26.8.22

SYNTORAMA - nº 16 / 1989 - "ELECTRÓNICOS LUSITANOS" (parte 2/4) - MISO ENSEMBLE -


 


MISO ENSEMBLE

Duo de flauta e percussões formado no ano de 1985 por PAULA AZGUIME e MIGUEL AZGUIME.

MISO ENSEMBLE “Música para flauta e percussão” é o título do primeiro LP desta nova editora independente “MISO PRODUÇÕES”, que tem previsto, desde o início, dedicar-se às músicas improvisadas, sem esquecer a áudiopoesia e outras experimentações alternativas. Mas vamos conhecer os MISO ENSEMBLE e a sua editora discográfica um pouco mais a fundo, através da entrevista efectuada a um dos seus responsáveis, MIGUEL AZGUIME, feita por correio na Parede (Portugal) em 1.5.89

MISO ENSEMBLE

Rua do Douro, 92 r/c

REBELVA 2775 PAREDE (PORTUGAL)


 ENTREVISTA

ROGELIO PEREIRA – Como surgiu a ideia do duo MISO ENSEMBLE?

MISO ENSEMBLE – A ideia de formar um grupo de música contemporânea, onde se desse especial importância à improvisação e exploração de novas técnicas instrumentais, paralelamente à criação de composições originais, foi o que esteve na origem dos MISO ENSEMBLE.

Baralhar as categorias demasiado definidas, misturar públicos diversos num esforço de comunicação e divulgação da música contemporânea, foi uma orientação constante dos MISO ENSEMBLE.

R. PEREIRA – Pensam seguir esta linha ou experimentarão introduzir novos instrumentos?

MISO ENSEMBLE – Concretizando, sem mais demoras, a ideia que levou à criação dos MISO ENSEMBLE, e principalmente por questões de tipo financeiro, os MISO ENSEMBLE tornaram-se, ao final de 6 meses, num duo, constituído por PAULA AZGUIME, flauta, e MIGUEL AZGUIME, percussão. Devido à intensidade e originalidade da linguagem musical do duo, decidimos, a Paula e eu, mantê-lo como a nossa principal actividade, não excluindo a hipótese de realizar um trabalho paralelo com uma formação alargada, em função das necessidades composicionais.

R. PEREIRA – São favoráveis à música feita com instrumentos electrónicos?

MISO ENSEMBLE – Os instrumentos electrónicos são meras ferramentas musicais como os outros instrumentos, e que, como tal, têm o seu campo de liberdades (timbres, dinâmicas, frequências, cores, formas, luz … ideias!). Movimentarmo-nos dentro desse campo e criar a música “perfeita”. Nos MISO ENSEMBLE, ainda que não esteja excluída a hipótese de usarmos instrumentos electrónicos, é sobretudo na extensão das técnicas instrumentais convencionais e na criação de novas técnicas com instrumentos acústicos, assim como nas possibilidades de relação entre a flauta e a percussão que o nosso trabalho mais tem incidido.


R. PEREIRA – Quais são as músicas que os atraem mais neste momento?

MISO ENSEMBLE – Todas, desde que sejam boas.

R. PEREIRA – Além do vosso trabalho como músicos, pensam editar mais gente na vossa etiqueta? Podem adiantar-nos algo mais sobre os vossos projectos futuros?

MISO ENSEMBLE – A MISO PRODUÇÕES está aberta a vários tipos de propostas musicais, estando neste momento programados para sair quatro discos: CARLOS ZÍNGARO – Violino solo. COLECTIVA – Grupo dirigido por CONSTANÇA CAPDEVILLE. ANTÓNIO SAIOTE – Clarinete solo (obras de compositores contemporâneos portugueses. PAULA AZGUIME – Flauta solo.

Os discos de CARLOS ZÍNGARO e de PAULA AZGUIME já se encontram gravados, sendo o disco de CARLOS ZÍNGARO o próximo a ser editado. Todos os discos são gravados digitalmente, mas ainda não sabemos se sairão em vinilo ou compacto. Gostaríamos também de gravar e editar poesia, mas neste momento não existem condições para concretizar esse projecto. A MISO PRODUÇÕES conta com o apoio pontual do Mecenato de Empresas.


R. PEREIRA – Tens algum tipo de contacto em Espanha?

MISO ENSEMBLE – Infelizmente, ainda não. Estamos neste momento a preparar uma tournée por Itália, e talvez fosse possível aproveitar este facto para realizar algum concerto em Espanha.

Gostaríamos muito que ver reunidas as condições para um encontro de músicos de várias áreas e intercâmbio musical de vários países, a nível de concertos e/ou de edição discográfica.

R. PEREIRA – A vossa música serviu de suporte a algum filme. Podem mencioná-lo?

MISO ENSEMBLE – Realizámos a música para dois filmes, ambos de JOAQUIM PINTO, “Uma Pedra No Bolso” (1998) e “Onde Bate O Sol” (1989). Trata-se de música especialmente composta para os filmes e não do aproveitamento de material já existente.

R. PEREIRA – Estão dispostos a exportar a vossa música para fora de Portugal?

MISO ENSEBLE – Contamos, a partir deste ano, realizar concertos e distribuir os discos fora de Portugal.

R. PEREIRA – Durante o ano passado percorreram um monte de kilómetros a visitar distintos lugares de Portugal. Como se desenrola, ao vivo, um concerto vosso?

MISO ENSEMBLE – Os MISO ENSEMBLE têm em concerto uma característica singular: A música transmitida directamente do artista para o público, passando pelo instrumento / instrumentista. O acto de criação é partilhado com o público em cada concerto, o que explica, possivelmente, a invulgar capacidade de comunicar, comover e apaixonar.


Para cada concerto escolhemos o que vamos tocar em função das condições acústicas da sala. Às vezes fazemos apenas duos, outras vezes tocamos cada um de nós sobretudo peças solo, não existe uma regra definida. Os instrumentos de percussão que utilizo não são sempre os mesmos, e o que tocamos, Às vezes é completamente improvisado, outras vezes está rigorosamente escrito. Para o prazer total de fazer música e o desafio renovado de comunicar, evitamos a rotina.

R. PEREIRA – Podes explicar aos leitores que música se pode ouvir no vosso disco e o que pretenderam com ela?

MISO ENSEMBLE – O disco foi gravado em concerto, em digital, e diretamente para pistas stereo, não havendo nenhum tipo de sobreposições, misturas ou tratamento de estúdio posterior. O resultado está muito próximo de um concerto: música para flauta e percussão em que florescem combinações sonoras que obedecem às exigências do nosso ritmo interior. A música existe e é preciso escutá-la.

SLYNKTORAMA16






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