1 Intenções Die Neue Sonne, aliás O Novo Sol, um nome para um projecto que não é arrojado, nem o quer ser. Também não se trata de uma simples manifestação geocêntrica!... É apenas um fanzine, transfusão escrita de um outro movimento pessoal que engloba vias como a radiofónica; a de contactos com outros fanzines estrangeiros, bem como com editoras independentes; uma paixão irreprimível pela música com qualidade e a ânsia fria de divulgar trabalhos honestos e de satisfazer muitos potenciais leitores que, como eu, gostam de muitas bandas que, classificadas de "underground" ou "anti-comerciais" nunca verão a luz que outras possuem. E ainda bem!... Não queremos rótulos, porque eles são sempre limites básicos. E se no meio de tudo, ainda surgirem casos deslocados, é porque ou os artigos foram escritos há já algum tempo ou porque as bandas em questão já nos disseram e acabam por nos continuar a dizer muito! O fanzine já tem outro número à venda; é aperiódico e não reclama nada. Se tivéssemos dinheiro, criávamos mas era uma editora independente, mesmo que sob a forma de cassetes e de compilações. Mas como somos uns tesos... No terceiro número, estamos a pensar em "radicalizar" um pouco mais o DIE NEUE SONNE, e estamos a pensar em contar com artigos sobre Big Black, Butthole Surfers, a história dos Birthday Party, Wise Blood, mas ainda passagens também pelos Godfathers, Waterboys e Swans (tudo isto são ainda hipóteses...). Contamos ter uma entrevista com os Pop Dell'Arte e passagens pela música belga (Klinik, Noise Gate), pela francesa (Dick Tracy, Jad Wio) e finalmente ou pela espanhola (Siniestro Total) ou pela brasileira (Plebe Rude). Participem... Contamos publicar em todos os números, uma página com notícias e informações; uma outra com críticas e comentários à actividade e endereço de várias editoras independentes interessantes, para que no caso de vos interessar, possam conhecê-las e mandarem vir discos ou catálogos... Claro, há ainda sempre espaço para outras coisas que venham a surgir por nossa iniciativa ou que vocês apresentem. Não há espaço para inibições... Quanto à venda do fanzine, vai ser feita de mão em mão em relação aos amigos, colaboradores e pessoas e amigas, e quanto aos interessados que não estejam nestas condições, vamos tentar colocá-lo nalguns pontos de venda mais interessantes (se possível poucos!) em Braga, no Porto e talvez em Lisboa. Não fazemos assinaturas pela simples razão de nunca sabermos se o próximo número sai ou não!!!
Arcane Device "Interrogator" Label: Tragic Figures – TFT020 Format: Cassette, Album, Limited Edition, C40 Country: Portugal Relea...
Escritos de Fernando Magalhães em Livro
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LULU (versões mais antigas - com alguns textos em falta, entretanto descobertos. Tal já não acontece com as versões mais actuais, publicadas agora na Bubok - Portugal - ver acima)
Volume 1 - 1988/1991
Volume 2 - 1992/1994 (460 páginas, formato maior que A4)
Volume 3 - 1995 (336 páginas, formato maior que A4)
Volume 4 - 1996 (330 páginas, formato maior que A4)
Volume 5 - 1997 (630 páginas, formato maior que A4)
Volume 6 - 1998 (412 páginas, formato maior que A4)
Volume 7 - 1999 (556 páginas, formato maior que A4)
Volume 8 - 2000 (630 páginas, formato maior que A4)
Volume 9 - 2001 (510 páginas, formato maior que A4)
Volume 10 - 2002 (428 páginas, formato maior que A4)
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Concrete Colored Paint is the moniker of the prolific Peter Kris of German
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