10.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (10)
DN - Diário de Notícias
09 Março 2002
Chamava-se Carlos Cordeiro, mas ficou por muitos
conhecido como Farinha Master, a voz e a alma dos Ocaso Épico. Morreu no
passado dia 17 de Fevereiro. E, sem querer fazer desta uma coluna de
necrologia, não podemos deixar de evocar «Muito Obrigado», um dos mais
interessantes e escandalosamente esquecidos dos álbuns portugueses da segunda
metade de 80. Um caso ímpar na história da família pop/rock lusitana.
Farinha Master era uma figura única, conhecida no eixo
dos acontecimentos da Lisboa «esclarecida» de meados de 80, figura sobretudo
regular nas melhores noites do Rock Rendez Vous. Tinha passado já pelos WC
quando lança as bases de um projecto que procura novas formas de explorar dados
«kitsch» em linguagens urbanas. Em busca de uma nova música «foleira», cria as
bases dos Ocaso Épico, colectivo musicalmente interventivo e esteticamente
desbragado pelo qual passaram nomes como os de Alberto Garci (baterista dos
Rádio Macau e Mler Ife Dada), Rui Fingers, Manuel Machado (Essa Entente) ou
Anabela Duarte (Mler Ife Dada).
De um desafio de Mário Guia (do Rock Rendez Vous), nasce
a proposta de gravação de um álbum, com edição garantida pela Dansa do Som, a
etiqueta ligada à mítica sala da Rua da Beneficência ao Rego.
Gravado «em prestações» (como se lê na capa interior)
entre 1987 e 88, o álbum representa uma das mais incríveis aventuras do
pop/rock português de então, num espaço que lança pistas tão díspares quanto
bases electropop, fraseados rítmicos beirões, teclas do melhor plástico-pop e
pontuais cenografias magrebinas (como em «Cortar Ou Cortar-se»)... Tudo isto
devidamente «arrumado» numa lógica quase conceptual que concentrou na face A do
vinil as canções do apregoado «neo-foleirismo» urbano e, na face B, três
suculentas fatias de curioso e cativante paisagismo ensaísta.
O disco é dominado por teias de programações, linhas
melódicas que nasceram de fragmentos e se foram juntando em momentos de ensaio
e erro... A ideia de experimentar terá certamente presidido a todos os
episódios de criação, conseguindo o disco um efeito de desafio à audição atenta
de cada um que, anos depois, se detenha atentamente frente aos muitos sons,
linhas e ideias que encerra. Nele participaram, além de Farinha Master, nomes
como os de Pedro Barrento (programações), Zé Nabo (baixo), Ricardo Camacho
(piano) e Rui Fingers (guitarra), entre outros.
Farinha Master e as suas palavras (sem travão nem filtro)
servem depois de lógica de unidade entre experiências lançadas em diversos
rumos estéticos. No todo, «Muito Obrigado» é um coeso manifesto de
versatilidade pop onde o «kitsch» deve ser entendido como mais que a mera
anedota para gargalhada imediata. O humor é franco e sólido, entendido
sobretudo como recurso de estilo numa linguagem que, mesmo tecnicamente
debilitada pelos recursos à sua disposição, não deixa de criar um pequeno
concentrado de ideias que cativaram um pequeno culto e garantiram aplausos a um
disco que, todavia, passou a Leste de muitas atenções.
Uma cassete, em 1989 («Desperdícios»), representou a
única sucessão registada de «Muito Obrigado», tendo o grupo desaparecido depois
de pontual actuação em 1993. Farinha formou, entretanto, os Angra do Budismo,
projecto através do qual gravou «Transformação», em 2001.
N.G.
OCASO ÉPICO
«Muito Obrigado»
Dansa do Som, 1988
Lado A: «Tinto If», «O Camelo», «Cafécucerto», «Da Beira
Baixa à Extrema-Dura»;
Lado B: «Adamastor», «Desoriental», «Cortar Ou
Cortar-se»
Produção: Zé Nabo e Mário Guia9.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (9)
DN - Diário de Notícias
02 Março 2002
Sinais dos tempos, o Portugal de finais de 70 vivia ainda
os reflexos próximos da revolução. Na música era ainda notória a presença
protagonista dos espaços de intervenção e afins, notando-se sinais de reacção
apenas nas esferas de propostas mais ligeiras, que então começam a emergir. O
rock vivia uma existência meio adormecida, sem Norte, com pontuais focos de
agitação em aventuras próximas do som progressivo. Aventuras alheias às
dinâmicas dos espaços de divulgação radiofónicos e televisivos, quase votando o
tímido silêncio toda a força que eventualmente brotasse de um amplificador em
ensaios de garagem.
Enquanto por aqui se ensaiavam as primeiras eleições
livres da «era moderna», Londres e Nova Iorque acolhiam uma importante
revolução musical que reflectia as angústias e limitações de uma nova geração
de filhos de uma economia global desfavorável. Com um semelhante sentido de
urgência, apesar das francas diferenças entre as manifestações em Nova Iorque
(mais letradas e abraçadas pelos círculos intelectuais alternativos) ou em
Londres (com origens num proletariado urbano culturalmente desfavorecido) o
punk rompia os cenários da música feita teatro e negócio de meados de 70, e
apresentava ao mundo uma nova forma de estar na música. Rude, rápida, viva,
ansiosa, de concretização imediata, independentemente dos meios.
Apesar de pontuais faróis (um deles o fulcral programa
«Rotação», de António Sérgio, na Rádio Renascença), o fenómeno ameaçava passar
a Oeste do Cabo da Roca, já que nem a Phonogram (hoje universal) e Valentim de
Carvalho (hohe EMI-VC) mostravam vontade de editar Sex Pistols, The Clash,
X-Ray Spex...
Nos escaparates de algumas discotecas da baixa lisboeta
surge, de um dia para o outro, uma compilação de capa a preto e branco, de
«design» rude (onde não faltam alfinetes e lâminas de barbear). «Punk Rock /
New Wave ‘77» era o título, editado pela desconhecida Pirate Dream Records...
Com Zhe Guerra e Joaquim Lopes, António Sérgio havia formado a primeira
etiqueta independente da indústria discográfica, destinada assim a divulgar os
nomes do punk e new wave aos quais pareciam estar alheias as multinacionais do
ramo. O trio regista a editora e licencia temas dos Sex Pistols, Skrewdriver,
Motorhead, Eater, The Jam, London, The Rings, Generation X, The Radiators From
Space, Warm Gun e Hideous Strenght, que logo reúne para esta compilação que cai
no panorama nacional como uma pedrada no charco, decidida a representar e
divulgar sons que ameaçavam escapar à atenção dos portugueses.
A pax lusitana é, entretanto, interrompida por uma acção
judicial contra o disco, lançada pela Phonogram que acusa a editora de
pirataria e afirma serem seus os direitos dos Sex Pistols. A Valentim de
Carvalho despede, então, António Sérgio, que ali trabalhava emtão como
promotor. A acção do director de programas da Rensacença, Albérico Fernandes,
impede que semelhante cenário se repita no éter, que diariamente continua a
receber as emissões de «Rotação». O julgamento prolonga-se até 1981, sendo os
réus absolvidos sem que as acusações fossem provadas.
O disco, que teve uma tiragem de 500 exemplares, é hoje
peça cobiçada nos circuitos de coleccionismo. Quanto Às multinacionais
incomodadas com o «caso», apressaram-se a editar compilações e singles punk e
new wave! A palavra tinha passado.
N.G.
VÁRIOS
«Punk Rock – New Wave ‘77»
Pirate Dream Records
Etiquetas:
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7.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (8)
DN - Diário de Notícias
Discos Pe(r)didos
Lisboa, 1978. Os Tantra enchiam o Coliseu, José Cid
apostava em «10 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte», os Petrus Castrus
regressavam aos álbuns com «Ascensão e Queda»... O rock de alma sinfónica
tentava borbulhar à superfície num tempo ainda dado a protagonismos nas esferas
da intervenção política, suas sequelas e primeiras reacções opostas em domínios
ligeiros...
Em espaços de ebulição no restrito circuito underground
da capital, dois projectos encabeçaram então uma vaga de reacção ao sistema,
assimilando a essência da revolução punk que varrera Londres em 76. São eles os
Faíscas (de quem nasceriam os Corpo Diplomático), que acabam por não editar, e
os Aqui d'El Rock.
Os Aqui d’EL Rock são uma banda nascida em filhos do
proletariado urbano de 70, com uma crueza punk primordial no seu discurso,
diferente dos Faíscas, filhos da classe média. A violência verbal é a arma
primordial, e a seu favor pende ainda uma rodagem maior dos quatro elementos,
em tempos conhecidos como Osíris, numa encarnação formal bem diferente. Com uma
linguagem muito próxima das manifestações de raiz do punk londrino, os Aqui
d’El Rock são o primeiro e, na absoluta verdade, o único grupo punk português a
editar discos, já que os restantes praças do movimento que também chegaram ao
registo discográfico o fizeram já em momentos das suas carreiras em que o punk
havia já evoluído uma linguagem própria, ou no sentido da new wave (Corpo
Diplomático) ou para um novo, e menos espartano, rock urbano, mais temperado
(Xutos & Pontapés).
A estreia dos Aqui d’El Rock faz-se com o single «Há Que
Violentar O Sistema», single que incluía «Quero Tudo» no lado B, duas canções
que traduzem hoje a essência possível do punk português, fenómeno que viveu
mais de boas intenções e desejos de mudança que de factos realmente consumados.
A sua importância seria, sobretudo marcante ao nível da abertura de frestas na
consciência de alguns divulgadores e editores, preparando, inconscientemente, o
caminho para a revolução que assolaria o país musical em 1980.
Sem papas na língua e «speedados» (como se anunciam),
desferem golpes no sistema, que violentam por uma música não sofisticada, directa.
Todavia, estávamos em tempos de poucas atenções mediáticas por fenómenos
corrosivos a um sistema que ensaiava uma ideia de democracia de facto, que só
seria devidamente estabilizada (social e economicamente) depois. E excluindo
timoneiros da divulgação como António Sérgio, a revolução punk ficou sem
amplificação para o país real.
N.G.
AQUI D’EL ROCK
«Há Que Violentar O Sistema»
Metro-Som,
single, 1978
Lado A: «Há Que Violentar O Sistema»;
Lado B: «Quero Tudo»
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