25.9.14

Bernd Kistenmacher - Entrevista (magazine margen #24)


Tal como aludimos no post anterior, aqui fica a entrevista dada por Bernd Kistenmacher, em 2002, à revista espanhola margen, no seu número 24.

BERND KISTENMACHER - Entrevista




A história de Bernd Kistenmacher é a história de um compositor apaixonado pela música electrónica. Duas obras musicais, Meddle, dos Pink Floyd e Moondawn, de Klaus Schulze, marcaram-no profundamente na sua adolescência e agora, aos quarenta anos, ele próprio pode presumir (ainda que, conhecendo-o, fosse incapaz de o fazer) de ter trazido à história musical obras intemporais como aquele fantástico Headvisions que compôs aos 26 anos, quatro anos depois de ter tentado, infrutiferamente, fabricar o seu primeiro sintetizador.
Mais de vinte discos compõem a sua discografia, para além de bandas sonoras e diversas colaborações.
Na sua maturidade pública Un viaggio attraverso l’Italia, a sua obra mais romântica e melódica, que mostra os delírios neoclássicos de um compositor à procura de uma formação orquestral.

margen – És um sintetista ou um compositor contemporâneo?
Bern Kistenmacher (BK) – A minha aprendizagem musical provém da música experimental e psicadélica dos anos 70, mas também fui muito marcado pela música clássica, pelo que acho que me situaria a meio caminho.

margen – O teu último disco é muito romântico. Tem alguma coisa a ver com a maturidade do compositor?
BK – Gosto das passagens românticas, sim, da mesma forma que me interessa mais a harmonia que a dissonância, mas tudo isto é relativo, às vezes a mistura de ambas é aquilo que funciona. Podes chamar-lhe maturidade, para mim é simplesmente um momento como qualquer outro.

margen – Mas, por certo, não negarás que mudaram muitas coisas desde o teu primeiro disco até ao momento presente.
BK – Bom, é que entre Head-Visions e Un viaggio attraverso d’Italia passaram-se 15 anos. O que seria estranho é que não houvesse mudanças. Não consegues premeditar a mudança, nem queres ser mais moderno, ocorre simplesmente, é uma lei natural. Outros músicos que eu costumo ouvir decidiram reciclar-se  e mudaram-se para o tecno. Se conseguiram mais sucesso que eu é algo varia dependendo do que entendes por êxito. Para mim, êxito é ser consequente consigo mesmo e criar o que sentes, sem pressões exteriores.

margen – Consideras-te um membro desse clube elitista que é a Escola de Berlim?
BK – Sempre me descreveram dessa forma, mas para mim isso, hoje em dia, representa um problema para mim. Porquê? Porque na Alemanha o hip-hop é um estilo musical muito popular neste momento, sabes, esse estilo popularizado por jovens da classe alta que nunca visitaram um bairro pobre, pelo que não têm uma grande consciência social sobre minorias e perdecores. Bom, é um negócio tão respeitável como outro qualquer. Isto significa que em Berlim há uma variante desse estilo, conhecida, como “Berlin School”... e como nada tem a ver com a verdadeira “Berlin School”... vejo-me mais como um músico de electrónica contemporânea, em qualquer dos casos.

margen – Os teus primeiros discos trouxeram riqueza melódica e um conceito épico a um estilo que nunca se definiu por essa qualidade (nem lhe fazia falta, verdade seja dita). O certo é que se Schulze sempre negou a melodia e os Tangerine Dream só recorreu a essa fórmula de modo muito esquemático nos anos 80, apenas restas tu como fazendo uma ponte entre a Alemanha e a Grã-Bretanha. Havia nesses discos um conceito muito sinfónico.
BK – Eu não diria tanto. Não creio que tenha significado uma ponte entre nada. Todos os elementos musicais são importantes para mim. Gosto da riqueza musical por oposição à secura. As densidades harmónicas, os coros, os arranjos de cordas. É a minha referência clássica e sinfónica, sim.

margen – E o ritmo?
BK – É-me difícil imaginar a minha música sem ritmo. O normal é que encontres partes com rítmicas muito fortes, muito sequenciadas. O problema é que todos esses ritmos programados me aborrecem, pronto. Sou um intérprete, não um programador, gosto de criar sons e não programar ritmos, porque soam demasiado mecânicos. Trata-se de descobrir novas formas rítmicas e as melhores estão na composição clássica, porque é um ritmo puro, sem soar a mecanizado.

margen – Como enfrentas o acto de compor?
BK – É o mais importante e deves estar inspirado, em forma, sem nada que te distraia. Não me refiro apenas a uma chamada telefónica, claro, mas sim a estar em plena forma física e mental, sem problemas que te apoquentem. Sem isso a criatividade enquista-se à volta desses problemas.

margen – És um perfeccionista? Procuras erros quando ouves um disco teu?
BK – A verdade é que não. Inclusivamente, por vezes, quando componho e creio que criei uma boa peça, ao detectar um erro fico a pensar se devo retirá-lo. Na maioria das vezes não o faço porque surgiu num momento especial. São coisas que considero importantes na minha música.

margen – Não dás muitos concertos ao vivo...
BK – É que nunca consegui fazer uma digressão, e isso coarcta a tua expressividade ao vivo. Quero dizer que se vais apenas dar um único concerto, a preparação é a mesma que para dar dez, ainda que no final apenas esses 60 ou 90 minutos sejam em palco. É muito stressante e não compensa, porque não dá azo à espontaneidade. Gosto muito mais do estúdio, onde posso controlar tudo.

margen – Continuas em contacto com o Grosskopf e do Schulze?
BK – Fico contente por o Harald Grosskopf continue no activo. Está a fazer coisas muito interessantes com o Steve Baltes e está envolvido em muitos e diversos projectos. estivemos em contacto por email há pouco tempo e não descartamos uma nova colaboração.
Também Günther Schickert é um bom amigo. Realizámos o projecto “The Echomen” ao vivo, porém não houve possibilidade de editá-lo.
Com o Klaus Schulze nunca tive uma relação directa. Tentei-o muitas vezes mas ele sempre se negou. Bom, é a vida...

margen – Qual a tua peça preferida?
BK – Talvez “La Tendresse”, do meu primeiro trabalho, porque era realmente cósmica e honesta. Eu ainda penso que a “ verdadeira música cósmica” é a música do futuro.

margen – Que se passou com a Musique Intemporelle?
BK – Bom, ainda existe no papel. Proporcionou-me bons momentos. Era uma editora pequena mas muito interessante. Os problemas começaram quando me deixei influenciar demais pelos outros, todos com muito boas intenções, por certo, mas com interesses próprios. Também não tinha muita experiência em assuntos económicos e assim fui perdendo o controlo pouco a pouco, e alguns dos artistas da editora cansaram-se de mim. Hoje em dia, editar música é lixado. Há demasiada pirataria, sacas tudo da internet sem pagar um tostão. Não há uma base séria para editar música. O mais provável é que tudo rebente dentro de pouco tempo. Que os teus grupos favoritos não voltem a editar... e a culpa será nossa, de todos. É mais cómodo e barato copiar um disco do que comprá-lo, porém isso tem consequências inimagináveis, as mesmas que premir um aerossol, não vemos o que ocorre mas a camada de ozono desaparece efectivamente. Por outro lado, não tenho interesse em editar uma colecção de 100 CDs, sabes a que me refiro, com demos que não interessam para nada nem a ninguém, a não ser a 4 loucos.

margen - Falemos de “Nachtflug III”, o tema inédito que trazes ao nosso MDEA vol. 5
BK – Foi composto originalmente em 1996 e fecha a trilogia Nachtflug I. Foi editada em V/A Magic Fly Presents New Instrumental Music Vol. II, da editora alemã Magic Fly (1996). “Nachtflug II” fez parte do meu disco Thoughts, de 1996 também. Esta é a terceira parte, que retirei do arquivo e remasterizei especialmente para o vosso CD.

margen: Que fazes, para além da música?
BK – Terminar os meus estudos de Económicas e Informática para regressar com mais garra à tarefa de descobrir música cósmica.

margen – Se os piratas to permitirem...
BK – Isso.

                                                                                                                                 Rafa Dorado

Discografia
1984 – Dancing Sequences – MC
1985 / 1999 - Music From Outer Space – MC / CD
1986 / 1999 - Romantic Times – MC / CD
1986 / 1992 – Head-Visions – LP / CD
1987 / 1989 Wake-Up In The Sun LP / CD
1989 - Kaleidoscope – CD
1991 - Outlines – CD
1991 – Characters (mit H. Grosskopf) – CD
1992 - Live & Studio Tapes – CD
1995 / 1997 – Starting Again – CD-ROM / CD
1995 / 1997 – Stadtgarten Live - CD-ROM / CD
1997 - Compiled Dreams – CD
1997 – Thoughts – CD
1998 – Contrasts Vol. I – CD
1999 – Contrasts Vol. II – CD
1999 – Berlin Live ’85 – CD
1999 – Electronic Goes Benefit – CD
1999 – Dresden 08/89 – CD
1999 – The Treasure Box – CD
1999 – Totally Versmold – CD
1999 - My Little Universe incl. Best Of BEST – 8 CD-Box
2001 – Un Viaggio Attraverso L’Italia - CD








19.9.14

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (1) - margen #24 -


A margen era um magazine de origem espanhola tendo publicado, tanto quanto sei, cerca de uma trintena de números, desde meados dos anos 90 até medados da década inical deste século.
Através do índice do número agora apresentado ficam com uma boa ideia dos tipos de música tratados por esta excelente revista.
Aqui fica, para já, a apresentação do número 24.

margen #24
Ano IX - Série 2
Inverno / Primavera de 2002
Edição e Coordenação: Rafa Dorado
Nº de páginas: 132



Sumário / Índice:
Entrevistas:
6 One Ring Zero 7 Philip Glass 8 Códice 9 Tranquility 13 Paranoise 14 Pedro Castillo 16 Spaced Out 17 Hamadryad 18 Elton Dean 19 Men & Machines 21 DFA 22 In The Labyrinth 23 Tidal Flood 24 Rudy Adrian 38 Alio Die 40 Gianni Gebbia 42 John Kerr 44 Conrad Schnitzler 48 In Nomine 50 Thierry Zaboitzeff 54 Bern Kistenmacher 56 Nexus 58 Omni 60 Yannis Kyriakides 72 Michael Stearns 75 Ryuichi Sakamoto 76 Elegant Simplicity 78 Poor Genetic Material 80 Erik Lindgren 84 Magenta 88 Ron Geesin 91 Jon Bisset & Friends 94 Riccardo Sinigaglia 96 Jeff Greinke 98 The Ululating Mummies 100 Karda Estra 102 Arti & Mestiere
Otras Secciones
6 NOTICIAS AL margen 26 RECORTES 28 FESTIVALES 32 AUDONAUTAS Oskar Sala 36 INFORMES Peter Greenaway 86 La cara oculta de Pink Floyd 63 DOSSIER MDEA Vol..05 67 SAMPLERS Luna Negra / Smoglers 69 F2 / Prog Rock 104 DISCOS.

Num post seguinte farei a transcrição da entrevista com Bern Kistenmacher, figura importante do Krautrock.











20.8.14

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #49: Julian Cope - "Krautrocksampler - One Head's Guide To The Great Kosmische Musik - 1968 Onwards"


Autor: Julian Cope
título: Krautrocksampler - One Head's Guide To The Great Kosmische Musik - 1968 Onwards
editora: Head Heritage
nº de páginas: 144
isbn: 0-9526719-1-3
data: 1996 (1ª edição de 1995)

sinopse: 

Quando o glam rock apareceu, por volta de 1972, as bandas da Alemanha Ocidental absorveram tudo, assimilaram-no, e vieram cá para fora mais engraçadas e mais convincentes que qualquer grupo desde os Funkadelic / Paliament. No disco Viva La Trance, os Amon Düll II combinaram com sucesso vestimentas de animais teatrais, de harlequins teutónicos, e as plataformas de pele de cobra correntes e cabedais falsos, à moda de Sly Stone encontra Bowie. Ainda mais ridículos foram os Can a tentarem seguir o glam com um estilo à Velvet Undergraound. Eu fiquei muito desconfortável ao ver estes tipos velhos vestidos em cabedal e sombras, especialmente quando Michael Karoli, o único jovem e bonito do grupo, foi fotografado de joelhos numa pose particularmente submissiva, cercado por três tipos de meia idade.
Mas o Krautrock foi o pre-punk da Alemanha, a maior trip de todos os tempos. E estes grupos ligaram de repente e directamente onde a psique Britânica ainda julgava que os alemães estavam - o bicho-papão de toda a Europa. E exploraram a situação das formas mais geniais. Dos Amon Düül I aos Amon Düül II, passando pelos Faust, Cluster, Can e Guru Guru - os grupos Krautrock desempenharam este papel. Eis as minhas cinco imagens Krautrock favoritas:
1. Faust IV a abrir com os seus épicos 12 minutos chamados Krautrock. (Um enorme álbum duplo, de compilação da editora mais famosa da Alemanha, a Brain, foi também baptizado de Krautrock, e depois de Conrad Schnitzler ter deixado os Tangerine Dream e os Kluster, um dos seus primeiros álbuns a solo também continha uma faixa chamada Krautrock).
2. As faixas dos Amon Düll chamdas "Mr. Kraut's Jinx" e "La Krautoma", ambas fazendo parte do disseminador duplo álbum, Made In Germany, a primeira (e única?) ópera Krautrock.
3. A primeira referência ao "kraut" de todas foi em "Mama Düül and her Sauerkrautband Start Up!", faixa do primeiro álbum dos Amon Düll, de 1969, o LP Psyuchedelic Underground.
4. Dieter Moebius, dos Cluster, e o seu produtor Conny Plank, editaram um álbum de reggae-meets-New York-fuzz e chamaram-lhe RastaKrautPasta!
5. Mas a maior imagem Krautrock é certamente a capa de Live in London, dos Amon Düll II. Um gigante insecto, trajado à tropa com o seu capacete germânico, a arrancar a torre do Londo Post-Office das suas fundações, enquanto discos voadores sobrevoam a cidade deixando resíduos.
Em retrospectiva, o Krautrock não era, nem sequer remotamente, 'hippy' na sua definição moderna e post-punk. Era altamente idealista e dura como garras. Esta Kosmische Musik era tocada por freaks pintados e de longos cabelos, cuja atitude nunca abndonou o idealismo ou as comunidades/colectivos dos meados dos anos 60. O coração do Krautrock estava também nas guitarras dos MC5 e na insurreição dos Black Panther em Detroit em 1969, para além do momento de pureza de Andy Warhol, em 1966, com Exploding Plastic Inevitable. Os Guru Guru até tentaram redimir a suástica, no LP epónimo, Guru Guru, pondo-a no centro da capa do disco, e revertendo-a num design de entrelaçado antigo, assim restaurando a suástica para a sua direcção original pacífica. (Foi um bravo idealismo mas, como The Swastika Redeemer, um artista Nova Iorquino contemporâneo que tatuou centenas de diferentes e antigas suásticas por todo o seu corpo, foi insuficiente para fazer esquecer memórias tão presentes ainda).
Mas o Krautrock pode apenas ser verdadeiramente definido em retrospectiva, pois muitos dos grupos apenas pretendiam captar o Momento. Há mais clássicos fantásticos estendidos a 20 minutos dentro das capas dos LPS do Krautrock do que na música Americana e Britânica de todos os tempos. E todos capas desdobráveis tipo space-punk, também. Os álbuns eram impossíveis de classificar quando saíam porque desafiavam análises baseadas em tudo o resto, a não ser no próprio Krautrock. E por todo o seu idealismo dos anos 60, a cena musical da Alemanha Ocidental nunca ficou parada - ela não suspirava por qualquer era dourada perdida e indefinida, mas constantemente mergulhava em novas formas musicais que apareciam e que adaptavam à sua maneira. Esta capacidade de assimilar todo o melhor do Novo, fez com que o Krautrock fosse uma forma de arte por direito próprio, e com estamina considerável. E tão poderoso como o termo Kraut permanece, é essa a conotação que os germânicos usam para a melhor marijuana.

Introdução: 

Eu fui um adolescente Krautrocker. Escrevo esta pequena história devido ao que sinto pela música, que é supremamente Mágica & Poderosa, e permaneceu Irreconhecida por muito tempo. O Krautrock não era tocado apenas pelas velhas bandas rock germânicas dos inícios dos anos 70. Ele foi uma Poderosa atitude Pre-Punk usado por uns quantos Pioneiros - o Ur-punk, aqueles que estiveram lá mesmo no início. O Krautrock foi o que o Punk poderia ter sido se apenas o Johnny Rotten o tivesse comandado - um tipo de Paganismo Freak com o LSD a Explorar-o-deus-em-ti-moldando-o-animal-na-tua Odisseia Gnóstica. Uma espécie dos bons Hawkwind sem a Ficção-Científica do dia do Juízo Final. O Krautrock foi obscurecido aos olhos do público, que não estava alertado para o que era tão Santo como os Stooges, Sun Ra e os MC5, todos no mesmo palco. Ou que era Cosmic-Fuck Rock transcendental tocado pelas Super anfetaminas Visionárias Poetas-Druídas, e teve sempre uma atitude-para-a-Lua!
Não tenho que procurar nos cantos mais bafientos da minha discoteca para obter esta informação - O meu Krautrock está todo junto, uma imensa quantidade dela, próximo dos LPs de Psicadélia, dos Sly e dos Funkadelic, dos LPs de Scott Walker - os trabalhos que são agora aceites como música clásica, mas que serviram para me etiquetarem de esquisito, freak, ou apenas mais um louco à solta. Não sou um completista, mas tenho apenas escrito sobre discos que possuo. E ao escrever este livro, inevitavelmente caiu sobre mim a necessidade de preencher alguns buracos na minha colecção, de modo que um novo revivalismo Krautrock teve lugar. Eu tive muitos revivalismos destes antes: em 1977, ao conhecer a cena punk de Liverpool; em 1984, quando conheci o meu então novo manager, Cally, um supremo discípulo do Krautrock; e mais recentemente, desde 1991, quando o meu técnico de guitarras, Rizla Deutsche pôs a tocar o Neu 2 no autocarro que usamos nas digressões. Aqui vamos nós de novo, pensei, e assim foi.
Quando decidi escrever este Krautrocksampler, em Setembro de 1994, foi surpreendente, mas não desconcertante, descobrir que aqui estava uma das Grandes e Nunca Contadas Histórias Visionárias. Li sobre aqueles belos artistas alemães do pós guerra e chorei. Se eu tivesse sido um jovem alemão dos anos 60 teria de tocar Krautrock ou morrer. De forma alguma eu poderia viver com o conhecimento que a geração dos meus pais havia lidado com um crime de proporções Bíblicas. Teria de me meter no Rock-para-Marte - que foi precisamente o caminho que o melhor rock Alemão escolheu. À medida que ia investigando esta música Altamente-mágica, descobri o óbvio. O Krautrock nasceu no grandioso vento de Este que soprou acima da raiva das cenas dos 60s Britânica e Americana.
O Krautrock ultrapassou isso e mais.
Porque tinha de ser assim.
Nesta mini-história, tento explicar quem eram estes heróis do underground Germânico, falando em tons de silêncio, mas nunca ouvidos pela maioria. Faust, Can, Neu!, Amon Düül I e II, Ash Ra Tempel, Tangerine Dream, Cluster, La Dusseldorf, Harmonia, Popol Vuh, etc., etc. Porque é que toda a cena rock 'n' roll da Alemanha Ocidental continua a fazer LPs de música ácida e estranha em capas de arte selvagem ao longo de toda a década de 70? E qual a razão porque um álbum normal de qualquer um dos grupos acima citados é melhor que qualquer dos melhores álbuns da música Britânica e Americana, excluindo apenas lendas como o "Sister Ray" dos Velvet Underground (que alguns fans do Krautrock considerá ligeiro em comparação com certas faixas que poderão ser consideradas, por exemplo, Ash Ra Tempel / "Amboss".) Esta pequena história tenta explicar as razões, mas nunca conseguirá explicar a música de uma geração-nação a trabalhar de forma completamente inesperada. Havia um fogo a queimar as almas da juventude alemã do pós-guerra, que de alguma maneira necessitava de ser, não apagada, não empurrada, nem incrementada com petróleo - mas, em vez disso, o fogo precisava de arder. E ardeu. Com uma intensidade que pode ter alterado todo o tecido do Ocidente, tenha ele tido lugar na Grã-Bretanha ou na América. Mas essa não era a natureza do fogo, e nunca foi. Em vez disso, somos presenteados com um legado da ousada juventude alemã, para fora do seu passado recente. E o Krautrock é isso - alguma da mais fantástica, evocativa, heróica do Homem no seu Expoente Máximo de Magia Artística.







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